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quarta-feira, 12 de junho de 2019

M 95 e M 96 : Uma História Galáctica e Outro Livro Antigo...


          
         Após uma breve interrupção no projeto galáctico do outono o Nuncius Australis foge um pouco de Virgem e retorna até Leão.  Há tempos queria fazer um grande retorno e ganhar tempo para falar sobre M 95 e M 96 separadamente de M 105. Embora estas formem um tripleto menos famoso e sejam juntamente com o tripleto famoso (Que consiste em M 65, M 66 e Ngc 3628) um grupamento em si as duas galáxias que aqui abordarei são alvo muito interessante e geralmente abordadas juntamente. Até porque M 105 é uma entrada póstuma no catálogo Messier e é senhora de um tripleto particular dentro deste. Por uma daquelas coincidências de Adams (coincidências que parecem ser relacionadas a leis fundamentais do universo, mas que são apenas coincidências) Leão parece Gostar de apresentar galáxias em grupos de 3.   De qualquer forma será um longo retorno até chegarmos em M 95 e M 96.

 Já falei aqui gosto de colecionar coincidências de Adams, Tripletos galácticos e guias observacionais pouco conhecidos. Desta vez esbarrei com o “Webb Society Deep Sky Observers Handbook”. Uma obra única e quixotesca. São 5 volumes. Cada um abordando um determinado gênero de DSO. (Estrelas duplas, Aglomerados abertos e globulares, Nebulosas Planetárias, Galáxias e por fim Aglomerados de Galáxias). 
Com várias dezenas de galáxias registradas e esperando por apresentação é evidente que estacionei no volume relativo as mesmas (Vol. 4). 
Kenneth Glyn Jones (o editor e organizador do evento) inicia os trabalhos contando algo que já sabemos. Galáxias são os blocos fundamentais de construção do universo. As partículas materiais que preenchem o volume do universo.  E depois nos leva (em uma interpretação pessoal) há divagar sobre como as galáxias são um alvo fascinante para o amador. Alvos difíceis e que muitas vezes revelam poucas coisas ao observador com modestos (e nem tão modestos) telescópios e ainda assim são caçados sem dó nem piedade por amadores. E não só isso. As galáxias percebidas por estes são muitas vezes tidas como troféus. Minhas galáxias...
De volta ao livro ele nos lembra que galáxias são visíveis por uma grande gama de aparelhos, mesmo binóculos. Mesmo sem se obter nenhum detalhamento ela será sempre responsável por uma certa fascinação para os observadores visuais. (Creio que a astrofotografia amadora, embora já incipiente, ainda não fosse uma prática tão comum nos tempos da primeira edição). De qualquer forma ele nos lembra que a evolução do entendimento do que são galáxias é a história da evolução do nosso entendimento do universo e da astronomia propriamente dita.
Nós só realizamos, de fato, o que são essas discretas nebulosas em 1924.Mas utilizando telescópios bem mais modestos que  o Hooker Telescope no Monte Wilson ,onde Hubble ( em 1924) observou cefeídas em Andromeda e provou que as tais nebulosas espirais eram mesmo via lácteas fora da via láctea,  o homem elaborou uma bela ideia do que e como seria o Universo.
Naturalmente, as concepções de sistemas extragalácticos (e do o universo como nós o entendemos hoje) tiveram que esperar a ideia de como se organiza uma galáxia e do entendimento da forma da nossa própria galáxia. Na verdade, esse processo foi a criação   da entidade "galáxia".  O próprio termo galáxia vem do entendimento do nosso lar no universo. A Via Láctea. Galáxia é uma palavra que deriva do termo grego galaxias kyklos que significa "círculo leitoso". Se habitássemos uma galáxia elíptica as coisas poderiam ser bem diferentes...

É Thomas Wright de Durham, em seu “An Original Theory or New Hipothesis of the Universe” (1750) que primeiro imagina a Via láctea como um disco de estrelas. Ele declara que essa possui a forma de uma Mó (Pedra de Moinho). E ainda se antecipa a Kant em profetizar que muitas nebulosas seriam galáxias.
“...Diversos locais nebulosos, apenas perceptíveis por nós, além de nossa região estrelada, onde espaços visivelmente luminosos existem sem nenhuma estrela ou corpo físico em particular possam ser percebidos, estes podem ser criações externas, semelhantes a conhecida (a Via Láctea) , muito distante até mesmo para nossos telescópios. “
5 anos depois Kant se apropria da ideia e enxuga todo o misticismo e religiosidade da hipótese de Wright e em seu seminal “ História natural do Universo e a Teoria do Céu”  apresenta ,de forma mais clara, a hipótese de que as nebulosas (especialmente as em forma de fuso) são Via Lácteas distantes como nosso próprio sistema e ainda propõe que estas se organizariam em super associações. Esta ideia posteriormente é batizada de Universos Ilhas por Humboldt. Este conceito de universos insulares e seus múltiplos agrupamentos, que agora entendemos como aglomerados galácticos, foi um notável insight e se revelou acertada quase 180 anos depois.
Tanto Kant quanto Wright atiraram no que viam e acertaram no que não viam. Quando Kant escreveu seu livro as únicas nebulosas que se revelaram galáxias mesmo conhecidas e já observadas eram as Nuvens de Magalhães ( conhecidas desde a pré história e de forma alguma semelhantes a um fuso)  , a Galáxia de Andromeda ( M31, Conhecida desde a antiguidade e descrita no livro das Estrelas de Al Sufi) ,  Galáxia do Triangulo ( M33, registrada por Hodierna antes de 1654)  e  A galáxia do redemoinho do Sul (M83, descoberta por Lacaille em 1751) já tinham sido observadas. As nebulosas que nutriram as ideias de Kant eram, muito provavelmente aglomerados globulares. Se fundamentara, quase certamente, na ideia de Maupertius (1742) de que esses eram corpos elipsoidais formados por rotação.
                Posteriormente Herschel estrutura a Via Láctea de forma mais fundamentada observacionalmente e embora não acerte no todo deduz corretamente a forma da coisa. E descobre milhares de galáxias. Se você pretende observar DSO´s é melhor que se encante por elas. Mais de 74% do New General Catalog é composto de galáxias.
                Lorde Rosse e seu Leviatã finalmente resolvem diversas das nebulosas em seu formato espiral.
                As coisas vão nesse pé até o Grande Debate entre Curtisse Shapley que já foi apresentado aqui no Nuncius. E como foi dito, Hubble encerra o assunto e prova que as ditas Nebulosas espirais eram, de fato, “Universos -Ilha”.           
                E graças, especialmente, as galáxias espirais o homem descobriu a expansão do Universo. Depois disso Hubble cria sua classificação de galáxias e se juntam as galáxias espirais as Elípticas, lenticulares, Irregulares e Cia. Ltda. Mas isso é papo para o próximo post.
                De volta as Espirais terminamos o retorno e chegamos até Leão, M 95 e M 96.
                Galáxias espirais, a meu ver, são os mais desafiadores e belos DSO´s que se pode observar. São os objetos que menos desejam mostrar sua beleza e estrutura e ao mesmo tempo são os DSO´s onde você mais deseja extorquir tais informações. Conheço pessoas que tem esse Nirvana com Nebulosas Planetárias. Essas, me parecem, precisar de mais ampliação do que posso extrair do Newton, mas menos experiencia observacional e tenacidade. São pequenas p, mas, geralmente, tem um brilho de superfície mais alto. Isso by the book. Ou seja, tudo pode ser diferente.
                E é aí que M 95 e 96 se destacam. São ambas espirais que mesmo com equipamentos relativamente modestos você talvez perceba detalhes que Rosse precisou de 78 polegadas de espelho para descobrir. A ótica e os materiais evoluíram bastante...

