terça-feira, 18 de abril de 2017

Ngc 4526: Uma Gálaxia Quase Perdida

              

                  Costumo utilizar o Stellarium (um misto de carta celeste com programa planetário) para organizar minhas sessões observacionais. Suas versões mais atuais parecem ter passado por uma maquiagem a fim de se apresentarem menos formais e mais atraentes especialmente aos mais jovens e/ou aos iniciantes. Desta forma diversos do DSO´s apresentados  são nomeados com apelidos clássicos , pomposos ou chamativos.
                Ngc 4526 é um destes objetos .  Enquanto passeava pelo aglomerado de Galáxias de Virgem e buscava por novidades fora do catalogo Messier me deparei com “ A Galáxia Perdida” (The Lost Galaxy). O título não me era conhecido e tão pouco a galáxia. Não sabia de onde o Stellarium tirou o belo e misterioso apelido.
                Mistério deve ser a palavra-chave por aqui. Venho assistindo uma “nova” série no Netflix. Um belo e misterioso conto de terror. Penny Dreadful. Em uma mistura de terror, mistério, poesia e cenários vitorianos que mostra a busca de Sir Malcolm Murray (um explorador inglês e proprietário de um belo refrator que decora seu escritório), Vanessa Ives (uma médium e uma beleza...) e Ethan Chandler (um pistoleiro americano) por sua filha Mina sequestrada pelas forças do mal. Isto deve ter me influenciado em ficar encantado com a possibilidade de buscar por uma “Galáxia Perdida”.
                Não bastasse a sincronicidade destes eventos em um dos episódios Ives se encontra com Frankenstein (ele também participa da série e tem claro parentesco com Ngc 4526) e este cita a abertura de um de meus poemas favoritos de Blake (Auguries of Innocence) que possui claro caráter astronômico (Blake embora muito esotérico é também um profundo entendedor dos mistérios do universo...): 
                “To see a World in a Grain of Sand / And a Heaven in a Wild Flower
                  Hold Infinity in the palm of  your hand  / And  Eternity in an hour”
                Não faltassem coincidências sem nada a ver com as leis fundamentais do universo na minha busca por Ngc 4526, “A Galáxia Perdida”, ela foi localizada por um erro do Synscan (Uma espécie de computador de bordo de minha cabeça equatorial) de Mlle. Herschel. Pedi para esta buscar por M 49 e Ngc 4625 apareceu centralizada na ocular de 17 mm.  E assim a “Galáxia Perdida” foi achada.  Mas é importante lembrar que ela estava entre os objetivos da missão exploratória pretendida.
                Embora chamada de “A Galáxia Perdida” no Stellarium Ngc 4526 é extremamente brilhante e fácil de ser localizada. E como ao buscar por informações sobre esta em meus alfarrábios não encontrei ela listada com este belo e misterioso apelido no “Deep Sky Companions: The Hidden Treasures “ de Steve O´Meara  fiquei com a pulga atrás da orelha. Me parecia muito pouco provável que O´Meara (que assim como eu adora “batizar” DSO´s) deixasse isto passar. Na verdade, O´Meara aplica a mesma um outro apelido. “ The Hairy Eyebrow Galaxy” (A Galáxia da Sobrancelha Cabeluda). Fui em busca da verdade. Ou pelo menos de alguma lenda para justificar o título.
                Existem duas características que são associadas as lendas e que são antagônicas entre si.  A primeira nos diz que “ Por trás de toda lenda há um fundo de verdade”. E a segunda fala “ que as lendas são mentiras que ganharam a autoridade do tempo”.
                E como boa lenda a raiz da confusão sobre Ngc 4526 remonta há muito tempo. Nada em escala astronômica mas a origem já seria velha quando nasci. E eu nasci no século passado.
                Tudo indica que a “Galáxia Perdida” original não é Ngc 4526. O nome foi primeiramente utilizado por Leland S. Copeland em um artigo escrito para a Sky and Telescope de fevereiro de 1955. A matéria chamava-se “ Adventures in the Virgo Cloud”. E a galáxia por ele assim chamada foi Ngc 4535.  Esta encontra-se apenas meio grau ao norte de 4526. E é um alvo bem mais difícil. Especialmente visualmente.
                Burnham em seu “Handbook” confirma:
                “... Estas são as galáxias Ngc 4526 e 4535, a primeira uma elíptica bastante extensa ou um sistema S0 com um centro brilhante, a outra uma grande espiral com baixo brilho de superfície, medindo 6´X4´.A partir de sua enevoada e fantasmagórica aparência em telescópios amadores esta foi batizada “The Lost Galaxy” por L.S. Copeland”.
                Seguindo a investigação localizei a fonte original. A edição de fevereiro de 1955 da “Sky and Telescope”. Ngc 4526 mereceu uma investigação “detetivesca”.  Abaixo a foto original dos suspeitos. Baixei todas as “Sky and Telescopes” para o ano de 1955. Sensacional...
Harvard Observatory - sky and  telescope 1955.

