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quinta-feira, 14 de junho de 2018

M 20 : A Trífida e o Síndico


              M 20 é a Nebulosa Trífida. Uma das grandes damas da noite. Sua imagem é uma das mais icônicas da astronomia. Ícone é algo ou alguém que se distingue ou simboliza determinada época, cultura, área do conhecimento; imagem ou ídolo: a Guernica é um ícone do cubismo.

                M 20 é uma das representações, por excelência, de um DSO. Sua foto ilustra centenas ou milhares de artigos, capas de revista e o imaginário de todo e qualquer amador na astronomia.  Algo semelhante a nebulosa da águia e os pilares da criação (provavelmente a foto mais famosa do Hubble e da história da astronomia.  E assim como esta é muito melhor nas fotos do que a vivo. Uma modelo....
                No ultimo post do Nuncius Australis falei de M 21 e expliquei que não poderia falar de um sem falar de outro. Mas talvez pudesse até ter pulado M 21. Já a Trífida seria imperdoável.
                Missão dada missão cumprida. Vamos falar de M 20 com toda a atenção que esta merece. Este é um daqueles posts que foi até adiado devido a importância da moça. Algo com M31. Já até abordei o assunto, mas acabei me concentrando mais no seu entorno (a Nebulosa Porter-Mason) do que na sua parte mais nobre. Quem tem c... tem medo.

                Quem leu o post anterior sabe que M 20 reside e torna (em conjunto com a obra) esta região em Sagitário uma das mais dramáticas e lindas do céu. A Avenida Rio Branco da Via Láctea. A olho nú (e em locais escuros) ela faz par com M 8 (A nebulosa da Lagoa. Outra diva.) e com diversos abertos e campos estelares que tornam até difícil saber quem é quem. Ao contrario da Lagoa M 20 é pequena. Uma moça mais recatada. Porém de beleza muito delicada e traços incomparáveis. Uma DSO (gênero é algo ultrapassado hoje em dia...) de vários DSO`S. E não consigo imaginar a Trífida como algo diferente de uma musa.
                Como uma diva ela não revela seus segredos e nem seus agudos sem algum esforço. Me lembro até hoje (vão anos) da primeira vez que a vi. Ela não me deu muita bola e assim como Messier não percebi todos seus encantos. Ele é enganado por seu modesto telescópio e diz apenas “Aglomerado de estrelas, logo acima da eclíptica, entre o arco de Sagitário e pé direito de Ophiuchus.” Na sua descrição de M 21 ele fala de alguma nebulosidade envolvida.
                M 20 foi, provavelmente, observada anteriormente por Le Gentil em 1747. Messier a conheceu em uma noite especialmente feliz onde ele registrou ainda M 21, M19 e M 22.
                Sua experiencia (quero acreditar) foi muito parecida com a minha. Partindo de Kaus Australis fui navegando para oeste e esbarrei no caminho com M21. E obrigatoriamente cheguei também a M 20. Eram tempos do “Galileu” (meu Celestron 70 mm). Bambo que nem bambu em uma Eq 1. Ainda bem verde já sabia onde estava e treinei minha “averted vision”. Provavelmente influenciado pelas fotos que já tinha visto percebi alguma nebulosidade no que mais parecia uma estrela dupla. M 21 não me enganou e percebi apenas um aberto. Definitivamente não parecia as fotos do Hubble. A nebulosa escura que recorta a paisagem e empresta seu nome a dama não estava lá. Embora eu quase acredita-se nisto. Troquei a ocular pela 10 mm. Uma Kelner tabajara. Maior, mas sem nenhuma novidade. Como quem nunca comeu melado quando come se lambuza achei a paisagem sensacional.  Segui viagem e M 8 roubou o show.
                Tempos depois e já com o Newton (um refletor 150 mm) voltei a região e com os céus mais escuros (mas nem tanto) de Búzios e maior poder de fogo consegui perceber seu charme. Mesmo assim com muito tempo de observação e muito mais experiencia junto a ocular. E não eram as fotos do Hubble.
                Como disse as duas grandes musas são modelos fotográficos. E finalmente eu fotografei M 20. Continuou não sendo Hubble. Mas a Trífida se fez presente e merecedora de tanta seda rasgada.

                Visualmente ela é pequena e em escala de cinza. E/ou meu telescópio é pequeno (ele é). Mas é a Trífida. Percebe-se sua natureza e em céus escuros sua extensão (a Nebulosa Porter Mason) se faz presente e por um truque de contraste percebe-se até alguma cor...
                M 20 tem paternidade discutida. A Maioria dos autores concorda que Le Gentil observou a mesma enquanto inspecionou M8 (facilmente percebida a olho nu e um dos pontos mais brilhantes da Via Láctea). Stoyan defende que Messier é o pai da criança.  Já sua personalidade tripla parece ser percebida por John Herschel. Autores clássicos e habitantes do hemisfério norte (e possuidores de acromáticos) não fala nada a respeito (Smith e Webb). Herschel (filho) observou do hemisfério sul e com um refletor muito maior...  Ele foi quem batizou a criança. É o padrinho da Trífida. E a descreve assim; “... consiste de 3 massas nebulosas e irregulares gradualmente mais brilhantes em direção ao centro onde encapsula um forcado ou uma área vazia abruptamente sem luz como um vazio na nébula.... Uma linda estrela tripla é situada exatamente na borda de uma das massas nebulosas exatamente onde o vazio se bifurca em dois canais”.
                Burnham nos conta que sua estrutura Trífida é facilmente percebida com um telescópio de 200 mm. Com meu 150 ele é evidente com 120 X de aumento e em locais relativamente escuros. Do Rio de Janeiro é preciso muita fé...
                M 20 consiste de duas estruturas basicamente. A Trífida propriamente dita, que brilha intensamente em Ha e é uma nebulosa de emissão e um halo azulado (a Porter Mason) que é uma nebulosa de reflexão. A Trífida é a nebulosa de emissão e uma parente próxima de M 42 (a Grande Nebulosa de Orion). Porém muito mais jovem. A maior parte de suas estrelas nascituras continua escondida no escuro. Este aglomerado secreto não possui mais de 500.000 anos. Sua área ocupa algo como 15 anos luz e apesar de discussões parece se encontrar mais próxima que o entorno. Mas há divergência entre as fontes. Ela não pertenceria a imensa aglomeração OB de Sagitário. Estaria do lado oposto do braço de M 21. Em fotos do Hubble se perceba vários EGGs. Embriões de estrelas. Um local bem animado...

