sábado, 3 de dezembro de 2016

Ngc 7331- A Galáxia do Cervo

            

            Ngc 7331é uma das mais interessantes e desafiantes galáxias ao alcance de pequenos telescópios.  Na verdade, é um desafio apresentado no “Cosmic Challenge- The Ultimate Observing List for Amateurs” de Philip S.  Harrington (2011) para possuidores de telescópios de médio porte (entre 6 e 9,25 polegadas). Mas o próprio admite que, em locais muito escuros, é possível vislumbra-la (ainda que de forma muito modesta) com binóculos 10X50.  A observei pela primeira vez com o “Galileo” (meu refrator de 70 mm f 13) a partir de Búzios. Um exercício exaustivo e de resultados pouco expressivos. A navegação até um alvo que se apresenta de forma tão discreta foi muito difícil e mesmo com a certeza de ter percebido algo com muito pouca substancia sempre restava a sensação de estar me enganando.
                Ngc 7331 é uma descoberta de William Herschel. Ele a observou 5 de setembro de 1784:
“Muito brilhante, consideravelmente grande, muito extensa, muito mais brilhante no centro. Resolvível. ”  
                É curioso Herschel ter achado que resolvia estrelas em 7331. Mas Herschel e seus contemporâneos suspeitavam que todas as nébulas poderiam ser resolvidas e m aglomerados estelares, desde que telescópios suficientemente grandes estivessem disponíveis. Larry Mitchell nos diz que esta crença é resultado da análise de Herschel de todos os objetos no catalogo Messier os quais ele achou ou serem feitos de nada além de estrelas ou a menos de conter estrelas e de “darem todas as indicações de consistirem inteiramente de estrelas”.  
                .  
                Com o “Newton” (meu refletor de 150 mm f8) não chego a ter a impressão de resolução imaginada por Herschel. Mas seu núcleo de caráter estelar e alguma granulosidade discreta em seus braços me permitem se não endossar as palavras do maior observador visual de todos os tempos pelo menos entender sua causa.  Herschel possuía telescópios muito mais poderosos que o Newton que mesmo com espelhos anteriores ao alumínio resolviam muitos mais detalhes que qualquer telescópio de 150 mm atual.  No período da descoberta de Ngc 7331 Herschel utilizava um telescópio com o espelho primário de 475 mm. Utilizando -se a formula apresentada por Cozens em seu trabalho sobre Dunlop e que na composição do revestimento dos espelhos de Herschel tenha sido utilizada uma mistura de 55% cobre e 45% de latão pode-se dar um “chute culto” que este seria o equivalente a um espelho moderno (recoberto com alumínio) de aproximadamente 250 mm.

               
Ngc 7331 é uma galáxia de grande interesse cosmológico. É uma das poucas galáxias conhecidas em que a região central (o bojo galáctico) gira em um sentido e os braços em outro...  As causas para tamanha estranheza são controversas. Em Estudo realizado por F. Prada, C. M. Gutierrez, R.F. Peletier e C.D. McKeith (1996) são apresentadas duas hipóteses (e nenhuma certeza) sobre o que acontece em Ngc 7331. A primeira hipótese (e mais aceita pela comunidade...) é que o componente central da galáxia seja externo a própria galáxia. A estrutura final é resultado de um processo de integração entre duas galáxias. Mas os mesmos, embora não apresentem os processos envolvidos e nem a mecânica da coisa, não descartam a possibilidade de nossa “ cuckoos nest” ter surgido de uma única nuvem protogalactica onde o momento angular tenha mudado tão drasticamente em função de seu raio.
Existem ainda alguns indícios que parecem fazer as apostas penderem a favor de um choque ou absorção galáctica. Dados espectrográficos indicam que houve um “baby-boom” estelar na região nuclear de nossa galáxia. As estrelas nos 3´´ centrais (650 anos luz) do disco galáctico enquanto relativamente jovens (cerca de 2 bilhões de anos) são muito ricas em metais (qualquer coisa além de hélio na tabela periódica...) e formam algo como um anel circumnuclear formado no “baby boom”. Outras estrelas na região central também parecem fruto de um outro carnaval. Este mais antigo, por volta de 5 bilhões de anos. Estes episódios de explosão “demográfica” entre estrelas são comumente associados a processos de fusão e canibalismo galáctico...

Ngc 7331 faz parte do Esporão de Galáxias de Pégaso. Uma reunião de 35 sistemas que inclui uma das galáxias do famoso Quinteto de Stephan.  
Em uma daquelas raras coincidências que talvez tenham algo a ver com as leis fundamentais do universo Stephan nos diz em 1884 que “ não seria exagero dizer que depois d ter observado mais de 6000 nébulas nós sabemos (ele pelo menos...) que a nebulosas não se encontram distribuídas de   forma homogênea pelos céus e muitas delas estão reunidas em grupos mais ou menos numerosos e mais ou menos próximos... Das 420 nebulosas publicadas 171 (um número “cabalístico”...)  pertencem a 65 grupos.
Ngc 7331 e suas associadas formam o primeiro grupo compacto de galáxias registrados. Ainda que sua verdadeira estrutura como um grupo seja discutível.
Ngc 7331 faz parte do atualmente chamado “The Deer Lick Group”. Por isto é, as vezes, chamada de “A Galáxia do Cervo”. Mas a origem deste nome é muito recente e nada tem em comum com as leis fundamentais.
O amador Tomm Lorezin ficou fascinado com o conjunto da obra ao observar este dos céus de cristal na Deer Lick Gap, na Carolina do Norte.
Ngc 7331 é a galáxia mais brilhante no Deer Lick Group. Este é formado por ela, Ngc 7335, 7336, 7337 e 7340. Apesar de parecer pequena Ngc 7331 é uma galáxia enorme. Estando entre 47 e 50 milhões de anos luz de nós ela se esparrama por cerca de 135.000 anos luz e possui uma massa de 300 bilhões de sóis. Um tamanho semelhante a Galáxia de Andrômeda e superior à nossa Via Láctea.  Apesar do nome as outras galáxias no grupo são objetos muito mais distantes e se encontram a uma distância média incrível. 300.000.000 de anos luz. Elas podem parecer pequenas e modestas satélites de 7331. Mas possuem tamanhos semelhantes.
No universo coisas interessantes acontecem. Da mesma forma, o vizinho Quinteto de Stephan parece ser composto de 5 galáxias a distância de uma delas (Ngc 7320) a coloca junto com Ngc 7331. Elas são galáxias de um mesmo grupo. E as outras quatro galáxias de Stephan são mais distantes e não interagem com a primeira. Apesar das evidências existe uma minoria que discorda disto e atribui a diferença do redshift destas a fenômenos não muito bem explicados. Embora uma minoria é uma minoria bem barulhenta.

