segunda-feira, 30 de abril de 2012

NGC 4038 e 4039 - As Antenas


           
              
               As duas galáxias que o Nuncius Australis vai apresentar hoje formam um dos pares galácticos mais famosos dos céus. NGC 4038 e 4039 formam juntas, “As Antenas”. Ou ainda Arp 244 a e b no “Atlas de Galáxias Peculiares” de Halton Arp.   
            Aqui nós encontramos duas galáxias em um mortal cabo de guerra. Cada uma delas sendo destroçada pela gravidade da outra.
 Isto leva à uma paisagem complexa de berçários estelares, com sua característica cor avermelhadas, devido ao hidrogênio ionizado (H II). E nuvens azuis de estrelas recentemente energizadas.
            Com o passar do tempo o momentum vai fazer com que uma galáxia escape da outra só para novamente serem atraídas até que finalmente, em futuro distante, se tornem uma só.
            Corvus é uma constelação que serve de guia para algumas de minhas galáxias favoritas. Apesar de não possuir nenhuma estrela acima de mag. 2.6 seu formato trapezoidal em uma região pobre em estrelas do céu outonal a faz saltar aos olhos.
            Nós podemos usar duas das estrelas no corpo do Corvo para nos guiar até o nosso objetivo. Trace uma linha ligando Algorab (Delta Corvi) até Gienah (Gamma Corvi) e continue igual distancia para sudoeste. Aproximadamente no meio desta linha você vai passar por um triangulo de estrelas de 7ª mag. Continue mais um pouco e As Antenas estarão ladeadas por duas estrelas de 9ª mag.
            Em um primeiro momento é possível que você perceba apenas um pequeno esfumaçamento, como é normal em galáxias. Mas relaxe e aprecie... Rapidamente você vai notar o característico formato de um camarão.
            Em céus mais escuros você poderá até perceber alguns detalhes nesta estrutura. Com muita atenção você irá perceber regiões apresentando uma leve granulosidade. Não se trata de ilusão de ótica. É resultado do processo de integração das duas galáxias. São áreas de intensa formação estelar.
            O processo que vai se arrastar por bilhões de anos leva o par  possuir vários nomes. As Antenas são fruto de longas exposições fotográficas. Outro nome é Galáxia do Rabo de Rato.
            Sua aparência por telescópios de médio porte (acima de 150 mm) me lembra de um girino...
            Elas foram descobertas por William Herschel (sempre ele...). Em 1785.
            Para constar: A magnitude visual do par é 10,5. E seu brilho de superfície é 13.3 (Ngc 4038).

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Venus e a Luz Cinzenta


Concepção Artística


Ashen Light é uma expressão que pode ser traduzida como a “Luz Cinzenta”.  É um fenômeno raro que ilumina a noite venusiana. Desta expressão podemos derivar “Ashen Venus”. A melhor tradução, em minha opinião, para esta outra expressão seria “As cinzas de Venus”.
 É uma licença poética.
E por isto mesmo muito precisa para definir este fenômeno.  Como muito bem disse Antonio Abujamra em seu  Palmeira do Deserto: "Quando não entendo o que defino, eu me aproximo de tudo que  chamam poesia".
A luz cinzenta é um fenômeno descrito pela primeira vez por Giovanni Batista Riccioli em 1643. Posteriormente foi também avistada por grandes nomes da astronomia. Ente eles William Herschel e Sir Patrick Moore. Phill Harrington dedica algumas paginas em seu “Cosmic Challenge” falando sobre como observar as “Cinzas de Venus”.
 Nunca foi fotografado e isto alimenta ainda mais a lenda.
O fenômeno, basicamente, consiste em se perceber uma tênue iluminação da parte não iluminada (soa contraditório?) do disco venusiano ou do que podemos chamar da noite venusiana.
O fenômeno nunca foi observado com mais de 40% do disco iluminado e assim o período se anuncia como um excelente momento para se tentar a sorte. Ao final do mês de maio estaremos nos despedindo de Venus por um bom período e seu disco chegará a menos de 1 minuto de arco iluminado.
(Este post foi escrito em 23/04/2012. Portanto se você o estiver lendo já em 2013  deverá esperar até novembro de 2013 para ter alguma chance... Consulte sempre um programa planetário , como o Stellarium ou o Skychart para saber com antecedência  a parte iluminada do disco venusiano...) 
Diversas explicações já foram dadas para o fenômeno. Nenhuma é garantia de sua causa...
Vão desde relâmpagos iluminando a atmosfera venusiana passando reações químicas alimentadas por radiação infravermelha. A mais desvairada das explicações foi de autoria do astrônomo alemão do século XIX Franz Von Paula Gruithuisen. Ele atribuiu à luz cinzenta a fogueiras feitas em honra de um novo imperador venusiano.  Literalmente as responsáveis pelas “Cinzas de Venus”...
Uma técnica observacional, que parece ser recorrente na literatura sobre a luz cinzenta, é utilizar uma barra para cobrir a parte iluminada do disco planetário.
            Já disse que o fenômeno nunca foi fotografado.
            Alguém se habilita?

