domingo, 17 de julho de 2016

Ngc 4755 - A Caixinha de Joias

          
             Em sua única e magna obra ( The Burnham´s Celestial Hanbook) Robert Burnham jr. ,o cavaleiro da triste figura astronômico, nos apresenta logo na introdução  a mais poética e precisa descrição da astronomia em geral e da astronomia amadora em particular que seria possível ser realizada em tinta e pena.
            "  Se a astronomia é a mais antiga das ciências , certamente a astronomia amadora tem o direito de clamar o título de " o mais antigo dos hobbies científicos". Ninguém pode precisar  a data que a astronomia se iniciou- podemos apenas dizer que a fascinação dos céus é tão velha quanto a habilidade do homem pensar ; tão antiga quanto a capacidade deste se maravilhar e sonhar. E na companhia com os maiores encantamentos da vida humana , a astronomia tem um apelo único que é incomunicável mas facilmente compreendido com a experiência direta... "
               "...  O charme da astronomia é simultaneamente estético e intelectual; ela combina a 
emoção da exploração  e  da descoberta  , a diversão da observação , o puro prazer do conhecimento
 em primeira mão de  maravilhas e de coisas maravilhosas. 
Mas também oferece o privilégio , que não deve ser levado com o animo leve,  de estar contribuído 
para o saber e o conhecimento do  homem".


            Ao ler estas palavras não posso deixar de me lembrar da primeira vez que avistei Ngc 4755 , A Caixinha de Joias ( assim batizada por John Herschel) ao montar pela primeira vez meu primeiro telescópio.
            Todo desajeitado e apanhando de um cabeça equatorial EQ1 eu nervosamente buscava confirmar minha teoria que com o uso de um telescópio ( e portanto podendo ver coisa que antes não podia...)  eu confirmaria que as estrelas que eu achava que estava olhando eram elas mesmas. Eu já sabia diferenciar o Cruzeiro do Sul( Crux) do Falso Cruzeiro. Mas como São Tomé eu precisava ver para crer. E com Ngc 4755 logo abaixo  de Mimosa ( Beta Crux)  me parecia ser um fácil e bom começo em meu experimento. Lutando para me entender com a buscadora ( que me parecia uma invenção de Lewis Caroll em noitada de rock  e  sido importada de dentro do espelho de Alice) eu finalmente  enquadrei a Mimosa. Dela e com uma ocular Kelner ( bem tabajara) de 20 mm cheguei até meu destino. Imediatamente entendi o que estava vendo. Ainda que não fosse em nada semelhante as fotos que possuia em meu ( na época) único guia astronômico eu imediatamente tive certeza de onde estava e compreendi claramente as palavras de Burnham: "  ... , a astronomia tem um apelo único que é incomunicável mas facilmente compreendido com a experiência direta...
            Tinha concluído um dos ritos de passagem fundamentais para um astrônomo amador  abaixo do equador. Eu tinha certeza de quem era o Cruzeiro e de quem era o Falso. A presença do Apontadores do Cruzeiro (Alpha e Beta Centauro) não bastavam para sossegar minha alma. Agora a Caixinha de Jóias e seu formato triangular com um coração vermelho (a estrela CD59 4459) e que recorda muito o simbolo "anarquista"   me davam profunda paz de espirito...
            Tendo concluído a observação e registro fotográfico de todo o Catalogo Lacaille me vi na obrigação de realizar um post dedicado a um dos mais icônicos DSOS austrais.             Como nunca realizei uma foto que achasse a altura de tal tarefa o post sobre o primeiro DSO que observei foi ficando para trás. Na verdade acho que nunca farei uma foto de Ngc 4755 que supere a impressão deste primeiro avistamento. Mesmo que registre mais estrelas , mais cores e mais tudo o prazer e o susto que levei na primeira vez que estive de frente ao original jamais serão superados por um registro que não for realizado pelo meus próprios olhos. A Caixinha de Joias é um daqueles DSOs que , para mim, são alvos visuais por excelência.  O Catalogo Lacaille é repleto deles...
            Já é evidente que o primeiro homem a registrar a existência de Ngc 4755 foi Lacaille.  É a décima segunda entrada na segunda categoria ( aglomerados estelares nebulosos)  de seu catalogo e registro mais antigo é Lac II 12.
Esta é uma unica exposição realizada com o Galileu ( um refrator de 70 mm f 13)

