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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

M 3 : O Primeiro "Messier Original"

           

            M 3 foi descoberto por Messier em 3 de maio, 1764. Isto o tornou o septuagésimo quinto DSO a ser conhecido pela humanidade e o primeiro e ser descoberto por Messier. Tanto M1 como M2 já tinham sido observados por alguém antes dele...
            É um desafiador objeto para ser percebido a olho nu e suas estrelas são um excelente teste para telescópios. Diversas fontes (SEDS, The Messier Objects, O´Meara e cia. LTDA.) falam que o mesmo é perceptível a olho nu em céus de cristal (O ‘Meara nos fala de um alvo fácil a partir do Havaí) e de um esfuminho com qualquer auxilio ótico. Já com um telescópio de 100 mm este vai apresentar um núcleo compacto e brilhante envolvido em um arredondado e granulado e manchado brilho que desaparece lenta e uniformemente em direção a suas bordas exteriores; este não resolve o aglomerado, mas mostra algumas de suas estrelas mais brilhantes sob boas condições de transparência e seeing. Um 150 mm resolve os dois terços externos em fracas estrelas sobre um fundo de membro mais tênues do aglomerado. Um 200 mm mostra estrelas através de todo globular com exceção de seu círculo mais interno, o qual é resolvido por aparelhos com mais de 300 mm.
            M 3 é um dos mais brilhantes aglomerados dos céus e é extremamente estudado. Para os habitantes de terras boreais faz par com M 13 como um dos Globulares mais bacanas. Para nós austrais ele não chega a impressionar. Um belo aglomerado, mas que em comparação a Ômega Centauro, Tuc 47 e M 22 o mesmo fica um pouco a desejar...
            Foi um dos últimos globulares do catalogo Messier que observei.  Apesar de conhecer sua história e os elogios rasgados que são comuns a ele nos textos clássicos (e escritos no hemisfério norte...) eu acabava sempre vencido pelo difícil starhoop que conduz até o mesmo bem como pelas condições do horizonte norte em quase todos os meus locais de observação mais comuns. Tanto em Búzios como na Stonehenge dos Pobres (Rio de Janeiro) ele é bastante ofuscado pela poluição luminosa.  
            Conta a lenda que M 3 foi o gatilho para Messier realmente se empolgar e dar a partida em sua busca mais sistemática por nebulosas que pudessem confundir-se com cometas. As datas das observações parecem sustentar esta hipótese.   M 1 foi descoberta em 1758 e M 2 em 1760. Passaram-se 4 anos até a descoberta de M 3 no início de 1764. E até o final do ano Messier já havia chegado até M 40. E depois disto as entradas 41, 42,43,44 e 45 eram objetos já manjados e parece que entraram para este superar o número de entradas no catalogo organizado por Lacaille para a primeira versão do Catalogo Messier.
            Sua apresentação de M 3 também parece dar suporte a história: “ Em maio 3, 1764, quando trabalhando sobre um catalogo de nebulosas, eu descobri uma entre Bootes e os “Cães de Caça” (Cane Venattici) de Hevelius, o mais ao sul dos dois, exatamente entre sua cauda e suas patas, de acordo com as cartas de Flamsteed. (N.T. -Hevelius criou a constelação e as cartas utilizadas por Messier foram os planisférios (verdadeiras obras de arte) desenhadas por Flamsteed.). Eu observei esta nebulosa cruzando o meridiano & eu comparei com Mu Bootis: Sua ascenção reta foi achada como 202o 51´19´´, & sua declinação como 29o 32´ 57´´ norte. Esta nebulosa que examinei com um telescópio gregoriano de 30 polegadas (76,2 cm) de distância focal e com 104 vezes de aumento, não contém nenhuma estrela; o centro é brilhante e sua luz vai se apagando rumo ao exterior. É arredondada e pode ter 3 minutos de arco de diâmetro. Alguém a pode ver em um bom céu com um telescópio ordinário (não acromático) de um pé (D.F.) ”

Sem Drizzle. Visualmente ele ainda é mais discreto. Pelo menos em céus suburbanos ( bortle 6/7)

            William Herschel é o primeiro em resolver o aglomerado em estrelas. Mas cabe ao Admiral Smyth a mais bela descrição do período clássico de M 3 e apresentada em seu “The Bedford Catalog. ” Bedford foi o local de onde Smyth observou (com um refrator de 150 mm) todos os objetos que estão no catalogo Bedford e que compõe o segundo volume de seu ‘The Cycles of Celestial Objects”.  Como quase todos os guias observacionais clássicos ou modernos nunca foi traduzido para a língua de Camões. E assim espero não assassinar o texto em um inglês Vitoriano:
“ Um brilhante e lindo globular congregando não menos que 1000 pequenas estrelas, entre o Cão Austral e o Joelho do Boieiro; este brilha esplendidamente em direção ao centro e possui anexos (outliers) em todas as direções, exceto a sf (South following. Sudeste), onde é tão comprimido que com suas retardatárias, possui um que da figura da luminosa criatura oceânica chamada de Medusa pellucens. Este nobre objeto é situado em um triangulo formado por três pequenas nos quadrantes n.p. (North preceding, Noroeste), nf (north following, NE. e sf (South following, SE) as quais por seu brilho comparativo acrescentam ainda mais beleza ao campo. É próxima a distância central entre Arcturus e Cor Caroli, a 11o noroeste da última estrela. Esta massa é uma daquelas bolas de compactas e cunhadas estrelas cuja as leis de agregação são impossíveis de determinar; mas que a rotundicidade de sua figura nos dá uma completa indicação de um vínculo geral de atração. Foi descoberto em 1764 por Messier que a descreveu como uma “ nébula sem estrelas brilhante e arredondada”. Seu instrumento deve ter sido bastante modesto para não resolver este objeto, e a matéria de arrependimento que os esforços de tal homem terem sido restringidos por seus meios. Posteriormente foi descrita como uma Nebulosa granulada. Mas em 1784, Sir W. Herschel atacou com seu refletor de 20 pés a resolveu “um lindo aglomerado de estrelas, de 5´ou 6´em diâmetro”. Pelo processo de calibração, o qual ele descreveu na integra, ele estimou a sua profundidade como de 243a ordem. ”


            O sistema de calibragem de Herschel tem hoje caráter puramente histórico, mas o significado das palavras é de que M 3 se encontraria 243 vezes mais distante que Sirius.
            Observei M3 em condições bem abaixo do ideal. Já baixa no horizonte noroeste e sob um céu suburbano. Com o “Newton” (um refletor de 150 mm) devo concordar com as possibilidades descritas por quase todos. Sou capaz de perceber um núcleo bem brilhante e algumas estrelas no entorno. Poucas. Com visão direta nenhuma... isto com 120 x de Aumento. Com o auxílio luxuoso da tecnologia e de uma Canon T3 resolvo o objeto como um 200 mm. Creio eu...