                Pela buscadora M 20 é um pequeno borrão em volta de uma brilhante estrela. Mas com M 21 para indicar o caminho é um alvo fácil. Conforme se vai aumentando o poder de fogo mais impressionante ela se torna. Céus escuros ajudam muito.
                Como modelo é uma delicia de se fotografar. Já fiz varias experiências. Atualmente resolvi levar astrofotografia mais a sério. Será alvo de uma expedição em breve. As fotos aqui apresentadas são fruto de algumas sessões observacionais, mas, sem muito compromisso. Estou vivendo uma história de amor com o PixInSight e creio que vá passar a fazer capturas mais a sério. Mesmo porque não preciso mais observar 40 objetos por noite. O fim da infância...
                 Uma das grandes damas da noite mesmo sem se apresentar. Uma diva com jeitão de Tim Maia...
- Vai Banda Vitória Régia. 
(Para quem não teve o prazer de ver o sindico se apresentar (vi 4 vezes) em noites ruins ele abria o show, mandava a banda arrebentar e voltava só para fechar o espetáculo. Dos quatro, três foram a sério. O outro foi a banda que tocou. Arrebentava...)

terça-feira, 12 de junho de 2018

M 21 : Uma introdução para M 20


                



            Há tempos devo uma apresentação de M 21 aqui no Nuncius Australis. Como venho retrabalhando diversas antigas fotos com o auxilio do poderoso PixInSight 1.8 e aproveitando o material para aprender a mexer com o software (que com muitos recursos não é exatamente autoexplicativo) acabei esbarrando em uma antiga foto de M 21.
                O problema é que esta trata-se de um crop sobre uma outra foto muito maior e que engloba a muito mais charmosa Nebulosa Trífida, M 20.


                M 21 é um pequeno aglomerado aberto que apesar de algumas opiniões divergentes não emplaca mais que I 2 p na classificação Trumpler (se você leva astronomia um pouco a sério deve conhecer a classificação Trumpler para aglomerados galácticos. Ou clique aqui). O p no final significa pobre... Assim é pouco mais que um nó de estrelas brilhantes.
                Há algum tempo escrevi a respeito de M 20. Mas por razões que vão muito além da vã filosofia acabei por dedicar o post mais ao apêndice (A Nebulosa Porter Mason) mais a norte da Trífida do que à M 20 propriamente dita. Provavelmente porque aqui no Nuncius Australis temos profundo carinho pelos astrônomos dublês de Dons Quixotes. Não que Mason fosse um “Cavalheiro da Triste Figura” como Burnham. Ele está mais para o “Cavalheiro da Triste História”.  

Treinando no PI. O programa não pinta. Mas funciona como um pau de arara. Se houver informação ele extrai. E com menos ruido que qualquer outro soft de processamento fotográfico que conheço. Pau a pau com o Photoshop só que com as ferramentas para astrofotografia já prontas. Esta captura foi feita com algumas poucas dezenas de fotos de 30 seg. ISO 1600. E para piorar a captura foi em Jpeg... A sessão de tortura começou com um Tiff empilhado no DSS ha alguns anos. 

                De qualquer forma é impossível falar de M 21 sem falar de M 20.  Embora exista a chance de que o alinhamento destes dois DSO´s trate-se apenas de uma das Coincidências de Adams (coincidências que nada tem a ver com as leis fundamentais do universo embora possam sugerir ter...) é possível que a reunião não seja casual. Ambos estão localizados entre 4 e   5000 anos de luz nós e mesmo estando separados por 1000 anos luz eles habitam o mesmo Microcosmo. Na verdade, uma das regiões mais dramáticas da Via láctea. Especialmente se você levar em conta que M8, a Nebulosa da Lagoa, habita logo ao lado e esta forma certamente par com M 8 em uma imensa região HII próxima a “décima terceira vertebra” (a região central da Via Láctea...). Em um paralelo com o conceito de “Naturgemälde” desenvolvido por Humboldt não se pode compreender as partes sem uma compreensão plena da paisagem. Mas aí já estamos retornando se não a vã filosofia pelo menos a geografia.
                Assim sendo façamos como o açougueiro: Vamos por partes. Hoje falaremos de M 21 e amanhã de M 20....