            Seu registro não pode ser chamado de prolixo:  " Cinco a seis estrelas entre segunda e sexta magnitude"
            Posteriormente Dunlop também nos dá noticias de 4755 mas ainda não canta todas as suas maravilhas embora destaque que o que seria Kappa Crucis é na verdade um aglomerado: " k Crucis...são cinco estrelas de 7a magnitude  formando uma figura triangular, e uma estrela de uma esttrela de 9a magnitude entre a segunda e a terceira
            Cheia de apelidos 4755  é também chamada de o Aglomerado de Kappa Crucis devido a seu mais brilhante membro ( mas não o mais belo). É um brilhante e lindo aglomerado aberto e se destaca entre ( sendo repetitivo , mas é inevitável)  as joias da coroa austral. O tratamento de Caixinha de Joias deriva das palavras de Sir John Herschel nas quais ele diz que sua visão produziu nele a impressão de uma soberba peça de joalheria. Em sua primeira descrição ele já revela seu encanto : "  A estrela central ( extremamente vermelha. O mais vivido e belo aglomerado de 50 a 100 estrelas. Entre as maiores existem uma ou duas evidentemente esverdeadas; ao sul da estrela vermelha existe mais uma de 13a magnitude também vermelha e acima uma azulada". Ao longo da história rubis e esmeraldas são figuras comuns na descrição de Ngc 4755. Um mistura encantadora de geologia com astronomia...
Suas estrelas mais brilhantes são super gigantes e incluem algumas das mais luminosas estrelas conhecidas em nossa galaxia. Seus 50 ( ou quase isto) membros mais brilhantes estão comprimidos em 10´ de diâmetro aparente. 25 anos luz de espaço. O conjunto completo ocupa cerca de 50 anos -luz... ( segundo Burnham) Livros  mais recentes ( O´Meara) falam em 240 membros em  14 anos luz ( o 10´de diâmetro continuam os mesmos. O aglomerado se aproximou de nós...Atualmente localizam-no a 4900 anos luz contra 7500 nos tempos de Burnham ).Quase todas  estrelas mais brilhantes são  do tipo B.


            Fotografei Ngc 4755 diversas vezes. Confesso que não gosto de nenhuma das fotos... Embora sejam registros honestos nunca me pareceram chegar perto de prazeres que obtive junto a ocular. Especialmente com o Newton ( um refletor de 150 mm f8) com aumentos entre 60 e 120 X.   Visualmente o aglomerado se revela de diferente formas e emoldurado de diversas maneiras. E o colorido ( estranhamente me parece mais vivido e real que nas fotos ) é mais agradável .  Espero um dia retornar e fotografa-lo com mais delicadeza. Acredito que talvez devido a sua beleza natural nunca tenha me dado ao trabalho de fotógrafa-lo "by the book". E assim a difícil arte não se faz arte...  Os resultados podem ser vistos ao longo do Post. As fotos foram realizadas ao longo de anos e com os mais diversos equipamentos. Confesso que o que foi feito em cada uma delas se perdeu no tempo

terça-feira, 12 de julho de 2016

Ngc 4608 e 4596 : "The Rho Twins"

               

            Sempre que vou falar de galaxias me lembro da longa história que nos levou até o entendimento do que ,por alguns momentos históricos, foi chamados de Universos Ilhas.  É importante fazer uma autocritica quando achamos engraçado que os antigos não soubessem do que se tratavam o que então se chamava de nebulosas espirais. Os telescópios do Seculo XIX não tinham poder de fogo para resolver estrelas em estes distantes universos. E assim supor que eles apenas eram nebulosas dentro da própria via láctea não parecia ser o absurdo que sabemos ser hoje. Nenhumas das velas padrões ainda haviam sido descobertas (pelo menos não com esta utilidade...) e as distancias para as galaxias mais próximas já é suficiente grande para parecerem impensáveis em um universo na época ainda estático.            
                O conhecimento destes seria semelhante ao dos atuais defensores de ideias como a terra plana, a terra oca e a terra jovem. Como disse Simenon :  "Uma pequena ilha em um vasto oceano de desconhecimento".
                Mesmo assim alguns visionários parecem ter percebido a natureza destas nebulosas de uma forma quase profética. Kant e antes dele Giordano Bruno pareciam já ter entendido a escala do universo e suas estruturas de uma forma futurista.
                Quando penso em universos ilhas e o caminho para seu entendimento sempre me ocorre o Aglomerado de Virgem. O Maior aglomerado galáctico em nossas plagas de universo.
                Visitar o mesmo é um desafio para os astrônomos amadores. especialmente os iniciantes. São centenas de galaxias e sem muitas estrelas por perto navegar pelo aglomerado é mais um exercício de "galaxy Hopping" que de "star hopping".