domingo, 15 de abril de 2012

M 44: Um Estranho no Ninho


M 44-- 12 exp.x20 sec. DSS.


M 44 é uma espécie de estranho no ninho no catalogo Messier.
Conhecido desde a antiguidade este objeto  não seria confundido, com a ajuda de qualquer auxilio ótico, com um cometa nem mesmo por uma criança.
 Aratos já havia registrado a nebulosa em 260 A.C. Ptolomeu o inclui em seu Almagesto.  E Galileu o resolveu em estrelas:
“... A nébula chamada de Presépio, que não é uma única estrela, consiste de uma massa de aproximadamente 40 pequenas estrelas.”
Ele possui diversos nomes. Os mais famosos são aglomerado da Manjedoura e/ou Presépio (Praesepe) e Aglomerado da Colmeia.
 O primeiro nome surge do fato de ele ser escoltado no céu por duas estrelas da constelação de Câncer . Respondem pelos graciosos nomes de Asselus Australis e Asselus Borealis. Os “burrinhos”.
 O segundo me parece um pequeno equivoco. Deveriam chama-lo de enxame. Foi exatamente o que vi quando o visitei a primeira vez. Ao ver este pela minha buscadora 9x50 é exatamente como um enxame de abelhas. Só falta fazer barulho. Escolha você o coletivo que mais lhe agrada...
Para localizar M 44 inicie pelos gêmeos,Castor e Pollux. As estrelas mais brilhantes em Gêmeos. O gêmeo mais ao norte é Castor. Ele é azul. Mais ao Sul vem Pollux com seu brilho amarelado. Nossa régua é a distancia entre os irmãos. Caminhe três vezes a distancia entre eles para o sul depois de mais um passo a direita (LESTE). Agora você deve estar mais ou menos no meio do caminho entre Pollux e Regulus (Alpha Leo). Duas tênues estrelas devem ser visíveis. São os “burrinhos”. Uma nebulosa deve ser percebida entre eles. É a manjedoura de onde eles se alimentam. Em ambiente suburbano os "burrinhos” serão visíveis. Já a manjedoura vai depender. Em céus rurais M 44 é evidente. Resolver estrelas individuais a olho nú é um indicio de visão muito apurada e de condições excelentes para observação. Um desafio...
Olhando pela buscadora o aglomerado será obvio e muitos de seus membros devem se resolver.
Pelo telescópio cerca de 50 estrelas serão visíveis. Você vai perceber diversas duplas. Muitas das estrelas do Presépio são bem brilhantes. Entre 7ª e 8ª magnitude. Quatro delas são claramente alaranjadas. A menos que você possua uma ocular bem grande (35 ou 40 mm) terá que dar uma escaneada para cobrir todo o aglomerado.
Assim como a Plêiades esse é um bom alvo binocular. È um aglomerado brilhante e grande e a muitas de suas estrelas resolvem-se com pequena magnificação.
Você esta observando um aglomerado aberto que possui aproximadamente 400 membros e que se espalham por uma área de aproximadamente 15 anos luz. Localizam-se a pouco mais de 500 anos luz de nós (um pouco mais distante que as Plêiades). Alguns de seus membros já se apresentam como gigantes vermelhas e podemos imaginar que este aglomerado tenha uma idade de 400 milhões de anos ou mais.  Um aglomerado relativamente antigo.
O satélite Hipparchos constatou que tanto M 44 como as Hiades ( aglomerado aberto facilmente visível em Touro junto a Aldebaran) podem ter uma origem comum. A direção e movimento próprio  são semelhantes e ambos aglomerados , hoje separados por alguma centenas de anos luz , podem ter se originado de uma mesma grande e difusa nebulosa gasosa em um passado agora distante.
Hiades- 1x 15sec 300mm F4
Sua presença no catalogo Messier é curiosa. As entradas de numero 42, 43, 44 e 45 do catalogo Messier foram incluídas e tiveram sua posição estabelecida na noite de 4 de março de 1769. Todos estes objetos fogem da característica básica para a inclusão no catalogo. Este deveria servir como referencia para caçadores de cometas, que assim não perdessem seu tempo com objetos que os poderiam confundir.
 O Catalogo Messier é o único catalogo da história que incluía objetos para não serem observados.
Algumas línguas alegam que a inclusão destes objetos foi apenas para que a primeira versão do catalogo apresenta-se mais entradas que o catalogo organizado por Lacaille sobre nebulosas do hemisfério sul. Este possuía 42 entradas.
Como a história é irônica. Observar o catalogo Messier se tornou uma das maiores conquistas do astrônomo amador.
P.S. Escondidas entes as estrelas de M44 existem algumas galáxias. Ao alcance de telescópios amadores grandes. Boa sorte...