Para chegar-se até Ngc 7331 é necessário primeiro localizar o “Quadrado de Pégaso”. Um asterismo formado por quatro estrelas que domina o início da noite nos meses outubro e novembro. Embora fracas elas comparecem mesmo em condições bem extremas de poluição luminosa.  A Estrela mais a noroeste do quadrado é Scheat (b Peg Mag ~2,7) . A noroeste desta esta Matar (h Peg Mag 2,93). Este é seu último porto seguro. Crave a buscadora sobre ela e sabendo que Ngc 7331 está a quase exatamente 40 ½ ao norte de Matar calcule um campo de buscadora (10X50) e você vai estar muito próximo. A região é bem pobre em estrelas. Em locais muito escuros você irá suspeitar de sua presença na buscadora. Mas não conte com isto...
Utilizando 70X de aumento percebo a estrutura espiral de Ngc 7331. Surgem diversas estrelas fracas em campo.  Com muita visão periférica, hiperventilação e persistência Ngc 7335 e Ngc 7337 acham seu lugar na existência sem ser necessário convocar uma mesa branca...
Nas fotos realizadas (20 exposições de 30 segundos ASA 3200) alguns outros membros se apresentam de forma discreta.  Importante ressaltar que as entradas Ngc 7327, 7326, 7325, 7333 que aparecem listadas na foto são, na verdade, estrelas binárias muito tênues e que enganaram a seus descobridores.  


Ngc 7331 é um alvo interessantíssimo que envolve um grande desafio de navegação e que em telescópios médios revela detalhes bastante interessantes para aqueles que se dispuserem a extrai-los. E os outros membros do Deer Lick group são algumas das galáxias mais distantes que já observei. 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Galáxias e Pequenos Telescópios

           Observar galáxias visualmente com pequenos e médios telescópios é um exercício de paciência e tenacidade.
                Algum treino e técnicas serão de grande valia para a o neófito.
                Para aqueles que compraram seu primeiro telescópio (e imaginando que este se trata de um refrator de até 90 mm de diâmetro) recomendo iniciar seu treinamento buscando por outros DSO´s até que tenha desenvolvido sua capacidade navegacional e se entendido bem com sua montagem (especialmente se esta for equatorial). Outra coisa fundamental é possuir uma buscadora ótica de qualidade e com o máximo de aumento possível. Recomendo que utilize uma buscadora 10X50 mm. Ou seja: uma buscadora com uma lente de 50 mm de diâmetro e com uma magnificação de 10X. A menos que você consiga um prisma eretor é importante também acostumar-se com observar tudo invertido. Em cima será embaixo e direita será esquerda.
EU VERIA O JARDIM MUITO MELHOR”, disse Alice para
si mesma, “se pudesse chegar ao topo
daquele morro, e cá está uma trilha que leva
direto para lá… pelo menos — não, não tão
direto…” (depois de seguir a trilha por alguns
metros e dar várias viradas bruscas)
“mas suponho que por fim chega lá. É interessante
como se enrosca! Mais parece um
saca-rolha que um caminho! Bem, esta volta
vai dar no morro, suponho… não vai! Vai
dar direto na casa de novo! Bem, neste caso
vou tentar na direção contrária. ”
                                                         Alice Através do Espelho (Lewis Caroll)  

                Depois de aprender a caminhar no País do Espelhos que se esconde dentro de sua buscadora ficará bem mais fácil localizar alvos tímidos como galáxias. Mesmo que você possua uma montagem equipada com Go-To.  Galáxias, muitas vezes não se apresentam imediatamente ao observador. E desta forma desenvolver suas habilidades de “star-hooping” (pulando estrelas) será fundamental para localizar estes universos-ilhas.  Você geralmente irá começar o passeio junto a sua buscadora e depois de determinado ponto seguirá viagem utilizando sua ocular de maior campo. Atualmente utilizo ou minha 40 mm ou minha 26 mm.
                Quando caçando por DSO´s em geral e por galáxias especificamente telescópios terão uma função diferente de quando buscamos por imagens da lua, planetas ou paisagens terrestres. Nestes casos seu principal propósito é ampliar o detalhe distante. Com DSO´s terá como principal missão (mas não somente esta...) coletar luz para seus olhos pouco sensíveis.  Ao observarmos galáxias o nosso problema não é que estas sejam muito pequenas.  É que elas são muito “escuras”.  
                Observar DSO`s inclui um repertório de técnicas e normas que no caso de galáxias devem ser conhecidos e respeitadas à risca.
                Brilho do Céu -  O fator isolado mais importante para a observação de galáxias (e dso´s) é a poluição luminosa. Passei anos tentando observar M 83 do Rio de Janeiro sem nenhum sucesso e bastaram alguns minutos para localiza-la em diversos locais de céus mais “limpos”. Não que seja impossível, mas o que você irá perceber será como um espirito assombrando sua ocular.  Alguns truques podem ajudar aqui. Um é tentar observar os objetos sempre o mais próximo a zênite possível. Observar depois de 00:00 e durante a madrugada também ajuda um pouco já que muitas luzes externas são apagadas durante a madrugada.
                A lua é uma inimiga terrível de DSO´s.
                Adaptação ao escuro- O ser humano é um ser diurno apesar da boêmia ser responsável por algumas de suas mais belas criações. E assim o olho humano funciona de forma muito mais eficientes com níveis de luminosidade altos e estando-se sóbrio. Sem entrar em detalhes sobre a fisiologia do olho humano vamos deixar claro que nossa capacidade visual noturna melhora com a adaptação ao escuro. Depois de quinze no escuro total você vai ver melhor no escuro (até seis vezes mais ou duas magnitudes...). Mas as coisas ainda continuarão melhorando por mais uma hora e quinze minutos. Inicie sua observação com alvos mais fáceis e depois ataque galáxias tênues e inicialmente invisíveis para sua visão.
                Visão Periférica – Uma técnica fundamental para perceber objetos muito escuros ou tênues. Olhando diretamente para eles a luz destes objetos vai recair sobre a fóvea centralis (a parte mais central de sua retina) a qual possui muitas células cone. Estas embora percebam cores não se dão bem com baixos níveis de luminosidade. Por isto não percebemos cores em nebulosas e galáxias. Mas evitando-se olhar diretamente para os objetos que observamos (olhando de rabo de olho...) conseguimos perceber estruturas com baixíssimo nível de luminosidade. Esta técnica faz com que a luz destes tênues objetos recais mais nas bordas de retina aonde se concentram bastonetes. Estas são células que percebem luminosidade. Mas não cor. Por isto galáxias, quase sempre, serão imagens em escala de cinza para observadores visuais. Mesmo em telescópios bem grandes... A quem interessar possa pesquise por “rodopsina” no Google.
                Aumento ótimo-  Reza a lenda que pequenas magnificações funcionam melhor para DSO´s. Afinal com pequenos aumentos a pouca luz destes objetos será concentrada em uma área menor e assim aumentar seu brilho de superfície. (a quantidade de luz atingindo x milímetros quadrados em sua retina.) Mas estudos recentes nos dizem que nem tudo é o que parece ser. E assim vamos aprofundar um pouco o assunto.
                Ao contrário de câmeras ou outros sistemas puramente eletrônicos, químicos ou mecânicos os olhos perdem resolução em baixos níveis de luminosidade. É por isto que você não consegue ler a Astronomy Magazine no escuro embora possa ver a revista mesmo que sua retina dilatada deveria, teoricamente, resolver as letras melhor que durante o sol de meio dia. Estudos revelam que o olho humano pode resolver detalhes de quase 1 arcmin (1/60 de grau) em luz brilhante, mas não pode revelar detalhes menores que 20 ou 30 arcmin (1/3 a ½ de grau) em condições de baixa luz. Uma área quase equivalente a lua no céu. Assim detalhes ou mesmo a existência de alguns dsos só pode ser registrada se este forem ampliados até algumas dezenas de minutos de arco.  
                O recado é simples. Embora você use sua ocular com o maior campo disponível para localizar suas galáxias você poderá ter que acreditar que seu “star-hooping” foi eficiente e trocar esta por uma com um campo mais modesto e tentar ver o que você não via antes... Uma boa ideia é possuir uma boa ocular com zoom. E as boas são caras...

