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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

M 27: A Nebulosa do Haltere ,Deep Sky Stacker, PixInsight e os Delírios de Rosse.

                  

                  M 27 tem duas curiosidades honrosas em seu currículo. Foi a primeira nebulosa planetária a ser descoberta. E é o ultimo DSO apresentando no enciclopédico “Burnham Celestial Handbook”. Ainda que quando descoberta não existisse ainda sequer o termo nebulosa planetária. E quanto a segunda curiosidade não há nenhuma razão astronômica para tal. O livro é organizado em ordem alfabética e com M 27 residindo em Vulpecula (raposa) é desnecessária qualquer explicação.
                Messier a registra em 12 de julho, 1764. “Nébula sem estrelas descoberta em Vulpécula (Raposa) entre suas duas patas dianteiras e muito próxima a estrela de 5a magnitude Flamsteed 14 nesta mesma constelação. Pode ser vista claramente com um refletor simples de três e meio pés. Apresenta um formato oval e sem estrelas. M. Messier marcou sua posição na carta do cometa de 1779, que vai ser publicada no volume da academia para aquele ano. Observada novamente em 31 de janeiro de 1781.”
                É interessante perceber que Messier, muitas vezes, não observou mais que uma vez diversas das entradas de seu catalogo. Ele sempre destaca objetos que ele observou mais de uma vez. Parece querer deixar claro que são objetos a não serem observados. Nebulosas que estão no céu apenas para serem impostores de cometas...  
                Mas, ao contrário de Messier, Herschel julga sua exploração e registro matéria fundamental. Ele é o próximo a colocar os olhos nela e embora não a identifique como uma nebulosa planetária é ele o autor do verbete... Ele julgou que M 27 “... um estrato duplo de estrelas de grande extensão. Um deles voltados para nós”. Seu filho John é que lhe dá o apelido pela qual é chamada. A Nebulosa do Haltere.   Numa longa, completa e algo confusa descrição:
                “Uma nébula com o formato de haltere... com um formato elíptico completado por tênue luz. Posição de um eixo de simetria através de dos centros de duas massas principais 30o a 60o. O diâmetro da elipse de luz preenche um espaço quase igual ao dos fios (7´ou 8´). Não resolvível. Mas vejo 4 estrelas...”   Em observação posterior John Herschel a descreve assim: “com um formato semelhante a uma ampulheta, preenche um formato oval com uma nebulosidade muito menos densa. A massa central pode ser comparada com uma vertebra ou um haltere. A cabeça sul é mais densa que a norte.”
                Lorde Rosse a observou devotadamente e chegou a conclusões que não poderiam estar mais equivocadas.  O nobre irlandês , o clima inclemente de Parsontown e o  maior telescópio de seu tempo nos deixaram uma ode ao relativismo histórico e  um motivo para não se construir  observatórios  no Mar do Norte e adjacências: “  É necessária uma noite extremamente especial e um grande aumento tolerável , e então, percebe-se que consiste de inumeráveis estrelas misturadas com nebulosidade; e então quando se vira o olho do telescópio para a Via láctea , a semelhança  é tão impressionante que é impossível não se sentir uma forte convicção  de que a nebulosidade em ambas vem da mesma causa.”    Pelo menos ele não percebeu uma estrutura em forma de espiral em M 27. Rosse, que graças ao Leviatã de Parsontown (o maior telescópio de seu tempo), descobriu a estrutura espiral de várias galáxias e deu um passo no entendimento destas estruturas. É provavelmente seu maior legado. Mas, já mais para o fim, começou a perceber espirais em tudo que observava. Estando o padrão lá ou não... Coisa semelhante acontece com místicos ao descobrirem Fibonacci ao lerem “O Código da Vinci”. Na verdade, J.E. Gore disse ter percebido indícios de estrutura espiral na nebulosa em fotos feitas por Schaeberle...
                Smith nos fala de forma entusiástica (de M 27) “um magnifico e singular objeto um daqueles esplendidos enigmas que são propostos por Deus.”
                Hoje sabemos que M 27 é “uma das gigantes da classe das planetárias e de grande importância na teoria destas estruturas. É a segunda nebulosa planetária mais estudada (atrás de M 57) e com um tamanho aparente muito maior. Se encontra muito mais próxima com valores encontrados na literatura que vão de 500 anos luz até 1300. Um valor de 850 é presente em diversas fontes...
                Nebulosas planetárias são um suspiro na vida de estrelas com massas próximas ao nosso sol.  A estrela que alimenta M 27 possui uma modesta magnitude de 14. E é uma parada dura para se observar visualmente. Os observadores clássicos, mesmo com telescópios grandes, como Herschel, Rosse e Trouvelot nunca a registraram em seus desenhos.  Trata-se de um tipo espectral muito quente (O 7, 85.000 K).
                Com cerca de 8 anos luz de diâmetro M 27 é, de fato, uma planetária muito grande.  A parte externa da nebulosa se expande em uma taxa de 2,3´´ ao século. E a interior a mais de 6´´. em alguns séculos ela terá se expendido tanto que seu brilho de superfície terá se “extinguido”. Um breve suspiro cósmico.  Calcula-se que o show tenha se iniciado a cerca de 9.000 anos. No amanhecer da história. Mas não há registros no alvorecer das civilizações de algum evento cósmico marcante nesta região do céu.   
13 frames 30 seg ISO 1600+ 8 darks+8 flats - Stacking e 2 drizzle  no DSS e stretch no PI e PS- 

                M 27 é um espetáculo para possuidores de quase qualquer equipamento ótico. É claramente percebida (em locais de céus escuros) com uma buscadora de 9X50. Com um Newton (um refletor de 150 mm f8) ela se apresenta pálida no Rio de janeiro e é espetacular sob céus rurais (Bortle 3). Chocante mesmo. É gigantesca para uma planetária e um dos poucos objetos Messier que apresenta extrema semelhança no visual e no fotográfico. Embora sua cor esverdeada seja muito discreta visualmente. Suporta grandes ampliações. Mas apesar de perceber algumas estrelas envolvidas, (como John Herschel) além da óbvia estrela no centro, que não é sequer relacionada a nebulosa, não percebo nem sinal da estrela central. Esta parece escapar até de O´Meara (que é biônico).  
               Ao garimpar o mapa para a navegação no Stellarium para este post descobri que , para meu desgosto (sou muito afeito as tradições...), inventaram dois novos apelidos para a Nebulosa do Haltere. Nebulosa Diabolo ( só quem já teve espingarda de chumbinho e já fez coisas extremamente incorretas vai associar uma coisa a outra...) e Nebulosa Apple Core ( que em uma tradução bem  livre seria Nebulosa da Maçã Comida).

