segunda-feira, 30 de maio de 2016

Astrofotografia, A Lei de Murphy, Shackleton e Clark


                " Qualquer coisa que possa correr mal, ocorrerá mal, no pior momento possível"
                Este epigrama acima traduz a Lei de Murphy. Esta foi elaborada  ( segundo a lenda) pelo engenheiro aeroespacial Edward A. Murphy. Na verdade é uma elaboração do que este disse depois de um experimento a fim de testar a tolerância do ser humano à gravidade -  "Se um homem tem uma chance de cometer um erro ele o cometerá."
                Posteriormente John Stapp , um brasileiro "onacirema",  sintetizou a formula :  " Se alguma coisa pode dar errado, ela dará."
                A fim de testar a verdade da lei parti para Búzios no feriado de Corpus Christi mesmo com uma previsão metereológica "meio nublada". Segundo diversos fontes a noite de quinta para sexta feira apresentaria condições para a pratica astronômica. Segundo o 7 timer (meu site metereológico favorito) a cobertura de nuvens não chegaria a 20% nenhum momento da noite. Depois de uma tarde maravilhosa na Praia de Geribá eu estava com tudo a postos as 18:00 horas. Pouco depois disto pretendia utilizar Theta Carina ( a estrela mais brilhante nas Plêiades do Sul) para realizar  meu alinhamento polar. Enquanto aguardava este momento fazia uma costelinha na brasa para alimentar meu povo. Tudo corria bem , a costela já estava servida e eu pronto para aproveitar o período antes da Lua nascer para encarar um turnê pelo aglomerado de Coma-Virgo em busca de diversas galaxias. Faltando poucos minutos para que Theta cruzasse o meridiano o tempo nubla.  Se não completamente pelo menos o suficiente. E lá se foi a chance de realizar um alinhamento polar preciso.Ponto para Murphy.
                Em Búzios, geralmente,  consigo um alinhamento pelo menos satisfatório ( sem grandes pretensões fotográficas) por aproximação. Basta alinhar a cabeça "quase" transversalmente ao muro.  Depois é só alinhar o Synscan de Mme. Herschel ( minha cabeça equatorial HEQ 5 Pro) para que esta localize ,ou quase, os DSO´s que quero visitar.  Agora Murphy vem sustentar sua hipótese pessoalmente e cada vez que escolho uma das estrelas oferecidas pelo Synscan esta se esconde entre as nuvens. O 7 timer já esta sendo chamado de Gepeto...
                Depois de muita insistência consigo um alinhamento razoável utilizado Acrux e Alpha Centauri. sendo estrelas muito próximas e com Alpha Cen ainda baixa no horizonte o "go-to" não fica uma maravilha. Murphy botando para quebrar.
                Nesta primeira noite e com Marte quase na oposição eu acho que vou ficar apenas pelo sistema solar . Mas mesmo Marte , Saturno e a Lua  parecem estar enconluiados com o tal de Murphy. O seeing péssimo e as nuvens entrando e saindo. Em uma exceção somente para comprovar a regra acabo conseguindo uma captura que ainda que "rústica" pelo menos aceitável de uma Galaxia das mais interessantes e pouco visitada na margem sul de Virgem. Já nas vizinhanças de M 104 . Ngc  4697.

                Depois disto a coisa desanda de vez e Murphy me faz encontrar uma garrafa de White Horse no armário da cozinha.
                Nas noites seguintes o 7 Timer se mostra preciso e o tempo permanece aberto a tarde somente para nublar assim que ameaçasse escurecer.
                Finalmente chega o domingo e o dia desponta radiante. Depois de um tarde inteira de praia chego em casa pronto para desarmar o acampamento e partir rumo a lar. Murphy deixa claro quem é que manda. A noite anoitece limpa e seca.
                Em ato de revolta e disposto a desafiar o engenheiro aeroespacial já falecido  eu tiro o Newton , Mme. Herschel e todos os "queri quéris" necessários para tentar tirar o atraso entre 18:00 e 20:30. Astrofotografia as pressas. 

3228

                Finalmente parece que Shackleton reencarnou e veio  contrariar Murphy.
                O  Lei de Shackleton  diz que " quando tudo parece perdido ainda ha uma chance".  Foi elaborada durante o fracasso mais bem sucedido da exploração humana sobre a terra. Shackleton e sua tripulação naufragaram as margens do continente antártico no ano de 1915. Daí seguiram-se dois anos de aventuras onde tudo parecia perdido. Mas no final voltaram todos sãos e salvos ( um homem morreu de ataque cardiaco) para a Inglaterra.  Parece que a lei de Shackleton foi elaborada pelo fotografo da expedição Frank Hurley. Este não só sobreviveu como conseguiu salvar as placas de vidro emulsionadas que registraram a aventura sem as velar e sem que Shackleton as jogasse fora. Ele parece ter se inspirado nas palavras de seu capitão: " Jamais para mim a bandeira abaixada, jamais a ultima tentativa."   Recomendo que leiam "Endurance: ALendária Expedição de Shackleton a Antártida" e cheguem as suas próprias conclusões sobre a veracidade ou não da Lei de Shackleton.