                 Valores de magnitude podem enganar. Procure pelo brilho de superfície das galáxias que você tem em mente observar para imaginar quão duro será o teste.
                “Last but not least”: Galáxias em espiral de perfil para nós (edge on) são mais facilmente percebidas que galáxia de “frente para nós” (face on). M 33 por exemplo é uma galáxia de 5,7a magnitude. Mas de frente para nós e cobrindo uma área de mais de um grau de firmamento apresenta um brilho de superfície baixíssimo e é um alvo bastante difícil de ser observado. Seria como o brilho de uma estrela de 6a magnitude se espalhando por uma área com o dobro do tamanho da lua cheia...
                P.S. – Faça seu dever da casa e estude os mapas que você conseguir em programas planetários. Localize padrões em estrelas que indiquem que você chegou ao seu destino.
                Agora gostaria de apresentar uma lista de galáxias que são mais simpáticas a observação por pequenos aparelhos e o caminho das pedras para que você não só chegue como as observe de fato.  



               M 31-  Grande Nebulosa de Andrômeda. É certamente a galáxia mais facilmente observável do céu. Seu núcleo é facilmente percebido a olho nu mesmo em locais bastante poluição luminosa (bortle 6 ou 7). Em locais escuros a nebulosidade cobre uma área enorme mesmo com vista desarmada. Pelo telescópio em locais escuros o núcleo é muito brilhante e percebem-se faixas escuras entre seus braços que se apresentam claramente com o uso de visão periférica. Mesmo com visão direta se consegue detalhes.   Localizar Andrômeda é bem fácil.  Primeiro ache o “Quadrado de Pégaso”. Uma de suas estrelas é Alpha Andrômeda. A constelação em si parece como uma cauda se esticando do quadrado em direção a nordeste. Em Andrômeda Localize Mirach e duas estrelas menos brilhantes (Upsilon e v And) que marcam a “cintura de Andrômeda”. Seguindo a corrente você irá perceber uma pequena região enevoada. Ela será obvia pela buscadora. Este é seguramente o alvo mais fácil desta lista. Como cobre uma área muito grande se você utilizar muita ampliação é possível que não consiga ver todo o conjunto da obra. Seu núcleo suporta ampliações absurdas e é mais fácil de se perceber que diversos globulares.





           M 33     - A galáxia do Triangulo.  Esta demanda céus muito escuros. Cobrindo também uma área muito grande do céu muitas vezes é difícil percebe-la com muita magnificação. Acho M 33 um alvo binocular difícil e um alvo telescópico mais difícil. Em locais escuros ela se revela com bastante detalhe usando-se visão periférica. É possível perceber diversas regiões HII nos braços da mesma que possuem entrada no catalogo Ngc e IC só delas. IC 133 é o mais fácil deles. Para localizar M33 ache Mothallah (Alpha Triangulo) e Mirach calcule a posição dela em relação a estas estrelas e tente a sorte. Partindo-se de Mothala existe uma estrela de 7a magnitude que indica o caminho.... Estude bem o mapa e boa sorte.



               

      
 Ngc 5128- Em Centauros. Facilmente percebida pela buscadora. Geralmente parto de Ômega Centauro (o Globular mais brilhante e que você deve estar localizando até mesmo vendado antes de tentar galáxias...) e seguindo uma linha de fracas estrelas rumo norte ela estará lá. Revela muitos detalhes e suporta bem magnificação. Sua faixa de poeira é muito evidente mesmo em binóculos grandes (15X70). Um espetáculo nos céus austrais.


   

                                                    

                                                                             
                                                                     
  Ngc 4945- Esta é fácil de achar. Localize z centauro (uma estrela dupla) e com seus dois membros em quadro e Ngc 4945 estará lá. Muita visão periférica e hiperventilação (respirar profundamente durante vários segundos antes de olhar na ocular...) poderá ajudar a separar esta do fundo do céu. Sua extremidade leste é mais brilhante que a oeste.   










Ngc 55 – Localizada próxima a Ankaa (Alpha Phoenix) Ngc 55 é uma bela galáxia que se apresenta de perfil para nós. O que, em tese, facilita as coisas. Mas atenção e céus escuros vão ajudar muito.  A partir de Ankaa siga um sinuoso caminho de fracas estrelas (mas em um campo sem muitas estrelas...) que lhe levará até o destino. Assim como Ngc 4945 uma de suas extremidades é mais brilhante e mais facilmente percebida.









Ngc 253- A grande galáxia de escultor. Localizada quase exatamente entre Diphda (Beta Ceti) e Alpha Sculptor e com Ngc 188 (um obvio globular) bem próximo Ngc 253 é um alvo relativamente fácil. Só se revela para a buscadora em locais escuros. Mas tendo-se estudado bem a área em mapas bem ampliados vai se perceber um pequeno triangulo de estrelas sobreposto a galáxia e que denuncia sua posição.







M 83- A galáxia do Cata-Vento austral. Localizada na fronteira entre Hydra e centauros é uma galáxia de frente para nós.  A navegação até a mesma não é muito fácil. Ela reside entre Menkent (q Cen) e y Hydra . Partindo-se de Menkent passa-se por algumas estrelas mais brilhantes rumo ao norte. Seguindo-se em direção a Hydra em uma região bem pobre de estrelas em campo se encontra a galáxia. Pouco mais que uma estrela fora de foco. Com atenção e em céus mais escuros se percebe a nebulosidade ao redor. Com mais ampliação percebe-se traços de seus braços. Um mais evidente que o outro. Foi incrível Lacaille descobrir este DSO com uma luneta de apenas 12,5 mm.   É o alvo mais difícil no catalogo Lacaille e o ultimo que observei. Céus escuro são importantes para pequenos instrumentos.  




