terça-feira, 28 de agosto de 2012

Vorontsov- Velyaminov, Nebulosas Planetarias e NGC 6445 – The Box Nebula.



NGC 6445

Boris Vorontsov-Velyaminov (1904-1994) foi um astrofísico russo. Seu nome não é tão conhecido como o de Walter Arp. Mas ele também deixou um grande catalogo de galáxias que passam por algum processo de interação. Mas sua herança para a astronomia é muito maior que isto.  
Seu sistema de classificação morfológica de nebulosas planetárias é o mais utilizado atualmente (embora não o único) e foi apresentado em 1934.  Um legado mais desconhecido por nossas bandas é que ele é o autor do livro texto mais popular em astronomia na antiga União Soviética e utilizado no ensino médio da Rússia e Cia...
Seu sistema se divide em seis categorias principais e duas destas apresentam subtipos.
            1
Imagem Estelar Ex: IC 4997
2
Disco regular ex: 2003 (a. Mais brilhante em direção ao centro ex: IC 4776 b. Uniforme ex: IC 2448 c. traços de estrutura anelar ex: IC 972).
3
Disco irregular ex; IC 7008(a. Distribuição de brilho muito irregular ex: IC 4776 b. traços de estrutura anelar ex: NGC 246).
           4
Estrutura Anelar ex: M57
           5
Forma irregular semelhante a uma Nebulosa difusa ex : NGC 5189
           6
Forma atípica ex: NGC 6302
Obs.: Nebulosas Planetárias com estruturas mais complexas podem ser classificadas por uma combinação de categorias. Ngc 6886, por exemplo, é classificada como “2+3” devido à complexa morfologia de seu disco.

            Agora que sabemos como classificar nebulosas planetárias eu gostaria de apresentar uma das mais estranhas do firmamento. Conhecida como “The Box Nebula” (algo como “ A Nebulosa – Caixote)  NGC 6445 é um passeio muito interessante por Sagitário.  Ela também é conhecida como “ The Little Gem”. Aliás em rapida pesquisa descubro que 6445 tem vários apelidos. Um dos mais estranhos é " The Crawling Monster Nebula "....
            Embora visível com quase qualquer telescópio seja necessário ao menos 150 mm para que NGC 6445 revele sua bizarra estrutura.
            O material que em ultima instancia forma uma nebulosa planetária é expelido por uma estrela semelhante em massa ao nosso sol. É uma das mais curtas fases da vida de uma estrela. Não dura mais que alguns milhares de anos. O material expelido pela estrela assume um formato cilíndrico. Se olharmos por este eixo nós percebemos o clássico formato de um anel de fumaça. Como em M 57. Mas conforme o tempo passa outras influencias gravitacionais , como o fluxo de matéria saindo de sua estrela progenitora ou a presença de uma família de planetas , vão retorcendo a matéria e transformando esta concha em algo bem mais complexo morfologicamente.
Estudos demonstram que NGC 6445 é uma das nebulosas planetárias mais antigas da galáxia. Têm provectos 3.300 anos. E assim houve tempo para que ela assumisse seu estranho formato. Ngc 6445 não é somente uma das mais antigas NP. È também uma das maiores e se espalha por algo como quatro anos luz.  É importante ressaltar que seu formato é também devido à perspectiva que nós olhamos. São muito estranhos ângulos retos em estruturas naturais...
Fotografias revelam uma estrutura bipolar altamente assimétrica.  Com um anel central mais brilhante cercado por tentáculos nebulosos mais tênues.  Na escala V-V eu imagino que sua classificação seria “6+3b”.

Agora vem a melhor parte.
Para se localizar Ngc 6445 você irá fazer um tour de force por diversos DSO`s em Sagitário.  È uma nebulosa 3 em 1. Seu maior desafio será localizar a nebulosa em meio aos ricos campos estelares da região.
Comece localizando M23 (cliqueaqui para visitar este caminho) Este será um visual interessantíssimo com a pequena magnificação que você estará usando para fazer o “hoop” até 6445. Eu usei minha ocular wide angle 25 mm. ( 48x)  .
A sudoeste de M23 você vai perceber um sol amarelado brilhando com magnitude próxima a 7.  HiP 87782 é o seu registro no Stellarium. A partir dele localize um triangulo de estrelas cerca de 1º mais ao sul. Depois pule mais um grau na a direção que o triangulo aponta e você vai perceber NGC 6440. Um belo globular que não se resolverá. Este está a menos de 1/3 de grau ao sul de nossa Box Nebula. Preste atenção e a localize. Depois aumente a magnificação e explore esta atípica nebulosa planetária.  Sua estrela central brilha em, com a ridícula magnitude 19.
Não deixe de aproveitar e dê uma namorada em Ngc 6440.   Não espere resolver este globular. Suas estrelas não brilham acima de 16ª magnitude e, portanto somente ao alcance de telescópio muito grande...



quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Astrofotografia : Lua




Astrofotografia é, muitas vezes, uma amante ingrata. Cheia de vontades e caprichos. Depende de bom alinhamento polar, céus escuros, longas exposições e equipamento caro. Recentemente chorei minhas magoas por aqui. Mas...
Selene é a filha dos Titãs Hyperion e Theia. No sincretismo galo- romano ela se torna Luna. A deusa da Lua. Irmã do de Helius (o Sol).  Curiosamente ela surge sempre fresca e banhada por Oceanus toda vez que o seu irmão se põe. Percebe-se que a Grécia é cercada pelo mar...
Ela é uma deusa “dada” e deixou 50 filhos.
E mantendo a tradição ela é um alvo “fácil” para os astrofotografos iniciantes e/ou na pindaíba.
A lua pode ser fotografada com o uso de diversos equipamentos. Em composições digamos ,artísticas, ela pode ser registrada até mesmo com celulares.
 Outra forma é utilizando-se teleobjetivas. Diversas câmeras, mesmo sem lentes intercambiáveis, tem poder de fogo suficiente para registrar detalhes de sua superfície.
Creio que com uma teleobjetiva a partir de 300 mm é possível obter-se resultados bastante satisfatórios. Como se trata de um objeto extremamente claro não existe a necessidade de lentes muito claras e consequentemente caras. E ainda assim utilizarás velocidades de diafragma que na maior parte das vezes dispensam o uso de tripés para apoio. 
              300 mm                       ampliado photohsop

Com o uso de um programa tipo Photoshop você poderá ainda utilizar-se de recursos digitais para a ampliação da imagem e conseguir um excelente nível de detalhamento da superfície lunar. Outros programas poderão ainda incrementar mais ainda o nivel de detalahamento . O Registax é um deles. 
Registax (centro foto da esquerda)
Qualquer telescópio, por mais modesto, será uma plataforma excelente para registros lunares.
Este acompanhado por qualquer câmera servirá para fotos pelo método afocal. Registros interessantíssimos poderão ser obtidos desta forma. Fixando-se a câmera junto a ocular e fotografando a imagem projetada por esta é tudo que você precisa.  Lembro-me das primeiras fotos que fiz assim. Simplesmente fiz um tubo de cartolina e fita crepe que se adaptava de um lado a bitola da ocular (1.25 pol.) e do outro a objetiva (um pouco menos...) de minha “camereta”.



Afocal



Posteriormente comprei um acessório especifico para isto. Não me recordo do preço . Mas foi na casa de dois dígitos.
Já em set-up´s mais elaborados o céu é o limite (perdoem-me mais não resisti...).
Utilizando uma câmera DSLR e um T - ring (adaptador) é possível fixar a câmera a qualquer telescópio. E utilizando-se de lentes barlows a capacidade de ampliação só será limitada pelo seeing (estabilidade atmosférica).
Recentemente fiz algumas experiências.
Utilizando meu refrator 900 mm e utilizando a carcaça da barlow (sem lente) como adaptador fiz algumas fotos de Selene.
Neste set up a lua se apresenta bem clara e o foco ocorre facilmente. A razão focal do telescópio (900/70) é F13 (para os cdf´s de plantão 12,8571...). E a velocidade do obturador foi regulada para 1/160. Câmeras digitais apresentam uma latitude enorme e outras combinações de abertura e velocidade são viáveis. O freguês tem sempre razão...
Depois utilizei a barlow completa. Com isto a imagem apresenta um aumento de 2x a imagem inicial. 