                Para não deixar pedra sobre pedra ainda localizei um post no fórum “Cloudy Nights” onde um dos membros levanta a hipótese de Ngc 4526 ser chamada em mais de um atlas digital (Stellarium e o “The Sky””) de “The Lost Galaxy” devido a habitar entre duas estrelas de 7a magnitude que podem disfarçar sua presença ou natureza. Isto explicaria sua presença no “Hidden Treasures” do O´Meara. Este costuma apresentar objetos que mesmo não sendo impossíveis a telescópios amadores podem esconder sua natureza devido a sua posição no espaço.
                É uma descoberta de William Herschel e foi primeiramente observada em 18 de abril 1784. Isto também é alvo de controvérsias. Ha fontes que falam em 13 de abril. Nada a respeito de 1 de abril...
                “Brilhante, bem grande, bastante alongada, muito mais brilhante no centro. Localizada entre duas estrelas de 7a magnitude. (H I- 31= H I – 38) ”.
                Podemos perceber que Herschel a catalogou duas vezes. Entradas repetidas também podem ter gerado alguma confusão a respeito de quem seria a “Galáxia Perdida”. A mesma é membro da lista chamada de “ 400 de Herschel” que reúne as mais interessantes e acessíveis entradas do enorme levantamento de nebulosas realizado por William (com o auxílio luxuoso de sua irmã Caroline) Herschel.
                Ngc 4526 é um alvo bastante brilhante e facilmente percebido mesmo com visão direta. O fato de habitar entre duas estrelas de 7a magnitude ao contrário de a tornar um “Tesouro Escondido” a faz fácil de localizar e mais fácil ainda de se identificar entre o mar de galáxias que habitam a região.
                James Mullaney em seu guia fundamental para aqueles que decidirem encarar o desafio de observar “Os 400 de Herschel” concorda com minha opinião:
                “...Felizmente, como indicado por Herschel em sua descrição, acontece desta habitar entre duas estrelas de 7a magnitude no primeiro campo (estas estrelas habitam a Via-Láctea), ajudando a distinguir de suas vizinhas”. “
                Os campos em Virgem são ricos em pequenas condensações e podem ser bastante enganadores. M 49 (que era meu objetivo inicial) reside a menos de 1o de Ngc 4526 e apesar de ser um dos “monstros” do aglomerado não brilha muito mais que nossa galáxia.
                Ao observa-la rapidamente percebi sua aparência de estrela enevoada. Seu núcleo é realmente muito brilhante. Galáxias lenticulares são amigas do amador. Costuma ter um brilho de superfície alto e núcleo bastante evidente.

                Como já falei cheguei até Ngc 4526 por um descaminho de meu sistema de Goto. Posteriormente a visitei com mais ‘”Fair play” e a percebi navegando a partir de Rho Virginis com meu 15X70. Mesmo com o uso de binóculos (pela buscadora 8x50 isto não é tão obvio, mas seu núcleo se apresenta) ela revela sua natureza nebulosa. As duas estrelas escudeiras ajudam bastante para saber onde se concentrar com sua visão periférica.  M 49 é também um belo marco para se localizar Ngc 4526. A galáxia é tão brilhante que em um primeiro momento cheguei a considerar ter chegado a M 49.
                Nossa galáxia nem tão perdida realmente apresenta alguma semelhança com o monstro incompreendido de Mary Shelley. Parece uma concha de retalhos em sua estrutura.
                Atualmente Ngc 4526 é classificada como uma galáxia lenticular mista (SAB 0). Isto implica em tratar-se de uma galáxia elíptica aonde se suspeita de uma barra central, com braços típicos de uma espiral clássica e um núcleo amorfo levemente elipsoidal.  Na foto do Hubble pode se perceber todas estas estruturas. Ainda que umas mais que as outras.  Uma área central de caráter lenticular com uma espiral empoeirada ao seu redor.  Esta poeira empresta o apelido de “sobrancelha cabeluda” dada por O´Meara. Nada disso é percebido visualmente mesmo com grandes telescópios amadores.
                Ngc 4526 é sempre lembrada por duas supernovas recentes que em astro fotos por efêmeros momentos a emolduraram entre suas duas estrelas escudeiras.
Ngc 4526 com a supernova 1994d. HST.