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A Velocidade da Luz , Cherenkov e M1


O post de hoje é cheio de convidados ilustres e suas citações maravilhosas. E um pouco de física. Só um pouco.   
O primeiro destes convidados, J.B.S. Haldane , foi quem disse: O Universo não é apenas mais estranho do que imaginamos, ele é mais estranho do que nós podemos imaginar.
Não poderia estar mais correto.  O homem tenta imaginar o inimaginável e neste processo descobre a ciência.  E isto me recorda Gerard Piel: A mais notável descoberta feita pelos cientistas é a própria ciência.
            E assim se descobre, por exemplo, a relatividade. E com ela (mais um convidado) Einstein conclui: Nada pode viajar mais rápido que a luz.
Trata-se de uma constante universal.  C.
O próximo convidado é uma figura já tão “habitue” aqui no Nuncius Australis que eu não vou dizer quem é. Nem apresentar nenhuma citação do mesmo. Seu catalogo de nebulosas apresenta como primeira entrada os restos de uma supernova que iluminou os céus da Terra em 1054.  
Já adivinharam quem é? Vou dar mais uma dica. Os restos desta estrela tem hoje o nome de Nebulosa do Caranguejo. Também chamada de M1.
E agora que já apresentamos o nosso DSO convidado vamos falar de um convidado mais obscuro e nem por isto menos importante.
 O universo é “um pouco” mais estranho do que podemos imaginar. E assim as coisas nunca são exatamente preto no branco. Hoje elas serão Azuis. Ou violeta...
Pavel Alekseyevich Cherenkov ou Tcherenkov (em russo: Павел Алексеевич Черенков) (, 28 de Julho 1904- 6 de janeiro de 1990) foi  Nobel de Física em 1958.
Este ilustre convidado descreveu a radiação que recebe seu nome. Isto acontece quando uma partícula (em geral um elétron) se move mais rápido que a luz.
Antes de acenderem as fogueiras e convocar a inquisição convém lembrar que nada pode se mover mais rápido que a luz. No vácuo.
Mas em outros meios "pode".  
 Em  meio composto por um condensado Bose- Einstein ( Bose é mais um convidado...) a luz pode se arrastar até mesmo a velocidades sub sônicas.  Neste tipo de meio coisas muito estranhas acontecem. Parece com certas festas que já fui...
O exemplo mais famoso da radiação Cherenkov é aquele  brilho azulado que vemos nos núcleos (e naquelas piscinas...) de reatores nucleares. Sempre com um brilho azul que empresta um clima radioativo a vários filmes que você já viu.
É tudo verdade. É o efeito Cherenkov se apresentando.
Na água a velocidade da luz é de cerca de 0.75 C. E assim sendo não violamos nenhum principio fundamental e os elétrons podem “nadar” mais rápido que a luz. 
O mesmo efeito pode acontecer em nebulosas. O meio não é a água. Mas também não é o vácuo. Nem é um condensado Bose -Einstein.    
Com pequenos telescópios você não vai perceber em nenhuma nebulosa uma coloração azulada (talvez com um pouco de imaginação...), mas com o uso de fotografia talvez você perceba em algumas nebulosas um pequeno desvio para o para o azul. Ou  violeta. É Cherenkov se apresentando de novo. A maior parte da radiação é  já em ultra violeta...
Agora de volta ao nosso DSO convidado: M1
Imagem  MAGIC 