                Phill Harrigton em seu "Star Watch; The  Amateur Astronomer´s Guide to Finding, Observing and Learningabout over 125 Celestial Objects"  no conta muito sobre o aglomerado de Virgem. Na verdade ele o batiza de Aglomerado de coma Virgo já que este se espalha por entre as constelações de Virgem e Coma Berenice ( A Cabeleira de Berenice). Localizado a uma distancia média de 60 milhões de anos luz é o mais próximo grande aglomerado galáctico em relação ao nosso grupo local. Nós mesmos seriamos habitantes marginais desta imensa estrutura. Isto implicaria que apesar de estarmos nos afastando da maioria das galaxias no aglomerado a gravidade destas ( em um futuro distante) iria reverter este quadro e nós iriamos acabar por nos unir ao mega aglomerado.
                Harrigton nos alerta logo no inicio de seu texto que apesar de ser , teoricamente , possível observar todas as galaxias Messier no aglomerado com binóculos 10X50 mm estes não são alvos para os novatos . Ele recomenda que o novato desenvolva suas técnicas observacionais  com objetos Messier mais acessíveis antes de tentar tal empreitada. Mesmo com pequenos telescópios a maior parte das galaxias será um alvo discreto e em muitos casos alvos quase estelares.
                O que acho interessante no texto de Harrington é que ele aborda o aglomerado com um único alvo. E não galaxia a galaxia. Em seu projeto ele estabelece duas campanhas para se observar o aglomerado. Uma se iniciando o ataque a partir de oeste e outra escaramuça a partir do Leste.      
         
                Seguindo sua estratégia mas não sua tática apresento uma saída diferente para a campanha  do leste. Da mesma forma que  Harrington  iniciamos a campanha sem ser por objetos Messier. Mas enquanto este aposta em Vindemiatrix e Ngc 4762 ( um dos objetos não Messier mais brilhantes no aglomerado)  eu prefiro  iniciar  partindo de Rho Virgem e do que batizei de " The Rho Twins" ( em inglês mesmo pois me pareceu mais musical e me lembrou do Twisted Sisters...) . Ngc  4608 e 4596  formam um par de galaxias que habitam o mesmo campo que Rho Virginis. Como localizar Rho Virginis e sua parceira 27 Virgo ( GG Virgo) em uma área pobre em estrelas mais brilhantes é moleza mesmo em céus com alguma poluição luminosa nossas gêmeas são um excelente inicio para seu ataque ao aglomerado.  Visualmente são semelhante e apesar de pequenas apresentam um brilho de superfície amigável e que as revela sem maiores esforços mesmo com pequenos aumentos. Utilizando Minha 40 mm e com Rho em quadro as duas são notadas como esfuminhos mesmo com visão direta. 
                Apesar de sua aparente semelhança as gêmeas não são univitelinas e tem diferenças .  Ngc 4608 é um daqueles objetos quiméricos que se tornam cada vez mais comuns em classificações galácticas. Um interessante trabalho realizado por pesquisadores da USP nos apresentam Ngc 4608 como uma galaxia barrada sem disco. Isto a colocaria como um estranho no ninho. Sua classificação normal é de galaxia elíptica. ( SB0). Mas neste estudo ( e em alguns outros estudos com outras galaxias de morfologia semelhante) parece que nem tudo é o que parece ser . E assim é possível que galaxias elipticas possuam estruturas barradas "escondidas" em meio a suas estrelas. (http://iopscience.iop.org/article/10.1086/368159/pdf)

                Já Ngc 4596 é uma espiral barrada clássica (SB0-a) e assim com a anterior foi uma descoberta de  William Herschel  em 15 de março 1784.  São galaxias discretas e que não adentraram nenhuma lista famosa como os "400 de Herschel" ou outros . Mas sua composição com Rho Virgo e GG Virgo é um adorável campo estelar e uma fácil porta de entrada para o aglomerado de coma Virgo. A Partir destas acessar o coração do aglomerado junto a M 86 e m 84 é um pequeno passeio e facilmente realizável junto a ocular.  