M 95

                M 95 e M 96 foram descobertas por Pierre Méchain na noite de 20 de março de 1781. Messier as observou 4 dias mais tarde. Caracterizou M 95 como “uma nebulosa sem estrelas, com uma luz muito tênue”. Cinquenta anos mais tarde o Adm. Smyth a descreveu como “Uma nebulosa lucida branca. Essa nebulosa é arredondada e brilhante e provavelmente mais definida no extremo sul que norte”. O´Meara destaca que com muita atenção se desconfia de sua estrutura espiralada e que a mesma recorda uma das naves do Império em “Star Wars”. Com essa cola eu consigo desconfiar dessa impressão no Newton com 120 X de aumento. Nas fotos essa impressão é evidente e uma excelente descrição. 
                M 95 é uma das poucas espirais barradas no catálogo Messier e é classificada com SBb ou SB(r) ab.  Sandage a define como protótipo de uma galáxia anelar.  Seu núcleo e cercado por um pequeno anel interior o onde ocorre intensa formação estelar.  Sendo um membro de Leo I e com observações de cefeídas realizadas pelo Hubble Space Telescope sua distância é estiada entre 31,2 milhões de anos luz e 32,6 milhões.
                Com pequenos telescópios M 95 será mais tênue das galáxias Messier na região e extrair detalhes dela será um exercício digno de nota. Ela habitara o limite do existir em binóculos e dependerá de noites e locais muito especiais para ser percebida com algo menor que um 15X70 mm.  E mesmo nesse será um trabalho duro. Você provavelmente perceberá primeiro M 96 e aí talvez consiga extorquir a mesma do fundo do céu.
M 96 - Estaa foto foi feita com o newton. Um refletor 150 mm f8. 20 X 30 seg... 

                M 96 é menor e mais apertada que M 95. Eu a acho mais fácil de perceber. Pelo menos seu núcleo é mais evidente. Seus braços nem tanto. M 95 é o membro mais brilhante do grupo de Leo. Estes são: M95, M96 e M 105, NGC 3299, 3377, 3384, 3412, 3489, 3627e UGC 5889 formam o resto). O grupo formado por M66, M65 e O fantasma de Hamlet devem também ser associados ...

                M 96 se encontra a uma distância aproximadamente igual a M95. Pode estar um pouco mais distante, mas suas velocidades radias a garantem como parceiras...  M 96 é uma galáxia espiral com diâmetro de 76.000 anos luz e massa total de 80 bilhões de sóis. Sua região central é habitada por estrelas amareladas mais antigas e apresenta uma discreta barra. Uma supernova foi descoberta nessa em maio de 1998. Devido a isto e diversas cefeídas observadas M 98 é uma galáxia bem estudada e um objeto muito utilizado para calibrar-se distancias.
                Um anel exterior bastante tênue ´´e de difícil observação e difícil mesmo para astrofotografias.

                O par é um excelente alvo para telescópios de médio porte e um desafio maior que M 66 e M 65 também em Leão. Juntamente com M 105 forma um tripleto mais difícil para amadores em busca de coincidências de Adams por Leão.  Localizado quase no meio do caminho entre Regulus e Chertan, abaixo da Barriga do Leão, você vai encontrar Leo 52. A partir dela cace seu caminho até nossas convidadas. Em locais escuros elas serão mais amigáveis. Recomendo que visite antes M 66 e M 65. Se estas estiverem em noite esquiva é melhor deixar para uma noite mais apropriada o ataque ao grupo de M 96. 

                  As fotos aqui apresentadas foram todas resultado de uma captura de 20 X 45 segundo ISO 1600 com uma Canon T3- Lente Pentax ED 300 mm f 4.5 Montada sobre um cabeça HEQ 5 pro. Realizadas em maio de 2019 na Armação dos Búzios. Foram empilhadas no Deep Sky Stacker com 20 dark frames. E posteriormente esticadas no PixInsight1.8 e cosmética no Photoshop.  Com exceção da foto de M96 isolada que foi realizada utilizando um refletor 150 mm f8. 