            M3 é um belo aglomerado e um belo desafio para observadores no tropico de Capricórnio. Sempre tentei realizar o star hoop utilizando um caminho semelhante ao descrito por Smyth. Um chute culto entre Arcturus e Cor Caroli. Mas só acabei chegando até ele com o a ajuda de Mlle. Herschel (Uma cabeça equatorial HEQ 5 pro) que fez o serviço sozinha.


            As fotos aqui realizadas são resultado do empilhamento de 12 frames de 30 segundos (captura em RAW) mais o uso de 12 darks para calibrar o fundo. O stacking foi realizado no DSS e utilizei o Fits para melhorar o gradiente de fundo. Posteriormente ajustes no Photoshop CS.
            M 3 é um dos mais estudados aglomerados da galáxia. Localizado a 38.800 anos luz do centro galáctico e em direção oposta ao centro galáctico foge um pouco do esquadro. Possui uma rota bastante eclíptica e inclinada em relação ao plano galáctico.  Mesmo distante brilha com magnitude 6.2. Aceitando-se um diâmetro de 18 ´ ele se espalha por uma distância linear de 180 anos luz.  Mas seus “braços gravitacionais” podem se estender por 760 anos luz de diâmetro.
            M 3 possui também uma diversidade incrível de tipos e gêneros estelares. São conhecidas 235 variáveis. 187 RR Lyras (muito comuns a globulares), muitas Blue Stragglers (Gigantes azuis que há muito deveriam ter deixado de existir e que são fruto da interação de 2 ou mais estrelas na história do globular e que assim parecem ter bebido do elixir da juventude, e mais dezenas de outros tipos de variáveis... um rico campo de prova e que assim tem sua idade bastante discutida. As apostas vão de 8 a 20 bilhões de anos. Muito rico em metais (para um globo) M 3 serve como protótipo para os aglomerados do tipo Oosterhoff I.  A classificação Oosterhooff é uma dicotomia entre globulares e um tópico recente na cosmologia destes DSO´s
            M 3 é um belo alvo de interesse visual, histórico, cosmológico e outras cositas más. Uma parada obrigatória...  


sábado, 5 de agosto de 2017

M 23 : O Aglomerado Pérola Negra

        


          Com o projeto “Sul Profundo” (um livro sobre a obra de Lacaille e seu Catalogo de Nebulosas) em seus retoques finais tenho me dedicado muito em organizar minhas observações e fotos do Catalogo Messier. Com quase todos os globulares deste já fotografados me deparei com uma foto perdida em meu HD de M 23. Fiquei feliz em poder mudar um pouco de espécie.  Um belíssimo aberto em Sagitário. A primeira coisa que me ocorreu é como este DSO escapou do escrutínio do Abbe Lacaille em seu pioneiro trabalho realizado em 1751/52. É um alvo evidente com qualquer auxílio ótico e perceptível mesmo a olho nu em céus bem escuros. Tudo bem que habita uma região tão rica da Via Láctea que pode ser considerado uma espécie de primo pobre. Fosse este encravado em quase qualquer outra região do céu e seria cantado em prosa e verso.  Se localiza próximo demais das famosas Nebulosa da Lagoa (M8) e da Nebulosa Trífida (M20) mas, ao contrário de M 21 (que reside bem ao lado destas), longe demais... E desta forma muito vezes é relegado ao esquecimento.  


            M 23 (Ngc 6494) se localiza a noroeste do asterismo do “Bule” que é formado pelas estrelas mais brilhantes de Sagitário. Mais precisamente a 2,5o norte e 3,5o oeste do belo sistema múltiplo formado por Mu Sagittarii.
            Messier descobriu esta joia e a inclui já na primeira versão de seu catalogo de nebulosas publicado em 1771:
            “ Na noite de 20 para 21 de Junho de 1764 , eu determinei a posição  de um aglomerado de pequenas estrelas o qual é situado entre a extremidade norte do arco de Sagitário e do pé direito de Ophiuchus , muito próximo de uma estrela de 6a magnitude , a sexagésima quinta da última constelação ( Oph) segundo o Catalogo de Flamsteed: Estas estrelas são muito próximas umas das outras e não há nenhuma que possa ser vista facilmente com um refrator comum ( não acromático) de três pés e meio (distância focal) e que foi utilizado para estas pequenas estrelas. O diâmetro geral é de cerca de 15 minutos de arco. Eu determinei sua posição comparando o centro com a estrela Mu Sagitarii: Eu achei a ascenção reta de 265o 44´50´´ e sua declinação de 18o45´55´´ sul. ”


            Conforme passou-se o tempo e melhores telescópios foram apontados para M 23 o aglomerado cresceu. Ainda no séc. XVII Herschel já nos fala em “ ... um aglomerado de lindas e esparsas estrelas de magnitudes quase iguais (visível em minha buscadora), se estende por muito além do campo que o telescópio abarca, e que pela buscadora parece se estender por cerca de meio grau. ”
            Flammarion , o astrônomo espirita que psicografou algumas entradas póstumas para o Catalogo Messier, destaca  um círculo de seis estrelas junto a seu centro com “nove estrelas em arco” na porção NE do aglomerado.  
            Burnham já no século XX nos fala em 25´e apresenta as observações de K.G. Jones (1968) onde este vê “três ou mais” das cadeias de estrelas parecem ser porções de arcos concêntricos os quais parecem focalizar a brilhante estrela (mag. 8.23) no lado NE do aglomerado.
            Dados ainda mais atuais nos dizer que M 23 possui 27´. Classificado como um aglomerado I 2 r na escala Trumpler implica que este possui uma forte concentração central, se destaca das estrelas do campo a seu redor (I), suas estrelas possuem uma moderada variação de brilho (2) e é um aglomerado rico com mais de 100 membros (r).
            M 23 possui 176 membros confirmados. A maioria de suas estrelas encontra-se 10a e 13a magnitude e mais de 100 de sus membros estão acima de 13a. Seu raio é algo entre 15 e 20 anos luz e com no mínimo de 220 milhões de anos pode ser um aberto “antigo”.

