domingo, 28 de julho de 2013

A Ursa Maior, Mizar , Alcor e os Algoquines


A Ursa Maior não é exatamente o que se pode chamar de uma constelação austral.  Nas latitudes cariocas ela é dificilmente percebida e suas estrelas mais boreais não chegam a ser visíveis. Mas como andei viajando pelo norte do país e não há como não admitir que ela seja uma das constelações mais famosas do céu e que apresenta atrativos inegáveis ela vem hoje nos visitar.

Na verdade um asterismo que pertence à Ursa Maior é uma espécie de Cruzeiro do Sul dos céus boreais. As sete estrelas mais brilhantes do grupo são tão famosas que tem apelidos em quase todas as culturas.  Formam o que os norte-americanos chamam “Big Dipper” (que é aquela concha que usamos para servir sopa), os ingleses se referem ao asterismo como “The Plough” (o Arado) e os franceses a chamam de “Cassarole”. Não bastando isto o grupo é ainda conhecido na Escandinávia como a “Carroça de Thor” ou como” O Vagão de Odin” (pai de Thor e por isto dono de um veiculo mais luxuoso...). A História continua com os antigos egípcios imaginando o Pernil de um Touro. Os árabes e judeus viram um caixão. E os primeiros cristãos batizaram o asterismo como “O Caixão de Lazaro”.
Agora quem percebeu as sete brilhantes estrelas e suas companheiras mais apagadas como um gigantesco urso é uma história perdida nas brumas do tempo. Curiosamente esta impressão transcende diversas culturas que, supostamente, jamais se encontraram. São encontradas referencias ao “grande urso” em fontes tão diversas como os antigos gregos e romanos como em tribos de nativos americanos. Seria isto uma coincidência? Ou um indicativo de uma origem comum escondida nas raízes de uma Ásia há muito esquecida?
Existem diversas lendas ao redor deste urso celestial.
Os antigos gregos contavam que esta seria uma encarnação de Callisto , uma jovem e bela mulher por quem Zeus se apaixonou. Temendo o ciúme de sua esposa Hera ele a transfigurou em uma ursa e a colocou em segurança no céu. Posteriormente ele coloca seu filho, Arcas, ao seu lado. São respectivamente a Ursa Maior e a Ursa Menor.
Do outro lado do mundo e muito antes de influências europeias existirem por aqui diversos nativos americanos possuíam mitos em que as mesmas estrelas também representavam um Urso.
Casal Algoquine
Entre os Algoquines, da América do norte, a lenda gira entorno de um malvado urso que deixa sua toca todas as primaveras e que vem trazer morte e destruição para sua tribo. Finalmente em uma desesperada tentativa de impedir esta carnificina os lideres tribais mandam seus três melhores guerreiros para caçarem a besta. . Nesta história as estrelas que formam o cabo da concha representam estes guerreiros. Na maioria das outras lendas estas estrelas formam a cauda da Ursa... De qualquer forma estes guerreiros continuam a caçar a ursa pelos céus durante o verão e quando se aproxima o outono um dos caçadores a atingem com uma flecha. E conforme o sangue da ursa pinga pela paisagem as folhas outonais são empasteladas de vermelho, laranja e amarelo. Parece que a ferida não foi mortal já que a ursa e seus perseguidores retornam aos céus todas as primaveras.
Agora vamos falar das estrelas razão deste post.
Se você perceber a estrela que se encontra no centro do cabo e prestar bastante atenção poderá perceber uma companheira mais discreta. Os Algoquines viram esta discreta companheira como uma grande panela que um dos guerreiros carregava em suas costas para cozinhar o urso quando o capturassem. Outras tribos imaginavam um cavaleiro e um cavalo. Eles utilizavam estas estrelas para testar a acuidade visual de seus guerreiros.
Hoje sabemos que a dupla de cavalo e cavaleiro possuem os nomes arábicos de Mizar e Alcor.
Mizar, a mais brilhante, brilha com magnitude 2.3. Alcor é de magnitude 4.0, ou cerca de cinco vezes mais tênue. A companheira foi batizada, em Latim, de Eques Stellula, “O Pequeno Cavaleiro Estelar”.
Na verdade sabemos muito mais que isto.
Mizar é um sistema quádruplo composto por duas binárias.  O movimento próprio de Mizar e Alcor indica que ambas viajam juntas pelo espaço (são ambas membros do Grupo Móvel da Ursa Maior).  Entretanto ainda ha duvida de serem gravitacionalmente associadas. Mas estudo recente (2009) indica que Alcor é ela mesma uma binária e que o sistema compartilharia de um centro de massa em comum com Mizar. Isto faz do nosso pequeno cavaleiro estelar um sistema sêxtuplo.
Observar Mizar e Alcor e separa-las a olho nu é um desafio desde a antiguidade. Não chega a ser tão difícil quanto parece. Com um pequeno passeio a latitudes mais boreais que as do Rio é fácil. A separação é enorme. 11,5 minutos de arco.
Na verdade se percebe também mais uma estrela no conjunto.  Tyc 3850-257-1. Com magnitude 7,5.  Também conhecida como Sidus Ludoviciana.. Sua descoberta é uma história interessante. Foi um dos mais famosos equívocos astronômicos e Johann Georg Liebknecht jurava tratar-se de um planeta...