               

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Astrofotografia , o Gênio Ródio, Corredeiras e o Sturm and Drang


           

           Astrofotografia é muitas vezes chamada de “A Arte Difícil”. Definitivamente fotografar DSO´s é bem mais complicado que fazer umas fotos das crianças. Implica em um equipamento maior, diversas técnicas e muita experiência e paciência. Você deverá possuir uma cabeça equatorial motorizada, realizar o alinhamento polar dessa com bastante capricho, contar com o clima e com as fases da lua entre outras coisas...
    Mas você pode ter toda essa diversão sem tanta trabalheira. Mesmo sem cabeça equatorial é possível se registrar grandes campos do céu. Com lentes grande angulares é possível se obter exposições longas o suficiente para se registrar diversos campos interessantes e até mesmo alguns DSO´s propriamente ditos. Não pretendi chegar a tão pouco mas também não queria sofrer muito...
        Era tempo de se subir a Serra. Meu filho estava muito saudoso de seus “amigos capoeiras” e eu estava desejoso de subir a Serra e aproveitar não só para ver alguns amigos como para desfrutar dos céus bem mais escuros de Boa Esperança. Essa um pequeno ajuntamento rural próximo a Lumiar.
       Normalmente eu realizaria uma derrota (um termo náutico para plano de navegação...) onde teria diversos alvos a serem capturados e o horário que estes cruzariam o meridiano. Ainda teria várias estrelas com horários e altitudes calculadas para me ajudar com o alinhamento polar (tenho horror a fazer o drift para alinhar Mlle. Herschel).
     Provavelmente devido aos saraus filosóficos que vem sendo organizados pela minha tia, onde estudamos como a Beleza só pode ser compreendida na sua integra através da liberdade ( ou coisa que o valha...) ,no entender de Schiller, e abraçado ao seu conceito de  Gênios Morais que  o assim são de uma forma orgânica decido que dessa vez irei partir para um outro  tipo de abordagem. Em vez de levar o Newton (um telescópio com 1200 mm) irei somente eu, meu filho, Mlle. Herschel ( minha cabeça equatorial HEQ 5) , a Câmera e um quiver de lentes. Entre minhas lentes tenho duas favoritas. Uma Pentax 50 mm f 1.7 e uma outra 300 mm f 4.  Na véspera pego emprestado um duplicador com um amigo. Mas esse se revela incompatível com meu equipamento. Uma pena. 
          Assim no dia 31 de maio do ano de 2019 saio rumo a serra as 11:39 da manhã.  Em uma viagem tranquila estamos chegando na casa de meu velho professor de Geomorfologia as 14:30 da tarde.  Rio- Boa Esperança em menos de 3 horas. Com direito a parada para croquetes na Casa do Alemão e a umas compras rápidas no Mercado de Lumiar. Um recorde... Bastante impressionante se levando em conta que desta vez fui com um Fiat Mobi. Carro o qual eu achei uma porcaria. Cambio frouxo, pouquíssima potência e nem um pouco econômico. O aluguel é barato...
        Tal e qual o Gênio Ródio de Humboldt (um aluno de Schiller e fundador da Geografia) escolho que Theta Carina é a estrela certa para me ajudar no Alinhamento polar. Sendo a estrela mais brilhante das Plêiades do Sul e cruzando o meridiano exatamente as 18:00 me parece que nada pode dar errado. Exceto que as 18:00 ainda está claro para burro e a Buscadora polar não é exatamente um poderoso telescópio. Desconfiando que estou com a moça errada centralizada eu me dou por satisfeito.  
     Quando vou alinhar o Go-to (um sistema que permite que a cabeça equatorial localize os objetos que você quer observar sozinha...) percebo que o alinhamento polar esta medíocre. E assim será.


            Eu tinha um plano. Dessa vez astrofotografia ia ser a melhor diversão e nada desse papo de Difícil Arte. Mas...
        Esqueci o cartão de memória da câmera. Em um primeiro momento pânico. Mas rapidamente atino que possuo um programam maravilhoso no meu lap top. ATP tools. (Astrophotography tools). E assim conecto a câmera ao computador através de um cabo Canon, habilito o obturador desta a trabalhar sem cartão  e capturo as imagens diretamente para a pasta default do ATP. Nunca tinha feito isso. Mas não foi tão difícil. Fiquei com a impressão que o cabo é responsável por mais ruído nas capturas. Mas pode ser só implicância. E descubro que o ATP captura as imagens (por default) tanto em Jpeg como em RAW. E ainda cria uma pasta com versões pequenas (thumbnails) em PNG.  
Rho Ophiuchi e Antares régio. também conhecida como a "14a vértebra" . Foto com 3 Drizzle no DSS. 

Com a questão da captura resolvida parto para o jogo. Coloco a 300 mm na câmera e mando Mlle. Herschel em busca da “Running Chicken Nébula” no entorno de Lambda Centauro.
Percebo que não vai dar para se almejar tanto bebendo na companhia de Humboldt, Schiller e do Gil Velho e com um alinhamento polar feito , ou melhor, não feito. Coloco a 50 mm e mando Mlle. Herschel apontar para o Cruzeiro do Sul. Astrofotografia com uma 50 mm é bem mais fácil que com a 300mm e infinitamente mais fácil com um telescópio de 1200 mm.  O acompanhamento, alinhamento polar e etc. se tornam bem mais complacentes.
Essa foto esta centrada na apagada constelação de Circinus. No canto esquerdo está K Norma envolta em Ngc 6067. Um aberto impressionante.



Com o computador protegido do sereno e instalado em uma cadeira de bar coberta pelo meu Anorak eu já possuo um plano de captura para light frames (que são simplesmente fotos)  pré-programado no ATP onde, ao contrário do Crivella, tenho tudo sob controle. A câmera irá realizar 20 exposições de 45 segundos com ISO 1600 e com 5 segundo de intervalo entre as fotos. Um luxo. Você clica em “Start” e pode ir brincar com as crianças, beber cerveja com os amigos e outras cositas más. Depois de 1000 segundos o computador emitirá o som de sino e posso voltar e fazer tudo de novo.

Cauda de Scorpio

E assim capturo, sempre com a 50mm em f1,7, uma bela região pouco fotografada centrada em  Circinus com a Nuvem de Norma no canto esquerdo da foto. o campo de provas favorito na região de Antares e Rho Ophiuchi e a área no entorno do Falso Cometa em Escorpião.



