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sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Back in Black: Aporema de Verão 2020 1a parte

 


                    2020 foi um ano triste. Quase não escrevi. Provavelmente fui tomado pelo espírito sombrio que anda por Sucupira e os textos do Nuncius costumam ter muitas palavras. Mas finalmente criei coragem e mesmo sendo acusado de ser comunista por muitos ex-amigos achei melhor dar as palavras o seu verdadeiro significado e através de um site comunista que faz seu dinheiro sem possuir um metro quadrado de terra aluguei minha casa (própria) a preço de ouro para outros comunistas que pagaram em dólar e com isto fui exercitar meu comunismo nas terras de José Eustáquio. Nada é mais comunista que observar estrelas na Armação dos Búzios e depois contar a história. Aliás História é uma matéria desnecessária e perigosa. Tão inútil como a filosofia.  Deve ser culpa de um jesuíta (comunistas ferrenhos...) que disse: As palavras hão de se fazer estrelas. Se chamava padre Antônio Vieira e foi anterior a Silvano Silva e seu Catálogo JESS de objetos estelares. Seu busto vigia a entrada da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.  Alis Gravis Niu. Com asas, nada é pesado.

                Dessa vez a Aporema (festa pagã e de origem indígena. Uma coisa horrorosa de se comemorar nos ideológicos dias atuais ...) seria de caráter binocular e fotográfico. Afinal, nós comunistas, descobrimos que a qualidade ótica das lentes da Pentax é infinitamente superiora aos espelhos made in china... E assim partimos eu, a cara metade e as crianças (uma já não mais tão criança, mas ainda a ponto de saber tudo), minha buscadora 10X50 mm e um velho Vanguard 10X50mm para iniciar nossa quarentena na segunda onda da série. Primeiro em Búzios e depois em Lumiar. O Rio de Janeiro foi tomado pela ignorância e é o maior centro de contágio de COVID no mundo.

                Chegamos e o tempo se encontrava fechado. Mas finalmente o vento nordeste bateu forte e na noite de 14 para 15 de dezembro lá estava eu, com meu novo intervalometro (made in china) pronto para fotografar. Uma tremenda mão na roda. Nada mais de ter que montar o computador do lado de Mlle. Herschel (minha montagem equatorial HEQ5. Também Made in China. Esses comunistas de olho puxado são fodas...); é só colocar a câmera em modo bulb, informar o tempo de exposição, intervalo das fotos e quantas fotos você deseja e o resto acontece sozinho.

                Realizei o alinhamento polar através de   meu método patenteado e utilizando Achernar como estrela guia. As 19:49:49 eu tinha o telescópio alinhado.  Coloquei a 300 mm na câmera e essa montada em Mlle. Herschel. Apesar de ter a impressão de que a noite ainda estava bem enevoada decidi tentar caçar por nebulosidades. As Hiades serviram apenas como um teste para o alinhamento e para checar a precisão do Go-to. Afina utilizei o menu de “1 star align”. Acreditava que meu alinhamento polar estava preciso. Com a cabeça checando quase cravada na Hiades vi que estava certo. Uma das vantagens de utilizar uma lente 300 mm em vez de um telescópio com 1200 é que a precisão e o acompanhamento se tornam bem mais fáceis. Percebi que poderia utilizar 1 minuto de exposição. Mas exposições muito longas, as vezes, sofrem muito com a poluição luminosa. Acabei decidindo por exposições de 45 segundos apenas. Da Hiades passei para as Plêiades. Só alvos fáceis. Depois achei que era hora de tentar acertar as contas com a Nebulosa da Roseta. Ngc 2244. Um alvo lindo e que nunca havia fotografado. Só iria saber se ia conseguir extrair a Roseta depois de revelar as fotos...

                Depois de mais de 50 exposições achei que era hora de tentar uma vizinha famosa. A Cabeça de cavalo. Essa já registrei. Mas quero tentar com mais aumento. No passado a registrei com uma lente de 75 mm junto com toda banda sul de Orion. Dessa vez, com a 300, espero detalhar mais a região. O Synscan dá uma vacilada e acabo fazendo algumas fotos da área da espada de Orion. Uma rápida correção e estaciono Alnitak e Alnilam no visor e volta a derrota planejada.

                Outra aquisição que fiz foi mais uma bateria para a minha câmera.  Com isto as noites têm rendido mais.

Depois das capturas fui para o processamento. Meu sensor está imundo. E a Roseta ficou muito aquém do esperado. Há nebulosidade. Mas os filamentos e cores que eu sonhava não comparecem. Vai voltar para a prancheta. A previsão é que dia 17 será a noite mais limpa de todas. Vou gastar inteira no projeto. As duas baterias...  Mas como astrofotografia é a melhor diversão processo todas as fotos engorduradas do sensor e aqui apresento.  Não sei se vou postar o Time Lapse que fiz ( Postei...). Mas neste fica evidente a grande quantidade de nuvens altas que se disfarçavam de escuridão para mim, mas se apresentavam para o CMOS da Canon.  Astrofotografia é meio como fotografia com película. Você só sabe mesmo o que fez depois de “revelar”.


Plêiades e Hiades -28 mm f4 12 X 45 seg



Roseta borrada... 5X 55 seg 300 mm f 4


               

Horse head- desastre total... Muitas fotos em vão...

             Na noite seguinte já sabia que não seria grandes coisas. O dia inteiro com cirrus passeando sobre minha cabeça. Decidi brincar com constelações. Primeiro tento o organizar uma reunião de beldades e fotografar as Hiades e as Plêiades no mesmo recinto. Depois seu famoso assediador Orion. e depois seu Cão Maior. Deu ..., mas nada espetacular. Loop de Barnard nem pensar. Tentei ainda fotografar algumas das estrelas famosas da constelação, mas o tempo nublou de vez. Meissa teve que esperar. Há anos quero tirar uma foto decente da cabeça do caçador. Afinal é um sistema múltiplo e um aglomerado Collinder.