Plêiades do Sul


3115- Galaxia do Fuso

                A noite aberta e sem tempo para esperar por uma estrela guia para realizar o alinhamento polar e menos ainda para realizar o odioso "método do Drift" monto tudo em menos de 15 minutos.   Quando tudo esta pronto para dar errado realizo um alinhamento de Synscan que nunca tinha tentado.Acrux e Alphard. Boa escolha. Em minutos tenho tudo que peço dentro do campo de minha ocular 25 mm.  Alphard é uma bela estrela avermelhada e a mais brilhante em uma bela área de céu ( Alpha Hydra) . Uma boa escolha para alinhar o go-to.  Shackleton vai dando um pau em Murphy.
                Em uma rápida sucessão consigo abater meu tão necessário 3228 ( o ultimo aglomerado ) Lacaille que precisava refotografar ois tinha perdido as fotos realizadas) , as Plêiades do Sul,  M 64 , Ngc 3115 e creio que M 87. Mas  ainda preciso confirmar esta  e o Astrometry esta fora do ar ha alguns dias. Murphy esta ferido porém não morto.
M 64- Galaxia do olho roxo

                As fotos não são nenhuma "brastemp". Mas são um belo registro da capacidade humana de insistir.
                As nove horas pego a estrada e antes de meia noite estou no Rio. Nenhum trânsito.
                Murphy deve estar dando pulinhos na tumba. E Clark foi cremado.
                A Lei de Clark dizia: " Murphy era otimista".
       


terça-feira, 24 de maio de 2016

Ngc 4388: Uma Galaxia Seyfert em Virgo e o Rosto de Harrington

            

                 Ngc 4388 poderia se identificar com o papel de de Randlle Patrick McMurphy no clássico filme de 1976 " Um Estranho no Ninho". Este foi interpretado por Jack Nicholson. McMurphy é um vagabundo que ao ir em cana é forçado a trabalhar. Simula ser insano para escapar de tal sina e vai baixar em um hospital psiquiátrico. Lá  ( The Oregon State Mental Hospital)  ele entende que as coisas não são tão simples.
                4388 é como um estranho no ninho. Ela foi a primeira galaxia Seyfert descoberta no aglomerado de Virgo. Mas como já sabemos "loucuras são diferentes". E galaxias Seyfert também.
                No inicio dos anos oitenta ( 1981) e 5 anos após a morte de R.P. McMurphy ( adoro fazer spoiler..)  M.M. Philips e D.F. Mallin , do Observatório Anglo Australiano apresentaram um artigo introduzindo Ngc4388. "  Ngc 4388: A Seyfert 2 galaxy in the Virgo Cluster".
                Neste eles explicam que novas observações fotográficas no espectro visível e espectográficas revelam que esta é muito provavelmente uma espiral barrada peculiar. SB(s) pec. E quase certamente um membro do aglomerado de Virgo. Seu núcleo apresenta uma linha  estreita de emissão e altamente excitada que apesar do baixo brilho se encaixa perfeitamente nos padrões de galaxias Seyfert do tipo 2. Eles assumem que devido as observações realizadas em diversos espectros ( Raio X, Visual e IR) ela se encaixa perfeitamente nesta classe de objeto.  Colocam ainda que a descoberta de duas galaxias Seyferts  no Aglomerado de Fornax demonstram que  a existência destas em aglomerados parece ser mais comum do que se supunha.
                Localizada próxima ao núcleo do Aglomerado e próxima de M 86 e M 84 ela se apresenta praticamente de perfil para nós o que torna sua classificação difícil. A descoberta de linhas de emissão altamente excitadas no núcleo de 4388 foram percebidas pela primeira vez ( Rubin , fords e Robin) em 1971. Sramek realizou a primeira detecção de Radio em 1975 e praticamente selou a identidade de nossa convidada.
                Ngc 4388 apresenta ainda outras características notáveis. Ela apresenta uma população estelar mais jovem do que seria de se esperar de uma espiral tão próxima ao núcleo de um aglomerado. Diversos trabalhos recentes demonstram que a interação de galaxias próximas ao núcleo de aglomerados acabam por tornar espirais ( normalmente com grande produção estelar em seus braços) em um ser intermediário entre espirais e lenticulares. Seriam estas "espirais passivas" onde não surgem estrelas jovens em seus braços. Estas teriam seu gás "roubado " para o meio intergaláctico devido a encontro com galaxias mais maciças ( geralmente elípticas).
                Ngc 4388 é uma das galaxias amostradas por  Hugh H. Crowl e Jeffrey Kenney ( Yale Univerity) em seu paper "The Stellar Populations on Stripped Galaxies in the Virgo Cluster" (2008). Neste ela apresenta ainda mais características notáveis . Parece possuir uma população mais jovem fruto de intenso nascimento estelar a cerca  de 200.000.000 de anos. Nada comum para galaxias que perderam seu gás . Novamente " Cuckoo´s Nest".
                Apesar de ser uma galaxia bem estudada ela curiosamente passa ilesa na maioria dos guias observacionais mais tradicionais. Possui apenas uma discreta porém intrigante passagem em " Cosmic Challenge" de Harrington.  Em seus capitulo de desafios para pequenos telescópios ele apresenta uma versão estendida da famosa "Corrente de Makarian". Este nome vem do astrofísico russo Benjamin Makarian o qual publicou um artigo intitulado " Physical Chain of Galaxies and its Dynamic Instability" publicado em 1961 no Astronomical Journal.  Neste ele discute que este arco de gaklaxias não poderia ser uma obra do acaso e que estas ( inicialmente) 8 galaxias formavam um sistema fisico real. Posteriormente e depois de alguns levantamentos as oito galaxias originais foram acrescidas de mais alguns membros próximos e assim chegando a mais de uma duzia de membros.
                Ngc 4388 é um destes novatos.  Harrington ainda destaca que entre os membros originais de Makarian estão Ngc 4435 e 4438 , Conhecidos como " The Eyes". Mas que ele se sente realmente observado por um outro asterismo galáctico  onde M 84 e M86 seriam os olhos , a discreta e elíptica Ngc 4387 o nariz e Ngc 4388 formando a boca. Um rosto escondido em Virgo. Doravante "O Rosto de Harrington".
O Rosto de Harrington