Falso Cometa.

Sempre que observo a Via Láctea me lembro de um Rio. Algumas regiões são evidentes corredeiras. Estas áreas são sempre muito fotogênicas. E por isso ainda tento visitar a área em torno de Eta Carina. Quando se fala em corredeiras me lembro sempre que li em algum lugar que estas são classificadas (pelos praticantes de canoagem em uma escala que vai de do grau I (novatos) até VI (suicidas apenas) (https://en.wikipedia.org/wiki/International_scale_of_river_difficulty). A região de Norma seria algo como  III +.

    Eta Carina seria uma corredeira 5x. Ou seja suicida, mas muitas vezes navegada.  Dessa vez passo por apertos e o excesso de condensação me vira o kayak. A água é um perigo nos mais diversos estados... De qualquer forma acho que os resultados são abaixo da média e acabo descartando os quadros. Mas como o ATP \tools cria uma pasta com thumbnails ( em PGN) de todas as fotos capturadas acabei por achar 11 fotos de Eta carina e adjacências perdidas no HD. Tentei empilhar as pequenas fotos ( 256 por 128 pixels) no DSS. Não deu certo. Então ressuscitei o Rot n´s Stack . Seu efeitos são sempre mais para pop art que para astrofotografia. Mas  talvez embriagado pelo espirito do Sturm and Drang e do romantismo alemão que embala este post seguem alguns dos resultados..  Embora me pareçam resultado mais apropriados para o movimento  do "Storm and Drunk" que das obras de Schiller. 




single Thumbnail antes de ser feito belo e livre pelo Rot n´Stack. 

A noite transcorre assim. O único inimigo é a condensação. Sem um dew heater (um acessério que mantém as lentes aquecidas)  eu acabo perdendo o jogo. E com o velho professor meio adoentado e tendo se retirado bem cedo (19:30) desisto de lutar contra a natureza. As 22:30 dou uma olhada em Júpiter utilizado o Galileo (um refrator de 70 mm que estava aposentado há um bom tempo) e com esse também apanhando da condensação eu desisto.
Senhores das Moscas ou Captain Fantastic.

Dormindo as 10:30 da noite acordo sem esforço as 6:30. Depois de um café seguimos para um local em que pretendo retornar para a Aporema de Inverno. Galdino polis. Lá espero ter um céu Bortle 2. O Polis do nome está para lá de exagero... Vou com o Gil e as crianças até uma pequena casa de um amigo  perdida em meio a um grande pasto com o Rio Macaé ainda muito limpo ao seu lado. Fazemos uma macarronada a bolonhesa. No fogão de lenha da varanda.  As crianças brincam no Rio e no pasto. Eu confesso que poucas vezes mergulhei em água tão fria. Depois voltamos para beber em Lumiar. Compro um cartão de memória por 55 reais. Achei em conta.  Mas a chuva se aproxima. O resto é de pinga e prosa. 
Domingo partimos de volta para o Rio. Foi pouca astrofotografia. Mas definitivamente a 50 mm faz as coisas renderem muito. 
Astrofotografia é a melhor diversão...
Para os fissurados: Todas as fotos são resultado de 20 exposições de 45 segundos com ISO 1600. Captura em RAW (cr2.).  Tempo total de exposição 15 min. Foram utilizados ainda 20 dark frames para calibragem. Lente Pentax 50 mm f1.7. Canon T3 . Montagem equatorial HEQ 5 pro. 
O stacking ( empilhamento) foi realizado no Deep Sky Stacker. E as fotos foram posteriormente "esticadas" no PixInsight 1.8 e e passaram por algum trabalho cosmético no PhotoShop CS 8. 

quarta-feira, 29 de maio de 2019

M 88 : Uma Espiral Fácil em Virgem


            

                  Ainda colocando em ordem as Galáxias de Virgem cheguei a M 88.  Esta bela espiral marca o ponto mais a noroeste da Corrente de Markarian. Como já sabemos de posts anteriores o Superaglomerado de Virgem tem seus subgrupos entre seus membros. A Corrente de Markarian é um dos mais conhecidos e é uma das áreas mais conhecidas do aglomerado. Sua imagem é icônica e quase qualquer amador a reconhece. M 88 é um pouco mais afastada da região central, mas é um membro bonna fide de corrente e seu último elo.
M 88 e M 91

                Ela forma um belo par com M 91 e é a mais dada da dupla. Sob céus escuros seu formato de agulha é facilmente percebido mesmo com visão direta.
                Embora existam fontes nos dizendo que M 88 habita a meros 47 milhões de anos luz é hoje mais aceito que esta se encontre há 57,2 Milhões. Uma supernova do tipo I a foi observada nessa em 29 de maio de 1999 pelo Observatório Lick. Em 12 de junho atingiu sua máxima magnitude, 13,4. Bem acessível para telescópios amadores. Como sabemos supernovas são eficientes velas padrão e permitiram refinar a distância de M 88.
                M 88 foi descoberta por Charles Messier na prolifica noite de 18 de março de 1781. Nesta noite ele descobriu sete outros membros do aglomerado (M 84, M 85, M 86, M 87, M 89, M90 e a durante muito tempo perdida M 91. De lambuja o aglomerado M 92 em Hercules).
                Ele a descreve da seguinte forma: “Nebulosa entre duas estrelas e pequenas e uma estrela de 6a magnitude que aparecem no mesmo campo telescópico que a nebulosa. Sua luminosidade é das mais tênues e recorda aquela reportada em Virgo, no 58 (M 58)”.
                John Herschel a seguir nos diz que é “uma brilhante, muito grande, extremamente extensa e precedida por uma nebulosa dupla.”.

