sábado, 27 de dezembro de 2014

O Começo do Fim

                      Eu não gosto de natal. Mas me conformo. Me lembra mais a via crucis que propriamente o nascimento de Cristo. Aquela sucessão de almoços , jantares , perus e chesteres me cansa.  Este ano eu aprendi que Newton nasceu no dia 25 de dezembro. Não é uma daquelas coincidências relacionadas as leis básicas do universo. Na verdade não tem nenhuma importância ou relação pra as mesmas. Mas adorei a piada. " Há muito tempo atrás nesta mesma noite, 25 de dezembro, nasceu uma criança que iria mudar o mundo. Isaac Newton"
                                               Mas terminado o natal eu começo a me animar. Vou partir para Búzios em poucos dias e a Stonehenge dos pobres volta ter sua parte no laifúndio celeste. A Primavera é um mau momento no observatório mais urbano do mundo. Sua janela passeia por por locais escuros e sem muitas opções. A Nuvens de Magalhães passeiam por lá mas não são amigas das luzes urbanas e de um céu Bortle 8 ou 9. Agora a via láctea retorna e algumas das maiores maravilhas celestes retornam em horários razoáveis.
                E me preparando para a temporada Buziana de fim de ano ( uma tradição) inicio os preparativos.
                Não é tão fácil quanto pode parecer observar. Especialmente se seu telescópio é muito maior que a mala do carro. então a melhor idéia e convencer seu irmão a levar seu telescópio. Na verdade a sua cunhada...  Me u irmão mora próximo a mim na Republica do Leblon. E eu acho mais simples ir a pé até a sua casa. No caminho paro rapidamente no "escritório" para evitar uma pane seca no trajeto. A cena é um bom começo de fim de um ano...
                Nem tudo pode ser tão simples e depois de buscar o carro de meu irmão no estacionamento começa a missão de fazer tudo o que é necessário ( e o que não é) caber no porta malas. Depois de um telescópio , algumas caixas de cervejas , malas e cia. ltda. fechamos a tampa. Não entendo a enorme quantidade de bananas compradas pela cunhada.  Ainda falta entrar um cooler.
                Retornando para casa acho que é bom tirar a ferrugem e pego meu 15X70. Afinal é verão   a via láctea esta de volta e eu pretendo chegar em Búzios com algum treino. Astronomia é uma atividade que deve ser  cotidiana. E o treino faz falta.
                Com Canopus já alta eu volto a navegar por mares já antes navegados. Fico feliz em perceber que ainda conheço os cabeços e lajes no caminho.
                É verão.
                Com o 15X70 empunho começo a derrota. O porto de saída é seguro. Aponto para as Plêiades do Sul. Mesmo sem percebe las a olho nu eu sei onde residem. Dai para frente e seguir o rio galáctico.
Plêiades do Sul 
                Quando você observa regiões ricas na via láctea com binóculos é interessante balançar eles Leste -oeste e vice versa. Você vai perceber claramente uma faixa de estrelas em determinada região. Em locais escuros você vê claramente os braços da galaxia abraçando esta área . É a Via láctea e a razão de seu nome. Em áreas urbanas isto também é evidente. Mas só com auxilio óptico...
                Partino das Plêiades do Sul rumo ao norte e acompanhando a corrente de estrelas você vai rapidamente deparar-se com A Nebulosa de eta carina. facilmente percebida e no coração de um grande agrupamento estelar .Com um pouco mais de atenção você vai notar duas pequenas condensações de luz seguindo rumo norte.  

                               Aí começa o treino para os céus mais escuros que me aguardam. Navegando nesta área você deve exercitar sua visão periférica. Existem diversa condensações semelhantes . Muitas tênues. São estes pequenos fantasmas que você quer localizar com seu telescópio. O uso de binóculos é um treino fundamental para aproveitar o máximo de seus instrumentos mais poderosos.
                Conforme passeio na área vou localizando velhos conhecidos .
                Binóculos são divertidos porque parecem um pouco com "bar crawling". Você sai por uma vizinhança conhecida mas não planeja quais são os bares no caminho até em casa.
                Já falei que o primeiro drink ( esta época do ano) costuma ser em IC 2602. As Plêiades do Sul. Resolvem-se uma dezena de estrelas aproximadamente . Todas bem claras e enchendo o campo do binoculo.
                Desta vez eu segui daí rumo a Ngc 3372. É quase inevitável se deparar com a mesma acompanhando a ordem natural das coisa e seguindo a Via Láctea a partir do ponto inicial. Aqui é importante se concentrar . Existirão diversas outra nebulosas na paisagem. Depois de cansar de Eta Carina perceba estes esfuminhos mais fracos.
                Tanto Ngc 3324 como 3293 serão evidentes . Um mais que o outro. Resolvem-se algumas estrelas em ambos . Mas as condições são bem ruins. Em locais mais escuros se resolvem melhor. A obra do Metro faz da Stonehenge dos Pobres um teste bastante duro.
                Vou seguindo o Braço galáctico e me deparo com IC 2581 e Ngc 3247. Sem muita resolução formam um belo par de esfuminhos onde flicam estrelas. No limite da solução.
Omicron Velorum 

                Depois me deparo com velho conhecido . Omicron Velorum e seu aglomerado. O primeiro DSO que "descobri". Mas a grata surpresa foi conseguir perceber claramente  Ngc 2669. É um vizinho próximo mas bem mais tímido. Se apresentou claramente mesmo com visão direta. Raridade.
                Ainda na região mais alta de janela encontrei IC 2488. Um dos últimos objetos do catalogo Lacaile que observei. Embora sem se resolver integralmente se apresenta fácil para o 15X70.
2488
                Depois volto para as Plêiades do Sul e visito rumo ao leste . Em rápida escaneada percebo facilmente ( umas mais fáceis que outras) Ngc 3376, 3532 e 3572.
3766

                Como não poderia deixar de ser vou atrás do cometa Lovejoy já mais a oeste. E Mesmo com  a forte poluição luminosa causada pela Rocinha e  Barra percebo este discretamente como uma pequena estrela desfocada. Nada de cauda.
                Fico feliz pois há tempos não fazia uma boa observação com meu 15X70 e mais feliz ainda por ter conseguido perceber tantos objetos mesmo sob péssimas condições .
                Não vou contar a tradicional história sobre andar de bicicleta.
                Foi um bom começo do fim de ano...

