domingo, 28 de julho de 2013

A Ursa Maior, Mizar , Alcor e os Algoquines


A Ursa Maior não é exatamente o que se pode chamar de uma constelação austral.  Nas latitudes cariocas ela é dificilmente percebida e suas estrelas mais boreais não chegam a ser visíveis. Mas como andei viajando pelo norte do país e não há como não admitir que ela seja uma das constelações mais famosas do céu e que apresenta atrativos inegáveis ela vem hoje nos visitar.

Na verdade um asterismo que pertence à Ursa Maior é uma espécie de Cruzeiro do Sul dos céus boreais. As sete estrelas mais brilhantes do grupo são tão famosas que tem apelidos em quase todas as culturas.  Formam o que os norte-americanos chamam “Big Dipper” (que é aquela concha que usamos para servir sopa), os ingleses se referem ao asterismo como “The Plough” (o Arado) e os franceses a chamam de “Cassarole”. Não bastando isto o grupo é ainda conhecido na Escandinávia como a “Carroça de Thor” ou como” O Vagão de Odin” (pai de Thor e por isto dono de um veiculo mais luxuoso...). A História continua com os antigos egípcios imaginando o Pernil de um Touro. Os árabes e judeus viram um caixão. E os primeiros cristãos batizaram o asterismo como “O Caixão de Lazaro”.
Agora quem percebeu as sete brilhantes estrelas e suas companheiras mais apagadas como um gigantesco urso é uma história perdida nas brumas do tempo. Curiosamente esta impressão transcende diversas culturas que, supostamente, jamais se encontraram. São encontradas referencias ao “grande urso” em fontes tão diversas como os antigos gregos e romanos como em tribos de nativos americanos. Seria isto uma coincidência? Ou um indicativo de uma origem comum escondida nas raízes de uma Ásia há muito esquecida?
Existem diversas lendas ao redor deste urso celestial.
Os antigos gregos contavam que esta seria uma encarnação de Callisto , uma jovem e bela mulher por quem Zeus se apaixonou. Temendo o ciúme de sua esposa Hera ele a transfigurou em uma ursa e a colocou em segurança no céu. Posteriormente ele coloca seu filho, Arcas, ao seu lado. São respectivamente a Ursa Maior e a Ursa Menor.
Do outro lado do mundo e muito antes de influências europeias existirem por aqui diversos nativos americanos possuíam mitos em que as mesmas estrelas também representavam um Urso.
Casal Algoquine
Entre os Algoquines, da América do norte, a lenda gira entorno de um malvado urso que deixa sua toca todas as primaveras e que vem trazer morte e destruição para sua tribo. Finalmente em uma desesperada tentativa de impedir esta carnificina os lideres tribais mandam seus três melhores guerreiros para caçarem a besta. . Nesta história as estrelas que formam o cabo da concha representam estes guerreiros. Na maioria das outras lendas estas estrelas formam a cauda da Ursa... De qualquer forma estes guerreiros continuam a caçar a ursa pelos céus durante o verão e quando se aproxima o outono um dos caçadores a atingem com uma flecha. E conforme o sangue da ursa pinga pela paisagem as folhas outonais são empasteladas de vermelho, laranja e amarelo. Parece que a ferida não foi mortal já que a ursa e seus perseguidores retornam aos céus todas as primaveras.
Agora vamos falar das estrelas razão deste post.
Se você perceber a estrela que se encontra no centro do cabo e prestar bastante atenção poderá perceber uma companheira mais discreta. Os Algoquines viram esta discreta companheira como uma grande panela que um dos guerreiros carregava em suas costas para cozinhar o urso quando o capturassem. Outras tribos imaginavam um cavaleiro e um cavalo. Eles utilizavam estas estrelas para testar a acuidade visual de seus guerreiros.
Hoje sabemos que a dupla de cavalo e cavaleiro possuem os nomes arábicos de Mizar e Alcor.
Mizar, a mais brilhante, brilha com magnitude 2.3. Alcor é de magnitude 4.0, ou cerca de cinco vezes mais tênue. A companheira foi batizada, em Latim, de Eques Stellula, “O Pequeno Cavaleiro Estelar”.
Na verdade sabemos muito mais que isto.
Mizar é um sistema quádruplo composto por duas binárias.  O movimento próprio de Mizar e Alcor indica que ambas viajam juntas pelo espaço (são ambas membros do Grupo Móvel da Ursa Maior).  Entretanto ainda ha duvida de serem gravitacionalmente associadas. Mas estudo recente (2009) indica que Alcor é ela mesma uma binária e que o sistema compartilharia de um centro de massa em comum com Mizar. Isto faz do nosso pequeno cavaleiro estelar um sistema sêxtuplo.
Observar Mizar e Alcor e separa-las a olho nu é um desafio desde a antiguidade. Não chega a ser tão difícil quanto parece. Com um pequeno passeio a latitudes mais boreais que as do Rio é fácil. A separação é enorme. 11,5 minutos de arco.
Na verdade se percebe também mais uma estrela no conjunto.  Tyc 3850-257-1. Com magnitude 7,5.  Também conhecida como Sidus Ludoviciana.. Sua descoberta é uma história interessante. Foi um dos mais famosos equívocos astronômicos e Johann Georg Liebknecht jurava tratar-se de um planeta...

Sir Patrick Moore dizia que o verdadeiro desafio seria perceber este discreto membro (apenas óptico) no conjunto. Não há a menor duvida. Chega a ser duvidoso que isto seja possível. Mas...
Com auxilio de qualquer aparelho óptico (no meu caso foi um binóculo 15X70) existem mais surpresas.  
Mizar foi a primeira estrela dupla telescópica descoberta. (Mizar A e B) descoberta, provavelmente, por Benedetto Castelli (que também observou a tal Sidus Ludoviciana e enterrado as pretensões planetarias de seu colega quase cem anos antes destas surgirem...)  em 1617 . Este pediu a Galileu que a observa-se. Este então produziu registros detalhados da dupla. Posteriormente Riccioli a descreveu como dupla (1650). 
Mizar A e B

A estrela secundaria, Mizar B, tem magnitude 4 classe espectral A7. Chegando a 380 UA (unidades astronômicas) uma da outra Mizar A e B demoram alguns milhares de anos para completarem seu passeio em volta uma da outra.
Mizar foi ainda a primeira Binária espectral a ser descoberta.. Por Pickering em 1889. Binárias espectrais não podem ser separadas visualmente e são descobertas estudando-se as linhas espectrais de um sistema por longos períodos de tempo.
Mizar e Alcor são excelentes alvos para o astrônomo urbano sendo visualizadas mesmo baixas no horizonte e em área de poluição luminosa.  E são parte da história da astronomia desde a pré-história.

Separa-las a olho nu é um desafio que acompanha a humanidade desde os seus primórdios. E uma honra. 

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