                Mas depois de muito pensar e rever as coisas eu fiquei com a pulga atras da orelha. Ngc 4388 é bem obvia mesmo em pequenos telescópios. Makarian não a inclui na sua lista e apesar da sua localização ela não necessariamente é um membro da Corrente de Makarian. O paper de Mallin é claro em deixar duvidas ( eu sei que é uma antítese . Mas...) sobre 4388 ser membro do Aglomerado de Virgem . "Tudo indica" não vale...
                M 86 é a xerife destas bandas de Aglomerado. E é também uma das poucas galaxias com blueshift conhecidas. Na verdade um dos maiores blueshifts conhecidos . Ao contrario da maioria do universo ela se aproxima de nós . Em rápida pesquisa descubro que  o redshift ( que no caso de M 86 é negativo...) é completamente distinto do de 4388. Isto leva suspeitas sobre ambas navegando no mesmo barco. De novo as coincidências  e  as tais leis fundamentais do universo.  Como a astronomia os posts no Nuncius Australis estão sempre em construção e assim continuo buscando por mais dados.  A quem interessar possa: z de M 86 = -0,000814 . E z de Ngc 4388= 0,008426. 
                Apesar de diversos papers a seu respeito a distancia de 4388 é alvo de discussões . E não achei nada sobre seu verdadeiro tamanho. E assim pratico a nobre arte do "chute culto". Pelas fotos que tirei  calculei seu tamanho aparente próximo a 4´ de arco. Seguindo a formula apresentada por O´Meara em "The Messier Objects" chego até  24 mil anos luz.  Muito pouco...  Depois através de um método hermético e que não conto nem sobre tortura chego até 70.000 anos luz. Isto aceitando que Ngc 4388 esta mesmo a 60.000.000 anos luz de nós.  Seguindo o Simbad ( diâmetro aparente 3,7) ela será um pouco menor . E segundo a Wiki ( diamêtro aparente 5,6) ela será m pouco maior.
                Observar  Ngc 4388 é um exercício interessante. Seu núcleo é bem evidente. Com M 86 em quadro ela estará lá de forma discreta. A face proposta por Harrington é visível. ( O nariz é difícil de ser percebido.)  Com visão periférica ela se apresenta como um leve esfuminho alongado e levemente ovalado. Ela foi primeiramente observada por William Herschel em 17 de abril de 1784.  
                Como Ngc 4388 não é exatamente uma queridinha localizar a descrição de Herschel sobre nosso alvo não foi tarefa das mais fáceis. Localizar e se entender com o " Catalogue of One Thousand new Nebulae and clusters of Stars"  publicado no Philosophical Transactions Vol.76 não é mole não. Inglês "royal"  do sec. XVIII  não é exatamente um discurso da Dilma. Uma vez com uma cópia on line obtida depois de alguma pesquisa me cabe descobrir quem seria a entrada equivalente a Ngc 4388 . Felizmente o Cartes du Ciel , as vezes , colabora. Ngc 4388 é H II 168.  E rapidamente descubro que o nariz do "Rosto de Harrignton" ( Ngc 4387) é H II 167. A descrição de Herschel de ambas esta unida por chaves:  " Two Nebulae.   The Moft f, E."
                Tentando traduzir  e checando as legendas no inicio do catalogo chego a isto:
                " Duas Nebulosas . A mais forte relativamente extensa".
                A leitura do texto de Herschel é sensacional. Ele inicia nos contando sobre seu equipamento e as dificuldades para mapear suas nebulosas. Não haviam ainda cabeças equatoriais e a técnica de construção de telescópios estava nos primórdios. Herschel literalmente praticava astronomia e A a Z. Do espelho até nebulosas nunca antes avistadas. E ainda achou tempo para descobrir Urano e compor varias peças musicais...
                               

                Fotografar 4388 foi fácil. Ela vem no anzol quando o jogamos nas águas de Makarian. Sendo um objeto pouco extenso seu processamento foi realizado através doo empilhamento de diversas fotos onde empreguei a técnica de drizzle no DSS. Posteriormente visitei o photoshop. Diria que os resultados foram bem rústicos.  Mas certamente revelam detalhes que Herschel não viu. A estrutura espiral parece evidente. Mas a barra não. E seu núcleo bem brilhante de Seyfert parece mais obvio do que eu poderia imaginar pela opinião  de Phillips e Mallin em relação a fotos feitas nos anos 70...
                Ngc 4388 e o"Rosto de Harrington" são uma observação muito interessante . E como 4388 é um objeto de Herschel que escapou de forma inexplicável das listas "Herschel 400" e "Herschel II" sua observação tem um gostinho ainda mais especial. 

                Uma bela novidade...               

sábado, 14 de maio de 2016

Ngc 4945: A Galaxia da Pinça

               


              Patrick Moore , embora pouco conhecido no Brasil , foi um dos maiores divulgadores da astronomia de todos os tempos . Pilotou o o "The Sky at Night" ( um programa sobre astronomia ) durante 56 anos.  Isto faz dele um membro do Guinnes e sonho inimaginável no Brasil. Imaginem um programa devotado a astronomia na Globo e indo ao ar durante mais de meio século...
                Especialista na observação lunar ele criou um Catalogo de DSO´s em 1987.  Como ele não poderia batizar suas entradas com a letra M ( propriedade de Messier desde o sec. XVIII) ele utilizou o nome de familia de sua muito chegada mãe. Nasceu o Catalogo Caldwell. Sendo este um popstar viajou pelo mundo todo e diversas de suas entradas são joias da coroa austral.
                Ngc 4945 é também C 83.  Trata-se de uma galaxia espiral barrada (SBcd) que habita na constelação de Centauros. Apresentado-se quase de perfil para nós e com uma magnitude de 8.5 ela é um alvo fácil para telescópios amadores. Ou pelo menos deveria ser. Com um diâmetro aparente de quase 20´ as coisas não são tão fáceis como parecem. Seu brilho de superfície de 14.0 percebe la visualmente é algo viável somente em céus bem escuros. Debaixo destes ele será percebida mesmo com pequenos binóculos.
                Observar e fotografar 4945 foi uma aula digna de Sir Patrick para mim.

