sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Canopus e a Convenção de Genebra


                

               Com a lua cheia  e com o canteiro de obras ao pé do "Stonehenge dos Pobres" cada vez maior e mais claro eu tenho tido "dias" bem duros em busca de DSO´s.

            Mas retornando cedo do botequim e com o "Newton" ( um refletor de 150 mm) pedindo para brincar eu calço uma ocular 25 mm e tento localizar a Nebulosa da Tarântula. 

            Não sei se devido a a Lua , o canteiro de obras ou ao botequim eu não acho nada . Nem mesmo Beta Dourado , a estrela que indica o caminho para este alvo inter galáctico, consegui achar.

            Mas em um arroubo astronômico raro minha esposa me pergunta qual é a estrela brilhante que  se apresenta no ainda baixa no horizonte sueste. Olho e rapidamente realizo que é Canopus. Falo um pouco a respeito e a cara metade volta ao  seu habitual desinteresse pelo papo astronômico.

            Como ela ( Canopus)  já enquadrada na buscadora resolvo fazer algumas fotos da mesma. Fotografar estrelas brilhantes é sempre divertido . Não se faz necessário exposições muito longas e com o Newtoniano elas sempre apresentam " Spikes"  interessantes.

            E assim faço varias fotos utilizando diferentes asas e tempos de exposições.

            O alinhamento polar é , no máximo, uma aproximação.

             Como fotografei através de uma tela de proteção existe um efeito semelhante a um prisma que destrói os belos spikes que o Newtoniano realiza nas fotos.

Canopus

            Mas se por um lado este efeito atrapalha as fotos ele  revela cores que me levantam uma suspeita. Será que estrelas diferentes apresentam cores diferentes quando submetidas a este "prisma" de nylon ?

            Um experiência científica presume um certo controle. E aí a porca torce o rabo.

            Mas se  for um "ensaio de experiência"?

            É tudo que posso oferecer aos caros leitores ( pronto perdi os leitores "caxias"...) .

            Então resolvo testar a "hipótese". Coloco o Newton em posição e enquadro Alpha  Centauro. É  uma péssima opção. Trata-se de uma estrela dupla das mais manjadas. Mas sua altura no horizonte garante pelo menos alguma semelhança com a posição de Canopus. Só para constar o seeing estava bem ruim e não a resolvi ( separar as duas estrelas componentes...) nem com uma ocular 5 mm.  Mas mantendo um mínimo de dignidade eu utilizo a mesma asa e o mesmo período de exposição. E  assim o controle.


Alpha Cen


            Acontece que o ângulo entre o telescópio e a tela nunca será idêntico e assim consigo o  efeito de prisma mas o padrão dos mesmos é bem diferente.

            Para melhorar as coisas eu faço fotos respeitando os mesmos parâmetros usando Beta Centaurus . E Consigo padrões mais semelhantes que com Canopus.   


Beta Cen



            Com o auxilio do PhotoShop separo  os "arco iris" obtidos com cada uma das estrelas que foram submetidas ao "Prisma de       Nylon" ( Espero que estas me perdoem...).  E eles são diferentes. 


Da esquerda para direita: Alpha Cen , Canopus e Beta Cen. Percebe se claramente a diferença entre Canopus e Alpha. Em Beta cen ( a foto maior)  não se percebe muita coisa...  


            Lógico que não espero utilizar os resultados para determinar as composições químicas de cada uma das estrelas envolvidas. Afinal creio que o método utilizado seja proibido pela convenção de Genebra. Mas que foi divertido isto foi. E se não foi uma "experiência" foi um bom ensaio...

            A espectrografia é uma das ferramentas mais poderosas para o estudo das estrelas. Augusto Comte , o pai e a mãe do positivismo, certa vez disse que nunca seríamos capazes de determinar do que seriam feitas as estrelas . Graças a espectrografia isso tornou-se  uma afirmação que o autor deve se arrepender...



Comte


            Agora vamos falar a sério.

            E começar pelo começo é sempre um bom começo e assim vamos falar de Canopus.



            Canopus é uma estrela austral por excelência. Antes de se tornar lugar comum  a presença de bussolas em embarcações os pilotos a improvisavam como estrela polar ( desde que ao sul suficiente para vê-la). É a segunda estrela mais brilhante do céu.  

