terça-feira, 17 de novembro de 2015

Riders of the Storm: Transparência e Astrofotografia

         
               Vem chegando sexta feira e depois de passar o dia lutando contra um comerciante que envergonharia a classe mesmo em um mercado no Oriente Médio acabei por conseguir retirar meu novo veiculo automotor e ainda fazer o seguro do mesmo.  Lógico que pretendo ir para Búzios aproveitar a lua  quase nova. Depois de arrumar mala ,cuia e todos os "quéri queris" astronômicos vejo  que,q apesar das ideias homicidas, valeu a pena insistir com o picareta da concessionária e retirar o veiculo ainda a tempo de aproveitar o fim de semana. Agora toda a tranqueira cabe com sobras na mala do veiculo automotor.       
                Astronomia não é para os fracos e  chegando no portão da casa já pronto para começar os trabalhos descubro que minha querida filha ( uma aborrescente puro sangue) deixara  a chave na outra mochila dela. Achar o caseiro , ressuscitar o cabra e finalmente conseguir entrar em casa. Lógico que o céu já ia fechando. A terrível maldição da sexta feira 13 parece se comprovar. Mas como é uma tradição astronômica lutar  contra as trevas e a superstição monto todo o circo  e depois de algum tempo estou com a buscadora alinhada. Curiosamente utilizei M 42 para tal. Nunca tinha alinhado uma buscadora utilizando um DSO como referência...
                O alinhamento do go-to foi difícil. Com nuvens entrando e saindo e com mais de 70% do céu encoberto as estrelas oferecidas pelo "Synscan" ( é o aparelho que comanda o o mecanismo de acompanhamento e de busca de  da montagem. Me refiro a ele tanto como Synscan como simplesmente  "go-to") e pelo céu propriamente dito não chegavam nunca a um armistício. Depois de muita luta e blasfêmias que chocariam  até um marinheiro russo bêbado em um prostíbulo em Santos  eu acabo conseguindo alguma precisão utilizando Sirius e Aldebarã como ancoragem. Em um ato de sensatez incomum decidi que nem tentaria montar o set up para astrofotografia. Com o mar de nuvens e observando "o que desse" nos buracos que se abriam nestas   apontava o "Newton" ( Um telescópio 150 mm f8) hora ao sul , hora ao sueste e raramente para horizonte norte . Eu sabia que fotografar seria uma tremenda perda de tempo. 
                E assim pilotando por aparelhos calculava qual o  DSO que iria se encontrar com os buracos nas nuvens e mandava o Synscan se dirigir para o destino e ficava aguardando com um olho na buscadora e outro na ocular. 
                Aprendi  que a escala de transparência deve ser uma escala aberta . Não ha limites para quão ruim pode ser a transparência atmosférica e quão obcecado pode ser um astrônomo amador.  Desta forma em uma escala de 0 a 10 eu observei M 42 , M41 e Ngc 2244 com a transparência em -2.   M 41 eu observei literalmente escondida nas nuvens. O no aglomerado de Tau Canis Majoris eu percebia a estrela matriz claramente e o aglomerado em si de forma muito discreta com estrelas "flicando" ao seu redor. Mesmo assim somente com auxilio de visão periférica. .  Como muita sensatez torna as coisa muito chatas eu tentei ainda M 78. A duplinha que se esconde na nebulosa eu percebi. Mas a nebulosa já era querer demais.
                Apesar das condições extremas e talvez por causa delas me dei por feliz e realizado. As 3:00 eu estava dormindo...
                No dia seguinte acordei as 9:30 e bem disposto. Nada como não encher o pote na véspera.  Depois de fazer as compras para o "almo jantar" a família parte para a praia.
                Camarão ao alho e óleo, Anchova na Brasa e um Sauvignon blanc me separam de uma nova luta.
                O céu se apresenta menos encoberto . Mas a transparência continua na parte negativa da escala...