                

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O Verão e Órion

             


               Vem chegando o Verão. Na verdade este se iniciou por volta das 9:00 do dia 21 de dezembro.  
                O Sol já vai a se por no mar quando visto do Arpoador e  a humanidade ( ou pelo menos a parte mais feliz desta...) aplaude.
                E logo após Órion se assenhora do céu nascendo no horizonte leste e com isto fazendo a alegria de uma outra parte feliz da humanidade.
                Logo que comecei a me interessar por astronomia Órion foi uma das primeiras constelações que aprendi a identificar. As Três Marias formando o cinturão do caçador e indicando para o sul Sirius e para o norte Aldebarã foram um dos primeiros guias que tive pelos céus. Consequentemente M42 e as Plêiades foram alguns dos primeiros DSO com que tive contato.
                Quando observamos esta região do céu em geral M42 , a Grande nebulosa de Órion, rouba a cena. Mas fuçando o meu HD achei algumas fotos feitas com minha lente 75-300 e assim abarcando toda região. Mais precisamente 20 fotos feitas a quase exatamente um ano. 20 exposições de 15 segundos cada feitas com a lente @ 75 mm. Depois de passear com elas pelo Deep Sky Stacker obtive esta foto.
                E assim me lembrei que entre ao redor do cinturão de Órion se escondem ( na verdade não se escondem...) diversos DSO que são muito vezes renegados devido a presença da manjada nebulosa.

                 E assim comecei a imaginar um tour de force que me agrade quando retornar para Búzios neste verão.

           


Como temos que partir de algum lugar e para variar um pouco vamos partir do DSO mais ao norte em nosso fotografia. M78 é a mais brilhante nebulosa de reflexão dos céus. E foi uma grata surpresa percebe-la facilmente como uma pequena estrela desfocada nesta foto de campo tão grande. Percebemos claramente as estrelas que a iluminam na ampliação. Embora não se perceba cor na fotografia ela tem um brilho azulado na ocular. São partículas de poeira brincando com a luz. Por processo semelhante o céu aqui na terra é azul... 
          








 Seguindo o trajeto rumo ao sul outra captura inesperada ( ainda que sutil) na foto é Ngc 2024 , A Nebulosa da Chama. Mesmo com tão pouco tempo de exposição ( 5 minutos se tudo for somado) ela se apresenta claramente ao lado de Alnitak ( Zeta Orionis). Esta é uma nebulosa de emissão e faz parte da mesma nuvem que forma M 42 ( Veja o post sobre o Loop de Barnard aqui)  .
           



 Agora que já falamos em Alnitak vamos tratar de Cr 70. Este é o aglomerado associado as Três Marias e forma um imenso grupo móvel de estrelas associadas que cobre a região. É uma das mais belas regiões do céu para se passear com um binóculo.  (Mais sobre Cr 70 aqui)
                Logo ao lado de Alnitak percebemos Sigma Orionis que é uma estrela múltipla bem interessante e que é associada com a Nebulosa Cabeça de cavalo. Esta uma nebulosa escura que infelizmente não foi capturada nesta modesta incursão fotográfica.
            





Agora já na espada do caçador começamos com Ngc 1981. A olho nu o conjunto parece ser a estrela mais ao norte da espada. O aglomerado é possui o apelido de " A Carroça  de Carvão " ( Coal Car Cluster) . Não me perguntem por que...  Consta que ele é melhor observado com cerca de 100x de aumento pois assim ele se destaca das estrelas de campo. 
         



 Descendo a espada chegamos a uma região de muito nomes mas apenas uma nebulosa. Pelo menos é o que observo. Entre M43 e Ngc 1981 se encontram Ngc 1977 , !978 e 1973. Para mim são todos a mesma coisa. Mas Alguns irão dizer que um é a nebulosa , o outro é o aglomerado de estrelas envolvido e o outro alguma outra formação. O catalogo Ngc vive em revisão. De qualquer forma a espada também é uma região sensacional de se visitar com um binoculo e se tem a clara sensação de que estrelas brotam a partir de M42 ( o que é verdade...). 
         









 Agora chegamos em M43 , também chamada da Nebulosa de Marian. Trata-se de um apêndice de M42 e confesso nunca ter entendido como Messier a separou da Matriz... ( Jádiscutimos isto aqui. A Inveja é uma merda).
                Chegamos a M 42. Dispensa comentários. Na verdade a razão de ser deste post é apresentar os DSO que são esquecidos devido a esta dama.  M 42 já possui o seu particular.
            







Finalmente no extremo sul da espada de Órion encontramos um belo aglomerado com nebulosidade que é a entrada de numero 1980 do New General catalog ( NGC...) .
            

A região visitada neste post esta quase toda ao alcance de binóculos. Separar Sigma Orionis pode ser difícil desta forma . Mas é facilmente factível com um pequeno telescópio. M 78 não será lá estas coisas com pequenos aumento também. A nebulosa da chama só é perceptível visualmente de locais muito escuros. 
                Este é um belo passeio para o astrônomo iniciante e um reencontro anual sempre emocionante para os mais experientes.
                Bom verão.

                

domingo, 7 de dezembro de 2014

Canopus, Ngc 2451 e o Tempo

                                                                   
            Tenho estado sem tempo para a "Difícil Arte" . Talvez por ter que praticar uma de suas versões como ganha pão a minha forma favorita de fotografia tem ficado um pouco ao deus dará.
            O tempo é uma coisa curiosa. Não acredito que o mesmo seja apenas uma criação humana. Na verdade tenho solidas evidencias que ele é um dos componentes do universo. Uma dimensão. Afinal ele se relaciona com diversas constantes universais e responde a estas mudando sua velocidade e o seu andar .  Parece-me pouco provável que isto seja fruto de nossa humanidade. E mesmo sem tempo consegui ter um sábado diferente e ainda assim bastante produtivo.
            Ao contrario do que se pensa a astro fotografia pode ser uma "Difícil Arte" e demandar equipamentos e técnicas e tempos ( olha ele aí outra vez) de exposição que podem intimidar os leigos e os duros... Mas as vezes descubro que para realiza-la sem maiores pretensões esta pode ser rápida, simples, quase barata e ainda assim uma poderosa ferramenta para se aprender astronomia.  