segunda-feira, 27 de junho de 2016

M 64- A Galaxia do Olho Roxo

         
                      O termo ícone sempre teve grande relação com a religião. No seu sentido mais comum ele é representação de um santo. Com o alvorecer das ideias o conceito tomou um significado mais amplo e pode ser definido como: " O ícone é algo que se caracteriza por estabelecer uma relação lógica e visual entre o significado e o significante. Um bom ícone guardará uma espécie de parentesco entre o representante e  o representado e , de certa forma, lhe remete algum tipo de semelhança que torna fácil de entender a relação e possibilita perceber o simbolo embora se veja este pela primeira vez."
                M 64 é um DSO icônico. Mesmo em um primeiro encontro e utilizando um instrumento ótico pequeno rapidamente se percebe o "olho roxo".
                Segundo a história a relação não se deu tão rapidamente assim. Mas como a qualidade óptica dos aparelhos melhorou muito desde o começo de nossa história tudo que foi dito acima pode ser levado a sério.
                M 64 foi descoberta diversas vezes em um curto espaço de tempo. Entre 23 de março de 1779 e 1 de Março de 1780 ( portanto pouquinho menos de um ano...) ela foi registrada 3 vezes por três astrônomos diferentes. O primeiro d foi Edward Piggot , o segundo Ellert Bode e o terceiro Charles Messier. E como na canção infantil " o terceiro foi aquele a quem ela deu a mão" e que acabou por batiza-la. Ou quase.
                Poucos anos depois ela ganha seu apelido das mãos de William Herschel:
                " 13 de Fevereiro de 1787 ( Sw. 699) Um objeto memorável , mE ( "muito alongado") com cerca de 12´ de comprimento com 4 ou 5´de largura contém um ponto "Lúcido" com um pequeno arco negro logo abaixo que nos dá uma ideia do que é chamado de "olho roxo" e que advém de um luta."
                Nasce M 64 , a Galaxia do Olho Roxo. ( Black Eye Galaxy , em inglês).

                Para localizar M 64 você deve partir de Alpha Coma e seguir até 36 Coma. Depois seguindo rumo noroeste localize 35 Coma . M 64 estará muito perto e possivelmente dentro do mesmo campo ocular de uma ocular 25 ou 30 mm.    
                Utilizando uma buscadora de 9X50 mm ou um binoculo 10X50 a galaxia de 8a magnitude estará ao seu alcance em céus relativamente escuros e para olhos já treinados. Será como uma pequena condensação de luz  oval com um centro levemente mais brilhante. Use visão periférica e paciência.
                No Newton ( meu refletor de 150 mm f8) com 48 X de aumento rapidamente percebo o mesmo brilho oval com um núcleo bem mais brilhante e levemente fora do centro. Com cerca de 100X de aumento o hematoma começa a se tornar aparente e com o uso de visão periférica bastante óbvio.

                Atualmente é aceito que M 64 esteja a apenas 19 milhões de anos luz de nós. Mas ha controvérsias e certos autores a colocam a mais de 40 milhões. Pelos valores atuais a galaxia possui um diâmetro real de aproximadamente 50 mil anos luz.
                Uma das maiores peculiaridades de nossa galaxia é que a faixa de matéria escura que a apelida é também uma especie de zona fronteiriça que separa a galaxia em duas. A parte interna do núcleo possui cerca de 6000 anos luz e gira na direção oposta a parte mais externa. A razão mais aceita para isto é que seja resultado de uma colisão cósmica onde uma galaxia menor ( matéria prima para o "hematoma") foi absorvida por outra maior e que este processo ainda se encontre em fase de assentamento.
Quase um desenho. Foram utilizadas varias camadas e pincéis sobre a foto original . O Photoshop é um programa poderoso e sem a menor vergonha... 


                Realizei diversas ( poucas...) fotos de M 64 de forma apressada no ultimo mês. O registro se não bom é bem fiel ao que se pode perceber pelo Newton depois de muito esforço. Espero poder realizar um registro mais organizado e com tempo de um alvo que tem forte apelo visual. Como disse:  um  DSO icônico...   

domingo, 19 de junho de 2016

Ngc 3228 ,o Duelo Halley - Lacaille e os Pubs Ingleses

             

           Ngc 3228 é um daqueles DSO´s feitos para pequenos telescópios e pouca ampliação. Descoberto por Lacaille  com uma minuscula luneta de 15 mm com 8X de aumento é uma prova da competência visual do Abade.  Em seu catalogo publicado em 1755 esta é a entrada Lac II. 7 .  Sua categoria II nos revela que ele percebeu nebulosidade entre suas estrelas. O incrível feito foi resolver algumas estrelas com tão modesto equipamento...
                "  Um " ajuntamento" de  4 ou 5 estrelas , bem pequeno e bem comprimido".
                Seguindo a tradição do céu austral ele foi posteriormente observado por Dunlop  e este acrescenta e resolve mais alguns membros  em 3228.
                Dunlop nos diz que o aglomerado é "11 Roboris Caroli".  Ou seja ele nos diz que Halley tinha percebido 3228 antes de Lacaille . Mas não sua verdadeira natureza. Ele teria incluído este como uma das estrelas da natimorta constelação de   Robur Carolinum , o carvalho de Charles . Esta se referia ao Carvalho ( uma arvore) que Charles II teria se escondido durante a batalha de Worcester. "O Carvalho Real" ( The Royal Oak).  Charles era patrono de Halley e a homenagem garantiu o seu mestrado.
                Lacaille achava que a constelação criada por Halley desfigurava a grande e antiga constelação de Argo Navis. Em mais um capitulo da rixa entre ingleses e franceses Ngc 3228 acabou por lutar junto aos franceses.  Lacaille resgatou as estrelas roubadas por Halley do navio dos argonautas desmembrando a gigantesca constelação em suas partes e assim nascem Popa , Vela e Quilha e o "Royal Oak" é cortado e se transforma no mastro da constelação de Vela.  E com já falei a estrela 11 da constelação de  Halley vira Lac II 7. 
7X30 segundos ASA 3200 -3X Drizzle no DSS e levels no photoshop.  O alinhamento polar foi feito depois de vistar alguns pubs...
                Ngc 3228 é realmente um pequeno aglomerado que possui pouco mais de 20 membros e localiza-se a 1600 anos luz do sol. Se espalha por modestos 2 anos luz de galaxia.  Suas estrelas nos indicam uma idade de cerca de 40 milhões de anos.