                Localizar a galaxia não chega a ser difícil já que a mesma se encontra no mesmo campo ocular de Xi Centaurus. Esta é uma fácil estrela dupla e como ambos os membros são facilmente separados ( bem separados...) e percebidos mesmo em pequenas buscadoras   chegar a nosso destino é simples. Um pequeno dever de casa com auxilio do Stellarium ou qualquer outro programa garantirão que você chegou a seu destino.
Dever de casa


               Uma vez com tudo dentro do quadro e no esquadro cabe a você perceber a discreta  e grande área levemente diferente do fundo do quadro. Talvez em céus mais escuros que o céu bortlle 7 que observei a maravilha ela seja mais evidente. Em céus suburbanos claros ela é pouco mais que um gradiente entre o céu e o céu...
Um unico frame de 25 seg sem nenhum tratamento. É próximo do que você vai ver na ocular. Depois de se concentrar bastante...

                A primeira lição:  Galaxias não são alvos fáceis. Você muitas vezes esta no lugar certo e com estas no campo da ocular mas não as percebe. Sua observação esta no região do cérebro responsável pelos sentimentos e não pela visão...
                Certo de possuir ela em campo e com um " felling" de que algo mais habita a região do espaço que estou vendo além de estrelas eu decido fotografar.
                Com Xi me ajudando a garantir o foco programei a câmera ( usando o Canon Utilities) para realizar 40 exposições de 25 segundos com 3200 asa. Logo na primeira foto percebo que ela esta lá. Mas ainda assim discreta.
                A galaxia é enorme e cobre mais de um quarto do campo de sensor da Canon T3 ( 63´X 42`) .
                Depois da captura e certo do que estou vendo volto para a ocular e com minha 17 mm .  Com  70 X de aumento percebo melhor sua presença visualmente. Depois de um bom tempo namorando e com os olhos bem adaptados começo a perceber alguma coisa. . A região que poderia ser a piteira do charuto  surge mais brilhante e talvez com algum indicio de núcleo. E onde habitaria o brasa seria um charuto quase apagado. Uma discreta região mais escura comparece como se o charuto estivesse  rasgado próxima a brasa.   Tudo isto  sendo capturado em uma parte do cérebro desconhecida.Seu apelido (creio que invenção de O´Meara) é "The Tweezers Galaxy". A Galaxia da Pinça. Eu acho ela mais parecida com uma guimba de cigarro mal apagada. Mas não poderia usar isto como título do post...
                Ngc 4945 é uma das galaxias do Grupo de M83. Temos visitado e registrado a região com uma certa frequência nos últimos meses aqui no Nuncius Australis. Outra parceira do grupo é Centauros A . Sua relação com esta foi responsável por  mais uma daquelas história quixotescas na astronomia que encantam ao autor. Talvez devido aos meus tempos de escalador  ou a uma identificação espiritual os "Conquistadores do Inútil" são sempre vistos com simpatia por aqui.
                Um dos meus livros de cabeceira é " Astronomy: the Structure of the Universe". do Kauffman II. Minha edição é de 1977. Foi presente de um grande amigo meu e Doutor e Professor de fisica  da PUC R.J. Naqueles tempos o nosso Dom quixote ainda lutava contra moinhos , o Big Bang , Hubble e o quase todo o resto da comunidade científica... Seu nome : Halton "Chip" Arp.
                Em um dos capítulos finais do livro de Kauffman ( para lá de datado...) ele fala o seguinte: " Correndo o risco de severas criticas de seus colegas , este escritor vai apresentar  o contorno de uma série de observações e teorias que são chamadas alternativamente  por outros de lixo , insanidade , _________*, astrologia , as forças do mal ( termo na época utilizado para o "lado negro da força") e heresia.
                Ele se refere as ideias de Narlikar , Hoyle e Arp.
                Estes defendiam que o redshift de quasares (ainda não existiam AGN´s ") eram intrínsecos e não resultado de suas distancias. Galaxias ejetariam quasares e estes se tornariam galaxias. Matéria surgiria assim . E matéria jovem tem um redshift associado. Nada de Big Bang.
                Ngc 4945 teria sido "ejetada" de Centaurus A. Esta uma radio galaxia e um parente de quasares  para nossos caçadores de borboleta.
                Arp era um mestre do mistério e achava que toda galaxia "diferente" que encontrava tinha um quasar debaixo da capa.  Ela localizava filamentos de gás conectando  radio galaxias ( ou quasares) a galaxias ditas "normais" milhões ou bilhões de anos distantes . Segundo a hipótese existiriam galaxias mais "comuns" que outras.  Radio galaxias como Centaurus A criariam galaxias...  Ngc 4945 seria "filha de Centaurus A.  Arp determinou que jatos de raio X nascedouros em Cen A apontavam diretamente para 4945.  Mas ambas são parte do mesmo grupo e possuem redshift semelhante.
40 frames 20seg 3200 ASA. Rot n Stack +fitswork e photoshop


                A imaginação é uma poderosa ferramenta para ciência. Mas não acredite nela cegamente. Sonhar não custa nada...
                Desta vez por uma coincidência que não sabemos se tem algo a ver com as leis fundamentais do universo ocorre que Centaurus A e Ngc 4945 são ambas galaxias Seyfert.  Mas o que não sabia Arp é que existem dois tipos de galaxias Seyfert,Galaxias com núcleo ativo ( como a Seyfert) são denominadas de varias formas . Fruto da posição  destas em relação ao observador. Tudo é relativo..
                Fotos de um tempo que tanto Kauffman quanto Arp não habitavam ( feitas pelo Hubble Space Telescope) indicam que de fato ha uma especie de gasoduto entre ambas. Mas este  fruto de um encontro entre ambas a mais de 100.000.000 de anos. Hoje em dia estudos indicam que estes são mais comuns que  se supõem em aglomerados galácticos densos.  Ngc 4388 e M86 apresentam estrutura semelhante...
Um crop . DSS+Fits+ Photoshop