                Não consigo descobrir do que se trata a tal “Nebulosa Dupla”. No mesmo campo, em fotografias, percebe-se claramente IC 3476 e 3478. Mas estas são entradas do Index Catalogue (IC)e certamente não foram percebidas por Herschel. Este foi realizado já em tempos fotográficos. É possível que seu registro se deva a Dreyer embora não exista documentação especifica a respeito além do IC em si.
                Smyth discorre e filosofa longamente durante a sua apresentação de M 88 e nos deixa claro a quantas andava (ou não andava...) o entendimento do que viria a ser o Grande Aglomerado de Coma Virgem. Esse é o atual nome do superaglomerado galáctico mais próximo de nós e que, em última instancia, nós habitamos uma das franjas.  Eu, particularmente, acho o texto bastante confuso e sem sentido. E por isso mesmo bastante representativo...
 “Uma longa nebulosa elíptica, no lado exterior da asa esquerda de Virgem. Sua cor é um branco pálido e se alinha de Noroeste para sudeste; e com as estrelas que a acompanham formam um belo desfile. A Parte inferior ou norte, em um campo invertido (Smyth observava com um Refrator sem diagonal...)  é mais brilhante que a sul, uma circunstância que, com sua figura de fuso de tear, abre um grande campo para conjecturas. Esta é uma maravilhosa região nebulosa, e a matéria difusa ocupa um espaço extenso, no qual vários dos melhores objetos de Messier e Herschel serão facilmente captados pelo observador atento em extraordinária proximidade... Raciocinando sobre o princípio de Herschel, isso pode reverentemente ser assumido como a parte mais fina ou mais rasa de nosso firmamento; e o vasto laboratório do mecanismo de segregação pelo qual a compressão e o isolamento são amadurecidos, no curso de idades não-compreendidas. O tema, por mais imaginativo que seja, é solene e sublime.”
                Herschel foi o maior observador de todos os tempos e seu legado é enorme. Mas, definitivamente, sua cosmologia não deixou nenhum legado significativo. 
                M 88 é uma das mais amigáveis galáxias espirais em Virgo para o amador com modestos equipamentos. Inclinada 30o da nossa linha d visada é vista quase de perfil e apesar de sua magnitude de 9,5 ela apresenta um brilho de superfície na casa de 12,9. E assim abaixo dos “Tristes Trezes”. 
O Brilho de superfície é um indicador muito mais confiável que a magnitude quando falamos de objetos extensos.  E se divide da seguinte forma. Existem os “ Pacatos Onze” onde você vai ver detalhes mesmo com visão direta, os “Desconfiados Doze” onde você vai precisar de visão lateral para perceber algo mais que apenas a existência do objeto , os “Tenebrosos Treze” onde você vai começar a precisar de técnicas milenares de respiração e finalmente os “ assombrados 14” onde só com auxílio mediúnico você talvez perceba algo... São  um paralelo Astronômico para o que as latitudes geográficas significam para os Navegadores em geral e as velejadores em particular. Na terra temos os “ Roaring Forties” a partir de 40o  de latitude ,os “Furious Fifties” já quase na altura do Estreito de Drake e finalmente os “ Screaming Sixties” que no paralelo 60  marca o limite norte do oceano antártico e é a volta ao mundo mais curta que você pode dar sem encontrar terra . Só para esclarecer o círculo polar fica a mais 6,6 graus ao sul...
De volta a galáxia mais ao norte da Corrente de Markarian ela se apresentará como um pequeno fuso esfumaçado em um campo onde você poderá perceber ou não M 91 com um binóculo de 15X70 mm. Ela é mais oferecida que sua companheira e como foi dito uma das mais amigáveis espirais de Virgem. Com o Newton (meu refletor 150 mm f8) em 120 X chego a desconfiar de alguma estrutura espiral, especialmente na parte sul que é a mais apagada. Creio que possa ser uma ilusão, mas devido ao menor brilho as partes escuras se sobressaem mais e dão esse efeito. Nas fotos isso é bem evidente. A presença de estrelas enriquece o quadro. Em 240 X a imagem já se degrada e creio que apenas em noites muito especiais consiga obter algo.

A melhor forma(a meu ver) para se localizar M 88 é partir de M 84 e M 86 e depois de estudarbem o caminho seguir a corrente até lá. Navegar pelo aglomerado é uma tarefa para observadores já com alguma prática. Céus escuros e noites de boa transparência serão de imensa ajuda.

M 88 possui um diâmetro físico de 115. 000 anos luz e com uma massa de 250 bilhões de sóis. É uma galáxia Seyfert do tipo 2linhas de emissão nos 5´´ centrais de M 88 indicam um imenso objeto central com sinais de acreção.  Tudo indica que em meio a esse núcleo galáctico ativo habita um buraco negro com massa de 107,9 sóis.
M 88 foi uma das 14 “Nebulosas Espirais” descobertas por Lorde Ross em 1850. Foi um grande passo entre as ideias de Herschel e a constante de Hubble e a expansão do universo. M 88 e M 31 foram peças fundamentais nesse processo.
Muitos autores comparam M 88 com uma versão miniatura de M 31, a Galáxia de Andromeda. É uma excelente referência e há alguma semelhança.   

sábado, 11 de maio de 2019

M 91: A Galáxia nem tão Perdida de Messier




Esta primavera está sendo dedicada ao aglomerado galáctico de Coma-Virgem. Na última Aporema (uma comemoração astro-indígena-pagã e uma lenda...) capturei diversas galáxias na região e aos poucos estou organizando e dissecando todo o material. Como não poderia deixar de ser as Galáxias do aglomerado que pertencem ao Catálogo Messier (Um catálogo de nebulosas elaborado no sec. XVIII e onde está o filé mignon do céu profundo para possuidores de pequenos telescópios) são o fio condutor da tarefa. Em uma área de navegação delicada e poucos faróis estas são o porto mais seguro que encontraremos. Mas mesmo entre estas nem tudo é tão simples.  Eu pensei em organizar o material seguindo o caminho natural. Começaria com M 49 (a Messier de menor valor que registrei e a primeira do bando registrada também pelo eu profundo de Messier. Seu outro eu foi Méchain...)  e terminaria a série em M 105 (Já em Leão, depois da casa das centenas e numa entrada póstuma...).
                Mas M 91 acabou me surpreendendo. Primeiramente por ter se revelado muito fotogênica. Talvez a minha favorita da série. Espirais barradas me são caras. E depois por ser considerada um objeto perdido de Messier. Uma entrada controversa e cheia de mistérios. Apesar de um mundo cheio de certezas nada me garante que a galáxia aqui apresentada seja a mesma que Messier viu. Mas tudo indica. É mais que muitas das notícias que recebo atualmente via whats up ou na web. Diversas publicações e autores confirmam e defendem a tese. Nestes tempos de pós verdade é mais que suficiente para o meu post...