                Localizar Ngc 3228 é um pouco mais difícil do que sua magnitude 6.0 pode levar a supor.   Mas partindo-se de Kappa Velorum utilizando um binoculo ou sua buscadora  ( a estrela mais ao norte do asterismo do falso cruzeiro ) você irá facilmente localizar  a leste - Nordeste a estrela de 3,5 magnitude Phi Vellorum.  Seguindo pouco menos de um campo ( 40) para nordeste você vai se deparar com um pequeno asterismo que recordara o aglomerado de Omicron Vellorum ( O aglomerado da Pequena Cassiopéia) com estrelas em forma de  W ( ou M)  que terá Ngc 3228 aos seus pés. Como nos conta O´Meara irá parecer como uma pequena caixa de joias aos pés da falastrona Rainha da Etiópia ( Cassiopeia) . Isto nos leva até  pomposo apelido do aglomerado na língua Inglesa , The Queen´s Cache Cluster . A tradução é ingrata e nos daria algo como o Aglomerado da Caixa da Rainha... 



                Quanto à nomes parece que o "Carvalho de Charles"  de Halley continua envolvido em controvérsias. Segundo a British Beer and Pub Association (BBPA)  "The Royal Oak" é  o segundo nome mais comum para um  pub na Inglaterra. ( 626 pubs) . Segundo a CAMRA ( Campaign for Real Ale) este é o terceiro (541).  Red Lion é o nome mais comum. 

terça-feira, 7 de junho de 2016

Ngc 4697- Uma Galaxia na Margem Sul de Virgem"

     
   
        Ngc 4697 é  um alvo galáctico dos mais interessantes. Com um brilho de superfície considerável é um alvo fácil e que foge das mais manjadas galaxias Messier no Aglomerado de Virgem. Residindo próxima a Galaxia do Sombreiro ( M 104) nas margens ao sul do conjunto eu nunca tinha ouvido falar da mesma. Mas em uma noite em que lutava contra nuvens e com o auxilio do Stellarium percebi que ela se encontrava em um vazio propicio para um ataque e sendo a entrada 52 do Catalogo Caldwell ( C 52)  deveria ser acessível ao Newton , meu refletor 150 mm f8 .  Com o auxilio de Mme. Herschel ( uma cabeça equatorial HEQ 5 pro da Skywatcher)   eu rapidamente a localizo.  Na noite enevoada  eu estava caçando   estrelas duplas e já me encontrava em Porrima . Mme. Herschel oferece sempre "tours" temáticos no Synscan ( uma especie de computador de bordo) . Estes podem ser "Deep Sky", "Estrelas Duplas" " Estrelas com Nomes " e etc.. Desta forma já havia visitado varias das duplas que se apresentavam no céu. Como já falei vislumbrei a possibilidade de ver C 52. Logo ao lado...
                C 52 é visível , de forma discreta , na minha buscadora. E com o "go-to"  em um dia bastante preciso localiza-la foi "mamão".   