                Localizar M 27 em centros urbanos pode ser difícil já que Vulpecula é uma constelação discreta e a nebulosa não comparece na buscadora. Geralmente é mais fácil iniciar o “hoop’ a partir de Gamma Sagitta e chegar até 17 Flamsteed. Mas com algum dever de casa e um bom mapa é bem factível.
                Perto de Gamma habita também M 71. Outro alvo difícil 

debaixo de céus urbanos. Ambos fáceis e espetaculares em céus escuros...
           Agora vamos falar um pouco de astrofotografia. As fotos aqui apresentadas são fruto do Stacking de 20 exposições de 30 segundos (subs) com ISSO 1600. Foram empilhadas no DSS e esticadas no PixInsight 1.8 e mais alguma cosmética feita no Photoshop. Ou seja, seguiram a rota normal... Tanto na foto que abre o post como na qual foi efetuada o processo de 2 drizzle  foram aceitas apenas 13 subs pelo DSS.
   Ando tentando realizar o stacking utilizando também o PixInsight. Mas apesar de ser um programa caro o DSS tem me saído mais eficiente e pratico para este processo. No Pix é necessário realizar diversos procedimentos como calibrar os flats frames. Bem como os subs e mais outros truques. E quando utilizo o script automatizado deste o resultado tem sido pífio.  
     
Desastre Binário versão PixInsight. Resultado do empilhamento no Pix depois de um tour de force . Calibrar Lights , flats , criar master dark e flat, aplicar correções cosméticas nos lights e etc. para só depois integrar os lights. Um longo caminho para isto... Melhor empilhar no DSS e esticar no Pix.  
   
      Curiosamente ,acho que apenas para o stacking, o DSS, embora freeware, é mais eficiente e muito mais “user friendly”. Acho que vou insistir mais algumas vezes no empilhamento no Pix. Mas algo me diz que acabarei voltando para o DSS na maior parte das vezes. No Pix depois de muitos valores e menus ele acabou por aceitar 13 fotos também...      Mas o resultado foi estranhíssimo. Nada em comum com o "desastres binários que a vezes ocorrem no DSS . Mas nada fidedigno.                                                                                

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Vega: Uma Estrela, um Eclipse , Camões e outras Histórias


           


          O mês de julho foi extremamente “astronômico”. Seguindo a Lei de Broken tive bastante tempo para observar. A lei de Broken nos diz que quanto mais tempo tenho para observar menos dinheiro eu terei no mês seguinte... 
            Mas há males que vem para bem. E assim tive tempo para visitar os escuros céus de Lumiar, viajar com meu filho e ainda em julho estar de volta ao Rio para um dia que deverá ser lembrado por um bom tempo na comunidade astronômica. 27 de julho de 2018 foi uma imensa coincidência de Adams. Estas são coincidências astronômicas que parecem ser relacionadas a leis fundamentais do universo embora sejam apenas coincidências. Mas dia 27 conspirou para nos dar esta impressão. Foi o mais longo eclipse lunar que teremos no século, a melhor oposição de Marte até 2035, uma “Noite de Gilgamesh” (quando todos os planetas conhecidos desde a  Antiguidade são visíveis) e Selenelion (quando o sol e a lua eclipsada simultaneamente são visíveis de lados opostos do céu).  Adams deve estar se deliciando. Curiosamente nenhuma seita ou um desses novos profetas da Internet não declarou que o mundo iria acabar. Até onde sei não houve nenhum suicídio coletivo em local algum do planeta nem viram o Jim Jones andando por Ipanema. Embora o Arpoador tenha ficado lotado de gente para ver o evento...





            Evidentemente o eclipse teve muita repercussão nas mídias em geral. Eclipses e cometas parecem ser eventos que atraem multidões. E, lógico, se falou muito a respeito.
            Em um dos grupos de astronomia que participo um post foi bastante “quente”. Um membro de uma organização astronômica disse que nunca mais usariam nas publicações desta mesma as expressões “Lua de Sangue” ( que se refere a coloração que a lua adquire durante um eclipse), “Super Lua” (que é como passou-se a chamar a lua cheia quando esta acontece no momento de maior proximidade coma a terra. Ou seja, no perigeu.) e nem o termo “Lua Azul” (que é a segunda lua cheia em um mesmo mês).
A tão comentada "Lua de Sangue". Uma liberdade poética válida e bastante adequada. 
            Enquanto um lado defendia que essa seria a coisa mais certa a fazer outro defendia que tais expressões tornariam os eventos mais atrativos ao povo leigo e serviriam ao propósito da “Divulgação científica”. Rapidamente as coisas caminharam para gente se ofendendo. Eu achei muita celeuma por uma questão mais de semântica que de astronomia ou divulgação. A meu ver o uso destas expressões ou dos termos “apropriados” dá no mesmo. Já foi o tempo que defenderia que não se deve usar de liberdades poéticas na descrição de fenômenos astronômicos ou científicos. Hoje acho que muito pelo contrário. Mas não vou brigar por causa disso... Mas acho que não se deve confundir alhos com bugalhos. Jornais e outras mídias não tem que apresentar o rigor cientifico de um paper. Ou se assim pensa então assine e só leia a Nature ou o "Astrophysical Journal"
          Novamente há males que vem para bem. Devido a tal polemica, a viagem a Lumiar e a uma foto que fiz de Vega (Alpha Lyrae) acabei por descobrir que havia cometido grave injustiça em um post aqui no Nuncius Australis. Tinha falado que praticamente não existe literatura sobre astronomia na Língua de Camões. É uma meia verdade. Quando fui buscar informações sobre Vega recorri ao mais que clássico e obrigatório “Star Names; Their Lore and Meaning” do Hinckley (este nunca traduzido) e me deparo com o texto do livro (já depois da introdução) sendo aberto com uma citação do “Lusíadas” ...  E não era o manjado e também de cunho fortemente geográfico:                   
“ As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana”

            No belíssimo livro de Hinckley, datado de 1899 e ainda atual (a edição de 1963 foi “bem” atualizada), o primeiro capítulo trata do “Zodíaco Solar”. Pensei logo na discussão na web e na implicação que poderia ter um livro sério falar em zodíaco. Mas como acho que a palheta do cientista assim como a do artista deve crescer fui em frente.
“Bem ves como se veste & faz ornado
Co largo cinto douro, que estrellantes
Animais doze traz afigurados,
Aposentos de Phebo limitados.”
 E tendo achado mais fácil entender os versos de Camões que apresentam o zodíaco em inglês que na sua forma original segui mais  em frente e descobri porque não deveria crucificar alguém por falar em zodíaco, signos, luas sangrentas ou a pouca astronomia em português.