            Eu passara a semana em função de um comercial com uma surfista famosa por sua coragem e pouco juízo. E assim diariamente amanhecia sempre já na praia. O amanhecer primaveril ao longo da semana estava sempre mais para "Ilha do Dr. Moreau" que para comercial de desodorante com estrela do surf. E assim o tempo foi passando e um comercial de 3 dias se tornou um épico de 10 diárias . Bom para as finanças e nem tão bom para a astronomia.

            Finalmente depois de um belo jantar com Envelopes de Merluza com Legumes e Vagens ao alho eu finalmente monto o "Newton" junto a Janela da Stonehenge dos Pobres. A obra do metro continua e seus refletores fazem sombras em minha sala... Mas pretendo fazer algumas fotos.  Como há muito não observava nada tinha um set up completo a minha frente. Retirar o "Newton" de seu caixão e instala-lo em sua montagem. Depois afinar a buscadora usando a luz de tope de um prédio distante. Curiosamente não levou mais que um minuto. Parecia que a buscadora não havia passado mais de um mês jogada dentro do bau do corredor. Depois fiz um alinhamento polar de ouvido.  Não iria esperar por Canopus cruzando o meridiano para melhora-lo e assim poder utilizar meu método ( e de todos os preguiçosos...) favorito de alinhamento polar. De qualquer forma sei aonde fica o sul a partir da Stoehenge dos Pobres...
            Depois instalo o motor drive; somente no eixo de R.A. E aí a porca torce o rabo. Estou sem pilha. Adeus astro fotografia ( pelo menos eu assim achava...). Mas não vou perder a viagem e resolvo observar um pouco  qualquer coisa.
            O céu esta meio nublado ( sou muito teimoso) e acabo apontando o telescópio para Canopus (Alpha Carina) .Serve para melhorar o alinhamento da buscadora. E sendo a segunda estrela mais brilhante do céu não só domina a paisagem como não se intimida facilmente com a nebulosidade. Tão brilhante que o obcecado de plantão resolve fazer algumas fotos .

Primeiro uma para mostrar que a colimação do Newton poderia estar melhor e como uma tela de proteção atrapalha  . E depois outras para ver até onde eu podia ir sem utilizar um motor para acompanhar. Em 3 segundos eu começo a perceber muito drift . Especialmente nas estrelas de campo menos brilhantes. Utilizei ASA 1600...
Na foto maais a esquerda a exposição é de 1,5 seg. Na mais a direita 3 seg. A foto centrall demonstra clarramente como a tela dde proteção interfere  na foto... exposição de 2,5 seg. 

            Como sempre gosto de lembrar astronomia consiste em observar e depois estudar o que se observou. R assim lá vamos nós. Depois de consultar meus alfarrábios e diversos sites descubro que Canopus não é somente a segunda estrela mais brilhante do firmamento. Sendo a estrela mais brilhante da finada constelação de Argos( que representava o navio dos Argonautas no céu antigo e é uma das 48 constelações originais de Ptolomeu )  nada mais justo do que ela ter o nome do skipper do barco do Rei Menelau quando este foi recuperar Helena...
            É também uma rara estrela do tipo F0 Ia e assim apresenta uma linha evolutiva bastante discutida e pouco entendida. Cortando em miúdos trata-se de uma estrela que não sabe se já passou pela fase de gigante vermelha e encolheu novamente mimetizando uma estrela do tipo F ou se ainda não alcançou a fase de gigante vermelha. Se for este o caso ela deve estar queimando seu hélio e vai continuar até fumar carbono.Como não possui massa para explodir em uma supernova é possível que torne-e uma anã branca atípica com um núcleo de neônio e oxigênio... Bastante original. Esta localizada  a 310 anos luz.
            Canopus é ainda uma estrela guia por natureza. No passado indicava o rumo sul aos navegantes. E hoje em dia é uma estrela utilizada para a navegação de espaçonaves. A Mariner em seu caminho para Mércurio teve problemas confundindo Canopus com um cisco na lente de uma câmera usada para navegação. Esta apontava para Canopus. Devido a sua distancia angular do sol ela é extremamente útil para esta função.
            Depois de descobrir isto percebi que o céu dera uma limpada e assim resolvi passear pela Popa do Navio e acabei naufragando em um evidente aglomerado. Sem consultar mapas ou afins fiquei observando belo espetáculo. Uma brilhante estrela vermelha cercadas de companheiras mais fracas. Um aglomerado aberto com certeza - pensei.
            Fotografar DSO´s sem acompanhamento é por muitos considerado impossível e uma heresia. Mas eu nunca acreditei em dogmas e fissurado que estava para fazer umas fotos da novidade tentei a sorte.
             O tempo é uma entidade do universo que varia conforme a gravidade e a velocidade. Já o tempo de exposição varia em função da ASA e da necessidade. Joguei a ASA para exorbitantes 6400 e fotografei um DSO com modestos 3 segundos. Depois co apenas 1,5... E utilizando as fotos obtidas junto ao site da Astrometry descobri que fotografara Ngc 2451.
Astrometry...
Sem motor e com um tempo de exposição possível até mesmo para câmeras saboneteiras. Nada digno de prêmio ou do APOD. Mas um registro honesto que permitiu a identificação pronta deste também  muito discutido DSO.
Canon T3 - Newtoniano 150 mm -1 exposição de 1,5 segundos sem acompanhamento....
            Ngc 2451 foi primeiro observado por Hodierna e incluído em seu obscuro catalogo publicado em 1654. Posteriormente foi redescoberto por John Herschel ( o filho) já no sec.XIX. Este o descreveu como um aglomerado difuso com estrelas brilhantes. Mais a frente 2451 foi confrontado com a triste idéia de este ser na verdade um asterismo ( um agrupamento de estrelas não relacionadas gravitacionalmente). Sua mais brilhante estrela é C Puppis. É a estrela avermelhada que domina a cena. Esta definitivamente não é um membro do aglomerado. Os astrônomos alemães Roser e Bastian nos explicam em um paper de 1994 o que é 2451. As estrelas que se percebem em telescópios amadores não são relacionadas ( somente 4 delas fazem parte do real dso... ).Entretanto em uma janela de 4o ao redor das estrelas que percebemos como 2451 existem 24 estrelas que presentam o mesmo movimento próprio e idades semelhantes. O autores batizaram este grupo de " Puppis Moving Group". Mas fazem questão de frisar que este não é Ngc 2451.  Para botar lenha na fogueira estudos fotométricos dos anos 60 suportam que as estrelas que percebemos como 2451 são associadas. E para incendiar a questão de vez os alemães supra citados ainda acreditam haver na área um outro aglomerado escondido no fundo de toda esta confusão . Este situado a 1.300 anos luz  contra modestos 850 do outro. O´Meara classifica o Ngc 451 cono um asterismo em seu" Hidden Treasures".
            Apesar de continuar em inventário eu considera 2451 um excelente alvo para qualquer instrumento óptico e sendo fotográfavel com exposições bem curtas. Um DSO pouco tímido e que não pode deixar de ser visitado. Sua magnitude é de 2.2 e é facilmente achado seguindo-se a Via Láctea a partir de Canopus.  Acho importante ressaltar que as condições tanto de observação como para a pratica fotográfica foram bem extremas e os níveis de poluição luminosa eram absurdos. Além da obra do metro a lua já ia quse cheia... Em céus mais escuros 2451x é ainda mais rico.