                Ngc 4945 foi descoberta por James Dunlop  em  1826 durante seu pioneiro levantamento dos céus austrais.
                " Bela é longa nebulosa com cerca de 10´ de comprimento e 2´de espessura formando um angulo com o meridiano cerca de 30(sudoeste) e [ nordeste] sua mais brilhante e larga é mais próxima da extremidade sudoeste que do centro e gradualmente diminui de brilho e largura em direção as extremidades, mas a largura é muito mais definida que o comprimento. Uma pequena estrela junto ao norte e uma menor junto a extremidade sul , mas nenhuma delas relacionada a nebulosa. Eu tenho a forte  suspeita que esta nebulosa é resolvível em estrelas , com uma leve compressão em direção ao centro. Eu não tenho duvidas de ela pode se resolver. Eu posso ver estrelas como meros pontos.  A nordeste de Xi Cenaturus"
                É pouco provável que Dunlop tenha resolvido estrelas em 4945.  Mas assim como eu obtive muito ruido nas modestas fotos imagine ele com um telescópio especular...
                 A outra lição que aprendi com Ngc 4945 é que se esperas detalhe em galaxias deves fazer muitas exposições. Não foram suficiente ainda que tenha conseguido tirar leite de pedra. Com pouco tempo para observar não posso fotografar um objeto por noite. mas 4045 vai receber uma visita mais demorada assim que a vida permitir...
                Outra lição é que o pós processamento de astrofotos não é uma ciência exata. Teoricamente o DSS é um programa muito mais poderoso que o Rot n´Stack. Mas apesar dos meljores resultados foi necessário muito mais trabalho e utilização de outros softs para se chegar até o produto final. Outro programa que estou aprendendo a usar é o IRIS.  Este é uma ferramenta poderosa mas hermética. É um software que demanda curso. Como não sou afeito a isto as coisas vão por tentativa e erro. Um dia eu chego lá. Ao longo do texto apresentei diversos resultados fotográfico e os procedimentos adotados.






                Fiquei muito feliz em perceber que na captura foram registradas Ngc 4945 ( esta parece apenas um defeito nos spikes de Xi cen  (ela se esconde atrás da estrela)  e Ngc 4976 ( a direita e acima de 4045 na foto abaixo). Uma espiral de 10 magnitude que demanda muita atenção para ser percebida visualmente. Se apresenta com uma estrela ( seu núcleo)  mas com bastante atenção e aumento é um alvo visual possível.   

quinta-feira, 12 de maio de 2016

The Eyes: Ngc 4435 e 4438

         
    
            Alguns DSO´s (1)  possuem nomes próprios que os tornam personagens quase mitológicos no firmamento.   Geralmente eles são resultados da necessidade humana de trazer coisas tão enormes e distantes  de nossa realidade cotidiana  para algo mais palpável. Também um exercício lúdico.  As vezes a semelhança é inegável... A Nebulosa Cabeça de Cavalo e a Constelação de Escorpião são dois exemplos que me ocorrem quase imediatamente.
            O DSO que falarei a respeito neste post é um destes casos . Responde pela a alcunha de " The Eyes" ( " Os Olhos") . E sem duvida merece o nome.
            Quando você está navegando pelo  mais próximo grande aglomerado de galaxias  ( Coma-Virgo) e esbarra com as evidentes e gigantes galaxias M84 e M86 você também esta ou observando "The Eyes " ou a menos de 30´de grau de o fazê-lo.
            Formado pelas galaxias Ngc 4438 e 4435  "The Eyes" é evidente no Newton ( meu telescópio refletor 150 mm f8) .  Ambas tem um aspecto de espirais e são tão próximas ( 4´) uma da outra que lembram a todos aqueles que as veem  um par de olhos cósmico a nos espreitar.  Quando você olha o abismo ele também te olha... Mas desta vez com consequências bem menos nefastas do que as previstas por Nietzsche.
            James Mullaney ( em seu "The Herschel´s Objects and How to Observe Them) nos lembra que este efeito se perde em telescópios muito grandes já que a separação tende a aumentar muito e  aí a  ilusão se desfaz. Segundo o mesmo telescópios entre 150 e 200 mm são a  melhor  relação " peso-potência" para se olhar olhos nos olhos...
            Dizem que as lendas são mentiras que ganharam a autoridade do tempo. Outros vão dizer que toda lenda tem um fundo de verdade. E assim reza a lenda que quem batizou ( ou pelo menos registrou a patente) " The Eyes" foi  Leland Copeland  em um artigo da Sky and Telescope em 1955.
            A descoberta de Ngc 4438 e 4435 foi realizada por William Herschel em 8 de abril de 1784.   Sua registro é bastante incomum e ele naturalmente percebeu a natureza atípica do objeto . Ele registrou 4435 com H I. 28 1 e 4438 como H I. 28.2 .
" Muito brilhante , consideravelmente grande, arredondada precedendo o norte ( Noroeste) / Brilhante , consideravelmente grande , muito pouco extensa , resolvível ( salteado, não resolvido...) sudeste(?) ( following south)"
                        

            A descrição incomum de Herschel sugere que ele percebeu as duas galaxias como duas partes de um mesmo objeto.  Enquanto H  I 28. 1 é arredondada e com um brilho mais uniforme H I 28 . 2 é maior , alongada e possui indícios de um núcleo.
            Ngc 4438 e 4435 fazem parte da Corrente de Makarian ( um sub grupo dentro da aglomerado de Virgem que possui diversos parâmetros astronômicos e cosmológicos em comum...) . Se encontram a cerca de 55.000.000 de anos luz. Ngc 4435 tem uma magnitude de 10.8 e é uma lenticular barrada ( SB0 ).   Ngc 4438 é um agalaxia lenticular peculiar (SA0/peculiar) . Mais brilhante tem magnitude de 10.2.  
            Ngc 4438 é certamente a vedete do grupo . Sendo uma "espiral" bem perturbada é uma das maiores atrações do Aglomerado.  Suas estrelas são evidentemente perturbadas e retorcidas pela gravidade associada a um esbarrão cósmico com outra galaxia. Tanto que esta  ganhou seu lugar no "Atlas Arp de Galaxias Peculiares" . Uma espécie de show de horrores cósmico que reúne diversas galaxias com características bem especias e que sustentariam uma opção para o Big Bang. Ela é Arp 120. As ideias de Arp nunca foram levadas muito a sério mas o Atlas é sensacional e observar todo o catalogo um senhor desafio...