Não poderia deixar de citar M66 , M65 e M 104 como outras belas e "fáceis" galaxias par possuidores de pequenos telescópios  e que estejam se iniciando nesta nobre arte. Estas até mais fáceis que algumas das galaxias acima presentadas. Mas achei importante apresentar diversas representantes dos céus austrais que embora acessíveis a pequenos aparelhos ficam de fora de muitas listas.
Depois de estes alvos tentar a sorte no Aglomerado da Virgem será um passo óbvio. A região pipoca em galáxias e diversas destas são até mais fáceis que algumas das aqui apresentadas. Mas com tantas galáxias seu “starhooping) deverá ser afiado. Pois em campo com poucas estrelas e muitas galáxias pode ser difícil de saber quem é quem. E mesmo em campo tão rico em galáxias percebe-las pode ser bem mais difícil que se supõe.  Você vai utilizar técnicas de “galaxyhooping”.
A Observação visual de galáxias em pequenos aparelhos é para aqueles que realmente gostam de DSO´s. será difícil achar e não espere detalhes (ao menos na maioria das galáxias).

Galaxias são também interessantíssimos alvos fotográficos e através da astrofotografia revelam detalhes muitas vezes inimagináveis junto a pequenos ( e mesmo grandes) telescópios.

Todas as galaxias aqui apresentadas já foram apresentadas de forma mais aprofundada no Nuncius Australis. Uma rápida pesquisa pode levar aos respectivos posts para aquele que assim desejarem.  




                 
               




domingo, 27 de novembro de 2016

M 77 - A Mãe das Galaxias Seyfert

           
              Galáxias Seyfert são assim chamadas por terem suas características mais intrínsecas definidas por Carl Seyfert, que em 1934 percebeu que suas regiões centrais possuem um espectro peculiar e fortíssimas linhas de emissão. Enquanto espirais “ normais” possuem seu espectro composto pela luz de suas estrelas e este possuirá detalhes diretamente relacionados a composição de sua população estelar em determinada região da galáxia. As ditas galáxias normais possuirão o espectro de suas regiões centrais semelhantes aos das estrelas antigas (população II) das quais são feitas... Já algumas galáxias que passam por surtos de formação estelar em seus núcleos terão o espectro de suas regiões centrais marcado pelas linhas de emissão comuns a Estrelas jovens do tipo O e B. São as chamadas galáxias “Starburst”.
                Galáxias Seyfert apresentam grandes quantidades de gás em seus núcleos não associados a estrelas do tipo O e B. Seu núcleo são chamados de Núcleos Galácticos Ativos (Em Inglês se utiliza o acrônimo AGN.  De “Active Galactic Nuclei”). Embora as galáxias Seyfert sejam o tipo mais comum de AGN´s   existem outros tipos. Os mais famosos são os quasares e as radio-galáxias. A nomenclatura de certas galáxias pode ser um pouco sinuosa e esta ser uma galáxia Seyfert e também uma rádio galáxia.  O lugar comum em todas estas AGN´s é que o espectro suas brilhantes regiões centrais não é associado à luz de origem estelar...
                Seyfert criou uma lista onde reuniu 12 galáxias que apresentavam características linhas de emissão em seus núcleos. Em um trabalho seminal lançado em 1943 ele demonstra que estas possuem núcleo com linhas de emissão peculiares em seus espectros que se sobrepunha as linhas de absorção típicas de características estelares. E nestas as linhas de emissão eram muito mais amplas que em galáxias “ normais”. E não só isto. Suas regiões centrais são extremamente brilhantes e de aparência estelar ou quase estelar.
                “As 12 Seyfert´s Originais” são:  M 77, Ngc 1068, Ngc 1275, Ngc 2782, Ngc3077, Ngc 3227, Ngc 3516, Ngc 4151, M 106, Ngc 5548, Ngc 6814 e Ngc 7469.
                M 77 é a galáxia Seyfert mais estudada de todas e a que possui a mais longa e bela história. E como observar todo Catalogo Messier é uma daquelas questões de honra para a maioria dos astrônomos amadores não poderia deixar de ser perseguida no Nuncius Australis. Não bastasse isto sua posição na constelação de Cetus a torna um alvo acessível para os habitantes do Tropico de Capricórnio.
                Continuando a rasgação de seda: ela é o mais perto que pode-se chegar de um quasar. Estes são objetos muito mais distantes e de “outros tempos”. Mas como ambos são AGN´s existe uma corrente que prega tratarem-se da mesma coisa embora em ângulos de visada e escalas diferentes.  Na verdade, há hoje um certo consenso que quasares, Galáxias Seyfert, Objetos BL Lacertae, Radio Galáxias e Cia Ltda. são resultado de um mesmo fenômeno físico. Buracos negros muitos maciços interagindo com a matéria em núcleos galácticos.
                Como já falei acima Galáxias Seyfert possuem núcleos muito brilhantes. Isto as torna simpáticas a causa de astrônomos amadores que possuem equipamentos modestos e lutam contra poluição luminosa.
              
                  M 77 é facilmente localizada a 1o de Delta Ceti (4a mag.) e colada a uma estrela de 10a magnitude. Desta forma parecendo uma estrela dupla. Com 50X de aumento percebe-se imediatamente que M 77 não é uma estrela. Embora não perceba detalhes de seus braços noto imediatamente uma barra cruzando o brilhante núcleo. Devido a presença de nuvens fiz poucas exposições da mesma e as fotos que acompanham este post dão um excelente exemplo do que você irá perceber com sua vista. O melhor resultado que obtida foi com minha 17 mm. Mas creio que com mias aumento ela seja ainda melhor. Infelizmente minha ocular 10 mm não é de uma qualidade tão boa quanto a 17...Como falei ela se assemelha muito a uma espiral barrada embora em fotos com exposições mais longas e elaboradas das aqui apresentadas a galáxia apresenta uma estrutura quase “gran design” embora com os braços bem fechados.  Já a observei com meu binóculo 15X70. O núcleo é evidente e a estrela “parceira” a denuncia. Percebe-se leve nebulosidade a redor do núcleo.  Tenho certeza que com mais tempo de captura e um local escuro fotografias irão revelar muitos detalhes nesta. Estando quase de frente para nós (Face -on) seus braços apresentam baixo brilho de superfície e são alvos interessantes em locais de pouca poluição luminosa. Em condições suburbanas claras (Bortle 6 ou 7) o núcleo e a barra central são os únicos que detalhes percebo. Mesmo com visão periférica. Talvez com um pouco mais de esforço e em noite de excelente transparência consiga espremer mais sutilezas ...

