domingo, 25 de março de 2012

Galáxias em Lince


Lince

Walter Scott Houston foi o autor da minha coluna favorita na minha revista de astronomia favorita durante varias décadas. Chamam-se, respectivamente, Deep Sky Wonders e Sky and Telescope.
Ele, repetidas vezes, falou que você deveria observar o céu que ia bem acima de sua cabeça: “Ao mover o telescópio para longe do zênite nós começamos a olhar através de mais atmosfera, poeira, poluição e outras coisas nefastas que não só escurecem, mas também reduzem o contraste e diminuem a quantidade de detalhes visíveis em objetos que já são tênues e difusos a principio.”.
Pois é exatamente isto que o Nuncius Australis pretende fazer. Como já é praxe tudo errado.
Vamos visitar hoje a constelação do Lince (Lynx). Uma constelação moderna. É importante esclarecer que quando falamos em constelações modernas nos referimos aos sec. XVII e XVIII. As mais antigas remontam a Mesopotâmia.
 Esta obscura constelação foi criada por Hevelius, um astrônomo e artesão polonês.  Em seu Prodromus (1690) ele lista a constelação como Lynx sive Tigris. Lince ou Tigre. Posteriormente em uma gravura em Firmamentum Sobiescianum ele se refere apenas como Lince. Dizem as más línguas que nem a constelação nem o desenho lembram a criatura. De qualquer maneira Hevelius sempre alegou que o nome fora dado porque ele acreditava que eram necessários olhos de Lince para observar suas apagadas estrelas.  Línguas ainda mais ferinas dizem que ele assim batizou a constelação para que ninguém esquecesse que Gassendi falou isto dele (que possuía olhos de Lince...) quando foi apresentado aos desenhos de seu mapa lunar.
Lince habita um “espaço vazio” entre Gêmeos, Auriga e a Ursa Maior. Desta forma é uma constelação que viaja baixa, próxima do horizonte norte, nas latitudes mais austrais.
Mas ela esconde diversos DSO´S muito interessantes e nem tão conhecidos. Estes são a razão de ser deste passeio pela pantanosa atmosfera que cerca a região.
Um dos objetos mais interessantes que vaga na região é um aglomerado globular que está aonde não deveria estar.  Ngc 2419. O Vagabundo Intergaláctico. Ele já foi apresentado aqui no Nuncius Australis e pode ser visitado aqui.
 Walter Scott Houston (de novo...) também nos ensinou  que ,apesar de suas estrelas apagadas, Lince é um celeiro para aqueles que gostam de caçar galáxias.  O Burnham´s Celestial Handbook lista nada menos que 13 galáxias em Lince. A maioria acima da 13ª magnitude.
Aqui vou apresentar apenas as que passeiam no extremo sul desta obscura região do céu e que se encontram ao alcance de telescópios amadores de no maximo 150 mm. 

A primeira e mais brilhante destas galáxias é Ngc 2683. Um farol em meio a escuridão que nos aguarda. Brilhando com mag. 9.3 esta espiral, de perfil para nós, apresenta a característica forma de um charuto. É importante ressaltar que para observa-la basta binóculo. Mas é importante que este esteja firmemente apoiado em algo.  O patrono deste post (Scott Houston) fala que binóculos que passeiam livres por aí vem algo como de  1 ½ a  2 magnitudes  menos que aqueles em tripés.
 Existem diversos registros da mesma sendo observada com telescópios de 60 mm. Eu mesmo já a capturei com meu 70 mm a 90x.   A melhor forma que encontrei para acha-la foi usando o “red dot finder” e fazendo uma triangulação usando Alpha Lince, Pollux (em gêmeos), e Iota Câncer. A seguir, em  céu suburbano, a percebo na buscadora 9x50 usando visão periférica.
Como quase tudo  foi descoberta por William Herschel. Em 1788.
As outras três galáxias que apresento são apadrinhadas pela mesma estrela.