                Mesmo com a forte nebulosidade brinquei por horas com meu binoculo 10X50. Há anos não fazia uma sessão binocular. E assim meu filho conheceu as Hiades, As Plêiades e toda coleção de maravilhas em Orion. Um dos melhores campos para se viajar com um binoculo. Ainda tirei alguma água de pedra percebendo o Aglomerado de Rosse em Lepus. Aglomerados globulares são um divertido exercício observacional com binóculos. Pequenas estrelas que se negam a fazer foco e que com atenção revelam sua natureza. Vi ainda M 41 e outros Ngcs pela região.  Depois vim contar a noitada para vocês e processar o que capturei. Astrofotografia é a melhor diversão. Mesmo quando não revela muita coisa... Nesta noite usei apenas a 18 =50 que acompanha toda DSLR da Canon. Kit mais básico de sobrevivência em campo...Quando coloquei a Canon 70 -300 (outra pé de boi) o tempo babou geral...

A Espada de Orion. O melhor da Noite. !2 X 45 seg

A Estrela Foragida

Rising Canis major

Rising Orion - 28 mm.O sensor todo pintado de gordura...

Star trail para enganar o tempo...


                No outro dia processei tudo. E sem grandes novidades descobri uma interessante estrela escondida em lepus. Bom de se fotografar imensos campos estelares é que sempre surgirão novidades após apresentar a foto ao Astrometry. Essa é a “Runaway star”. A estrela fugitiva. Ainda nada sei sobre a foragida, mas, em breve, contarei novidades por aqui.

 O Dia promete. É a primeira manhã que não vejo um cirrus decorando o topo do céu. As 15:00 horas percebo leve nebulosidade, mas nada semelhante aos dias anteriores. Rapidamente compro a cara metade e a filha mais velha. Deposito uma grana para a esposa e dou 50 pratas para a filha e aviso que essa noite elas vão sair as 17:00 horas e só podem voltar depois das 22:00. Tem a ingrata missão de dar um rolê sem se aglomerar. Proponho que se enfurnem no Porto da Barra e se escondam em uma mesa no deck do Bar do Gordo.

Lógico que as coisas não correm como o previsto. O tempo fecha completamente as 17:00 horas, a madrinha da minha filha, que é também a amiga mais pé de cana da cara metade aparece e acabo eu e o meu pequeno indo parar escondidos numa mesa do Bar do Gordo para comer pastel e tomar cerveja. Ela rapidamente arruma uma amiguinha e eu fico de papo com um casal de aposentados. Mantendo uma distância segura.  Melhor que aturar o papo de maluca da doida que baixou lá em casa. Seu projeto para o dia seguinte incluía ir dar um mergulho na Praia dos Ossos e depois visitar o tumulo de um amigo morto no cemitério que fica junto da Igreja que divide a paria do canto da Praia dos Ossos. Muito bucólico...

 Ao voltar para casa o tempo começa a abrir e eu resolvo ficar brincando com minha buscadora com as luzes acesas e as meninas enchendo a cara. Por incrível que pareça começo a achar um monte de abertos espalhados pelo céu e a região de Orion está espetacular. Era a melhor noite até o momento. Contrariando tudo que já foi falado e escrito consigo realizar um belo tour astronômico e ainda realizo registros aceitáveis de tudo que observei pela buscadora com luzes acesas e bar funcionando. As fotos da noite acabam sendo um belo exemplo do que você consegue observar com uma buscadora 10X50 em céus com Bortle entre 6 e 7.  Bortle é uma escala de poluição luminosa. Ao localizar um exemplar do “O Sul Profundo: O Catálogo Lacaille” na mesa da sala começo uma pequena Maratona Lacaille com resultados bem aceitáveis. Os objetos de Lacaille são bem brilhantes e excelente ideia para noites não tão generosas. Certamente o filé mignon do céu austral.

                Nem tudo são rosas. Mlle. Herschel apesar de estar centrando todos os alvos começa a fazer manha.  Realizo todo o procedimento de alinhamento do go-to pela rotina de “1 Star Align”. Ela vai lá e crava o objeto buscado. Depois de minutos fotografando esse (sempre 12 X 50 segundos) e peço para ela se encaminhar para outro alvo. Nada acontece. A cabeça não se move apesar do hand controler me dizer que o movimento está acontecendo. Desligo a cabeça e refaço todo o processo e tudo dá certo de novo. Aí faço as fotos e novamente o mesmo problema. É um saco ter que informar tudo de novo para o Synscan. Especialmente a hora com precisão de segundos. Isto acontece umas cinco vezes. Já começo a me irritar quando do nada ela começa a funcionar normalmente e com precisão incrível. Vai entender que se passa pela cabeça de uma mulher...

                Já mais de madrugada consigo inclusive perceber M 35 a olho nu. Sinal de dia ensolarado. M 44 também é um gradiente evidente.  A essa altura já tinha apagado luzes, fechado o botequim e colocado os “pés inchados” todos para dormir...

