domingo, 16 de julho de 2017

M 14: Um Globular Distante

Sempre achei que a observação astronômica é uma atividade solitária. Como já disse o filosofo “ A necessidade da maioria supera a necessidade do indivíduo”*. E assim me incomodo quando   viro uma pessoa desagradável e obrigo (ou ao menos tento) aos próximos a serem privados da luz quando observo. Tanto minha esposa como minha cunhada tecem severas críticas a meus gritos e resmungos quando se acendem as luzes na cozinha ou nos fundos da casa de Búzios enquanto observo. A maioria não é fã da escuridão.  Outro detalhe que me irrita é que quando localizo um pequeno esfuminho escondido em Ophiuchus (ou qualquer outra constelação) e convido alguém a dar uma olhada na ocular e este não se maravilha com aqueles poucos fótons que viajaram milhares de anos luz até seu nervo ótico. Isto quando vê alguma coisa. Logo acho melhor observar sozinho e guardar para mim estas emoções.
Quando observo da Stonehenge dos Pobres não me é possível apagar as luzes de todos os apartamentos em meu condomínio. Mas ao menos possuo a certeza de que com exceção das luzes do 16o andar do Bloco 1 nenhuma mais vai me perturbar. E também sei que não aparecerá ninguém para vir reclamar embora minha presença deva incomodar a alguns moradores. Muitos devem achar que sou um tarado... para minha felicidade sou o único morador autorizado a visitar o telhado do prédio durante a noite. Um direito adquirido desde os tempos da antiga sindica e que não foram revogados nem mesmo com o suicídio de um descontente morador do bloco 3.
E assim acabei por conseguir observar M 14. A meu ver o 
mais tímido dos globulares Messier de Ophiuchus.  Importante frisar que o observei em condições de extrema poluição luminosa. A Stonehenge dos Pobres é na Zona Sul do Rio de Janeiro. Uma cidade com mais de 6 milhões de habitantes. (Bortle 7ou 8). Não bastasse isto ainda era bastante cedo e o disco lunar apresentava 50 % de seu disco iluminado.  Mas observei M 107 em condições semelhantes e achei este um pouco mais evidente. De qualquer maneira os objetos do catalogo Messier são (em geral) viáveis mesmo em condições bem ruins. Fotograficamente são todos viáveis mesmo quando registrados  de áreas ainda mais centrais da cidade.
M 14 é uma descoberta original de Messier. Observado pela primeira vez em 1 de junho de 1764.  Com um de seus modestos telescópios Messier observou o seguinte:  “ Nebulosa sem estrelas; nebulosa não é grande; sua luz é tênue. É arredondada. Próximo a uma estrela de 9a magnitude. 7´de diâmetro. ”

As descrições de Messier me parecem sempre muito realistas para possuidores de pequenos telescópios e que habitam áreas urbanas. Certamente devido ao fato de este observar com pequenos telescópios e de uma grande cidade. Paris em no século XVII já era iluminada e o Hotel de Cluny (onde era seu observatório. Este em uma área central e que já habitada a vários séculos. Já estive lá (atualmente é o Museu da Idade Média e apresenta uma belíssima coleção de tapeçarias) E com a iluminação feita a base de óleo de baleia e soltando muita fumaça não deveria ser muito melhor (ou pior) que a Stonehenge dos Pobres. Acredito que o “Newton” (meu telescópio refletor de 150 mm f8) seja muito superior a qualquer telescópio que Messier tenha usado.

Coube a William Herschel resolver M 14 em estrelas e o Admiral Smyth na segunda parte do Cycles of Celestial Objects (também conhecido como “The Bedford Catalogue”) nos fala de uma “lúcida cor branca”.
M 14 é ao menos uma magnitude mais pálido que seus “vizinhos celestiais” M 10 e M 12 e M 9.  Porém é, de fato, em termos absolutos o mais brilhante dos quatro. Sua tímida aparência se deve a extinção causada pela poeira interestelar e sua maior distância que seus companheiros. Imaginava-se que este assim como os outros se  encontrasse  a meros 25.000 anos luz. Medidas atuais o afastaram para 55.000 anos luz. Desta forma ele possui uma massa consideravelmente maior (1,2 milhões de massas solares) que seus amiguinhos e ocupa um latifúndio de 180 anos luz de universo.  M 14 é também um dos únicos globulares com uma nova registrada em plates fotográficos. A nova aconteceu em 1938, mas só foi descoberta em 1964 com o estudo de placas que cobriam o período entre 1932 e 1963. Nas placas entre 21 e 28 de junho se localizou uma nova que atingiu 16a magnitude. Nem mesmo o Hubble localizou a estrela responsável posteriormente...

Segundo Stoyan M 14 é perceptível com binóculos de 30 mm. Talvez de locais muito escuros mesmo assim com características estelares.

Não o percebi com minha buscadora (50 mm) mesmo de Búzios. Pelo “Newton” com 120 X ele recorda a descrição de Messier ainda que com alguma granulosidade nas bordas. 

Acredito que em condições ideais e visão periférica vão se resolver algumas estrelas no seu entorno.Utilizando recursos fotográficos M 14 se resolveu com 35 exposições de 30 segundos com ASA 1600 . Foram utilizados 10 dark frames e a foto que abre este post foi processada   no DSS ( 3 X drizzle) e no Fitswork + Photoshop CS 6.  

Partindo de Beta Ophiuchi (3a magnitude) caminhe dois campos de buscadora (10 o) até para sudoeste e localize 47 Ophiuchi. Vai ser a estrela mais brilhante na buscadora e talvez a única... M14 vai estar a pouco mais de meio campo de buscadora (3o) a nordeste.  Mag. 7.8


* Não sou um Trekkie de carteirinha, mas a frase é do Spock em “A Ira de Khan”.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Globulares Messier na Tríplice Fronteira

          