                Começa a batalha. O go -to se recusa a colocar algo dentro do campo até mesmo da buscadora. Eu sei que devemos respeitar alguns pré-requisitos na escolha das estrelas do alinhamento do mesmo. Mas nada parecia resolver tirei um pouco de chumbo do contrapeso. Nada. Virei o telescópio. Nada ainda. Descobri que estava usando Peacock em vez de Alnair e assim mentindo para a maquina. Mesmo assim nada. Só me resta melhorar o alinhamento polar que era apenas um sentimento devido as péssimas condições da noite anterior.
                As 22:55:53 eu estou com Achernar cruzando o meridiano e  um alinhamento polar digno de nota foi obtido. Novamente utilizando Sirius e Aldebaran como faróis consigo algum sucesso. M 41 aparece centralizado na ocular de 25 mm. Yessssss!!!!
                A foto de Sirius  ( a que abriu este post...) com um "Halo Lunar" ao redor demonstra bem o conceito de escala de transparência aberta. - 2 ou -3...
                Mas resolvo fazer algumas fotos de meu velho conhecido Aglomerado de Aristóteles ( M 41) . Não chega a ser de tirar o folego. Mas astrofotografia é a melhor diversão. Depois o mesmo com M42. Dois manjados show pieces que sobrevivem a nebulosidade. Esta estava tão forte que impossibilitava observar até mesmo Tuc 47. O Horizonte sueste era o que apresentava as condições mais aceitáveis . E assim decido realizar  umas fotos de um desconhecido. Ele deve  ser bem interessante em condições menos desumanas. De qualquer forma Ngc 2244 , o aglomerado do satélite é uma nova aquisição e um fardo a menos na minha auto imposta e quixotesca missão de observar "' tudo que existe".
                Depois disto fico lutando com Ngc 2477 .Começo a achar que o go-to enlouqueceu novamente. Mas como 2477 fica muito próximo de Ngc 2451 ( os dois cabem no mesmo campo com meu 15X70) eu rapidamente descubro que a luta contra as brumas esta sendo perdida.  Encerro a sessão e parto para dentro dos restos de bebida que existe pela casa e coloco Riders of the Storm ( uma versão remix do Snoop Dog) para rolar.
                 Já de volta ao Rio me preparo  para tratar as imagens obtidas. Monto um play list que desfia Charlie Parker, Herbie Hancock, Ella Fitzgerald e todo o "Take Five" do Brubeck. Sei que deverei ser paciente.   O material não é exatamente de primeira... A transparência era muito baixa e as imagens que fiz de meu velho conhecido M 41 deveriam indicar quase uma magnitude a menos do que seria normal... M 42  que visualmente se apresentava de uma das formas mais discretas que já vi ( e trata-se de  uma vedete...) nas fotografias não chegava a ser inspiradora. Ngc 2244 aparece como um aglomerado aberto  bem modesto. Estranho para um aglomerado apresentado com  apelido no Stellarium e membro do catalogo Caldwell. Perceber a Nebulosa da Roseta que habita em seu entorno ( Ngc 2237) seria considerado um caso de delírio grave e invocara cuidados psiquiátricos urgentes...
                A primeira série a ser empilhada foi M 42. Aprendi que nebulosidade além de apagar as estrelas e as nebulosas se traduz em ruido na imagem final... Depois de passear pelo DSS , Fitswork, Photoshop e Noiseware o resultado melhorou um pouco . Mas ficou muito aquém de suas possibilidades. Curiosamente as péssimas condições tornavam fácil fotografar o "Trapézio" de estrelas no centro de M42. Ele em geral fica muito super exposto. com o filtro de nuvens ele se apresentava facilmente mesmo em exposições mais longas . E com exposições mais curtas era praticamente a única estrutura de M42 que se apresentava claramente... As condições estavam tão precárias que a companheira M 43 não chega a se revelar claramente nem nas fotos.  Foram empilhados 21 frames de 25 segundo de exposição , 7 dark frames e 7 Bias. E em outra versão não foram utilizados bias frames. . O ruido ficou menor sem estes... 
Quase 9 minutos de exposição costumam revelar muito mais coisas em M42. Na verdade já realizei fotos com 30 segundos melhores do que isto...