            Uma lenda que passeia por aí e que não achei nenhuma confirmação diz que Canopus já foi a estrela mais brilhante nos céus terrestres em três diferentes épocas ao longo dos quatro últimos milhões de anos. Outras estrelas aparecem como mais brilhantes durante relativamente curtos períodos de tempo durante os quias elas aproximam-se o suficiente para desbancar a grande dama. Há cerca de 90.000 anos Sirius se aproximou o suficiente para isto e pretende permanecer assim pelos próximos 210.000 anos. Mas em 480.000 anos Canopus voltará ao seu posto e permanecerá lá por 510.000 anos. A história é bastante suspeita mas é interessante suficiente para ser contada. Mesmo a Wikipédia avisa que isto é duvidoso. E minha velha Brittanica ( que ocupa toda a estante de meu corredor) não fala nada a respeito...

            De qualquer forma Canopus é a estrela intrinsecamente mais brilhante em um raio de 700 anos luz da Terra.

            Canopus é uma super gigante do tipo espectral ( olha o espectro aí de novo) F0.II ou F0. Ib ( Ib significa que é uma super gigante "menos luminosa")   e este tipo estelar é raro e pouco compreendido.  Um tipo que pode estar evoluindo em seu caminho rumo a uma gigante vermelha ou estarem extremamente distantes disto. Isto tornou extremamente difícil determinar qual seria o real brilho de nossa dama. E determinar sua distância. Esta só foi realmente confirmada nos anos de 1990 pelo Hipparchos ( The High Precision Parallax Precision Satellite). Atualmente sabemos que ela se encontra  a 310 anos luz da Terra (96 parsecs) . Anteriormente os palpites iam de 96 até 1.200 anos luz.

            Ela brilha 20.000 vezes mais que o sol.

            Estivesse ela no local de nosso Sol e sua corona se estenderia até 90% da órbita de Mercúrio.

            A temperatura de superfície é de 7350 K. Sua cor é  branco amarelado ou  amarelo esbranquiçado. Eu voto na segunda opção...

           

            Ela já foi descrita e nomeada por diversas culturas. Mas seu nome mais comum é associado aos gregos.

            Canopus é hoje a estrela Alpha de Carina. Carina já foi parte da antiga constelação de Argos Navis ( que foi esquartejada por Lacaille). Logo fazia parte do Navio que levou os Argonautas em sua missão. Mas o nome Canopus vem de outra lenda marítima grega .

            Canopus foi o piloto do navio do Rei Menelau que foi em resgate de Helena de Tróia .

            Outro nome comum e esporadicamente empregado é Suhail. Este de origem islâmica. É importante ressaltar que os antigos gregos não viam Canopus.   

            Quase todas as civilizações que residiram em latitudes austrais o suficiente possuem um nome e uma lenda para esta brilhante estrela. E assim podemos citar os Navajos , Chineses, Guaranis , Egípcios e mais um monte de civilizações e etnias...


           

terça-feira, 13 de agosto de 2013

As Híades: As Outras Filhas de Atlas

           Troquei meu computador faz pouco tempo e assim tive que resgatar minhas fotos e documentos do  falecido.  Neste processo achei diversas fotos que estavam perdidas no velho HD.
            Desta forma pude desfazer uma injustiça que há muito deveria ter sido  desfeita.
Canon 350D 300mm f5.6 exp. 15 seg. Asa 1600
            Localizei uma foto que fiz das Híades no começo de 2012 em Valberg. Uma das portas de entrada do Parque de Mercantour , no sul da França. Uma das maiores bio diversidades da Europa e um dos céus mais escuros do continente.  É também local de um"Planetário" muito especial...
            Depois de um belo jantar e diversas garrafas de vinho nacional em um modesto bistrô abandonei a família e os amigos e me enveredei por  uma pequena trilha subindo a montanha e me afastando das poucas luzes do vilarejo.  Esta me levou a cerca de 1500 m de altitude e no meio de uma noite nem tão fria e com o auxílio de um pequeno "tripé de ataque", emprestado por um amigo,  uma lente zoom de 75-300 mm @ 300 mm  com abertura máxima de 5.6 e utilizando minha velha Canon 350D fiz uma única exposição de 15 segundos do aglomerado mais próximo da Terra.  
            As Híades são as cinco meias-irmãs da Plêiades. Compartilham o mesmo Pai. Atlas. Este foi morar com suas irmãs mais famosas no firmamento.
            Segundo a mitologia elas foram enviadas para o firmamento por Zeus depois de morrerem de tristeza com a morte de seu irmão Hyas. Choraram tanto que  foram fixadas na cabeça de Taurus. E assim sua saída anual vem acompanhada de chuvas abundantes.  