                Dia 17, segundo a previsão seria o mais promissor para a observação. Mas amanhece bem nublado e fica assim o dia todo.  M 35 e a previsão do tempo parecem ter sidos enganados por algum bater de asas de borboleta na Tailândia. Aproveito para levar o pequeno para dar um mergulho em Manguinhos e contar tartarugas marinhas. Vimos 8. E chegamos bem perto de 2 delas em um demorado mergulho. Depois Anchova na brasa e venho escrever as linhas que vocês estão lendo e tratar as fotos da noite anterior. Nada mal para uma noite “perdida”. 11 DSO`s ... M 41 em bela composição com Sirius, M 47 e 46, M 93, Ngc 2516, 2451,2477,3228, IC 2391, 2488 (todos membros do catálogo Lacaille) e de lambuja M 35 e 44.

                Todas as fotos são resultado de 12 exposições de 50 segundos iso 1600 com a 70-300 mm @5.6 f.  Fotografar usando a zoom é muito prático. Para alinhar Mlle. Herschel você pode começar com 70 mm e ir centralizando as estrelas guias até chegar em 300 mm.

                Aqui em Búzios é bom que consigo fazer o alinhamento polar de “ouvido”. Tive que mexer o observatório de lugar e não queria ter que realizar o alinhamento polar de novo. Nem pelo meu preguiçoso método patenteado. Mesmo assim consegui um acompanhamento e precisão suficientes para 300 mm. Isto usando o menu de “1 star align” no Synscan. Não podia perder a chance de contar um pouco de vantagem. Afinal foi uma noite de “observação de botequim” .... Nem todo astrônomo é Caxias.   Mesmo porque observar usando apenas uma buscadora 10X50 mm não é exatamente “Rocket Science”.  Quanto a tratamento das imagens usei o DSS para empilhar e o Photoshop para esticar... Abertos e campos grandes sem nebulosidade envolvida não “precisam” da PixInsight e o trabalho envolvido é excessivo para pela melhora obtida no poderoso programa. O único recurso que usaria do PixInsight seria a remoção automática de gradiente de fundo.  E o objetivo final é apresentar o que você vai observar visualmente. E mesmo assim você está sendo enganado aqui. Pela buscadora, na noite brumosa, a maioria dos aglomerados aqui apresentados não chegam a se resolver e explicam bem o nome nebulosas que possuíam na antiguidade. Minha buscadora é uma ótica infinitamente superiora ao equipamento utilizado por Lacaille no séc. XVIII e mesmo por muitos dos telescópios utilizados por Messier. E as minhas lentes não tinham nada sequer semelhante mesmo alguns séculos depois...  A 70-300 mm da Canon é inferior a 300 mm da Pentax. Tem mais cromatismo. Mas nada que comprometa muito. Observo e fotografo à lazer.

                Outra interessante reflexão: Com o recurso de drizzle no DSS (Deep Sky Stacker) consigo imagens muito semelhantes as que obtenho com o newton (meu refletor 1200 mm f8) fotografando com uma lente 300 mm em f 5.6 (com a Pentax consigo trabalhar em f4 com pouquíssima aberração cromática. E na verdade, como o sensor da T3 não é full frame, o distancia focal é na prática equivalente a 480 mm. (X 1,6). Com isto o Newton se tornou um recurso que só uso quando quero observar visualmente. Sua qualidade ótica não chegas aos pés das lentes que tenho. E O tamanho do embrulho fica bem reduzido usando lentes...  Somente em caso de objetos realmente muto pequenos (Nebulosas planetárias são a primeira coisa que me ocorre) é que acho que o esforço de alinhar com precisão nanométrica, apanhar para fazer o foco e trabalhar em f8 se justificam para utilizar o Newton em astrofotografia. Uma grande aquisição para o newton seria um focalizador dual speed... fazer foco com cremalheira é de fu...  Um sistema de acompanhamento seria importante também, mas com o Guedes achando bom o dólar a 5 e tal e importando soja fica difícil...

                Outra coisa legal é que trabalhando com campos mais abertos descobrimos vários aglomerados duplos. E, definitivamente, isso é um espetáculo celestial. Quase enredo de escola de samba. E assim M47 e M 46 formam um par muito charmoso bem como 2541 e 2477 também fazem bonito.  M 35 também tem um companheiro escondido...

M 47 e M 46 Plano aberto

2 drizzle

300 mm f 5.6 12 X 45 seg

 


                Ngc 3228 é um aglomerado mais charmoso de ser observado com mais aumento e merece o newton. Mas é um desafio para astrônomos experientes perceberem junto a buscadora e binóculos. A arte da caça não pode se perder em tempos de comodidades tecnológicas.  Ngc2190 é um objeto do projeto “Tudo que Existe”. Sua observação binocular é um exercício para um “Deep Sky Die Hard”. Uma expressão americana para viciados em céu profundo. Para astrônomos ocasionais é uma missão sem sentido. Com mais aumento é um aglomerado aberto pequeno. Daqueles que sobraram para o John Herschel.  Nem Lacaille nem Dunlop perceberam sua existência.  Seu vizinho Ngc 2925 é um pouco mais fácil. Uma espécie de aglomerado duplo para junkies observacionais...

3228 -3 drizzle 300 mm 

3228 -Wide field. É bom lembrar que ao se observar de binoculos ( ou junto a buscadora) é por esse tipo de coisa que deves procurar...




Só para viciados... 3 drizzle 300 mm


                IC 2488 é um favorito. Mas dessa vez o foco me traiu. É importante você checar o foco de tempos em tempos durante a noite. Ele acaba “escorregando” um pouco depois de várias fotos.



                M 41 é o objeto mais tênue registrado na antiguidade clássica. E um espetáculo divertido de binóculos. Apresenta caras diferentes cada vez que você o observa. Em noites muito boas ele chega e se resolver quase na integra. Dessa vez era um esfuminho onde, de tempos em tempos, uma estrela mais brilhante se acendia para apagar novamente. Provavelmente a brilhante estrela avermelhada que marca seu centro. Na foto consegui colocar Sirius e o aglomerado decorando o mesmo campo. Na buscadora isso é impossível.