 
8 segundos de exposição...
                M 41 apesar de mais apagado que de costuma pareceu sofrer menos com a nebulosidade. Na verdade estava em uma brecha de céu privilegiada e assim não  foi necessário tanto pós processamento. É um de meus DSO´s favoritos e com uma bela estrela vermelha em seu centro é sempre um bom parâmetro sobre as condições do céu. No caso eu não percebia nenhuma cor observando visualmente .  Foram realizadas 11 exposições de 25 segundos com 1600 ASA, 7 darks e 4 bias

                Ngc 2244  se apresentou praticamente entre nuvens . E  ruido presente revela isto. Após muito processar a imagem ele ainda se apresenta bem aquém de sua possibilidades. Visualmente era mais com um ajuntamento de estrelas do que como um aberto . Poderia passar facilmente por um asterismo.  7 exposições de 25 segundos 1600 ASA , 4 darks e dois bias.
Depos de muito passear pelo Photoshop ... Levels , Curves , Brilho e saturação . Ruido removido tanto no Fitswork como no Noiseware...

                Como falei eu abandonei a batalha derrotado por Ngc 2477. Mas sabia que estava no lugar certo. Por desencargo de consciência  fotografei 2541 ( apenas um frame) só para confirmar que não estava sendo enganado pelo Go-to. Um velho conhecido que achei difícil até mesmo reconhecer tão desfigurado se encontrava pelas brumas. Uma violência... Mas o "Astrometry" fez a analise de DNA e confirmou sua identidade.  
 

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Ngc 6940: O Aglomerado de Mothra



          O habito de dar nome a DSO´s é um ato lúdico e que nos aproxima de objetos que na verdade habitam uma escala que de outra forma seria inimaginável para simples criaturas baseadas no carbono como nós . A grandiosidade das estruturas cósmicas que o astrônomo amador visualiza em seu telescópio são enganosamente pequenas junto a ocular. Isto permite associarmos estas estruturas a coisas que habitam o nosso cotidiano. De muito longe elas até se parecem com coisas próximas a nós...
            Ngc  6940 é um pouco conhecido aglomerado aberto que habita a pouco visitada constelação de Vulpécula, a pequena raposa. É importante ressaltar que pouco conhecido especialmente pelos observadores austrais. Mais provavelmente devido a ausência de cultura astrônomica e de "autores observadores" clássicos como Webb, Smythe, Burnham, Houston e cia. ltda. 
            Foi  através de um autor mais contemporâneo que cheguei até 6940. O´Meara , em seu " Hidden Treasures", lista este aglomerado aberto como o tesouro escondido de no 101. E nele exercita o lúdico habito de apelidar as maravilhas celestiais. E o apelido que ele dá a Ngc 6940 demonstra bem o tamanho e a natureza deste grande aglomerado aberto. O Aglomerado de Mothra.
            Para os mais jovens convém informar que Mothra é um monstro fictício , arqui-inimigo do Godzilla. Uma gigantesca mariposa que foi retratada pela primeira vez em um clássico do cinema de ficção classe Z realizado pelos estúdios Toho em 1961. Eram os primórdios dos animatronics e esta gigante e docil criatura que era tratada como uma deidade pela tribo de uma ilha perdida no Pacifico parecia muito com uma marionete ...
            A nossa mariposa , como dito anteriormente, reside na constelação de Vulpécula . Vulpécula passeia baixa no horizonte norte do Rio de Janeiro e é mais lembrada como porto para  a Nebulosa do Haltere (M 27) e do asterismo travestido de aglomerado conhecido como "O Cabide" ou o Aglomerado de Brocchi.
            Apesar de que para burocracia astronômica o CEP de Ngc 6940 indicar que esta reside na Raposa a pratica nos leva a associar a mesma a mais manjada constelação de Cygnus , o cisne. Eu mesmo a registrei fotograficamente e como não tinha certeza de quem era a criatura fotografada batizei esta como "Aberto em Cisne" antes de investigar de fato quem era o elemento.  Localize 41 Cygnus e você estará muito perto de seu alvo...