                Trata-se de uma galaxia que assim como nossa ultima convidada ( C 53, The Spindle Galaxy)  no Nuncius Australis habita uma zona fronteiriça na classificação Hubble de galaxias. É uma Galaxia Elíptica ( E 6) quase lenticular ( S0) . Justamente o oposto da nossa ultima convidada. É um interessante exercício compara-las e chegar a suas próprias conclusões. Eu concorda com a maioria e acho que  C52 é uma elíptica (E6) e C53  é uma lenticular pura (S0).
                De qualquer forma Ngc 4697 é  considerada por vários autores uma especie de hibrido. Tanto lenticulares como elípticas podem apresentar um formato de lente mas elipticas puro sangue não apresentam sinais de bojo central , disco ou braços. Uma galaxia elíptica é simplesmente  uma concha  ovalada de antiga luz estelar e cercada de uma vasta coleção de globulares com luz estelar tão ou mais antiga que a mesma. Galaxias elípticas não apresentam grandes ( as vezes nenhuma)  quantidades de gás ou poeira e assim já fecharam ou ao menos diminuíram quase completamente a produção de novas estrelas.  Suas estrelas se concentram em direção ao seu centro ( reparem que não falei núcleo) e sua população é dominada por  estrelas de baixa massa. Como a produção estelar já foi encerrada  estrelas de grande massa já "fumaram" todo seu hidrogênio , Helio e o que mais puderam , partiram para o infinito e viraram constelação.
                Herschel percebeu esta concentração central em Ngc 4697:
"[Observado em24 de Abril de 1784] Muito brilhante , muito grande , repentinamente muito mais brilhante em direção ao centro. Núcleo resolvível. ( H I-39)"
Trabalhada no Photshop e Fits

                Herschel parece ter tido a ilusão de resolver estrelas em seu núcleo. Com a galaxia a 76 milhões de anos luz de nós não só é pouco provável que isto tenha acontecido como é impossível mesmo. Mas perceber uma certa "granulosidade" em galaxias elípticas é um fenômeno comum a diversos observadores e eu mesmo tenho esta impressão em diversas elípticas que já observei. M 87 é um caso extremo deste efeito.  Embora eu não saiba a causa ( acho que ninguém...) acredito que possa ser um efeito dos milhares de globulares passeando ao redor destas. O´Meara prefere acreditar que este efeito seja efeito de estrelas de campo muito fracas que se interpõem sem se revelarem. Quase como uma daquelas coincidências que nada tem a ver com as leis fundamentais do universo.
                Recentemente li uma frase atribuída a Einstein de que "coincidências são a forma que Deus encontrou para permanecer no anonimato". Em rápida pesquisa não descobri nada que prove a existência ou não de Deus nem nenhuma coincidência suspeita. Mas descobri que a frase não é de Einstein e que ele nada tem com isto.  Na verdade a frase passou a ser atribuída ao mesmo com o fenômeno das redes sociais a partir do anos 2000 e sua primeirara aparição foi rastreada até uma pagina adventista. A citação original e que parece ter levado a toda esta história remonta à 1777 ( portanto anterior a descoberta de Ngc 4697) e foi dita por Horace Wallpole: " O que é chamado de coincidência é um instrumento da Providência".
                Ngc 4697 é o primeiro objeto no Catalogo Caldwell localizado ao sul do equador celeste e carrega a enorme honra de ser a única galaxia do catalogo localizada em Virgem. Não me parece uma coincidência . Soa mais como milagre...

                A galaxia é realmente bem brilhante e facilmente acessível a binóculos. Não espere muitos detalhes. Partindo-se de Porrima existe uma corrente de estrelas de aproximadamente 6a magnitude direcionada praticamente norte sul. Com a ultima destas estrelas em campo nosso alvo estará a menos de 40´ a nordeste. 

RnS no Modo Pop Art

                Algum brilho pode ser percebido no setor norte da galaxia. Grandes telescópios podem perceber o que parece se uma estrutura como um disco escondida dentro da galaxia dita elíptica. Há hoje em dia alguns indícios que em meio ao caos das orbitas em galaxias elípticas é possível que existam estruturas inobserváveis e que esconderiam discos e braços onde estes não deveriam existir. A classificação de galaxias e sua morfologia é como boa ciência um objeo em evolução.
Um único frame 30 segundos 3200 asa

                Ngc 4697 apresenta um diâmetro aparente de 7 ´X6´ que demostra bem sua elipsidade. ( Varia de E4 até E6 dependendo da fonte) . Isto representaria uma impressionante esfera amorfa com mais de 150.000 anos luz de antiga luz estelar...

                Um belo, interessante e "fácil" alvo galáctico para possuidores de quase qualquer equipamento óptico.   

IC 2602- As Plêiades do Sul

         