                M 21 é um aglomerado galáctico facilmente localizado junto a M 8. Em ambientes de forte poluição luminosa, geralmente, se chega primeiro a M 21 (partindo-se de Lambda Sagitário ou de Mu Sagitário) no caminho para M 20.  Ambos ocupam o mesmo campo em uma ocular de grande campo. No meu caso uma 40 mm e até mesmo e com jeitinho na 26 mm.  Messier localizou M 21 na noite de 5 de junho de 1764 (uma noite muito produtiva pois além de M 21 ele “descobriu” M 20, M19 e M 22). M 21 é uma descoberta original de Messier (M 20 foi provavelmente notada anteriormente por La Gentil em 1747) e com seu modesto telescópio ele nos deixou o seguinte testemunho: “Aglomerado de estrela próximo ao anterior (M 20). A estrela mais próxima conhecida próxima a estes dois aglomerados é 11 Flamsteed Sagitarii. As estrelas nestes dois aglomerados são de 8a e 9a magnitude e cercadas por nebulosidade.”
                M 21 não apresenta nenhuma nebulosidade (pelo menos não sem auxilio de um filtro de nébula e de um telescópio muito grande). Stoyan nos conta que a 1o a nordeste de M 21 habita Sharpless 34. Mas é alvo difícil mesmo em astro fotos e perceptível apenas com auxílio de um telescópio de ao menos 300 mm e utilizando um filtro de banda estreita. Messier certamente foi enganado duas vezes naquela noite. Nem M 20 é um aglomerado aberto nem M 21 apresenta nebulosidade. Smith em sua descrição no “Cycles of Celestial Objects” parece desvendar o mistério no que diz respeito a M 21: “Um frouxo aglomerado de estrelas telescópicas em um rico entroncamento galáctico. Ao redor do centro um conspícuo par. A. 9 mag. Amarelada; B. 10 mag.  Acinzentada; Pa 317o. d. 30.9´´ (1875). Messier inclui algumas periféricas em sua descrição (na minha copia não...) e o que ele menciona como nebulosidade tem que ter sido um agrupamento de estrelas mínimas no campo.”
                Webb não chega a dar uma verdadeira descrição do aglomerado, mas fala “de uma região brilhante (...a lucid region).
                Embora haja alguma divergência M 21 se encontra a cerca de 4000 anos luz e está localizado no braço espiral de Sagitário. Um pouco mais perto que M8 e M 20. Faz parte da associação OB1, e como todos os seus membros, é um objeto muito jovem. Há evidências de dois ciclos de formação estelar no aglomerado. Park et cia. Acharam estrelas de apenas 4 milhões de anos enquanto a maioria dos membros tem uma idade derivada de 7.5 a 8 milhões de anos. Forbes identificou 105 membros abaixo de magnitude 15.5 em um campo de 18´. Autores classificam o aglomerado entre Trumpler I 3 r e I 3 p. Como a classificação Trumpler é área de palpite liberado eu arrisco I 2 p.


                Com uma magnitude de 5.9 M 21 é visível a olho nu de céus escuros. Mas a região tão rica e clara que é difícil isola-lo na paisagem. Será facilmente percebido como um pequeno nó de estrelas com quase qualquer auxilio ótico. O´Meara em um arroubo "Rossiano" diz perceber uma estrutura espiralada em M 21. (Ross foi o proprietário do maior telescópio de seu tempo. O Leviatã. Foi o primeiro a perceber claramente estruturas espirais em varias galaxias. Depois começou a perceber espirais em tudo que observava....) 
                Depois de observar este aglomerado ultrajovem é só seguir viagem para nossa próxima parada: M 20. A Nebulosa Trífida.  

domingo, 10 de junho de 2018

M 93 e a Impostura Científica


            


      M 93 é o palco onde se desenrola uma daquelas histórias cômicas e venenosa que costumam permear a existência humana. Sendo uma das entradas mais austrais do Catalogo Messier não é lá muito lembrado nos livros clássicos por sua aparência. O que é já é, por si só, uma grande bobagem. É um belíssimo e rico aglomerado aberto em Puppis. Especialmente para os felizardos que habitam ao sul da Nova Inglaterra...

     Carrega o karma de ser sempre lembrado não pela modesta descrição feita deste por Smith no “The Bedford Catalogue” no segundo volume de seu maravilhoso “Cycles of Celestial Objects”. Na verdade, é mais lembrado pela indiscrição e certa maldade do geralmente politicamente correto Admiral Smith.  Neste ele nos conta da proeza do Chevalier d´Anglos. 

       Besteira é uma palavra com vários sinônimos: absurdo, bestice, bobagem, asnada, asneira, asneirada, asnice, baboseira, bestagem, burrice, calinada, despautério, despropósito, dislate, disparate, estultice, estultícia, estupidez, idiotice, imbecilidade, insânia, necedade, nescidade, pachouchada, palermice, parvoíce, patetice, sandice, toleima, tolice, tontice.

         Smith inclui mais um: “Angosiades”. Depois veio a se referir a todas as gafes astronômicas como uma “Angosiade”. Em uma adaptação livre cometerei um barbarismo e utilizarei o termo “angosiada”. Nos tempos de Smith o francês era a língua mais prestigiada e os galicismos eram mais comuns que os anglicismos atuais...
Chevalier Dangos

          O Chevalier d´Angos  ( Jean Auguste D´Angos – 1744-1833) foi um dublê de químico e astrônomo obtendo resultado desastrosos em ambas as ciências. Cavalheiro de Malta (assim como Villegagnon) primeiramente colocou fogo no Observatório no `Palácio de Valetta realizando um experimento com fosforo. E posteriormente fez má fama descobrindo cometas inexistentes e/ou confundindo DSO`s com estes.  M 93 foi um desses casos e o erro foi divulgado amplamente por Smith. Encke, particularmente, o perseguia ferozmente.  Sua última “angosiada” antes de cair no ridículo total foi descobrir o planeta Vulcano. Este orbitaria mais perto do Sol que Mercúrio.

           M 93 carrega ainda a honra dúbia te ter sido a ultima entrada do Catalogo Messier descoberta pelo “Eu Profundo” de Messier. Daí para frente todas as entradas originais foram obras de “outros eus”. Especialmente Méchain.

         Messier descobre o aglomerado em 20 de março de 1781 e o apresenta de forma breve: “Aglomerado de pequenas estrelas sem nebulosidade”.

        Smith depois de destilar seu veneno contra o picareta D´Angos nos diz “um elegante grupo na forma de uma estrela do mar”.  E Webb é ainda mais conciso: “um brilhante aglomerado em uma rica vizinhança.”

     Burnham tem uma impressão muito semelhante à minha e percebe uma massa central evidentemente triangular ou em forma de cunha com estrelas se espraiando por um diâmetro aparente de cerca de 25´. Ressalta ainda que K.G. Jones percebe uma borboleta de asas abertas. Posso até conseguir perceber isto também...