                Recentemente falei por aqui que o meu episódio favorito do “Cosmos” original (com o Sagan) é batizado de “ A Espinha Dorsal da Noite” (The Backbone of the Night). Ele trata da maior estrutura que podemos observar a olho nu no céu. A própria Via Láctea em si.  E imaginando esta como a coluna do um ser humano a região dominada pela tríplice fronteira formada pelas constelações de Sagitário, Ophiucus e Escorpião poderia ser “A Décima Terceira Vertebra”. É apenas uma licença poética e nada tem a ver com os problemas causados pela evolução e o bipedismo.
                A distribuição de aglomerados globulares em nossa galáxia concentra-se ao redor desta região central.  Dos 138 globulares listados no Sky Atlas 2000.0, do Tirion e Sinnott, (do qual eu sou o feliz proprietário de uma edição de luxo que me enche de orgulho) 71 deles habitam nesta área.  29 em Sagitário, 24 em Ophiucus e 18 em Escorpião.  Em levantamentos mais recentes o número de globulares na nossa galáxia atingiu um número total entre 151 e 157. A diferença deve-se ao fato de que alguns globulares nesta conta podem ser creditados a Galáxia Elíptica Anã de Sagitário e a Galáxia Anã de Cão Maior.  De qualquer maneira estes globulares estariam em processo de captura e vão acabar por tornar-se habitantes do halo galáctico da Via Láctea. Considerando que sejam 157 globulares 141 destes habitam o hemisfério centrado em Sagitário (89.5%). Nesta contagem atual 35 globulares residem em Sagitário, 33 em Ophiucus e 23 em Escorpião. Para manter a contabilidade em dia a soma dá 91 e isto significa que 57.9% dos globulares residem na região. Não deve tratar-se de uma daquelas coincidências que nada tem a ver com as leis fundamentais do Universo.  Coincidência seria se fossem 42...
                Como não poderia deixar de ser estes números se refletem no Catalogo Messier. Este um catalogo de nebulosas organizado no Século XVIII pelo caçador de cometas Charles Messier e que reuniu 110 objetos Nebulosos que não deveriam ser observados. Seu objetivo era que estes não fossem confundidos com seus amados blocos de gelo que habitam o sistema solar e que não se perdesse tempo vendo se estes impostores se moviam contra as estrelas de fundo (isto é uma meia verdade...). De qualquer maneira dos 29 globulares que integram o Catalogo Messier 16 residem na Tríplice Fronteira.  55.2% destes...  Fugindo um pouco do esquadro 2 destes em Escorpião, 7 em Ophiucus e 7 em Sagitário. Há um empate técnico entre Sagitário e Ophiucus. Embora M 62 (que fica em Ophiucus segundo a maioria) seja listado por alguns como residente em Escorpião. Um horror para quem tem T.O.C.... afinal sagitário deveria ter mais globulares que os outros membros da fronteira. 
                A conjunto é representativo para apresentarmos algumas características cosmológicas, morfológicas e históricas deste tipo de DSO.
                Aglomerados globulares são concentrações coesas gravitacionalmente de dez mil a um milhão de estrelas que se espalham por um volume de diversas dezenas até duzentos anos luz de espaço. Hoje em dia existe uma área cinzenta entre globulares, galáxias anãs e até mesmo abertos superdensos. Quanto mais descobrimos sobre o universo mais difícil se torna classificar com precisão as suas formas organizacionais. Estruturas como Westerlund 1 são aglomerados jovens que em alguns bilhões de anos poderão ser globulares...  Mas para o objetivo deste post basta sabermos que além da curta e grossa definição acima os globulares são membros anciões do universo e sua idade atinge muito bilhões de anos. Até pouco tempo alguns eram quase paradoxos. Existiriam a mais tempo que o universo...
                Globulares embora com características semelhantes não são iguais. Quem viu um globular não viu todos eles. Ainda que em pequenos telescópios as diferenças a vezes não sejam obvias.
                 
                Quando Messier conclui seu Catalogo Globulares ainda não eram assim chamados. Na verdade, todos os DSO´s respondiam pelo termo geral de nebulosas. Quem cunha o termo é William Herschel que ao contrário de Messier achava que catalogar nebulosas era uma tarefa válida por si mesma.
                Embora sem nome (embora Messier tenha conseguido resolver estrelas em M 4) sempre se suspeitou que globulares eram agrupamentos de estrelas unidos gravitacionalmente.  O primeiro globular a ser observado foi M 22 por Abraham Ihle em 1665. Quando Messier concluiu seu catalogo eram conhecidos apenas 34 globulares. Herschel em seu imenso levantamento ampliou o incluiu mais 36. Em 1915 Mellote lista 83. Shapley (1930) nos fala em 93 (sendo um extragaláctico).
                Shapley com Hellen Sawyer Hoog (que conhecia 99 globs...) criam uma classificação utilizando parâmetros físicos e estruturais   que leva em conta o grau de condensação dos globulares. A Escala Shapley -Sawyer é expressiva e bastante representativa para você imaginar o que vai ver junto a sua ocular.  Vai de I (mais concentrados e quase impossíveis de se resolver em estrelas. Mesmo grandes telescópios não resolvem suas áreas mais centrais) até XIII (parecerão um aglomerado aberto rico).
                Como desde sua descoberta e a partir do momento que se resolveram estrelas os globulares eram supostamente objetos físicos e enxames estelares. Todas muito próximas e a mesma distância. Provavelmente por isto Shapley derivou da forte anisotropia dos Globulares em nossa galáxia que o centro de nossa galáxia está a uma considerável distância na direção de Sagitário e não próxima a nosso sistema solar como se supunha anteriormente. Apesar de superestimar as distâncias foi um grande passo para encerrar o “Grande Debate” e de ampliar as fronteiras do universo...
Gosto muito de realizar projetos temáticos para minhas observações. Desta forma vou me familiarizando com o que estou observando e começando a perceber as diferenças entre um dois de espadas e um dois de paus mesmo ao longe. Entre os vários projetos que tinha para o inverno finalmente acabei com um deles. Este era fotografar todos os globulares Messier que me faltavam em Ophiucus. Uma coisa leva a outra e assim acabei com todos os globulares Messier na Tríplice Fronteira fotografados. Com isto reuni material suficiente para apresentar a diversidade destes tão importantes DSO´s. Globulares são uma das primeiras estruturas a se organizar em uma galáxia e seu estudo é fundamental para a compreensão do quadro maior que atende pelo nome de evolução galáctica. Quem desejar se aprofundar mais na astrofísica e história dos globulares pode e deve visitar a Página da SEDS ( leia Hartmut Frommert )  http://messier.seds.org/glob.html#Messier   e procurar pelo livro “ The Complex Lives of Star Clusters” -David Stevenson – Springer ( https://www.amazon.com/Complex-Lives-Clusters-Astronomers-Universe/dp/331914233X )  Recomendo correr . Só restam 2 em estoque na Amazon.  Este é um raro post no Nuncius Australis com bibliografia. Mas seria vergonhoso não dar estes créditos aqui e agora...


                Dito tudo isto chegamos ao que interessa: Os aglomerados Messier e a 13a vertebra. Vamos visitar cada um deles e neste tour aprender o caminho das pedras para conhecer estes senhores. Todos são alvos visuais possíveis mesmo com bastante poluição luminosa e fotográficos fáceis (daí a fazer boas fotos já é outra história...)
              