M 41 3 drizzle

300 mm f 5.6 12 X 45 seg 4 darks


Ngc 2516 é amigo de binóculos e se resolve bem. Fácil de achar e resolver é um DSO ótimo para iniciantes. IC 2391, a Pequena Cassiopéia é do mesmo naipe.

IC 2391 - a pequena cassiopéia

2516 3 drizzle

Wide field


                M 35 é espetacular em binóculos. Mas assim com M41 o que vc vai ver varia de noite para noite e de lugar para lugar. Dessa vez era um grande esfuminho onde algumas estrelas tentavam se acender com visão periférica. Flicando como vagalumes.  Seu discreto parceiro demanda atenção e é um esfuminho discreto e que muitas vezes fica perdido no quadro. Mas com paciência e se sabendo de sua existência comparece quase sempre.




        M 44 fechou a noite. O Presépio. É um alvo binocular por excelência.  Por mais paradoxal que possa soar eu acho M 44 mais fácil de se perceber que a própria constelação de Câncer onde o Presépio se esconde bem “at plain sight”.

M 44 - O Presépio. Bem natalino... 


 Por fim na madrugada somos informados que Búzios decretou um novo lockdown devido a Covid. Nada como uma logística alemã na saúde... Enquanto no Peru se inicia a vacinação aqui os casos não param de subir e quem sabe um dia quem quiser vai poder se vacinar. Afinal somos uma democracia. Ser burro é garantido pela constituição e política de estado.

                As aventuras do Nuncius Australis vão seguir por aqui ao longo do mês. Espero ter mais e melhores noites ao longo do exilio familiar auto imposto. Se clima colaborar a perna ne Lumiar vai permitir que eu acerte as contas com a Roseta e revisite a Horse Head e a Chama. Em caso de intervenção divina vou tentar achar a Bruxa que habita entre Rigel e Cursa. Manterei informados...

Viva lá revolucion.

P.S. Esqueci da visita a M 93...