Ngc 2793, 2832 e 2859 se encontram bem próximas a Alpha Lince. Com mag. 3.10 é a coisa mais brilhante nesta escura região.
Nenhuma das donzelas fica muito além de um campo ocular de Alpha com o uso de baixa magnificação.  Logo fácil de achar... Ver é outra história.
Vamos começar por Ngc 2859. Este é um daqueles DSO´s preguiçosos. Para localizar esta espiral que é a maior e mais brilhante do trio basta você centralizar Alpha Lince e esperar por 3 ½ minutos. O resto à rotação da terra faz por você.
Esta é uma galáxia abençoada e amaldiçoada por Alpha Lince. Então tente manter a estrela fora do campo ocular. O núcleo será facilmente percebido. Já os braços... Eu não vi. Mas existem registros onde foram percebidos com uso de visão periférica e telescópio de 100 mm (refrator).
 Também foi descoberta por William Herschel de novo em 1788. Me pergunto se não  na mesma noite que a anterior.
Ngc 2793 vai demandar céus mais escuros e pelo menos 150 mm. Fica a menos de 1º de a oeste de Alpha. Devido a seu pequeno tamanho é melhor caça-la a partir de Alpha com pelo menos 100 x de aumento.   Brilhando com 12.6 de mag.  eu gostaria de acreditar que a vi. Mas eu não acredito em fantasmas...
Esta é uma descoberta de John Herschel (o filho) em 1828
Ngc 2832 reside no limite maximo para observação com um 150 mm. Eu mesmo não a observei. Mas há diversos registros de quem o fez. Acredito que tenha que ir mais ao norte para ter esperanças. Com magnitude 13 é uma galáxia discreta.  Fica a menos de 1º de Alpha.
Outra descoberta de Herschel (Pai). Em 1785
.Recomendo Muddy Waters como trilha sonora para esta caçada. 

quinta-feira, 22 de março de 2012

O Cidadão e M 50



Segundo o “Pai dos Burros” cidadão é o habitante da cidade.  A história, evidentemente, é um pouco mais longa. Como a maioria das coisas remonta a  Grécia antiga. Lá havia várias cidades independentes, constituídas em Estados autônomos, que assim eram chamados por possuírem liberdade da administração pública e política. Cidadão era o habitante dessas cidades.Devido a essa origem histórica o termo cidadão muitas vezes foi apropriado pelos futuros citadinos.
   E assim nasce o conflito entre o campo e a cidade...
            Esta oposição permaneceu durante muito tempo e o preconceito permanece, ainda que de forma mais discreta até hoje. O habitantes do interior são muitas vezes considerados cidadãos de segunda e  chamados de termos pejorativos  e  considerados bichos do mato e ignorantes. Um terrível equivoco.
               Ainda mais se tratando de matéria celestial.
            Se você é um cidadão citadino  e vive debaixo de céus cheios de poluição luminosa e vazios de estrelas, a  tênue e enevoada faixa  do céu que é a Via Lactea , lhe é caelum incognitum.
            Já o cidadão “provinciano” a conhece  perfeitamente e vê claramente pequenos nós de luz  que a enfeitam.
            Mas o ignorante cidadão citadino possui neste pequenos nós um dos esteios para o astrônomo urbano. Um cidadão de poucos direitos...
            São  os aglomerados abertos.  Um tipo de DSO que se não  destaca-se como na província pelo menos sobrevive nas poluídas noites citadinas.
            Aglomerados abertos são também chamados de aglomerados galácticos. São grupos de estrelas que viajam juntas, pelo menos por enquanto,  pelos braços da Via Lactea.  
Assim seguindo-se a nossa galaxia, com o auxilio de um binóculo,vários destes serão percebidos.
Uma das partes mais ricas nestes adornos ao longo do rio galáctico corre através de Puppis , ao longo do Cão Maior e deságua em Monoceros. Essa região é pontuada pelos aglomerados abertos. Varios objetos Messier residem nesta área. M 47, M46, M93 e o convidado de hoje; M 50.