            Localizar as Híades é muito simples. Basta localizar a constelação de Touro. Alpha Taurus (Aldebarã) é uma gigante vermelha facilmente visível. E as Híades formam um "V" ao redor desta. O conjunto é facilmente percebido a olho nu. Um truque para localiza-las : Siga a direção apontada pelas Três Marias rumo norte e você vai se deparar com as Híades . Se continuar "caminhando" mais um pouco na mesma direção você chegara até suas meias irmãs Plêiades. Desta forma as Híades residem entre  as "Três Marias" e as Plêiades. A maior reunião de comadres dos céus...
              O aglomerado se espalha por uma área enorme do céu e é melhor observado com  uso de binóculos. Use a menor magnificação possível. 
            As Híades se encontram há aproximadamente 153 AL do sistema solar.  Os quatro membros mais brilhantes do aglomerado iniciaram suas carreiras como estrela do Tipo A e já evoluíram para fora da sequência principal e atualmente se apresentam como gigantes vermelhas. São elas Gama, Delta, Épsilon e Theta Taurus. Junto com Aldebarã ( que não faz parte do aglomerado) formam a cabeça do Touro.
            O Diagrama HR do aglomerado nos diz que as Híades tem 625.000.000 de anos.
            Estudos recentes indicam que as Híades devem ter tido uma origem comum com o Aglomerado do Presépio ( M44).  Diversas estrelas da chamada "Corrente das Híades" se espalham para muito alem das fronteiras do atual aglomerado.
Outro tratamento. Mais uma "perdida" do antigo HD...
            Aglomerados estelares abertos dificilmente sobrevivem mais que um bilhão de anos.  O futuro da Hiades é , provavelmente,  perder ainda mais membros e massa ao longo da próxima centena de milhão de anos e  terminar reduzida a uma duzia de sistemas estelares . A maioria deste duplos ou múltiplos que continuarão expostos à forças dissipativas ao longo do tempo.

             E assim as Cinco Irmãs, filhas de Atlas, terão o mesmo destino das Sete Irmãs mais famosas e filhas do mesmo pai. 
             Atlas não deixou seguro de vida.
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sábado, 10 de agosto de 2013

Softwares Amplo Espectro




Comprei um novo  laptop. O meu antigo sofreu muitos baques e abusos nos últimos tempos. E com um tour amazônico ele realmente começou a apresentar sintomas de alguma doença tropical grave e desconhecida. Desta forma comprei um Pen drive e pesquei do HD o que realmente interessava e me conformei em manda-lo para o sacrifício.
      O meu novo lap é em tudo superior ao anterior e  fiquei bastante feliz com a nova aquisição. Após alguns dias de choque cultural causado pelos Windows 8 acabei me acostumando com o nova paisagem e também com o novo sotaque.
     Mas aí começa a trabalheira. Afinal meu computador é também astrônomo. E com o passar dos anos meu antigo lap tinha acumulado muito lixo em seu HD. Algumas dezenas de softs destinados a observação e a astrofotografia tinham sido instalados e em sua maioria eram apenas entulho. Apesar de agora possuir 1TB de espaço vazio no me novo HD não queria já começar entulhando a área de trabalho com diversos atalhos para programas que eu nunca usaria.
      Desta forma organizei uma lista dos softwares que eu quero  instalados em minha maquina e que são realmente uteis.
       Vou iniciar pelos Freewares. Seguindo a ordem dos downloads que realizei :

         Stellarium: Um programa planetário que deve ser conhecido de quase todos os leitores. É um programa fundamental para você planejar as suas observações e saber aonde procurar os objetos que lhe interessam. Uma descoberta interessante é que como fiquei muito tempo acomodado e não atualizei nenhum destes programas diversos melhoramentos foram realizados. O Stellarium especialmente se tornou um programa melhor. Os menus sobre DSO´s e estrela que se abrem quando se clica sobre um determinado objeto se tornaram muito mais completos. Um maior banco de imagens ( que agora também inclui  NGC´s interessantes além dos Messier´s...) foi implementado. Outra melhoria é com relação a possibilidade de se ver a imagem com diversas combinações de oculares , Barlows e afins... O programa se aprimorou em cerca de 1 ano ( talvez um pouco mais) .