                Uma delas em 1994 (1994d) foi um evento do tipo Ia e chegou a atingir 11.8a magnitude. 
                Anteriormente Ngc 4526 era considerada a uma distância semelhante a M 49 fazendo parte do sub aglomerado sul de Virgo. Como supernovas são do Tipo Ia são uma das velas padrões mais precisas conhecidas a nossa galáxia se aproximou de nós cerca de 15 milhões de anos luz de nós. A distância aceita para a região de M 49 no aglomerado de Virgo é de 55 milhões de anos luz. Ngc 4526 atualmente habita a modestos 40 milhões de anos luz. Aceito estes valores ela possui cerca de 68.000 anos luz de extensão.
                Ngc 4526 é um alvo nobre e extremamente interessante. Fácil em se falando de galáxias.


                Uma galáxia nem tão perdida assim... 

quinta-feira, 6 de abril de 2017

O Quarto Crescente e a Décima Terceira Vértebra



                Chegou a “Aporema”. É uma festa que se comemora 4 vezes por ano (significa ”ver longe”. Algumas nações indígenas a batizaram de Mombyry Ma ). Possui data móvel . Ocorre na lua nova mais próxima aos equinócios e aos solstícios. Se possível  a comemoro só.   Assim consigo ter as luzes do local em que estiver “nas baias” e posso realizar minhas astrofotos em paz.
Não confundir com “aporema”. Este um silogismo dubitativo onde se apresentam raciocínios opostos com argumentos igualmente válidos.(  este vem do grego “apórema”...)
                Desta vez por razões para lá de mundanas a Aporema foi festejada com cerca de 50% do disco lunar iluminado. Mas com apenas 50 % do disco iluminado este também só deveria infernizar durante 50% da noite (mais sobre o assunto a frente)  . Depois ela se põe.  Estamos no quarto crescente. Se fosse quarto minguante ela nasceria.  Façam a experiência. Não falha nunca...
                São épocas de aguas magras e assim a Aporema do equinócio de outono este ano será novamente nos claros céus Buzianos.  Me comprometo a conseguir realizar toda a folia ( incluindo aí pedágio , combustível e alimentação ) com a módica quantia de 200 reais. Festa da CUT. Muito pão com mortadela...   
                Com estas condições de contorno parti no dia 03 de abril de 2017 rumo a terra de José Eustáquio. Levava comigo o Newton ,  Mlle. Herschel, computador, câmera e uma muda de roupa.
                Adoro viajar só. Pensar que passaria dois dias  em silêncio era como ouvir poesia. Não por misantropia, mas quase. A vida de casado só é viável graças as benções de  Moira. Já falei isto por aqui e a própriafalou também. E no Senado Romano...
                Uma vez instalado realizo o primeiro ritual da Aporema. Colimar o velho Newton. Depois de alguns ajustes me dou por satisfeito. Mais tarde vou perceber que deveria ter insistido mais , lutado mais e feito a colimação direito...
                O problema principal da falta de tempo é que como você tem que maximizar o tempo de observação muitas as vezes coisas delicadas são feitas meio que “nas coxas”...
                Desta forma eu decido utilizar em vez de uma estrela um DSO para fazer o alinhamento polar. Ngc 2516 vai cruzar o meridiano as 19:01:30. O problema de utilizar um DSO é que como este cobre quase 30´ de firmamento você trabalha com um erro possível ao redor de 15´para cada lado. Mas como eu nunca tinha feito assim resolvo experimentar. A final não estamos na NASA. E já ouvi histórias sobre o que eles fazem na NASA de arrepiar os cabelos... 
                E tendo conjugado teoria e pratica ( nada vai funcionar direito e  não se vai saber porque) começo a observação.
                Geralmente tenho um plano elaborado no note pad. Como gosto de termos náuticos chamo a este de “derrota”. Abaixo a “derrota” planejada

Começo bem. O primeiro objeto da lista Ngc 2546 é um alvo que queria re-fotografar de forma mais digna para o “ Projeto Lacaille”. O livro esta “pronto”, mas ainda há acertos a serem resolvidos.  Mas no caminho acho um campo ainda mais interessante. A estrela  OS Puppis é uma bela dupla em um agrupamento que não conhecia logo ao lado de Ngc 2546. Pode ser um asterismo. Mas não parece... Vai ficar na conta dos míticos José Eustáquio e de Silvano Silva. J.E.S.S. 13

