terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A Trilha Planetária


O Sentier Planétaire é uma trilha bastante diferente. É ao mesmo tempo um itinerário de caminhada, uma representação do sistema solar em escala e um a ferramenta pedagógica. Ainda, um planetário a céu aberto e cercado pela natureza.


Valberg é uma pequena vila escondida nas montanhas dos Alpes da Provence, na França. É considerada como a porta de entrada do Parque do Mercantour. Uma das maiores biodiversidades da Europa e também um dos céus mais escuros do continente.

O Nuncius Australis foi à busca de ski, céu escuro e ganhou de bônus um passeio pelo sistema solar bastante diferente.

A pouco mais de uma hora de Nice (de ônibus) fica Valberg. Uma pequena vila agradabilíssima  e com um povo muito simpatico. Bons restaurantes e um dominio esquiavel enorme. Logo a lado fica Beuil que se une a esta e em anos especiais é também uma area de ski. A estrada que leva até lá sobe costeando o Rio Var e é uma experiencia bem radical. Um canion com parede verticais e uma estrada de mão dupla das mais estreitas.

O tal Sentier Planétaire é uma representação em escala do sistema solar. 1 metro para cada milhão de kilometros. Isto implica em uma trilha que pode ser percorrida a pé no verão ou de raquetes no inverno (Ou a pé caso um inverno muito seco...).

É uma experiência inesquecível. Partindo-se da vila siga em rumo aos planetas representados por diversas expressões artísticas. Existe um guia GPSmultimídia disponível no “Office du Turisme”. O caminho é balizado.
O percurso apresenta diversas possibilidades.

Um é o chamado percurso telúrico e consiste em visitar o sistema solar até Marte. Se faz este passeio em cerca de 1hora.
Mercurio
Outro pacote é ir até Júpiter. O percurso azul (itinéraire bleu) o leva até Lac du Senateur e dura cerca de 3 horas.

E o passeio completo vai até Netuno. Plutão já tinha sido rebaixado quando criaram o passeio... Descubra todos os planetas terrestres mais os gigantes gasosos e diversos outros temas astronômicos. Este uma empreitada para um dia inteiro e vai demonstrar ao caminhante de forma clara a Lei de Titus – Bode. Netuno é longe... ¨
Netuno

Um belíssimo passeio é mais uma mostra de algo que o Nuncius Australis tenta sempre lembrar por aqui. Mostrar que ciência é algo que se ensina de uma forma leve e interessante. É só querer...

E depois desta longa e " exaustiva" caminhada você pode relaxar vendo o céu  do Mercantour ao entardecer sentado no " Schuss" bebendo um bom vinho nacional (ou o "chop" da casa, sempre gelado) . Este é o mais simpático bar de Valberg. Bem ao pé das pistas e trilhas deste refugio alpino...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Paris e Astronomia




O Nuncius Australis vai apresentar uma série devotada a astronomia contando sua estada na França. Apesar do céu ser boreal ele não pretende trair seus objetivos originais (talvez um pouco...).

E nada melhor para iniciar este projeto que apresentar um passeio que vai unir História e Astronomia enquanto se passeia pelas ruas da Cidade Luz: Paris.

Foi aqui que Messier realizou as observações do que pode ser considerada uma das bíblias da astronomia amadora. O Catalogo Messier foi desenvolvido a partir das observações realizadas pelo caçador de cometas a partir do Observatório de Cluny. Não consigo imaginar um lugar melhor para começar o meu passeio astronômico pelas ruas de Paris.

Cluny nos tempos de Messier
Com minha base no Arrondissement 5 ( Rue Monge) , no coração do Quartier Latin, a chegada ao antigo observatório é quase instintiva. Caminhe em direção a estação Sorbonne- Cluny e você vai ver logo a antiga construção. Hoje abriga o Museu da Idade Média e é um dos últimos vestígios medievais no centro de Paris. Seu endereço atual é 24, Rue de Sommerard. De frente para a Academia Francesa. O Hotel de Cluny foi transformado em observatório por Delisle em 1748 e Messier realizou a maior parte de sua carreira utilizando suas instalações. De 1750 até 1817. Pouco antes de sua morte. O Hotel de Cluny, como era chamado na época foi construído sobre fundações de uma termas romana que data do século IV. A cúpula no topo da torre foi retirada no inicio do século XIX.