          Outra melhoria é poder se passear pelo céu virtual utilizando qualquer uma das combinações de oculares. E assim pode-se ensaiar o Star Hooping para se localizar objetos mais difíceis
               Baixe em :  http://www.stellarium.org/


               •         Cartes du Ciel -  Outro programa planetário. Nunca consegui decidir entre este e o Stellarium. O CdC possui mais catálogos e um banco de imagens superior aos do Stellarium . Mas o primeiro tem uma apresentação mais bonita do céu. Acho que ambos acabam por se completar. Por isto ambos vão para o HD. O cartes du Ciel não evolui tanto desde a ultima versão que eu possuía instalada. Parece ter se acomodado mais. Mas ainda possui mais informações nas abas sobre DSO específicos e  todo o catalogo NGC apresenta fotos .

           Ainda que de baixa qualidade.   Ambos permitem controlar montagens computadorizadas...
           Baixe aqui:  http://www.ap-i.net/skychart/start



         Deep Sky Stacker - Um programa devotado a astrofotografia. Ele permite que você empilhe fotos e assim consiga melhorar a "Razão Sinal- Ruído" de suas fotos astronômicas. É um programa bem poderoso e fundamental para quem pretende praticar astrofotografia com alguma dignidade.


         Rot n´Stack- Semelhante ao DSS mas mais pé de boi . Ele aceita empilhar imagens que o DSS pode vir a recusar. Esta em uma nova versão que aumentou suas potencialidades e com a possibilidade de se utilizar Dark frames capturados por você ou auto gerados por ele tornaram suas fotos mais bem acabadas. Sua interface é mais amigável e ele é muto mais complacente com capturas de imagens mais mambembes que o Deep Sky Stacker ( DSS)

         Ainda na seara da astrofotografia eu baixei o IRIS. Este é um programa bastante poderoso e que poderia se comparar ao caríssimo MAXIM. Ele realiza todas as operações imagináveis . Desde permitir o controle da captura das imagens em sua câmera até o processamento final das imagens. Mas é bastante complexo e eu o uso quase que exclusivamente para reduzir o gradiente e a vinhetagem comum em fotos astronômicas.
         Baixe aqui:  http://www.astrosurf.com/buil/us/iris/iris.htm

  • Outro programa util , poderoso e gratuito com diversos recuersos para tratamento de astrofotos é o Fitswork.  Bom possuir embora já tenha sido mais fão dele. possui uma boa ferramenta para retirar gradiente e evitar flats frames...  
  • http://www.fitswork.de/software/


         Finalizando a coleção de freewares eu recomendo que se instale o Noiseware Community Edition. Ele permite que se diminua o ruido tão comum em fotos realizadas com ASA muito alta e  também o ruido térmico causado  em por exposições muito longas. Este apresenta também uma versão paga ( Pro) a qual permite você trabalhar com mais formatos ( Tiff ) . Na sua versão gratuita somente Jpeg é aceito...

       Baixe aqui:http://en.kioskea.net/download/download-439-noiseware-community-edition

Agora apresento alguns Softwares que não são gratuitos mas que são extremamente uteis para a pratica da Astrofotografia:


         Photoshop CS- O Photoshop é um programa não só importante para a pratica da Astrofotografia ( especialmente as ferramentas Levels e Curves...) como para a fotografia em geral. O Potencial dele é enorme e seus recursos são imensos. Na verdade sempre se pode descobrir algum recurso novo. O Photoshop é um programa caro. Embora não apóie a pirataria sei que é possível  obtê-lo de forma "gratuita" em sites com Kickass Torrent e Pirate Bay. Cuidado em ambos os sites. Você pode acabar  com vários invasores e ainda terminar sem o Photoshop. 
      Uma opção freeware é o GUIMP. Eu acho o Photoshop mais poderoso por algumas centenas de dolar... Mas é uma excelente opção.        http://www.gimp.org/




         Canon Utilities: É o programa que acompanha as câmeras Canon e que permite o controle da câmera a partir do computador . É a forma mais rápida de se controlar a aquisição de imagens e de se poder obter exposições superiores a 30 segundos.
         Digital Photo Professional - Outro programa   que vem " bundled" com as câmeras Canon. Permitiu você manipular fotos em RAW.
      Os dois últimos programas provavelmente você obterá facilmente na web.
     Acredito serem estes os programas necessários para fazer de qualquer computador uma plataforma útil para Astronomia em geral e Astrofotografia em particular. Claro que sua câmera deve ser uma Canon. Senão um pequeno ajuste se fará necessário... 