Sir Patrick Moore dizia que o verdadeiro desafio seria perceber este discreto membro (apenas óptico) no conjunto. Não há a menor duvida. Chega a ser duvidoso que isto seja possível. Mas...
Com auxilio de qualquer aparelho óptico (no meu caso foi um binóculo 15X70) existem mais surpresas.  
Mizar foi a primeira estrela dupla telescópica descoberta. (Mizar A e B) descoberta, provavelmente, por Benedetto Castelli (que também observou a tal Sidus Ludoviciana e enterrado as pretensões planetarias de seu colega quase cem anos antes destas surgirem...)  em 1617 . Este pediu a Galileu que a observa-se. Este então produziu registros detalhados da dupla. Posteriormente Riccioli a descreveu como dupla (1650). 
Mizar A e B

A estrela secundaria, Mizar B, tem magnitude 4 classe espectral A7. Chegando a 380 UA (unidades astronômicas) uma da outra Mizar A e B demoram alguns milhares de anos para completarem seu passeio em volta uma da outra.
Mizar foi ainda a primeira Binária espectral a ser descoberta.. Por Pickering em 1889. Binárias espectrais não podem ser separadas visualmente e são descobertas estudando-se as linhas espectrais de um sistema por longos períodos de tempo.
Mizar e Alcor são excelentes alvos para o astrônomo urbano sendo visualizadas mesmo baixas no horizonte e em área de poluição luminosa.  E são parte da história da astronomia desde a pré-história.

Separa-las a olho nu é um desafio que acompanha a humanidade desde os seus primórdios. E uma honra. 

domingo, 21 de julho de 2013

Halton Arp, Amazônia e o Céu e a Terra

         

        Depois de muito tempo sem ver um céu verdadeiramente escuro surgiu uma colocação em um documentário que iria me levar para muito além do esperado. Eu, que sonhava com um fim de semana no céu suburbano da Armação dos Buzios fazia muito tempo, fui parar na Amazônia.
            Desta vez em uma pequena aldeia a cerca de cem km de Manaus em um afluente do baixo Rio Negro. No extremo leste do Arquipélago das Anavilhanas.