Localizado em Monoceros M 50 vai se apresentar ao pobre astrônomo citadino , especialmente com um simples binóculo, de forma muito semelhante a um pequeno cometa com algumas estrelas podendo ou não se resolver. Assim como Messier o viu. Ele era também um cidadão  e um citadino. E numa das cidades com maior poluição luminosa de seu tempo. Em céus rurais ele pode ser percebido a olho nu por olhos treinados.
Mas agora vamos deixar de lado esse papo de campo cidade e tratar de M 50.
M 50  é um aglomerado aberto que brilha com magnitude de 5.9 e que se situa  a 3.200 anos luz. Ele cobre uma área de aproximadamente 16´de arco.  Isto confere a ele uma extensão linear de aproximadamente 20 anos luz. Sua parte mais densa e central cobre apenas cerca de 10 anos luz.  O cidadão ( perdão...) tem cerca de 78 milhões de anos.
            Sua descoberta é disputada. Messier o descobriu de forma independente em 5 de Abril de 1772 do observatório de Cluny. Mas a fortes índicos de que ele foi primeiramente avistado por  G.D. Cassini   em 1711 de acordo com o relato de seu filho , Jaques Cassini, no livro “Os Elementos do Céu” de 1740. Há uma pequena diferença na posição mas não chega  a ser um absurdo.  Quando visto com telescópio,especialmente um  pequeno , a forma de um coração é bastante evidente.
            Localizar M 50 não é difícil. Localize Sirius ( a estrela mais brilhante do céu). Imagine uma linha que a ligue até Theta do Cão Maior ( visível mesmo no Rio de Janeiro). Agora siga neste rumo por mais um campo binocular ( 5º ) . M 50 estará  no seu campo de visão.
            Agora se voce achou M50 facilmente tente perceber também Ngc 2343 e 2335. Eles estarão dentro do mesmo campo com um 10x50 .  Boa sorte  cidadão.

