quarta-feira, 4 de abril de 2012

A Relatividade, A Preguiça e NGC 6886 e 6905




Sem medo do lugar comum: tudo é relativo.
Mas aqui vou aplicar a relativização dentro de uma escala muito humana. Gostaria de apresentar um pequeno post que vai demonstrar que a preguiça, este pecado tão gostoso, é relativa.
Há muitos anos um trabalho me levou a ir passar um mês no Alto Xingu. Fiquei morando no posto Leonardo Villa Boas, nas margens do rio Tuatuari, um afluente do Rio Kuluene.
Minha missão era basicamente levar e montar uma parte da estrutura para a realização de um pequeno filme francês. Neste processo eu aprendi rapidamente o porquê de antropólogos falarem tanto em relativizar.
Depois de uns 15 dias a coisa não ia bem. Descontentamentos da equipe com o diretor, falta de conforto, total desorganização ameaçavam tornar impossível o término de tão “belo” projeto.
Com isto o produtor executivo (o cara da grana) resolveu que ele deveria fazer uma visita as filmagens.
Logo no primeiro dia da inspeção ele levantou cedo, junto com a equipe, e fomos carregar uma pick up (a única em um raio de algumas centenas de km.) Nosso motorista era Tonoli, um bravo guerreiro Walapiti. Como não poderia deixar de ser começou a demorar. A câmera que esqueceu a repinboca, a camareira que esqueceu a roupa, o maquinista que esqueceu o nome e assim vai...
Quando fica tudo pronto e vamos partir  vejo o nosso marinheiro de primeira viagem berrando a plenos pulmões: - Marcher , marcher .
 E nada acontece.
Com a demora nosso bravo guerreiro local havia deixado seu posto ao volante e voltado para sua rede em sua bela oca. Afinal apesar do horário matutino já faz um calor escorchante...
Meu querido produtor executivo vem em minha direção e começa a reclamar;
Como pode ele fazer uma coisa dessas e isso e aquilo. Finalmente o clássico:
- Eu to pagando.
Aí é que entra a história da relatividade.
No Alto Xingu não adianta nada ter dinheiro. Não tem aonde gastar.
 E o dinheiro que ele pagava evidentemente não chegava às mãos do nosso bravo Tonoli.
 E mesmo que chegasse aquilo para ele era um contra senso. Trabalhar àquela hora para fazer coisas completamente inúteis para uma pessoa que a gente não gostava era definitivamente inexplicável.
Eu, que já estava lá há algum tempo, já tinha entendido o conceito de relatividade aplicado ao encontro de duas culturas. Viro-me para ele e pergunto:
- Já foi a Bahia?
Ele responde que não e eu não perdoo:
-Faz seis meses de estagio por lá e depois a gente conversa.
Mas a preguiça é a mãe da invenção e em se tratando de observação astronômica ela pode ser a solução de seus problemas. 
Como eu já contei observação astronômica pode ser uma tarefa extremamente atlética. Posições de contorcionista junto ao telescópio são comuns e localizar objetos na esfera celeste pode ser uma atividade dura e muito cansativa.
Então quando podemos transferir nosso esforço para algo que não nossa carcaça é sempre uma benção.
Os índios com quem trabalhei acreditam que quando morrerem e forem para o paraíso eles não vão nunca mais trabalhar.
No caso das duas Nebulosas Planetárias, que são o motivo de eu estar contando toda esta história para vocês, é bem por aí que nós caminhamos.
Com vantagens. Não precisamos morrer para vê-las e o céu (ou a terra) faz o trabalho de localizá-las para nós.
Nebulosa Planetária é um erro de nomenclatura que pegou. O nome não explica em nada sobre os objetos que vamos observar. Nada tem a ver com planetas. Ha não ser o fato que os discos esverdeados que elas aparentam ser em pequenos telescópios recordam o planeta Urano. Como quem criou o titulo e quem descobriu Urano é a mesma pessoa... William Herschel criou as nebulosas planetárias.
Nebulosas planetárias são na verdade “anéis” (podem ter outras formas) compostos por restos do material expelido por estrelas com aproximadamente a massa do sol em seu processo evolutivo. São uma forma efêmera. Na vida de uma estrela estes anéis duram algo como um piscar de olhos (de novo a relatividade) . Então quando você observa uma trata-se de tremenda coincidência.  Mais sobre nebulosas planetárias aqui.
Agora vamos a o que importa.

Ngc 6886 é uma nebulosa bem pequena, mas relativamente (de novo...) brilhante. Se você passar os olhos pela região de forma desavisada ela vai parecer apenas uma pequena estrela de campo. Em fotos ela apresenta duas “asas” que fazem com que seu diâmetro aparente chegue a 6´´ de arco. Mas como você não é um ccd ela se apresenta para você com os apenas 2´´de arco que compreendem o anel central.  
Mas agora , sendo  preguiçoso, podemos localiza-la facilmente.
Centralize seu telescópio com uma ocular por volta de 20 mm (meu telescópio possui 1200 mm de DF) em Eta Sagittae , que marca a ponta da flecha e desligue seu clock drive.  Como Ngc 6886 reside 1.8º de Eta faça como Tonoli. Sente e relaxe. Em 7 min. e 12 seg. vai surgir na ocular  um pequeno triangulo. Uma das pequenas estrelas é a Nebulosa. Aumente a magnificação para cerca de 120 x e vai descobrir quem é o impostor. Brilhando com magnitude 11 é um alvo para céus escuros.  Sua estrela central atinge apenas 16.5. Foi descoberta por Ralph Copeland em 1884.

Nossa outra convidada não é tão discreta e com um tamanho de 72´´X37´´ ela é tão grande como pode ser uma nebulosa planetária. Ngc 6905 também brilha com 11ª mag. E  foi descoberta por William Herschel em 1784. Ela tem apelido de “Blue Flash Nebula”.
Escondida na região noroeste da constelação de Delphinus, o golfinho, não apresenta nenhuma das conhecidas estrelas desta para guia-lo.   Mas novamente o céu vai lhe ajudar.
Você que já visitou Eta Sagittae vai voltar lá. Ou se preferir e já estiver em Ngc 6886 apenas desligue o clock de novo e aguarde mais16 minutos.
Ou voltando até Eta Sagittae faça um tour duplo. Desligue de novo o clock drive. Em 7 minutos e 12 segundos você vai rever a nossa primeira convidada. Aí então relaxe de novo por mais 16 minutos e pronto. Aumente a magnificação. A nuvem que vais ver é elíptica e alongada no sentido norte-sul. A sua cor verde pálida é facilmente percebida.
Duas nebulosas planetárias preguiçosas. Eu, em particular, gosto mais de 6905. Entre Eta Sagittae e ela se passam 23 minutos e 12 segundos. Dá até para deitar na rede enquanto eu espero. E ela  é maior , mais interessante e colorida.

  Como diria Macunaíma: - Ai, que preguiça!

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