Existe um lindo trabalho realizado por Luciano Pereira da Silva e que reúne diversos artigos deste que foram publicados entre 1913 e 1915 na Revista da Universidade de Coimbra e intitulado “Astronomia nos Lusíadas” onde ele nos explica não só o significado do texto de Camões como o atualiza do século XVI para o XX. E como comentário aos versos de Camões este primeiro apresenta um texto do século XV explicando porque o zodíaco e os signos não remontam diretamente a astrologia como maioria dos “divulgadores” tende a imaginar. Mantive a grafia original ....
“Os Phylosophos antigos considerarão no ceo hum circulo maior, que têm de largo 12. graus, por meio do qual, passa húa linha, q o divide em comprido, e deixa a cada parte seis graus: ao circulo chamarão Zodíaco, e a linha dizerão linha eclíptica.
Dividese este circulo em 12 partes iguais, a q chamão signos, & cada hum delles toma o nome da figura do animal, de q está cõposto, como as estrelas do 8. ceo, ou firmamento, o pinião & semelhão, e porque Zodion em Grego tãto quer dizer como animal, porisso se chamou o circulo Zodíaco, como se dixeramos circulo de animaes: cada signo destes, se diuidem 3o. partes, a que chamão graus, e multiplicando 12. por 30 resultão 360. que sam os em que se diuide todo o ceo, e qualquer circulo».
(Repertório dos Tempos de André Avellar , Lisboa, 1485)
          Agora de volta a estrofe que abre o “Star Names: Their Lore and Meaning” e na “tradução” de Luciano Pereira.  O largo cinto de ouro, com que o firmamento se veste e faz ornado, é o zodíaco, que o cinge com a profusa pregaria de ouro das constelações zodiacais. Os doze animais estrelantes afigurados são as doze constelações do zodíaco, cujas estrelas, pela sua disposição, pintam e semelham a figura de animais. Os aposentos de Phebo (o Deus-Sol romano e não o sabonete) limitados são os doze signos, da extensão de 3o graus cada um, em que se divide o zodíaco, e a que se deram os mesmos nomes das constelações, os quais o sol vai sucessivamente percorrendo no seu movimento anual ao longo da eclíptica, demorando-se em cada um deles um espaço de tempo de cerca d e um mês.
            Hinckley segue o livro nos contando que inicialmente, lá pelas bandas do Eufrates, o zodíaco consistia de penas seis constelações..., Mas isto não vem ao caso agora.
            Na obra de Camões que embora poética a astronomia se faz muito mais presente que na maioria dos trabalhos ditos de divulgação em tempos de Twitter e Facebook. E mesmo habitando um mundo Ptolomaico sua apresentação dos céus austrais é muito melhor que da maioria dos alunos de física ou geografia que conheço.
            Calma que estamos quase chegando a Vega... 
            Camões termina a estância 88 do poema apresentando outras constelações fora do zodíaco.
“Olha por outras partes a pintura,
Que as estrellas fulgentes vão fazendo.
Olha a carreta, atenta a Cinosura,
Andromeda, & seu pay & o drago horrêdo:
Vè de Gassiopea a fermosura,
E do Orionte o gesto turbulento,
Olha o Cisne morrendo que sospira,
A Lebre, os Cães, a Nao, & a doce Lira.”
            Não posso deixar de lembrar de Aratus que descreve os céus ainda bem antes de Cristo... E provavelmente em um mundo heliocêntrico.
            Antes de chegarmos a doce Lira e a Vega gostaria de dar um aparte final sobre a necessidade de não permitir que a ciência tenha que ser totalmente fechada no jargão acadêmico. Mesmo em trabalhos científicos há espaço para poesia. Basta ler Humboldt, Kant, Smith e Sagan e muitos outros. E não conheço nenhum “divulgador” ou cientista com obra sequer comparável a estes.  E sou um grande fã de Lacaille. Praticamente um sócio aqui do Nuncius Australis. Mas não posso deixar de imaginar o que pensaria Camões.  O poeta comove-se evocando as lendas poéticas que deram nome às constelações, desde a Carreta (Ursa maior) e a Cinosura (Ursa menor) até à doce Lira de Orfeu e de Vega. O que ele não podia prever era que, passados dois séculos, novas constelações viriam intrometer-se naquelas, às quais  Lacaille, havia de dar, com secura científica, os nomes de: Machina pneumática, Forno chimico, Esquadro e Régua, Reticulo Romboidal e etc...  E ainda iria destripar a Nao dos Argonautas.

            Vega é a quinta estrela mais brilhante do firmamento; e a segunda para os residentes da maior parte do hemisfério norte. Já foi considerada mais brilhante que Arcturus, mas com o advento da fotometria perdeu seu título.
            É a estrela mais brilhante do conhecido “Triangulo de Inverno”, asterismo formado por Vega, Altair e Deneb. São os faróis para aqueles que navegam pelo hemisfério norte do céu durante o inverno austral. A data de sua oposição (culminação a meia noite) é ao redor de 1 de julho. Seu nome deriva do árabe Al Nasr al Waki. A tradução não é exatamente fácil. Mas seria algo como a “Águia Mergulhando” ou “A Águia que Ataca”. Forma alternativas conhecidas são Wega, Waghi, Vagieh, Veja e Veka. Estes aparecem em cartas datadas da Idade Média onde a estrela e sua constelação aparece representada como uma águia, abutre ou falcão frequentemente apresentados com uma harpa no bico ou em suas garras.  Plinio parece criar o termo “Estrela da Harpa” e é uma referencia a Lira de sete cordas de Hermes, que posteriormente chegou as mãos de Orfeu, o mais musical dos Argonautas. Mas, como nos conta Burnham, é também associada a uma verdadeira galáxia de deuses e heróis que incluem Apolo, Mercúrio, o Rei Arthur, o Davi bíblico (mais associado a funda do que a Harpa no meu conhecimento...) e o Poeta grego Arion. Felizmente nunca usaram de tão nobre estrela para rasgar seda para Nero.
            Hafiz da Pérsia se refere a esta (não é claro se a constelação ou a estrela) como a Lira de Zurah. Já os árabes, lá pelo início da Idade Média, nos deixam textos que falam de Al Lura a qual se tornou Allore e desta forma chegou as Tabuas Afonsinas. E através destas a Camões. As Tábuas afonsinas são tábuas astronómicas elaboradas por iniciativa de Afonso X, o Sábio, no século XIII.

As tábuas contêm as posições exatas dos corpos celestes em Toledo desde 1º de janeiro de 1252, ano da coroação do rei Afonso, e consignam o movimento dos respectivos corpos celestes sobre a eclíptica.
           