Cluny hoje em dia

Atualmente responde pelo pomposo nome de “Musée National Du Moyen Ages, des Thermes et de l'Hôtel de Cluny”. Apresenta ainda um lindo relógio solar na base da torre que sustentou a antiga cúpula. Visite o site: www.musee-moyenage.fr

Agora após uma longa caminhada vamos visitar uma das mais nobres famílias da astronomia. E que por isso quase perderam a cabeça na revolução francesa. A história do Observatório de Paris é entrelaçada com a da família Cassini. Na verdade o Observatório foi dirigido pela família, que chegou a habitar o local, durante seus primeiros 125 anos.
Observatorio de Paris

Em 1666, Luis XIV e Jean-Baptiste Colbert fundaram a Academia Real de Ciências (Académie Royale des Sciences). Logo em seguida, em 22 de setembro de 1666, foi decidida a criação do observatório real, que mais tarde se tornaria o observatório de Paris. Ele deveria servir de lugar de reunião e de realização de experimentos científicos para todos os acadêmicos.



Em 21 de junho de 1667 (dia do solstício de verão), os matemáticos da Academia traçaram sobre o terreno, no lugar da contrução atual, o meridiano e outras direções necessárias para a implantação exata do edifício concebido pelo arquiteto e médico Claude Perrault (irmão de Charles Perrault, secretário de Colbert). O plano mediano do observatório definiria a partir de então, o meridiano de Paris A Linha então traçada hoje habita o “ Salão Cassini".
Salão Cassini

Em 1669, Colbert chamou Jean-Dominique Cassini ( Cassini I) para dirigir o observatório .Seu ultimo herdeiro foi Jean Dominique ( Cassini IV) , Conde de Cassini abandonou o osso em 1793. Ele era monarquista.

Visite em: http://www.obspm.fr/



É seguindo esta linha que vamos cruzar os Jardins de Luxemburgo após passar pelo senado e seu belíssimo palácio (o parque é sensacional) você vai chegar a uma das igrejas mais belas que já conheci.

St. Sulpice e a Linha Rosa

St. Sulpice. Esta tem também marcada no chão o Meridiano. Estamos caminhando por sobre a famosa linha rosa que é conhecida de todos devido a Dan Brown e seu Best seller “O Código Da Vinci”. E desnecessário dizer que a igreja é deslumbrante. E em minha opinião mais charmosa que as outras componentes da Trindade parisiense (Sacre Coeur e Notre Dame).

Agora abandonando a História vamos falar de outra história.

Após passar pelo Louvre (procure pelos marcos que indicam o meridiano) você não deve deixar de passear por um dos templos do consumo: a Rue Rivoli. Em meio as mais famosas marcas do mundo habita uma loja que não existe nada semelhante no Brasil. La Maison de L´Astronomie. De um lado só “Jumelles” (Binóculos) e do outro, Telescópios. Apesar do euro é muito mais barato que no Brasil e a diversidade é imensa. . Quando penso na Astroshop e no Armazém me bate certa amargura. Seguindo pelo Rivoli tem o Hotel de Ville. Bom para as crianças.

Consumo...

Vou falar dela de novo no post sobre o Vanguard 10x50 que comprei lá...

http://www.maison-astronomie.com/

Agora já bem próximo a onde tudo começou, na Rue dês Ecoles, existe outra lojinha que é mais conhecida por seus produtos devotados a montanhismo. Espalhada pela região “Au Vieux Campeur” tem, no numero 28, uma de suas lojas dedicada a binóculos. Lá vi vários sonhos de consumo. Infelizmente não dava para comer e comprar os brinquedos. Mas só para dar água na boca eu apresento dois dos brinquedos que estavam na Janela. Um Kepler e um Vixen. Grandes...
Sonho de Consumo... Au Vieux campeur

Perto dali ainda achei uma pequena luneta que me lembrou Lacaille. Vou falar disso em outro post.

A Luneta de Lacaille

Depois caminho mais um pouco e vejo outra cúpula. Mais um observatório escondido perto da Sorbonne. Via vários passeando pela cidade.
Mais um... Perto de Cluny.


A cidade transpira ciência.

E de noite Paris  apresentou   que apesar do nome de Cidade Luz é mais escura que o Leblon...
Orion mostra a sua cara.


Da varanda do hotel : 15 seg 75-300  mm F4 e M42 mostra sua cara... ( em 75mm)


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O Aglomerado de Berenice


O Aglomerado da Cabeleira de Berenice é um grande grupo de estrelas visíveis a olho nu. Embora seja um aglomerado muito famoso no hemisfério norte ele não possui o mesmo apreço aqui por nossas bandas. Provavelmente por passear baixo no horizonte norte e se apresentar menos brilhante que em céus boreais. Mas é um dos mais belos campos visuais que já tive por um binóculo. Em algum Lugar entre Alpha Canum (Cor Carolis) e Beta Leonis (Denebola).