  •        Astrophotography Tools- É um parente do Canon Utilitiies envenenado para astrofotografia. Atualmente é o prrograma  que utilizo para as captturas. Sua versão gratuita posssi quase todas as funções liberadas. Muito bom.
       
      Provavelmente instalarei ainda o Registax. Pretendo um dia ter uma web cam para fotografia planetária...
    
   Outro programa que é interessante mas que depois de algum uso acaba perdendo o interesse é o Celestia.  Permite simulações . Ou o Universal Sandbox.
      De uma forma geral estes são os programas que acho interessante possuir em meu computador.
   Pessoas tem necessidades diferentes mas a coleção apresentada vai atender a maior parte das necessidade de astrônomos amadores.
       Sei que existem alguns outros programas que podem ser fundamentais para a pratica astronômica . Mas já no terreno da especialização. E aí cada um tem a sua... 

         Esta lista seria uma proposta " amplo espectro".

      

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Ngc 6067: Uma Joia Austral

            

          
             Ngc 6067 é um dos mais interessantes aglomerados abertos que conheço. Quando me iniciando na astronomia me deparei com ele meio que por acaso. Era uma noite de lua nova em Buzios e reparei uma leve nebulosidade ao longo da via láctea.  Utilizando meu antigo “Trucuçu” (um enorme binóculo de 80 mm com zoom e lentes “mercúrio cromo coated”.) eu apontei a besta para a região e fiquei boquiaberto. Emoldurado por varias estrelas bem brilhantes eu via um evidente aglomerado aberto bem concentrado e de muitos membros.

          Não tinha a menor ideia de que aglomerado se tratava. Adoro quando “descubro” algum DSO.

          Posteriormente fui procurar pelo tal no Cartes du Ciel. Rapidamente descobri tratar-se de Ngc 6067. A descrição com códigos de Dreyer que acompanha o mesmo é bastante representativa:

Descrição: Cl (cluster = Aglomerado)
   vB ( very bright)
   vL ( Very Large)
   vRi ( Very Rich)
   lC (creio ser Irregular cluster...)
   *10... (estrelas de 10a mag.)
   Fine Field (campo interessante)

            Como nunca tinha visto nenhum comentário semelhante sobre qualquer outro aglomerado (fine field) e achei muito apropriado fiquei com o aglomerado na cabeça e pretendi estuda-lo melhor e se possível realizar um registro fotográfico do mesmo. “Devil is on details”. O pequeno adendo na descrição do CdC deixou 6067 habitando algum lugar no meu imaginário HD cerebral.

            Mas o tempo se passou e ele acabou indo para a pasta de "arquivos perdidos para a claridade urbana”.
            Recentemente visitei novamente céus mais escuros e novamente percebi aquela condensação obvia no rio galáctico. E novamente utilizando um binóculo (15X70) eu visitei esta joia austral

            É um tesouro austral que reside na “Nuvem de Norma”.  Já disse por aqui que entre as joias da coroa austral Ngc 6067 seria uma peça importante. Um belo bracelete ou algo do gênero. Fosse o aglomerado um pouco mais ao norte e ele seria cantado em prosa e verso como os mais famosos M7 e M6.

            Finalmente voltei à batalha da astronomia urbana, mas trouxe desta vez a lembrança de que deveria fotografar esta peça. Afinal com magnitude 5.6 ele sobreviveria aos céus urbanos Bortle 8.  (Bortle é uma escala para determinar quão escuro é o céu que você observa). Afinal agora já possuo o equipamento e quase a competência para fazê-lo.  


            Localizar Ngc 6067 é bastante fácil em céus relativamente escuros. Mesmo em céus suburbanos é tarefa simples. Em condições extremas de poluição luminosa eu recomendo que você parta de beta Triangulo Austrinus (1) e marche pouco mais de um campo de buscadora (5º 42´) até localizar Iota Norma (2). É uma estrela dupla facilmente percebida pela buscadora. Ambas brilham há um pouco mais de 5ª magnitude. A partir de Iota caminhe um pouco mais de meio campo de buscadora (3º 25´) até Kappa Norma (3). Esta se apresenta para mim com um tom levemente alaranjado e com Magnitude 4.9 é evidente na buscadora (9X50). Com ela centrada e utilizada sua maior ocular Ngc 6067 estará em quadro com Kappa. Passeie ao redor de capa utilizando os controles finos de seu telescópio e não tem como não localizar o aglomerado.