M1 , como já falei , surgiu de uma imensa explosão. Esta é alimentada pelo resultado da morte (ou transformação) de uma grande estrela. Seus restos ( da estrela inicial) hoje têm pouco mais de 20 km. Mas tem a massa de alguns sóis. Seu campo magnético é mais de 1 trilhão de vezes o da Terra. È uma estrela de Nêutrons. E um Pulsar.  Esta gira 30 vezes por segundo e "ilumina” os filamentos que dão nome a nebulosa.
M1 é um DSO desafiante para os astrônomos amadores. Em pequenos telescópios ela não é exatamente fácil de ser observada.
Lembro-me a primeira vez que tentei localiza-la. Foi um fiasco.
Na época possuía um refrator de 70 mm. E confesso que o que vi se deve mais a minha imaginação do que a presença física de algo...
Com meu 150 mm ela se apresenta em condições suburbanas, mas visualmente não é nenhum espetáculo. È um bom alvo fotográfico.
Mas agora que sei que é lá existem “coisas” que se movem mais rápido que a luz (pelo menos em seus domínios) eu voltei a me interessar.
Como um pobre mortal preso ao espectro visível eu não posso ver o efeito Cherenkov.
De volta ao amadorismo e com um telescópio modesto vamos ao que interessa.
Se você possuir um telescópio com mais de 200 mm e um céu escuro talvez perceba alguma estrutura em M1.
Em geral vai perceber uma pequena nuvem com o formato de uma casca de caranguejo. Bem discreta. Mas chegar até lá não é  tão difícil.  

Lembro-me da primeira vez que a vi de fato. Acredito que o mesmo método sirva para os interessados:
Localizo Zeta Tauri. Abro o Sky Atlas 2000.00 (do Will Tyrion) no mapa mais adequado e começo a procura. O problema é que não é possível avistar o menor indicio da nébula pela buscadora. Desta forma me resta centralizar em Zeta utilizando a minha ocular de 25 mm Wide angle e escanear a área que o mapa me indica. 

Não chega a demorar. M1 é próxima a Zeta mas nem tão próxima quanto poderia parecer pelo meu mapa. Com o uso de visão periférica percebo a nébula pela ocular. Conforme vou me adaptando a nebulosidade se torna mais clara. É muito tênue. Cobre uma área considerável do centro da ocular. Substituo a 25 mm por uma 17 mm. Percebem-se mais claramente os contornos da Nebulosa. Somente isto. Não percebo estrutura de espécie alguma. Fico olhando e resolvo tentar a 10 mm. A imagem fica mais escura e difícil de perceber. O melhor resultado foi com a 17 mm.