segunda-feira, 19 de março de 2012

O Equinócio e a Volta da Lagoa




O Equinócio será esta madrugada (05h14min UTC) e isto marca o fim do nosso verão. E também do período que as caminhadas pela Lagoa Rodrigo de Freitas durante o fim de tarde são pratica constante. Mas agora outra Lagoa volta a se apresentar. E as noites serão cada vez mais longas...
Orion vai nos deixar.  Em breve o céu será dominado pela Via Láctea e o Escorpião que corre eternamente atrás do caçador.
Para os astrônomos boêmios a chegada do outono garante uma incrível quantidade de alvos. O coração da galáxia e toda riqueza do centro galáctico começa a desfilar pela madrugada sobre nossas cabeças austrais.  Sem falar nas galaxias de Virgem e Cia Ltda. para os que preferem horários mais amigáveis. Mas isto fica para outro dia.
            Logo atrás do Escorpião vem Sagitário. Um dos meus asterismos favoritos é a chaleira. Se você possui um horizonte leste desimpedido o chá começa a ser servido por volta de 00h30min durante este mês (março). Cada dia um pouco mais cedo. E a fumaça da Via Láctea se torna mais densa a partir do bico da chaleira, que é marcado pela estrela Gama do Sagitário (Alnasl ou Nash). Em meio a essa bruma e seguindo-se a trilha leitosa que parte daí e se espalha ao norte da estrela Lambda do Sagitário (Kaus Borealis) você vai perceber um pequeno brilho. Como um candeeiro visto a longe em uma noite nublada. Trata-se de M8. A Nebulosa da Lagoa.
            M8 é uma joia pendurada Via Láctea, visível a olho nu de céus moderadamente escuros, que deve ter sido percebida desde a antiguidade. Curiosamente não existe nenhuma referencia a ela na antiguidade clássica e seu primeiro registro conhecido remonta ao ano de 1654 no obscuro catalogo escrito pelo astrônomo italiano Giovanni Batista Hodierna: De admirandis coeli caracteribus.
Hodierna
            É neste momento que a história da nebulosa da lagoa começa e já começa “equivocada”.
Hodierna dividia seu catalogo em três categorias:
Luminosae: estrelas visíveis a olho nu
Nebulosae: estrelas nebulosas a olho nu, mas que se resolvem com telescópios.
Ocultae: estrelas que não se resolvem nem mesmo com o uso de telescópios.
            Hodierna inclui a Lagoa na categoria de objetos que parecem nebulosos a vista desarmada, mas que se resolvem em estrelas com o uso de um Telescópio. O telescópio de que dispunha o pioneiro astrônomo era um refrator muito simples com aumento de 20x.
            A confusão tornou-se ainda maior com Flamsteed que redescobrindo o objeto quase 30 anos depois o descreveu simplesmente como “nebulosa”. E em sua Atlas Coelestis, de 1729, ele não indica nenhuma nebulosa na região embora indique a presença de estrelas (7 e 9 do sagitário).
            Estas fazem parte Ngc 6530, o aglomerado aberto que é envolvido por M8.
            O título da Lagoa continua em disputa com as observações de Cheseaux que durante seu levantamento das nebulosas indicadas por Flamsteed considerou a Lagoa da mesma forma que Hodierna.
            E até mesmo Messier fica na duvida: “Um aglomerado de estrelas que parece uma nebulosa que quando observado com um simples refrator de 90 cm se vê somente um grande numero de fracas estrelas. Perto deste aglomerado há uma estrela que é razoavelmente brilhante (9 do Sagitário), circundada por um brilho bastante fraco”.
            A confusão seria até normal não fosse que tanto a nebulosa como o aglomerado podem ser percebidos a olho nu. E que a nebulosa se sobressai claramente no conjunto.
            A maior possibilidade é que os primeiros observadores foram vitimas de preconceitos e da tecnologia de sua época.
            Depois que Galileu resolveu a Via Láctea em estrelas através de seu telescópio diversos dos observadores dos séculos XVII e XVIII, adotaram a crença de que nebulosas seriam sempre aglomerados de estrelas que os telescópios haveriam de resolver se possuíssem suficiente abertura. Foram vitimas da empolgação com o novo equipamento.
            Acrescente ainda as visões imperfeitas destes telescópios primordiais, com óticas grosseiras e campos de visão bem estreitos e você tem uma formula perfeita para fazer nebulosa desaparecerem enquanto “brota” um aglomerado.
            Mesmo com meu telescópio percebo claramente que quanto maior a ampliação que busco (e consequentemente menor campo) mais obvio se torna NGC 6530 e menos eu percebo a Lagoa propriamente dita. E se passaram 358 anos desde que Hodierna apresentou a Lagoa a sociedade. Não se trata exatamente de uma debutante...
            Outra observação é fundamental de ser lembrada.
            Nicolla Louis de Lacaille, o Abbe Lacaille, que com um pequeno refletor de apenas 12,5 mm e com aumento de 8X descreveu a Lagoa assim: “Três estrelas incluídas numa trilha de nebulosidade.” E o Inclui na categoria III de seu catalogo. Estrelas Nebulosas.
            A Lagoa não deu descanso mesmo no século XX. E em uma espécie de reviravolta histórica ele ainda causou confusões no atual cataloga NGC. Kenneth Glyn Jones , sem seu livro clássico , The Search for Nebulae diz que Flamsteed descobriu apenas NGC 6530 , como já disse . Mas então vem mais lenha para fogueira e Brent Archinal E Steven Hynes alegam em seu Star Cluster (2003) que o aglomerado deveria ter sido catalogado como NGC6523 juntamente com a nebulosa em si. É o mesmo objeto.
            Não perca a oportunidade de dar uma volta pela Lagoa e tirar suas próprias conclusões.
Você acha consegue separar nebulosidade de M8 e seu aglomerado? E observar o conjunto com Binóculos?
             A Lagoa continua fascinante e a madrugada é sempre um bom momento para se observar DSO´s.
           