            Ngc 6067 é um aglomerado relativamente pouco estudado, mas depois de muito caçar pela web localizei um paper bem completo sobre o mesmo. Este pode ser acessado aqui: 


                O aglomerado tem características bastante singulares. Com diversos membros avermelhados ele talvez mereça o titulo de caixa de joias até mesmo mais que o famoso aglomerado de Kappa crucis. Por uma ironia do destino este também é flanqueado pela Kappa de sua constelação.

            O contraste de estrela avermelhadas e azuis trazem um charme todo especial ao aglomerado e um diagrama HR bem interessante e diferente das Plêiades, que são um aglomerado aproximadamente da mesma idade de Ngc 6067. Diversa estrela do tipo K está presentes e uma Gigante G habita próxima a seu centro.

            A partir do diagrama podemos perceber algumas características marcantes em 6067:
  • ·         Um ramo bastante populoso de estrelas intrinsecamente azuis desviando “para cima” do marco zero da sequencia principal.
  • ·         Uma falha muito bem definida de membros no centro do diagrama.
  • ·         Uma coleção de supergigantes brilhantes logo acima da falha citada. Todas comprovadas como membros do aglomerado.
  • ·         Uma grande coleção de estrelas de diversas cores abaixo de 14ª mag.


As estrelas azuis deste ramo principal permitem calcular a idade do aglomerado como sendo contemporâneo das plêiades. Ou seja, algo em torno de 100.000.000 de anos.
6067 é, talvez, o único aglomerado da galáxia a conter um grupo tão grande de supergigantes do tipo K Ib. Esta diferença das Plêiades é tributada por um tal de Johnson a maior riqueza de tipos estelares que povoam 6067 em relação às irmãs mais famosas.

Ele possui mais de 200 estrelas confirmadas como membros verdadeiros do aglomerado e diversas duplas envolvidas.

O Aglomerado se encontra a cerca de 6000 anos luz de nós (1.91kpc).

Ngc 6067 14 exposições de 10 Seg asa 6400. Rot n Stack +PhotoShop+Noiseware (B/W)

Ngc 6067 é melhor observado com oculares de Wide Field já que o campo que o emoldura compõe o show. Com maiores aumentos é possível perceber mais detalhes da estrutura do aglomerado em si bem como algumas das duplas citadas. Mas se perde um pouco da graciosidade desta bem guardada joia austral que reside no coração da Nuvem de Norma.


domingo, 4 de agosto de 2013

Astrofotografia, Obras Publicas e Ngc 6025 e 6067

            
            Depois de céus amazônicos (Bortle 2) o retorno ao meu “canteiro de obras” aqui no Leblon me deixou bastante desgostoso. O péssimo habito de utilizarem luzes apontando para o céu em vez de para a obra continua a todo vapor. Mesmo depois de diversas visitas e de já ter explicado isto para quase todos os mestres de obras do projeto. As obras publicas deveriam ser baseadas no principio da eficiência previsto em lei. Como é habito em nosso país mais uma lei é rasgada.
            No meu negocio sempre se diz que quando se tem que escolher entre o bom, o rápido e o barato só é possível ter duas dessas variáveis. Por exemplo: Se é rápido e barato não pode ser bom...
            No sistema de obras publicas nacionais ocorre algo que supera qualquer lógica. As obras são lentas, caras e ruins... 
            De qualquer forma não posso me render ao poder publico e sua incapacidade. Moro muito próximo a nosso governador e este já parece ter entendido que o recreio acabou e que ele não se elegerá nem mesmo sindico de prédio daqui para frente. E desta forma me sinto realizando um exercício de desobediência civil enquanto planejo uma sessão de fotos de diversos aglomerados abertos que estarão desfilando pela minha janela.  E não corro o risco de tomar uma bala de borracha no meio da cara.
            Com os alarmantes graus de poluição luminosa este projeto não é fácil.  Preparo de véspera um plano de ataque. Com o Stellarium aberto em meu computador (que parece estar em fim de carreira...) eu percebo que partindo de Alfa Centauro, que é uma das poucas estrelas que resiste aos refletores patrocinados pelo meu dinheiro, e torcendo para conseguir perceber Beta Trapézio Australis e utilizando de “reza braba” para perceber alguma coisa no corpo de Norma eu imagino que tenho três aglomerados abertos lindos e bastante claros para vitimar. Seriam eles Ngc 6025, 6087, 6067. Como back up tenho Ngc 5662, bem perto de Alfa Centauro. Acredito nunca ter fotografado nenhum deles.
Área de Navegação
            Finalmente sabadão. A lua quase nova. Parto para meu plano. Começo pela manhã comprando pilhas para o motor drive e movendo moveis pela sala. Com a chegada de um novo rebento prevista para breve a casa se encontra de pernas para o ar e diversos móveis ocupam locais que não deveriam na minha “Stonehenge dos Pobres”.
            Pretendendo começar a observar por volta dos 21h00min h (quando a cara metade e a filha estariam concentradas na novela...).
Esculturas na Catacumba: Nijinski.