  M4 -  Escorpião - Shapley IX - É um dos mais charmosos globulares dos céus e o segundo mais próximo da terra. Foi o primeiro globular a ser resolvido (por Messier) e sua dorsal central de brilhantes estrelas é facilmente percebido mesmo com telescópios de 75 mm em céus escuro e com mais de 120X de aumento. Localizado muito próximo a Antares é um dos globulares mais fáceis de ser localizado. Um “ must” para os iniciantes. Perceptível pela buscadora e mesmo a olho nu (estelar) em céus muito escuros.  Foi o primeiro objeto Messier que observei (na mesma noite observei M 7 e M 6. Estes dois abertos na cauda de Escorpião) Mag. 5.4
               

  M 9 – Ophiucus- Shapley VIII -. Bem mais discreto e com uma navegação mais delicada é um globular pequeno. Em pequenos instrumentos vai-se perceber um núcleo mais brilhante envolto em um halo não resolvível. Com um telescópio de 150 mm resolverá algumas estrelas em seu entorno.  Localize Eta Ophiuchi e o M 9 estará a 3 ½ o a sudeste desta. Eta Ophiuchi possui magnitude 2,5 e é perceptível em céus suburbanos. Ou parta de Antares e calcule 15o rumo nordeste. Aproximadamente 3 campos de buscadora 10X50 mm. Nesta e em binóculos M 9 será quase estelar. Com atenção (use visão periférica) parecerá uma estrela levemente desfocada. Mag. 7.8
              
  M 10 –  Ophiucus – Shapley VII - Um nobre globular. Com pequenos telescópios não espere resolver estrelas. Mas o núcleo será bem brilhante e o globular será uma condensação razoavelmente extensa com 90 X de aumento. Com 150 mm e 60X de aumento você irá começar a resolver estrelas em seu halo.  Com uma brilhante estrela alaranjada de 5magnitude bem próxima (30 Ophiuchi) é facilmente localizável em locais de céu escuro. Senão parta de Zeta Ophiuchi e caminhe aproximadamente um campo e buscadora para 23 Ophiuchi (5magnitude) e mais cerca de meio campo na mesma linha até 30 Ophiuchi. Todas são facilmente percebidas pela buscadora. O Globular em si dependerá de quão escuro é o seu céu. No Rio de Janeiro é difícil vê-lo claramente com menos de 70mm e 15X.   Mag. 6.6



M 12 – Ophiucus – Shapley IX – Um aglomerado pouco concentrado que se resolve facilmente. Por isto um brilho de superfície mais baixo e sofre com poluição luminosa. Com o 150 mm ele se resolve até o centro (ou quase) e tem um aspecto espiralado. Bem interessante embora apagado em céus suburbanos. Próximo a M 10 parta também de Zeta Ophiuchi rumo 12 Ophiuchi. O globular vais estar a meio campo(2 ½ o) de buscadora a leste – nordeste desta. E a 3 ½ o de M 10. Ele é perceptível pela buscadora em céus suburbanos, mas demanda atenção. Mag. 6.5


               
  M14 – Ophiuchus – Shapley VIII -  Só o observei do Rio. E em condições bem ruins (baixo no horizonte e com a lua já crescente). Foi o último globular desta lista que visitei. Em céus urbanos é pouco mais que uma assombração na ocular. Se resolve em fotos. Creio que em locais mais escuros seja um alvo visual mais fácil.  Imperceptível na buscadora (há registros de observações binoculares em condições melhores). Partindo de Beta Ophiuchi (3a magnitude) caminhe dois campos de buscadora (10 o) até para sudoeste e localize 47 Ophiuchi. Vai ser a estrela mais brilhante na buscadora e talvez a única... M14 vai estar a pouco mais de meio campo de buscadora (3o) a nordeste.  Mag. 7.8


 M 19 – Ophiuchus – Shapley VIII – Foi o penúltimo globular observado. Apesar das condições semelhantes (mesma noite) a M 14 e serem ambos Shapley VIII a impressão é muito diferente. Curiosamente este é um pouco mais distante. Mas M 19 é mais brilhante (uma magnitude) e maior   e cheguei a perceber estrelas no limiar da resolução em seu entorno com 48X de aumento. M 19 é um globular bem alongado. Foge um pouco da esfericidade tão comum. Localiza-lo pode ser um pouco difícil em céus urbanos. Parindo de Antares localize Theta Ophiuchi (Garafsa) a poucos mais de 3 campos de buscadora (17o). Aproximadamente no meio do caminho vias passar por uma dupla ótica composta por 26 Ophiuchi (5.7 mag.)   e uma companheira levemente mais alaranjada (HIP 83176). M 19 vai estra dentro do campo da buscadora cerca de 2o a leste da dupla. Em céus escuros ele será notado na buscadora. Em céus suburbanos não. Mag. 6.8


M 22 – Sagitário – Shapley VII – O mais magnifico dos globulares Messier e o meu eterno favorito. Somente Ômega Centauro e Tuc 47 são a sua altura. Tolkien se refere a ele como uma joia no céu no “Hobbit” (The Arkenstone of Thrain). O grande Globular de Sagitário. Perceptível a olho nu mesmo em céus não muito generosos foi o primeiro globular a ser observado telescopicamente e registrado como estrela desde a mais remota antiguidade. Um alvo fácil e obrigatório para iniciantes e iniciados. Localiza-lo é bem fácil. A pouco mais de um campo de buscadora a leste de Kaus Borealis (Lambda Sagitarii) é evidente na buscadora mesmo em centros urbanos. Mag. 5.2

              
  M 28 – Sagitário – Shapley IV – Bem concentrado sofre com a proximidade de Kaus Borealis. É importante tirar esta do campo, especialmente se usando binóculos. Esta lava o aglomerado. A menos de meio campo de buscadora de Kaus Borealis (Lambda Sagitarii) é um alvo muito fácil e um bom trino para iniciantes trinarem sua visão em áreas muito lavadas. Já o visitei muitas vezes, mas a proximidade de M22 acaba sempre deixando este mais modesto aglomerado um pouco esquecido. Mag. 6.9


      
          M 54 – Sagitário – Shapley III – M 54 é um pequenino Globular. É o mais distante globular Messier a 70.000 anos luz e é na verdade membro da Galáxia Anã de Sagitário. Esta está sendo canibalizada pela Via Láctea. Localizado a 1 ½Ascella (Zeta Sagitarii) na base do “bule” (o asterismo que caracteriza a constelação de Sagitário) é um alvo fácil. Ele vai parecer estelar em sua buscadora. Como existirão outras estrelas em campo é só ter um pouco de paciência para achar a certa. Com mais ampliação não chega a se resolver estrelas, mas o aglomerado recorda uma pequena galáxia.  Um desafio para quem possui céus muito escuros e grandes telescópios é perceber a Galáxia Anã de Sagitário presente no quadro. É um dos maiores desafios propostos por Phil Harrington em seu “Cosmic Challenges”. Está mais para uma mudança de gradiente no fundo do céu que para um objeto real... Mag. 7.5