            E de uma má foto sempre se pode fazer um bom desenho. É só gastar algum tempo no Photoshop e usar a foto como pano de fundo e o desenho é feito em uma camada superior. Mais algum tempo realizando um acabamento "artístico" e voilá. Nada mal para um dezembro ocupado. Em apenas 1 segundo de exposição.
               Óoooh  Tempo Rei!



segunda-feira, 17 de novembro de 2014

As Crateras de Platão e a Cidade Lunar



            A astronomia é cheia de histórias curiosas e de personagens quixotescos. Grandes astrônomos nem sempre são lembrados por suas maiores descobertas mas sim pelos seus maiores erros. Um dos  "Dons Quixotes" deste post é Franz von Paula Gruithuisen.
            Este médico e astronômo nascido na Bravaria em 19 de junho de 1774  poderia ser lembrado por diversas e nobres razões. Foi o inventor de um equipamento que permitiu a remoção de pedras na vesícula  de forma muito mais segura  e foi o primeiro a sustentar que as crateras lunares seriam fruto do impacto de meteoritos com Selene. Durante suas observações ele percebeu que a grande Cratera Plato ( Platão...) possuía diversas mini crateras (craterlets) manchando seu escuro e liso fundo.
            Apesar de o Nuncius Australis ser um Blog mais devotado a observação do céu profundo a geometria do universo e as obras do metro somadas a um desafio realizado por Phill Harrigton em seu "Cosmic Challenge" acabaram por levar-nos a um passeio que inicialmente nos leva até Plato e depois até Wallwerk...
            Como já foi dito Gruithuisen foi o primeiro a perceber pequenas crateras no interior de Plato.

            Plato propriamente dita é uma proeminente cicatriz causada por um impacto cósmico ( como suposto corretamente pelo nosso primeiro Don Quixote do dia ) que possui 101 km de diâmetro e é facilmente percebida com o uso de binóculos com 10X de aumento ( até menos...) . Ao contrario da maioria das crateras de impacto Plato não apresenta um pico central e nem um relevo caótico em seu "chão". Isto deve-se ao fato de que pouco ( lembrem-se  que sempre falamos de períodos de  tempo geológico por aqui...) a piscina causada pelo impacto foi preenchida com lava. Assim percebemos o incomum fundo escuro que destaca-se contra o mais claro Mare Imbrium ao sul e o Mare Frigoris ao norte.
            Em 1824 Gruithuisen foi o primeiro a perceber pequenas crateras no fundo de Plato. O desafio de Harrigton consiste em perceber o maior numero destas. A descoberta do médico Bávaro chamou a atenção de diversos astrônomos e o número de pequena crateras aumentou muito.
            É aí que entra nosso segundo Don Quixote. O observador britânico A. Stanley Williams.
            Este senhor foi para Plato o que Percivel Lowell ( mais uma figura quixotesca)  foi para Marte. Embora Williams não tenha chegado a perceber sinais de vida inteligente nem canais cortando o fundo da cratera ele percebeu os chamados fenômenos lunares transitórios Ele periodicamente percebia crateras que iam e vinham , tempestades de areia e faixas que se deslocavam na cratera. Ele associou este fenômenos a atividade vulcânica na cratera. Hoje sabem-se que os fenômenos se devem a turbulenta atmosfera terrestre e que o vulcanismo na lua encerrou-se muito antes de o homem caminhar sobre a terra.

            De qualquer forma o numero de pequenas crateras subiu e o desafio proposto por Harrigton é que você observe 16 "craterlets". Na foto (Lunar orbiter) estão indicadas 25. (William chegou a 40!!!)  Eu só consegui perceber 6. E mesmo assim com muito esforço. Não sou um grande observador lunar e assim minha ocular de 5 mm é de péssima qualidade. O melhor resultado que obtido foi utilizando minha 10 mm com uma Barlow 2X.
            Mas apesar do fracasso em observar as "crateras de Platão" acabei por conhecer a formação que acabou tornando Gruithuisen famoso e motivo de chacota de seus pares.