Posteriormente, do Alto do Pico do Açu, consegui vislumbrar M1 com meu 10x50. È a coisa mais perto de nada ser e ainda assim ser alguma coisa que conheço. M78, no mesmo binóculo, também se enquadra nesta categoria. E lá também existem “coisas” mais rápidas que a luz.  Em M 42 o fenômeno também já foi observado pelo MAGIC também.
Mais sobre a radiação Cherenkov em (rufem os tambores...):          http://en.wikipedia.org/wiki/Cherenkov_radiation

Mais sobre M1:

 Para quem não descobriu. O convidado que eu não apresentei é Charles Messier.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

A Relatividade, A Preguiça e NGC 6886 e 6905




Sem medo do lugar comum: tudo é relativo.
Mas aqui vou aplicar a relativização dentro de uma escala muito humana. Gostaria de apresentar um pequeno post que vai demonstrar que a preguiça, este pecado tão gostoso, é relativa.
Há muitos anos um trabalho me levou a ir passar um mês no Alto Xingu. Fiquei morando no posto Leonardo Villa Boas, nas margens do rio Tuatuari, um afluente do Rio Kuluene.
Minha missão era basicamente levar e montar uma parte da estrutura para a realização de um pequeno filme francês. Neste processo eu aprendi rapidamente o porquê de antropólogos falarem tanto em relativizar.
Depois de uns 15 dias a coisa não ia bem. Descontentamentos da equipe com o diretor, falta de conforto, total desorganização ameaçavam tornar impossível o término de tão “belo” projeto.
Com isto o produtor executivo (o cara da grana) resolveu que ele deveria fazer uma visita as filmagens.
Logo no primeiro dia da inspeção ele levantou cedo, junto com a equipe, e fomos carregar uma pick up (a única em um raio de algumas centenas de km.) Nosso motorista era Tonoli, um bravo guerreiro Walapiti. Como não poderia deixar de ser começou a demorar. A câmera que esqueceu a repinboca, a camareira que esqueceu a roupa, o maquinista que esqueceu o nome e assim vai...
Quando fica tudo pronto e vamos partir  vejo o nosso marinheiro de primeira viagem berrando a plenos pulmões: - Marcher , marcher .
 E nada acontece.
Com a demora nosso bravo guerreiro local havia deixado seu posto ao volante e voltado para sua rede em sua bela oca. Afinal apesar do horário matutino já faz um calor escorchante...
Meu querido produtor executivo vem em minha direção e começa a reclamar;
Como pode ele fazer uma coisa dessas e isso e aquilo. Finalmente o clássico:
- Eu to pagando.
Aí é que entra a história da relatividade.
No Alto Xingu não adianta nada ter dinheiro. Não tem aonde gastar.
 E o dinheiro que ele pagava evidentemente não chegava às mãos do nosso bravo Tonoli.
 E mesmo que chegasse aquilo para ele era um contra senso. Trabalhar àquela hora para fazer coisas completamente inúteis para uma pessoa que a gente não gostava era definitivamente inexplicável.
Eu, que já estava lá há algum tempo, já tinha entendido o conceito de relatividade aplicado ao encontro de duas culturas. Viro-me para ele e pergunto:
- Já foi a Bahia?
Ele responde que não e eu não perdoo:
-Faz seis meses de estagio por lá e depois a gente conversa.
Mas a preguiça é a mãe da invenção e em se tratando de observação astronômica ela pode ser a solução de seus problemas. 
Como eu já contei observação astronômica pode ser uma tarefa extremamente atlética. Posições de contorcionista junto ao telescópio são comuns e localizar objetos na esfera celeste pode ser uma atividade dura e muito cansativa.
Então quando podemos transferir nosso esforço para algo que não nossa carcaça é sempre uma benção.
Os índios com quem trabalhei acreditam que quando morrerem e forem para o paraíso eles não vão nunca mais trabalhar.
No caso das duas Nebulosas Planetárias, que são o motivo de eu estar contando toda esta história para vocês, é bem por aí que nós caminhamos.
Com vantagens. Não precisamos morrer para vê-las e o céu (ou a terra) faz o trabalho de localizá-las para nós.
Nebulosa Planetária é um erro de nomenclatura que pegou. O nome não explica em nada sobre os objetos que vamos observar. Nada tem a ver com planetas. Ha não ser o fato que os discos esverdeados que elas aparentam ser em pequenos telescópios recordam o planeta Urano. Como quem criou o titulo e quem descobriu Urano é a mesma pessoa... William Herschel criou as nebulosas planetárias.
Nebulosas planetárias são na verdade “anéis” (podem ter outras formas) compostos por restos do material expelido por estrelas com aproximadamente a massa do sol em seu processo evolutivo. São uma forma efêmera. Na vida de uma estrela estes anéis duram algo como um piscar de olhos (de novo a relatividade) . Então quando você observa uma trata-se de tremenda coincidência.  Mais sobre nebulosas planetárias aqui.
Agora vamos a o que importa.