terça-feira, 17 de novembro de 2015

Riders of the Storm: Transparência e Astrofotografia

         
               Vem chegando sexta feira e depois de passar o dia lutando contra um comerciante que envergonharia a classe mesmo em um mercado no Oriente Médio acabei por conseguir retirar meu novo veiculo automotor e ainda fazer o seguro do mesmo.  Lógico que pretendo ir para Búzios aproveitar a lua  quase nova. Depois de arrumar mala ,cuia e todos os "quéri queris" astronômicos vejo  que,q apesar das ideias homicidas, valeu a pena insistir com o picareta da concessionária e retirar o veiculo ainda a tempo de aproveitar o fim de semana. Agora toda a tranqueira cabe com sobras na mala do veiculo automotor.       
                Astronomia não é para os fracos e  chegando no portão da casa já pronto para começar os trabalhos descubro que minha querida filha ( uma aborrescente puro sangue) deixara  a chave na outra mochila dela. Achar o caseiro , ressuscitar o cabra e finalmente conseguir entrar em casa. Lógico que o céu já ia fechando. A terrível maldição da sexta feira 13 parece se comprovar. Mas como é uma tradição astronômica lutar  contra as trevas e a superstição monto todo o circo  e depois de algum tempo estou com a buscadora alinhada. Curiosamente utilizei M 42 para tal. Nunca tinha alinhado uma buscadora utilizando um DSO como referência...
                O alinhamento do go-to foi difícil. Com nuvens entrando e saindo e com mais de 70% do céu encoberto as estrelas oferecidas pelo "Synscan" ( é o aparelho que comanda o o mecanismo de acompanhamento e de busca de  da montagem. Me refiro a ele tanto como Synscan como simplesmente  "go-to") e pelo céu propriamente dito não chegavam nunca a um armistício. Depois de muita luta e blasfêmias que chocariam  até um marinheiro russo bêbado em um prostíbulo em Santos  eu acabo conseguindo alguma precisão utilizando Sirius e Aldebarã como ancoragem. Em um ato de sensatez incomum decidi que nem tentaria montar o set up para astrofotografia. Com o mar de nuvens e observando "o que desse" nos buracos que se abriam nestas   apontava o "Newton" ( Um telescópio 150 mm f8) hora ao sul , hora ao sueste e raramente para horizonte norte . Eu sabia que fotografar seria uma tremenda perda de tempo. 
                E assim pilotando por aparelhos calculava qual o  DSO que iria se encontrar com os buracos nas nuvens e mandava o Synscan se dirigir para o destino e ficava aguardando com um olho na buscadora e outro na ocular. 
                Aprendi  que a escala de transparência deve ser uma escala aberta . Não ha limites para quão ruim pode ser a transparência atmosférica e quão obcecado pode ser um astrônomo amador.  Desta forma em uma escala de 0 a 10 eu observei M 42 , M41 e Ngc 2244 com a transparência em -2.   M 41 eu observei literalmente escondida nas nuvens. O no aglomerado de Tau Canis Majoris eu percebia a estrela matriz claramente e o aglomerado em si de forma muito discreta com estrelas "flicando" ao seu redor. Mesmo assim somente com auxilio de visão periférica. .  Como muita sensatez torna as coisa muito chatas eu tentei ainda M 78. A duplinha que se esconde na nebulosa eu percebi. Mas a nebulosa já era querer demais.
                Apesar das condições extremas e talvez por causa delas me dei por feliz e realizado. As 3:00 eu estava dormindo...
                No dia seguinte acordei as 9:30 e bem disposto. Nada como não encher o pote na véspera.  Depois de fazer as compras para o "almo jantar" a família parte para a praia.
                Camarão ao alho e óleo, Anchova na Brasa e um Sauvignon blanc me separam de uma nova luta.
                O céu se apresenta menos encoberto . Mas a transparência continua na parte negativa da escala...
                Começa a batalha. O go -to se recusa a colocar algo dentro do campo até mesmo da buscadora. Eu sei que devemos respeitar alguns pré-requisitos na escolha das estrelas do alinhamento do mesmo. Mas nada parecia resolver tirei um pouco de chumbo do contrapeso. Nada. Virei o telescópio. Nada ainda. Descobri que estava usando Peacock em vez de Alnair e assim mentindo para a maquina. Mesmo assim nada. Só me resta melhorar o alinhamento polar que era apenas um sentimento devido as péssimas condições da noite anterior.
                As 22:55:53 eu estou com Achernar cruzando o meridiano e  um alinhamento polar digno de nota foi obtido. Novamente utilizando Sirius e Aldebaran como faróis consigo algum sucesso. M 41 aparece centralizado na ocular de 25 mm. Yessssss!!!!
                A foto de Sirius  ( a que abriu este post...) com um "Halo Lunar" ao redor demonstra bem o conceito de escala de transparência aberta. - 2 ou -3...
                Mas resolvo fazer algumas fotos de meu velho conhecido Aglomerado de Aristóteles ( M 41) . Não chega a ser de tirar o folego. Mas astrofotografia é a melhor diversão. Depois o mesmo com M42. Dois manjados show pieces que sobrevivem a nebulosidade. Esta estava tão forte que impossibilitava observar até mesmo Tuc 47. O Horizonte sueste era o que apresentava as condições mais aceitáveis . E assim decido realizar  umas fotos de um desconhecido. Ele deve  ser bem interessante em condições menos desumanas. De qualquer forma Ngc 2244 , o aglomerado do satélite é uma nova aquisição e um fardo a menos na minha auto imposta e quixotesca missão de observar "' tudo que existe".
                Depois disto fico lutando com Ngc 2477 .Começo a achar que o go-to enlouqueceu novamente. Mas como 2477 fica muito próximo de Ngc 2451 ( os dois cabem no mesmo campo com meu 15X70) eu rapidamente descubro que a luta contra as brumas esta sendo perdida.  Encerro a sessão e parto para dentro dos restos de bebida que existe pela casa e coloco Riders of the Storm ( uma versão remix do Snoop Dog) para rolar.
                 Já de volta ao Rio me preparo  para tratar as imagens obtidas. Monto um play list que desfia Charlie Parker, Herbie Hancock, Ella Fitzgerald e todo o "Take Five" do Brubeck. Sei que deverei ser paciente.   O material não é exatamente de primeira... A transparência era muito baixa e as imagens que fiz de meu velho conhecido M 41 deveriam indicar quase uma magnitude a menos do que seria normal... M 42  que visualmente se apresentava de uma das formas mais discretas que já vi ( e trata-se de  uma vedete...) nas fotografias não chegava a ser inspiradora. Ngc 2244 aparece como um aglomerado aberto  bem modesto. Estranho para um aglomerado apresentado com  apelido no Stellarium e membro do catalogo Caldwell. Perceber a Nebulosa da Roseta que habita em seu entorno ( Ngc 2237) seria considerado um caso de delírio grave e invocara cuidados psiquiátricos urgentes...
                A primeira série a ser empilhada foi M 42. Aprendi que nebulosidade além de apagar as estrelas e as nebulosas se traduz em ruido na imagem final... Depois de passear pelo DSS , Fitswork, Photoshop e Noiseware o resultado melhorou um pouco . Mas ficou muito aquém de suas possibilidades. Curiosamente as péssimas condições tornavam fácil fotografar o "Trapézio" de estrelas no centro de M42. Ele em geral fica muito super exposto. com o filtro de nuvens ele se apresentava facilmente mesmo em exposições mais longas . E com exposições mais curtas era praticamente a única estrutura de M42 que se apresentava claramente... As condições estavam tão precárias que a companheira M 43 não chega a se revelar claramente nem nas fotos.  Foram empilhados 21 frames de 25 segundo de exposição , 7 dark frames e 7 Bias. E em outra versão não foram utilizados bias frames. . O ruido ficou menor sem estes... 
Quase 9 minutos de exposição costumam revelar muito mais coisas em M42. Na verdade já realizei fotos com 30 segundos melhores do que isto...

 
8 segundos de exposição...
                M 41 apesar de mais apagado que de costuma pareceu sofrer menos com a nebulosidade. Na verdade estava em uma brecha de céu privilegiada e assim não  foi necessário tanto pós processamento. É um de meus DSO´s favoritos e com uma bela estrela vermelha em seu centro é sempre um bom parâmetro sobre as condições do céu. No caso eu não percebia nenhuma cor observando visualmente .  Foram realizadas 11 exposições de 25 segundos com 1600 ASA, 7 darks e 4 bias

                Ngc 2244  se apresentou praticamente entre nuvens . E  ruido presente revela isto. Após muito processar a imagem ele ainda se apresenta bem aquém de sua possibilidades. Visualmente era mais com um ajuntamento de estrelas do que como um aberto . Poderia passar facilmente por um asterismo.  7 exposições de 25 segundos 1600 ASA , 4 darks e dois bias.
Depos de muito passear pelo Photoshop ... Levels , Curves , Brilho e saturação . Ruido removido tanto no Fitswork como no Noiseware...