             
   M 55 – Sagitário – Shapley XI – É o menos denso dos globulares Messier e parece muito com um aberto. Cobre uma bela área de céu. Se resolve facilmente devido à baixa densidade. Mas requer atenção devido a brilho de superfície mais modesto e a pouca concentração central (quase nenhuma). É um dos objetos mais ao sul do Catalogo Messier e foi descoberto por Lacaille. Chegar até ele pode ser difícil. A melhor escolha e partir de Ascella (Zeta Sagitarii) e percorrer três campos de Buscadora rumo leste. Com atenção e céus um pouco generosos ele vai aparecer na buscadora. Lacaille o descobriu com uma luneta de 30 mm. Mag. 6.3
               
M 62 – Ophiuchus – Shapley IV – Um aglomerado bem brilhante  e cidadão de dois países. Habita o limite de Ophiuchus com Escorpião e embora não muito grande é bem brilhante. Especialmente seu núcleo. Resolvo estrelas somente em sua borda e mesmo assim com periférica. Para localiza-lo parta de Épsilon Scorpii indo rumo Norte Noroeste por pouco mais de um campo de buscadora (6 o) e seguindo um grupo de três estrelas bem brilhante você chegará a ele. Comparece na buscadora embora que com características estelares. Com visão periférica dá para se notar algo errado nesta estrela... Mag. 6.5


  M 69 – Sagitário – Shapley V -  M 69 é mais um habitante da base do Bule. É um pequenino aglomerado que não desperta grandes paixões. É provavelmente a pior foto desta coleção. Apesar de muito próximo de Épsilon Sagitarii não é tão fácil assim de se perceber em céus urbanos. Fica a 3 ½a nordeste de Épsilon. Parece estelar na buscadora. Mesmo com grandes aumentos não revela muitas feições. Como diz O ‘Meara parece um velho artefato bem gasto. É uma descoberta controversa de Lacaille.  Mag. 7.7
                

M 70 – Sagitário – Shapley 5 -. Bem mais interessante que o anterior.. . Apesar de bem brilhante para sua magnitude (alto brilho de superfície devido a sua concentração ele possui um “apêndice” de estrelas e um formato mais irregular. Se resolve bem com meu 150 mm em 120X.  Se afasta muito rapidamente de nós. A melhor forma de localizá-lo e calcular o meio do caminho entre Ascella E Épsilon Sagitarii. Ele reside um pouco a norte desta linha imaginaria e é perceptível ainda que bem estelar pela buscadora. Mag.  7.8

    M 75 –  Sagitário -  Shapley I –  M 75 é o mais concentrado dos globulares Messier. Embora pequeno dos poucos a atingir o máximo da escala. Isto faz seu núcleo bem brilhante. É também o mais difícil de se achar. Localizado perdido entre Sagitário e Capricórnio e sem nenhuma estrela mais brilhante no caminho sua melhor chance é partir de Beta Capricorni (3.6 Mag.) em direção a um pequeno asterismo formado por Terebellum I, II, III e IV em Sagitário. M 75 reside no meio desta linha imaginária. Demanda paciência e sorte. Nos tempos de Hipatia (minha cabeça equatorial 3-2) demorei quase uma noite inteira de tentativas e erros É um) ele parecerá uma fraca estrela pela buscadora. Só retornei depois que Mlle. Herschel se tornou parte de meu equipamento. Uma equatorial HEQ 5 com “Go-to” torna a passeio mais agradável. Mag. .8.6
  
               
M80 – Escorpião - Shapley II – Bastante concentrado também é um objeto adorável. Devido a sua concentração é difícil resolver algo além das estrelas mais externas, mas o globular é bonito e muito brilhante embora pequeno. Saindo de Antares e seguindo por várias e obvias estrelas que conduzem até Acrab na garra do escorpião chegar nele é fácil. Mas com o rico campo difícil saber quem é o aglomerado e quem é estrela pela buscadora. Atenção e paciência resolvem o problema.  Mag. 7.3


 M 107 – Ophiuchus – Shapley X – O último aglomerado a ser incluído no Catalogo. É uma entrada póstuma e já realizada no sec. XX. Foi descoberto por Mechain e há dúvidas se foi de fato observado por Messier. É um discreto aglomerado, mas que embora não tenha sido percebido pela buscadora era uma presença obvia no Newton (meu telescópio 150 mm f8) com 48 X de aumento em noite de lua quase cheia. Só o visitei uma vez. O registro foi feito às pressas e com muita nebulosidade e condensação já se instalando no espelho. Merece uma segunda chance.  Partindo de Zeta Ophiuchi ele reside a pouco mais de meio campo de buscadora (3 ½  o) a sul sudoeste. Mag. 7.8


   Globulares são muito interessantes e existem diversas hipótese a seu respeito. Uma das mais aceitas e que serve para encerrar o nosso tour conta que nossa galáxia (e outras...) começou a 15 bilhões de anos como uma esfera de gás que eventualmente colapsou na sua forma visível no presente – um bojo central e um disco -   e que os anciões globulares que formam um halo esférico a redor do disco marcam o tamanho original desta nuvem primordial. Em sua riqueza de formatos, tamanhos, e composições contam uma das mais longas histórias da galáxia.   
                Espero até o fim do ano terminar de registrar todos os globulares de Messier.


    Vida longa e próspera.

sábado, 1 de julho de 2017

De Volta à Stonehenge e o Massacre Raw X Jpeg

               