Ngc 6886 é uma nebulosa bem pequena, mas relativamente (de novo...) brilhante. Se você passar os olhos pela região de forma desavisada ela vai parecer apenas uma pequena estrela de campo. Em fotos ela apresenta duas “asas” que fazem com que seu diâmetro aparente chegue a 6´´ de arco. Mas como você não é um ccd ela se apresenta para você com os apenas 2´´de arco que compreendem o anel central.  
Mas agora , sendo  preguiçoso, podemos localiza-la facilmente.
Centralize seu telescópio com uma ocular por volta de 20 mm (meu telescópio possui 1200 mm de DF) em Eta Sagittae , que marca a ponta da flecha e desligue seu clock drive.  Como Ngc 6886 reside 1.8º de Eta faça como Tonoli. Sente e relaxe. Em 7 min. e 12 seg. vai surgir na ocular  um pequeno triangulo. Uma das pequenas estrelas é a Nebulosa. Aumente a magnificação para cerca de 120 x e vai descobrir quem é o impostor. Brilhando com magnitude 11 é um alvo para céus escuros.  Sua estrela central atinge apenas 16.5. Foi descoberta por Ralph Copeland em 1884.

Nossa outra convidada não é tão discreta e com um tamanho de 72´´X37´´ ela é tão grande como pode ser uma nebulosa planetária. Ngc 6905 também brilha com 11ª mag. E  foi descoberta por William Herschel em 1784. Ela tem apelido de “Blue Flash Nebula”.
Escondida na região noroeste da constelação de Delphinus, o golfinho, não apresenta nenhuma das conhecidas estrelas desta para guia-lo.   Mas novamente o céu vai lhe ajudar.
Você que já visitou Eta Sagittae vai voltar lá. Ou se preferir e já estiver em Ngc 6886 apenas desligue o clock de novo e aguarde mais16 minutos.
Ou voltando até Eta Sagittae faça um tour duplo. Desligue de novo o clock drive. Em 7 minutos e 12 segundos você vai rever a nossa primeira convidada. Aí então relaxe de novo por mais 16 minutos e pronto. Aumente a magnificação. A nuvem que vais ver é elíptica e alongada no sentido norte-sul. A sua cor verde pálida é facilmente percebida.
Duas nebulosas planetárias preguiçosas. Eu, em particular, gosto mais de 6905. Entre Eta Sagittae e ela se passam 23 minutos e 12 segundos. Dá até para deitar na rede enquanto eu espero. E ela  é maior , mais interessante e colorida.

  Como diria Macunaíma: - Ai, que preguiça!