            Quando observado com binóculos (10x50 mm) percebo o aglomerado como uma condensação de luz com algumas estrelas no limite da resolução. Uma brilhante estrela de magnitude 6,5 9 (HR 6679 ou HIP 87782 ou HD163245) vai se destacar no canto noroeste. Não é um membro verdadeiro do aglomerado. Está a apenas 320 anos luz de nós enquanto M 23 esta a mais de 2100. Com meu 15X70 mm algumas estrelas do aglomerado se resolvem com mais dignidade. Com o “Newton” (um refletor de 150 mm f8) com 60X de aumento diversas dúzias de estrelas se resolvem e o aglomerado começa a ser espetacular.

            Como localizei a foto perdida de M 23 poucos minutos depois de saber da morte do meu querido sambista “bluseiro” e devido a elegância discreta , poética e com um que de maldito deste DSO não resisti e tive de apelida-lo como o “Aglomerado Pérola Negra”. 

terça-feira, 1 de agosto de 2017

M 71: Um Globular "Aberto"

        

       M 71 é um dos globulares Messier menos densos. Dependendo da fonte ele é um globular classe X (escala Shapley). E assim mais denso que M 55. Em outras fontes ambos dividem a classe XI. Da mesma forma que M 55 sua aparência recorda em muito aglomerados abertos extremamente densos com M 11 ou Ngc 2477. Quando comparo sua imagem com estes me inclino mais para a classe X. Cada um com seu cada um. M 71 e M55 não poderiam ser visualmente mais diferentes do que são. 
            Na verdade, sua classificação como aglomerado globular é controversa.  O próprio Shapley o classificou como um aglomerado do tipo “g” (sua categoria para abertos superdensos). Shapley criou escalas tanto para aglomerados globulares como para abertos. A dúvida se arrastou por várias décadas.
            Em 1943 James Cuffey, do Observatório Kirkwood, chegou à conclusão que este pendia mais par um frouxo aglomerado globular. Posteriormente, em 1959, o mesmo Cuffey obteve um diagrama de Cor-magnitude que retornou M 71 para a seara dos abertos.
            Atualmente M 71 é considerado novamente um globular. Mas um “todo estranho”. Sua metalicidade é extremamente elevada (17% dos elementos pesados presentes no sol). Não possui nenhuma variável do tipo RR Lyrae, que são típicas de globs e não bastasse isto tem uma velocidade radial que embora controversa é muito baixa. E ainda por cima possui uma estrela, Z Sagittae, que é uma das poucas gigantes do tipo M conhecida. Até o momento existem apenas mais 5...
            Só por isto ele já seria um alvo de grande interesse. Mas tem mais. Ele é extremamente jovem para um glob.   Com apenas 9 ou 10 bilhões de anos.
            Com a evolução do nosso conhecimento das estruturas estelares no universo o modelo paleolítico de que globulares se formaram nos primórdios do universo e são habitantes exclusivos do halo das galáxias se tornou um pouco duvidoso. Hoje acha-se que a maior parte destes se formou naqueles tempos. Mas acredita-se que imensos aglomerados abertos muito jovens podem vir a tornar-se estruturas semelhante a globulares no futuro. O aglomerado que habita o coração da Nebulosa da Tarântula na Grande Nuvem de Magalhães e Westerlund 2 na nossa galáxia são candidatos ao processo.  M 71 é uma espécie de elo intermediário.

            M 71 é facilmente localizável. Ele habita no centro da linha que liga Gamma Sagittae e Delta Sagittae na discreta, porém obvia constelação de Sagitta. Esta é perceptível mesmo em céus suburbanos encravada no famoso “Triangulo de Verão” (aqui de inverno.Quase primaveril.) que é formado pelas Brilhantes estrelas, Deneb, Vega e Altair.
            Pela buscadora ele é pouco mais que um esfuminho e não o considero um alvo fácil binocular. Diversos autores o consideram obvio. Céus escuros devem ajudar muito neste caso. Como é um aglomerado pouco denso seu brilho de superfície é baixo e seu núcleo é a única parte que percebo claramente com minha buscadora 8X50 mm. Utilizando um refrator de 70 mm não chego a resolver estrelas. Mesmo com o “Newton” (150 mm f8) é necessário o uso de visão periférica. Embora não o tenha observado alto no céu e o horizonte norte me ser desvantajoso.
            M 71 é uma descoberta de Philippe Lois de Chéseaux em 1746. Mas com seu trabalho levantamento de nebulosa não foi publicado até o trabalho de Bigourdan o tenha feito público em 1892 o objeto foi redescoberto de forma independente por Johann Gottfried Koehler em algum momento entre 1772 e 1779, em 28 de junho de 1780 por Méchain (“sócio de Messier) e finalmente observado por Messier em 4 de outubro de 1780.
            A descrição de Chéseaux é bastante completa e interessante: “ Finalmente uma outra nebulosa que nunca foi observada anteriormente. É de uma forma completamente diferente das outras. Tema forma perfeita de um raio, ou de uma cauda de cometa. Com 7´ de comprimento com 2´ de largura. Seus lados são exatamente paralelos assim como seus dois extremos. O centro é mais esbranquiçado que as bordas...”
            Messier por sua vez diz: ” Nebulosa descoberta por Méchain em 28 de junho 1780, entre Gamma e Delta Sagittae ... Sua luz é bem fraca e não contém nenhuma estrela. Qualquer luz a faz desaparecer ...”  Sua descrição me leva a crer que ele não tenha utilizado seu melhor telescópio na observação (Um Dollond 90 mm).