              Fazia algum tempo que não observava. Murphy e a falta de tempo pareciam conspirar para tal. Em abril e maio, felizmente, tive algum trabalho. Junho costuma ser mais parado mesmo devido ao festival de Cannes. As agencias e produtoras (pelo menos as que me contratam) costumam virar os olhos para o velho mundo e nós, herdeiros dos Tamoios e Tupinambás, ficamos à mingua.  É claro que o tempo nublou na lua nova...
                Finalmente chegou o quarto crescente, já no fim do mês, e apesar da condição aquém do ideal me dignei a cumprir uma tarefa que vinha me agoniando um pouco. Terminar de observar e fotografar todos os Globulares Messier de Ophiucus. Assim teria no meu “quíver” todos os Messier da tríplice fronteira (Sagitário, Ophiucus e Escorpião) e uma significativa amostra de globulares dos céus.
                Com isto em mente e com a cara metade viajando o projeto tem que ser corrido. Só me faltavam dois destes anciões do universo para concluir minha nada hercúlea tarefa. M 14 e M 19. 
                Desta forma me organizo para que na Sexta feira, 30 de junho de 2017 (exatamente no Quarto crescente. 50% disco lunar iluminado) eu consiga abater as vítimas.
                Claro que não foi tudo tão fácil assim.
                As coisas começaram correndo (quase) conforme o script. As crianças não tiveram aula (mais uma paralização dos professores). A babá/governanta/secretária chega só as 11:30. Desta forma por volta de 12:00 eu estou trocando o focalizador do Newton (meu refletor 150mm f8). Na verdade, estou reinstalando o original. Este se empenou há mais de um ano atrás e finalmente mandei ele ao torneiro para ser concertado. Vinha operando com um focalizador muito vagabundo há muito tempo...  Ainda longe de ser o ideal a mudança já melhorou muito as coisas.
                Depois disto me digno a colimar o telescópio com alguma seriedade. Gasto meu tempo. Localizo meu kit de chaves allen e começo ajustando o secundário de forma bem mais precisa do que de costume. Depois gasto o tempo no primário. Mesmo sem um colimador consigo um resultado bem satisfatório. O melhor em muito tempo...
                Vou organizando tudo e deixando todo o equipamento reunido na sala. Hoje a brincadeira será na sobreloja da “Stonehenge dos pobres”. No telhado de meu prédio. Não visitava o local há muito tempo. Mas com os meus sonhos de ir para Búzios destroçados por meu irmão que esta super ocupado e pelo caseiro que vai entrar na faca semana que vem era minha única opção. Sempre ensaio que vou visitar meu tio que possui uma casa com um belo jardim e um horizonte sul bem livre. Mas com os alvos que tenho em mente nascendo a leste acho que a Rocinha será uma fonte de poluição luminosa assassina para os pálidos globulares. Fora o fato de meu carro se encontrar na oficina.
                Finalmente uma grave crise. Ao sentar para almoçar me lembro que ainda não peguei tudo que preciso... E aí sumiu a fonte de Mlle. Herschel (Uma cabeça equatorial HEQ 5). Depois de abandonar o prato na mesa, muitas blasfêmias e uma desesperada excursão ao centro da cidade em busca de uma substituta minha babá/governanta/secretária me manda uma mensagem segundos antes de eu comprar uma nova fonte. Localizou a fonte original entranhada entre o caos que impera nas roupas de minha amada filhota aborrescente. Pena que esta já se encontra de castigo devido a mal comportamento. Seria redundante castiga-la de novo... 
                Finalmente me lembro de que tenho que pagar a conta de meu celular. Uma rápida corrida ao banco e posso começar a trasladar o equipamento para a “laje”. Na verdade na sobreloja não existe uma Laje de fato. É bem pior que isto.... Vejam a foto que abre este post e imaginem a mão de obra que é se equilibrar sobre as telhas e não quebrar nenhuma.
                A derrota está planejada e é audaciosa. Incrivelmente e fugindo a tradição tudo acontece como um relógio...
                Utilizo a passagem de Acrux pelo meridiano para afinar o alinhamento polar. Mas apesar de não observar da Stonehenge dos Pobres há tempos aqui eu faço o alinhamento polar até “de ouvido”.  Assim as 17:44 tenho meu alinhamento polar feito. De dia ainda. É incrível como Acrux é visível de dia... 
                Agora é esperar alguns minutos para ter certeza que vou obter estrelas “boas” para o alinhamento do “go-to”. Já aprendi que dependendo de onde estarão os DSO´s que você pretende capturar é bom escolher estrelas guias para o seu Synscan (o Go-to de Mlle. Herschel) que “cerquem” a região. Utilizo quase sempre a opção de utilizar duas estrelas para isto. A opção três estrelas demanda os horizontes livres e isto é virtualmente impossível da maioria do s locais.  Nesta noite foram Antares a Arcturus as estrelas escolhidas. Se revelaram uma sábia decisão. Mlle. Herschel se comportou de forma brilhante durante esta curta noite. Todos os objetos buscados caíram dentro do campo de visão do sensor de minha câmera. Normalmente trabalho ao contrário. Primeiro localizo os objetos visualmente e depois os fotografo. Mas com o Synscan quase cravando tudo que pedia preferi fazer assim e garantir que o foco não tivesse que ser refeito para cada objeto. Mesmo com o “novo” focalizador cravar o foco é uma ciência inexata... Para que isto ocorra perfeitamente o ideal é utilizar uma estrela brilhante o suficiente para ser percebida no LCD. Mas na maioria das vezes esta estrela não existe no campo a ser fotografado e você precisa utilizar uma estrela mais distante marcar o ponto de foco no tubo do focalizador e depois pedir para que sua cabeça se dirija ao objeto desejado. Como nem sempre ela chega no ponto certo você tem que tirar ela do foco e focar para observação visual. Os DSO´s não chegavam exatamente centralizados mas chegavam sempre no canto inferior direito do sensor. Daí um mais uma ou duas fotos para ajustar e se resolvia tudo...
Antares 3200 ASA 30 Seg.

                Para marcar o foco utilizei Antares. Com uma exposição de 30 segundos e 3200 ASA percebo que que o alinhamento polar se não está perfeito está muito bom. Vai segurar 30 segundos ”na boa”. Mesmo porque o claro fundo de céu do Rio de Janeiro (ainda mais com a lua bem presente) não permitiria mais que isto mesmo... E de qualquer forma sem um sistema de acompanhamento e com 1200 mm de distância focal seria muita sorte aproveitar ao menos 25% das fotos com exposições mais longas que isto.  No momento não posso “tourar” US$ 300,00 no brinquedo. As coisas estão bem difíceis.
Como um teste fui visitar M4. Esta ao lado da estrela e é um alvo visual fácil. Mesmo distante ainda do twilight astronômico e com Copacabana já toda acesa atrás dos Morros do Cantagalo e dos Cabritos percebo o globular visualmente me utilizando de atenção e visão periférica.  Faço algumas exposições deste para checar o foco novamente e o ruído. Há bastante nebulosidade no ar, ainda está claro e a poluição luminosa se faz presente. Isto também se traduz em muito ruído. M 4 eu fotografo com apenas 20 segundos de exposição. M 4 apresenta esta espinha dorsal em seu centro que o torna um dos gobulares mais charmosos do céu. 
M4 -16X20 seg. +8 darks 2X Drizzle no DSS.  Nenhum tratamento adicional. 

                Sabendo que ainda é muito cedo arrisco escolher M 19 no comando de mão de Mlle. Herschel. Tiro uma foto e lá está o globular. No canto direito e abaixo do visor LCD. Um pequeno ajuste e poucas fotos depois percebo que existe muito ruído. Especialmente nos arquivos em RAW. Minha câmera permite capturar simultaneamente uma imagem em RAW e uma em Jpeg . Decido tentar baixar a ASA para 1600 e aumentar a exposição para 30 segundos. Melhora bastante.
M 19 -28X30 Seg.+16 Darks 2X Drizzle no DSS. Fitswork.