            No primórdios da astronomia muitos cientistas de renome acreditaram ser a lua um local habitado ( seriam todos eles lunáticos?) . Nomes como Da Vinci e mesmo William Herschel  ( este achava que a maioria dos planetas o era...) acreditavam em uma civilização marciana. E assim nosso querido Gruithuisen , utilizando o mesmo telescópio que descobriu a primeira micro cratera em Plato, descobriu Wallwerk. Uma cidade murada próxima a Cratera Schröeter.
            Curiosamente Schröeter ( 1745-1816) foi um topografo lunar que assim como Williams percebia fenômenos transientes no nosso satélite. Mas este os atribuía a presença de uma atmosfera lunar. E assim via brumas e tempestades surrando os habitante de Wallwerk.
Desenhos de Gruithuisen

            A cidade de Gruithuisen é uma interessante formação para ser observada. Embora nada tenha de cidade. T .W. Webb descreve  região da seguinte forma: " ...uma curiosa espécie de paralelismo mas extremamente grosseiro que esta evidente ser de origem natural.Não é uma formação difícil ( de ser observada) "

            Com o uso de telescópios mais poderosos as observações de Gruithuisen realmente parceem contos da Carochinha. Mas é incrível notar que com o mesmo telescópio de 60 mm ele percebeu uma das crateras de Platão...

            Fui em busca de Wallwerk. Descobri que é necessário aguardar o momento certo e o  quarto crescente é o momento certo. Utilizei primeiro a 10 mm e depois esta com a barlow. O bom da lua é que ela suporta bem magnificação. na verdade ela é feita para os grandes aumentos...  
            O terreno na região é bastante interessante e rugoso. Mas admito que Gruithuisen era um cidadão bem imaginativo. Com muito esforço consigo imaginar algo como terraços incas ou Minas Tirith ( Cidade Murada do Senhor dos Anéis)  . Mas é mais um esforço de vontade do que vejo mesmo. Nada é o que parece ser que não é...

            Localizar Schoeder pode ser delicado. Apesar de grande ela não se sobressai na paisagem. Eu achei mais fácil localizar a "cidade" navegando a partir de Erastothenes. Utilizei o Virtual Moon Atlas para  ajudar ... 



Virtual Moon Atlas


            Visitar a lua é sempre uma grande diversão. Acho que mês que vem vou procurar por uma ponte que foi localizada por um outro Don Quixote. Ou seria um São Jorge?

P.S.- Gruithuisen também acreditava que Vênus apresentava floresta como a Amazônica. Porém esta crescia muito mais rapidamente devido a proximidade com o Sol...

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Ngc 2100- Um Aglomerado Aberto Extra Galáctico

          


            A primavera é  período ingrato para a observação na Stonehenge do Pobres. O tempo costuma nublar a noite  mesmo depois de um dia inteiro de sol inclemente na moleira. Os campos estelares gloriosos da Via Láctea não se apresentam em minha janela . Os alvos mais tradicionais e ao alcance de meus modestos meios se concentram nas Nuvens de Magalhães.  Na Pequena Nuvem os alvos favoritos na verdade são dois impostores. Dois globulares que não se encontram na Pequena Nuvem. Mas estes não são os convidados desta noite. 
            Confesso que acho a grande Nuvem muito mais charmosa.
            Nos céus urbanos a Nuvem não se apresenta de forma clara mas em locais escuros percebo estruturas salpicando a GNM de forma espetacular. Ambas as nuvens devem ter impressionado bastante os primeiros navegadores a visitarem os mares do sul e já eram manjadas desde tempos pré-históricos pelas civilizações pré- colombianas.
            Na Grande Nuvem reside uma das maiores regiões de formação estelar conhecidas no universo. A Nebulosa da Tarântula ( Ngc 2070). Apesar dela ser uma passagem obrigatória para chegarmos até o convidado desta noite ela também não é nossa estrela. 
            No recente e já clássico livro de Consolmagno e Davis " Turn Left at Orion"   dá as Nuvens de Magalhães o ranking máximo de "5 telescópios".. O único outro objeto classificado desta forma pelos autores é M42 ( A Grande Nebulosa de Órion.)
            A Grande Nuvem possui não menos que 22 DSO´s listados por estes autores como alvos dignos de nota para telescópios de qualquer tamanho.
            O visitado desta noite é um destes. O aglomerado aberto Ngc 2100.
            O aglomerado não chega a impressionar quando observado sob a poluição luminosa do Rio de Janeiro . Na verdade com magnitude de 9.8 ele se apresenta muito discreto e requer visão periférica para ser percebido visualmente e nunca cheguei a resolver estrelas por estas bandas. Ele se apresenta no mesmo campo visual de Ngc 2070 é necessário muita atenção para não passar completamente ignorado na presença da grande dama da galaxia. Lembre-se que você esta observando um aglomerado aberto a mais de 160.000 anos luz. Um DSO extra galáctico.  
            Apesar de residente em outra galaxia os aglomerados da Grande Nuvem são bastante estudados devido a baixa extinção destes graças ao angulo que a galaxia se apresenta para nós. 
            A história da formação de aglomerados na Grande Nuvem é um assunto bastante badalado e existem diversos estudos a respeito . A maioria concorda que houveram três grandes ondas de formação estelar na Nuvem. O nosso aglomerado pertence ao mais recente baby boom estelar de nossa galaxia vizinha. Apesar de algumas controvérsia o aglomerado ( assim como a onda de formação estelar...) parece vir rejuvenescendo. Encontrei idades entre 15 e 6.8  milhões de anos de idade em diferentes fontes. Quanto mais recentes as pesquisas mais jovem... Parece haver um consenso de  que a ultima onde de formação estelar na grande nuvem esta centrada por volta de 8 milhões de anos atrás. A presença de estrelas do tipo O e B ainda na sequência principal parecem sustentar a hipótese da juventude de nosso aglomerado.
10 X 30 seg 3200 asa Canon T3 Newtoniano 150 mm . 
30X20 seg asa 3200 Newton 150mm  Incrível a diferença... Ha mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a vã filosofia



            A primeira vez que percebi Ngc 2100 foi resultado de uma fotografia que realizei da Nebulosa de Tarantula. Observando a foto percebi claramente a estrutura e em um erro não  pouco comum acreditei ter percebido um globular habitante da Grande Nuvem. Mesmo Dreyer apresenta o aglomerado como um globular em sua descrição. Com ele percebido através de fotografia voltei ao mesmo local na noite seguinte e o percebi através de observação visual.