                IC 2602 é a entrada mais popular do Index Catalog. Este é o irmão caçula do famoso New General Catalog organizado por Dreyer e que reuniu e organizou todo o trabalho realizado pelo time de pai e filho dos Herschel , Messier e todos os outros conquistadores do inútil que buscaram por nebulosas até o ano de 1988.Neste ele reuniu 7840 entradas.  O Index Catalog foi o primeiro puxadinho sobre a imensa mansão e foi concluído em 1895 e teve ainda mais um anexo incluído em 1905.  Juntando-se ambos  se reuniram mais 5386 objetos astronômicos.
                IC 2602 é uma descoberta original de Lacaille e foi incluído por este em seu catalogo de Nebulosas sobre os céus austrais publicado em 1755. Foi ele que acabou por  dar ao aglomerado seu muito apropriado nome de " As Plêiades do Sul". Lacaille destripou a finada constelação de Argo Navis (o navio dos Argonautas) . Mas preservou suas partes. Asim surgiram as modernas constelações de Puppis ( Popa), Carina ( Quilha) e Velorum ( Vela). Pela descrição feita de IC 2602 ele registrou esta maravilha antes de convocar os marceneiros...
" 10:34:15, -63:06:16  Lac II.9 -A estrela Theta Navis, de terceira magnitude ou menos, é cercada por um grande numero de estrelas de sexta , sétima e oitava magnitude, as quais recordam as Plêiades".  
                A categoria II do Catalogo Lacaille  reúne o que ele considerava aglomerados  nebulosos.
                Atualmente Theta Carina é o nome da  estrela mais brilhante de nosso aglomerado e facilmente observada a olho nu de qualquer local no hemisfério sul. É uma das mais evidentes nebulosidades no rico campo da Via Láctea que sobe rumo a o Cão Maior e forma a chamada "Linha Magica" do mitológico catalogo JESS de Objetos Estelares. Quantas estrelas você será capaz de resolver no aglomerado vai depender exclusivamente de sua acuidade visual. Com certamente mais de 60 membros verdadeiros e cobrindo cerca de 100´ é um alvo evidente para o observador austral.
                IC 2602 é um aglomerado muito jovem e queimou seus casulos a cerca de 30 milhões de anos. Diversos de seus membros se encontram em estágios pré-sequencia principal. Sua origem remonta a já famosa associação OB de Scorpius -Centaurus e diversos parâmetros em sua população a ligam ao já citado aqui pelo Nuncius Australis Cinturão deGould.  Sua idade as colocam como irmãs mais jovens de sua contra parte boreal. Tem cerca da metade da idade das Plêiades. Um dos indicios mais fortes desta juventude é a velocidade que seus membros giram. Alguns de seus membros completam um giro em menos de 0.2 dias ( um dos períodos mais curtos conhecidos para estrelas de aglomerados). EM membros de massa mais baixa ela se aproxima muito com os modelos previstos e com membros de suas irmãs mais famosas.
                A distancia mais aceita para IC 2602 é de 390 anos luz. Mais distante que as Originais em mais de 80 anos luz. Porém tem um tamanho físico quase igual. 14 anos luz.
Theta Carina 

                Ao observar IC 2602 eu noto dois subgrupos envolvidos . Uma linha onde Theta Carina se destaca como uma espécie de zagueiro central e a frente um grupo que mais parece uma gravata borboleta . Segundo a analise feita pelo Astrometry algumas destas estrelas do segundo grupo são invasores de campo e não membros reais.
                As Plêiades do Sul são um grande alvo para observar-se de binóculos e pela buscadora. Mesmo tendo a visitado centenas de vezes nunca tinha dedicado um post especifico a elas . Provavelmente por nunca ter conseguido um enquadramento decente para nossas damas. Finalmente achei que tinha chegado perto. 


                A fim de garantir um retrato justo achei de bem incluir uma outra foto fruto de um crop e um drizzle que foi realizado com uma zoom 70-300 mm e que cobre uma grande área na região e apresenta bem uma das mais belas e dinâmicas regiões da Via Láctea Austral.


                IC 2602 foi um daqueles DSO´s que "descobri". Logo nos primórdios de minhas observações possui um imenso binoculo de 80 mm com zoom e lentes "vermelho cromo coated". Com ele fui inspecionar a obvia nebulosidade e pronto... Tinha certeza que havia achado algo interessante. Sempre volto.  