                Normalmente (sou um preguiçoso) só faço as capturas em Jpeg. Mesmo sabendo que vou conseguir extrair mais detalhes com o formato cru. Mas como atualizei meu Deep sky Stacker (3.4.4) e posso agora trabalhar em RAW sem ter que passar todas as fotos no Adobe DNG para trabalhar acho que daqui para frente passarei a utilizar as imagens sem compressão. Outra vantagem (esta inimaginável)) é que o processo de stacking se dá muito mais rapidamente utilizando-se arquivos em RAW em vez de Jpeg. Enquanto o Deep Sky Stacker (com o mesmo valor de threshold) detecta em torno de 17 estrelas em cada uma das fotos em RAW utilizando-se os arquivos gerados em Jpeg o programa contabiliza mais de 100. Desta forma a “leitura” dos dados para o processo de empilhamento se arrasta por mais de 30 minutos contra 3 ou 4 em RAW. Chego à conclusão que o DSS confunde estrelas com artefatos.... Quando chegam os resultados (especialmente de M 14) é definitivo. Nunca mais deixarei de fazer os registros em RAW. Ainda que para publicar as fotos seja inevitável a conversão.... Foi um massacre. Até mesmo o número de fotos aceitas pelo DSS foi muito maior com os arquivos em RAW.
                Tenho estado menos maníaco e alterado velhos hábitos. Atualizei o Câmera Raw do Photoshop, larguei o Chrome para utilizar o Opera e assim vai. Aliás tenho que fazer um elogio a este browser. Seu VPN “built in” é uma mão na roda e apesar de evitar o Pirate Bay tenho me conformado com os tempos de crise e utilizado praticas pouco ortodoxas para botar meu cinema em dia. Fora o fato que a qualidade da imagem na Netflix é muito ruim...
M14-35X30seg+ 16 darks Asa 1600 2X Drizzle DSS  -Fitswork

                Depois disto ainda falta M 14. Este bem mais tênue e difícil que M 19. Ainda baixo no horizonte (são 19:13 horas ainda) arrisco enviar Mlle. Herschel em seu encalço. E lá está ele. Discreto mesmo para o CMOS (tipo de sensor digital que equipa minha câmera).  Faço 38 fotos deste. Não creio que vá se resolver nem no empilhamento. Muito baixo no horizonte e ainda no bafo de luz da cidade. Percebo também uma leve névoa indo até alto no horizonte.
                Depois de tirar todas as fotos retiro minha câmera do telescópio e parto para inspeção visual destes dois novos amigos. M 14 é um espirito com a ocular de 25 mm. Uma daquelas coisas que recordam as reflexões de Spinoza sobre o existir. Mas está lá. Com muita visão periférica e hiperventilação. Depois M 19. Este bem mais material que seu colega. Com a 25mm ele está no limiar da resolução. Desconfio de algumas estrelas “flicando” na ocular com visão periférica e percebo uma modesta condensação com visão direta.  
                 Fico feliz com o resultado da rápida missão na Sobreloja. As 17:44 minutos estava com meu alinhamento polar pronto. As 18:21 tirei a foto de Antares. Cincos mais tarde estou fotografando M 4. As 18:42 tenho minha primeira foto de M 19 e as 19:46 a última de M 14. Pouco depois das 20:00 estou com todo o equipamento dentro de casa e posso ar atenção ao meu pequeno. Afinal já está há uma semana sem ver a mãe. E saindo assim cedo do telhado nem sou acusado de ser o tarado do Bloco B. Mas confesso que gostaria de ter feito um ataque também aos abertos entre Centaurus e Lupus. Não chega a ser preocupante. Eles devem permanecer por ali durante bastante tempo ainda...
                É incrível que se consegue fazer hoje em dia. Depois de algum processamento tenho estrelas resolvidas em M 14. Não achei que isto aconteceria. Acredito que se deu devido não só a uma captura de imagens um pouco mais caprichada (ainda que as pressas), utilizando uma ASA mais baixa do que costumo trabalhar (1600 em vez de 3200) e também um pós processamento mais paciente. A versão 3.3.4 do DSS á bem superior à anterior. Além de trabalhar com o RAW nativo da Canon (.CR2).  
                As duas fotos de M 19 abaixo foram submetidas a exatamente o mesmo tratamento. Foram empilhadas no Deep Sky Stacker, tiveram o gradiente de fundo reduzido no Fitswork, foram convertidas de Tiff para Jpeg no Photoshop e visitaram o Noiseware . A única diferença é que a da esquerda foi resultado das fotos capturadas em RAW enquanto a da esquerda foi vítima do Jpeg.  Por algum motivo (que desconheço) até o enquadramento é diferente...
Raw                                                                                                   Jpeg


                O revival da Stonehenge dos Pobres foi um sucesso. Em um daqueles raros dias que tudo funciona consegui a captura de dois DSO´s que podem ser considerados difíceis sob um céu Bortle 7/8. Especialmente M 14 foi uma grata surpresa. 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Ngc 5460 , Evolução e o PixInsight LE