      Algo que adoro no Burnham´s Celestial Handbook (além do livro todo...) é que as fotos que o ilustram não são tão melhores que as que consigo realizar por aqui. E M 93 especialmente elas são tão ruins quanto.  Quiçá piores. Deveria ser um hobby ingrato fazer astrofotografia amadora ( e mesmo profissional) nos anos 60.

        M 93 habita o lado oposto do braço de Orion habitando a 3400 anos luz de nós. Bonnato calculou que este se espalha por 23 anos luz e seu núcleo possui cerca de 2. 3 anos luz. Sua massa é calculada em 1700 massas solares e sua idade já vai na casa de 400 milhões de anos.

   Duas estrelas alaranjadas se sobressaem na paisagem. são membro reais do grupo e duplas. Fazem parte do catalogo Aravamudam e são Ara 2066 e Ara 2064. Como quase sempre sua cor é alvo de controvérsias...



     Scott Houston nos afirma que M 93 é perceptível a olho nu a partir de sua residência na Nova Inglaterra. Logo, aqui do Tropico de Capricórnio, deveria ser tarefa fácil. Sabendo onde olhar e em local bem escuro é factível...   Facilmente localizável a partir de Asmidiske ( Xi Puppis) e utilizando Aludra ( Eta Canis Maj) como apoio. Facilmente notado na buscadora

     O´Meara em seu “Deep Sky Companions: The Messier Objects” chama atenção para um interessante padrão que posteriormente a leitura percebi. M 93, especialmente pela buscadora, possui um padrão assimétrico que recorda um olho de gato. Recordando assim o globular M 4.

     M 93 é um belíssimo alvo visual onde se percebem estrelas de diversas magnitudes compondo um quadro com mais de 50 estrelas facilmente percebidas. Eu o enquadraria na classificação Trumpler como I 3 m. 

segunda-feira, 28 de maio de 2018

M 50 : Paternidade, PixInSight, Photoshop e Grande Greve


      


      Com o país a beira do colapso, minha conta bancaria solidária a nação, o carro sem gasolina e a lua quase cheia não me vejo observando tão em breve. Que fique registrado que este post foi realizado durante aquela que será lembrada como a “Grande Greve de Caminhoneiros de 2018”. Uma versão menos romântica e menos trágica que a “Grande Fome da Irlanda”. A última foi causada com a ajuda da Phytophtora Infestans. Ambas compartilham a pouca vergonha dos governantes.
Desta forma me resta caçar DSO´ que tenha fotografado e que tenham acabado relegados devido a outros objetos mais interessantes ou a capturas abaixo da média. M 50 é um destes casos.
            Mas engatinhando no PixInSight 1.8 (uma espécie de Ferrari dos programas de processamento de fotos astronômicas) achei que deveria dar as fotos de M 50 realizadas durante a Aporema (uma festa que remonta ao período pré-colombiano aqui na Pindorama) de janeiro uma nova chance. É impressionante o que se pode fazer com o bichinho. Especialmente se usar um coquetel de 1 parte Photshop e 1 parte PixInSight. É um caso típico de “O impossível a gente faz agora. Milagre demora um pouco...”.

Não é nenhuma Brastemp. Mas é M 50 "cuspido e escarrado"... 

            Primeiro M 50.
Trata-se de um belo aglomerado aberto.  Acho estranho que não seja mais cantado em prosa e verso. Embora, seja dito, que na língua de Camões exista pouca literatura sobre o céus... Nenhum guia observacional clássico foi jamais traduzido para o português.
            O grande aglomerado em forma de coração habita a constelação de Monoceros  (Unicórnio).  Sua paternidade é alvo de interessantes histórias envolvendo os tais guias observacionais clássicos. Smith em seu “The Bedford Catalogue” (que é como ele batizou o segundo volume do seu livro e guia “Cycles of Celestial Objects”. Como seria de se supor o Observatório de Smith se localizou em Bedford.) fala que M 50 é uma interessante dupla. O evidente aglomerado em sua volta era apenas um “plus”. E  ele nos diz que Messier descobriu o aglomerado em 1771 e o descreveu como “uma massa de estrelas mais ou menos brilhantes”.  Seu contemporâneo Reverendo Webb parece ter se impressionado mais... Se refere ao grupo como - Um Brilhante aglomerado, h (John Herschel) nos diz que com 30´. Com uma estrela vermelha. Entre Sirius e Procyon; 1/3 mais próximo da última. Em uma soberba vizinhança aonde o Criador teria “Semeado de estrelas, o céu é denso como um campo.”
            O guia de Webb foi substituído quase um século depois pelo hoje já histórico “Burnham´s Celestial Handbook”. Neste Burnham atribui a descoberta de M 50 a Cassini antes de 1771. Depois desmente Smith e nos conta que Messier descobre o mesmo de forma independente apenas em 1772 (é verdade. Messier observou M 50 em 5 de abril de 1772). Para alimentar nossa curiosidade acrescenta que Bode também o registra em 1774 procurando por um objeto reportado por Cassini. Importante frisar que estamos falando de Giovani Domenico Cassini (descobridor da Divisão Cassini nos anéis de Saturno). E que a descrição que leva a isto está no livro “Elementos de Astronomia” de seu filho Jacques Cassini (escrito em 1740).
            Tratando-se de DSO´s do Catalogo Messier costumo utilizar 3 fontes mais atuais para checar os fatos. A primeira é o Guia do Stoyan para os Objetos Messier (“Atlas of the Messier Objects; High Lights of the Deep Sky”). Este nos diz que é quase certo que M 50 foi uma descoberta de Cassini. Depois deste a próxima parada é o “Deep Sky Companions; The Messier Objects” do O´Meara.  Este também nos diz ser “possível” que M 50 seja uma descoberta de Cassini.  Por fim gosto de olhar a pagina da SEDS para o catalogo Messier. De novo é “possível” que Cassini tenha “furado” Messier. Na minha modesta opinião a raiz de todo o problema está no fato que Cassini de fato observou algo em Monóceros. Mas não marcou sua posição. Como Bode nos diz: “Em 2 de Dezembro de 1774 eu procurei observar a “estrela nebulosa” a qual M. Cassini diz ter visto entre o Cão Maior e Menor, e da qual não consegui localizar em local algum a descrição de sua posição. Eventualmente localizei, nesta região, ao norte de Theta, Um e Gamma na cabeça de CMa ou abaixo da barriga do Unicórnio um pequeno aglomerado em superfície nebulosa.”  Na região abundam abertos. Mas M 50 é um dos mais evidentes. Logo ...    
            Como falei o aglomerado é pouco cantado. O´Meara nos diz que M 50 é “um obscuro aglomerado em uma obscura constelação”. Um objeto Messier dificilmente pode ser muito obscuro. Mas levando-se em conta a lista ...Ok!
            Localizado a 2900 anos luz de nós e com um diâmetro aparente de aproximadamente 15´ pode-se calcular que o mesmo ocupe cerca de 13 anos luz de galáxia. Dependendo de quem o vê sua classificaçãoTrumpler varia entre I 2 m, II 3 m até II 3 r.  Como palpitar na escala Trumpler é permitido eu aposto em II 2 r. Ou seja um aglomerado que se destaca do fundo com leve concentração central e com mais de 100 membros. Clarie et al. Identificou 109 membros entre 175 candidatos no campo de M 50. Estudos mais recentes e com muito mais poder de fogo chegam a mais de 2000 membros com magnitude limite de 23.  Estudos ainda mais recentes indicam uma idade de mais de 100 milhões de anos. E assim é pouco provável algum parentesco (outrora suspeitado) com Ngc 2353 e a Nebulosa de Roseta.