                Como falei eu abandonei a batalha derrotado por Ngc 2477. Mas sabia que estava no lugar certo. Por desencargo de consciência  fotografei 2541 ( apenas um frame) só para confirmar que não estava sendo enganado pelo Go-to. Um velho conhecido que achei difícil até mesmo reconhecer tão desfigurado se encontrava pelas brumas. Uma violência... Mas o "Astrometry" fez a analise de DNA e confirmou sua identidade.  
 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

M 41- O Aglomerado de Aristóteles

M 41 - O Aglomerado de Aristóteles


            Registros demonstram que M 41 (Ngc 2287) foi descoberto muito antes  do telescópio. De fato , o cientista grego conhecido como Aristóteles foi o primeiro a noticiar o que atualmente chamamos de M 41. Em 325 A.C. Ele simplesmente o descreveu como uma "região nebulosa". Embora hajam controvérsias eu acredito que ele realmente avistou o aglomerado. Isto faria de M 41 o objeto mais tênue conhecido nos céus durante a antiguidade clássica.  Depois , antes de 1654, Giovanni Batista Hodierna foi o primeiro astrônomo a cataloga-lo. O aglomerado se torna popular depois de ser redescoberto por Flamsteed em 1702 e Messier o acrescentou a sua lista em 16 de Janeiro de 1795.
            M 41 reúne cerca de uma centena de estrelas às empacotando em uma área de aproximadamente 25 anos luz de diâmetro.
            Este post nasceu de um passeio pela tal da "Cloud". Localizei varias fotos perdidas no hoje quase extinto PICASA. E entre elas estava M 41. A foto foi realizada com minha falecida câmera. Uma Canon 350D.
            Recentemente li  um interessante artigo na "Sky and Telescope" onde em um daqueles quadros informativos Tony Flanders nos conta que aglomerados abertos não são apenas como doces para os olhos ; você pode dizer  muito sobre eles apenas através de sua aparência através de telescópios. Mesmo que modestos. Obviamente aglomerados mais próximos são mais fáceis de se resolver porque suas estrelas individuais se apresentam mais brilhantes. As Plêiades são um exemplo óbvio. Aglomerados jovens como M 35 apresentam estrelas variando muito em brilho. Estrelas jovens e maciças brilham muito e azuladas, fumando seu hidrogênio rapidamente. Em aglomerados mais maduros as estrelas mais brilhantes já queimaram até a ultima ponta e assim os membros restantes apresentam uma aparência mais uniforme. Estrelas muito maciças tendem a migrar para o interior dos aglomerados conforme estes envelhecem. Freqüentemente estas estrelas se apresentam com avermelhadas porque já atingiram sua fase de gigante vermelha tendo assim deixado a sequência principal em seu caminho para anã branca. Mais em evolução estelar aqui. Desta forma é comum localizarmos estrelas avermelhadas próximas ao centro de aglomerados abertos.  
             E assim chegamos de novo em M 41. Diversas de suas estrelas são ou laranjas ou gigantes vermelhas. Aí se inclui a chamativa estrela vermelha bem central e claramente percebida em nossa foto. Esta estrela é uma estrela gigante do tipo espectral K cerca de 700 vezes mais brilhante que o nosso sol. Ela é facilmente percebida com quase qualquer aparelho.
            A observação da foto me levou a devanear. Querendo me enganar e posar de cientista sério tirei certas conclusões e devido ao colorido da paisagem imaginei que M41 fosse um aglomerado de meia idade. Mas para jovem que para velho. E também nem tão longe nem tão perto. Tudo isto devido ao que eu já sabia sobre as Plêiades. Estas seriam mais jovens e muito mais próximas . Meus palpites se mostraram corretos.
            M 41 tem algo ( segundo "cientistas de verdade") entre 190 e 240 milhões de anos. Desta forma suas estrelas mais maciças já tiveram tempo para ficarem mais "coloridas". Mas ainda apresentar uma bela diversidade de brilhos e magnitudes...
            E a 2.300 anos luz de nós se encontra quase seis vezes mais distantes que as Plêiades. 
            E agora vamos ao que interessa. Como ver M 41. E tirar suas conclusões sozinho. Como falou Burnham : "Nada como ver o Original ( ou mais ou menos isto...)".

            M 41 se localiza há um pouco mais de meio campo de buscadora (10x50) ao sul de Sirius , a estrela mais brilhante do firmamento. Imagine um triangulo retângulo formado por Sirius , Mirzam e um ponto invisível ao sul de Sirius e olhe na buscadora. M 41 e procure por uma pequena nuvem de luz. M41.
            Como os relatos de Aristóteles nos dizem esta nuvem de luz é percebida mesmo a olho nu de locais escuros.  Eu sei que é possível. Mas o local tem que ser escuro mesmo.
            Através de binóculos e buscadoras eu percebo algumas dezenas de estrelas "flicando" em meio a nevoa da região.
            M 41 é uma paisagem sensacional mesmo em pequenos telescópios. M 41 é um dos mais coloridos aglomerados que conheço , mas a sensibilidade a cor varia de pessoa para pessoas.  Um truque : desfoque levemente o telescópio e tente perceber mais cores. 

             Com 38´ arc seg. ela cabe certinho na minha ocular 17 mm. 

            Através do "Newton" ( meu refletor de 150 mm) M 41 é um dos aglomerados abertos que mais gosto. Um dos favoritos do Verão.  Estará disponível a noite toda...

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Astrofotografia , Colimação e Carnaval





Chegou o carnaval. E apesar da data depender de varias efemérides (ele começa 40 dias antes do primeiro domingo depois da primeira lua cheia depois do equinócio ou algo assim) a pratica astronômica durante o período é, no mínimo, diferente.