            A lua ainda bem modesta com apenas 20 % do seu disco iluminado e deixando os céus antes da meia noite.
            Já no dia da chegada percebi o que me aguardava. Enquanto terminávamos os preparativos para nossa saída, no Cais do Hotel Tropical, comecei a namorar o céu. Como sempre ,quando a serviço, meu companheiro seria o “Pau de Dar em Doido”. Meu Celestron Skymaster 15x70 mm.
            Assim que nos afastamos um pouco da cidade o céu se apresentou em grande estilo. A via láctea dominando o Céu. 
            Como uma introdução eu resolvi passear por campos bem conhecidos e fazer logo um belo “bodycount” para começar os trabalhos.
            Só para ser um pouco diferente iniciei com M83. A primeira galáxia de um longo plano. Mas isto eu vou contar depois... A primeira galáxia descoberta fora do grupo local. Pelo Abbe Lacaille. Fácil...
            Com Escorpião e Sagitário já raiados eu parto para um “Tour Messier” de dar inveja.
Em pouco menos de 30 minutos, deitado no teto do “Victoria Amazônica”, eu tinha colocado na bagagem nada menos que M4, M80, M7, M6, M22, M28, M21, M20, M23, M17, M18, M16, M25, M26 e M11. Sem contar um numero próximo de NGC´s mais discretos que residem sobre a Via láctea.  Adoro observar de Binóculo...  Isto para não falar nas bobagens que vejo sempre no meu Rio de Janeiro no entorno do Cruzeiro, Centauro e Cia. Ltda. Que aqui são todos óbvios objetos mesmo a olho nu. Foi curioso ver Eta Carina passeando tão baixa pelo horizonte.
            Mas agora me preparo para os convidados menos chegados. Estando a apenas 3º do Equador todo um horizonte norte que raramente vejo esta ao meu dispor.
            Começo a olho nu. O grande Rift se apresenta obvio agora que já estamos rio acima e as luzes de Manaus não mais perturbam. Fico olhando fascinado para toda região de Cygnus e com o Triangulo de Inverno dominando o Horizonte norte resolvo partir para outras plagas que não me são tão conhecidas. 
            Meus planos para a viagem são bem diferentes. Como companheiro de viagem estou levando Halton Arp, seu “Catalogo de Galáxias Peculiares” e seu” O Universo Vermelho”.