            A ciência (de fato) tem uma qualidade fundamental. Um dogma que é o contrário do dogma. Ela não é estática. Suas verdades podem mudar. Seja por observações, experimentos, tecnologia e/ou todos acima e mais alguns... A definição de aglomerados globulares está em constante evolução. Bem como o que se supõe serem suas origens. Atualmente sabe-se (ou achamos saber) que diferentes globulares podem ter histórias cosmológicas distintas. O que os separa de galáxias destripadas ou de abertos vai variar de globular para globular. Parâmetros são parâmetros e só.
            M 71 é um excelente exemplo disto. Mesmo hoje ainda cabe uma dúvida (o motor da ciência) se este se encaixa melhor em um aberto denso e antigo ou em um globular frouxo e jovem. Diversos parâmetros indicam para um lado. E outros para o outro. Embora minha opinião não importe em nada (opiniões não fazem parte da ciência) eu acredito que trate-se de um Globular. Burnham no seu mais que clássico “Celestial Handbook” toma uma acertada decisão, quando o apresenta na tabela que inicia a apresentação dos diversos objetos que ele considera cosmologicamente significativos em cada constelação, de dizer que M 71 não possui uma classificação definida. (Class not Certain). Seu livro é de 1978.
Burnham Celestial Handbook.

            Ele  nos diz que “M 71 é um daqueles incomuns aglomerados cuja a classificação é alvo de dúvida”. Levanta ainda a dúvida se este foi, de fato, observado por Chéseaux e nos diz que a primeira observação deste é provavelmente a realizada por Koheler.
            Coube (como quase sempre) a Herschel resolver o aglomerado em estrelas.  “Muito grande... um rico aglomerado, com estrelas de 11... 16a  magnitude.
            Caminha a ciência e Stoyan em seu também clássico “Atlas of the Messier Objects” (2008) assina ‘ Aglomerado globular”. E associa algumas características deste não só a M 68 (um frouxo globular “strictu sensu”) como também a Ngc 104 (Tuc 47). Curiosamente M 104 é muito mais denso e poderia ter como origem uma galáxia destripada. E espertamente nos diz que o objeto embora seja considerado atualmente um globular bonne fide é ainda alvo de alguma discussão.
            M 71 foi um dos globulares Messier que mais resistiram a minhas investidas. Diversas vezes fracassei em sua busca. Embora , teoricamente, seja um fácil “Starhoop”. É , sem dúvida, um DSO digno de nota e visita.
            Em céus poluídos é um alvo que considero difícil e por isto mesmo alvo digno de caça.
2 X Drizzle no DSS + Gradiente no PixInsight+ Photoshop CS 6

            Suas fotos revelam muito mais que o que observo na ocular. A que abre este post foi resultado de 19 frames com 30 segundos de exposição utilizando ASA 1600.  A foto acima é resultado da mesma captura. A câmera utilizada foi uma Canon T3 sem modificação e o Telescópio foi o Newton (refletor 150 mm f8) montado sobre Mlle Herschel. (Uma equatorial HEQ 5 pro).

            Um globular “aberto”...

quarta-feira, 26 de julho de 2017

M 57 - A Nebulosa do Anel


          M 57 é provavelmente a nebulosa planetária mais famosa do céu. Devido a seu formato é corretamente chamada de “ A Nebulosa do Anel”. Este pequeno círculo esfumaçado é um exemplo didático de uma das mais curtas etapas evolutivas de estrelas com a massa semelhante ao nosso Sol. Estas após consumirem todo seu hidrogênio, se tornarem gigantes vermelhas e expelirem sua atmosfera mais externa tornam-se anãs branca envoltas em anéis de gases originários de suas próprias “cinzas”. O formato pode variar um pouco em função do ângulo de visada e assim as vezes podem ser planetárias bipolares. Mas o termo Nebulosa Planetária surge devido ao característico formato destas nebulosas circulares e que se apresentam como pequenos discos planetário coloridos em telescópios mais modestos e tão comuns nos primórdios da astronomia observacional.
            Recentemente falei por aqui que Messier (que é o verdadeiro descobridor de M 57) possuía telescópios inferiores ao meu. Durante as pesquisas para este post me deparei com um Dollond de 3 ½ polegadas de propriedade de nosso caçador de cometas. Um refrator de cerca de 90 mm feito pelo melhor fabricante de seu tempo. Os refratores Dollond são um marco na evolução dos telescópios. Neil English batizou o primeiro capitulo de seu livro (Classic Telescopes: A Guide to Collecting, Restoring and Using Telescopes of Yesteryear”) com o título de “The Dollond Century”.  John Dollond “criou” o telescópio acromático. Sem mencionar as colaborações teóricas de Euler, Hall ou Klingsternia ele apresentou seu projeto com uma objetiva feita com duas lentes de dois tipos distintos de vidro para a Royal Society em 1758. Ganhou a Copley Medal e o resto é história. Durante o século 18 os “Dollonds” eram os melhores telescópios do mundo.
            O próprio English testou um Dollond de 75 mm já da terceira geração da família de 1905 (circa) em M 57 e nos diz que ele não deixa nada a dever a um atual refrator do mesmo diâmetro.
            Como vinha querendo revisitar A nebulosa do Anel há tempos e fazer algumas fotos destas decidi pesquisar um pouco a respeito da mesma antes de me lançar a campo. Me recordava de ter visto um anel de fumaça onde com bastante ampliação notava um ponto negro na região central. O seja, um pouco mais que um falso disco planetário e de fato o Anel do nome. Com a pulga atrás da orelha se havia sido injusto com os telescópios de Messier decido visitar minha biblioteca em busca da descrição original e de outras descrições clássicas do mesmo.
            Antes de chegar a descrição de Messier na sua segunda edição de seu catalogo no Coinassance do Temps para 1783 (impresso em 1780) esbarrei uma longa história envolvendo diversos astrônomos e cientistas de várias gerações que parece só ter se definido em junho último. Com uma matéria que encontrei na Australian Sky and Telescope para agosto e setembro de 2017.
            Primeiramente fui na minha cópia do Catalogo Original (Um PDF disponível diretamente da BNF). Fracasso... esqueci que minha versão é da primeira edição (1771) e só cobre até M 45.