E durante o período reza a lenda que um homem possui como seus maiores adversários ele mesmo, seus amigos e a bebida. Mas ele é homem e não pode recuar perante tais adversidades.

Desta forma vou em direção a Buzios.

Meu plano é perfeito.

Saio na Sexta Feira na parte da manhã. Eu, minha filha e toda a parafernália astronômica. Fizemos uma viagem tranqüila e chegamos a Buzios sem maiores percalços.

Algum tempo depois eu tenho o telescópio montado e percebo que a colimação não esta lá estas coisas. Após mexer um pouco para lá para cá me dou por satisfeito embora soubesse que a colimação poderia ser mais bem realizada. Mas no momento eu tinha outra preocupação. Alinhamento polar.

Sempre que observei em Buzios eu alinhava colocando o eixo equatorial de forma paralela ao muro da casa. Para observação visual era mais que suficiente. Mas para fotografar...

Rapidamente percebo que preciso afinar melhor o alinhamento. E é ai que a porca torce o rabo...

Seis horas mais tarde e com diversas fotos imprestáveis colecionadas consigo um alinhamento razoável. Bom não. Mas acredito que possa melhorá-lo mais e mais ao longo do carnaval. Isto iria implicar em manter o tripé morando fora de casa, mas me parecia ser um projeto viável.

Ao contrario do que se imagina a pratica astronômica é um evento com muita atividade física envolvida. Depois de seis horas levantando e movendo o telescópio para lá e para cá em busca do pólo sempre tendo que me colocar em posições pouco ortodoxas para acompanhar estrelas junto à ocular minha coluna começa a achar que estou de sacanagem com ela. Já que é assim ela me sacaneia com mais força. É hora de dormir e tentar esticar a lombar.

No dia seguinte chegam dois fortes adversários. Meu amigo mais pinguço e varias caixas de Cerveja. O Espírito das Highlands eu havia levado pessoalmente...

Depois de um dia de praia imagino que a noite promete. Eu estava certo. Só não sabia o que ela prometia.

Crente que o alinhamento polar seria satisfatório eu retiro a lona que cobria a cabeça e o tripé e instalo o telescópio. Dirijo-me para Naos (Zeta Popa) e rapidamente localizo Ngc 2477 na buscadora. E só. Olho na ocular e nada...

Afina daqui afina de lá e nada...

Com Júpiter se pondo resolvo que vou afinar a buscadora com precisão “nano métrica”. Enquanto isso meu camarada vai me garantindo um fornecimento continuo de Stella Artois. E outros drinks que levariam qualquer um a acreditar que se trata de um químico frustrado.

Percebo que a colimação estava péssima e tenho a brilhante idéia de chamar meu camarada para me ajudar na operação. Eu ficaria com o olho na ocular enquanto ele moveria os parafusos do espelho primário. O objetivo seria ter aquele padrão perfeito de um ponto negro no meio de um Júpiter fora de foco. Rapidamente o planeta parecia um quarto crescente...

A colimação ficou tão fora de esquadro que se tornou impossível afinar a buscadora. Lá pelas tantas eu pensava em colocar um pequeno calço no suporte da buscadora.

Este post teve vários nomes até chegar ao que vos apresento. Um deles foi "Carnaval, Colimação e o astrônomo bêbado".

Finalmente tomo uma dose de “Faísca” e resolvo que a única solução seria colimar o telescópio de uma forma mais ortodoxa. Amanhã.

A poluição luminosa também se apresentava muito acima da média. A cidade muito cheia fazia que domos de luz povoassem os horizontes. O horizonte sul era o menos mau. O norte só acima de 30º

Colimação é algo relativamente simples. Mas uma colimação perfeita é bastante trabalhosa para ser obtida. Agradeço por meu telescópio ser F8. Um telescópio mais claro me levaria à loucura. Minha próxima aquisição será um colimador laser.

O que eu não sabia é que além de causar coma (um aspecto de vírgula quando olha para estrelas) uma má colimação torna difícil até mesmo afinar uma buscadora. Surpreendeu-me a precisão necessária. Outra lição é que nunca deixe alguém leigo tocar nos parafusos de ajuste do seu secundário. Quando você fala girar um pouquinho para este ele desconhece quão pouco é um pouquinho. Astronomia e ciências em geral quando falam de pouco é muito pouco. E quando falam de muito em geral usam notação cientifica...

Finalmente chega a terceira noite. E um pouco de sobriedade. Finalmente começo a noite me dedicando a observação visual e apresentando alguns DSO as crianças. Plêiades do Sul, Eta Carina, NGC3766 e uma enorme série de aglomerados abertos que seguem a Via láctea. Pouco depois Marte se apresenta e parto para magnificações maiores. O seeing não esta lá grandes coisas, mas percebo algum detalhes. As calotas são evidentes e com bastante atenção percebo Syrtis Major e de relance consigo notar a mancha do Mare Acidalium. Mas os momentos de seeing são raros.

Resolvo me arriscar em algumas fotos e rapidamente percebo que o alinhamento não é suficiente.

Começo com exposições de 20 seg. com a nebulosa de Eta Carina. Depois caio para 15 e finalmente 10 seg.
Eta Carina

Mexe para lá e para cá e nada de melhorar. Decido fazer algumas fotos em Piggy Back.

Outra aquisição que vai ser útil é uma ocular com reticulo iluminado. O Drift para o alinhamento polar vai ser bem mais eficiente e rápido.