   
    Estou lendo um livro bastante interessante. Seu título é auto explicativo. “ Sapiens: Uma Breve História da Humanidade”.  Seu autor ( Yuval Noah Havari) nos conta como nos tornamos a única espécie do gênero Homo que sobreviveu. E de como fomos, provavelmente, os principais responsáveis pela extinção e/ou absorção de nossos parentes mais próximos. A seu ver a principal razão de nosso “sucesso” evolutivo deu-se por uma revolução cognitiva. Encurtando uma história longa  (recomendo que leiam o livro. É bem escrito e pode ser bem mais realista do que muitos “Sapiens” gostariam de acreditar ou até mesmo acreditam) ele nos conta que ao redor de 2,5 milhões de anos surgiram os primeiros humanos (membros do gênero Homo) que evoluíram de um simpático grupo de primatas que atendiam pela alcunha geral de Australopithecus (perceberam o “ Austral” no início do nome? “Os macacos do Sul” são, de certa forma, os antepassados de todos que você conhece. Galileu, Newton, Herschel, eu e você). Avançando o filme chegamos a 150.000 anos atrás. Neste momento o sapiens já está estabelecido. Mas não era de forma alguma o rei do Pedaço. Existiam pelo menos seis espécies do gênero Homo dividindo a terra com ele. E todas elas ocupando um posto bem “mais ou menos” na cadeia alimentar. Comíamos basicamente tutano. Os leões, hienas e afins comiam a carne. Nós roíamos o osso. Mas como Mestre Nestor Capoeira já dizia: “Parece que para mim osso não foi tão ruim assim”.   
Pelos próximos 70 ou 80 mil anos as coisas não mudaram muito. O Homo Sapiens continuava habitando a África oriental e só. Mas aí algo aconteceu. 70.000 anos atrás esta espécie de humanos (sapiens) começou a se espalhar pela Península Arábica e daí para a Eurásia. Bem rapidamente. Curiosamente conforme estes iam se espalhando as outras espécies do gênero Homo iam perecendo.  Apesar de bases fosseis insuficientes algo aconteceu. O Mundo seguramente era habitado por quatro ou mais espécies do gênero Homo. Os últimos remanescentes do Homo denisova desapareceram há 50 mil anos atrás. Mais 20 mil anos e os Neandertais se juntaram a lista dos animais extintos. E o diminuto Homo floresiensis nos abandona há 13 mil anos atrás. Só sobramos nós, o Homo sapiens.
                O que teria acontecido por volta de 70 mil anos atrás que levou esta espécie especifica de humanos a proliferar enquanto as outra minguaram?
                O autor acredita que em um último ato evolutivo o nosso cérebro e as “nossas sinapses” começaram a funcionar de forma mais eficiente. A nossa linguagem deu um salto e isto nos fez mais eficientes fofoqueiros e mais curiosos que nossos primos. E voilá.... Olhamos para o céu e criamos constelações e mitos. A tal da revolução cognitiva que nos levará a topo da cadeia. Seremos os senhores das moscas....
                Depois disto, como dizem, é história. Mais alguns poucos milhares de anos e todo o registro da humanidade (agora composta apenas por Homo sapiens) vai ser registrado de forma escrita.
                Depois disto a curiosidade do Homo sapiens nos levou até Ngc 5460.
                Possuo diversos projetos observacionais em andamento. Tendo concluído o “Projeto Lacaille” iniciei diversos outros. O mais ambicioso destes e que habita mais o terreno das lendas que da astronomia está o “Projeto Tudo que Existe”. Apesar do nome ele consiste em tentar observar “apenas” todo o Catálogo NGC antes de partir para o infinito.     
                Em noite de lua (quase) cheia e sem maiores pretensões   olho para a tela de meu lap top e pinço Ngc 5460 no Stellarium. Um aglomerado aberto perfeito para o “Projeto Tudo que Existe”. Posteriormente ele se revela também membro do “Projeto Dunlop 100”. Este mais modesto e ao alcance do “Newton” (meu refletor de 150 mm f8) e composto por uma lista observacional organizada por Glen Cozens na qual se reúnem os 100 objetos mais interessantes observados por James Dunlop durante seu pioneiro levantamento de nebulosas do céu Austral realizado em apenas 7 meses de 1826.
                Ngc 5460 é um delicado e disperso aglomerado aberto localizado a cerca de 2o de Alnair (z Centauro).  Tendo escapado de Lacaille sobrou para Dunlop  esta bela presa capturada em 7 de maio de 1826.  Esta é a entrada 431 de seu catálogo:
                “ Uma curiosa linha curvada de pequenas estrelas, de magnitude quase igual; duas estrelas ao leste”.
                O próximo sapiens a vislumbrar esta pequena joia foi John Herschel:
                “ Uma região de grande, brilhantes, 8, 9 e etc.. magnitudes; um aglomerado bem disperso. Um grupo brilhante. Uma delas uma dupla de classe III. (h3555) ”
                William Herschel (pai de John) dividia estrelas duplas em 6 classes. As estrelas duplas de classe III apresentam uma separação entre 5´´ e 15´´ de grau.
                Ngc 5460 é classificado como um aglomerado (pelo sistema Trumpler) como II3m. Ou seja: um aglomerado que possui pouca ou nenhuma concentração central, destacado das estrelas de fundo e moderadamente rico.

                O aglomerado é perceptível mesmo pela minha buscadora (10X50mm) mas se torna mais charmoso conforme aumento a magnificação. Visualmente considerei o melhor resultado obtido pela minha ocular de 17 mm (70,5 X). Assim resolvo a estrela dupla central e ainda possuo um campo interessante emoldurando o aglomerado.  Utilizando a 10 mm (120X) a estrela dupla central é ainda mais charmosa e bem separada. Não posso deixar de recordar-me de Ngc 5281 também em Centauros. 5460 parece uma versão maior deste. É uma impressão apenas. Ngc 5281 esta quase ao dobro da distancia. 
                O aglomerado reside a 2.300 anos luz e com isto podemos calcular que se espalhe por 23 anos luz. Estudos recentes apontam para uma idade intermediaria. 160.000.000 de anos.
                O aglomerado é bastante estudado especialmente porque aglomerados próximos permitem a compreensão de mecanismos que “freiam” estrelas as quais giram muito rapidamente já assentando na sequencia principal. Esta rápida rotação se dá como resultado da conservação do momentum angular durante esta fase final de contração a caminho da sequência principal. ( D.Barrado e P. B. Byrne). Parecem existir mais de um mecanismo agindo para se obter o mesmo resultado. A massa das estrelas é certamente um fator importante e mecanismos diferentes podem agir em aglomerados de diferentes idades. A curiosidade do Sapiens a serviço da astrofísica não deve ter sido um diferencial contundente no processo evolutivo que levou a extinção das outras espécies do gênero Homo. Mas certamente é fruto da tal revolução cognitiva.  Estas estrelas não deixarão de rodar mesmo que não acreditemos que elas giram. Mas mesmo assim sabemos disto. Deve ser algo muito duro para alguns poucos Sapiens que em razão desta mesma revolução cognitiva criaram mitos como uma Terra com apenas 6 mil anos... tanto os mitos como a ciência parecem ter sido uma exclusividade de nossa espécie.

                Localizar Ngc 5460 é bastante simples. Em locais de pouca poluição luminosa será possível suspeitar do mesmo com a vista desarmada. Em locais mias ingratos localize z Centauro e ele estará dentro do campo da buscadora. Mesmo em áreas muito ingratas com a estrela centralizada e utilizando uma ocular wide Field será uma fácil busca nos arredores.
                Ngc 5460 foi ainda um campo de provas para a capacidade de processamento de diversos softwares para tratamento de imagem que possuo. A captura foi feita de forma estabanada. Como era noite de lua (quase) cheia o alinhamento polar fora feito por aproximação e como membro do “Projeto Tudo que Existe” (já vai ser difícil observar visualmente todo o Catalogo Ngc. Se ainda tiver que fazer fotinho bonitinha vai ser ...) fiz apenas umas poucas fotos após observar o aglomerado. Não tomei notas e imagino que o produto final seja o resultado de empilhamento de menos de 10 exposições com menos de 30 segundos cada. As fotos do Projeto ficam geralmente esquecidas até que eu as reencontre e resolva apresentar os aglomerados no Nuncius Australis.
Resultado com o PixInsight

                Excepcionalmente Ngc 5460 acabou sendo   utilizada como uma primeira experiência com uma cópia do PixInSight LE que obtive.
                É uma versão freeware do poderoso soft. Mas não posso negar que apesar da experiencia ter sido bastante limitada o Pix me pareceu uma versão mais poderosa do Fitswork. Pelo menos no que se trata de remover o gradiente de fundo e de melhorar o ruído. As fotos originais foram empilhadas no Rot n Stack (o que já demonstra a total falta de compromisso no momento de captura). O delicado aglomerado não é muito mais do que se vê nas fotos por aqui... A interface não é tão amigável mas mesmo tendo apagado mais estrelas do que devia no processo de subtração do fundo creio que consiga melhorar os ajustes com pratica e paciência. Não posso negar que além de estrelas ele removeu vários hotpixels Esta primeira experiência foi apenas um reconhecimento. Vou dar uma pesquisada e ver alguns tutoriais. 
Fitswork e PS

Espero agora o tempo limpar para poder fotografar os Globulares Messier que faltam para um outro projeto em andamento. Tendo atualizado o Câmera Raw do meu Photoshop e com o Pix a disposição aguardo o “Paradoxo de Newgear” e a Lei de Murphy colapsarem para testar as possibilidades das novidades.
Imagino já ter chegado ao final do livro até lá. Os capítulos finais tratam da “Revolução Cientifica”.
               