O objetivo destas tábuas era proporcionar um esquema de uso prático para calcular a posição do Sol, da Lua e dos planetas de acordo com o sistema de Ptolomeu. A teoria de referência previa movimentos segundo epiciclos e os seus deferentes cujos parâmetros para cada corpo celeste eram as dimensões relativas dos epiciclos, o período de revolução sobre um epiciclo, o do epiciclo sobre o deferente e assim sucessivamente. Durante muito tempo foram a base de todas as efemérides publicadas na Península Ibérica. Apesar de ptolomaicas ainda eram utilizadas devido a precisão destas em 1553 e mesmo depois.   
De Allore para “A Lira de Orfeu” não é muito difícil de se caminhar. Agora daí a entender a relação da poesia de Camões com o famoso bom português do Maranhão é preciso confiar muito no lado direito do cérebro e perceber que onomatopeias (bem, não exatamente. Mas já que estamos falando de imaginação...)  são diferentes. Nas terras de Sarney o homossexual passivo masculino é chamado popularmente e mesmo em tempos “politicamente corretos” de forma quase carinhosa como “Qualhira”; Reza a lenda que no centro histórico de São Luís existia um homossexual bastante bem resolvido que tocava lira todos os dias na praça, então toda vez que o Rapaz com a lira se aproximava o povo falava: -La vem ele "com a lira"! De “Com a Lira" para “qualhira" não demorou muito...
            E antes de apresentarmos a física e a tal da “astronomia de verdade e da divulgação científica para valer” que habita em Vega e ainda no terreno das lendas, poesia e de uma “astronomia do cotidiano” não podemos deixar de contar a mais bela das histórias associadas a Vega.  Esta tem um papel fundamental em uma das poucas lendas estelares que chegou até nós da Antiga china. É uma fabula. “O Pastor e a Tecelã”.   Sua origem é desconhecida, mas é mencionada no Shih Ching, “O Livro dos Sons. Não poderia ser mais apropriado para uma lenda envolvendo a mais musical das constelações. É uma antologia poética datada da Dinastia Chou. Cerca de 600 A.C. Um clássico da época de Confúcio, o qual pode ter tido um dedo na obra.  Em tempos de um congresso com uma bancada evangélica crescente e de um obscurantismo preocupante atingindo e todos os níveis da vida nacional não poderia ser mais apropriado lembrar que o Shih Ching foi um dos livros que teve sua destruição ordenada pelo megalomaníaco e egótico imperador Shih Huang Ti (221 -210 AC). Este esperava ser lembrado como o construtor da Grande Muralha. Terminou conhecido como “Ele que Queimou Livros”.
Na lenda Vega é a tecelã. E Altair o pastor.  Os dois jovens amantes, perdidos em seu “namorico amoroso”, negligenciaram suas obrigações para com o céu e agora estão eternamente separados pelo Rio Celestial. Este é a impenetrável Via Láctea. Mas na China
(apesar de Imperadores loucos e do Mao Tsé Tung) sempre há espaço para compaixão. E os amantes pode se ver uma vez por ano, na sétima noite da sétima lua, quando uma ponte de Gralhas temporariamente cruza o Rio.
            Não é preciso ser muito esperto para imaginar que há uma migração durante este período.  Astronomia também tem intima relação com os ciclos da terra. E toda ciência é humana. Mesmo que envolva cálculo....
            Só mais um folclore astronômico ... Veja é conhecida como a ‘Arc Light “dos céus. Atualmente muito raras e difíceis de se achar as “Arcs” são uma das luzes mais bonitas que conheço para iluminar cenas de cinema. Antes dos HMI´s era muito divertido ver um eletricista regulando a distancia entre os carvões para garantir uma temperatura de cor igual em vários refletores. Mais ainda encostar os carvões e os afastar “no tempo” para manter as coisas andando e a luz acender. Uma arte que está se perdendo. Possuo diversos assistentes que nunca viram uma “Arc-light”. Acho que no Rio não há mais nenhuma. E em São Paulo duas. E conseguir o carvão deve ser bem difícil...
            Vega é uma estrela da classe A0 var. Possui um décimo da idade do Sol e 2.1X mais massa que este. E assim terá também um décimo do tempo de vida deste.  Foi a primeira estrela depois do sol a ser fotografada. Isto aconteceu em 17 de julho de 1850. Um daguerreotipo realizado por William Bond e John Adams Whipple no Observatório da Universidade de Harvard. É uma das estrelas mais estudadas.
            Foi também a primeira estrela a ter seu espectro registrado por Henry Draper em 1872 e foi ele também que registrou o que viriam a ser as linhas de absorção matrizes da atual Serie de Balmer.  
            Foi também a primeira estrela a ter seu paralaxe medido. Friedrich G.  W. von Struve. Ele chegou a um valor de 0.125segundos de arco. Bessel foi cético a respeito deste valor e quando Bessel publicou o valor de paralaxe de 0.314 para o sistema estelar de 61 Cygni Struve revisou seu valor para quase o dobro, desta forma a maioria dos autores credita a Bessel a primeira medida de paralaxe. Mas o valor atual de 0.129 para Vega obtido pelo satélite Hiparchos demonstra a precisão e o pioneirismo de Struve.  Não chega a ser um exemplo do efeito Dunning-Kruger já que Bessel era um cientista sério. Mas ...

            Vega domina os céus no hemisfério norte durante o verão. Já para nós austrais viaja relativamente baixa no horizonte norte. Com o seu polo apontando para nós chegou-se a acreditar que esta não possuía uma corona. Mas apesar de baixas emissões em raio x é mais provável que sua corona apresente um buraco polar.  
            Novamente uma primeira. Foi a primeira estrela a ter um disco de poeira registrado. E possível sistema planetário em formação. Vega está com cerca de 500 milhões de anos.; ainda na sequência principal transforma hidrogênio em Hélio através de um ciclo carbono-nitrogênio-oxigênio. Uma forma que o processo que a fusão nuclear pode apresentar. Demanda temperaturas de 15 milhões de kelvin. Mais quente que o sol que realiza sua fusão de forma mais eficiente através de uma cadeia próton-próton. Isto é astrofísica a sério e recomendo que quem quiser de fato compreender estes processos procure por livros bem mais sérios que as pretensões deste blog. Um bom começo e um livro que adoro (embora você achar textos ainda mais específicos e detalhados.) é “The Complex Life of the Star Clusters” de David Stevenson. Não chega nem a doer... Ou cace pelo "An Introduction to Stellar Astrophysics" do Francis Leblanc. 