            Arp tem ideias cosmológicas bastante originais (para se dizer o mínimo). Mas suas galáxias peculiares são algumas das mais belas paisagens que podem ser representadas por DSO´s. E apesar de sua maioria ir muito além das possibilidades de meu modesto aparelho diversas delas serão alvos viáveis em céus tão escuros e nesta latitude.
            Devido ao horário devo deixar para o dia seguinte meus objetivos primordiais. Mas ainda assim percebo que a temporada será boa e cheia de novidades. E encerrando o dia, com um barco em movimento e vibrando sobre seu imenso motor diesel ainda faço um belo tour pelo o “novo” horizonte que se apresenta.  Diversos Messier´s que nunca tinha visto com tanta dignidade se apresentam. M39 faz belo par com Ngc 7082. A região é tão rica que é difícil saber exatamente o que esta se vendo. Mas no meio deste lindo campo colhi Ngc7062, 7039 e 7082.  Do Index Catalog (uma continuação do Ngc...) se apresentou e não deve ser esquecida IC 5146 (A Nebulosa do Casulo). Isto somente entre os DSO´s mais óbvios próximos a Deneb (Alpha Cygnus). Diversos outros estavam lá mais se camuflam em meio à multidão. Subindo um pouco e ao redor de Sadr vejo M29 e Ngc 6910. Isto sem procurar... Todo região de Cygnus é encantadora e são dezenas (ou centenas) de DSO´s em campos estelares riquíssimos. Uma das vizinhanças mais povoadas da Galáxia que espero conhecer melhor...
            Para encerrar a noite e descansar depois de um longo dia visitei um belo aberto que é pouco lembrado, mas que merece respeito. Brilhando com 4ª mag. e se espalhando por mais de 40´ de grau IC4665 fica pertinho de Celbarai (Beta Ophiucus) e é um alvo excelente para binóculos.
            De volta a Halton Arp e suas galáxias peculiares eu tenho em mente procurar por dois membros que são peculiares e também membros do tradicional Catalogo Messier. E assim ao alcance de meus modestos meios.
            Arp é um físico impar. Como falei trouxe como companheiro de viagem seu “O Universo Vermelho”. Livro o qual achei em um garimpo na Livraria de Travessa e que me permitiu conhecer (e me divertir) com sua cosmologia diferente. Nada que tenha mudado meu modo de ver as coisas. Mas é divertido ver até onde vai a imaginação humana. Uma das passagens que achei mais significativa é uma conversa que ele tem com Arthur C. Clark. Nesta passagem ambos encontram-se na Índia e Arp chega ansioso em levar-lhe alguma novidade cientifica que fosse surpreender ao escritor de Sci-fi. E ele esqueceu que ciência não é ficção cientifica e que sua louca teoria já havia passado pela cabeça do mesmo. Só que este a manteve no terreno da ficção. E assim quando ele fala:
“Há raios cósmicos com energia extremamente alta, raios gamas e raios X vindos do centro do Superaglomerado Local”.
Ele simplesmente responde, como se não fosse nada demais:
-“Oh, sim, criação de matéria”...
            Arp apresenta em seu “O Universo Vermelho” e seu livro anterior” Quasars, Redshifts and Controversies” uma hipótese das mais doidas que poderia ser resumida da seguinte forma: A evidência empírica estabelece um padrão onde se pode estabelecer que galáxias grandes e velhas ativas ejetam material mais jovem que forma galáxias companheiras menores, que por sua vez ejetam material que dão origem a quasares e objetos BL Lac ainda mais jovens. Segundo Arp a hierarquia etária é evidente a partir das propriedades dos objetos nos grupos característicos em que aparecem as galáxias. Em uma geometria muito “Mandrake” ele vê em diversas de suas galáxias velhas um emparelhamento que ocorre lado a lado (às vezes paralelo, às vezes perpendicular, às vezes os dois e etc..) dos núcleos ativos, de suas conexões luminosas de volta até os centros ativos e da propensão geral para a ejeção de material emitindo radio, raios X e gás excitado.
            O samba do crioulo doido "Arpiano" continua com uma relação a respeito de uma correspondência um a um com a hierarquia etária, há uma hierarquia de desvio para o vermelho. Toda linha de evidência analisável mostra (segundo Arp, eu não tenho nada com isto...) que quanto mais jovem o objeto mais alto é seu desvio para o vermelho intrínseco. O que significa jovem para estrelas e galáxia é outra longa discussão em meu FEBEAPA (procurem por Stanislaw Ponte Preta no GOOGLE...) cosmológico. De uma forma curta e grossa ele renega Hubble e determina que o desvio para o vermelho não possui nenhuma relação com distancia. Ma sim com idades... Isto por sua vez tem alguma relação com o fato de que elétrons jovens não viram muito do universo e por isto tem menor massa. Ele utiliza Fred Hoyle para embasar este ponto de sua ideia...
            De qualquer forma o livro é divertido (já falei porque) e graças a ele eu tenho meus dois alvos para o inicio de minha segunda noite. São M106 e M51. Ambos os casos de desvios para o vermelho esquizoides e membros do grande Livro de Arp. A frisar “The Atlas of Peculiar Galaxies” (1966). Baixe-o aqui.
E claro ao alcance teórico do “Pau de Dar em Doido”.   São objetos Messier.
Após um longo dia visitando as locações onde filmaríamos o nosso hibrido de comercial com documentário volto para o “Vitória Amazônica” e fico aguardando anoitecer com mala e cuia para observar e fazer fotos de campo aberto. As observações hoje devem se limitar aos dois alvos determinados e tem hora para acontecer. E assim fico pelo convés superior vendo os espetáculos da natureza se sucederam sob um calor equatorial...
Anoitece. Estou pronto para ao ataque.
Com tudo combinado e nada pronto.
E assim a grande presença da noite foi M101... Como já é habito por aqui o que esta combinado não esta muito certo.
Formando figura geométrica (adivinhem qual...) com Mizar e Alkalid foi vitimada rapidamente.  Clara e obvia ela seria presente mesmo em minha buscadora 9x50 mm. A diferença entre o “Pau de dar em doido” e a buscadora é como um filtro ND 6 em um refletor. ND significa “Neutral Density”.
N6 são filtros ou gelatinas que irão comer luz de sua foto. N6 vai comer algo como um ponto de diafragma (maybe more...) de sua foto. E assim permitir maiores aberturas e menor profundidade de campo. N6 é jargão “local” para “Neutral density 6”. Que por sua vez é o primo- irmão do código Morse...
O processo aqui foi simples. Bortle 2. Se não conhece a Escala Bortle clique aqui.  
-Se percebia uma luz de fundo a Sueste, Manaus!
Mas nada que atrapalha-se. Na verdade fiquei impressionado como uma única fonte de luz (sendo única...) pode se fazer presente de tão longe.
M 101 se torna uma de minhas galáxias favoritas e o esfuminho dela é obvio e claro.  Conhecida como a Galaxia do Cata Vento ela é um exemplo clássico  de espiral.
M 101 (Hubble)
Quanto às galáxias de Arp que tinha em mente observar eu as observei. Nada de estrutura e nem fogos de artifício. Mas bastante fáceis e com nebulosidade evidente com visão periférica. M51 não eram duas galáxias em colisão. Mas um esfuminho onde com vontade, poderiam existir duas condensações mais brilhantes. Você sabendo poderia até mesmo imaginar dois núcleos galácticos. Mas só sabendo...
M 106 só se apresenta com visão periférica, mas não chega a ser difícil. Uma vez localizada é possível percebe-la com a visão direta, mas apenas como uma estrela de baixa magnitude. Utilizando-se novamente de sua visão periférica ela novamente se apresenta como uma condensação evidente e de bom tamanho. Quanto mais olho maior fica... Na região habitam mais galaxias e desconfio de sua presença sendo que com visão periférica consigo perceber pequenas mudanças do gradiente de luz  mas nada muito notável. O 15x70 funcionando no seu limite.
O céu neste pequeno poço amazônico é algo surreal. A noite vai seguindo e depois de diversos registros fotográficos percebi que M7 estava muito exibido.  Apareceu em diversos dos ângulos escolhidos. Um verdadeiro ator.
M 6 “shows off”. Assim com Ngc 6231...