Seria como se o 900 mm vira-se um 1800 mm. A imagem escurece na mesma proporção.  Numa simulação a abertura seria por volta de F 26. Quadrados e raízes fora a exposição na foto é de 1/40. Ou seja, 4 vezes mais lenta. A foto é mais escura. Em tese eu deveria tentar 1/12. Ou algo assim... Ótica não é uma ciência exata no Nuncius Australis.
Finalmente tento algo que eu imaginava que seria um total fracasso. Coloco mais uma Barlow 2X na obra.

Agora o meu velho “Galileu” se disfarça de uma teleobjetiva de 3600 mm e o tamanho da imagem que atinge o ccd da Canon tem quatro vezes o tamanho inicial... Na foto que vocês veem a velocidade do obturador é de 1/ 4. E a razão focal (imaginaria) lá na casa de F 51. Brincado de ótica... Quadrados e raízes e tire a foto. Depois tente de novo...  
A imagem se torna bem escura no view finder e o foco muito difícil de ser alcançado. A imagem se torna muito suscetível ao seeing e utilizando a minha montagem EQ 1 tudo fica meio balançante. De diversas fotos que tirei a única que apresentou resultados minimamente aceitáveis foi a que vos apresento. Mas acredito que com uma montagem mais estável e com a lua mais alta no céu o pequeno “Galileu” suporte o aumento proporcionado por este setup.
Realmente a imagem fica bem escura junto a View finder da câmera.
Durante este período do ano só consigo avistar Selene quando já vai baixa no horizonte oeste. E assim muita sujeita as instabilidades da atmosfera e consequente mal seeing.
Outros fatores devem ser considerados quando fotografamos a lua. Uma delas é a fidelidade na cor. E assim como todos os objetos celestes quanto mais baixos no horizonte menos fidedigno será o registro. Mas fotografar a lua é uma excelente forma de se introduzir na astrofotografia e uma especialidade cheia de truques.
Hoje à noite tenho um encontro marcado. 

P.S.  Acho importante que as fotos que você tira não sejam um fim nelas mesmas. No caso da lua elas devem servir como uma ferramenta para que conhecer de fato a superfície lunar. Acho um excelente exercício tentar identificar o maior numero de estruturas  nas fotos . Com o auxilio de um atlas lunar é possível reconhecer diversas estruturas e ainda aprender algo sobre a história da astronomia que se esconde atrás dos nomes das crateras , vales e afins. Eu recomendo o Virtual Moon Atlas (freeware)  para isto. E depois é só abrir sua foto no Photo Shop e sair localizando ( ou pelo menos tentando localizar..) cada uma das estruturas visíveis em suas fotos. 

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Ngc 6397, Astrofotografia e a Derrota

Ngc 6397 -30 exp de 15 seg no  Rot n´ Stack 


Astrofotografia é  arte ingrata. Nem sempre dá certo. É com certeza uma  forma mais exigentes de se observar e registrar  o firmamento.
Quando fotografo pela janela de casa o alinhamento polar é mais difícil. E para fotografar ele não pode ser apenas aproximado. 
 Como só posso ver, de fato, o horizonte sul a coisa acontece meio por tentativa e erro. Embora eu já saiba aproximadamente a posição que as coisas devem estar é sempre tudo de novo. As marcas no chão já foram apagadas. A cabeça equatorial já não esta na mesma posição.  Ela viaja e quando viaja precisa ser ajustada para a latitude local. E assim começa tudo outra vez... É a parte mais difícil do jogo. E por isto mesmo a que deve ser jogada de novo e de novo... 
Eu sou  um observador visual. É olhando pela ocular e trocando oculares que mais me divirto. Acho também que o desenho astronômico   é a forma que permite registro mais próximo do que o astrônomo amador deve esperar encontrar quando procura por um DSO desconhecido. E assim sempre que possível faço , ainda que um esboço, dos que observo... 