             Esta vai tornar-se em um futuro ainda distante um gigante vermelha do tipo M. E terminar sua vida como uma anã branca. Possivelmente com uma nebulosa planetária em seu entorno para substituir a M 57 que a essa altura já não mais se apresentará na região.  
M 57 é uma nebulosa planetária localizada em Lyra. É uma forma de vida muito breve em termis astronomicos. Estrelas com massa próxima ao sol passarão alguns milhares de anos com esta (ou aproximada) fisionomia. Vega também...

            Veja foi também a “estrela do Ano Novo” para os antigos polinésios. Servia como referencia para se iniciar os trabalhos no solo para o plantio. Posteriormente a função foi assumida pelas Plêiades.


            “Last but not least” Vega foi a algo como a estrela polar de12.000 A.C (ficou a um pouco menos de 5o do polo) e graças a precessão de equinócios estará lá de novo em no ano de 13.770. Supondo que não haja uma bula papal mudando o calendário ou mesmo algo mais drástico... Parece também que dragões sempre foram confinados a o Artico. Nunca comeram pinguins... (A constelação que reside dentro do Circulo feito pelo polo a o longo de sua viagem de 25.770 anos se chama Draco. O Dragão)
Agora falando sério: nunca esqueça que visitando Vega você vai estar muito perto do sistema composto por Épsilon Lyrae.  Acho que não irei mais me referir a ele como a Dupla -Dupla.
           

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Ngc 5897: O Aglomerado Fantasma


                Projetos observacionais são um excelente método para manter a paixão pela astronomia. Possuo vários e transcorrem simultaneamente. Meu primeiro projeto foi observar (e posteriormente fotografar) todo o Catalogo Lacaille. Seguindo o rumo normal das coisas observei todo o Catalogo Messier (alguns abertos em Cassiopéia aguardam uma viagem senão ao hemisfério norte pelo menos mais ao norte...). Desta mesma forma me dedico a uma versão “adaptada” dos “400 de Herschel”. Estes são os 400 DSO´s mais interessantes e acessíveis entre os descobertos por William Herschel. De um total de mais de 2000. E assim ele é uma significativa parte do mais ambicioso e irreal “Projeto Tudo que Existe”. Neste planejo registrar todo o catalogo Ngc.... 
            Existem diversos guias observacionais que abordam os “400 de Herschel” e mais um pouco. Possuo alguns deles. Um bem completo e que seleciona 615 membros como “Showpieces” é o do James Mullaney “The Herschel Objects and How to Observe Them”.  Habita também minha biblioteca o hercúleo “The Complete Guide to the Herschel Objects” de Mark Bratton. Neste estão todos os objetos catalogados por William e sua irmã Caroline.  Como o catalogo Herschel não foi “perfeito” há controvérsias sobre o real numero de descobertas realizadas pela dupla. Este numero varia entre 2511 “nebulosas” e 2435.  Entradas repetidas e erros de plotagem são responsáveis por este pequeno desvio. Bratton confirmou 2435 entradas.
            E por fim vem meu favorito e amigável “Herschel 400 Observing Guide” de Steve O´Meara. Neste o autor apresenta um projeto factível e muito bem realizado para que se observem “Os 400 de Herschel” em um ano. Uma semana por mês. Quase um vídeo de ginástica da Jane Fonda para astrônomos amadores.


            Foi com ele que acabei chegando até Ngc 5897. É o único globular planejado por O´Meara para o que deveria ser a primeira noite de observação no mês de julho.  O aglomerado é, possivelmente, o único DSO digno de nota localizado na constelação de Libra. Todos os outros são pequenas e tímidas galáxias abaixo da magnitude 12.  É um aglomerado muito pouco concentrado (XI na escala Shapley) localizado próximo a Iota Librae.  Aglomerado pode ser visto, em noites sem lua e em céus escuros como um brilho amorfo e bem grande.  Mesmo telescópios bem modestos (e meu bino 15x70) o apresentarão sob boas condições. Com pequenas ampliações 5897 é um perfeito “cometa sem cauda”. Não espere resolver nenhuma estrela neste com nada menor que 150 mm. E mesmo assim somente com visão periférica e discretas. Seu apelido de “O Globular Fantasma” é muito apropriado. O´Meara o batizou assim por este lembrar uma imagem fantasmagórica e apagada do também frouxo, porém mais “resolvível” M 55 em Sagitário.
            O observei em 16 de julho de 2018 debaixo de um céu Bortle 3. Com 46X de aumento ele é um tênue brilho bem arredondando e com as bordas mais brilhantes bem como  o centro. Sem estrelas.  Com 70X e visão periféricas algumas poucas estrelas “flicam”, mas se apagam ao se fixar a visão. Porém é obvio e não demanda grandes exercícios para ser percebido.
            Ngc 5897 é um globular da população do halo bem distante. Mais de 40.000 anos luz.  Foi descoberto por Herschel em 10 de março, 1785.  Ele o descreve como “...Um muito próximo, concentrado aglomerado de estrelas. 8´ ou 9´ de diâmetro, extremamente rico, de um formato arredondado irregular. As estrelas são tão pequenas que são difíceis de serem vistas. E tão acumulado no centro que parece nebuloso (H VI-19 = VI-8).  
            Percebe-se que a impressão de Herschel é bem diferente da minha e que este é, possivelmente, uma das entradas repetidas no catalogo de Herschel.
           

            Herschel sempre buscou conectar a aparência visual das nebulosas e aglomerados com algum tipo de realidade física ou material. Ele considerou 5897 uma descoberta importante por ser “uma das graduações possíveis de conglomerados estrelares palpáveis ... em direção a nébulas distantes”.  Ele acreditava (a cosmologia de Herschel só se mantém “viva” devido ao valor histórico) que toda as “nebulosas” estavam em processo de formação e apenas vistas de diferentes distancias e que o grau de concentração das nebulosas eram diretamente relacionadas ao seu grau de evolução; sistemas muito evoluídos teriam um alto grau de concentração e vice-versa.  E assim considerou 5897 um sistema com uma idade e distancia intermediarias.  Ele considerava (inicialmente) este uma espécie de elo entre aglomerados como as Plêiades, Hiades, Presépio e a Nebulosa de Orion. Achava este que M 42 era composta de estrelas muito agregadas e extremamente distante. Alguns anos depois e citando Ngc 5897 ele já fala que “que a nebulosidade sobre uma estrela pode não ser de natureza estelar”.

            Herschel nos fala ainda que o objeto “é maravilhoso, mas difícil”. Smith no “The Bedford Catalogue” nos conta (ele observou todo o Catalogo com um refrator acromático de 150 mm) que é “um grande e concentrado aglomerado de mínimas estrelas ... É tênue e pálido mas dependendo da finesse da noite , a estabilidade da contemplação e a excelência do  telescópio este poderá ser tão bem visto como pode ser um objeto tão baixo (no horizonte) e tão terrivelmente distante.”