Vivendo em um barco você não possui a base mais estável possível para realizar fotografias. E com o contra regras querendo pescar lulas na Amazônia e assim perturbando minha sessão fotográfica usando uma lanterna das mais potentes consegui resultados diferentes em pontos diferentes do céu. Se voltar aqui trarei “pads” antivibração, pois “Victoria’ apesar de ser um barcão e muito bem fundeado ainda é um “Alvo Móvel”“. Mas este nem é o problema maior. Este é a vibração de seu gerador sempre ligado. É um “filme de bacana” e assim o interior do veiculo esta sempre “climatizado”.
Na fronteira. Modo Sort R n´S

Conta um amigo que a invenção do Ar-condicionado e a do Gin tônica tornou possível habitação dos trópicos.
E que assim seja!
Desta forma depois de ter cumprido a “Missão Arp” e tirado umas fotos. Eu vou fazer o que este céu merece. Freestyle.
No conjunto Centauros- Scorpio e mais algumas constelações mais obscuras somadas a Via Láctea (Ok, norma, Ara e Cia Ltda...) eu contava, a olho nu, nove DSO´S óbvios. A Via Láctea se apresentava como uma nuvem densa.
De volta à janela favorita do Nuncius, vi coisas que um dia achei ter visto. O 15X70 se apresentava devorador.
Ngc 5662 eu acho que é novidade. . Depois uma coleção de Ngc´s na fronteira Centauro-Lupus.
Depois de ficar estupefato com NGC 6067, obvia a olho nu, resolvendo estrelas para meu binóculo eu ainda fico mais feliz em perceber uma vasta coleção de abertos entre Alpha Centauro e o aberto em questão.
“Subindo o rio Nilo” chego ao “Falso Cometa”. Ngc 6231, Trumpler desconhecido, Ngc 6242 e mais umas belezuras se apresentam de tal forma para o “Pau de Dar em Doido” que eu demorei a entender o que estava vendo. Uma das paisagens mais deslumbrante que já tive olhando o céu. Eu não sabia que o conjunto da obra era assim... O que é um céu escuro.
Eu percebia claramente dezenas de DSO´s óbvios a olho nu.
Ngc 6067, Ngc 6087 e 6031 forma uma nuvem entre as nuvens que compõem o que chamamos de Via láctea de uma densidade nunca observada por este que vos escreve. M7 e M6 são ridiculamente óbvios. O falso cometa é  o falso cometa de meus sonhos mais apocalípticos.  Mas tem mais. M8 evidente. Varias condensações menores bastante claras. Pelo “Pau de dar em doido e visão periférica parecia até o ‘Stellarium”... 
Dias após dia a lua se tornava maior.  E o trabalho também. No terceiro dia resolvi fazer mais algumas fotos. Morando em um barco a plataforma não chega a ser ideal. Mas mesmo assim o miolo da Galáxia sempre se apresenta. Novamente M7 a melindrosa mais metida de quase todas as fotos que realizei. Sem muito foco nem muita mira. Nas fotos abaixo é possível localizar diversos DSO´s . Eu mesmo chego a diferentes resultados cada vez que as inspeciono. Quantos DSO´s você localiza aqui?
Deep Sky Stacker- 9x 15 seg. Asa 3200. 