Faço algumas imagens do Cruzeiro. Como podem perceber o Rot n´ Stack é um programa bem criativo. Um dos Logaritmos que ele usa nas fotos finais é realmente um artista...
Cruzeiro do Sul Numa Visão do Rn´Stack

Os dias se sucedem e eu desisti de manter a cabeça do lado de fora da casa. Todo dia eu começo fazendo um alinhamento polar e um drift. E sempre demora. E Os resultados são diferentes a cada dia.


Não poderia deixar de fotografar M42. O Alinhamento poderia ser melhor. Mas a Nebulosa é linda de qualquer maneira...

Desta forma também visito Saturno. Embora uma DSLR não seja o ideal fiz alguns registros. As exposições curtas não careciam de alinhamento. Utilizei uma barlow 2x para o planeta dos anéis. Mas ainda não me entendi com o Registax...

Durante os alinhamentos acabo empenando um dos parafusos da cabeça. Removo uma pequena peça que fica a frente da cabeça e que serve para fixação deste. É incrível como a remoção deste torna a cabeça mais instável. O espelho da câmera causa trepidação suficiente para inviabilizar a maior parte das fotos.

Após retirar e substituir o parafuso a cabeça volta a sua forma.

Aproxima-se o ultimo dia e meu plano de fotografar vários Lacaille começa a parecer distante.

Resolvo ir para o jardim de frente da casa. Parece que apesar de um pouco mais exposto as luzes da cidade foi uma decisão acertada. O povo fica mais pelo jardim dos fundos e a solidão é amiga do astrônomo. Bem como uma distancia maior do isopor com as cervejas...

Coloco o tripé no chão e coloco o telescópio. Não faço drift. Simplesmente aponto para Regor (Gama Vela) e faço uma foto. 15 seg. e... Voilá. Nenhum risco. O alinhamento esta pronto. O melhor da semana.

2547 sem dark frames

Com dark frames...

Começo com Ngc 2547, um aglomerado aberto que o Abbe catalogou como Lac III. 2. O enquadramento poderia ser mais digno, mas ainda assim ele preserva sua forma de coração. O Aglomerado também é chamado como “The Broken Heart Cluster”. Faço diversas exposições de 15 seg. E por incrível que pareça o DSS aceita quase todas na hora de empilhar.

Ao contrario do Rot n´Stack o DSS não é muito criativo e adora recusar seus frames.

Ngc 3766 é o próximo. Começo a realizar o plano inicial. Este é o DSO Lac III. 7.


Novamente varias exposições de 15 seg.

Um fato interessante destes dois últimos aglomerados é que suas fotos finais (Tiff), APÓS PROCESSAMENTO NO DSS, apresentaram mais ruído quando foi adicionado Black frames. As fotos sem adição de Black frames apresentaram menos ruído e menos desvio de cor para o azul. Não sei a razão disto.

A noite vai indo bem e rapidamente coloco mais um Lacaille no finder. Lac I. 5 ou Ngc 5139. O Imenso globular de Omega Centauro. Muitas fotos. 15 e 20 seg. E muitos dark frames. Dá tudo certo. 1600 asa e pouco ruído. Vai entender¿¿¿



Agora tirei o atraso. Ngc 4755, a Caixa de Jóias. Lac II. 12 é um de meus favoritos. Novamente sento o dedo e só paro quando recebo a mensagem “full card”.

Com isto resolvo que é hora de caçar mais algumas coisinhas a moda antiga.

Calço a 25 mm na ocular e coloco a 10 mm no bolso.

Steve O´Mehara em seu Hidden Treasures faz um paralelo entre astrônomos amadores e piratas.

Segundo ele os piratas se apresentavam de duas formas. Aqueles que abordavam um navio e o saqueavam rapidamente. Passavam poucos minutos a bordo e seguiam sua viagem rumo à próxima vitima. Outros não gostavam desse frenesi. Chegavam a bordo. Tomavam chá com capitão atacado. Olhavam o porão calmamente e visitavam cada parte do navio presa.

Eu me identifico mais com os primeiros. Quando estou fazendo uma observação visual sou do estilo “body count”. Olho o DSO com uma ou duas oculares. Pratico um pouco de visão periférica e assim que tenho certeza do avistamento sigo em busca de outros botins. Já quando fotografo o objetivo é fazer um registro mais apurado. Mas ainda assim sou um pouco apressado. Na verdade gosto de preservar alguma semelhança do que o ser humano é capaz de ver. Então quaisquer tantas dezenas de exposição me satisfazem. Mas a astrofotografia demanda maiores cuidados. E conseqüentemente visitas mais longas ao navio... Sua buscadora tem que estar bem alinhada. A colimação correta. O alinhamento polar idem. Através dela me faço um astrônomo mais caprichoso. Não por gosto. Mas por necessidade.

Astrofotografia não é uma atividade momesca. Depende de duas coisas que não são tão triviais quanto dizem. Alinhamento Polar e Colimação. Isto para não falar em outras cositas más...

Com vontade de caçar parto em busca de M 104. É um dos “star hops “ que mais gosto. Vou pulando de estrela em estrela. A partir de Algorab vá até Eta Corvus. E daí siga para HIP 61212 e mais um pouco até HIP61296. Daí ache três pequenas estrelas que formam um pequeno triangulo. E deste mais um grupo triplo ainda mais discreto. Tudo pela buscadora. Do pequeno grupo parta para a ocular e você vai achar... Olhe no Cdc ou no Stellarium. O caminho é bem legal e fácil.

Depois quero mais uma abordagem antes do fim. Um rápido pulo a Beta Corvus e um pulinho lhe deixa em M68. Um discreto globular que fica no mesmo campo que HIP 61621. Tire a estrela do campo para não intimidar o discreto globular.

Acabou o carnaval e entre mortos e feridos salvaram-se todos.


M 41 também sofreu saques...