            Mas mais ainda perturbado é o gás de Ngc 4438. Este choque gravitacional  "empurrou" o gás para oeste das estrelas e o o aqueceu.  E isto os leva  duas questões bem pertinentes e levantadas por Jeffrey Kenney ( Yale) : Com quem Ngc 4438 colidiu? Porque o gás foi tão afetado?
            A proximidade de Ngc 4435 a coloca na linha de frente dos suspeitos. Mas sua estrutura não é nem de perto tão afetada como a de 4438. E 4438 é uma galaxia bem maior que ela. Possui 140.000 anos luz.  Um outro problema é quem ambas possuem redshift diferente e o encontro teria que ter ocorrido com velocidade impressionante. O estrago em 4435 teria de ser considerável.
            Pesquisas atuais ( suportadas por observações) indicam que 4435 provavelmente sofreu um encontro com M86 no passado. Esta sim uma besta-fera capaz de aquecer os gases e distorcer, dobrar e arrebentar com 4435. Uma tremenda covardia. Kenney encontrou  " filamentos monumentais" de Hidrogênio ionizado ( 400.000 anos luz)  ligando ambas a galaxias. Estes são umas das "mais   claras evidencias de colisões em alta velocidade de galaxias".
            É atualmente aceito que houve uma interação entre as três galaxias a milhões de anos atrás. Gás foi "estripado" M 86 bem como de 4438 enquanto a menor e menos maciça 4435 perdeu parte de seu gás mas não sua fisionomia. Diversos papers estudam as interações do meio intergaláctico na região e o tópico é bem animado no meio...  A alta densidade de galaxias por estas bandas do universo suportam bem a hipótese de interação gravitacional entre estes três membros da Corrente de Makarian.
            Ngc 4435  é uma das chamadas ETG´s ( early type galaxies) e se inclina 45 graus de nós. Seu boje central e núcleo dominam a paisagem e ela é  envelopada por uma nebulosidade esférica. Ela apresenta indicio de formação estelar e estudos com o Spitzer Telescope indicam que este " starburst" teve seu pico a cerca de 190.000.000 de anos e o período dá suporte para a hipótese de interação com 4438.
            ETG´s são também um tópico bem em voga e são fundamentais para o estudo da evolução galactica em aglomerados. Voltaremos a falar delas ...
            A observação visual do "Olhos" é bastante divertida. embora não se perceba tantos detalhes como em astro fotos ( mesmo que modestas) é possível perceber bastantes detalhes e o conjunto da obra merece o nome. É uma satisfação perceber ambas as galaxias em um mesmo campo mesmo com grandes aumentos . 120 X ou mais . O "Newton" possui uma distancia focal de 1200 mm.   Localizar " The Eyes" é  basicamente localizar M 84 e M86. Navegar sem uma cabeça com go-to pelo aglomerado de Virgem é um exercício para céus escuros e olhos relativamente treinados. Mas nada que vontade e paciência não resolvam.  Todas as galaxias aqui citadas estão ao alcance de binóculos 15X70 ou menores. Mas não espere perceber muito mias que seus núcleos disfarçados de tênues estrelas. São alvos telescópicos...
             Você vai perceber diversos "esfuminhos " na região utilizando uma ocular wide field. Com minha 40 mm você  vai caçar "The Eyes" nesta paisagem. Depois troque a ocular e use mais aumento.  
"The Eyes" são os dois esfuminhos a esquerda do centro da foto. Este é o resultado de uma única exposição de 30 segundos  asa 3200

                    

            As fotos aqui apresentadas foram feitas com ele e uma câmera Canon T3 montados sobre Mme Herschel ( uma cabeça equatorial HEQ 5 pro ) . Foram realizadas 40 exposições de 30 segundos com ASA 3200. 10 black frames. 
            Todas elas são resultado de processo ou de crop ( Photoshop) ou de drizzle ( DSS) realizados da foto acima   que cobre a região a leste da Corrente de Makarian.  
            Utilizei ( juntos , misturados e em solitário...) os seguintes softwares de processamento : Deep Sky Stacker, Rot n Stack , Fitsworks, Photoshop e Noiseware.



terça-feira, 10 de maio de 2016

Coma-Virgo Reloaded

   