                M 77 foi descoberta por Pierre Mechain, o maior parceiro de Messier, na noite de 28 de outubro de 1780.: 
                “ Observada em 17 de dezembro de 1780 – Aglomerado de tênues estrelas o qual contém nebulosidade, em Cetus, e no mesmo paralelo que a estrela d  Ceti. Esta foi reportada como de 3a magnitude s a qual M. Messier estimou como de apenas 5a   M. Messier viu este aglomerado em 29 de outubro de 1780 como uma nébula”.
                Diversos autores perceberam alguns nós entre a nebulosidade e como era habito entre os observadores “clássicos” estes imediatamente “resolviam” estrelas.  
                Smyth em seu “Cycles of Celestial Objects” e/ou “The Bedford Catalog” nos conta:
                “ Uma nebulosa estelar arredondada, próxima a delta mandíbula inferior da baleia... Primeiramente observada por Messier em 1780 como uma massa de estrelas (a mass de etoiles) contendo nebulosidade. É pequena, brilhante e exatamente em linha com três pequenas estrelas, uma precedendo e duas seguindo, e a qual a maior e mais próxima é uma de 9a magnitude para sf (South following, SE) existem outras diminutas companheiras no campo que é diferenciado de Gama Ceti
                Este objeto é maravilhosamente distante e insulado, com presumível evidencia de densidade intrínseca em sua agregação, e demonstrando a existência de uma força central, residindo ou em um corpo no centro de gravidade de todo o sistema.  Sir William Herschel observou este objeto repetidas vezes e conclui:  através observações com o telescópio grande, de 10 pés, com um poder de ampliação de 72,82 vezes, nós podemos concluir que a profundidade de sua parte próxima é pelo menos de 910a ordem. Isto 910 vezes mais distante que as estrelas de 1a magnitude”.
                Podemos perceber como evoluiu o entendimento das estrelas e de como cresceu nosso universo pouco mais de 200 anos... Herschel foi o maior astrônomo do início do século XIX e acreditava que o brilho das estrelas dependia exclusivamente de sua distância. Mas a presença de um corpo muito maciço no coração de M 77 parece um ato de clarevidência de Smyth...
Esta é do Hubble Space Telescope....

                As distancias no universo são sempre alvo de discussão. O valor de 60 milhões de anos luz para M 77 na página de Hartmutt Frommert. Em se tratando de Messier é sempre uma fonte a ser levada em consideração. Isto a colocaria a uma distância semelhante ao aglomerado de Coma Virgo, mas em outra direção.  Outras fontes invocam 47 milhões de anos luz. E outras ainda vão além de Coma Virgo o que faria de M77 o objeto mais distante do Catalogo Messier.  M 77 foi o segundo objeto (o primeiro foi M 104) a ter um grande desvio para o vermelho medido (1914) e ela se afasta de nós a 1100km/seg.
                   M 77 possui  seu próprio grupo . Mas a maioria de sua damas de companhia é bem tímida.
                M 77 foi ainda uma das 14 primeiras nebulosas espirais descobertas e descritas por Lord Rosse com seu histórico telescópio conhecido como o “Leviatã de Parsonstown”.
                Uma das mais acessíveis e cheia de histórias entre as Galáxias Seyfert para amadores e em excelente posição para observação neste final de primavera logo no início de noite.

               

                

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Ngc 55 : O Colar de Pérolas

               


                              O Nuncius Australis é um diário. Um Blog.
                         Blog – “ Web log”.
                  Log é uma palavra da língua inglesa que significa registro.
                 Neste aqui um registro de histórias de fundo astronômico.
                  Uso muito uma expressão que é “ folclore familiar”.
              Imagino que cada família tenha o seu. É uma coleção de histórias, expressões, manias e outra coisitas más que só fazem sentido para um determinado grupo de pessoas. 
                  Até mesmo das histórias que se contam a seus descendentes.
                 Meu tio tem por habito contar histórias de livros que já tenha lido. Durante minha infância eram sempre livros de aventura, suspense e guerra.  Um de meus programas favoritos era ouvir as histórias enquanto subíamos pelos teleféricos através da montanha. Um de meus favoritos era “Beau Gest”.  
                No meu núcleo mais próximo (eu, cara metade e os filhos) uma data sempre celebrada é a “Aporema”.  Assim festejamos os solstícios e equinócios. Na verdade é uma festa “quase pagã”. Possui a data móvel. É sempre festejada na lua nova mais próxima dos respectivos eventos que seja possível visitar céus mais escuros.  É o momento quando é possível observar o céu que determina qual é estação que estamos.   Determina qual são os Dso´s a serem abatidos e que tem a temporada de caça aberta.
                Recentemente fomos festejar a Apoema e depois de dois dias de “apoemar” muito chegou a família e em aventuras mais diurnas fiz a travessia da Praia da azedinha para a praia de João Fernandes. Eu e minha mais velha. No caminho contei a história de Beau gest para ela. Ela que nasceu na idade das trevas digital me encheu de esperança.
                - Põ pai! Quero ler. Compra para mim?
                Por conta desses passeios li toda a obra de Frederick Forshythe  ( os melhores são “ O Dossiê Odessa”, “ O Dia do Chacal” e “ Cães de Guerra”)
                Ainda falando de folclore familiar é claro que existe uma hierarquia. Algo como o olimpo.
                Na mitologia grega antes dos deuses vem as forças. Uma ideia bem moderna até hoje em dia. 

                Segundo uma das versões gregas da criação Existe ou vem existir em um determinado local além do tempo algo chamado por eles de “Caos”. Este é um elemento hermafrodita. Dele nasce Nix, a segunda criatura. A personificação da noite. Neste desmembrar caótico surgem algumas partículas fundamentais conhecidas. Além de Nix surge Erébus (A trevas abismais). Destas forças fundamentais surgem todos mitologia e deuses olimpíacos.



                -No folclore familiar, minha vó Musa ocuparia seguramente o lugar de Nix.  A noite. A primeira partícula a ocupar o existir. Primeira filha de Caos.
                NGC 55 pode se apoderar da imagem que O ‘Meara utiliza para descrever Ngc 253:" A ordem começando a surgir do caos".  
Na Aporema “atrasada” deste ano Ngc 55 foi um dos DSO mais distantes observado. E certamente o mais interessante dos alvos da temporada.  “Aporema” é tupi para “aquele que vê longe”.
                Localizada próxima de Ankaa (Alpha Phoenix) é meu objetivo principal na noite de2 para três de novembro de 2016. Na véspera ou antevéspera do Dia dos Mortos.
                Para deixar o cenário bem dramático eu passaria esta Aporema só. O núcleo base só chegaria dois dias depois.  
                Ngc 55 é também chamada de “ O Colar de Pérolas”. Um dos tesouros austral. Um dos maiores tesouros austrais.             
Realizei dezenas de exposições de Ngc 55 . Mas O resultado final de todas a combinações de processamento acabaram com muito ruído. Foram feitas exposições de 20 e 30 segundos com ASA 1600 e 3200. E 10 Dark frames. Ao longo do post serão apresentados os resultados fotográficos obtidos. Tenho utilizado o Gimp no lugar do Photoshop com resultados bem semelhantes. Desta forma todo o processamento tem sido realizado com programas freeware. 