Mas adoro o desafio das fotos.
Cantar vitória é fácil. Infelizmente nem sempre as coisas dão muito certo.
Ngc 6397 é um daquelas derrotas  que não revoltam. Na verdade foi muito divertido.  
Há muito sem fotografar no ambiente “full conditions” que só possuo na sala de meu apartamento eu tinha alguns DSO´S como possíveis alvos para aquela noite.
Full Conditions
Por “full conditions” entenda-se fotografar de frente para os vizinhos, com a família em casa, no meio do Rio de Janeiro e sem possuir um horizonte suficientemente amplo para tentar realizar um alinhamento por Drift nem com auxilio de marreta. Não esquecer o gato que disputa a janela com o telescópio e que por sua vez é protegida por uma tela para evitar arroubos suicidas deste mesmo gato.  Não posso esquecer:  Bortle 8 
Desta forma eu tinha em mente alguns alvos. Eram estes Ngc 6752, Ngc 6101 e 6397. Assim eu fatalmente conseguiria localizar e com sorte fotografar um deles em algum momento da noite. Era bom ter um leque de opções visto que eu dependia de uma combinação de horário, de janelas acesas no prédio em frente, da boa vontade da esposa e da filha e ainda do gato...
Como um navegador eu tinha minha derrota planejada. No mundo náutico, derrota é o planejamento de um determinado trecho navegado ou por navegar para se sair de um lugar até chegar a outro lugar. Algo como Star Hooping e mais um pouco.
Depois de algumas horas tentando um alinhamento polar com um mínimo de dignidade eu me dou por satisfeito quando consigo uma foto de Achernar sem que a estrela seja um risco no céu. Mas também não chego a tanto de conseguir que esta seja um ponto...
 Eu que comecei o alinhamento com Hadar (Beta Cen) sendo fotografada durante 15 seg. no  horizonte sudoeste acabo o processo de  alinhamento com Achernar (Alfa Eri) já no extremo sudeste permitido pela minha janela. Vejam a diferença...
Hadar                                     Achernar
Depois de algum tempo e com a boa vontade do vizinho do 16º andar eu acabo conseguindo localizar Beta Ara e sua companheira mais tênue Gama Ara a olho nu .Na verdade depois que achei meus óculos  (afinal ,full conditions incluem a bagunça ) . Daí para decidir que Ngc 6397 seria a vitima da noite foi um passo. As duas estrelas formam um belo par que sobrevive a agressões violentas do ambiente urbano.
Com a Buscadora (9x50mm) centralizada em Beta Ara é fácil saltar para Pi Ara e desta para o Globular. Ele é discreto na ocular no meio da poluição luminosa da cidade. Mas com atenção você vai ver certa nebulosidade.
Com a ocular de 25 mm ( 48 X de aumento) eu centralizo o bruto na ocular e resolvo algumas estrelas.
Agora é fotografar... A primeira foto serve para centralizar melhor o alvo. Afinal sempre que substituo a ocular pela câmera o " quadro dá uma sambada".
Bem o que importa é o desafio e apesar do alinhamento parecer razoável, já que o aglomerado se mantém durante dezenas de exposições na mesma posição, eu esqueci que o Newton (meu 150 mm) precisa de colimação de tempos em tempos...  As estrelas (que apresentam algum drift) parecem vírgulas nas fotos. Na observação visual este efeito é bem menos evidente.
 Minha câmera não apresenta live view  e  isto somado  a  minha preguiça não leva  ao foco de uma forma precisa. Na verdade tento o foco apenas com as poucas estrelas que percebo de forma extremamente discreta junto  ao viewfinder. Deveria fazer o foco com alguma estrela um pouco mais brilhante e aí enquadrar, meio que as cegas, utilizando a buscadora. Com DSO´s mais claros isto é viável. E eu , ansioso , não checava cada uma das fotos dando zoom .
 Umas melhores e outra piores eu preferia acreditar que no processamento  um milagre aconteceria.
Apesar de o Deep Sky Stacker aceitar as fotos e empilhar tudo o resultado é péssimo. Tento então o Rot n´stack e seus logaritmos doidos. Fica menos ruim.  
Mas de qualquer forma foi muito divertido e depois de tirar 30 fotos do globular eu dou mais uma espiada com a 10 mm e com a 17 mm. A melhor combinação é com a 17 mm e resolvo diversas estrelas no corpo do globular. Mesmo com visão direta. Seu formato não é exatamente circular sendo um pouco fora do esquadro em relação a outros globulares. Não é uma bola de estrelas perfeita...  Ele é um globular da classe IX na escala Shapley.