Todas as fotos astronômicas aqui apresentadas foram feitas  com uma zoom 18-55 mm e minha Canon T3.  Foram utilizados os seguinte programas para o processamento das imagens finais: Deep Sky Stacker, Rot n´ Stack, Photoshop e Noiseware  
Já com 60 % do disco lunar iluminado eu ainda localizo M9, M10 e M12. Todos globulares em Ophiucus. Não me recordo de ter jamais observado os dois últimos. E M9 somente de Paraty . Também com o 15X70...
Apesar de meus planos anteriores (que seriam uma coleção do Catalogo Arp de Galáxias Peculiares) eu acabo me esbaldando nos braços do rio galáctico. Nas proximidades das Anavilhanas e com a galáxia dominando o meu céu era fatal que eu caminha-se de arquipélago em arquipélago pela Via láctea . E Assim, noite após noite. Eu visitei uma centena de aglomerados abertos, nebulosas e globulares. Minha viagem foi “fluvial”.
            De novo o “efeito Arp” atua. Em meus sonhos mais loucos começo a ver uma conexão entre nós e o universo (mas não consigo perceber nada como “criação de matéria”...).
A presença de Escorpião e Sagitário dominando o céu e me “obrigando” a olhar para o umbigo galáctico esculhambou meus planos (as evidencia empíricas de Arp...) e as coisa aconteceram de uma forma bem orgânica.Seu nome é  a Via láctea.
Esta quando se apresenta, em alto estilo, explica o termo “Umbilical”.
 Na companhia de Arp e vivendo nas margens do Rio Cueiras eu começo a viajar. Ocorrem-me expressões como “Geografia galáctica” e "Astronomia Terrena”.

A “Geografia galáctica” nos diz que habitam os braços galácticos nebulosas, que são berçários estelares, Aglomerados abertos, que são um conjunto de estrelas que residem no braço galáctico e que nasceram destas nebulosas antes citadas (às vezes coabitam...). Estes são organizações familiares.  
Diz-nos também que aglomerados Globulares habitam o halo galáctico (subúrbios...).
Quanto a “Astronomia terrestre”: existe o Rio (no caso o Negro e alguns afluentes) onde habitam grupos familiares basicamente compostos de carbono que são a menor organização da terra. (Formigueiros e Cia ltda. possuem muito mais indivíduos que os tais grupos familiares). Conheci dois aglomerados terrestres bastante interessantes. Um responde por Aldeia Kaunã e o outro por Aldeia Três Unidos. Como já estive no Alto Xingu eu diria que são dois aglomerados próximos. Mas como aglomerados abertos cada um não tem o mesmo caráter (já discuti o assunto aqui). Ainda sob o termo poderia falar do efeito que o céu tinha sobre os meus companheiro de trabalho. Acostumados ao céus urbanos a presença de tanta beleza os tornou grandes interessados em fenômenos que jamais habitaram seus interesses. E assim o pequeno laser verde apresentou muitas novidades aos meus companheiros.
Na verdade a viagem foi tanta que acabei realizando mais relações entre estrutura humanas na terra e estruturas galácticas. Uma espécie de viagem fractal.
Com o tempo a Lua foi crescendo, o trabalho aumentando e acabou a birita
E aprendi como a lua pode influenciar o céu. Comecei observando com Bortle 8 (veja a escala Bortle de Escuridão aqui). A Via láctea cortando o céu de cabo a rabo. Evidente desde o extremo sul. Por perto do Cruzeiro. Até Cygnus no lado norte. Depois de algum tempo ela só foi evidente próxima a Sagitário. Até finalmente ser muito discreta. Se via dezenas de DSO´s olho nu no inicio da jornada ao final mesmo M7 (uma “franga” que gosta de aparecer...) era uma senhora recatada.
"Cygnus Rising"

Já  Selene nos brinda com um belíssimo halo lunar. O maior que já vi.



Outra lembrança que devo a mim mesmo é Vênus  ao entardecer.