            Muito antes disto vou passear com minha filha pelo Parque de Catacumba e ter um maravilhoso steak tartar no Bar Lagoa. De volta  eu chego ao lar. E começo os trabalhos mais cedo.
Novamente o alinhamento polar. Assim faço uma aproximação razoável e me dou por satisfeito. Os aglomerados que tenho em vista são bastante claros. Todos eles entre 5ª e 6ª magnitude. Lembrava-me deles na Amazônia e todos eram evidentes a olho nu naquele paraíso de céu escuro. Aqui em compensação...
           Para testar o alinhamento polar resolvo fazer algumas fotos de uma velha conhecida. Ngc 4755, A caixinha de Joias de John Herschel. Embora uma descoberta de Lacaille o primeiro a associar seu colorido às pedras de uma caixa de joias foi “Herschel, o filho”.
            De novo (como se fosse para eu lembrar...): todos os aglomerados aqui citados são bastante claros e se o alinhamento me permitir algo como 15 segundos de exposição e utilizando 3200 asas terei um registro bastante fidedigno do que se poderá ver pela ocular... Aqui no Nuncius a missão é sempre esta. Nada muito além do que se pode observar visualmente já me deixa bastante satisfeito.
            Claro que as coisas não correm tão bem e depois de mais alguns (muitos...) ajustes me parece possível fazer algumas fotos com um mínimo de dignidade.
RnS  14 exp.X10seg.  6400 asa

          



Caixa de Jóias DSS+ Photoshop 


          Uma das maiores qualidades da Canon T3 sobre a minha antiga350D é que posso utilizar ASA mais alta nas fotografias. E assim acabo com exposições de 10 segundos e ASA 6400. A nova câmera suporta bem o ruído gerado por este abuso.
            Mas não deixarei que a Caixa de Joias roube a cena. Já a fotografei anteriormente e a quem interessar possa clique aqui para um post só dela ( o qual prometo melhorar em breve...)
            A poluição luminosa se encontra em níveis que nunca imaginei. Mas seguindo meu plano e com muita atenção junto à buscadora acabo por localizar Ngc 6025.
            Já tinha tentado fotografa-lo. Mas os resultados foram abaixo da autocrítica. E Assim fico muito feliz por ter obtido um resultado um pouco mais honesto desta vez. Na verdade o fotografei duas vezes. A poluição luminosa esta tão brava por aqui que iniciei todas as navegações (“Star Hooping”) partindo de Alpha Centauro.  Para chegar em 6025 eu calculei que deveria marchar dois campos de buscadora para o Norte e um pouco menos de um campo para leste.  E depois torcer para que o mesmo estivesse por perto. Dificílimo de perceber pela buscadora. E Assim era chutar e olhar pela ocular 25 mm. Balançar um pouco para lá e para cá e depois de uma dezena de tentativas conseguir entrar na vaga. 
RnS 14 exp X 10 seg


