segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O Falso Cruzeiro


               

              A primeira constelação que aprendi a reconhecer foi o Cruzeiro do Sul. E assim achei que nunca mais ia me perder. A segunda não era uma constelação. A Falsa Cruz, ou o Falso Cruzeiro, é um asterismo formado por estrelas de Carina (Quilha) e Velorum (Vela).  E assim aprendi que se perder pode ser bem fácil.

            O Falso Cruzeiro é maior e suas estrelas são menos brilhantes que as do original.  O truque para não confundi-los é procurar pelas brilhantes estrelas Alpha e Beta Centauro. Estas apontam para o Verdadeiro.
            O Falso Cruzeiro é formado por (ordem de magnitude) Delta Velorum, Avior (Épsilon Carina), Aspidiske (Iota Carina) e Kappa Velorum.
            Delta Velorum é um sistema múltiplo. Sua componente A tem uma magnitude aparente de 1.97 e sua companheira B tem uma magnitude de 5.5. Seu período orbital é de 142 anos. A estrela A seria ainda uma dupla espectrográfica e assim o sistema se mostra bem complexo. Delta Velorum é a mais brilhante binária eclipsante conhecida.
            Sua estrela principal já abandonou a sequencia principal e possui 2.5 a massa do sol e é 56X mais luminosa que o Sol.

Avior

            Avior (Épsilon Carina) é um sistema duplo. Seus componentes são separados por 0.46´arcsec. Em tese ao alcance de telescópios de 250 mm segundo Dawes e de um pouco maiores segundo Rayleigh.  O mais interessante sobre Avior é que seu nome, apesar de toda a pompa, não é clássico em sua origem. A estrela foi escolhida, no final dos anos 30, pela RAF (Royal Air Force) como uma das estrelas guias de seu Air Almanac. Das 57 estrelas escolhidas apenas duas não tinham nome. E assim, por vontade de sua Majestade, Épsilon Carina virou Avior e Alpha Pavo virou Peacock...
            Aspidiske por sua vez é grego e vem desde a antiguidade. E a estrela é batizada “Scutulum” em latim e “Turais” (تُرَيْس) em Arábico.   Todos estes nomes significam “escudo”. É uma estrela de magnitude 2.2 e é uma estrela super gigante (Tipo A9). Esta situada há 690 anos luz de nós.  Iota Carina vai ser a Estrela Polar sul por volta do ano 8100.
            E finalmente vem Kappa Velorum, que responde (às vezes) também pelo nome Árabe de Markeb. Isto pode ser traduzido como “Algo para se montar”. Trata-se de uma binária espectrográfica que nunca foi resolvida. Se orbitam em cerca de 116 dias e o par se apresenta sob o tipo B2 IV. Uma subgigante que já consumiu o hidrogênio em seu núcleo.  Markeb substituirá Aspidiske e será a Estrela Polar Sul em 9000.
            Mas o mais interessante sobre a Falsa Cruz é que ela traz dentro de seus campos estelares alguns dos mais belos aglomerados abertos que vão se apresentar no horizonte Sul durante o verão.  E isto quer dizer que ,no Observatório  do Nuncius Australis , serão as estrelas da temporada. E, como bons aglomerados abertos, isto significa um monte de estrelas... O Horizonte sul é o mais protegido da poluição luminosa .

            Vamos então tratar dos DSO´s que cercam o Falso Cruzeiro e tentar não se perder em tantas possibilidades.

10x15sec 

            Ngc 2516 é conhecido também pelo apelido de “Aglomerado do Diamante” por seu brilho. É facilmente percebido a olho nu no prosseguimento do eixo maior da Falsa cruz. Junto a Avior.  O aglomerado cobre a mesma área que uma lua cheia e brilha com 3.8 de magnitude.  Deve ter algo como 135 milhões de anos e já apresenta algumas estrelas gigantes vermelhas. É um aglomerado bem colorido e com diversas duplas. É uma descoberta original de Lacaille em sua viagem para a Cidade do Cabo em 1751-52.

IC 2391 10X 15 sec 

            Seguindo no sentido anti-horário chegamos a Delta Velorum e logo ao lado você perceberá Omicron Velorum. Ele é o membro mais brilhante de IC 2391. Este foi o primeiro DSO que eu “descobri”. E assim um eterno favorito. Ele me lembra da constelação boreal de Cassiopéia e o chamo carinhosamente de “Little Cassiopéia”.
            Antes de mim descobriram o aglomerado Al-Sufi por volta de 964 e o Abbe Lacaille novamente em sua viagem (1751-52). Com a magnitude de 2.5 e com cerca de 30 membros ele se esparrama por 50´. O aglomerado é um jovenzinho de 50 milhões de anos.

DSS

            Bem próximo, a menos de 1´, se esconde de forma mais discreta NGC 2669. Com apenas 12´ e brilhando com magnitude 6.10 este é uma pequena joia e demanda mais atenção para ser observado. E também céus mais escuros.  Este é um desafio para astrônomos urbanos e nunca o vi com menos de 150 mm.  Este é uma descoberta de 1834 feita por John Herschel (o filho) e existem relatos de ter sido percebido a olho nu por AL-Sufi. Seria um feito incrível...
            Outros achados de John Herschel, na contramão do belo Ngc 2516, habitam o prolongamento do eixo maior da Falsa Cruz. Ou seja, próximos a Kappa Velorum. Um é Ngc 2910. Pequenino com apenas 5´deextensão ele é desafio para binoculos e pequenos aumentos . E tem como vizinho Ngc 2925que com 12´é maior, porém mais tênue. Avistar ambos no mesmo campo (ou quase...) é um desafiobinocular para céus bem escuros.


            Junto a Aspidiske você irá localizar a bela e avermelhada estrela N Velorum. E logo a seu lado reside outra descoberta do Abbe Lacaille. IC 2488. Ao contrario do que se pensa o Index catalog elaborado por Dreyer também apresenta alvos para amadores com pequenos telescópios. Não muito, mas este é um deles. Magnitude 7.0 e com 15´de tamanho este DSO é um belo alvo emoldurado por N Velorum. E foi descoberto e redescoberto muitas vezes . El responde também pelos nomes: Lacaille III.4 , Dunlop 330, Mellote 97 e Collinder 208.


            O Falso Cruzeiro é uma região riquíssima da Via Láctea e existem ainda diversos outros DSO´s a serem explorados na região. Espero que essa introdução sirva como um guia útil. 

2 comentários:

  1. Eu compartilho da mesma experiência! Demorou algum tempo para eu me acostumar, mas depois com a prática consigo diferenciar em uma boa! Aliás, bom texto!

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  2. Apesar de não existir em sistema de constelações o falso cruseiro é um ótimo asterismo para se conhecer regiões em q se localizam várias nebulosas e aglomerados,assim como dizia Alberto Delerue em seu livro "Rumo às estrelas" - "O céu é como uma cidade, primeiramente devemos conhecer as praças, os bares e outros lugares interressantes para q possamos adentrar em uma verdadeira jornada nas estrelas" - sem dúvida é bom termos muitos asterismos em conhecimento !

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