            Localizar M 50 não é difícil. Seguindo uma linha que sai das Três Marias e segue para um local entre  Sirius e Procyon vai acabar te levando até ele. Há outros aglomerados na região para se esbarrar. Mas ele é o mais evidente. Que o diga Bode...

Antes de "roubar" no Photoshop. Apenas 12 exposições de 30 seg 1600 ISO stacked no Rot n Stack

            De volta a nossas fotos o “Aglomerado do Coração” foi registrado de Nova Friburgo em noite sem quase nenhum compromisso com a astrofotografia. E com um alinhamento polar realizado apenas para poder apresentar as crianças algumas maravilhas celestiais. O resultado foi que com o andar da noite as crianças foram dormir e o céu acabou ficando bem mais transparente que o esperado. E assim forcei uma barra para tirar algumas fotos de dois abertos do catálogo Messier que nunca tinha registrado (embora já tivesse observado ambos algumas vezes) M 50 e M 93 (do qual tinha recordações mais exatas).  M 50 me surpreendeu. Grande brilhante e colorido. Tinha que fotografar. E assim consegui cerca de uma 10 de imagens com bastante rastro.
            Provavelmente devido a isto estas fotos ficaram esquecidas por um bom tempo. Empilhei o lote utilizando o Rot n Stack. Fotos muito toscas não servem para o DSS (Deep Sky Stacker). Ele se recusa a empilhar.
            Ao longo do post   vocês devem ter percebido que fotos péssimas nunca ficam muito boas. Mas quase sempre é possível se obter um registro de DSO´s mais brilhantes sem grandes pretensões ou tempo. Evidentemente o material não se prestará a grandes ampliações. Mas será excelente referencia para a identificação de DSO´s. 
            Uma técnica pouco digna, mas muito funcional para reduzir o rastro das estrelas com o Photoshop. Duplique o layer de fundo e “escureça” o layer duplicado. Depois corra o layer superior sobre o de fundo e veja as coisas se ajeitando. O PixInSight resolve bem o gradiente de fundo de fotos que foram capturadas sem a realização de darks ou flats. Venho percebendo que em capturas realizadas com câmeras DSLRS os flats são mais importantes que os darks ou Bias. Outra coisa é que o PixInSight é um programa que demanda mais estudo... comecei a ler o “Inside PixInSight”.  Vou estudar. E na próxima lua nova quero fazer uma captura mais séria de alguns DSO´s para poder “brincar” mais a sério com o novo brinquedo.... Andei testando realizar o stacking no PI. Mas é bem mais trabalhoso que no DSS. O procedimento descrito no livro realmente pode ser que leve a resultados superiores. Mas não sei se tanto...

terça-feira, 15 de maio de 2018

M 68 : O Globular do Corvo


            


       O Catalogo Messier possui 29 aglomerados globulares. Há anos venho buscando fotografa-los. Devido a aquelas coincidências que nada tem com as leis fundamentais do universo (coincidências de Adams) M 68 acabou sendo o antepenúltimo destes que fotografei. Curiosamente foi um dos primeiros que observei. Ao contrario do que Messier nos diz em seu catalogo eu acho M 68 facilmente visível e graças a sua posição em relação as estrelas de Corvus facilmente localizável. Mas o tendo observado diversas vezes tinha como certo que já deveria ter fotografado o mesmo. Ao organizar minhas fotos descubro que não era verdade. E desta forma este que é um fácil aglomerado globular acabou sendo capturado em uma noite fria e nebulosa onde quase tudo deu errado. Mas como aqui no Nuncius Australis mais vale a captura que a foto propriamente dita chegamos ao ponto onde nos encontramos agora.

            M 68 carrega ainda uma outra coincidência consigo. Ele é o último objeto incluído na segunda parte do catalogo Messier. Este na forma que foi publicado possui 103 entradas e dividiu-se em 3 fases. Sua primeira versão (da qual sou o orgulhoso proprietário de uma cópia digitalizada) é de 1771 e foi publicada nas Memoires de l´Académie de Sciences de 1774. (Objetos de 1 até 45). A segunda parte é de 1780 e foi publicada no mesmo Memoires só que desta vez na sua edição para o ano de 1783. Incluindo aí as entradas de 46 até nosso querido M 68.  Sua ultima etapa foi publicada no Memoires de 1784. Que acaba em M 103. Postumamente foram incluídas as entradas de M 104 até M 110.