          
DSS + PS
  Faço logo a substituição da Ocular pela câmera e realizo 14 fotos rapidamente. Depois me dou por satisfeito e num rápido balançar e num tremendo golpe de sorte e acabo navegando as cegas e muito rapidamente até Ngc 6087. Mas não vai ser desta vez que ele vai ser fotografado. Um descuido, uma trava solta e perco-o. Tento retornar, mas já é tarde demais. Depois tento refazer o caminho a partir de Alpha Triângulo Austrais. Mas o caminho só me leva de volta até 6025 e acabo por fazer mais fotos deste desta vez com a câmera em outra posição em relação ao tubo do telescópio.
            O DSO em questão estava nos meus planos. Já o havia observado anteriormente. Mas se me recordo bem jamais com o “Newton” (um refletor 150 mm). Mesmo com tanta PL ele se mostra mais “completo" que no meu pequeno refrator ou em qualquer de meus binóculos. Ela ocupa uma boa área da ocular 25 mm. É o que eu chamaria de um aberto típico... Nem barro nem tijolo. Bastante brilhante ele é um bom alvo para qualquer instrumento. Em condições de forte poluição luminosa ele é bem discreto na buscadora.
            Ngc 6025 é um aglomerado galáctico bastante estudado. Foi descoberto por Lacaille em seu levantamento dos céus austrais realizado entre 1751 e 1752.  Localizado dentro das fronteiras de Triangulo Australis ela é também conhecida como o Aglomerado de Lambda Circinus. Um mistério a ser respondido pela IAU. Seu membro mais brilhante é a estrela HD143448. Esta uma “ Blue Straggler”. Uma estrela que é mais jovem que a maioria dos membros do aglomerado. O Processo de formação de “Blue Stragglers" ainda é objeto de estudos. A idade estimada do mesmo é de 84 milhões de anos. Sua modulo de distancia é de 9.08_+ 0.006 (psc). Sua Magnitude é de 5.10 e ele se espalha por cerca de 12´ de céu. Entre as joias da coroa austral eu diria trata-se de um pequeno adorno. Talvez um delicado broche.
            Mais informações e diversos papers podem ser encontrados em:

            Mas a noite não acabou.  Retorno pela enésima vê para Alpha Centauro e com esta centralizada na buscadora parto saltitando pela poucas estrelas que resistem aos refletores patrocinados pelo nosso dinheiro espero chegar ao “perdido” Ngc 6087. Conforme o previsto chego perto. Ngc 6067 fica pertinho de Kappa Norma.  É um belo campo estelar e o pequeno aglomerado é bem concentrado. È a estrela da noite. Também creio que é a primeira vez que o observo com o refletor. E certamente a primeira vez que o fotografo.   Kappa [e bem evidente na foto logo abaixo do aglomerado]. Outras estrelas relativamente brilhantes o emolduram e o mesmo apresenta um belo colorido com diversos membros avermelhados.
RnS 18 exp X10 seg. ASA 6400

         
DSS + PS
  
        Ngc 6067 é uma descoberta de James Dunlop. Apesar de seu brilho só foi identificado em 1826.  Brilhando com magnitude 5.6 e ocupando 13´de firmamento ocupa uma vizinhança nobre na Via láctea e seu campo estelar (com Kappa norma envolvida) é uma bela visão com o auxilio de qualquer instrumento ótico. Localizado a 1800 parsecs o aglomerado deve ter meia idade com diversos membros já se afastando da sequencia principal. Entre as joias da coroa eu o consideraria um belo bracelete.
            Mais sobre a peça em:
             Há algum tempo sem fotografar DSO eu me esquecera de alguns truques que são de grande valia. O primeiro é marcar o ponto de foco da câmera  na cremalheira. Para isto uso um pilot.
Marcando o foco...
            E o segundo é travar o espelho da câmera suspenso. Basta para tal utilizar o “Live View” da câmera. Embora você talvez não veja nada no LCD você vai evitar muitas vibrações na câmera e na sua foto
               Depois de lutar contra a absurda poluição luminosa e o desperdício publico eu acabo me dando por muito satisfeito. Fiquei muito impressionado como vai mal a situação por aqui depois de meu passeio amazônico. Todos os aglomerados que suei para localizar por aqui eram evidentes a olho nu na Aldeia Kaunã.
Apesar de tudo e de um alinhamento polar no limite do aceitável a noite acabou rendendo bastante e dois novos aglomerados foram fotografados e uma velha conhecida me deu uma canja. Não levei as fotos para grandes peregrinações durante o pós-processamento. E assim novamente percebo que em se tratando de uma astrofotografia mais “mambembe” o Rot n´Stack não faz feio. Pela primeira vez utilizei um dark frame que eu mesmo obtive nele (em vez do auto gerado). O resultado meu pareceu bem melhor.  O dark frame "auto gerado" tem forte desvio para o verde.
Já o Deep Sky Stacker, embora mais poderoso, demanda mais tempo de computador e maior capricho na captura das fotos. E para extrair dele o máximo são necessários outros programas no HD. Especialmente se pretende obter mais cor e saturação na imagem gerada por este.

Foto do DSS sem nenhum tratamento posterior.

O resultado mais obvio é que as imagens obtidas via RnS são mais semelhantes ao que se observa na ocular. 

Como dizem os montanhistas: “Desistir nunca. Retroceder jamais.”.