quarta-feira, 14 de março de 2012

Ngc 2392- A Nebulosa do Eskimó


Nebulosa planetárias  são, em geral, objetos com alto brilho de superfície . Desta forma se tornam amigas do astrônomo urbano. E gostam de grandes magnificações.
Nos estágios finais da vida de uma estrela , quando a maioria dos elementos leves em seu núcleo já se tornaram elementos mais pesados pelo processo de fusão que faz as estrela brilharem , a temperatura e a pressão começam a oscilar.  Conforme ela começa a ficar sem combustível nuclear a mesma começa a se expandir e encolher. Este "estica e puxa" acaba a levando a um grande colapso que libera energia suficiente para que esta cuspa suas camadas mais exteriores pelo espaço afora. Este envoltório de gases formam uma nuvem fria e que se expande ao redor do núcleo da antiga estrela que agora se tornou uma anã branca. 
O gás da nebulosa brilha por ser irradiado pela estrela central. Apresentam uma grande diversidade de formas.E sua cor é uma mistura  de verde e vermelho. Como nossos olhos não registram tão bem o vermelho elas em geral parecem pequenos discos esverdeados em observações visuais com pequenos telescópios. Estas nebulosas foram observadas pela primeira vez nos fins do sec.XVIII mais ou menos no momento que Herschel descobriu o pequeno disco esverdeado que é o planeta Urano. Como ambos se assemelham na ocular foi cunhado o termo "nebulosas planetárias". Que fora sua aparência não tem nada em comum com planetas.

Ngc 2392 foi um DSO que me deixou muito feliz em observar. Foi o ultimo objeto da listagem de objetos descritos em " Turn Left at Orion" -para o período do verão ( no capitulo inverno , pois como sabemos livros de astronomia sempre acreditam que voce habita o hemisfério norte...)- que faltava para eu completar esta parte do livro.  Portanto uma conquista. 
È uma nebulosa bastante brilhante e que resiste a grandes magnificações e também a poluição luminosa. Avistei a mesma do Rio de Janeiro. Com 120 X percebi de forma muito discreta sua estrela central. Esta pode ser vista a com  telescópios de pelo menos 150mm. Sua coloração esverdeada é obvia mesmo em telescopios mais modestos. As feições de eskimó que a batizam só se apresentam com o uso de grandes telescópios ou em fotografias. Ela também responde pelo apelido de Nebulosa Cara de Palhaço. Tentei 240 x mas aí o seeing não suportou. Mas acredito que em um dia mais estavel seja possivel conseguir tal magnificação.
Palhaço ou Eskimó?

Para observar 2392 localize a constelação de Gêmeos e seguindo o gêmeo que tem Pollux como cabeça localize Wasat ( Delta de Gêmeos). Centralize a buscadora ali e você vai perceber um pequeno triangulo de estrelas a sudeste desta. Se trata de 63 Geminorum. Centralize ali buscadora. Ngc 2392 vai estar a menos de um grau ao sul desta. Portanto dentro do campo de uma ocular wide field. A nebulosa vai parecer uma estrela azul esverdeada fora de foco ao sul de uma outra estrela. Agora parta para uma ocular com maior magnificação e sua natureza vai se revelar. Apesar de sua magnitude ser listada com 10 ela apresenta alto brilho de superfície e é menos timida do que sua magnitude poderia indicar. 

Localizada a aproximadamente 3000 anos luz a nuvem de gás tem algo como 40.000 unidades astronômicas de diâmetro e  esta se expandindo em uma taxa de 20 UA  por ano. Podemos daí acreditar que a nebulosa tenha menos de 2000 anos sendo assim uma das nebulosas planetárias mais jovens que se conhece.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Alinhamento Polar - Hemisfério Sul



    A prática da astronomia amadora é uma grande brincadeira. Dizem que a maior diferença entre os homens e os meninos é o preço de seus brinquedos. Bem como a complexidade dos jogos. E conforme você vai se desenvolvendo na astronomia suas aspirações vão se tornando cada vez maiores. E conseqüentemente vai chegar o dia que você vai ter que passar por um rito de iniciação. Ele se chama alinhamento polar...