A Amazônia é enorme. Mas a galáxia é maior. Se podem ver os aglomerados humanos na beira do Baixo rio Negro muito mais de perto...
Convivendo com o Povo da Floresta eu aprendi que o objeto celeste que posso observar mais de perto é a Terra. E assim fujo um pouco do que chamas-se astrofotografia.  E se as astro fotos do céu mais escuro que visitei no ultimo ano ficaram a desejar as estruturas da tal “Astronomia Terrena” foram as estrelas da festa.
Como imagens falam mais que mil palavras eu encerro com algum dos Aglomerados Humanos que habitaram as margens do Rio Cueiras em julho de 2013. Afinal não posso excluir deste post o pequeno grupo móvel do qual fiz parte e que embora tenha tido breve existência habitou este rincão do universo...
Luz




Aglomerado

Lei

Iauaretê

Vitoria

Igapó

Luas

Saber

Pitúna

Amizade

Reflexo

aglomerado II

Japiim

fome

Katu Pitúna

Polarizador

Katuara

Alegria



Globalização



lkjmlkjm
Globular

Beleza

farinha

Aglomerado II

Desconhecido

Scorpio

Steady Cam...



quinta-feira, 11 de julho de 2013

Ngc 5822- Um Injustiçado em Noite Escura

            

           Talvez porque a Terra gire em volta do Sol ou talvez pela invenção do tempo todo ano eu faço anos. Por uma coincidência que parece relacionada ao fato que coincidências acontecem e que isto não tem nada haver com leis fundamentais do universo eu e minha filha fazemos aniversario no mesmo dia. 10 de Julho. Desta forma meus aniversários se tornaram bem mais calmos nesta ultima década. Afinal é festa de criança.
            E assim acabou a festa e ainda tinha tempo e sobriedade suficiente para aproveitar a lua ainda bem nova e ganhr um belo presente. Mais uma daquelas coincidências que independem das leis fundamentais do universo.
            “Descobri” Ngc 5822.  Um belíssimo e grande aglomerado galáctico que curiosamente é pouco cantado. Se espalhando por 40´ e bem próximo a Zeta Lupus é um alvo bastante fácil de ser localizado. Ainda mais brilhando com 7ª mag.
            Mas mesmo com todas essas qualidades ele escapou do Abbe Lacaille em seu levantamento dos céus austrais e foi apenas identificado quase um século depois por John Herschel (o filho). em 1836.
            Curiosamente este grande aglomerado possui pouquíssima documentação. Mesmo no NASA/Ipac Extragalactic Database há pouca informação a respeito do mesmo. ´
            Achei no mínimo estranho. Como já falei trata-se de um grande e belo aglomerado. Do mesmo nível que os mais conhecidos Ngc 2516 (Running Man Cluster), 2547 e mesmo IC2602.
            Tenho estado em uma fase “fotográfica” e com isto não tenho observado tanto. Em geral localizo o DSO e acoplo a câmera. E assim não observo. È importante não permitir que a astrofotografia se torne um fim nela mesma. Esta sessão foi bastante interessante por me lembrar disto.
            Eu não lembrava o nome, mas sabia que junto a Zeta Lupus habitam vários DSO´s. Decidido a encontrar pelo menos um deles eu sabia que achar o mais brilhante é o mais provável... Primeiramente localizei 5822 navegando com meu 15X70 mm. E dei uma bela namorada. O Aglomerado não chega a se resolver e com visão periférica gosto de acreditar que percebo três estrelas. Por esta imagem binocular ele me recorda Ngc 5281 (O Aglomerado de Cheshire). Resolvo que preciso ver aquilo melhor. E Aproximo o telescópio da janela. Como esta noite não irei fotografar o alinhamento polar se torna quase desnecessário. E por mais uma coincidência se faz bastante honesto e mais que suficiente para observação visual.
            Com uma Plossl 25 mm ele começa a se apresentar. Em uma primeira impressão ele me lembra uma “Marca do Zorro” estilizada e ao contrario. Suas estrelas mais brilhantes dão este padrão. Conforme vou olhando mais estrelas vão se resolvendo e a impressão se desfaz um pouco. Uma bela dupla bem junta habita o canto inferior esquerdo da ocular. O Aglomerado enche bem o campo e com mais estrelas de campo emoldurando ele forma uma bela paisagem. Depois troco a ocular e calço uma 17 mm. È o melhor resultado. O aglomerado enche o campo e se resolvem mais estrelas. O campo visual de minha 10 mm não é capaz de abarcar todo o aglomerado e se perde o contexto das outras oculares. E não se resolve mais que com a 17 mm. Volto para ela.
            Como falei é importante observar. E para estudar um DSO eu gosto muito de desenha-lo. Ao contrario de fotografias você é obrigado a prestar muito mais atenção no que esta vendo e assim acaba por descobrir detalhes que de outra forma passariam despercebidos.  Não que meus desenhos sejam lá muito fidedignos. Mas o processo é bastante enriquecedor...

