quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Ngc 2392- A Nebulosa do Esquimó

              

           Ngc 2392 é mais conhecida como a Nebulosa do Esquimó .  Trata-se de uma Nebulosa Planetária de longa história. Era um alvo que ha anos eu ouvia falar mas nunca a havia observado. E como astronomia observacional é uma pratica mais associada ao sentido da visão que aos ouvidos eu  finalmente me dignei a visitar esta maravilha. 
                Ngc 2392 é um dos mais populares DSO que conheço. Ele esta presente em grande parte dos guias observacionais que possuo e sua história remonta vários séculos de observação.
                A primeira vez que tomei conhecimento desta foi  (mais uma daquelas coincidências que nada tem a ver com leis fundamentais) no primeiro guia observacional que comprei.   Já falei  aqui e vou falar de novo: Todo telescópio de pequeno porte deveria vir acompanhado de "Turn Left at Orion". Outra coisa que sempre falo por aqui e vou repetir : é uma vergonha não existir uma versão traduzida do mesmo e publicada no Brasil...  Na verdade eu percebi que entre os objetos sugeridos para o inverno ( quase todos os guias observacionais são escritos pensando -se no hemisfério norte. ) no " Turn Left..." só me faltava observar 2392.  Irresistível.
                Nebulosas Planetária costumam apresentar um brilho de superfície alto. O que faz delas um excelente alvo para locais com poluição luminosa. Por outro lado geralmente possuem um tamanho pequeno o que os faz difíceis de serem diferenciadas de estrelas de campo . Assim demandam certa  experiência  do observador.
                Chegar até "O Esquimó" pode ser  um longo caminho. Sou um apaixonado pelas histórias de exploração dos polos.  E assim não posso deixar de pensar em trenós puxados por cachorros e em Amundsen em suas sagas polares. Desta forma imagino a logística desta missão como uma longa expedição polar. Em primeiro lugar você deve localizar a constelação de Gêmeos. Suas estrelas mais brilhantes são Castor e Pollux.  São Alpha e Beta Geminorum respectivamente. A Imagem dos Gêmeos é algo até viável de se conceber  e assim localize o Gêmeo encabeçado por Pollux e descendo pela figura ( é o gêmeo mais a leste...) localize Wasat ( Delta Geminorum).  É uma estrela de magnitude 3,5 na altura da hipotética cintura de Pollux.
                Wasat por si só é um alvo dos mais interessantes . É a entrada de numero 283 no catalogo Bedford .  Smyth (em seu "Cycles of celestial Objects") nos dá uma interessante dica sobre como certificar-se de que estamos no local correto :
" Uma das estrelas de Greenwich de 2o classe na cintura direita de Pollux e esta exatamente no centro de uma  linha que liga o " Praesepe" ( o aglomerado M 44 em Cancêr) a Zeta Tauri no chifre sul de Touro e quase sobre a linha que liga Castor a Sirius" .
                Ele ainda nos diz que trata-se de uma dupla de belo contraste com uma primaria de um branco pálido e uma secundaria roxa.  " ... Este delicado objeto é difícil de se medir a distancia , devido a disparidade, mas não é  uma das mais difíceis estrelas  nos céus. "
                Wasat vem do Arabe al-wasat. O meio ou o Centro...
                Antes de retomarmos a nossa expedição  rumo ao "Iglu mais longe do Universo" eu gostaria de apresentar um daqueles descaminhos  pelo conhecimento inútil que torna a Astronomia tão adorável.
                Em seu "Cycles" Smyth se refere a diversas estrelas como sendo uma das " Estrelas de Greenwich" e depois dando uma classe a estas. Elas podem ser de  1a , 2a  ou 3a. Nunca tinha ouvido falar nisto e sempre achei que Greenwich era mais conhecida pelo observatório que pelos açougues. E Assim fui caçar a origem desta classificação.  Localizei sua origem em  um dos mais obscuros  papers de todos os tempos: Publicado no abrangente" Philosophical Magazine and Journal cohmpreending the various Branches of Science ,the  Liberal and Fines Arts, Agriculture, Manufacture and Commerce " este paper (perdido entre um estudo sobre  a costa da Austrália e outro estudo a respeito da melhor forma de se bater um prego no  sensacional "Almagesto do Século XIX)", nos conta que foi publicado pela Astronomical Society of London em 1 de janeiro de 1830 um reduzido catalogo com 3500 estrelas realizado a partir dos levantamentos de Flamstedd , Lacaille , Bradley, Piazzi , Mayer e Zach.  Nas tabuas elaboradas a partir dese catalogo as estrelas foram classificadas em três classes:
·         Estrelas de 1a classe- Estrelas de até 5a magnitude situadas em qualquer lugar do céu ...
·         Estrelas de 2a Classe- Todas as estrelas de até 6a magnitude ( inclusive) situadas até 30o do equador
·         Estrelas de 3a classe- Todas as estrelas até 7a magnitude até 10o da eclíptica

                Definitivamente não encontrei nenhuma razão obvia para tal classificação embora o autor garanta que este é o melhor sistema para a classificação de estrelas em tabuas náuticas e celestes. A lógica inglesa levou a tragédia no caminho até o polo sul... (veja aqui)
                Tendo chegado ao meio do caminho chegar até 2392 se torna mais árduo. A perna final da expedição é mais complexa . Afinal Wasat é facilmente visível a olho nu mesmo em locais de forte poluição luminosa mas "O Esquimó é difícil de ser percebido com pequenas ampliações e mesmo com minha ocular  25 mm é difícil diferenciar a nebulosa de outras estrelas no campo. Localizar 2392 sem auxilio de go-to é um exercício de paciência . Não é difícil chegar até o campo que você busca . Porém identificar quem é quem pode ser um pouco mais complexo.