            Um belo , grande e colorido aglomerado que foi registrado sob fortíssima poluição luminosa e disputando brilho contra as antenas no alto do Morro do Sumaré. E toda zona norte carioca brilhando ao fundo. Mesmo assim ele se destacava contra o brilho dos vapores de  sódio e mercúrio e chamou-me  atenção.
            Como falei o aglomerado é pouco conhecido por estas bandas mais devido a ausência de literatura especializada do que por culpa própria. Ngc 6940 é um dos 400 de Herschel e reside em diversas listas observacionais.
            Trata-se de um belo aglomerado galáctico que se espalha por 30´de arco no céu ( uma lua cheia) e possui varias dezenas de membros visíveis com qualquer auxilio  óptico . É uma descoberta original de William Herschel ( o pai) , o maior observador visual de todos os tempos. É a entrada H-VII 8 de seu catalogo . Este foi a fundação que posteriormente embasaria o Ngc organizado por Dreyer.  Ele descreve o Aglomerado de Mothra da seguinte forma :
" (observado em 17 de Julho de 1784) Um  muito rico e bonito aglomerado de pequenas estrelas de tamanho similar espalhadas. 20´dimaetro".
            Ngc 6940 foi alvo de um interessante estudo realizado por astrônomo holandês T. Belloni e por seu companheiro italiano G. Tagliaferri. Neste eles utilizaram o atual defunto satélite ROSAT para estudar a atividade coronal de estrelas em Ngc 6940. Aglomerados abertos são mantido juntos por fraca gravidade e são fadados a se desagregarem e desaparecerem. Os mais antigos conhecidos sobrevivem cerca de 5 bilhões de anos juntos. A atividade coronal em aglomerados depende , crucialmente . da rotação estelar. Esta tende a diminuir com a idade devida o redução  da atividade eletromagnética. Em Ngc 6940 ainda existe atividade coronal. mas restrita a estrelas tardias e especialmente em binarias tardias. Isto revela um idade na casa de 1 bilhão de anos. Uma idade avançada para a maioria dos aglomerados abertos... Utilizar atividade coronal para datar aglomerados abertos é uma técnica interessante e uma novidade para mim. Vivendo e aprendendo...
            O aglomerado possui cerca de 170 membros e com 1 bilhão de anos apresenta o ramo gigante já bem desenvolvido. O colorido é evidente.
            O´Meara percebe claramente a gigante Mothra e com sua descrição não é difícil ( para quem viu o filme...) entender o apelido:
"... a estrela dupla junto ao centro do aglomerado, nas costas gigantes da imensa mariposa, são ( evidentemente) as duas fadinhas irmãs e  telepáticas que galopam nas costas de Mothra e que cantam apelos a sua deusa sempre que precisam".


            Ele evidentemente se refere a duas pequenas fadas gêmeas que sempre acompanham Mothra. As gêmeas são consideradas semi-deusas pela tribo local que irá lutar para defende las. Dependendo do filme elas terão diversos títulos . Entre eles " The Cosmos"... No mais recente " A Volta de Mothra" seu papel é ampliado e elas ganham os nomes de Lora e Moll. E uma irmã malvada chamada de Belvera.


            Foi uma curiosa experiencia o pós processamento das fotos realizadas do Aglomerado de Mothra. Talvez devido a seu parentesco cinematográfico eu testei varias formas de processamento .  Talvez também devido aos nefastos efeitos da poluição luminosa nas capturas iniciais. As diversas fotos apresentadas tem como matriz 20 fotogramas de 25 segundos de exposição realizados com uma Canon T3 . 3200 ASA. O telescópio utilizado foi um refletor de 150 mm f8 montado em uma HEQ 5 pro. O alinhamento polar ficou a desejar...  Os resultados são os mais diversos . Infelizmente onde se consegue um menor ruido se perde o colorido. Foram utilizados diversos programas e métodos na série de fotos abaixo apresentados. Os principais foram:
Deep Sky Stacker , Fitswork 4, Maxim DL, Photoshop e Noiseware...










            Infelizmente nem eu sei exatamente qual foi a peregrinação que foi realizada por cada um dos resultados. Trata-se de uma degustação as cegas. Após a captura das imagens e durante o processamento foram consumida duas Garrafas de Casillero Del Diablo Devil´s Edition e uma de um Pinot Noir da Miolo...  Assim como batizar DSO´s beber vinho também faz parte do corpo lúdico da astronomia amadora... 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

M15 e M2 : Cinema-Novo e Astrofotografia

         
         Estive o inicio da primavera afastado da astronomia. Me vi envolvido com a busca pelo vil metal e acabei engajado em um projeto cinematográfico de caráter altamente experimental dirigido por um antigo diretor cuja a história inicia-se  nos tempos do Cinema Novo.  Não bastasse que o texto e as ideias  remontassem loucuras que,  embora não fossem glauberianas, eram da mesma estirpe. O projeto ainda apresentava dois fotógrafos nem tão experientes quanto nosso "herr director" e nem tão de acordo um com outro  . A Primavera tornou-se uma estação do ano que se passava dentro de um cenário maior que o estúdio que o continha e com três sóis iluminando o mesmo apartamento.