            O próximo passo é, evidentemente, consultar os mais atuais e meus inseparáveis companheiros quando se trata de Messier “ The Messier Objects” de O´Meara e o “Atlas of the Messier Objects” de Stoyan.
            É aí que a coisa começa a ficar divertida. Desejoso de apresentar M 57 de forma adiantada aqui no Nuncius Australis (reparem que tratados e revistas astronômicas sempre tentam lançar seus projetos com meses e até mesmo anos de antecedência. A segunda edição do Catalogo Messier foi editado em 1780 para um anuário destinado a 1783 e a S&T liberada em junho e que acabou me obrigando a mudar o post todo depois de pronto é destinada a Agosto e Setembro deste ano) descubro que a sua descoberta é atribuída a Antoine Darquier de Pellepoix. Em 1779.  Até mesmo Messier em sua apresentação nos diz isto: “ [ observado em 31 de janeiro de 1779] um remendo de luz entre b e g Lyrae descoberto enquanto observando o Cometa de 1779 (Bode) o qual passou muito próximo. Parece que este remendo de luz, o qual possui bordas arredondadas, deve ser composto de estrelas muito tênues. Não foi possível, entretanto,  ver a estas nem mesmo com o melhor telescópio (o já citado Dollond 90 mm), mas permanece a suspeita que há algumas. M. Messier marcou sua posição na carta para o cometa de 1779. M. Darquier, em Toulouse, descobriu esta nebulosa quando observando o mesmo cometa e reportou: “ Nébula entre b e g Lyrae, extremamente tênue, mas perfeitamente delineada. É tão grande quanto Júpiter e recorda um “apagado” planeta””
            A fim de realizar um “triple check” nas informações escolho vasculhar meu “Burnham´s Celestial Handbook” em busca de mais informações.
            Lá descubro que Darquier utilizou um telescópio de aproximadamente 75 mm em sua observação e confirmo que provavelmente foi William Herschel que percebeu a estrutura de M 57: “ Entre as curiosidades dos céus...  Uma nébula que possui um ponto escuro concêntrico e regular em seu centro... e é provavelmente um anel de estrelas. É oval em seu formato, o eixo mais curto sendo para o mais longo assim como 80 é para 100. ”  Burnham ainda nos diz que M 57 foi a primeira nebulosa planetária descoberta. Não é exatamente verdade M 27 foi descoberta antes, mas devido a sua posição em relação a terra ela não apresenta a forma de um anel perfeito. Nebulosas planetárias, em função de sua orientação para terra podem possuir diferentes formatos. Os mais comuns são as anelares e as em forma de gravata borboleta. As anelares me parecem ser origem do nome para estas estruturas que nascem da morte de estrela de massa semelhante as do Sol.  
            Herschel foi o homem que cunhou o termo nebulosa planetária. Burnham se pergunta se terá a descrição de Darquier colaborado para isto? (posteriormente Don Olson e Giovanni Maria Caglieris na fadada matéria da S&T também citam esta possibilidade...). É uma pergunta que talvez fique sem resposta. Mas como Herschel foi o descobridor de Urano e a muitas destas nebulosas planetárias possuem um tom levemente cianótico como o planeta em questão é possível que seja apenas uma coincidência e que a impressão de Darquier em nada tenho influenciado o famoso astrônomo real.
            As coisas estão neste pé enquanto me preparo para realizar minha viagem de inverno e fotografar M 57 (e outras cositas más). Seria o mesmo fim de semana que ocorreria o encontro Nacional de Astrofotografia lá pelas bandas do planalto central e já que não aconteceria de poder ir tão longe me conformei com um ataque até Búzios. É quando me deparo com a tal da Australian Sky and Telescope para agosto e setembro de 2017. Logo nas primeiras páginas me deparo com a chamada para a matéria na pagina 14. “ Quem descobriu a Nebulosa do Anel? ”


            Darquier evidentemente.  Mas “só que não”. Os autores (Olson e Caglieris) garantem que todos os livros dão o nome errado do descobridor. O verdadeiro (primeiro a colocar os olhos) foi Messier. Segundo os autores a confusão se dá devido a uma questão semântica em razão do sentido da palavra “descoberta”. Como a linguagem é algo dinâmico (embora na França e em Portugal isto possa ser meio controverso) quando Messier atribui a descoberta a Darquier em sua apresentação não é isto que ele estava dizendo. De qualquer forma a explicação mais detalhada da história parece sustentar a ideia dos autores acima de qualquer dúvida. Messier observou em 31 de janeiro de 1779. Uma carta de Darquier nos conta que “ fui informado da aparição do Cometa (o Cometa Bode de 1779) apenas pela “Gazette de France” em 9 de fevereiro na qual M. Messier informa sua descoberta (nos tempos antes do telefone a informação de que o cometa já fora descoberto antes por um astrônomo na Alemanha demorava mais para chegar em Paris que a “Gazzete” em Toulouse...). Na noite de fevereiro 9-10 eu procurei por ele ao redor da meia noite. O achei na perna esquerda de Hércules. ”
            Em sua carta a Messier o próprio Darquier fala de seu ambicioso projeto a ser realizado entre 10 de fevereiro e o final de abril. Ele pretende criar um catalogo de 270 estrelas ao longo do caminho do cometa com várias que não constam no Catalogo de Flamsteed e para uma Nebulosa que se encontra entre b e g Lyrae.
            É só cruzar as datas e chegamos ao inegável fato de que Messier é o verdadeiro descobridor de M 57. Na carta onde Messier marcou M 57 esta também M 56 descoberto no mesmo dia que este localizou o Cometa de 1779 (18 para 19 de Janeiro).

            Os autores ainda dizem que o erro foi fruto do mal habito de astrônomos copiarem as fontes de outros astrônomos e assim erros (principalmente históricos) se perpetuam... E os rapazes fizeram uma bela pesquisa. Até mesmo Humboldt foi checado. Eu, grande fã do mais holístico dos cientistas “sérios”, fundador da Biogeografia e o primeiro a perceber a influência humana no clima em tempos que negacinonistas do aquecimento global e mesmo a aquecimento eram coisas distantes fiquei muito impressionado com esta nova faceta de meu ídolo. Nos tempos de faculdade existia uma enorme poltrona em nosso diretório onde eu passava horas. Era a “Cadeira de Humboldt”. Me vi obrigado a baixar uma versão digitalizada de seu Cosmos e estou lendo na integra. Lá de fato fala em M 57 e atribui sua descoberta a Darquier. E sabiamente expõe seu método... “ Meu ensaio, Cosmos, trata da contemplação do universo.”
            Dando razão a eles parto em um último arroubo investigativo vou atrás de duas fontes que ainda não visitara.
            Primeiro a desprezada Wikipédia. Esta fora atualizada no dia da matéria de S&T e trazia a história de Olson e Caglieris.
            Resta o antigo e clássico “The Bedford Catalog” que habita o segundo Volume do “Cycles of Celestial Objects” do Admiral Smyth.  Parece que os rapazes estão cobertos de razão e nenhum livro possui a informação correta... Smyth também cita Darquier como descobridor.
             Como já disse aqui e vou repetir M 57 foi uma estrela semelhante ao nosso sol que em se aproximar de seu fim ejetou suas camadas mais exteriores formando o que parece, a partir de nossa perspectiva, um anel centralizado em uma estrela que está morrendo. No caso de M57 este estertor aconteceu a cerca de 20 mil anos atrás. Diversos membros do gênero Homo devem ter presenciado o evento mesmo sem nada terem visto. Localizada 1140 anos luz não deve ter sido um espetáculo muito chamativo.
3 X Drizzle

            M 57 é a mais famosa nebulosa planetária dos céus e merece a honra. Seu anel é perceptível com cerca de 100X de aumento e está ao alcance de pequenos telescópios. Devido ao pequeno tamanho não é um bom alvo binocular.