                Depois sigo os planos. Desta vez fui abduzido pelo Stellarium. Durante a elaboração da derrota neste programa acreditei na breve descrição de Ngc 2571. Não era o que parecia. Mais para campo estelar que para aglomerado.  Devia ter desconfiado do “71” ao final do número.
                Depois disto ainda é cedo. Mas resolvo queimar a largada e com a lua ainda no céu tento a sorte em Leão. Desta vez tinha sido abduzido pela “ Sky and Telescope” de abril que apresenta uma interessante e tentadora matéria sobre o grupo menos observado de galáxias em Leo.          M 95, 96 e 105. Alvos definitivamente mais difíceis que as mais simpática M 65 e M 66 que juntamente com Ngc 3628 formam o tripleto mais famoso da constelação.
                Quando acho que localizei algo e resolvo tentar fotografar o alvo o céu norte começa a nublar. Depois o sul também. Eu transito de ateu a herege em poucos segundos e começo a blasfemar. É evidente que algo conspira contra mim e que isto não pode estar certo. Palavras impublicáveis são dirigidas aos céus e depois de meia hora parecem ser ouvidas.  A noite abre novamente.  Tiro algumas fotos da região onde supunha estarem M 95 e 96 e descubro que minha impressão era apenas isto. Uma impressão. Agora boto a culpa na Lua. E no alinhamento do Goto de Mlle. Herschel.
                Refaço a rotina de alinhamento utilizando outras estrelas como guia (creio que Acrux e Alfa Centauro).
                Decido fazer um teste. Fossem tempos menos politicamente corretos eu chamaria            M 104 ( A Galáxia do Sombrero) de vadia. Ela  é facinha ( pelo menos tão facinha quanta pode ser uma galáxia) . O teste funciona e percebo que o goto está suficientemente preciso. M 104 aparece senão centralizada, dentro do campo de minha ocular de 26 mm.  Embora quase invisível com visão direta ela é óbvia.  Com mais aumento ( 70,5X) e olhando de rabo de olho percebe-se, ainda que de forma discreta, sua faixa de poeira característica.

3 X drizzle no DSS


                Astrofotografia não é exatamente uma coisa fácil. Mas duro é mais difícil ainda. O focalizador original do Newton empenou (nunca deixe alguém transportar seu telescópio.) E tive que substitui-lo por um genérico “Xingá Linga” (também conhecido como “Ali Baba”). Meu sonhado Crayford dual speed não só não esta disponível em nenhuma loja brasileira como as taxas e a entrega   tornaram as coisas difíceis na “Astronomics”.  A coisa anda feia para um empresário pai de dois neste nosso paizinho. O focalizador e um sistema de acompanhamento são cada vez coisas mais distantes.  Quando ganha-se algum dinheiro é melhor guardar pois  a maior parte do tempo não ganha-se dinheiro algum... 
                De volta ao céu decido esperar a lua realmente partir e retorno ao plano inicial. De novo tentando melhorar as fotos do “Projeto Lacaille” faço imagens de Ômega Centauro. Respeitando a proposta do livro as imagens não devem afastar-se muito do que é observável visualmente. Mas um pouco mais é sempre melhor. Afinal um dos anexos vai tratar astrofotografia e Ômega Centauro é um “showpiece”. E apesar da facilidade e talvez em razão desta nunca fiz uma captura deste com Mlle. Herschel. Todas as fotos que possuo de Ômega foram realizadas ainda com minha antiga equatorial EQ 3-2 ( Hipatia). Acho que uma delas continua  no livro. O foco ficou a desejar e com a colimação ruim as coisas ficaram de doer. A noite se anuncia mais para “Rot n´Stack” do que para “DSS”.  (São dois programas de pós processamento de fotos astronômicas.  Um aceita qualquer coisa. O outro demanda algum capricho...)   

                Aproveitando a proximidade resolvo conhecer Ngc 5460. Uma grata surpresa na noite. Delicado aglomerado aberto entre o Centauro e Lupus. Um daquele raros objetos que são melhores visualmente que na foto...  Me recordou o “ Aglomerado de Cheshire” (Ngc 5281) também em Centaurus.  Confesso que a foto poderia ter ficado melhor. Mas este é mais um para o delirante   “Projeto Tudo que Existe”.

                Em algum momento da noite resolvo visitar Júpiter. Não sou um cara muito planetário, mas acho sempre divertido tentar perceber a grande mancha e ver como estão organizada as luas. Desta vez foi uma boa desculpa para tirar as teias de uma Plossl 5 mm que possuo e que nunca sai da mochila ( guardo as oculares na mesma mochila da câmera e das lentes...). Com muito pouco eye relief e de difícil foco nunca me animo a tentar tanto aumento . Mas desta vez funcionou bem. A grande mancha era óbvia com 240X de aumento e apesar de penar um pouco para fazer o foco com meu focalizador de m... e uma ocular à altura acabou valendo o esforço. Comprei ela (a ocular de 5 mm)  quase de graça...
                Mas desconfio que quando você transita no Synscan para o modo “Solar System” você acaba com o alinhamento do goto feito para navegar entre estrelas. Ao voltar para meus queridos DSO´S  Mlle. Herschel não acha mais nada. Lá vou eu de novo realizar a rotina de calibração do goto. 
                                Finalmente Selene deixa a sala e me volto para a galáxias de Virgo. M 95 e Cia. LTDA. Já vão mais baixas e prefiro deixar para outro dia. Das galáxias da derrota planejada acabo conseguindo apenas Ngc 4526. Respeitada as proporções me sinto fazendo uma das imagens de campo profundo do Hubble. O registro mostra muito pouco mas mostra que em se apontando para Virgo dificilmente não se registra uma (ou mais galáxias) em quase qualquer campo escolhido. 4526 é chamada de “A Galáxia Perdida”. Esta noite ela foi a galáxia achada. Mlle Herschel mirou em M 49 e eu fotografei Ngc 4526...