            Ngc 5897 possui cerca de 135 anos luz de tamanho físico. Isto o faz bem maior que M 55 (mas que se encontra bem mais perto...). Possui uma considerável população de Blue Stragglers (estrelas que aparentam ser bem mais jovens do que deveriam e são fruto, provavelmente, de colisões ou interações entre estrelas-membro). É um globular extremamente pobre em metais (1/50 a 1/79 de ferro por unidade de Hidrogênio do que o Sol) e provavelmente formado em um estágio embrionário da evolução galáctica. Durante o colapso da nuvem proto-galactica.  Ngc 5897 é um contemporâneo de M 3 e formou-se a cerca de 13 bilhões de anos. Estudos realizados em 1992 por Ata Sarajedini dizem que este é mais velho que M 3 até 2 bilhões de anos. Quase um daqueles paradoxos de objetos mais velhos que o universo. Parece ser evidente que alguns ajustes são necessários; E garantem a importância cosmológica do “Aglomerado Fantasma”.    

           A foto que abre o post é resultado de uma captura de 10 exposições de 30 segundos ISO 1600 com uma Canon T3 montada em foco direto sobre um refletor de 150 mm f8. Foram utilizados 4 dark frmes. O processo de stacking foi realizado no Deep Sky Stacker e o "stretching" feito no PixInsight e no Photoshop. A montagem utilizada foi uma HEQ 5 pro. 

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Céus Escuros e as Noites de Gilgamesh


  
Sempre fui um defensor de que a astronomia observacional é factível debaixo de céus urbanos. Mesmo em condições extremas (Bortle 9). É verdade. Como a astronomia é uma ciência esta deve ser comprovada de forma empírica. E sendo comprovada se estabelece uma verdade.
            Já observei todo o Catalogo Lacaille, boa parte do Messier e mais muitos DSO´s que pode ser enquadrados no “Projeto Tudo que Existe” da janela de meu apartamento. Este está encravado na zona sul do Rio de Janeiro. Uma cidade na casa de vários milhões de habitantes.
            Muitos dos DSO´s que observei nestas condições eram fantasmas de si mesmos. Zumbis. Mortos Vivos. Mas que assombravam a matéria o suficiente para serem percebidos mesmo sem auxilio mediúnico. Visão periférica, técnicas indianas milenares de respiração e muita paciência são capazes de os tornarem perceptíveis para alguma parte do cérebro. Parece ser o Lobo Occipital. Outra possibilidade seria todo o lado direito onde parecem habitar a imaginação, a criatividade e a memória...
            Chegaram as férias das crianças. E apesar de duro me vejo responsável para desenvolver o lado direito. Ao menos do menor. A mais velha já não quer mais saber de mim e a imaginação caminha por locais que prefiro apenas manter na casa da cumplicidade. Já tive 15 anos e era bem mais difícil do que a minha debutante.
            Vamos, de novo, só os meninos subir a serra. Ficam para trás a cara metade e a filha adolescente. Os planos são claros. Ele será afastado da tecnologia e do Youtube e eu irei comemorar a Aporema de Inverno. Para aqueles que não sabem esta é uma festa pagã que presta homenagem aos céus e que se passa na lua nova mais próxima aos solstícios e equinócios. Seu nome remonta ao cacique Aporema. Tudo indica que este possuía uma visão privilegiada e que era capaz não só de ver 12 estrelas nas Plêiades como de acertar uma flecha em uma lontra a mais de um lago de distância. O tamanho do lago e da lontra são alvo de debate. As Plêiades são conhecidas como as “Setes Irmãs”. Eu mesmo nunca consegui resolver mais que quatro sem usar o lado direito do cérebro e de muita imaginação. E mesmo assim seis ...
Canon T3 - Pentax 50 mm f 1.7 @ 2.8 - single frame 45 seg HEQ 5

            A astronomia é uma ciência. Logo a lógica deve ser respeitada. Meu carro é muito baixo, estou duro e as estradas de terra de Lumiar são de terra.  Embora as ideias de Marx andem em baixa ele criou um conceito que me parece mais uma lei fundamental que uma coincidência de Adams. Chama-se “mais-valia”. Eu, capitalista, uso de meu carro para ganhar dinheiro com o trabalho de outro. Coloco meu carro para trabalhar na mão de um membro do proletariado. Este deve me pagar uma grana para poder utilizar o “bem de capital” (o carro) para mim. Mais uma grana para o detentor de uma tecnologia (não sei se isso seria um “bem de capital” clássico), a Uber. O valor que este me paga é quase o mesmo que eu pago para alugar um carro de uma locadora de veículos (está mais capitalista que eu). Posto que posso arregaçar o carro nas estradas de terra, pedir outro carro em caso de pane e etc... faço excelente negócio. Não sei se “mais valia” ou se “valia mesmo”.  Aproveito aqui para me vingar da “Budget” e da “Avis” e dizer que são um serviço de merda. Mas justo que sou indico a “Movida”.
            De volta as observações astronômicas, mesmo que possíveis e assombradas de cidades grandes, um céu escuro é um raro prazer. Especialmente para o astrônomo urbano. A região de Friburgo é um excelente ponto para se observar. Mesmo sendo Friburgo uma cidade “grande” o clima é bastante limpo e a altitude sempre é um “Plus”.
            Durante anos o posto avançado do Nuncius Australis foi Búzios. Uma península bem seca. Sua vegetação cheia de cactáceas e uma falta de água famosa atestam suas qualidades. Mas a cidade cresceu, o quintal onde observava passou por reformas e virou um bar e tirando eu ninguém gosta de ficar no escuro. Foram instaladas mais de 9 lâmpadas em 40 metros quadrados. Bortle entre 7 e 8.
            Me transferi para Lumiar. Uma área rural muito mais escura. E onde, graças ao Lô Borges, olhar o céu e curtir a natureza não é coisa de maluco.
            Este post está virando quase um merchandising. Já fiz propaganda de locadora de carro e agora vou indicar um camping (com direito a casa para alugar). Cantinho Doce. Falar com a Renata que ela manda apagar luz e tudo para você poder ver céu. Minha amiga...  O céu é Bortle 3/4.  Sempre chego depois do fim de semana. Afinal ela tem um negócio para tocar.
            Saí do Rio com meu pequeno na sexta feira 13. Bons agouros até mesmo para um cético... Apesar de seguir por uma rota diferente da que normalmente sigo, e indicada por um “especialista” na região, demorei 4 horas para chegar na cidade. Normalmente levo três...
M 8 , M20 e M 21. Esta foi feita com a Pentax 300 mm f 4.5. Curiosamente sempre percebo mais ruido ( nos subs) desta lente que em outras. Mas não consigo entender a razão. A lente é um ED de altissíma quelidade. costuma culpar Heisenberg... 