            Sentada entre b e g Lyrae e mais próxima de b (uma variavel que oscila quase uma magnitude a cada 4 dias) navegar até ela é tarefa fácil. Mesmo que não resolva o anel o aspecto de disco planetário a denúncia mesmo em bem telescópios bem modestos. Na verdade, a descrição de Messier e Darquier me dá motivos para continuar a crer que o “Newton” (um refletor 150 mm f8) tem mais poder de fogo que um Dollond 90 mm.
            A estrela central, a matriz de M 57, é alvo visual difícil e com 15a mag. é um desafio.
            Realizei 44 fotos de M57 com 30 segundos de exposição. ASA 1600. Sem acompanhamento e com uma Canon T. As fotos foram processadas no DSS (Stacking e Drizzle) e seguiram para o Fitswork onde apenas melhorei o gradiente de fundo. Depois Photoshop. Ao longo do texto vimos versões sem nenhum drizzle, com 2 e com 3 X drizzle (processo de ampliação e adição de pixels realizado no DSS)
2X Drizzle

            Fico feliz que perceba uma estrela central (ainda que discreta) no centro da nebulosa. Em fotos do Hubble se veem duas. Uma só que participa do espetáculo. Não sei dizer se é a que registrei.


            M 57 é uma excelente introdução a nebulosas planetárias e um charmoso DSO para temporada que se aproxima.  

terça-feira, 25 de julho de 2017

Duas Noites com Monsieur Messier

          


            Quem já acompanha o blog deve conhecer o significado de “Aporema”. É, supostamente, uma festa que ocorre 4 vezes ao ano. Sempre na primeira lua nova após os equinócios e os solstícios. É uma data meio “ Mandrake”. As vezes acontece na primeira lua nova e as vezes na segunda e as vezes ainda nem é lua nova. O que importa é que neste evento o objetivo é ver longe. Aporema significa “aquele que vê longe”. A origem da palavra é obscura. Tem origem tupi. Já no terreno das lendas o nome parece ter surgido em homenagem ao Cacique Aporema (que deve ter possuído uma visão muito acurada). Foi ele um Cacique Tupinambá e chefão na região nos arredores do que hoje é a Armação dos Búzios. Na antiga Armação dos Peixes habitaram José Eustáquio e Silvano Silva. São estes os autores do Primeiro Catalogo de nebulosas das terras tupiniquins (Posteriormente conhecidas como Brasil). José Eustáquio foi um grande pescador e desta forma aprendeu a navegar pelas estrelas. De alguma forma possui um telescópio naquele refúgio de piratas que era a região. Silvano Silva foi um padre sem vergonha que de tanta sem vergonhice acabou indo catequizar naquela região durante o sec. XVIII. Deste improvável encontro nasceu o Catalogo J.E.S.S de Nebulosas e Objetos Estelares. Antes de sair fugido da Europa este conheceu Charles Messier e foi respeitado astrônomo. Graças a ele José conheceu o que hoje é chamado de Catalogo Messier. Silvano Silva parece ter se inspirado em Herschel e não inclui nenhum objeto Messier na sua versão do Catalogo J.E.S.S.
            Creio ser o único que ainda comemora as quatro Aporemas do ano. Por isto a data é móvel. Depende tanto do clima ( que tem que estar livre de nuvens) como da minha disponibilidade. Seja financeira seja temporal. E como quando tenho muito tempo tenho pouco dinheiro a data se torna quase quântica...   
            Este inverno a “Aporema” foi dedicada a Monsieur Messier. O Catalogo Messier possui entre 103 e 110 “nebulosas” dependendo da fonte. O “original” e publicado pelo próprio possui 103. Burnham em seu “Celestial Handbook” considera 104. E muitos consideram 110. Embora entre estes existam “entradas póstumas” que certamente não foram observados por Messier (O eu profundo) mas somente por Méchain (os outros eus...) e talvez um objeto repetido.
            Muitos (nem tantos) vão dizer que os “Objetos Messier” são batidos. É verdade. Mas também são os mais belos e interessantes DSO´s ao alcance do amador. Juntamente com o catalogo Lacaille e os “ 100 de Dunlop” formam o que de mais belo há no céu. Completando esta lista pode-se incluir os “400 de Herschel”.  Juntando-se tudo e não levando em conta as figurinhas repetidas se chega quase 600 DSO´s ao alcance de um bom refrator de 90 mm ou de um refletor de 150 ou 200 mm (com o 200 fica mais fácil...). Claro que quando se inclui as entradas de Herschel um céu escuro será mandatório.
            Parti em direção das terras tupinambás no dia 21 de julho de 2017. Lua Nova e segundo o “METEOBLUE” (um site meteorológico) a única noite que teria não apresentaria nenhuma cobertura de nuvens. Meteorologia não é uma ciência exata.
            Cheguei no posto avançado do Nuncius Australis as 17: e qualquer coisa. Com minha derrota planejada sabia que poderia ter mau alinhamento polar feito com o auxílio luxuoso de Alpha Centaurus as 18:34:21. Assim o foi. Antes do twilight astronômico.
            Depois foi só realizar o alinhamento do Synscan (uma espécie de piloto de bordo de minha cabeça equatorial) de Mlle. Herschel, a minha cabeça equatorial HEQ 5 pro, utilizando o método de “two star aligning”. Com o tempo vou percebendo que a escolha destas estrelas vai determinar a precisão do “Go-to”. No manual de Mlle. Herschel são apresentados alguns parâmetros para que isto ocorra, as estrelas devem estar do mesmo lado do meridiano, possuírem uma distância entre elas mínima e etc... Pode ser verdade. Mas já sei que nesta época do ano uma dupla infalível é Antares e Arcturus. Não respeitam as regras escritas. Antares ainda se encontra a leste e antares a oeste do meridiano. Mas todos os objetos que peço para a moça aparecem dentro do campo de meu sensor da Canon T3. E com sobras em minha ocular 40 mm. 
            Um dos objetivos do evento seria abater o maior número de globulares do catalogo Messier que ainda não tenha fotografado. Acabei por me esquecer de M53. Mas os restantes foram vitimados. Se quiser completar meu objetivo de fotografar todos os globulares do catalogo até o fim do ano terei que fotografar M 53 da Stonehenge dos Pobres o mais rapidamente possível. Faltam este e M72 para tal.
            E apesar da derrota planejada incluir algumas galáxias de Virgo a verdade era que feito os globulares o resto seria “ Messier”. E com Sagitário alto no céu vários clássicos seriam revisitados.
Um outro objeto que era quase obrigação seria M57. A Nebulosa do Anel. Em um futuro post apresentarei os motivos.
Apesar do METEOBLUE a noite acabou por abrir. Mas com uma transparência bem medíocre. Muita úmida.
Astrônomos amadores acabam por ver nuvens onde a maioria da humanidade vê um céu claro.