             Não bastasse ser um objeto Messier perdido O´Meara nos diz que esta foi primeiro observada por Bode em 1771. Fazendo de uma história confusa um tremendo forrobodó.  Nenhuma outra fonte indica que isto tenha acontecido e estou convencido que se trate de um erro de tipografia. Se tudo mais for verdade o primeiro a observar M 91 foi mesmo Messier na noite de 18 de março de 1781. Nesta noite ele nos diz em seu caderno de anotações (o avô do Blog...): “Nebulosa sem estrelas em Virgo. Acima da anterior, número 90. Sua luz é ainda mais tênue que desta.”
                Nesta noite Messier descobriu nada menos que 7 outras galáxias no aglomerado de Virgem- M 84, M 85, M 86, M 87, M 88, M 89 e M 90- e um globular M 68 em Hércules. M 91 foi a última descoberta da noite. Nesse momento, já cansado, ele comete um lapso que vai dar pano para manga por 188 anos.  É importante ressaltar que antes disso (ou um muito depois. A ordem dos fatores se perdeu na bruma do tempo e não altera o produto...) ele acrescentou a seguinte nota na entrada 91 de seu catálogo: “Nota: A constelação de Virgo e sobre toda sua asa norte, é uma das constelações que possui mais nebulosas. Esse catálogo inclui 13 das que foram lá detectadas, sendo estas as entradas 49, 58, 59, 60, 61, 84, 85, 86, 87, 88, 89, 90, 91. Todas essas nebulosas se apresentam sem estrelas. Só podem ser vistas em excelentes condições de céu e próximas a passagem meridiana. A maioria destas me foi apontada por M. Méchain”.
                Ele aponta que a posição da nebulosa de número 91 é 12h 26m 28s, 14o 57´ 06´´.



               Nada visível em 1781 ou atualmente habita na posição. Owen Gingerich, provavelmente na série de artigos para Sky and Telescope que tornou o catálogo Messier tão famoso (agosto e setembro de 1953), destaca esse fato e “acusa” o veterano caçador de cometas de ter sido ludibriado por um desses “vagabundos do Sistema Solar”.  Bastante improvável. É bom lembrar que o catálogo Messier tinha como raison d´être indicar nebulosas justamente para que astrônomos não perdessem tempo com estas enquanto deveriam caçar cometas... Ou pelo menos assim reza a lenda.
                                                   
                Geralmente sigo uma cronologia quando pesquiso sobre os Objetos Messier. Primeiramente sempre o catálogo original. Neste a posição realmente nos leva a lugar nenhum. Depois sigo para o primeiro Guia Observacional como nós os conhecemos. Este é o Volume 2 do Cycles of Celestial Objects, também conhecido como The Bedford Catalogue. Aí a coisa se torna mais confusa. Embora M 91 não possua uma entrada só dela na entrada relativa a M 88 Smyth nos fala: “... Esta é uma maravilhosamente nebulosa região, e a matéria difusa ocupa um extenso espaço, na qual diversos dos mais interessantes objetos de Messier e dos Herschel serão logos percebidos pelo observador atento em extraordinária proximidade. O diagrama abaixo apresenta a disposição desse na nebulosa vizinhança ao norte de Messier 88; sendo precedida M 84 e seguida por M 58, 89, 90 e 91...”

Cartes du Ciel.
O diagrama de Smyth. Ele foi espelhado e invertido
para simjular o céu austral. 



     






  

           


             Aí podemos perceber que ele conhecia a galáxia e que provavelmente já a observara. E não só isso como o diagrama que ele nos legou demonstra M 91 em posição correta em relação a seus pares. Abaixo podemos comprara o digrama de Smyth a mesma região no mapa extraído do software Cartes du Ciel. O diagrama de Smyth foi espelhado para parecer que foi feito no Hemisfério sul. Mas a semelhança e precisão é inegável. O Livro é datado de 1844.
                De qualquer maneira isto parece não ter influenciado os guias posteriores. Nem acalmado a dúvida de seus autores...
                Seguindo meu método o próximo alfarrábio a ser consultado é o “Celestial Objects for Common Telescopes” de Webb.  Este não apresenta M 91 nem mesmo como Ngc 4548. Essa é seu registro feito por Herschel e durante muito tempo uma descoberta sua...
                A coisa segue assim e chegamos já a século XX e ao Celestial Handbook de Burnham. Uma parada obrigatória. Assim com Smyth esse fala de M 91 na sua entrada a respeito de M 88. Mas não garante que esta seja uma entrada válida de Messier e coloca mais lenha na fogueira. “A Pouco mais de 1o a ESE ´é a posição de um “misterioso objeto perdido” de Messier, M 91, em 12350n1402. O descobridor, em março de 1781 a descreve como uma nebulosa sem estrelas... ainda mais tênue que M 90. Inda que Shapley e outras tem teorizado que M 91 talvez tenha sido, na verdade, um cometa que se foi me parece mais provável que foi apenas uma observação duplicada de algum objeto da região, provavelmente com a posição registrada de forma errônea. A Galáxia próxima Ngc 4571 foi sugerida como uma provável candidata. O. Gingerich (o do artigo) acha que uma observação duplicada de M 58 seja a explicação mais plausível.  Questões como essa talvez nuca sejam resolvidas de forma plausível.”