Ngc 6397 é um globular bem brilhante. Mag. 5.7 e um alvo austral por excelência.
É uma descoberta do Abbe Lacaille . Este o registrou como Lac III. 11 em sua viagem 1751/52 para Cape Town.   É um dos dois aglomerados mais próximos da terra (o outro é M 4).
Foi alvo de estudos para calcular a idade da galáxia e possui cerca de 400.000 estrelas.
É um dos 20 globulares de nossa galáxia que sofreu um colapso de seu núcleo. Ou seja, seu núcleo se contraiu para uma densa aglomeração estelar. É o mais próximo globular a passar por este processo.
Agora é levantar a poeira e se preparar para lutar a boa batalha novamente.
Em meio a tudo isto percebi que a lua se apresenta em boa posição para fotos logo ao anoitecer. E Selene costuma ser mais dadivosa e muito menos tímida  que DSO´s quando se trata de astrofotografia...     
 Como já contei aqui  a astrofotografia me faz um astrônomo melhor.
Amanhã é uma outra noite...

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Ophiuchus - O Reino dos Globulares



O mês de agosto, apesar da fama, costuma me ser bastante amigável. Geralmente tenho bastante trabalho e consequentemente quando entrar setembro possuo algum dinheiro (não, eu não gosto de Beto Guedes, Lô Borges e afins...). Em contrapartida dificilmente tenho tempo ou disposição para a observação astronômica.  
Este agosto, porém, consegui conjugar ambas as coisas. Me foi oferecido um trabalho em Parati. Um comercial. Um diretor americano de renome foi contratado para filmar a campanha de um grande banco.
O gajo também tinha em mente comemorar seu aniversário com a nova namorada e diversos amigos na histórica cidade que ele tanto aprecia. Assim sendo, apesar de algumas dificuldades logísticas, o trabalho se tornou mais ameno do que é em condições normais de temperatura e pressão.  Diariamente às três da tarde era declarado que a luz não era mais apropriada para realização deste marco da propaganda mundial e voltávamos para a  cidade em nossa escuna. Aqui no Brasil chamaríamos o evento de “Trem da Alegria”.
Apesar de ter sempre que despertar muito cedo sobrou algum tempo para viajar pelos céus. A lua senão ajudava também não atrapalhava. Na verdade ela mesma permitiu algumas fotos para enriquecer a experiencia. Na visita de locação ela ainda ia bem cheia e permitiu um belo show em 300 mm de distancia focal e f 22...


Já durante as filmagens eu estava consciente de que não poderia me dar ao luxo de telescópio e levei meu Vanguard 10x50.  Tinha em mente explorar a região de Ophiuchus.
Esta foi alvo da coluna "Binocular Universe", de Phill Harrington, no Cloudy Nights deste mês.  E assim me parecia perfeito para a exploração binocular.


Ophiuchus, o encantador de Serpentes, não é exatamente uma constelação popular. De tempos em tempos ele é lembrado como o décimo terceiro signo e para desespero dos astrólogos é apresentada em algumas pautas desesperadas por noticias. Fora isso é um segredo bem guardado por astrônomos. Ainda bem, pois é um poço quase inesgotável de DSO ´S. Sendo membro da tríplice fronteira no centro galáctico (junto com Sagitário e Escorpião) abundam Aglomerados de todas as formas e tamanhos.
Ophiuchus passa bem próximo ao zênite e assim é mais facilmente observado de binóculo. Basta uma canga e uma praia escura e você lá deitadão...
Próximo ao centro da galáxia Ophiuchus é o reino dos globulares. Nele se encontram não menos que 20 Globulares do catalogo NGC. Mais que em qualquer outra constelação.
Meus planos não são tão pretensiosos e me contentarei em visitar cinco deles. Estes são compartilhados pelo meu querido catalogo Messier.
Como recentemente visitei M9 começo por aí. Entre Sabik e Xi Ophiuchi ele se encontra. Pequeno e quase estelar você deve prestar atenção para diferencia-lo das estrelas na região. Com olhos treinados ele salta a vista rapidamente.
Depois volte a Sabik (Eta Ophiuchi) e procure por Delta e Épsilon Ophiuchi , conhecidas também como Yed Prior e Yed Posterior. A partir desta você vai localizar facilmente M10 que se apresentará como uma pequena bola de algodão acinzentada. Os dois são como um aglomerado duplo, cabendo no mesmo campo ocular. M10 é mais evidente que M12.
Se você seguir a ordem apresentada estará nas pegadas de Messier que descobriu estes aglomerados em um espaço de dois dias. Primeiro M9 e depois os dois apresentados. M11 ele também achou nesta mesma rodada. Mas este já tinha sido avistado por alguém. Não é um Messier Original.