                Continuo tentando a sorte por Virgo mas sem nenhum sucesso. A lua embora não estivesse mais presente parecia assombrar os céus em uma espécie de “Crepúsculo Lunar Astronômico” (A lua a menos de 18o abaixo do horizonte).   Pior que isso é ter a impressão que a lua tem propriedades quase homeopáticas .  Depois de habitar o céu durante parte da noite mesmo que esta seja diluída até a inexistência ela continua apagando DSO´s.
Em algum momento da noite passeando por Virgo e procurando fotografar galáxias por tentativa e erro devido a T.P.M. de Mlle. Herschel eu ainda capturo a passagem de um satélite “bemmm” lento. Segundo minhas pesquisas trata-se do Gorizont 26. Um satélite de comunicação russo que habitou uma orbita geoestacionária até março de 2007 quando saiu de serviço. Atualmente está em uma orbita cemitério.
Momento Hora do Brasil:
Órbita cemitério, também chamada órbita super síncrona, órbita de refugo ou órbita de descarte, é uma órbita significativamente acima das órbitas síncronas onde as espaçonaves são colocadas intencionalmente ao final da sua vida útil. É um procedimento adotado para minimizar a probabilidade de colisão de detritos com espaçonaves operacionais gerando ainda mais detritos.
Uma órbita cemitério é usada quando a alteração de velocidade necessária para retirar uma espaçonave de órbita é muito grande. Retirar um satélite de uma órbita geoestacionária requer uma velocidade de 1.500 m/s, enquanto reposicionar esse mesmo satélite numa órbita cemitério requer uma velocidade de apenas 11 m/s.”
            

            Ele demorou mais de 140 segundos para cruzar cerca de 1o firmamento. Foram 7 fotos com 20 segundos de exposição até ele desaparecer de meu quadro. Supondo que demorei cerca de 3 segundos entre cada foto faça as contas e veja o que descobre a respeito do moribundo satélite russo.   Ahhh!!! É incrível registrar algo que deve possuir uma magnitude por volta de 17...
            Depois disto tento a sorte com M 83 só para me lembrar que o Cata-vento Austral é um alvo difícil. Faço algumas fotos mas percebo rapidamente que o Deep Sky Stacker vai gerar apenas “desastres binários”.  E mesmo o Rot n´ Stack não fará muito pela causa.


 M 83 versão "desastre binário"... Astrofotografia é a melhor diversão. 



            Com a colimação ruim, Mlle. Herschel voluntariosa e com um alinhamento polar que não deu muito certo decido brincar de “5 segundos”. Escolho um alvo fácil e faço de uma a três exposições de cinco segundos. Astrofotografia realista. Recordam muito o que se percebe pela ocular. Astrofotografia é muito divertido e atrai muitas pessoas ao hobby. Mas também afasta. O cara vê um DSO fotografado e depois compra seu telescópio. Quando aponta para o mesmo alvo (supondo que o encontre) e percebe uma pequena manchinha (quando percebe) e lá se foi a novo astrônomo... Astronomia amadora é para quem gosta e não para quem quer. O adjetivo já deixa isto bem claro.
"5 Segundos"
Decido que é melhor esperar pelo dia de amanhã e abro uma cerveja...  
Aprendi uma lição valiosa neste dia. Nunca fazer alinhamento polar usando um DSO como referência.
No dia seguinte começo com mais calma e faço uma colimação mais esmerada (mesmo assim não ficou grandes coisas. Esquecer o colimador é um erro...).
Com tudo pronto para realinhar o telescópio novamente o tempo dá uma fechada. Sem horizonte sul sem alinhamento polar. Enquanto espero resolvo brincar com a lua. Tiro algumas fotos com foco direto e decido tentar algo novo. Empilho duas Barlow 2X e com uma simulação de um telescópio de 4800 mm de distancia focal descubro que é difícil fazer foco. Mas com uma “trapizonga” montada eu consigo fazer algumas fotos que com um certo “parasitismo” luminoso apresentam resultados mais para promissores que propriamente interessantes. Preciso limpar minhas Barlows com urgência. E mandar pentearem o gato com mais frequência. Não sou um astrofotografo muito de lua. Mas as coisas podem mudar ...