            Fazia muito que não desenhava e havia me esquecido disto. Desta forma cheguei a diversas conclusões e ainda que sem confirmação parecem ser o melhor que conseguirei saber a respeito deste pouco comentado e injustiçado aglomerado aberto.
            Consigo resolver algumas dezenas de estrelas que me parecem membros reais do aglomerado. Na sua parte central há uma certa concentração de estrelas mais tênues que “flicam” com visão periférica. E seus membros mais brilhantes são bem brilhantes... Ele é cotado como um aglomerado de magnitude 7 no Stellarium. Em outras fontes ele se apresenta como magnitude 6,5. Eu o achei muito brilhante diria sem medo que ele atinge 6a magnitude e que pode ser percebido a olho nu em céus bem escuros. Mesmo lutando contra a forte poluição luminosa patrocinada pelo Governo do Estado do Rio ele se apresenta (um pouco discreto) na minha buscadora.
            Para localiza-lo eu parti de Alpha Centauro e me dirigindo rumo Nor-Noroeste cheguei rapidamente a Zeta Lupus. Com Zeta centralizada o aglomerado estará no canto da buscadora. Escaneie um pouco e ele vai acabar se mostrando. Atenção que ele se apresentará primeiramente como uma fraca estrela levemente enevoada. Depois melhora...
            Como resolve desenhar o bruto fiquei observando por um bom tempo. E apesar de nenhum “paper” ou diagrama HR para embasar minhas suposições eu seria capaz de apostar que se trata de um aglomerado bem jovem (não localizei nenhuma estrela avermelhada) e relativamente próximo (bastantes membros brilhantes mesmo com a poeirada que costuma apagar estrelas mais tênues no plano galáctico).  Suas estrelas não apresentam colorido e são todas de luz bem branca.
            Depois de fazer um Sketch eu acabo abandonando o belo aglomerado. Acho que nunca o tinha observado. Algo que me surpreendeu, pois passeio muito por estas bandas do céu e o aglomerado é grande e brilhante. Uma grata surpresa.
            A noite estava boa e dou um pulo em Alpha Circinus e logo depois em Beta Triangulo Australis. Seguindo esta linha esbarro meio sem quere em Ngc 6025. Este um velho conhecido que há muito não visitava. Não me lembrava dele tão bonito. È possível que nunca o tivesse observado com o “Newton”. (Refletor 150 mm). E Isto explicaria porque não tinha voltado aqui com mais frequência. É um aglomerado galáctico bem grande rico. Mais concentrado que o anterior, mas ainda assim se espalhando por 12´ de céu. Ele também se apresentou melhor com a ocular de 17 mm.
            Ngc 6025 é uma descoberta do Abbe Lacaille (5 de março de 1752) e um aglomerado bem mais conhecido que 5822. Diversos “papers” a respeito ou com ele entre os figurantes podem ser encontrados  clicando aqui
         O mesmo se encontra a cerca de 2400 anos nós.
            Uma curiosidade é que algumas fontes chama este belo aglomerado aberto de “Lambda Circinus Cluster”. Eu admito não entender a razão. O Aglomerado fica próximo à fronteira de Triangulo Australis e Norma. E Lambda Circinus não faz parte do aglomerado nem aqui nem perto do “Great Attractor”. Na verdade um dos fatos que faz de 6025 famoso é justamente se apresentar na mesma direção que este.

            Noite de lua nova são sempre boas para se caçar DSO’s. Velhos ou novos conhecidos.