M 107

Depois tente M 107, um daqueles Messier Póstumos.Foi incluído na lista somente em 1947 por sugestão de Helen Hogg. Escaneando para sul a Partir de Zeta Ophiuchi não será difícil perceber a pequena estrela esfumaçada. Mas apesar de ser um dos globulares menos densos que se conhece não espere resolver estrelas com binóculos. Na verdade não espere resolver nada com menos de 200 mm de abertura... Vai requerer muita atenção.
Para finalizar tente achar M 14. Calcule um ponto aproximadamente entre Sabik e Celbarai (Beta Ophiuchi) e boa sorte.
IC 4665
Como premio de consolação, caso M14 se revele muito difícil, visite IC 4665. Um belíssimo aglomerado aberto pertinho de Celbarai. E um daqueles que é mais bem visto de Binóculos que em qualquer telescópio. É uma descoberta de De Cheséaux em 1745 e com apenas 40 milhões de  de anos é bem jovem para um aglomerado aberto. De locais escuros é percebido mesmo a olho nu.  
Este mês se juntou o útil e o agradável...

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Urânia, Uraniborg e como medir sua competência a olho nu.



Urânia, da mitologia grega, é a musa da astronomia. O nome, como conhecido atualmente, é a latinização da palavra grega para “celeste” ou “celestial”.
Na “lenda” ela seria capaz de prever o futuro interpretando o posicionamento dos astros no firmamento. Ou seja, mantém também um relacionamento suspeito com a astrologia. Mas devido a sua beleza ela foi adotada pelos modernos astrônomos como sua dama favorita.
Seu nome é emprestado a diversos observatórios astronômicos pelo mundo e ao longo da historia. Podemos citar rapidamente os Observatórios de Berlin, Budapeste, Viena, Zurich e Antuérpia.
No Passado ela cedeu seu nome a um dos mais importantes observatórios da antiguidade.

Uraniborg (O castelo de Urânia) foi construído como um tributo à musa. Situado na ilha de Hven. Foi um dos projetos mais caros conhecidos na Dinamarca. Calcula que os custos de sua construção tenham sido responsáveis por mais de 1% de todo orçamento do estado. Se Maluf soubesse disso morreria de inveja.
 E foi lá que Tycho Brahe coletou os dados para uma das descobertas mais importantes da astronomia.
Uraniborg foi o ultimo observatório a se construído sem possuir um telescópio como seu principal instrumento. Um dos primeiros foi Stonehenge.   Na verdade quando Uraniborg foi destruído , em 1601, faltavam ainda sete anos para que um ótico holandês e um certo Galileu Galilei inventassem (o holandês) e desenvolvessem (Galileu) o instrumento que se tornaria a pedra fundamental de qualquer observatório. Stonehenge (com o auxilio de um pouco de cimento) continua de pé.
Seu principal equipamento era um Mural Quadrante, fixado em um muro orientado norte- sul, que servia para determinar a altura dos astros ao passarem pelo meridiano.

E havia uma estreita janela que servia para determinar (como em Stonehenge) quando determinados astros passavam por ela. Assim se podiam determinar as estações e outras cositas más...
Graças a todas estas medições cuidadosamente feitas e registradas por Tycho Brahe seu assistente Johannes Kepler realizou uma das maiores descobertas da história da astronomia. Foram graças às observações a olho nu de Tycho Brahe que Kepler “descobriu” suas famosas leis de movimento planetário. 
Desta forma podemos perceber que mesmo nestes tempos em que telescópios podem ser obtidos facilmente até mesmo pela internet, a observação a olho nu é ainda fundamental e nas mãos de mentes curiosas ainda pode revelar coisas incríveis a mentes curiosas.
Eu posso imaginar diversos desafios para astrônomos que só são possíveis de serem realizados a olho nu. Separar Épsilon Lyra (da Dupla-Dupla) é o primeiro. E o loop de Barnard” é um dos primeiros. Mas cada caso é um caso e separar Epsilon requer uma uma capacidade de separação que não tem nada haver com sua capacidade de ver o Loop...
Mas claro que tudo depende muito da acuidade visual do observador. E esta é a razão deste post.
Fuçando meus livros achei um teste, proposto pelo grande Phill Harrington, capaz de determinar a capacidade de separação angular de um cidadão.
É bastante simples:
·         Usando um “pilot” faça dois pequenos pontos separados por dois milímetros em um cartão de papel branco.
·         Fixe esta folha em uma parede de um quarto bem iluminado
·         Feche um olho e se afaste lentamente do cartão
·         Quando os dois pontos virarem só um, pare.
·         Meça a distancia da ponta do seu pé até o cartão
·         Consulte a tabela abaixo...