                Em condições suburbanas claras (Bortle 6 quase rebaixado para 7) ela é um alvo visual difícil para o Newton (um refletor 150 mm f8).
                Nas condições de Búzios você procura por um triangulo de fracas estrelas. Uma vez achado o triangulo cabe acertar o campo e conseguir ver Ngc 55. É uma tarefa factível. Mas implica em boa adaptação noturna e algum treino.  É certamente mais fácil perceber Ngc 55 do que M 33 em locais de poluição luminosa. Ela possuí regiões de forte concentração que formam algo como uma nebulosa com vários núcleos. Uma vez percebidos a nebulosidade que os conecta se torna mais evidente com visão periférica.  Olhando a foto abaixo você vai perceber que sua parte sul é bem mais tênue que o restante. Ela possui inclusive uma entrada diferente no catalogo IC. Creio perceber a estrutura, mas apenas por saber que esta existe.
40 exposições de 20 e 30 seg . ASA 3200 ( a grande maioria..) Rot n Stack sem dark frame adicionado. Gimp.

                Trata-se de uma galáxia espiral barrada que se apresenta quase de perfil para nós. Sua distância é algo discutida. Varia entre 4.2 milhões de anos luz e 7,5 milhões. Aceitando-se os valores mais baixos ela residiria entre o grupo local e as margens do Aglomerado de Escultor. Aceitando-se os valores superiores ela se encontra no Aglomerado de Escultor propriamente dito.
                Ngc 55 é cantada em prosa e verso por diversos autores como uma das galáxias mais interessantes para possuidores de pequenos telescópios. Walter Houston, autor por anos da coluna Deep Sky Wonders diz “ que certos DSO´s nos oferecem experiências visuais de tirar o folego”. De céus suburbanos claros (bortle 6 ou 7) é me parece um pouco otimista. Mas sem dúvida Ngc 55 será um show de detalhes em céus bem escuros.   Algumas fontes mais antigas dizem que a galáxia é o maior membro do Grupo de Escultor. Não é verdade. Ngc 253 não só é maior como  se apresenta mais facilmente para pequenos instrumentos.
                Tendo localizado a porção de céu onde habita Ngc 55 é provável que você perceba apenas algumas pequenas estrelas que cercam um conjunto de estrelas mais tênues ainda alinhadas. Estas estrelas alinhadas são condensações nos braços de Ngc 55. Regiões de intensa formação estelar. Com visão periférica, hiperventilação e outros truques você irá perceber que todas estão envoltas em nebulosidade que se acentua conforme você vai insistindo na observação. Cobre um belo campo de uma ocular de 25 mm. Uma de suas extremidades é muito discreta e pouco mais é que um suspiro de existência.
1 X 25 seg. 3200 ASA canon T3 Creio que muito do ruido deva-se a muita umidade presente em uma noite supostamente limpa... Semelhante ao que se observa visualmente. Com esforço, tempo e visão periférica você poderá perceber alguns detalhes ocultos ao CMOS...

                John Dunlop foi o primeiro a observa-la e esta tornou-se a 507aentrada de seu catálogo de 1827.   Sua impressão me faz lembrar que Cozens, em sua tese, comparou seu refletor de 9 polegadas e com espelho especular com um moderno refletor de 150 mm (igual ao Newton).  “Uma bela e longa nébula com 25´ de comprimento; posição norte precedendo (Noroeste) Sul seguindo (sudeste), levemente mais brilhante em direção ao centro mas extremamente tênue e diluída em direção as extremidades. Eu vejo diversos pontos minúsculos ou estrelas como se através da nebulosidade. A matéria nebulosa de sua extremidade sul é extremamente rara e de delicada tonalidade azul. ”
                Apesar de desenhos e a descrição acima Swift tenta se apropriar de um dos braços de Ngc 55 e isto acaba por criar IC 1537. Esta extremidade parece se separar do corpo da galáxia por uma faixa escura e isto leva Swift a se apoderar deste pequeno reduto. “ Como Sir John Herschel não marcou isto (Ngc 55) como sendo um objeto memorável parece-me plausível a ideia de que isto (IC 1537) não tenha sido percebida nem por ele. ”
Favorita. As 15 melhores fotos+ 10 darks no DSS. Acredito que uma visão semelhante possa ser obtida visualmente de céus mais generosos que Búzios.

                São assunções bastante duvidosas. Dunlop fala claramente em quão discreta era a nebulosidade na região em questão com John Herschel nos diz em sua observação de 4 de outubro de 1836 que é “ Uma muito longa, irregular e granulosa cauda composta de três núcleos, sendo o segundo composto de estrelas”. De qualquer forma Ngc 55 e IC 1537 são partes de uma mesma galáxia.
                Ngc 55 possuem diversas regiões HII é uma das poucas galáxias onde possuidores de pequenos telescópios podem notar tais estruturas “facilmente”; São os “núcleos” que você percebe inicialmente na sua observação.
                           

                Localizar Ngc 55 partindo-se de Ankaa e seguindo um pequeno zig-zag de estrela binoculares não chega a ser difícil. Mas é necessária bastante atenção para saber que se chegou a ponto certo. Em locais de muita poluição luminosa ela será um alvo para astrofotografia.  Recomendo que estude bem a região utilizando um mapa para localizar um padrão de estrelas composto por um pequeno triangulo que aponta para duas estrelas. Uma estrela de 7 magnitude se sobrepõe a galáxia e a denúncia.
                Ngc 55 foi batizada como “Colar de Pérolas” por Carolyn Shoemaker ao vê-la em uma foto realizada por seu marido Eugene e David Levy. Famosos caçadores de cometas.  Ela mesma tomando a galáxia como um cometa em fragmentação.  Muitos dos presentes devem se lembrar do Cometa Shoemaker que se espatifou contra Júpiter.

                Apesar de possuir um brilho de superfície relativamente baixo seus “ núcleos” ajudam a localizar esta joia. É uma das mais interessantes galáxias austrais e por isto foi incluída por Sir Patrick Moore na sua lista de objetos favoritos e conhecida como o catalogo Caldwell. É por isto também chamada de C 72. Um DSO obrigatório para amadores abaixo (e os nem tão acima) da linha do equador.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

M 34 e Algol


             M 34 é um aglomerado aberto que habita a constelação de Perseu. Esta passeia baixa nos céus na latitude do trópico de Capricórnio. Consequentemente apesar de ser um DSO bem brilhante eu jamais havia rendido homenagem a este belo aglomerado...
            A constelação é sempre lembrada pelo ainda mais boreal “Aglomerado Duplo” (Ngc 869 e Ngc 884) que curiosamente não foi incluído por Messier em seu Catalogo.
            M 34 é uma descoberta original de Messier e foi observado pela primeira vez em 26 de agosto 1764 “Aglomerado de fracas estrelas entre a cabeça da Medusa em Perseu e o pé esquerdo de Andrômeda, levemente abaixo do paralelo de  g. As estrelas podem ser detectadas com um refrator simples de três pés. Sua posição foi determinada a partir de b Persei na cabeça da Medusa”.