                Há algum tempo eu não tentava a sorte no Reino das Galaxias. Na verdade há anos.  Desde os tempos em que as coisas não eram tão politicamente corretas  e que eu ainda podia chama-lo de Aglomerado de Coma-Virgem e não ser acusado de sexismo pela minha própria filha...
                Observar visualmente as galaxias do aglomerado é uma tarefa difícil  especialmente de locais afetados pela poluição luminosa. Da Stonehenge dos Pobres é perda de tempo.  Phill Harrington no seu já clássico "Starwatch" nos diz que " mesmo sendo possível observar todas as Galaxias Messier ( Galaxias que foram descobertas e/ou incluídas no Catalogo Messier de Nebulosas  publicado no século XVIII)  com o auxilio de um binóculo de 50 mm estes não são alvos indicados para novatos " Ele recomenda que você de uma polida nas suas técnicas observacionais antes de tentar a sorte com alvos tão difíceis.
                Em experiencias anteriores , ainda nos tempos do "Galileu" ( meu bom , velho e confiável  refrator 70 mm f13) eu já descobrira que é melhor manter baixas as expectativas. Com este eu só consegui observar acima do patamar de "Objetos Imaginários que gostaria de estar vendo" as Galaxias mais luminosas. Sendo estas: M 49 , M 60  e M87. Na categoria dos " Objetos que Percebo mas não Vejo" ficariam ainda M 84e M 86. Nestas o núcleo comparece e se suspeita não ser uma estrela de campo.
                Desta vez eu estava sedento de sangue. Armado com o "Newton" ( meu mais novo porem nem tao jovem  refletor 150 mm f8) e com Mme. Herschel ( uma cabeça equatorial HEQ 5 pro com "go-to") eu preparei a emboscada. Parti para Búzios pronto para pegar a noite de lua nova de maio com a casa quase vazia. Iriamos somente eu , a cara metade , minha filha e o meu filho.  Organizei uma derrota realista e coloquei tudo no papel. Ou melhor no "Notepad" do Windows...
                                         
                O cronograma era bem apertado. Iria pegar as crianças na escola as 13:00 horas  e sair direto para Búzios. Para realizar o alinhamento polar eu deveria estar com tudo pronto no quintal dos fundos da casa as 18:20 para conseguir utilizar Miaplacidus como estrela guia para o processo.  Para desespero da cara metade a estrada até Búzios é boa... Chegamos a casa as 16:00 horas tendo parado para comer croquetes na casa do Alemão. Parei ainda para abastecer no Post "Atrás do Muro" ( a gasolina mais barata da estrada: R$ 3,59 o litro) e fiz mais um pitstop no Supermercado quase chegando em casa. 
                As 18:00 Miaplacidus já se encontrava centralizada na buscadora polar e com os parafusos da cabeça foi fácil mantê-la ali até as 18:05:30.
                Depois disto Murphy faz sua visita obrigatória e começo apanhar das tomadas da casa.  Realizava o alinhamento do  Synscan da cabeça ( capaz de controlar a cabeça e garantir suas capacidade de achar os objetos que você deseja. Também e daqui para frente chamado de Go-to) e Murphy e seu amigo Osmar Contato  vinham-me visitar. E lá ia eu de novo realinhar  o "go-to" de Mme. Herschel.
                Finalmente consigo superar todas as dificuldades e a derrota planejada já tinha ido para o espaço.
                E assim decido seguir os passos propostos por Harrington no livro já citado. Este indica atacar o Aglomerado em duas frentes Uma campanha começa por leste e outra por oeste. Me decido lutar no front leste.
                A observação visual de galaxias é uma luta inglória. Muitas vezes você não vai ver nada ou quase nada ( a menos que seu telescópio seja muito maior que o Newton). A maior parte delas vai se apresentar na ocular pouco mais que seus núcleos. É por estes que você procura em um primeiro momento . Depois de localizar um destes e desconfiar que esta tênue estrela não é o que parece ser ( uma tênue estrela...) você vai utilizar as tais técnicas observacionais polidas pelo tempo que o autor já falou.A principal delas é a visão periférica. "Olhar com o rabo de olho". Outra uteis são as vezes dar um tapinha no telescópio e hiperventilar. Os olhos bem adaptados ao escuro são fundamentais.

                Duas galaxias que nunca tinha observado são a porta de entrada do aglomerado pelo leste.  Fugindo um pouco do caminho traçado por Harrigton ( que propõe iniciar em Vindemiatrix e observar a seguir Ngc 4762) escolho partir de Rho Virginis e tentar perceber  Ngc 4608 e  4596 no seu entorno. Já havia ensaiado o ataque no Stellarium ( um um hibrido de software planetário e carta celeste ) e sabia que com minha ocular de 40 mm ambas caberiam espremidas no mesmo campo que Rho. Existem outra fracas estrelas no campo para ajudar a ambas disfarçarem-se. Ngc 4596 acabou se entregando com o auxilio da 25 mm. Nada que que lembrasse o réveillon de Copacabana mas ela estava lá. Seu núcleo bem obvio acompanhado de leve nebulosidade no seu entorno. 4608 ainda mais discreta revelava somente seu núcleo.  Sabendo que estavam ambas em quadro monto a câmera e realizo 40 exposições de 30 segundos. Desta vez resolvera que ia utilizar o computador para me ajudar nas capturas e não ser obrigado a ficar com um disparador na mão.

                Havia feito o download do Astro Photography Toll para  a tarefa. Mas com pouco tempo e sem querer correr o risco de perder a única noite que tinha certeza que estaria aberta prefiro utilizar o Canon Utilities para controlar a câmera.  Escolho trabalhar em 1600 asas já que estarei capturando mais frames do que geralmente faço e tentando ter menos ruido.  Percebo logo na primeira foto que era melhor ter sido mais conservador e utilizado a já habitual 3200 asa.  Mas com tudo pronto ,  as fotos rolando e o acompanhamento indo bem prefiro deixar as coisas como estão.  E finalmente fotografo minha primeira galaxia virginiana. Na verdade as duas primeiras. ( Há quem diga que M 104 é um membro das bordas deste aglomerado . Mas não sendo uma Coma-Virgo "bona fide" eu não vou considerar as fotos que já realizei desta) .
                Depois peço para Mme. Herschel me conduzir até M 87. Esta um alvo visual fácil e que já tinha observado com o Galileu. Assim que coloco os olhos na Ocular percebo alguns esfuminhos. O campo é rico em galaxias  e como já havia percebido que nos claros céus buzianos seria difícil conseguir extrair detalhes me utilizando de minhas oculares prefiro fotografar  as vitimas. Logo na primeira foto desconfio que M 87 não esta entre elas. Mme Herschel tinha passado um pouco do ponto e acabara me conduzindo para o Inicio da Corrente de Makarian. Estou nos arredores de M 86 . Faço novamente 40 exposições . Desta vez com 3200 asa. Fico todo feliz ao perceber que tinha capturado no conjunto " The Eyes".  ( Ngc 4438 e 4435). Estas pequenas galaxias merecem o apelido e mesmo visualmente transmitem a impressão de dois pequenos olhos te observando.  Percebo mais varias galaxias no campo. Uma delas a interessante e visualmente perceptível  Ngc 4388. Vou falar de todas elas separadamente em posts futuros.
The Eyes

                Neste campo ocular você você vai perceber diversas estrelas muito tênues. Diversas delas são galaxias. Com atenção você irá perceber uma pequena nebulosidade envolvida. São todas galaxias. Ao navegar por Coma-Virgo você não realiza   "starhopping". A Brincadeira aqui é "galaxyhooping". 