            Já ia meio tarde para me encaminhar para o Camping e sabia que a casa que queria estava alugada. Destino: Casa de Gil. Um grande amigo e velho professor. Pai de 11 filhos e com dois destes que regulam com o meu sempre é um bom refúgio.  Produz uma batida de “Clorofila” de formula secreta. Leva uma pinga de 19 anos, Ora-Pronobis, mel, limão e sabe-se lá o que. Cúrcuma com certeza.
            Depois de nos aconchambrar na pequena e agradável casa resolvo que vou observar. A casa fica lá no topo de um vale bem fechado. Tanto o horizonte sul como o Norte são bem limitados. Alinhamento polar sem usar o drift é impossível. Como minha religião e minha paciência não permitem isto faço como um velho marinheiro e uso apenas o Cruzeiro do Sul. Não funciona para o “Newton” (1200 mm). Mas sou bom nisto e com uma Pentax 50 mm f 1.7 me divirto e faço belas fotos...  
            A que abre este post é um remake. Engloba a fronteira entre Escorpião e Sagitário e apresenta diversos DSO´s. É uma foto que sempre repito. Sagan, na série Cosmos, batiza um dos episódios de “A Espinha Dorsal da Noite”. Trata da Via Láctea. Respeitando esta bela imagem chamo a região de “A Décima Terceira Vértebra”. Abaixo e subindo em rumo a cervical aproveito e registro a região próxima a Antares já na fronteira desta com Ophiuchus. “A Décima Quarta Vértebra”.


               A condensação é um inimigo terrível para o observador. Já sabendo disto e sem ter montado os “dew heathers” que sempre me prometo passo muito tempo com um pequeno secador de cabelo nas mãos. Funciona. Mas é um exercício de disciplina. A cada 10 fotos um minuto de cabeleireiro.
            Algo que me emociona é pessoas que apesar de não serem observadores e que depois de alguns ‘showpieces” cansarem da novidade dão valor ao seu trabalho. A esposa de meu velho mestre (que em vez de observar fica, no frio, ao meu lado dando todo suporte necessário e transcorrendo sobre a “domesticação” da capoeira feita por Bimba) vem sempre trazer algo para comer ou um chá. E pergunta, com real interesse, sobre as condições do céu (adorou o conceito de “seeing”). Aliás se tornou uma adoradora de estrelas duplas depois de ir até Albireo).
             Vencido pelo frio, a infusão e a viagem vou dormir.

            Vem o sábado. Outro merchandising: Existe um açougue (daqueles de verdade) onde o dono faz suas linguiças, usa uma luva de malha de metal e te diz qual a carne que você vai levar para o churrasco porque hoje é esta que está boa para caramba que fica próxima ao Poço Feio. Chama-se Parada Obrigatória. Neste sábado a peça é uma costela de porco fresca (carne congelada lá é coisa para otário ou restaurante. Estes porque vão ter que congelar de qualquer forma e vão levar 50 kg.). O preço chega a ser revoltantemente barato para um carioca. Para os "locais" é caro. Mas admitem que é muito melhor que no Açougue Central. Ainda nos “comes e bebes” a cerveja Império, que não é feita de milho, arroz ou genéricos, cabe no bolso e não precisa devolver o casco. Estes tem sidos reciclados e estão usando muito para construção...
            Com toda esta farra me lembro que os maiores inimigos da observação são o próprio observador, seus amigos e a cachaça. Nesta noite a brincadeira é a olho nu. É impressionante a quantidade de constelações que consigo identificar. A casa do mestre é em Boa Esperança. Bortle 3.  Você já viu Aquário? Peixes?  E ainda por cima embriagado... De volta ao primeiro parágrafo deste texto – Sim, é possível observar no Rio. Mas é muito melhor em céus escuros. A navegação, até você se acostumar, é até mais difícil. Mas depois que acostuma... O catalogo Lacaille (que é um velho conhecido) é quase todo perceptível a olho nu. Duas noites mais tarde vou realizar o sonho de perceber (que é diferente de ver...) M 83 sem auxílio ótico. A foto abaixo é fruto de 10 exposições de 30 segundos.  Reza a lenda que é o objeto mais distante visível a olho nu para o habitante do hemisfério sul. M 69 que é membro do catalogo eu não percebi nem com reza braba. Há registros de observações a olho nu de M 81 e 82 no hemisfério norte.
M 83- Newton 150 mm f8 e Canon T3- 10 frames de 30 seg ISO 1600. DSS+ PI+ PS.

            Eu tinha feito uma promessa antes de partir para viagem. Eu iria observar. Astrofotografia é um vicio terrível. É adorável, prazeroso e mostra coisa que você não vê sem demandar muito esforço. Mas a astronomia é um exercício visual. Todo o Catalogo Ngc foi “descoberto” com a visão. E como dizia o profeta “O homem é o exercício que faz.”  A astrofotografia é uma arte difícil. Uma técnica fundamental e poderosa ferramenta. Mas é importante lembrar que não pode ser um fim em si mesma. Fotografar sim, mas ver o céu é a maior é diversão.
            Domingo é a final da Copa que é seguida de um churrasco na casa de um novo amigo. Este é o responsável pela horta do melhor hotel da região. Conheci o filho do dono que me prometeu liberar o Heliponto do estabelecimento para fotografar. Possui quase 360o de horizonte e se vê o mar. Aguardo oportunidade.
            Amanhece segunda feira e é momento de me deslocar para o camping. Um horizonte mais livre e, seguindo o cronograma, noite de observação a sério. Eu queria ser fiel ao projeto. Observar e fazer breves registros fotográficos. Investir no “Projeto Tudo que Existe”. Neste quero as vezes observar todo o Catalogo Ngc as vezes observar apenas suas entradas mais obscuras. Lá quis acreditar que seria factível observar a porra toda. E fotografar estes de forma descompromissada. Não possuo muito tempo para observar e astrofotografia a sério implica em captura poucos (as vezes 1 ou 2...) objetos por sessão. Não vai rolar.
A galera...