            Para localizar Ngc 2100 o caminho óbvio é localizar b Dorado ( parta de Canopus ) e depois chegar a Ngc 2070 . Utilizando o Newton ( um Refletor de 150 mm f8) o aglomerado estará no mesmo campo utilizando minha plossl 26 mm. Para observa-lo individualmente utilizo uma 10 mm. Em dias especiais e céus escuros você vai resolver algumas estrelas...

            Ngc 2100 é um interessante alvo   e  um excelente exercício para o astrônomo urbano . Não deixe-se ser seduzido pela maravilhosa e facinha Nebulosa da Tarântula e aproveite uma visita a esta para visitar este jovem, tímido e extra galáctico alvo.  

P.S. 30/12/2016 - A foto que abre este post é resultado de uma nova captura na regiâo da Tarantula. è resultado de 11 minutos de exposição e foi processada no Deep Sky Stacker ( 3X Drizzle) + Gimp + Fits... Como se pode perceber foi uma captura bem melhor que a primeira.  Apesar de ter sido realizada com as mesmas condições de Poluição Luminosa. Desta vez em vez de ser feita na Stonehenge dos Pobres ela foi capturada do alto de um prédio na Rua da Passagem. Em Botafogo...  Foco é fundamental para astrofotografia...


terça-feira, 11 de novembro de 2014

Quasares,3C 273 e a ilusão mais Distante

              