    Para observação visual você não precisa de um alinhamento polar de sua cabeça equatorial muito preciso. Utilizando o Cruzeiro do Sul e prolongando seu eixo mais longo (entre Gacrux e Acrux) por quatro vezes você vai ter um alinhamento aceitável. Sobretudo se você souber qual a sua latitude ( o Goggle Earth pode lhe dizer onde você se encontra). A “altura” do pólo em relação ao horizonte é sempre a sua latitude.        Assim apontando para o prosseguimento do cruzeiro e colocando a cabeça regulada para a sua latitude você terá um alinhamento satisfatório para a observação visual. Uma bussola também ajuda. De preferência uma digital que lhe indique o norte verdadeiro. Isto vai servir para a brincadeira até que você resolva aumentar as expectativas. Finalmente chegará o dia que você vai resolver tirar fotos de seus passeios pelo espaço. E aí...

     Para a realização de astrofotografia o alinhamento polar tem que ser muito mais preciso.

    O chamado método do Drift é a forma mais precisa para se realizar o serviço. O procedimento é simples, mas demanda algum tempo e paciência. Inicialmente muito tempo e muita paciência.

    Primeiro faça como descrito acima e aponte para o pólo de uma maneira “tabajara”. Usando o Cruzeiro , a bussola e a latitude.

    Depois localize uma estrela que esteja próxima ao equador celeste (procure em um atlas para saber onde esta o equador celeste) e que esteja apontando para o Norte (+- 5º), ou seja, para o lado oposto ao seu alinhamento “tabajara”. Coloque uma ocular de 10 mm ou menos. Se você possuir uma ocular com reticulo, melhor ainda. Se você a possui coloque a estrela na cruzeta. Caso não possua coloque a estrela no canto norte ou sul da ocular e desfoque levemente. Ligue seu clock-drive. Ignore qualquer deslocamento no eixo leste – oeste.

     Se a estrela se desloca para o norte, o eixo polar esta muito a leste.

    Se a estrela se desloca para o sul, o eixo polar esta muito a oeste.

    Mova o eixo polar de forma a corrigir o deslocamento.

    Agora procure por uma estrela que esteja baixa ao leste e próxima ao equador celeste.

    Se a estrela se desloca para o norte, o eixo polar esta muito baixo.

    Se a estrela se desloca para o sul, o eixo polar esta muito alto.

    Novamente ajuste a cabeça de acordo com a sua necessidade.

    Agora repita tudo novamente até que não haja mais nenhum deslocamento.

    Quando isto acontecer você estará com um alinhamento polar digno para a pratica de astrofotografia.

    Caso o seu horizonte leste esteja bloqueado use o horizonte oeste e onde você le “muito alto” leia “muito baixo” . E vice versa

   E se você estiver no hemisfério norte da Terra aponte para a estrela polar para começar e depois substitua a palavra “sul” pela palavra “norte”.


sábado, 3 de março de 2012

O Maior Buraco Negro, Abell e Ngc 3842






No dia 5 de dezembro de 2011 um time de astrônomos liderados por Nicholas McConnell da Universidade de Berkeley na Califórnia anunciou a descoberta dos dois maiores buracos negros já conhecidos. O maior deles habita o coração de NGC 3842. O monstro possui uma massa de mais de 10 bilhões de sóis. Aiiii!!!

Este habita o coração de uma galáxia elíptica no coração do aglomerado de galáxias conhecido por Abell 1367. Esta é uma semelhança com seu irmão apenas um pouco menor. Que também habita o coração de uma elíptica que também esta no centro de um aglomerado galáctico (Ngc 4889).

3842 é a eliptica mais brilhante
Ngc 3842 foi observada pela primeira vez por Herschel (pai) em 1785 assim como diversas companheiras do aglomerado.

George Ogden Abell (Março 1, 1927 – Outubro 7, 1983) foi um astrônomo na UCLA. Trabalhou como astrônomo pesquisador, professor, administrador< Foi também um grande divulgador das ciências e cético famoso. Ele iniciou sua carreira astronômica como um guia de visitas do Observatório Griffith em Los Angeles.

Seu trabalho mais conhecido faz parte de sua tese de doutorado e levou a elaboração do Catalogo Abell de Aglomerados Galácticos.