            Como disse Messier o considerava um alvo difícil: “9 de abril 1780 – Nebulosa sem estrelas abaixo do Corvo e da Hidra. É muito tênue e difícil de se perceber com os refratores; próximo a uma estrela de 6a magnitude.”

            A primeira vez que observei M 68 foi com o “Galileu” (um refrator de 70 mm f13). Estava na Armação dos Búzios. Embora não se resolva e seja apenas um esfuminho é bastante evidente e revela sua identidade mesmo para uma buscadora 8X50mm.

            A “paternidade” de M 68 é alvo de alguma disputa. Glyn Jones nos diz que foi Méchain seu descobridor. O´Meara também assim o diz em seu "Deep Sky Companions: The Messier Objects" Mas a maioria dos autores garante ser este um “Messier Original”. Este sempre deu os créditos nas descobertas de seu grande colaborador. 

      Herschel Pai (William) fala de um aglomerado bem concentrado sendo como sempre o primeiro a resolver os globulares de Messier. Já Herschel Filho (John) diz resolver este facilmente. Entre os guias mais clássicos de todos (Smith e Webb) também há conflito. Enquanto Smith parece apanhar do clima inglês e nos dizer que só percebe “uma nebulosa grande, arredondada e muito pálida” seu conterrâneo e contemporâneo e em geral mais modesto reverendo Webb fala em “bem resolvido” e de uma estrela rubi... M 68 pertence a classe X de concentração de globulares. Portanto mais para um aglomerado pouco concentrado do que para um muito e insolúvel grupo de estrelas muito espremidas.
Drizzle. 


            Observado com o Newton (me refletor de 150 mm f8) com 120 vezes de aumento eu pendo para o lado de Webb. Mas não resolve sua parte mais nuclear. Percebo estrelas no terço exterior do mesmo e nenhuma cor. Na noite que este foi fotografado as coisas estavam bem ruins e neste caso a descrição de Smith seria mais apropriada.

            M 68 é um aglomerado típico do halo galáctico. Possui uma orbita bem excêntrica, não habita perto do núcleo (entenda Ophiucus, Sagitário e Escorpião), sua orbita leva mais de 500 milhões de anos e pode estar a mais de 100.000 anos luz do núcleo galáctico. Segundo Stoyan tem mais e 10 bilhões de anos (o que me parece pouco...) e baixa metalicidade.  Possui 42 estrelas variáveis conhecidas sendo 40 destas do tipo RR Lyrae tão típicas de globulares.  Atualmente se encontra a 36.000 anos luz de (e se aproximando) e possui um tamanho físico de aproximadamente 120 anos luz.
            O biônico O´Meara acha que M 68 é um belo desafio para vista desarmada. Talvez no Atacama... Sendo um globular bem austral para o catalogo Messier é compreensível que este o considerasse difícil, mas de latitudes mais austrais é alvo fácil para binóculos 10X50 mm. Com grandes telescópios é fácil se perceber a estrela avermelhada citada por Webb. Localiza-se 5´ a noroeste do núcleo de M 68.


            Navegar até este é fácil. Considerando a linha que liga Algorab (Delta Corvus) até Kraz um passo siga aproximadamente mais meio passo e chegue até seu objetivo.
Rot N Stack Modo mean utilizando um dark frame auto gerado ( que geralmente leva a uma coloração meio esverdeada das fotos...). Esta imagem recorda muito o aglomerado quando o bservado visualmente em condições ideais com cerca de 60X de aumento ( exceto pelo verde)

            As fotos aqui apresentadas foram realizadas em noite muito enevoada e o alinhamento polar feito "de ouvido". O material capturado em RAW não rendeu. Fui obrigado a converter tudo em JPEG e empilhar as poucas fotos obtidas no Rot n Stack. O Resultado final foi muito ruido e algum verde... A fim de me livrar do verde que vemos na foto logo acima foi fácil . O Photoshop transforma tudo em uma escala de cinza com um único click... Astrofotografia é a maior diversão. 

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Um Novo Posto Avançado, Astrofotografia e Humboldt


     

       Com a chegada do Outono é tempo de galáxias para o observador amador. A grande coleção destas que habita no aglomerado de Coma-Virgem e esquina com Leão fazem a alegria destes. Mas galáxias são criaturas exigentes e cheias de vontades. E assim céus escuros e secos não só ajudam muito como são condição importante para a tarefa.
            Com a cara metade em uma fase nem tão cara e nem tão metade acho por bem pegar meu pequeno e seguir rumo a Pedra Riscada. Esta reside nas proximidades de Lumiar e encravada na Serra do Mar. Local de céus bem escuros. Rurais... Bortle 3.
            Mesmo com a meteorologia se tornando cada vez mais uma ciência quase exata e me dizendo que as condições seriam bem nubladas eu levo todo o circo.
            Seria a primeira grande aventura de meu jovem Indiana Jones (4 anos) para acampar. Assim sabia que minhas observações além de lutarem contra as nuvens seriam bem truncadas pelos cuidados necessários ao novo aventureiro. Não o poderia deixar muito largado em um terreno minado por um caudaloso rio e por três açudes.