               Depois de muito tempo sem tentar a sorte na "difícil arte" e ter passado um mês fora de casa e vivendo em uma nem tão pacata cidade histórica em Minas Gerais eu comecei a viajar. Sempre que faço um longa metragem estou, de certa forma, vivendo de Ilusão. Ela é meu ganha-pão. 
            Em Astronomia geralmente se tem a impressão que a matéria é algo real. Mas não é bem assim. Muito do que observamos não é mais o que parece ou mesmo não esta mais entre nós. 
Todos nós sabemos que telescópios são máquinas do tempo. Neles percebemos a luz dos objetos e não os objetos que imaginamos estar vendo .Não são eles que de fato observamos mas seu reflexo. 
            É comum ouvirmos - As estrelas que vemos provavelmente não existem mais. 
Mesmo estando errado é um claro sinal que as pessoas compreendem a imensidão do oceano cósmico, que a luz não viaja em uma velocidade infinita e que as estrelas morrem. 
            O erro delas é simplesmente devido ao fato que as estrelas que podemos observar a olho nu se encontram em sua maioria até 3000 anos-luz da terra. E três mil anos é uma insignificante parcela do tempo de vida de uma estrela. Mesmo a galáxia de Andrômeda, que é o objeto mais distante visível a olho nu, esta a apenas 2,5 milhões de anos-luz de nós. No tempo cósmico continua sendo irrisório. Mesmo estrelas colapsantes e a beira de um infarto fulminante como Eta Carina muito provavelmente continuam e continuarão entre nós por um bom tempo. 
            A matemática e a probabilidade nos diz que das cerca de 6000 estrelas visíveis a olho nu as chances são de 200 para 1 de que alguma delas tenha sumido neste poucos séculos da história humana. Supernovas não acontecem todo dia e menos ainda entre estrelas visíveis a olho nu. 
            De volta ao reino da ilusão posso falar de buracos negros. Eles existem (há muito indícios...) e alimentam muitos dos fenômenos que alimentam este post. Diversos livros nos dizem que eles se formam da morte de estrelas muito massivas e apresentam uma singularidade em seu "centro". Na verdade (ou na ilusão) um buraco negro nunca formou-se para nós. Neste caso a culpa é da deformação do espaço-tempo que os coloca, como Einstein disse, em um outro "quadro de referência" causado por uma gravidade fora dos padrões e de nosso entendimento. Uma estrela hiper-massiva talvez possa "se ver" implodindo em uma singularidade infinitamente densa. Mas como o infinito não habita a mesma escala que a humanidade nós nunca veremos isto acontecer. O tempo vai para no horizonte de eventos (que Hawking anda dizendo por ai que também é uma ilusão ou talvez nem isto) e nós vamos ver uma estrela congelar e para de encolher para sempre. Ou algo assim... Para lá de Volkhof e Oppenheimer reside a ilusão e monstros imaginários. E assim nunca veremos um buraco negro em toda sua negritude e singularidade. Esta além da nossa física. 
            Mas no reino da ilusão existe um outro objeto e este visível. E além do mais o objeto visível mais distante ao alcance de um astrônomo amador. O Quasar. 
            Como é praxe aqui no Nuncius Australis primeiro vamos descobrir do que se trata (ou que se supõem tratar-se) este objeto e qual a sua história. Depois vamos tentar observa-lo.
            E assim fazer Astronomia. 
            A descoberta dos quasares tem o inicio de sua história entrelaçada com o surgimento da radio astronomia.
            A radio astronomia tem um tímido inicio um pouco antes da Segunda Guerra Mundial quando Karl Jansky , um engenheiro nos laboratórios da Bell Telephone Co. , descobriu uma fraca emissão vinda da Via Láctea. Ninguém levou Jansky muito a sério e as pesquisas não prosseguiram. Em 1944 o físico Grote Reber descobriu uma discreta fonte de radio na constelação de Cygnus. Com o fim da guerra e os avanços tecnológicos , especialmente na engenharia elétrica, cientistas desenvolveram bons radio-telescópios. Em 1946 um trio de astrónomos ingleses formado por J.S.Hey, S.J Parson e J.W. Phillips confirmara a descoberta da fonte de radio extragalactica localizada por Reber. Cygnus A.
            Já em 48 , um dos primeiros radio astrónomos de carteirinha, J.G Bolton da Austrália ,confirmou com segurança a existência de Cygnus A e anunciou a descoberta de outras seis discretas fontes de radio. Estas incluíam Taurus A ( a Nebulosa do Caranguejo) e Centaurus A ( associada a galaxia NGC 5128). Estes sucessos inspiraram outras astronômos  e em 1950 o primeiro catalogo "radio-astronômico" foi lançado. Organizado por outro trio de astrônomos ingleses (Ryle, Smith e Elsmore e se tornou conhecido como de First Cambridge Catalog ou 1C. Mas nossos radio astrônomos ainda tinham um longo caminho para aperfeiçoar a arte de determinar com precisão a posição destas fontes de radio nos céus.
            Em 1955 sai o Second Cambridge Catalog. 2C é seu nome para os intímos. Ela contém 1936 fontes e constitui o primeiro levantamento extensivo do céu "radiofônico"... Também com seus problemas ele apresenta varias fontes que não existem.
            Já chegando ao objeto que irei procurar o Third Cambridge Catalog é publicado em 1962. Eu aposto que você já sabe de onde saiu  a sigla 3C 273.  o Catalogo apresenta 328 entradas. Apenas recentemente se chegou aos catálogos 5C e 6C.
            Enquanto nossos radio astrônomos desenvolviam mais e melhores radio-telescópios os físicos nucleares estavam construindo novos e mais poderosos aceleradores de partículas. Os avós do LHC.
            A General Eletrics acabou conseguindo construir um novo tipo de acelerador chamado de Synchroton. Neste eletróns viajam em órbitas circulares em um intenso campo magnético. O acelerador  usa o campo magnético para "injetar" energias nos elétrons e estes conseguem atingir velocidade de até 99% da velocidade da Luz. Olhando pela escotilha do Synchrotron os físicos percebem uma luz intensa sendo emitida. Radiação Synchroton.
            A descoberta desta radiação tem importantes implicações para os radio astronômos. Objetos no céu emitido ondas de radio possuem campo magnético e um monte de elétrons flutuando por ali. Os campos magnéticos de galaxias e nebulosas são muito menos intensos que os obtidos pelo Synchroton ( imagine o LHC...). Mas os campos magnéticos naturais  de galaxias e afins se esparramam por bilhões de anos-luzes cúbicos. Conforme os eletróns destas galaxias espiralam ao redor dos seu campos magnéticos eles produzem radiação synchroton. Mas em comprimentos de onda muito longos. Em ondas de radio.
            Eureka. Descoberta a razão do "ruido de radio" que nossos radio astrónomos primordiais detectam em nebulosas e galaxias.
            A maioria das fontes de radio do catalogo 3C se espalham por uma grande área de céu. como uma galaxia ou uma nébula. Não são fontes pontuais como estrelas. Mas nem todas...
            Falta pouco parra a história nos levarem até os quasares.
            Quatro objetos do catalogo tiveram seu tamanho angular estabelecido e este era bem pequeno. 3C 48, 3C 286, 3C 196 e 3C 147.
            No outono de 1960 , a posição de 3C 48 fora suficientemente bem estabelecida para que os astrónomos no espectro visível do universo ( olha nóis aí...) e armados com um telescópio de 200 polegadas partiram em busca do companheiro otíco da fonte de radio. fotos da região revelaram algo semelhante a uma estrela e Allan Sandage obteve o espectro de nossa estrela. Surpresa . nada semelhante jamais tinha sido visto. A chapa esquenta ainda mais quando observações fotelétricas do "estranho" revelaram que seu brilho variava em períodos inferiores a um dia. . Se algo varia em brilho em menos de um dia significa que ele possui menos de 1 dia-luz. Ou seja a distancia que a luz pode viaja em um dia. Algo ao redor de 27,2 bilhões de km. Parece muito mas em comparação ao tamanho de uma galaxia (mesmo anã) não é nada. Nossa galaxia tem algo como 100.000 anos-luz. Devido a sua aparência quase estelar alguns astrônomos propuseram que que 3C48 fosse um novo tipo de estrela na nossa própria galaxia.
            Finalmente vamos chegar em 1962 e em 3C 273. A esta altura já se havia percebido que  o nosso quasar ( 3C 273 é o nosso quasar , certo?) tinha um diâmetro angular bem pequeno. E por um acaso quase "astrológico"( arghhhh!!!) ele fica situado na constelação de Virgem. Como esta pertence ao zodíaco a lua gosta de passear por estas bandas. E de novo, por uma daquela coincidências que devem ter algo haver com as leis fundamentais do universo, a lua iria realizar não uma mas três ocultações de nosso quasar em 1962 bem em frente ao Radio telescópio de Parkes na Australia.
            Na noite de 5 de agosto de  os astronomos lá reunidos esperavam ansiosos para ver o sinal de radio de 3C 273 ir sendo reduzido gradualmente conforme a lua fosse cobrindo mais e mais o nosso quasar ( ainda sem este título). Isto não aconteceu. Quando a lua chegou a posição em que deveria estar 3C 273 o sinal de radio foi abruptamente interrompido. E meia hora depois ele retornou. Logo trata-se de uma fonte pontual.
Nosos astrónomos sabiam exatamente a posição do limbo lunar no momento da ocultação. E lá reside uma "estrela" azulada de 13a magnitude. ( Na verdade 12.9 e oscilando um pouco...em menos de 24 horas) . Com o objeto localizado e telescópio de 200 polegadas do Monte Palomar a disposição um espectro é rapidamente obtido e lá estão as estranhas linhas de emissão que ninguém consegue identificar. Como estes estranhos objetos parecem uma estrela e não o são passaram a ser chamados de quasi-stellar objects.  Daí para quasar foi um pulo. Na verdade foi obra do astrônomo chino-americano Hong Yee Chiu que em um paper de maio de de 1964 no Phisics Today disse mais ou menos assim;
" Até agora, o desajeitado nome de quasi-stellar radio sources  vem sendo usado para descrever estes objetos . Porque a natureza destes objetos é inteiramente desconhecida  é difícil preparar uma nomenclatura curta e apropriada que descreva suas propriedades essenciais de forma obvia. Por conveniência , a forma abreviada "quasar" será utilizada neste paper".
                O Dr.M. Schimdt do Calthec  conseguira um espectro da "estrela" associada o quasar. Era 1963 ainda. Algo que tornava a analisa destas estranhas linhas obscura era a assunção de que 3C 273 estaria dentro de nossa galaxia. Isto implicaria que o redshift ( desvio para o vermelho) destes seria muito pequeno. Analisando o espectro o Dr. Schimdt achou as tais quatro linhas de emissão já citadas. Embora tais linhas nunca tivessem sido vistas nesta parte do espectro elas pareciam familiares a  Schimdt. Na verdade os seus comprimentos de onda apresentavam a mesma razão que se seria de esperar da ordinária e familiar linhas do átomo do hidrogênio ( elétrons saltando da terceira , quarta, quinta e sexta orbita para a segunda). Schimdt então , de forma valente, sugeriu que estas misteriosas linhas eram do hidrogênio. Só que desviadas enormemente para o vermelho. Seus esforços foram rapidamente coroados pelo sucesso. O redshift de 3C273 cor respondia a 16 por cento da velocidade da luz. Nada dento de nossa galaxia se move tão rápido em relação a nós.
            Logo se descobre que o redshift de 3C 48 cor responde a 37 por cento da velocidade da luz.   A seguir  se descobre que o redshift de 3C 147 é de 55 por cento. Anteriormente  a estas descobertas o maior redshift conhecido pertencia a 3C 295. esta uma galaxia que também é uma forte fonte de emissões de radio.  Logo tornou-se claro que quasares apresentavam os maiores redshifts do universo conhecido . Estamos nos anos 60.   
            Alguns anos depois centenas de Quasares haviam sido descobertos e suas principais propriedades estabelecidas. Eram elas: Eles se parecem exatamente com estrelas, sua cor é azulada, são fortes fontes de radio, apresentam grandes desvios para o vermelho ( redshifts) e muitos apresentam rapida variabilidade ótica e nas  emissões de radio.
            Nos anos 70 há uma rápida sucessão de recordes e cada vez são descobertos diversos quasares com redshifts superiores a 90% da velocidade da luz.
            Os imensos redshifts dos quasares levou a grandes discussões a respeito de sua natureza. Uma das mais curiosas explicações foi obra de Halton Arp. Ele desenvolve uma interessante (embora completamente equivocada) hipótese apresentando quasares como "descendentes" de galaxias . Esta expeliriam Quasares ao longo de seu processo evolutivo. Um interessante conceito que ele desenvolve é que redshifts nada tem haver com distancias. Eles seriam particularidades de diferentes estruturas do universo. è evidente que ela sempre simpatizou com o Modelo de Universo chamado de Steady-State . Hoyle agradece...
            Foi necessários muitos anos até que os quasares fossem compreendidos como uma espécie das chamadas galaxias de Nucleo Ativo.  Devido ao nosso angulo de mirada o que percebemos é a energia emitida devido a acreção de material em buracos negros super maciços no núcleo de galaxia distantes . Como a luz não escapa do buraco negro central nestas galaxias a energia que escapa ( e que percebemos) é gerada antes do Horizonte de eventos pelo estresse gravitacional e devido a intensa fricção do material que esta sendo consumindo pelo quasar.  Quanto mais diretamente estiver apontado este jato relativistico para nós mais brilhante será o Quasar. Dependendo da posição poderemos percebe-lo como um Blazar ,uma radio Galaxia, uma galaxia Seyfert etc... Fotos atuais comprovam a natureza dos quasares e cia. LTDA.. Se percebem galaxias ao redor dos mesmos. (pelo menos da maioria...). São todos núcleos ativos de galaxias percebidos de forma distinta devido a posição em relação a nós: os observadores....
            Os mecanismos envolvidos e toda a história acima sustenta porque os quasares são formas anciãs e ( uma licença poética...) espíritos de um universo primitivo pois a produção de energia termina quando um buraco negro super massivo consome todo o gás e poeira próximos. Desta forma o provável que a maioria das galaxias ( a partir de uma massa minima) tenham passado por uma fase ativa e que seus antigos quasares assombrem outra galaxias em outro lugar no espaço- tempo. 