Um pouco de ctrl c + ctrl v se faz inevitável:

Para figurar no catálogo, um aglomerado deve satisfazer quatro critérios:

• Riqueza: um aglomerado deve ter pelo menos 50 membros em uma faixa de magnitude entre m3 e m3+2 (onde m3 é a magnitude do terceiro membro mais brilhante do aglomerado). Abell dividiu os aglomerados de acordo com seis grupos de riqueza, dependendo do número de galaxias do aglomerado que têm magnitude entre m3 e m3+2:

o Grupo 0: 30-49 galáxias

o Grupo 1: 50-79 galáxias

o Grupo 2: 80-129 galáxias

o Grupo 3: 130-199 galáxias

o Grupo 4: 200-299 galáxias

o Grupo 5: mais que 299 galáxias

• Compacidade: um aglomerado deve ser suficientemente compacto tal que cinqüenta ou mais de seus membros estejam dentro de um "raio de contagem" a partir do centro do aglomerado. Este raio, atualmente chamado "raio de Abell" é definido como 1.72/z minutos de arco, onde z é o desvio para o vermelho do aglomerado, ou como 1.5h−1 Mpc, onde se adota que a constante de Hubble valha H0 = 100 km s−1 Mpc−1, e h é um parâmetro adimensional que usualmente toma valores entre 0.5 e 1. O valor precisodo raio de Abell depende do valor adotado para o parâmetro h. Para h = 0.75 (o mesmo que considerar H0 = 75 km s−1 Mpc−1), o raio de Abell vale 2 Mpc.

• Distância: um aglomerado deve ter desvio para o vermelho nominal entre 0.02 e 0.2 (i.e. velocidade de recessão entre 6000 e 60000 km s−1).

• Latitude galáctica: Áreas do céu na vizinhança da Via Láctea foram excluídas do estudo porque a densidade estelar nesses campos — sem mencionar a extinção interestelar — dificulta a identificação de aglomerados ricos de galáxias.

Depois de este rápido tour pela Wikipédia vamos ao que importa. Como observar Ngc 3842. Não é uma tarefa das mais simples, mas é possível para um astrônomo amador com um telescópio de 150 mm. Na verdade ela vai testar todo potencial deste.

A nossa presa é a galáxia mais brilhante de Abell 1367 e com magnitude de 12.5 se encontra no limite superior de um telescópio de 150 mm e mesmo um de 200 vai ter tempo ruim pela frente. Desta forma tente este feito de um local com o céu bem escuro e use todas as técnicas que você conhecer para que esta mostre sua cara na ocular... (visão periférica, balançar o telescópio, ficar com os olhos fechados durante dois dias e etc...)

O que você vai ver será bastante modesto, mas o imenso interesse cosmológico que ela carrega vai valer o esforço. No meio daquela tênue luminosidade se esconde o maior buraco negro conhecido.

A navegação até ela começa pelos quartos traseiros do  Leão e partindo de Denebola ( Beta Leo) localize 93 Leo. Brilhando a 4. 5 de magnitude e com você no breu que a missão demanda vai ser bem fácil.


Depois calce a sua ocular com o maior campo e  a menos de 1 grau da estrela Ngc 3842 será (em tese) a única galáxia que você perceberá no aglomerado. Todas as outras se encontram acima de 14ª mag.


O uso de um telescópio com maior poder de fogo será de grande valia.

Segundo Gottlieb, observando com um telescópio de 300 mm, ela se apresentará moderadamente brilhante, moderadamente grande, com um núcleo mais brilhante e com diversas companheiras... (Ainda vou ter um dobsoniano grandão só para falar coisas assim...)

Mas não desanime. Existem controvérsias e encontrei referencias que diziam que a dama brilhava com magnitude de 11.8. E tem o Stellarium. Este lista ela como 13ª mag.

Ai, se eu te pego...

Quanto a ver o Buraco Negro esqueça. Como sabemos nem a luz escapa da besta e no mundo da astronomia amadora só a luz visível ( perdão) é visível. Já apresentei este pequeno problema em outro post...

P.S. A quem interessar possa o Saguaro Astronomy Club oferece este site com referencias para amadores que queiram caçar aglomerado galacticos do nosso camarada Abell... Ele lista os que estão ao alcance de nós ... ou quase.