M3 - 12 X 30 Seg 1600 asa

Começo a noite de forma feliz. Depois de ajustar o foco da câmera em Arcturus envio Mlle. Herschel em busca de M 3. Ela chega quase “dead center”.   Apesar da transparência e do objeto baixo no horizonte noroeste percebo esta discretamente pela ocular. Foi o primeiro objetivo.



M 5 -9 X 30 seg 1600 asa

Depois M5 toma o mesmo caminho.  E na sequencia M 92.

M 92 11x 30 seg 

A transparência começa a piorar e ainda por cima Mlle. Herschel acaba por tropeçar em uma das pernas de seu tripé quando em busca de M 57. Lá se vai o alinhamento do Synscan.
Antares e Arcturus não são mais uma opção viável para refaze-lo. Arcturus já vai baixa demais no Oeste. Tento várias combinações e não consigo mais a mesma precisão no “Go-to”, posso adiantar que nada combina bem com Altair...  
Hora de partir para o lado mais fácil. Em Sagitário achar algo é bem fácil. M 17 está no campo da buscadora e claramente visível. É, quiçá, minha nebulosa favorita. Embora não tão majestosa como a Trilogia composta por Eta Carina, M42 e M 8 ela é um espetáculo. Não é à toa que possui dois apelidos muito apropriados. O Cisne e Ômega.  Faço dezenas de exposições.


M 17 33X 25 seg 3200 asa

Finalmente me converti a captura em RAW. Mas acho que ainda falta aprender algumas coisas. Ao importar as imagens para o DSS percebo que este me informa que são “light frames” RAW Gray. As fotos são em escala de cinza. Para tirar cor destas é terra incógnita. Outro detalhe importante é que meu “novo” lap top tem 1 T de HD. E na dúvida capturo todas as imagens tanto em Jpeg como em RAW. A câmera permiti isto. No final da noite possuir 400 arquivos de imagem é a regra.
O fim da noite será clássico. Perco para a condensação. Finalmente o “Newton” (meu refletor 150 mm f8) se encharca e nada mais é visível. Será um problema recorrente. A parte externa do tubo do telescópio costuma apresentar “sereno”. Mas quando as partes internas (leia-se o espelho primário) embaça fica difícil. Aprendi algo interessante e certamente ligado as leis mais fundamentais do universo. Quando fotografando objetos no zênite o primário embaça mais rapidamente do que com o tubo ótico em posição menos favorável. Já falei a respeito dos processos que levam a esta pedra nosapato dos observadores. No inverno estes se acentuam...
Para encerrar coloco o Newton para secar e tento algumas fotos com minha lente 75-300 mm., mas o tempo já ia nublando, a condensação se instalava rapidamente na lente também e eu estava exausto...
Segundo a meteorologia o sábado seria bem nublado na parte da noite. Mentira!
Depois de um dia de praia fracassada devido ao vendaval (mas com muito sol) e de apostar que não observaria acabei, à tarde, fazendo churrasco e bebendo várias cervejas. A noite anoitece muito mais clara que a anterior. Murphy é um FDP.
Ao perceber o equívoco monto a Mlle. Herschel (o tripé tinha ficado no lugar) e ainda meio embriagado alinho o Go-to novamente com minha dupla vencedora. Murphy pode ser um safado, mas eu sou pé quente.
O Sábado acaba rendendo mais que a sexta e a transparência, embora não perfeita, estava boa. Tudo que ficara pendurado é abatido.
M 16 -61X 30 seg 1600 asa

Um objeto que queria re-fotografar foi o começo da noite.  M 16. Os resultados ficaram aquém do esperado. Queria utilizar a foto para seguir ao pé da letra um tutorial do Samuel Muller sobre o PixInsight. Com 61 capturas de 30 segundos com ASA 1600 empilhadas no DSS eu rapidamente percebo que não vai dar certo. Visualmente é um aglomerado aberto que para quem sabe possui regiões onde percebe-se um tom mais negro de negro. Uma espécie de versão às avessas do clássico do Procol Harum.
Nesta noite tive visitas. Um amigo e duas “filhas postiças”. Saturno sempre faz sucesso.


M 57 - 44X 30 seg 1600 asa

Na empolgação acabei por esquecer de M 53. Na verdade esqueci deste glob na derrota programada. E assim parti direto para M 57. Na véspera esta me deu uma rasteira e errar uma vez é humano. Duas...
M 71 - 19X 30 seg 1600 asa


M 56 outro glob na mira. Mais um para o projeto "Globulares Messier". Discreto na buscadora. 
M 56 - 11 X 30 seg 1600 asa


Com a planetária capturada parto para M 71. Visualmente difícil e invisível na buscadora.
Depois disto tento a sorte em C 33 (escolhida ao acaso no Stellarium). Uma grande galáxia, mas que certamente demanda céus mais escuros e uma transparência mais generosa. Tiro duas fotos e vejo que será perda de tempo. E assim voltamos a Sagitário. No inverno é inevitável.