                Tudo indica que Gingerich tinha mudado de ideia. Ngc 4571 é por demais apagada para os equipamentos que Messier Possuía. E é certo que Burnham nunca tomou conhecimento da carta escrita por William C. William, de Forth Worth no Texas, que parece ter posto fim a questão. Pelo menos quando chegamos aos alfarrábios finais na minha linha de pesquisa.
                Em se tratando de Messier geralmente encerro a fatura com os “Deep Sky Companions: The Messier Objects” de O´Meara e o “Atlas of the Messier Objects: Highlights of the Deep Sky” de Stoyan. E em ambos eles aceitam que William resolveu o mistério e bateu o último prego no caixão de M 91.
                Em uma carta escrita e publicada na Sky and Telescope de dezembro de 1969 ele realmente parece ter descoberto o caminho das pedras.

Sky and Telescope Dezembro 1969. Essa , por algum motivo, é uma das poucas S&T não disponíveis gratuitamente no Archives....  Me saiu a fortuna de US$ 5,99. A versão para download.  


           Nesta ele fala: “...o astrônomo francês descreve esta como “Nebulosa sem estrelas e mais tênue que M90.  E nos dá a posição como 12 h 26m 28s e +14o 57´ 06´´. Corrigido para 1950 teremos 12h 35m 0s e + 14o 02´.  A seguir continuaremos em coordenadas para 1950 (Em quase 200 anos até galáxias mudam de lugar. N.T.). Minha solução para o quebra cabeça assume que Messier determinou a posição para M 91 medido sua ascensão reta e declinação em relação a galáxia próxima M 89 (já que não há nenhuma estrela adequada na região):
NGC 4548 12h 32m.       +14° 46'
M89           12h 33m. 1    +12° 50'
diferença        -O m.2      +1°56'
                A seguir assumo que ele, por engano, aplicou as diferenças observadas para as coordenadas de M 58, uma galáxia de 9a magnitude que ele registrara 2 anos antes;
M58            12h35m.1   +12° 05'
diferença          -Om.2   +1°56'
"M91"         12h34m.9   +14° 01'
                Com isto o desvio é de meros 0m. 1 e 1´em declinação.  O Skalnate Pleso nos dá uma magnitude visual para Ngc 4548 e M90 de 10.8 e de 10.o respectivamente. Isso confirma a afirmação de Messier que M 91 é a amis tênue das duas. A mesma fonte nos dá o tamanho de Ngc 4548 como 3.7 por 3.2 minutos de arco.
                Já que Ngc 4548 é provavelmente a longo tempo perdida M 91, como membro do Messier Club eu ficarei feliz em ver esta bela galáxia espiral retornar ao catálogo Messier”.
As contas são boas e tudo indica que um amador sério resolveu um belo quebra cabeças que já durava mais de um século.
                M 91 é uma bela espiral barrada e membro bone fide do aglomerado de Coma-Virgem. Longas exposições em setups mais poderosos que o aqui utilizado demostram grande quantidade de poeira em seus braços. M 91 habita o subgrupo do aglomerado associado a M 87. Sua velocidade radial é de 486 km/s. A baixa presença de hidrogênio neutro pode ser causada por encontros com outras galáxias nesta tão densa área. Sua distância foi medida a partir de variáveis cefeídas e é estimada com bastante precisão em 52.000.000 de anos luz.



                M 91 é considerada uma das mais difíceis galáxias Messier para ser observada visualmente. A Observação com o Newton (refletor 150 mm f8) confirma isto e é uma mera assombração com o uso de muita visão periférica e hiperventilação.  Recomendo chegar até M 84 e 86 e com o dever de casa bem feito serpentear pela cadeia de Markarian. Comece localizando M 86 e M 84faça seu dever de casa e chegue até ela. M 88 é um marco importante. Na foto acima é a galáxia no canto esquerdo lá embaixo. A última da linha, mas na verdade ela não faz parte da corrente de Markarian. Essa se encerra em M 88.
M 88 e M 91. O final da jornada. 

                As fotos aqui apresentadas são frutos de diversos processamentos a partir de 35 exposições de 45 segundos com ISO 1600. Câmera Canon T3 e uma lente Pentax 300 mm f 4.5. Foi utilizada uma cabeça equatorial HEQ 5 pro.  Navegar por Virgo é bem mais fácil com auxílio da astrofotografia que visualmente. Recomendo fortemente, que sendo possível, você faça antes uma incursão fotográfica a região e depois parta para o visual. 



segunda-feira, 6 de maio de 2019

Ngc 4216: A Agulha do Tecelão


                



           No último artigo disse que o Aglomerado de Virgem é melhor abordado se atacando em blocos. Ou por subgrupos de galáxias. Algo como aglomerados dentro do aglomerado. Certamente um dos subgrupos mais famosos é a Cadeia de Makarian.  E por isto mesmo deixarei estas bandas para depois. Hoje vou apresentar Ngc 4216. Em primeiro lugar porque área é menos manjada e eu adoro novidades. E em segundo lugar é porque estudos recentes demonstram que este subgrupo provavelmente é um subgrupo mesmo. Com processos e história bem diferentes de outras regiões dentro do aglomerado.


                Ngc 4216 é a bambambãs de sua região e a chefona mesmo do clã.  E rivaliza em brilho e detalhe muitas das galáxias Messier na área. É interessante que Messier e Méchain tenham deixado escapar essa belezinha tão próxima a M 98.  Conhecida como a “Agulha do Tecelão” seu apelido remonta aos clássicos guias escritos por Smyth e Webb ainda no século XIX.  Sua descoberta sobrou para William Herschel na noite de 17 de abril de 1784. Ele registra apenas: “brilhante, bastante alongada, muito brilhante no centro, 9´a 10´ em comprimento.”
Agulha de Tecelão (Weaver´s Shuttle) 