                Outra descoberta é que ao fotografar o aglomerado você irá  capturar diversas galaxias em uma única foto. O campo do sensor de minha câmera no Newton ( uma Canon T3) cobre 62 `X42`. Nesta região isto implica em dezenas de galaxias em quase qualquer lugar.  Se lembramos que os membros do aglomerado estão  a  uma distancia média de 60.000.000 de anos luz de nós qualquer 1´de arco é algo como quase 6000 anos luz  e que meu sensor vai cobrir mais de 300.000 anos luz por  200.000 anos luz de latifúndio do universo. Não vamos falar em volume...  Existe uma conta meio mandrake " paracalcular  o diâmetro fisico de uma galaxia. Me foi apresentado no "Deep Sky Companions : The Messier Objects" . Neste são apresentadas 2 constantes . Uma para objetos galactico e outra para galaxias. Os valores funcionam bem para perto. Para longe acho sempre muito modestos.
                Esta foto engloba o oeste da famosa Corrente de Makarian. Esta inicia-se em M84 , passa por M86 , segue rumo a oeste pelo par que forma "The Eyes". São os membros originais da Corrente e listados por Makarian (  seu "eu profundo") . Creio que a Corrente de Makarian não tenha sido batizada pelo próprio. Este grande astrônomo foi o primeiro a perceber e/ou registrar que este grupo de galaxias caminham juntas pelo universo. Velocidade, distancia e direção são iguais ou pelo menos muito próximas.  Seu nome  em inglês é "The Makarian´s Chain" .  Mas em um arroubo "José Eustaquiano" ( lendário astronômo dos tempos do Império...) eu creio que Makarian "himself" a definiu como "The Makarian´s Stream". Algo como a "Corrente de Humboldt"  que nasce na Antártida e sobe a costa do Peru. Parente do "El Niño". 

                A corrente de nasce próxima ao centro "geográfico" do Aglomerado de Virgem e possui como "Heartland" M86. são as Galaxias originais e com movimento medido por Makarian M84 , M86, Ngc 4477, 4473,4461, 4458, 4438 e 4435.
                No lote fotografado temos  ambas as Messier e 4438 e 4435. Estas duas formando o já citado "asterismo galáctico" conhecido como "Os Olhos" ( "The Eyes" mesmo no Stellarium em português...) .
                De volta ao projeto original e achando que esta seria a grande estrela da noite me viro de costas para Virgem  e olho para o sul.  O objetivo agora seria   Ngc 4945 em Centauros.  Esta bem mais próxima que os velhos convidados e assim cobrindo uma area de sensor muito maior. Somente 12.000.000 de anos luz de nós.   Com 20´de diâmetro e aplicando a tal conta que falei ela mede menos de 30.000 anos luz. Mas 77.000 é uma valor comum na literatura. Como falei a conta é meio "mandrake".

                Fiquei um bom tempo caçando a galaxia. Com magnitude listada de entre 8,5 e 9,3 deveria ser visível mesmo com Bortle 7. Mas não era. Felizmente ela se localiza ao lado de Epsilon Centaurus. Uma dupla. E com esta visível na buscadora e com o dever de casa feito eu sabia onde ela estava. E estava. Foram realizadas 40 fotos de 30 segundos . Uma única exposição nos explica o que é brilho de superfície. com 20´o brilho de uma estrela de 8,5 magnitude é quase nada. depois do processamento ela revela alguns detalhes. É um belo objeto que para ser observado visualmente deve demandar céus muito escuros.  Depois do objeto fotografado e sabendo bem onde estava eu consegui suspeitar sua presença com a 17 mm. 
                Já ia tarde e minha cara metade queria atenção. Marte já alto no céu é um bom programa para "os não iniciados". O seeing não era essas coisas mas se percebiam algumas formações no planeta já próximo da oposição. Com a 10 mm e uma barlow 2X tive arroubos de Schiaparelli e achei que via canais escondidos na paisagem. Tempo de encerrar a função e beber uma cerveja.
                O Aglomerado de Coma- Virgo não é alvo facil. Sem duvida uma grande diversão para aqueles que os americanos chamam de "Deep Sky Die Hard". Algo como  " Fissurado em Céu Profundo".  Como no disse Harrington uma área de lazer para os mais experientes. Mesmo com telescópios maiores que o Newton achar detalhas na paisagem será um exercício de visão e experiência.
                O que pode ser melhor que isto?

P.S.  As fotos aqui apresentadas são fruto de um primeiro processamento realizado em Búzios. Por algum motivo o Deep Sky Stacker não quis funcionar por lá. Eu conseguia abrir os light frames mas ao tentar carregar os darks ele se fechava automaticamente. Desta forma recorri ao bom , velho e confiável Rot n´ Stack em combinação com o Fitswork para fazer o pós processamento. Já de volta ao Rio reinstalei o DSS e tudo voltou ao normal. Resolvi guardar estas para próximos posts e ainda são produto inacabado.
            Eu sei que preciso limpar o sensor da câmera...