                Entre os caminhos já trilhados existem trilhas de diferentes dificuldades. Como já falei Ngc 2392 está em muitos guias observacionais. Localizei o a bela nebulosa planetária  no já citado "Cycles" , no "Deep Sky Copanions: The Caldwell objects" e no "Herschel´s 400 Observing Guide" ambos de O´Meara , no também já citado " Turn Left at Orion" e no "Skywatch" de Phil Harrigton.
                Embora não seja duríssimo chegar até nosso alvo os caminhos a partir de Wasat são variados. 
               O "Abismo O´Meara" é confuso é sua proposta parece contar com locais de céu bem escuros já que ele imagina que veremos  estrelas bem tênues a olho nú...
                     Já o "Planalto de Smyth" é bastante vago. O Esquimó esta a cerca de 2,5o de Wasat. É tudo que se sabe...
                 A "Trilha Harrigton" é uma boa opção e apesar de uma descrição menos didática é provavelmente o mesmo caminho  proposto em "Turn left...". Esta consiste em depois de você ter chegado até Wasat centralize esta na sua buscadora e procure um triangulo reto de estrelas de  6a magnitude cerca de meio campo a sudeste desta. Centralize na estrela mais ao norte do triangulo e com sua maior ocular escaneie a região. Ngc 2392 vai estar cerca de 0.5o a sudeste desta. Dentro do campo de minha 25 mm.  Preste atenção e vai perceber que a estrela não faz foco. Troque a ocular para conseguir mais ampliação e vai perceber a Nebulosa planetária. Sua forte cor a zulada vai recordar um disco planetário e explicar a razão porque tais estruturas são chamadas de nebulosas planetárias.
                Mas certamente o caminho mais fácil e bem descrito é  " The Consolmagno Road" apresentada no "Turn Left at Orion".   :  Com Wasat na buscadora perceba  um triangulo equilátero onde Wasat é a estrela mais brilhante. A Estrela a nordeste deste triangulo é 63 Geminorum . Ela vai possuir duas companheiras bem modestas porém visíveis na buscadora. Centralize na primeira delas e mova o telescópio o diâmetro de  cerca de uma lua cheia para sudeste. Chegou!!!  ( 63 Geminorum  é outra parada interessante no caminho de 2392. Uma dupla fácil e membro do catalogo Bedford  que acompanha o "Cycles of Celestial Objects" de Smyth).
                A Nebulosa do Esquimó merece seu nome e mesmo em pequenos telescópios é possível perceber sua estrela central como o rosto de nosso Inuit e as partes expelidas da "atmosfera" da estrela serão sua parka.
                Ngc 2392 e uma descoberta de William Herschel e sua descrição é bem fidedigna e justa: " ( Observada em 17 de janeiro 1787)  Uma estrela de 9a magnitude com uma nebulosidade leitosa bem brilhante em todo entorno.  Um fenômeno bem   notável. "
                Em seu "Caldwell Objects" O´Meara nos conta que o filho de Herschel , John, examinou a descoberta de seu pai com um refletor de 450 mm e concordou com este. Ele observou " uma estrela de 8a magnitude exatamente no centro de uma atmosfera exatamente circular". Ele segue nos dizendo que o termo atmosfera era apropriado para o seu tempo. Durante o séc. XIX , quando Herschel ( filho ) virava sua atenção para os céus, as ideias de Kant ( em 1755) de que o sol  e os  planetas nasceram de uma nuvem giratória de gás e poeira fazia sucesso ( com razão) . Esta era ( e ainda é ) a Hipótese nebular.   A visão de nebulosas planetárias parecia suportar a hipótese. Na verdade a hipótese de Kant demorou seculos para se confirmar e nebulosas planetárias nada tem a ver com isto. Mas eram outros tempos. E a visão destas pode dar asas a estas idéias de forma bastante justificável.
                Nebulosas Planetárias  são uma das mais fugazes etapas da evolução de estrelas como  o nosso sol.  Depois de passarem por sua fase de gigante vermelha tais estrelas expelem sua camadas mais exteriores ( " sua atmosfera") e esta vira este belo detalhe decorativo ao redor de uma anão branca que irá queimar por muito tempo ainda. A nebulosa em si dura alguns milênios. Um breve suspiro em escalas cósmicas.




                Ngc 2392 sera um esquimó por uns poucos milhares de anos. Acredita-se que ela já tenha 10.000 anos. Como está a 5000 anos de nós ela deve ser visivel desde a aurora da História.   Aproveite esta coincidência para visitar um dos  "Iglus mais  distantes do Universo" e aproveitar a deixa para ver uma anã branca. Geralmente não se percebe as anãs branca no centro de Nebulosas planetárias.  Este DSO resiste bem a grandes aumentos e utilize o máximo que o seeing permitir.
                Realizei algumas dezenas de exposições de 25 segundos  com o Newton ( um refletor de 150 mm f8) e utilizando uma Canon T3 com asa 1600 buscando revelar o máximo de detalhes . A montagem utilizada foi uma HEQ 5 pro de Skywatcher.  Variando as opções   de pós processamento no DSS , Photoshop e Fitswork cheguei  a resultados diferentes. As que mais gostei preservaram bem a cor azul que é o que mais chama a atenção junto a ocular. Com o uso de Drizzle consegui alguns detalhes mas as custas de perder aquela bela coloração turquesa.  Acredito que poderia ter conseguido melhores resultados utilizando uma barlow na captura.
             
          Pretendo retornar ao "Iglu mais longe do Universo". Nebulosas Planetárias são alguns do DSO`s mais fotogênicos que conheço.



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