            Mas vamos em busca de nosso fantasma. 3C 273.
            É o DSO mais distante ao alcance de um astrônomo amador com um telescópio pequeno. Brilhando com Magnitude 12,9 e com um brilho de superfície alto ele estará ao alcance de pequenos telescópios. Nunca o consegui ver com meu refrator de 70 mm . Mas existem registros de observações com telescópios de 75 mm. Independente de seu telescópio o nome quasar será obvio. É rigorosamente igual a uma estrela apagada.
            Em minha caça ao fantasma me armei com o Newton ( um refrator de 150 mm) e depois de muito sky hooping cheguei até ele. É um exercício de paciência mas totalmente factível. O Quasar é a estrela mais apagada no campo. O desenho abaixo deixa isto bem claro.
            Realizei dois caminhos . Partindo de Porrima e Partindo de Zaniah. Ambas no corpo de Virgem. De Zaniah é mais fácil. Ensaie a navegação com a ocular que você vai usar utilizando o Stellarium. Eu usei minha 26 mm.  Repara no detalhe da Ocular na captura de tela abaixo.

           As duas estrelas entre 9 e 10a magnitude no canto direito da ocular ( a mais fraca com uma pequena companheira mais fraca ainda ) ,mais uma companheira formam um triangulo  que é evidente no sketch que realizei. São os faróis para localizar o quasar. Cuidado para não confundi la com a estrela de 10a  magnitude logo acima do quasar.  


            Não percebi nenhuma coloração azulada como esperava. Na verdade se percebi algum desvio foi mais para o vermelho.
            O alvo merece céus escuros e estar bem alto no horizonte. De preferência no momento que cruzar o meridiano.
            É um clássico. Um alvo para "conquistadores do inútil" sérios e dedicados. Vai se parecer uma pequena estrela que se apresentará melhor com visão periférica. Ela  perdida entre outra estrelas mais brilhantes que ela. E não será uma estrela. E nem "existe" mais...
            Mas é o objeto mais distante e antigo que você poderá ver com um telescópio amador.