            A viagem transcorre tranquila. Depois de um “almoço” em um Bob´s já na estrada meu filho pergunta cerca de 3 vezes “- Falta Muito?” e finalmente dorme. Ele acorda já no camping.
            O local (Camping Cantinho Doce) é muito agradável e bem estruturado. Oferece também algumas casas para alugar. Mas meu filho decide que prefere ficar em uma barraca. Tudo disponibilizado pelo estabelecimento. Com esta montada na parte alta do camping a noite (caso as nuvens que rondam dêem sossego) promete.
            O site Meteoblue (veja o link aí do lado...) me diz que entre as 19:00 e 21:00 horas haverá uma janela nas nuvens. Por incrível que pareça isto se confirma. Embora a transparência tenha continuado péssima.
            Com a atenção à criança e o céu muito enevoado fica difícil realizar um alinhamento polar digno. Me conformo e deixo tudo bem mambembe. Desta vez o objetivo principal da expedição é apresentar ao pequeno a “natureza selvagem”. O que observar vai ser lucro.
            Estou lendo um interessante livro, “A Invenção da Natureza” de Andrea Wulf. Uma biografia de Alexander Von Humboldt. Um dos principais responsáveis pelo nosso entendimento do que hoje se chama de ecologia. Sua obra magna “Kosmos: a Sketch of The Physical Universe” é um dos livros de cabeceira aqui no Nuncius Australis (até onde um compêndio com 5 volumes pode ser um livro de cabeceira). Humboldt foi, juntamente com John Herschel, Darwin, Goethe e cia. Ltda., a linha de frente da ciência no final do século XVIII e no século XIX. São diretamente responsáveis para a forma como nós hoje a compreendemos. Talvez devido aos arroubos “Humboldtianos” eu tenha observado menos do que o normal. Este nos diz ainda no primeiro volume de seu tratado que os fenômenos terrestres são muito mais complexos que os celestiais. E olhem que este certamente nunca soube o que era a paternidade. O livro de Andreas Wulf nos conta fofocas sobre os amores platônicos de Humboldt. Bem como suas aventuras ao longo do mundo...

            De volta a única noite que observei na companhia de Mlle. Herschel e o Newton (Minha cabeça equatorial HEQ 5 pro e meu telescópio newtoniano de 150 mm f8) acabei por conseguir um material fotográfico abaixo da crítica. E por isto mesmo de algum valor pedagógico...
Centaurus A em seu melhor resultado. Para chegar a isto foi necessário converter todas as fotos de Raw (.CR2) para arquivos Jpeg. Estes foram esticados no Camera Raw do Photoshop CS 6 . Posteriormente o Stacking foi feito no Rot n Stack. depois disto a foto foi salva como escala de cinza no Photoshop onde teve a ferramentas Curvas utilizada ajustada para "contraste médio".  12 ExpX 30seg iso 1600. Foi utilizado um dark frame autogerado pelo RnS.
Este é o resultado de uma unica exposição capturada em raw e posteriormente "esticada" no Camera Raw do photoshop e convertida em Jpeg.
Png gerado pelo RnS sem nenhum tratamento posterior. O uso do dark frame autogerado por este sempre causa um desvio intenso para o verde. Este é o modo Mean do RnS. Costuma ser o mais realista...

Este é o desastre de ruido obtido ao se empilhar os Jpegs no DSS. Sendo u programa mais poderoso ele amplifica além do sinal  muito o ruido presente nas imagens. 

            A primeira vitima foi Centaurus A. Esta uma galáxia bastante dada e que mesmo por entre as nuvens e envolta nas brumas comparecia mesmo visualmente sem grandes esforços. Foi escolhida especialmente por se encontrar perto as estrelas que foram utilizadas como guias para o sistema de go-to de Mlle. Herschel. A teoria (e o manual...) nos diz que devemos escolher estrelas em lados diferentes do meridiano e afastadas pelo menos 15o uma da outra.   Devido a ter que realizar a operação de alinhamento deste lutando contra nuvens que moviam-se mais rápido que o Rubinho e o Massa juntos eu acabei utilizando Acrux e Alpha Centaurus. Em tese uma combinação “pobre”. Mas a observação contrariou a teoria e o alinhamento acabou bastante preciso nas imediações. Foi arriscar Centaurus A e esta apareceu quase centralizada na ocular de 25 mm. Como conheço bem as “condições de contorno” na região em volta desta foi fácil faze-la se apresentar com um pouco de visão periférica. Sua característica bipolar e sua evidente banda escura pipocaram quase imediatamente. Algumas fotos e percebo que o alinhamento polar está muito ruim. Mas acho melhor deixar as coisas como estão. Afinal tenho que manter um olho no telescópio e o outro na criança...
Este é resultado do empilhamento de 12 fotos que foram convertidas para Jpeg. Empilhadas no Rns e posteriormente salvas como escala de cinza no Photoshop. A Partir do modo sort ( que apesar de ser muito pirotècnico as vezes dá certo.) 
Modo Mean do Rot nStack, PNG
Deep Sky Stacker a partir de arquivos em Ra convertidos par a Tif.

            Logo depois percebo que M 68 está alto no céu e em área desobstruída. Sendo um dos três ultimo globulares Messier que me faltam fotografar decido que (mesmo sabendo que o registro será tosco) é uma boa ideia captura-lo. O Go-to se apresenta brilhante e o coloca dentro do sensor da câmera sem a necessidade de nenhuma busca visual. Faço um pouco mais de uma dezena de exposições antes da região nublar.

M 60 Regio - Rns com Jpeg. PS em P&B. 6 exposições apenas

            Agora acredito que a região entre Leão e Virgem se apresenta desobstruída. Cravo M 60 no go-to e esta aparece no sensor. Mas alegria dura pouco e faço menos de 10 fotos desta. Não é o suficiente. Mas apesar disto ainda se perfilam mais algumas galaxias. Ngc 4660 se apresentava evidente mesmo no LCD da Canon. 
Uma  foto 30 seg 1600 iso

            Já ficando cansado das nuvens ainda tento mais um alvo. Mas o resultado abaixo demonstra que era melhor ter começado o desmonte da operação. Afinal já ia esfriando e  a condensação iria fazer estragos. Ngc 4349. Um aberto que Patrick Moore inclui na sua famosa lista Caldwell. Bem discreto. E todo borrado... Fiz só uma foto...
            Me recolho para junto ao rebento e vou dormir na esperança da Sexta feira ser mais fortunosa.
            Na sexta reúno um casal de amigos junto a uma das mais gostosas costelinhas que já vi. E o pequeno vai brincar com as crianças e ser mais criança do que já havia sido em muito tempo. A vida na roça é exemplar. Mas nada de observação esta noite. O programa foi conversar e discutir geomorfologia com meu bom e velho amigo (e curiosamente meu professor da matéria nos tempos de PUC) Gil Velho Cavalcanti de Albuquerque.