            É interessante frisar que b Persei é a estrela Algol. Uma das estrelas variáveis mais interessantes para o amador.  Sua magnitude oscila entre 2,12 e 3,39 em 2.8 dias.  Na verdade a “ Estrela Demoníaca” brilha a maior parte do tempo com magnitude de 2.1, mas de quase três em três dias seu brilho despenca para 3.4 e retorna para 2,1 em apenas 10 horas. Isto se deve a tratar-se de um sistema binário eclipsante. Duas estrelas compartilham um mesmo centro de massa que reside em nossa linha de visada. E assim uma secundaria maior, mas menos luminosa, eclipsa a primaria brilhante em 79% de seu brilho a exatamente cada 2 dias 20 horas  48 minutos e 56 segundos. Este comportamento é conhecido desde a antiguidade e emprestou a Algol seu carinhoso apelido.  O sistema de Algol é ainda mais complexo que isto e parece envolver quatro estrelas. Mas apenas as duas citadas são responsáveis pelo espetáculo que observamos da Terra.
            Smyth em seu clássico “Cycles of Celestial Objects” demonstra como o interesse por DSO variou ao longo da história. Seu livro é do meio do século XIX e nestes tempos o maior interesse era por estrelas duplas. De fato, ao descrever M 34 ele fala de “ Uma estrela dupla em um aglomerado”   como se o par que habita no centro do aglomerado fosse a raison d´étre deste para ser um objeto interessante.  Ele se refere ao par que habita o centro do aglomerado (h 1123).  O aglomerado possui muitas estrelas duplas e mesmo baixo no horizonte é uma visão bem dramática.  Apesar de seu comentário inicial Smyth destaca que o aglomerado é um encontro de “ charmosos pares” e que trata-se de “ disperso mas elegante grupo”.  
            De seus membros verdadeiros o par composto por Struve 44 são as estrelas mais brilhantes do aglomerado. (Magnitude 8.4 e 9.1)
            Com um diâmetro aparente de 25´ e habitando a 1450 anos luz de nós podemos calcular que seus aproximadamente 60 membros se espalham por 10 anos luz de universo. Suas estrelas têm cerca de 100 milhões de anos o que fazem dele um aglomerado de idade intermediaria. Sua magnitude total é de 5,2 e ele pode ser facilmente notado de locais escuros e mais ao norte.  De latitudes mais austrais M 34 é facilmente percebido com quase qualquer auxilio óptico. Resolvi quase todo o aglomerado com uma buscadora 9X50. 

            Apesar de não ser um dos objetos Messier mais falados M 34 é um aglomerado aberto de primeira classe e um interessante alvo ao alcance de amadores em quase todo o território nacional. 

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Astrofotografia , Crise, Crentes e o Dia dos Mortos


              Se aproxima o Dia de Finados. Para coroar um semestre “daqueles” meu computador deu pau e eu já duro tenho que comprar um novo. Com um prefeito eleito que acredita que a Terra tem pouco mais de 6000 anos acho melhor partir para Búzios. Vai que o louco resolve cobrar dizimo por eu olhar o céu. A cidade está tão dura quanto eu.
                A beira de um ataque de nervos convenço a cara metade me deixar partir uns dias antes e aguardar por ela e as crianças já em Búzios.
                Com a casa vazia e milagrosamente uma madrugada de Finados que não está chovendo consigo um pouco de lazer. Na verdade, muito lazer.
                Depois de meses com o universo parecendo conspirar contra a minha pessoa parece que as coisas vão melhorar. Contrariando algumas das leis fundamentais do Universo a minha sessão de observação acontece como o planejado. Ou quase... 
                Como o Newton estava já na terra de Zé Eustáquio eu chego na Armação de ônibus levando apenas o novo computador e a mochila da câmera. Pouco antes da 16:00 horas.   Rapidamente estou com o telescópio colimado. Ou quase...
                Depois de uma rápida consulta a nova versão do Stellarium (muito boa) que instalara na véspera decido utilizar n Octans como estrela guia para meu alinhamento polar. Ela estaria cruzando o Meridiano exatamente as 19:49:17. Com magnitude de 3.7 eu esperava que ela comparecesse na Buscadora ainda no lusco fusco. Pouco minutos antes da hora ela se acende no canto da buscadora. Com uma altitude de 33o ela me permitiu realizar o alinhamento em posição confortável e rapidamente.
                Como tenho planejado fotografar Ngc 55 acho uma boa ideia utilizar Ankaa (Alpha Phoenix) como uma das estrelas de alinhamento do Synscan. Um truque que aprendi é utilizar como a segunda estrela (supondo que você esteja alinhando o Synscan utilizando apenas 2 estrelas) uma que esteja próxima ao alvo desejado. Isto vai “garantir” que o go-to funcione com bastante precisão. Pelo menos até você buscar algo mais afastado da estrela que foi utilizada.
                Mesmo com esta precaução eu sabia que teria que esperar ficar mais tarde para conseguir observar Ngc 55. O céu ainda estava muito claro para galáxias distantes.

                Assim resolvo testar as coisas com M 30. As fotos que fiz do mesmo na última temporada ficaram bem ruins e espero melhorar um pouco as coisas. Tudo corre bem e o aglomerado surge quase centralizado na buscadora. E dentro do campo da ocular de 40 mm.  A Primeira foto foi feita as 19:58.
Nada pode ser assim tão fácil e no momento que consigo finalmente chegar até Ngc 55 esta está quase cruzando o meridiano e o Newton (um telescópio refletor de 150 mm f8) acaba se enroscando nas pernas de seu próprio tripé. Vou ter que partir para outro alvo e retornar mais tarde. Mas pelo menos já tinha feito um bom reconhecimento das vizinhanças e esperava não ter problemas para localizar a galáxia novamente. Não é um alvo fácil apesar da proximidade de Ankaa.

                Depois disto faço um pouco de hora em M 31. Mas novamente as fotos não ficam grandes coisas.  Ela passeia muito baixa e sempre dentro do arco de poluição luminosa da Armação ao norte.  
                As 22:58 eu estou de volta a Ngc 55. Prefiro não expor o novo computador a umidade e assim faço as fotos (80) da galáxia pelo método antigo. E assim fico mais de uma hora ao lado do telescópio disparando a câmera a cada 30 segundos....