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Ngc 3115- A Galaxia do Fuso


            Ngc 3115 é uma das mais interessantes galaxias ao alcance de pequenos telescópios. Com um brilho de superfície alto ela se destaca mesmo com modestos binóculos.  Mas ao habitar a obscura constelação do Sextante ( Sextans) ela muitas vezes é esquecida pelo amador.  Não foi por acaso que Messier não inclui em seu famoso catalogo. Ela não é muito mais ao sul que a Nebulosa de Órion e nem sequer alvo tão difícil como diversas galaxias que Messier descobriu.  E ainda é uma galaxia próxima a eclíptica tão vasculhada por nosso caçador de cometas.  A maior possibilidade é que Messier tenha deixado escapar o vazio onde reside Sextans como a maior parte dos observadores.  Mesmo lembrando que a galaxia não passeia alta pelos céus de Paris.
                Coube a William Herschel em seu muito mais organizado levantamento localizar Ngc 3115.  Ele a registrou em 23 de abril de 1787. " Extremamente brilhante , consideravelmente grande,muito extensa , 45o com o sul precedendo e o norte seguindo [de sudoeste para nordeste] Possui um núcleo brilhante 2´longo. Fraco ( braço?) 5´longo ( H 1-163)"
                O Adm. Smyth em seu "Cycles" nos conta ainda que Herschel observou a galaxia também com seu  telescópio de 20 pés com o diâmetro reduzido a apenas 150 mm de abertura. Sob estas condições perceber a galaxia era bem mais difícil. Rapidamente percebo que o '"Newton" ( meu refletor de 150 mm e f8) possui uma óptica bem superior ao espelho  de Herschel.  Smyth com seu refrator de 150 mm percebia ainda mais diferença.
                Seu apelido "Galaxia do Fuso" tem raiz no termo em Inglês " The Spindle Galaxy". Suas origens parecem perdidas nas brumas do tempo. Mas Burnham em seu " Celestial Handbook" nos diz " que ela é popularmente chamada de " Spindle Nebula". Repare aí o uso da palavra nébula em vez de galaxia. Isto nos leva a pesquisar tempos mais antigos quando as nebulosas espirais e/ou lenticulares e sua posição no universo eram alvo de intensa discussão.   Mas nada durante este período tão distante nos dá uma dica. Finalmente localizo no "Caldwell Objects" do O´Meara a provavel solução. Hartung em seu " Astronomical Objects for Southern Telescopes"  escreve : " Esta elíptica e extragalactica nebulosa se parece com um brilhante e apontado fuso de fiar ( Spindle)". Lançado em em 1968 e portanto anterior a Burnham... O´Meara descobre uma fonte que utiliza o termo ainda mais antiga em um ( na verdade quem descobre esta é Archinal ...) paper publicado por Pease no Astrophisical Journal  " Photographs  of Nebulae with the 60-inch Reflector 1911-1916" publicado em 1917 .
                Sendo uma galaxia tão brilhante e que escapou a Messier ela achou seu lugar no Catalogo Caldwell com o numero 53.  Este catalogo organizado por Sir Patrick Moore reúne algumas das maiores maravilhas celestiais que escaparam ao caçador de cometas francês. São geralmente alvos um pouco mais difíceis ou austrais  demais. Um belo desafio para fugir de objetos muito manjados e nem por isto impossíveis para possuidores de telescópios mais modesto. C 53 é uma das galaxias mais acessíveis no catalogo Caldwell.

                Localizar Ngc 3115 é mais difícil do que observa-la. Sem o auxilio de uma cabeça equatorial com "go-to" será um exercicío de Starhooping para gente grande. Segundo o patrono da minha coluna favorita na "Sky and Telescope" Walter Scott Houston e seu maior fã Steve O´Meara a melhor forma de se localizar 3115 é esquecer do vazio chamado de Sextans e partir de Hydra. Localizar Alphard ( Alpha Hydrae) não chega a ser difícil já que é uma estrela vermelha e que habita uma area pouco povoada do céu. A tenho utilizada com frequência para alinhar o Synscan de Mme. Herschel ( minha cabeça equatorial) e sei que e difícil confundi-la com outra estrela na sua região do céu. Partindo deste farol  caminhe 9o rumo ao leste e localize duas estrelas de entre 6.5 e 7a magnitude. É possível que perceba ainda 3115 compondo o quadro em sua buscadora. Não chega a ser tão difícil já que a região é pouco povoada.

                Na minha ocular 25 mm ela é evidente e apresenta sua forma de lente mesmo com visão direta. Com a 17 mm ela é ainda mais obvia e seu núcleo destaca-se.
                Hubble  classificou Ngc 3115 como uma galaxia elíptica E7 na escala inventada por ele , ele mesmo e o próprio. Uma elíptica quase transitando em lenticular. Hoje em dia ela é considerada uma lenticular pura ( S0).   Posteriormente o Telescópio Hubble indicou a presença de um super maciço buraco negro em seu núcleo com uma massa de 2 bilhões de sóis. Foi o terceiro buraco negro super maciço documentado no núcleo de uma galaxia pelo HST.   A confirmação foi detalhada em 10 de março de 1996 no mesmo Astro-physical Journal que registrou a alcunha de " Spindle" para Ngc 3115 .  Exatamente  79 anos antes.
                Localizada a 22 milhões de anos luz de nós a galaxia cobre 40.000 anos luz de universo e brilha como 7 bilhões de sóis. Se apresenta quase de perfil para nós.
                Ele é percebida pela minha buscadora 9X50 mm discretamente de Búzios. De áreas ainda mais claras ela será um desafio para pequenos telescópios.
                Uma galaxia "fácil" de ser observada.  E mais fácil ainda de ser fotografada