                A seguir vem o inspirador de seu bem dado apelido, Smyth, em seu “Cycle of Celestial Objects” de 1844 que nos diz “... uma longa e pálida nebulosa esbranquiçada... Um Objeto muito curioso em um formado que lembra uma agulha de tecelão”.  Webb em seu “Celestial Objects for Common Telescopes” de 1859 reforça a ideia de Smyth e fala em “um núcleo longo como uma agulha”.  Pouco mais de um século se passou e Burnham em seu “Celestial handbook” não dedica uma entrada exclusiva para 4216. Ele apenas a enumera juntamente com ouros objetos de interesse na apresentação que abre os capítulos referentes a cada uma das constelações.  Mas é o primeiro a destacar a presença de duas outras galáxias imediatamente vizinhas no campo.  E é também o primeiro a destacar sua posição ambígua na classificação de Hubble: “Sa/Sb?  10.9; 7,2´X1.0´; Muito Brilhante (vB), muito grande (vL), muitíssimo alongada (vmE) repentinamente mais brilhante no meio-núcleo ( sbMN); interessante espiral quase de perfil. Duas outras no campo.”  Adoro decifrar a notação descritiva deixada por Dreyer. Me sinto lendo livros antigos de xadrez....   vB, Vl, vmE, sbMN e ++ (xeque mate).
                As duas galáxias citadas são as discretas e pequenas Ngc 4222 e 4206. No mundo real existem muito mais galáxias envolvidas no grupo de Ngc 4216. A dinâmica do grupo tem sido bastante estudada e se revela uma região bastante interessante e especial.

                Ngc 4216 por si só já é uma daquelas espirais que se apresentam carentes em estrelas jovens e parece ter sido estripada de grande parte de seu gás e por isso não apresenta regiões de intenso nascimento estelar em seus braços. Ainda por cima é considerada atualmente uma Galáxia espiral mista. (SABb). Uma espiral com uma barra escondida em meio aos braços mais típicos em um espiral “Grand design”. E estando quase de perfil para nós torna ainda mais difícil se perceber a presença ou não da estrutura.  Mas mesmo em minhas modestas fotografias desconfio da presença de uma barra central. Todas as fotos aqui são resultado do empilhamento de 20 fotos com 45 segundo de exposição ISO 1600 com uma lente Pentax 300 mm f 4.5. Temos desde a panorâmica que engloba toda a região (aí incluída M 98 bem no centro da imagem levada ao astrometry e que serve como guia para localização) até 6 X drizzle.
                Ngc 4216 vem se encontrando no meio da evolução da ciência desde há muito. Foi a primeira “nebulosa espiral” fotografada pelo refletor Crossley (36 polegadas) do Observatório Lick na virada do século. Seu diretor Keller foi um dos defensores de Curtis durante o Grande debate e garantiu ter percebido a rotação de discos galácticos ao longo de curtos períodos observacionais. Não se sabe se por crença ou vontade. O universo foi implacável e as nebulosas espirais se revelaram galáxias como a nossa e o universo e a mentes se expandiram...  
                Ngc 4216 é uma espiral de tamanho semelhante a via láctea.
                Embora estudos mais recente digam quase não haver regiões de starbusrt em Ngc 4216 um estudo realizado em 1999 por O.K. Sil´chenko (Instituto Astronômico Sternberg de Moscou) obteve um espectro em alta resolução da galáxia utilizando o refletor soviético de 6 metros  e descobriram um núcleo rico em metais o qual aparenta ser mais jovem que o bojo galáctico. Geralmente estes são contemporâneos. Uma hipótese é que a suposta barra central junto a núcleo esteja desencadeando nascimentos estelares e mantendo a região próxima ao núcleo “mais jovem”.
                Um recente estudo utilizando os dados do “Next Generartion Virgo Survey” (THE NEXT GENERATION VIRGO CLUSTER SURVEY. IV.  NGC 4216: A BOMBARDED SPIRAL IN THE VIRGO CLUSTER* SANJAYA PAUDEL†, PIERRE-ALAIN DUC , PATRICK CÔTÉ, JEAN-CHARLES CUILLANDRE3, LAURA FERRARESE, ETIENNEFERRIERE, STEPHEN D. J. GWYN , J. CHRISTOPHER MIHOS , BERND VOLLMER, MICHAEL L. BALOGH6, RAY G. CARLBERG, SAMUEL BOISSIER8, ALESSANDRO BOSELLI8, PATRICK R. DURRELL, ERIC EMSELLEM1, LAUREN A. MACARTHUR, SIMONA MEI  , LEO MICHEL-DANSAC  , WIM VAN DRIEL ) e do telescópio Firebird conseguiu obter imagens de galáxias anãs de baixíssimo brilho de superfície que estão em processo de absorção por Ngc 4216 e que vem mostrando em seu filamentos processos antes nunca registrados . Como foi possível registrar estas galáxias anãs em processo de destruição a estrutura filamentar e a  resultante do processo foi possível perceber que um alinhamento de três anãs se revela intrigante e pode ser que estas sejam a segunda geração de galáxias originaria de uma primeira galáxia absorvida. No paper se discute o tempo que isto ocorre e como isto foi possível em um local tão densamente povoado com o aglomerado de Virgem. Levantam a lebre de que o grupo inteiro pode ser um agregado recente ao aglomerado de Virgem. Aos que gostam de evolução galáctica o paper é extremamente interessante e deve ser lido na integra (o Link está acima no título do paper). É uma área de extremo interesse cosmológico, muito estudada e sempre na fronteira do saber.

                Localizada na fronteira de Virgem com Coma Berenice localizar   Ngc 4216 demanda algum dever de casa. Localize 6 Coma e provavelmente Messier 98 e/ou 99. Depois siga rumo a leste. Em céus bem escuros ela se apresentará discretamente mesmo para uma buscadora 50 mm. Mas não é tarefa para olhos sem treino ou cansados... Suas companheiras são muito discretas mesmo no Newton. (Um Refletor 150 mm f8). Não acho que nada menor que isso dará algum tipo de detalhamento. Você vai procurar por um esfuminho discreto.  Entre 6 Coma (e M 98) habita a ainda mais discreta Ngc 4208. Com muita atenção você vai percebê-la. É um indicador que vais no caminho certo.
                Ngc 4216 é uma das mais interessantes e “fáceis” galáxias de Virgem fora do Catálogo Messier.