            Geralmente quando as coisas ficam neste pé eu começo a beber e fumar demais e o casamento começa a azedar. Ao terminar nosso projeto eu me sentia pronto para passar alguns dias pendurados em um cabide.
            Mas me lembrei que astrofotografia é sempre a melhor diversão e que depois de três sóis fotografar dois aglomerados globulares que não conhecia seriam uma boa ideia para voltar a realidade . E assim parti atrás de M 2 e de M 15.
            Depois de tantas aventuras  a la " nouvelle vague" continuidade tornou-se  uma palavra sem sentido . Resolvi que vou apresentar os dois na ordem inversa da sua entrada no catalogo Messier.

                M 15 é conhecido como o "Grande Aglomerado de Pegasus". Visualmente é como um gêmeo de M 2. O termo "grande" no título demonstra claramente como  os habitantes de latitudes boreais mais elevadas são inustiçados em matéria de aglomerados globulares.
            Apesar de sofrer quando comparado com maravilhas como Omega Centauro , Tuc 47, M22 e outros aglomerados visíveis mais ao sul da terceira rocha a partir do Sol M 15 é cheio de surpresas e atrações cosmológicas. Uma das grandes atrações do horizonte norte no Rio de Janeiro durante a primavera.


Esta foto teve u tratamento diferente da de cima. é a primeira vez que utilizo o fitswork para empilhar as fotos . Na foto superior o empilhamento foi realizado no Deep Sky Stacker. O  fits oferece muito mais possibilidades para o pós processamento . Mas ainda prefiro o DSS para realizar o empilhamento e alinhamento inicial.



            Ele é um dos seis globulares visíveis a olho nu a partir de latitudes boreais mais elevadas , ainda que necessitando de condições excelentes para este feito.  ( os outros são M2, M 3 ,M 5 ,M 13 e M 92)  .
            M 15 é facilmente localizado a partir do "Grande Quadrado" que forma o corpo de Pegasus. A partir deste siga para as estrelas que formam o pescoço e a cabeça do mitológico cavalo e estendendo-se a linha que liga Biham a Enif mais 4o você chegará ao aglomerado. Uma pequena estrela de 6a magnitude habita a oeste de M 15 e juntamente com este simula uma estrela dupla. mesmo pela buscadora você perceberá que uma delas é uma impostora... Esta é M 15.
            M 15 nos conta uma história comum as entradas do Catalogo Messier . Este DSO foi primeiro observado anteriormente por alguém , catalogado posteriormente por Messier e foi resolvido e determinado como um aglomerado globular  por uma observação realizada por Herschel... No caso foi descoberto por Maraldi II em  7 de setembro1746 , incluído no Catalogo Messier em 3 de junho de 1764. Herschel o observou em 1783.
            Messier o descreve da seguinte forma: " Nebulosa sem estrelas entre a Cabeça de Pegasus e Equuuleus. É circular e com centro mais brilhante. Sua posição foi determinada em relação a 8 Equulei. Maraldi menciona esta nebula no Memoires de l´Académie 1746..."
            Curiosamente Maraldi II descreve a nébula como uma brilhante e nebulosa estrela composta de pequenas estrelas. Uma visão muito mais exata do que nos descreve Messier anos mais tarde.
            Como a maioria absoluta dos globulares M 15 é um membro ancião do conselho do universo e possui mais de 12 bilhões de anos. Mas apresenta características que o tornam único . É possivelmente o mais denso aglomerado globular de nossa galaxia. É um dos 21 globulares de nossa galaxia a ter passado por um processo conhecido como colapso de núcleo ( existem mais candidatos a terem sido submetidos a este processo...) e assim apresenta um núcleo central muito pequeno em comparação ao tamanho do globular como um todo. M 15 se espalha por mais de 175 anos luz e sua parte mais central se concentra em menos de 2 anos luz. Mais da metade da massa de M15 se reúne  em um raio com menos de 10 anos luz. É duvidoso se isto ocorre devido as estrelas serem tão concentradas ou se isto é a prova da existência de um buraco negro em seu núcleo. Foto realizada pelo Hubble parece desacreditar a existência do mesmo...
            Não bastasse tantas peculiaridades M 15 é um dos 4 ( os outras são M22 , Pal 6 , e Ngc 6441) globulares a possuir entre seus membros uma nebulosa planetária. embora fora do alcance de Telescópios amadores ( mesmo grandes) Pease 1 habita entre as estrelas de M15 . Foi levantada a suspeita da existência de mais um NP entre suas estrelas em 1976 por Petterson mas estudos posteriores levaram a sérias duvidas sobre a natureza deste  objeto.  
            Não bastasse tudo isto M 15 é também um dos globulares com o maior numero de estrelas variáveis e possuidor de uma bela coleção de pulsares. Alguns motorizados por estrelas de nêutrons duplas ( PSR 2127+11C). Um prodigo da natureza e um colecionador de raridades cósmicas. Antes que me esqueça: esta a 33.600 anos luz de nós