M 20 30X 30 seg 1600 asa

M 20. A Trífida. E erro duas vezes. Muito próxima a zênite e lá vem a condensação. Novamente parto para a 75-300 mm. Mas agora mais embriagado a região de Antares ficou meio fora de foco. Fim de jogo.
Anatres Regio 

Como não poderia deixar de ser a meteorologia erra de novo e no domingo (que deveria estar nublado desde cedo) se revela a melhor noite. Mas eu percebo isto já no meio da Via Lagos e já engarrafado na estrada.


Foram duas noites na companhia de Monsieur Messier. Sempre muito agradável e com os DSO´s mais camaradas em volta de nós.  

domingo, 16 de julho de 2017

M 14: Um Globular Distante

Sempre achei que a observação astronômica é uma atividade solitária. Como já disse o filosofo “ A necessidade da maioria supera a necessidade do indivíduo”*. E assim me incomodo quando   viro uma pessoa desagradável e obrigo (ou ao menos tento) aos próximos a serem privados da luz quando observo. Tanto minha esposa como minha cunhada tecem severas críticas a meus gritos e resmungos quando se acendem as luzes na cozinha ou nos fundos da casa de Búzios enquanto observo. A maioria não é fã da escuridão.  Outro detalhe que me irrita é que quando localizo um pequeno esfuminho escondido em Ophiuchus (ou qualquer outra constelação) e convido alguém a dar uma olhada na ocular e este não se maravilha com aqueles poucos fótons que viajaram milhares de anos luz até seu nervo ótico. Isto quando vê alguma coisa. Logo acho melhor observar sozinho e guardar para mim estas emoções.
Quando observo da Stonehenge dos Pobres não me é possível apagar as luzes de todos os apartamentos em meu condomínio. Mas ao menos possuo a certeza de que com exceção das luzes do 16o andar do Bloco 1 nenhuma mais vai me perturbar. E também sei que não aparecerá ninguém para vir reclamar embora minha presença deva incomodar a alguns moradores. Muitos devem achar que sou um tarado... para minha felicidade sou o único morador autorizado a visitar o telhado do prédio durante a noite. Um direito adquirido desde os tempos da antiga sindica e que não foram revogados nem mesmo com o suicídio de um descontente morador do bloco 3.
E assim acabei por conseguir observar M 14. A meu ver o 
mais tímido dos globulares Messier de Ophiuchus.  Importante frisar que o observei em condições de extrema poluição luminosa. A Stonehenge dos Pobres é na Zona Sul do Rio de Janeiro. Uma cidade com mais de 6 milhões de habitantes. (Bortle 7ou 8). Não bastasse isto ainda era bastante cedo e o disco lunar apresentava 50 % de seu disco iluminado.  Mas observei M 107 em condições semelhantes e achei este um pouco mais evidente. De qualquer maneira os objetos do catalogo Messier são (em geral) viáveis mesmo em condições bem ruins. Fotograficamente são todos viáveis mesmo quando registrados  de áreas ainda mais centrais da cidade.
M 14 é uma descoberta original de Messier. Observado pela primeira vez em 1 de junho de 1764.  Com um de seus modestos telescópios Messier observou o seguinte:  “ Nebulosa sem estrelas; nebulosa não é grande; sua luz é tênue. É arredondada. Próximo a uma estrela de 9a magnitude. 7´de diâmetro. ”

As descrições de Messier me parecem sempre muito realistas para possuidores de pequenos telescópios e que habitam áreas urbanas. Certamente devido ao fato de este observar com pequenos telescópios e de uma grande cidade. Paris em no século XVII já era iluminada e o Hotel de Cluny (onde era seu observatório. Este em uma área central e que já habitada a vários séculos. Já estive lá (atualmente é o Museu da Idade Média e apresenta uma belíssima coleção de tapeçarias) E com a iluminação feita a base de óleo de baleia e soltando muita fumaça não deveria ser muito melhor (ou pior) que a Stonehenge dos Pobres. Acredito que o “Newton” (meu telescópio refletor de 150 mm f8) seja muito superior a qualquer telescópio que Messier tenha usado.

Coube a William Herschel resolver M 14 em estrelas e o Admiral Smyth na segunda parte do Cycles of Celestial Objects (também conhecido como “The Bedford Catalogue”) nos fala de uma “lúcida cor branca”.
M 14 é ao menos uma magnitude mais pálido que seus “vizinhos celestiais” M 10 e M 12 e M 9.  Porém é, de fato, em termos absolutos o mais brilhante dos quatro. Sua tímida aparência se deve a extinção causada pela poeira interestelar e sua maior distância que seus companheiros. Imaginava-se que este assim como os outros se  encontrasse  a meros 25.000 anos luz. Medidas atuais o afastaram para 55.000 anos luz. Desta forma ele possui uma massa consideravelmente maior (1,2 milhões de massas solares) que seus amiguinhos e ocupa um latifúndio de 180 anos luz de universo.  M 14 é também um dos únicos globulares com uma nova registrada em plates fotográficos. A nova aconteceu em 1938, mas só foi descoberta em 1964 com o estudo de placas que cobriam o período entre 1932 e 1963. Nas placas entre 21 e 28 de junho se localizou uma nova que atingiu 16a magnitude. Nem mesmo o Hubble localizou a estrela responsável posteriormente...

Segundo Stoyan M 14 é perceptível com binóculos de 30 mm. Talvez de locais muito escuros mesmo assim com características estelares.

Não o percebi com minha buscadora (50 mm) mesmo de Búzios. Pelo “Newton” com 120 X ele recorda a descrição de Messier ainda que com alguma granulosidade nas bordas. 

Acredito que em condições ideais e visão periférica vão se resolver algumas estrelas no seu entorno.Utilizando recursos fotográficos M 14 se resolveu com 35 exposições de 30 segundos com ASA 1600 . Foram utilizados 10 dark frames e a foto que abre este post foi processada   no DSS ( 3 X drizzle) e no Fitswork + Photoshop CS 6.  

Partindo de Beta Ophiuchi (3a magnitude) caminhe dois campos de buscadora (10 o) até para sudoeste e localize 47 Ophiuchi. Vai ser a estrela mais brilhante na buscadora e talvez a única... M14 vai estar a pouco mais de meio campo de buscadora (3o) a nordeste.  Mag. 7.8


* Não sou um Trekkie de carteirinha, mas a frase é do Spock em “A Ira de Khan”.