               
               

                

segunda-feira, 5 de junho de 2017

M 10 : Um Nobre Globular

     


          Em vias de terminar meu projeto de fotografar todos os Globulares do catalogo Messier resolvi organizar a papelada e percebi que diversos destes DSO´s que já havia registrado não possuíam entradas independentes aqui no Nuncius Australis. Em particular os residentes em Ophiucus (que juntamente com Sagitário reúne a maior parte destes). No último post apresentei M 12. Assim não poderia deixar de dedicar o mesmo tratamento a M 10. No moderno clássico “Turn Left at Orion” (o qual recentemente finalmente observei todos os objetos listados...) estes se aboletam na mesma apresentação. E em muitos textos são citados como aglomerados irmãos.
            M 10 também é uma descoberta original de Messier e foi observado uma noite antes de M12 e uma noite depois de M 9. Por alguma razão que a própria razão desconhece estes serão apresentando em ordem decrescente e na contramão da história por este que vos escreve...
            Messier nos conta: “ Na noite de 29 para 30 de maio de 1764, determinei a posição de uma nebulosa que descobri na cintura de Ophiucus, próxima a trigésima estrela desta constelação de acordo com Flamsteed (os numeros Flamsteed continuam sendo muito utilizado para identificar estrelas visíveis a olho nu nas constelações e são utilizados depois que se acabam as letras gregas). Tendo examinado esta nebulosa com um telescópio gregoriano com 104X de ampliação não via estrela alguma; esta é arredondada e bela, com um diâmetro de 4 minutos de grau.  Ela percebe-se dificilmente com uma luneta comum de um pé (33 cm) ... Eu marquei esta nebulosa sobre a carta da rota aparente do cometa que observei no ano anterior”
            Como já é um a tradição aqui no Nuncius Australis apresentarei a seguir as clássicas observações de M 10 realizadas pela família Herschel e posteriormente a observação feita pelo Admiral Smyth no que foi o mais popular guia observacional do século XIX (“The Cycles of Celestial Objects”):
            “ Um Aglomerado muito belo e extremamente concentrada e sem nenhum traço de nebulosidade” (William Herschel)
            “Um soberbo aglomerado de estrelas bem concentrado, gradualmente mais brilhante em direção a seu centro. As estrelas estão entre 10a e 15a        magnitude e se dirigem para um clarão em seu centro. Um nobre objeto” (John Herschel)
            “ Rico aglomerado de estrelas condensadas. Este nobre fenômeno é de um matiz branco lúcido levemente atenuado em suas margens e se concentrando como um clarão em direção a seu centro. ”
            Podemos perceber que Smyth sempre é muito influenciado pelas impressões de John Herschel. A quem idolatrava...
            Aprofundando um pouco as pesquisas chegamos a Lorde Rosse que possuidor do maior telescópio do período clássico da astronomia nos conta que “ o aglomerado possui uma linha escura acima de seu centro ou melhor no seu sexto superior o que o torna muito mais tênue que o resto do conjunto”.
            Autores mais atuais como O ‘Meara notam regiões mais escuras ao longo do halo externo de M10, mas nada como descrito por Rosse. Com menos aumento O ‘Meara nos diz que “ as estrelas do halo externo possuem um brilho azul gelado enquanto sua região mais central apresenta uma luz salmão pálida. Parece até um decorador de interiores descrevendo o aglomerado... este também considera M 10 um alvo facilmente percebido com a vista desarmada. Segundo ele basta se perceber 30 Ophiuchi com visão direta e nossa visão periférica irá perceber claramente M 10. Stoyan é mais modesto e diz ser possível perceber M10 a olho nu em céus excepcionalmente favoráveis.  Burnham em seu “Celestial Handbok” dedica alguma atenção a aglomerado.
            Observando com o Galileu (meu refrator 70 mm f13) ou com meu binóculo 15X70 mm não chego a resolver estrelas e me inclino a concordar em gênero, número e grau com a descrição original de Messier...
            Observando com o Newton (meu refletor 150 mm f8) resolvo estrelas na sua parte externa facilmente. O aglomerado cobre facilmente 8´de diâmetro e é bem mais evidente que M 12. Não percebo cor.  Na foto feita (pouco mais de 10 exposições de 30 segundos com ASA 3200. Este é um cálculo aproximado já que a foto foi realizada ha mais de um ano...)  não percebo a diferença de gradiente descrita por Rosse, mas as regiões mais escuras são evidentes. Estou mais a concordar com Stoyan e acreditar que M 10 seja viável a olho nu no Atacama. Ou no semiárido. Estive em uma fazenda próxima a Ibotirama há alguns anos e o céu era impressionante. Mas mesmo assim somente para olhos treinados e sóbrios...
            A distância de M 10 é alvo de certa discordância entre os diversos autores. O ‘Meara nos dá modestos 14.300 anos luz. Já o mais antigo Burnham nos apresenta várias opções; Shapley (1933) o leva a distantes 33.000 anos luz. Kimnan o considera mais proximo que M13 e o situa a 16.000.  Já Sawyer (1963) aposta em 22.000 anos luz. Atualmente e depois do Hiparchos a distância aceita é de 24.750 anos luz (Stoyan). Seu tamanho é de 140 anos luz.
            Detalhados modelos dinâmicos “preveem” um colapso do núcleo de M 10 em alguns bilhões de anos. Isto vai levar a uma extrema concentração estelar em seu núcleo e mudar sua aparência. Algo me diz que surgirão mais estrelas variáveis que as poucas registradas até agora.

            Localizar M10 é basicamente localizar 30 Ophiuchi. Em locais escuros muito fácil. Na cidade parta de Zeta Ophiuchi e localize 30 com auxílio de uma buscadora ótica. O aglomerado se apresenta para uma buscadora 10X50 mais facilmente que M 12 logo ao lado.... De céus suburbanos (Bortle 6) é bem fácil. Na cidade grande é possível...


            Aproveite proximidade de M 12 para perceber como globulares são diferentes entre si. Este não só não sofrerá colapso de seu núcleo como poderá acabar se dissipando devido à baixa densidade de seu núcleo e da proximidade do núcleo galáctico.