Distancia do cartão (cm ou metros)
Resolução Angular (arc-min)
30 cm
27
60 cm
13,5
1 MT
9
1,20 MT
7
1,50 MT
5.5
1,80 MT
5
2 ,0 MT
4
2,30 MT
3.5
2,50 MT
3
3,0 MT
2.5


Depois me diga se você cosegue perceber Épsilon Lyra como uma estrela dupla a olho nu (sep. 3.24 arcmin). Eu não consigo e (usando óculos) me distanciei 2.0 Mt do cartão...

               

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Observando Messier: M70- Um Aglomerado Globular

M 70


Completando a saga dos  aglomerados Messier na base do asterismo do Bule (em Sagitário) esta M 70. Os outros são M54 e M69

M70 é o mais tênue e mais difícil do trio. Brilhando com magnitude 8.1 e com um tamanho pouco maior que 7´ (em fotografias) ele não será facilmente percebido através de sua buscadora. Mesmo em binóculos 10x50 ele será pouco mais que uma estrela “desfocada”.

Existem dois caminhos para se chegar até ele.
Eu gosto mais do que chamo “Método do Meio”. Primeiro localize o “bule”. É um asterismo que recorda claramente um bule de chá e que inclui a maior parte da constelação de Sagitário. Fica logo a leste da cauda do Escorpião e com estrelas relativamente brilhantes é percebido mesmo em ambientes urbanos.  Depois localize Kaus Australis (épsilon Sag) e Ascella (Zeta Sag). São respectivamente as estrelas mais ao oeste e ao leste da base do “bule” e brilham com 1.75 e 3.25 de magnitude. Utilizando uma buscadora de Led (Red dot finder) imagine uma linha ligando ambas as estrelas. M 70 fica exatamente no meio.  Com minha ocular wide Field (25 mm) eu sempre o acho no campo. Quando muito uma pequena escaneada e o aglomerado se apresentará.
O outro método é por Star Hooping. Se você não possui uma red dot ele também resolve. Comece centrando em Kaus Australis e depois localize no campo da buscadora as duas estrelas mais brilhantes depois dela (se você já foi a M69 conhece bem a região). Serão HIP 90763 e HIP 91014. Centralize de novo em 91014 e seguindo para leste você vai perceber uma estrela mais tênue. É HIP 91386 (mag. 7.25). Ainda mais a leste você vai perceber uma dupla de estrelas ainda mais tênues A mais Brilhante será HIP 91713 A (mag. 7.75). Atenção que dependendo de sua buscadora e da poluição luminosa você só vai notar esta estrela (ou nem ela...). Sua companheira com Magnitude inferior a 8 é difícil de notar. Centralize a buscadora em 91713 e o aglomerado estará dentro do campo de sua ocular wide Field (> 20 mm).  Caso não consiga perceber HIP 91713 centralize em HIP 91386 e escaneie já na ocular para sudeste. O Aglomerado esta um a cerca de um campo ocular de distancia desta. M70 não é uma rota fácil de achar...
M70 se encontra fisicamente muito próximo a M69 e tem diversas características semelhantes a seu companheiro. Foram descobertos na mesma noite. 31 de agosto de 1780. Encontra-se a 29.300AL da terra e a menos de 400 AL de M69.  Encontra-se muito próximo a centro galáctico. Herschel foi o primeiro a resolver o aglomerado em estrelas e o descreve como “uma miniatura de M3”. Seu núcleo é muito denso e já sofreu um colapso. Uma ocorrência que foi registrada em pelo menos 21 dos globulares da via láctea, entre eles M15, M30 e possivelmente M62. Sua classificação na escala Shapley é V.
M70 é um dos mais discretos dos globulares do catalogo Messier e viveu seus quinze minutos de fama em 1995 quando o Grande Cometa Hale – Boop foi descoberto por Alan Hale e Thomas Boop  (separadamente)enquanto estes observavam o globular.