            Agora vamos a M 2.
            Este é bem mais difícil de se localizar que o anterior. Habitando a apagada constelação de Aquarius. " O Jarro" é um asterismo que ajudara você a localizar a peça. Procure ao Sul de Enif ( que é a estrela que marca o nariz de Pegasus) . Com a ajuda de um atlas estelar tente perceber uma ponta de lança formada pelas estrelas Pi Aquarii , Zeta Aquarii, Sadachbia e Sadalmelik. O conunto da obra aponta para M 2. Tenha paciência. É importante em quase tudo que faz...

            M 2 assim como seu companheiro neste post é um aglomerado bem denso e não espere resolver estrelas no seu núcleo com menos de 300 mm de telescópio...
            É um desafio para ser observado a olho nu mas ele vai se revelar com qualquer auxilio óptico. è um interessante objeto binocular e escanear a região em busca deste com um destes pode ajudar em muito localiza-lo com telescópios.
            Assim  como M 15 ele foi descoberto por Maraldi , catalogado por Messier e resolvido por Herschel. Uma daquelas coincidências que nada tem a ver com as leis fundamentais do universo : Maraldi descobriu M2 exatamente 14 anos antes de Messier redescobri-lo de forma independente e cataloga-lo na noite de  11 de setembro de 1760...
            Messier o descreveu assim:
"Nebulosa sem estrelas na "cabeça de Aquarius. O centro é brilhante e cercado por uma nebulosidade circular. Recorda a bela nebulosa que repousa entre o arco e a cabeça do Sagitário. É claramente visivel com um  telescópio de 2 pés. No mesmo paralelo que a Aquarii. " Ele comenta que Maraldi observou a mesma nebula quando em busca do cometa de 1746.
            Penso e não chego a nenhuma conclusão do  porque ele citar M 22 na descrição e este ser uma entrada tão posterior em seu catalogo... Mesmo porque reza a lenda que ele somente decidiu-se a realizar um catalogo de nebulosas a não serem observadas depois de descobrir M 3...
            Um pouco mais distante que o aglomerado anterior este reside a 37.500 anos luz de nós. Se espalha por 175 anos luz e possui cerca de 150.000 membros. classificado como do tipo II na escala Shapley ele é extremamente denso.
            Apesar de não possuir a mesma riqueza de "estranhezas" de nosso convidado anterior neste post ele apresenta sua quota de variáveis: 42.  Uma de suas características mais notáveis é apresentar uma excentricidade orbital elevada. Assim ele pode se encontrar a menos de 30.000 anos do centro galáctico em um momento e a mais de 150.000 em outro. Momento, em escalas astronômicas, é um período de tempo bastante longo...
            M 2 e M 15 são semelhantes na forma. Tanto que devido a método de captura utilizado durante a sessão e provavelmente herdado do cinema-novo eu cheguei a achar que as fotos de um eram do outro. Felizmente venho desenvolvendo o habito de realizar uma rápida visita ao site  "astrometry" para descobrir se ha alguma novidade ou estrela curiosa nas capturas . E assim não misturar alhos com bugalhos.

            As fotos são resultado de pouco mais de uma dezena de frames de cada um dos DSO´s em questão. Todas com 25 segundos ( 3200 ASA)de exposição e realizadas sobre forte poluição luminosa na "Sobreloja da Stonehenge dos Pobres". Acrescentei 5 dark frames e 5 Bias . Nenhum flat.  As fotos foram empilhadas no Deep Sky Stacker e posteriormente visitaram o Fitswork onde tiveram seu gradiente reduzido e alguns outros processos básicos foram aplicados. As imagens apresentam mais detalhes do que você deve esperar ver junto a  ocular . Utilizei o Newton na captura e na observação ( Um refletor de 150 mm f8).  Creio ser o mais perto que se pode chegar ao lema  "Uma ideia na cabeça e uma câmera na mão" quando se trata de astrofotografia.