            Vou eu, meu pequeno, Tonho (o pequeno do Gil) e João (o mais velho do professor). O ultimo contratado para cuidar dos menores enquanto eu observo. Funciona de forma espetacular. Durante o dia brinco com as crianças, meu filho pesca seu primeiro peixe, usam arco e flecha e são crianças que riem de um jeito que só criança ri. De noite eu observo e graças ao frio estes preferem se refugiar na pequena casa enquanto jogam no computador, fazem guerra de travesseiros, veem filmes e riem como só crianças riem. O céu é espetacular, o alinhamento polar é bem mais fácil com um horizonte mais limpo e eu sou feliz como há muito tempo não era. São tempos difíceis...
            Pulei uma parte da história. Na primeira noite, geralmente estabanada, não conseguia ver quase nada. Atribui ao alinhamento polar pobre ao telescópio que sabia descolimado e uma buscadora mal alinhada. Na manhã seguinte (antes de ir para açougue) fui colimar o Newton e percebi que o primário não estava sujo. Estava imundo. Nunca acredite que você não deve limpar seu espelho. Besteira. Aproveitando da oficina abri o Newton todo e com uma solução de sabão bem fraca limpei o bichinho. Só de olhar para ele vi que tinha ganho de 2 a 3 magnitudes.
            Um objetivo pré-estabelecido era a Bug nébula. Como geralmente acontece por aqui este não compareceu. Na verdade, alguns objetivos planejados no entorno da cauda do Escorpião me foram recusados pelo Synscan. Embora este tenha funcionado brilhantemente em outras regiões do céu. Mas se recusou a localizar a Nebulosa do Inseto (NGC 6308) e da “A Pegada do Gato” (Ngc 6334).  
M 53 

            Me conformo e sigo em frente. M 53 era o penúltimo globular Messier que me faltava observar e fotografar. Não é mais. Fica faltando apenas M 72.

M 27

            Como o Synscan está funcionando bem o norte do equador celeste sigo rumo a Nebulosa do Haltere, M 27. Céus escuros lhe fizeram muito bem. Cheguei a conclusão que nunca a tinha a observado de fato. Extremamente brilhante com visão direta. Nada de visão periférica e técnicas de Yoga...
A Asa da Mariposa- Ngc 6281

            Retorno a luta com o “Inseto”. Perco de novo, mas, no caminho esbarro com uma Mariposa. “The Moth Wing Cluster” (A Asa da Mariposa) se apresenta meio ao acaso durante a busca e após breve namoro me permite fazer umas “nudes”.
            Depois disto resolvo testar a escuridão em algumas galáxias. Cen A e M 83 nunca foram tão gentis. Com paciência e persistência consigo perceber muita estrutura em M83. O Cata-vento se apresenta com 70 X e melhor ainda com 120 X.
            Depois disto volto para o Horizonte norte. Fico todo feliz quando peço a Mlle. Herschel (minha cabeça equatorial HEQ 5) para localizar algo e quando chego na ocular o DSO está lá bem no centro. M 57. A nebulosa do Anel e a segunda planetária da noite. Faço algumas poucas fotos desta. Mas na noite seguinte as crianças conseguem deletar esta enquanto brincam no computador enquanto observo. Com 70 X o Anel é lindo e evidente.
            Caço também a Nebulosa Saturno, mas já cansado e querendo ver as crianças desmonto o circo e vou me reunir com elas.

            No dia seguinte começo cedo e quero visitar algumas novidades. A noite começa em alto estilo podendo ver a lua em conjunção com Mercúrio, Vênus. Júpiter e Saturno já bem alto no céu. E logo mais tarde Marte nascendo super brilhante por trás da Pedra Riscada e batendo Júpiter em mais de meia (0,5) magnitude. É uma “Noite de Gilgamesh”. Nestas se pode observar todos os planetas conhecidos desde a antiguidade.
Perdido na cauda de Escorpião caçando pela "Pegada do Gato"...

            Nesta noite comecei de novo tentando capturar Ngc 6334 com minha lente 300 mm. E novamente o Synscan se recusa a colaborar na região. Mas não quero ficar a noite toda tentando possibilidades de estrelas para alinhamento. Já tinha feito o alinhamento utilizando a rotina de “Three Stars Align” e depois que esta não cravou a “Pegada do Gato” voltei ao mais prático “ Two Stars Align” e com uma combinação que sei funciona bem na maioria das vezes (Acrux e Beta Cen) apesar de não se considerada ideal prelo manual do Synscan parto em busca das novidades.
M 26

            M 26 é um discreto aberto que simula bem um cometa falsificado e que nunca tinha visitado.
            
Ngc 5867 
Depois chego até um globular pouco frequentado e muito interessante. Mesmo com o céu escuro este é um daqueles DSO´s que se apresentam. Mas não são dados. Bem grande e tênue é conhecido como “O Globular Fantasma”.  Trata-se de Ngc 5897 em Libra.
Ngc 5986


            Sigo a viagem ruma a outro globular. Ngc 5986. Localizado em Lupus.  Pequeno, mas bem brilhante.
C 81 

            Mais um globular. Agora membro do Catalogo Caldwell (C81 ou Ngc 6352). Mais um Globular pouco denso em direção ao centro. Estamos em noite temática... Bem mais fácil que o “Fantasma”.
IC 4756- O Aberto é muito maior que a area coberta pelo  sensor. 

            Escolhendo um aberto ao acaso tenho grata surpresa. Um aberto enorme e feito sob medida para minha ocular de 40 mm. IC 4756. Possuidor de vários apelidos: O Aglomerado de Graff, O Jardim Secreto e o Aglomerado Tweedledee. Enorme é um daqueles que para ser todo observado é preciso passear com aumentos maiores. Sensacional.

            Depois visito Vega e faço uma foto desta. É uma estrela cheia de lendas e quero fazer um post a respeito.
M 11

              Um rápido pulo a M 11. Um aberto belíssimo e que visitei poucas vezes. Não fosse o colorido evidente seria quase impossívem diferenciar dos frouxos globulares que observei... O foco ficou bastante a desejar... 
 M 6

             Visito dois velhos amigos que nunca canso de visitar. M 6 , o Aglomerado da Borboleta e M 7, O Aglomerado de Ptolomeu. Neste céus escuros é possível resolver estrelas em ambos a olho nu. Ou quase...  Preciso usar meus óculos. 
M 7

            Depois dou uma namorada em Marte. A calota polar é a única estrutura que realmente percebo. Acho que a tempestade de poeira ainda está cortando o barato dos amigos “planetários” nesta oposição. ‘
            É tempo de desmontar tudo. Na manhã seguinte o plano é partir cedo de volta ao lar. Por mim ficaria até o fim da semana. Mas os custos da operação se impõem e tenho que retornar. Inicio a jornada de volta pela bela estrada Praia-Mar, sigo pela BR-101e chego de volta ao Rio vendo o “Gigante Deitado a partir da Ponte Rio-Niterói.  Agora é processar um monte de fotos e esperar pela Primavera.