Barlows em série... 


Decidido a fazer um alinhamento polar correto e sabendo que a lua só vai “aliviar” bem mais tarde fico novamente brincando de “5 Segundos”.
Plêiades do Sul - "5 Segundos".
"5 Segundos" - Ngc 3532

Quando observo na versão “Lobo Solitário” costumo ter a companhia de meu telefone. Coloco ele para tocar as músicas que gosto e quando quero alguma companhia mais “humana” costumo colocar o “Cosmos” original (com o Sagan) para “tocar”. Esta noite o episódio foi “A Espinha Dorsal da Noite”.  Afinal, mesmo em Búzios, o miolo da Via Láctea (na Tríplice fronteira entre Escorpião, Sagitário e Ophiucus) apresenta-se leitoso quando vai se erguendo no céu Bortle 6/7 da Armação. Chamo esta região de nossa galáxia de “ A Décima Terceira Vértebra”.  Pretendo fotografa-la mais tarde.
Finalmente as 23:22:03 segundos eu alinho o Newton com auxílio de Acrux.  E testo diversas estrelas guias para alinhar o goto. Finalmente com o ajuda de Antares e Arcturus eu consigo que Mlle. Herschel crave alguns DSO´s dentro do campo de minha ocular 26 mm.
Já tarde da noite eu começo a fotografar de fato. Fugindo totalmente dos planos e abandonado Virgo a sua própria sorte ( o efeito “homeopático” da lua vem parecendo se confirmar empiricamente...)  consigo perceber visualmente M 107. O último globular Messier de Ophiucus para minha coleção. A colimação e o focalizador estão me tirando do sério. Mas como Mlle. Herschel está boazinha então insisto mais um pouco com a câmera no Newton.

Assim vão as coisas quando abato um objeto que há anos vinha me traindo e que eu começava a suspeitar ser uma entrada falsa do New General Catalog. Não era... Ngc 6400 existe. Fiz umas poucas fotos para registro e este é  mais um DSO para “Projeto Tudo que Existe”. Não é exatamente um “blockbuster”.

            O plano agora e para o resto da madrugada era realizar algumas fotos em Pig back com minha 75-300 mm. E montar o set up completo. Com direito a banquinho e computador. Bossa Nova...

Só não contava com a condensação. Preciso melhorar o kit de campo e me lembrar de secar a lente entre as fotos.
Mas fico feliz em ver que o sistema funciona e sou capaz de ficar viciado no “Astrophotography Tools”. E com 300 mm é mole fazer exposições de 1 min (e até um pouco mais) sem acompanhamento. Melhor ainda fazer 30 e poder passear pela cozinha enquanto tudo acontece automaticamente.   Aguardo ansioso poder fazer esta brincadeira de novo. Desta vez com direito a mesinha de camping e uma barraquinha para proteger o computador do sereno. A região de Antares vai receber uma nova visita em breve....


Depois ataco a “Décima Terceira Vértebra”. Mas aí a condensação já começou a se instalar e não aproveito quase nada das 30 fotos feitas... outro encontro marcado para a próxima Lua Nova.  A foto que abre este post é resultado de apenas uma exposição de 1 minuto com ASA 800.
A noite já vai madrugada e eu tenho que viajar de volta para o Rio na manhã seguinte.
A Aporema está encerrada. E já penso em realizar um carnaval fora de época mês que vem .

P.S. Por razões de rigor histórico minha cabeça equatorial deixou de ser Mme. (Madame)  Herschel e se tornou Mlle. ( mademoiselle) Herschel. É um tributo a Caroline Herschel , irmã de William e não  a sua esposa. Caroline Herschel nunca se casou. Foi senhorita a vida toda...
           
           


quinta-feira, 23 de março de 2017

Estrelas Duplas, Rayleigh, Dawes e a "Constante de Harrington"

Abertura        Critério de Rayleigh   Limite de Dawes
mm                          a/s                              a/s
50                           2.76                             2.32
60                           2.30                             1.90
70                           1.97                             1.62
75                           1.84                             1.52
100                           1.38                             1.14
150                           0.92                             0.76
200                           0.69                             0.57
250                           0.55                             0.45
300                           0.46                             0.38
400                           0.34                             0.28