                Quando venho para Búzios sozinho é sempre meio solitário. E assim costumo observar com o rádio ligado. Mas desta vez parece que o Crivella já anda aprontando e somente consigo sintonizar rádios evangélicas. Felizmente com o advento do telefone celular isto não chega a ser um problema. Rapidamente estou com uma seleção do The Who tocando via You Tube.
                Depois de cumprir a lição de casa e ter meu alvo principal capturado eu fujo um pouco de script e acabo conhecendo um Messier que nunca visitara. M34. Faço umas poucas fotos do simpático e pouco visitado aberto.
                Agora de volta a derrota planejada ... M 77. E levando Murphy a loucura ela aparece bem no centro da buscadora. E não exige sequer visão periférico para se denunciar mesmo possuindo uma brilhante estrela a lhe assombrar.

                Normalmente eu sigo sempre uma mesma rotina quando avisto um DSO. Primeiro dou uma namorada utilizando ou a 26 ou a 40 mm (oculares). Depois texto mais magnificação com a 10 mm. E só depois retiro o suporte para ocular e encaixo a câmera para fotografar. Depois faço quantas fotos me der na telha e sigo viagem.  O número de fotos vai depender de diversas variáveis. O Interesse do objeto, quão tênue este o é, o alinhamento polar ter sido bem feito, a transparência estar boa ou não e etc...
                The Who vai fazendo bem seu papel:
“ Out here on the fields / I fight for my meals/ I will turn back to my living. ” Na verdade ultimo verso não é esse. Mas me pareceu apropriado.
                Já mais embriagado percebo que Sirius surgiu por trás das bananeiras a leste e percebo que isto se deu exatamente a meia noite. Começo a delirar.... Me ocorre que Dia de Finados, o Halloween, O dia dos Mortos tudo isto deve ter algo a ver com o dia que Sirius  nascia a meia noite nos Egito antigo. Fico louco para falar pro Crivella que o que ele comemora é uma festa pagã.  Aí me lembro de Zeitgeist e acho melhor abrir outra cerveja.
                O Fim da noite é observacional. Me divirto seguindo a numeração do catalogo Messier e visito em rápida sucessão M 35, M 36, M37, M38. Nunca vou conseguir decidir qual dos Abertos de Auriga acho mais interessante.  Dou um pulinho e aproveitando a história do “ Rising Vênus” vou a M41. Depois M 42 e 43. Tudo utilizando a 40 mm.  É sensacional como é divertido passear pelo céu com ela. Dá uma tremenda impressão de profundidade.  M 44 é sensacional na mesma e faz grande contraste com M67. Os dois abertos de Câncer não poderiam ser mais diferentes. M 45 também combina bem com a moça.

                M 35 se funde com Ngc 2158 e percebo claramente como um é mais distante que o outro. Um efeito que só percebo com o grande campo oferecido pela 40 mm “baixo orçamento”.
                Depois fico subindo e descendo pela espada de Orion e visitando mais de uma dezena de DSO ´no apertar de um botão. The Running Man Nébula é evidente visualmente. A noite rendeu...   
                Dia seguinte me divirto tratando as fotos e testando a velocidade absurda de meu novo computador. Vai me levar a falência. Mas pelo menos não estarei nem louco nem puto...
                A noite me preparo para o alvo que ficou faltando na noite anterior. Eu tinha algumas opções na manga. Um bom plano observacional tem que possuir isto.
                                Pensava em tentar Ngc 300 ou o Quarteto de Grous. Mas como já tinha passeado muito pela região e sabia que os dois objetos seriam alvos puramente fotográfico e que não tinha nenhuma chance de percebê-los visualmente decido me virar de costas para o mesmo e tentar algo que há anos venho adiando.
                Para me fazer companhia eu coloco o Cosmos (o do Carl Sagan) rolando no celular. Passei o dia sem falar nenhuma palavra. Ou quase pois é comum eu pensar alto...
                Finalmente fotografo Ngc 7331. A equivocadamente batizada de Galáxia do Cervo no novo Stellarium. Mas apesar do que eu imaginava esta também só se revelou para a minha câmera. Visualmente não desconfiei nem de seu núcleo. Novamente o Synscan mostrando seu valor.
                O tempo começa a nublar, mas eu já estou realizado.

Depois de processar as fotos chego à conclusão que preciso, definitivamente de um novo focalizador. Crawford e dual-speed de preferência. Com o atual conseguir um foco digno é missão quase impossível. O original do Newton empenou e foi substituído por uma ruim e o mais barato. Se o original já não era estas maravilhas o atual combina bem com a atual status quo e é quase medieval (afinal durante a idade das trevas a astronomia sobreviveu muito graças a registros chineses).
                 
                No dia seguinte chegou a chuva, os amigos e a família. Começo a elaborar um plano para permanecer até terça feira. As crianças perderiam aula a lua já estaria se pondo mais tarde, mas eu teria a oportunidade de ficar sem trabalho em local agradável e observar mais.

                No domingo à noite se abrem pequenos buracos no céu e aproveito para fazer algumas rápidas capturas. Visito rapidamente Selene ( A Lua)  Consigo registrar M 42 com um pouco de dignidade. Apesar de não focar nenhuma Brastemp e de eu descobrir (ou redescobrir)               que a umidade se transforma em ruído. De qualquer forma fico feliz que o trapézio se apresenta na captura. É difícil não sobre expor o conjunto que ilumina a nebulosa. Nas fotos abaixo pode-se perceber bem isto. As vezes em busca de se conseguir um registro grandioso da nebulosa se perde muitos detalhes e mais ainda do que realmente se observa. Um registro astronômico se torna uma obra impressionista. Nada contra. Meu museu favorito no mundo é o Orsay. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa...



                Tento a sorte com a Nebulosa da Roseta. Mas com as nuvens entrando e saindo me conformo em registrar apenas 2244 (o aberto envolvido com a nebulosidade que responde por um outro número no New General Catalog.


                Depois dito e com o céu cada vez mais nublado registro algumas estrelas só para me maravilhar como o synscan estava se comportando bem. Era só escolher a estrela e ela aparecia centralizada no view finder da câmera.

Aldebarã



              
Bellatrix
Betelgeuse

Meissa e O Collinder associado

Rigel



Mintaka


               Segunda-feira o dia amanhece ensolarado. Depois de um praião ele nubla novamente e resolvo não esperar mais. É hora de voltar para o Rio e torcer para o telefone tocar. Afinal sempre preciso do vil metal.
                Mas sempre terei o céu sobre nós e não creio que o alinhamento  entre o  Bispo e o Trump cause o fim do mundo.  
                  Tenho um amigo que sempre diz -" Calma ! Isto também passará."  
                  E para momentos mais desesperado tenho um outro amigo que sempre recita este mantra: " Ri melhor que Rivotril". 
                   Espero realmente que as coisas melhorem para acertar minhas contas com a Nebulosa da Roseta este verão....