Gil Velho Cavalcanti de Albuquerque

            No dia seguinte acordo com o camping, que havia sido um espaço de mais de 10 hectares de terra só meu e de meu filho, sofrendo um processo de ocupação descontrolado. Empacoto tudo e sigo em busca de refugio na casa do velho professor.


            As observações daí para frente se resumiram a passeios espontâneos e sem maiores planejamentos com o “Pau de Dar em Doido” (meu binóculo 15X70 mm). Geralmente na área central da Via Láctea. O céu acostumou-se em dar um “abrida” entre 22:30 e 00:00 horas. Foram visitados (entre dezenas de Ngc´s que não identifiquei. Na maioria abertos. Mas também alguns pequenos “globs” e certamente muitas áreas de nebulosidade evidente...) M 4, 6, 7, 8, 16,17,18, 20, 21, 22 e 28, 69, 70, 75 e mais ... Não vi nenhum dos membros da chuva das Lyrideas.

Vamos fazer farinha?

Uma Herança da Primeira noite

            Mas nossa expedição no mais foi devotada ao reconhecimento das coisas da Terra e a introdução do meu menino na natureza. E este foi apresentado a gatos que em vez de miar rosnavam, cachoeiras onde se escorregava e a fazer “velhos amigos”.  Bem como a diversas formações geológicas interessantes. Os granitos com suas fendas que batizam a Pedra de Riscada, o gnaisse da Benfica, os brejos de altitude. Uma bela e minimalista introdução ao conceito de Naturgemälde (uma percepção da natureza como um todo orgânico e interligado) elaborado por Humboldt depois de sua escalada ao Chimborazo.  Sentia-me uma espécie de Waldo Emerson ou um Thoreau com mais de um século de atraso ou um Lovelock apenas um pouco tardio...

O insight de Humboldt ao perceber as faixas vegetacionais nas encostas do Chimborazo. Este é seu primeiro esboço...  Naturgemälde. Difícil de se traduzir. 

            A Pedra Riscada vai tornar-se o posto avançado aqui do Nuncius Australis. A Terra de José Eustáquio (também conhecida como a Armação dos Búzios) se tornou inviável devido a extrema poluição luminosa. Com a novas reformas na casa esta é hoje mais clara que a Stonehenge dos Pobres ( que como a fênix irá ressuscitar das cinzas) e com um monte de gente jogando contra. A astronomia observacional depende de que se goste e respeite o escuro da noite. Na Serra encontrei pessoas que   parecem comungar mais destes valores. Gente que quando você vai observar quer ver o céu. E que quando você dorme na varanda vai lá e te cobre com um belo cobertor.   Certamente  a maior altitude vais a colaborar. Creio ser necessário criar uma rotina para lidar com a maior condensação e com as temperaturas mais baixas que me aguardam no inverno. Penso em construir uma faixa térmica para montar no tubo do Newton.  E o céu é escuro de fato... Bortle 3 implica em que os grandes globulares sejam evidentes a olho nu. A Via Láctea apresenta uma estrutura complexa. As Nuvens de Magalhães se apresentam magnificas. M 33 perceptível com visão periférica para observadores treinados. E muito mais... 
            De volta ao Rio de Janeiro e as mazelas do lar me resta dar um jeito no material fotográfico obtido na minha única sessão.
            Decidi atualizar minha versão do DSS (Deep Sky Stacker) para a mais recente versão 4.1.0. Mas esta tem algum bug pois ela carrega a versão da foto 32 bits em Tif, mas depois para de funcionar. O arquivo "autosave" termina salvo na pasta original de onde veio o material para o stacking, mas não consigo ir além nele. Comparando o resultado com minha antiga versão 3.3.4 acho que não noto nenhuma diferença. Por enquanto fico com a anterior...
            Fotografar em noites muito enevoadas é um exercício quase inútil. O material obtido termina com um ruído absurdo. E com nebulosidade e com mal alinhamento polar é realmente um trabalho quixotesco.
            Logico que não posso resistir a tentação de perder meu tempo tirando leite de pedra.
            O DSS se recusa a empilhar os arquivos em Raw. Que apesar te possuírem muita informação escondida não a revela para ele. A mensagem “O DSS só empilhará um fotograma luz” é recorrente em todos os DSO´s que apresentei. Mesmo com o Threshold em 2%.
            Esta maneira me resta abrir os arquivos em RAW no Photoshop e utilizando o “Câmera Raw” (um plug-in)
 espremer estes e depois salvar em Tif e/ou Jpeg. E com estes arquivos empilhar no DSS. Geralmente quando os caminhos no pós processamentos são pouco ortodoxos e recordam peregrinações é porque a captura foi uma M... O resultado é uma foto com muitos ruídos.  Um registro. 
            Nestes casos muitas vezes utilizo o Rot n´stack. Um primitivo software de stacking, mas que em casos extremos tende a presentar resultados um pouco melhores (ainda que meio “estranhos” ...). A fotos tem o work flow de cada uma nas legendas.
            No mais foi muito divertido e encontrei velhos amigos e debates que se não havia esquecido estavam em alguma pasta bem escondida.
Júpiter nascendo...

            Em maio espero conseguir retornar a Pedra Riscada para um encontro mais a sério com Messier em Virgem...