Sem poder ir a céus mais escuros já há algum tempo (mesmo Búzios tem sido um projeto difícil de se concretizar) e as voltas com a finalização do “Projeto Lacaille” não tenho observado muito. Assim, quando muito, tenho tentado a sorte em estrelas duplas. Estas sobrevivem a intensa poluição luminosa na “Stonehenge dos Pobres” e sempre garantem alguma diversão para o astrônomo urbano.
                Quão perto pode estar uma estrela de outra e ainda assim serem percebidas como entidades distintas?
                Diversos experimentos observacionais foram conduzidos ao longo da história para determinar os limites de resolução de telescópios.
                Os dois mais famosos e constantemente citados na literatura são o “Critério de Rayleigh” e o “Limite de Dawes”.
                O “Critério de Rayleigh”, vislumbrado por John William Strutt, o terceiro Barão de Rayleigh, em 1878 prevê quão próximas podem estar duas estrelas a ainda assim serem percebidas como pontos separados. Utilizando dados empíricos ele chegou a seguinte conta:
                CR= 138/D 
                Onde CR é o “Critério de Rayleigh” e será expresso em segundos de arco e D é o diâmetro da objetiva ou espelho do telescópio (em milímetros).  
                Já o astrônomo inglês do século XIX William Dawes utilizou uma outra aproximação. Dawes derivou uma formula para calcular quão próximas podem estar duas estrelas de 6a magnitude e estas se apresentarem “alongadas”, mas não resolvidas separadamente. Sua formula:
                LD=114/D
                Novamente D é o diâmetro do telescópio e o Limite de Dawes também será obtido em segundos de arco.
                Fica claro que o fator isolado mais importante para saber se você vai ou não resolver duplas muito apertadas é o diâmetro de seu telescópio.
                Mas são aproximações... Muito s amadores irão exceder o “Limite de Dawes” com telescópios de 150 mm ou menores enquanto outros jamais vão alcança-lo. Isto vai acontecer porque a performance do telescópio será afetada por diversos outros fatores. Os mais comuns serão o “seeing” (estabilidade atmosférica), uma grande disparidade de cor e/ou magnitude no par, má colimação ou má qualidade da ótica utilizada. E logicamente a acuidade visual de cada observador.
                Telescópios grandes (mais de 250 mm) dificilmente atingem o Limite de Dawes. Mesmo os maiores telescópios amadores dificilmente mostrarão detalhes inferiores a 0,5 arc/seg devido a nossa atmosfera. Em outras palavras, um telescópio de 400 mm vai acrescentar pouquíssimo detalhes adicionais a planetas ou dividir estrelas muito mais próximas que um de 250 mm quando utilizados debaixo da maioria das condições observacionais comuns. Ainda que estes apresentem mais cor e brilho.
                Quando falamos em binóculos tanto o “Critério” como o “Limite” ficam meio que “furados”. Ambos os cálculos pressupõem um aumento muito maior do que o obtido com a maioria dos binóculos. Phill Harrington propõe que você deve utilizar o seguinte cálculo para determinar o que você vai resolver ou não em um binoculo. Leva em conta apena a ampliação permitida pelo binoculo:
LRb=240/M
Onde LRb é o limite de resolução binocular (em arc seg), 240 é a “Constante de Harrington” e M é a magnificação do binoculo. Desta forma um Binoculo de 15X70 mm vai ser capaz de separar estrelas a 16 arc/seg uma da outra.  Já um 10X50 irá separar estrelas a 24 arc/seg.  Abaixo uma tabela para valores comuns:
Magnificação        Limite de Resolução
        7                               34
       10                              24
       15                              16
       20                              12
       30                                8


                Estrelas Duplas são um dos alvos mais recompensadores para o astrônomo urbano. E também são uma de meus programas favoritos para encerrar minhas observações lutando para perceber tênues DSO´s eu gosto de escolher o menu de estrelas duplas que habita o Synscan de Mlle. Herschel (uma espécie de “computador de bordo” que controla a minha cabeça equatorial) e ver o que a noite reserva já sem tanto compromisso. É incrível a variedade de desafios e belezas que se escondem entre duplas. Algumas são de colorido encantador, outras levam você a explorar o máximo de ampliação que o seu telescópio e o seeing podem suportar e outra ainda simplesmente não se resolve em uma noite para se entregar na próxima. Mas só tentando para saber. Bela brincadeira...
Albireo "do Verão"...

Albireo




quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

M 67 : O Barrete Frígio

         