Este aglomerado é melhor observado com binóculos e pela buscadora do que com telescópios que acabam fracionando este belo aglomerado galáctico.

Me recordo da primeira vez que o vi. Quase ao acaso. Tinha viajado para Visconde de Mauá. Mais precisamente para o Vale de Santa Clara. O céu era bem escuro e eu tinha comigo meu fiel 10x50. Era um fim de semana de Lua quase nova. O céu bem escuro e eu olhando para o horizonte norte. M 44 era claramente visível a olho nu e passeando com meus olhos pelo horizonte norte percebo baixo, logo acima das montanhas, um nó de estrelas. Dirijo meu binóculo para lá o campo se enche de estrelas. Lindo. Espremendo-se no campo visual do pequeno binóculo.

Curiosamente este belo aglomerado não consta NE do catalogo Messier e tampouco do NGC. Esporadicamente ele é chamado de “Mel 111”. Melotte 111. Um catalogo menos famoso.

Cobrindo uma área de aproximadamente 5º graus de diâmetro este aglomerado possui como membros mais brilhantes as seguintes estrelas de 5ª magnitude: 12, 13, 14, 16 e 21 Comae. Cerca de outras 30 estrelas menos brilhantes foram relacionadas como possíveis membros do aglomerado com mais algumas poucas estrelas talvez ainda aguardando para serem descobertas e associadas. As brilhantes estrelas 15, 18 e 7 Comae parecem não serem fisicamente associadas ao grupo mas ajudam a compor o quadro.

O aglomerado carrega uma interessante história. Ele foi nomeado em honra de Berenice II do Egito, que foi a rainha de Ptolomeu III (246 – 221 AC). Em uma das mais belas lendas celestiais conta-se que Berenice prometeu seus famosos cabelos com “Tranças de âmbar” no templo de Afrodite em Zephyrium no caso do retorno seguro de seu amado Ptolomeu de uma campanha especialmente perigosa. Depois de cumprida a promessa, os cabelos que ficaram em exposição no templo desapareceram e a fim de salvar as aparências e talvez algumas cabeças o astrônomo da corte Conon convenceu o casal real que as tranças sumidas teriam sido transformadas pelos deuses em uma constelação para serem preservadas para a eternidade entre as estrelas.

Algumas moedas recuperadas, conhecidas como as moedas de Berenice mostram a rainha com seus belos cabelos. São Octadaracmas e dodecadracmas do inicio do reinado de Ptolomeu.

Entretanto a ignorância astronômica de nosso casal real parece ter salvado varias cabeças, pois o aglomerado já fora descrito antes. Na verdade este aglomerado em tempos pré- ptolomaicos fazia parte da constelação de leão e marcava o tufo de sua cauda. O nome árabe para o aglomerado leva a essa conclusão. Al Dafirah (O tufo). Erastóstenes, entretanto, no Sec. III AC chama o aglomerado de A cabeleira de Ariadne. E em diversos mapas da idade média ele é associado a uma coroa de trigo que contribuía para a constelação de Virgo.

Há cerca de 250 anos luz o Aglomerado de Berenice é um dos aglomerados mais próximos que conhecemos. Sendo provavelmente suplantado apenas pelo aglomerado das Hyades, em touro. E o aglomerado da Ursa Maior.

A velocidade radial de seus membros é muito próxima a zero e qualquer estrela que componha o quadro e fuja deste parâmetro provavelmente não fará parte deste grupo.

O grupo não possue membros gigantes ainda que o a analise do diagrama H-R do grupo leve a acreditar que seus membros começam a evoluir para este estagio.

A dispersão do grupo sugere que ele esteja se desagregando. Sua densidade estelar é de 1 estrela por 10 parsecs cúbicos . Um valor muito próximo do limite inferior teórico para aglomerados estáveis.


Localizá-lo é fácil desde que em em local escuro. Olhe para o horizonte norte e abaixo de Denebola. Não tem como não perceber o pequeno nó de estrelas que falei no inicio desta matéria.  Em locais com muita poluição luminosa a tarefa se torna bem mais dificil.

Com o auxilio de qualquer binóculo você vai ver um espetáculo com séculos de história.