            M 67 é aquele outro aglomerado aberto em Câncer. Dividindo a constelação com M 44,O Aglomerado do Presépio, que é facilmente percebido a olho nu este mais discreto e nem por isto menos belo aglomerado é menos visitado. As apagadas estrelas do caranguejo celestial não facilitam a navegação até o mesmo em locais de poluição luminosa.  E assim M 67 sofre uma daquelas injustiças celestiais comuns a vizinhos de grandes e brilhantes aglomerados.
            O Aglomerado foi descoberto por Johann Gottfried Köhler em Dresden, Alemanha, antes de 1779. “ Uma nebulosa bastante proeminente com um formato alongado”. Como seu registro nunca foi publicado Messier redescobre M 67 de forma independente em 6 de abril de 1780. Este o resolve parcialmente. Um aglomerado de pequenas estrelas com nebulosidade”. Ambas as descrições demonstram como o equipamento destes pioneiros era modesto. Já observei M 67 com o “Galileo” (um refrator de 70 mm) e o resolvi totalmente. Nada de nebulosidade envolvida.
            William Herschel é o primeiro a resolve-lo. Ele o descreve assim:
            “Um lindo e muito comprimido aglomerado de estrelas, facilmente observável com qualquer bom telescópio e onde observei mais de 200 estrelas no campo de meu grande refletor, com um aumento de 157X”.
            Leo Brenner (um controverso e muito “criativo” observador alemão do final do século XIX e início do sec. XX. Autor do primeiro Guia observacional de Céu Profundo em língua alemã (1902)) também deixa claro como eram simples os telescópios utilizados por seus descobridores: “ Na buscadora aparenta ser um retalho nebuloso, mas já com pequenos aumentos é reconhecido como um aglomerado estelar e esplendido objeto. Cercado por um semicírculo de estrelas mais brilhantes repousam 230 estrelas de magnitude 9 a 12. ”
            O Admiral Smyth é que associa M 67 ao formato que hoje leva a seu apelido: O Barrete Frígio. Quase um século depois O ‘Meara nos conta que muitos discordam da semelhança apresentada por Smyth. Ele mesmo acha que o aglomerado lembra um Cobra-Rei pronta para o bote e destaca que Flamarion acredita que o aglomerado recorda a uma espiga de milho e que Luginbuhl e Skiff criam sua própria metáfora e associam o mesmo a “uma arvore de fibras óticas”.
Brasão da Cidade do Rio 

            Somente para esclarecer: O chapéu frígio recorda uma mitra (aquele chapéu de bispo) e é também conhecido como o Barrete de Liberdade por ter sido utilizado pelos revolucionários franceses. O mesmo está presente no brasão da cidade do Rio de Janeiro.
            M 67 é um dos mais antigos aglomerados abertos conhecidos e estudo recente (Michaud e colegas, 2004) estima uma idade de 3.7 bilhões de anos o que é quase tão antigo quanto o sistema solar. O mesmo estudo acredita que ele manterá sua dinâmica de aglomerado por mais 5 bilhões de anos.  Muitos poucos aglomerados abertos atingem idades sequer próximas a isto. Ngc 188 é o único aglomerado aberto conhecido que (sem controvérsias...) é mais antigo que nosso convidado. A razão desta longevidade esta associada a sua riqueza e a sua grande distância do plano e do centro galáctico; o que evita interações gravitacionais destrutivas.
             A idade de M 67 nos permite ver neste um grande número de estrelas altamente desenvolvidas. É rico em gigantes vermelhas, com pelo menos 20 confirmadas. Possui também um grande número de anãs brancas (150). Foram descobertas também 23 “Blue stragglers” que são mais típicas em aglomerados globulares mais densos e antigos que os tradicionais aglomerados galácticos.
            Localizada a 3000 anos luz de nós pode-se derivar um tamanho de 21 anos luz para M 67.
            Observar M 67 em locais escuros não chega a ser difícil. O´Meara nos diz que em uma noite perfeita ele é visível a olho nu. Eu duvido.... Com meu binóculo 10X50 mm em céus Bortle 6 ele é perceptível como uma pequena mancha enevoada. Com meu 15X70 ele começa a se resolver.  Com o Galileo ele se resolve e conforme aumenta-se o poder de fogo mais estrelas irão comparecer.
            Stoyan nos diz que o equipamento mínimo para resolve-lo é um telescópio de cerca de 60 mm.
            Com o Newton (um refletor de 150 mm f8) consigo perceber várias dezenas de estrelas. Em céus muito escuros podemos checar a uma centena com 120X de aumento. M 67 é um alvo telescópico e nestes é muito mais interessante que seu mais conhecido M 44. Este devido a sua enorme área aparente é melhor observado com binóculos.  

            Para se navegar até M 67 localize Acubens (Alfa Câncer) e navegando rumo a oeste passe por 60 Cnc (fraca e avermelhada). O aglomerado se apresentará discreto na buscadora em locais de poluição luminosa intensa...
            A foto que abre o post é resultado de cerca de 1 dezena de exposições de 30 segundos com ASA 3200. Na verdade foi um aquecimento na noite em que me dediquei a fotografar M 66 e M 65.  Foi utilizado o Newton montado sobre a Mdme. Herschel (uma montagem HEQ 5 pro) e uma câmera Canon T3 sem modificação. Foram feitos uns poucos “dark frames”.  A imagem foi processada no Deep Sky Stacker.