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terça-feira, 15 de maio de 2018

M 68 : O Globular do Corvo


            


       O Catalogo Messier possui 29 aglomerados globulares. Há anos venho buscando fotografa-los. Devido a aquelas coincidências que nada tem com as leis fundamentais do universo (coincidências de Adams) M 68 acabou sendo o antepenúltimo destes que fotografei. Curiosamente foi um dos primeiros que observei. Ao contrario do que Messier nos diz em seu catalogo eu acho M 68 facilmente visível e graças a sua posição em relação as estrelas de Corvus facilmente localizável. Mas o tendo observado diversas vezes tinha como certo que já deveria ter fotografado o mesmo. Ao organizar minhas fotos descubro que não era verdade. E desta forma este que é um fácil aglomerado globular acabou sendo capturado em uma noite fria e nebulosa onde quase tudo deu errado. Mas como aqui no Nuncius Australis mais vale a captura que a foto propriamente dita chegamos ao ponto onde nos encontramos agora.

            M 68 carrega ainda uma outra coincidência consigo. Ele é o último objeto incluído na segunda parte do catalogo Messier. Este na forma que foi publicado possui 103 entradas e dividiu-se em 3 fases. Sua primeira versão (da qual sou o orgulhoso proprietário de uma cópia digitalizada) é de 1771 e foi publicada nas Memoires de l´Académie de Sciences de 1774. (Objetos de 1 até 45). A segunda parte é de 1780 e foi publicada no mesmo Memoires só que desta vez na sua edição para o ano de 1783. Incluindo aí as entradas de 46 até nosso querido M 68.  Sua ultima etapa foi publicada no Memoires de 1784. Que acaba em M 103. Postumamente foram incluídas as entradas de M 104 até M 110.

            Como disse Messier o considerava um alvo difícil: “9 de abril 1780 – Nebulosa sem estrelas abaixo do Corvo e da Hidra. É muito tênue e difícil de se perceber com os refratores; próximo a uma estrela de 6a magnitude.”

            A primeira vez que observei M 68 foi com o “Galileu” (um refrator de 70 mm f13). Estava na Armação dos Búzios. Embora não se resolva e seja apenas um esfuminho é bastante evidente e revela sua identidade mesmo para uma buscadora 8X50mm.

            A “paternidade” de M 68 é alvo de alguma disputa. Glyn Jones nos diz que foi Méchain seu descobridor. O´Meara também assim o diz em seu "Deep Sky Companions: The Messier Objects" Mas a maioria dos autores garante ser este um “Messier Original”. Este sempre deu os créditos nas descobertas de seu grande colaborador. 

      Herschel Pai (William) fala de um aglomerado bem concentrado sendo como sempre o primeiro a resolver os globulares de Messier. Já Herschel Filho (John) diz resolver este facilmente. Entre os guias mais clássicos de todos (Smith e Webb) também há conflito. Enquanto Smith parece apanhar do clima inglês e nos dizer que só percebe “uma nebulosa grande, arredondada e muito pálida” seu conterrâneo e contemporâneo e em geral mais modesto reverendo Webb fala em “bem resolvido” e de uma estrela rubi... M 68 pertence a classe X de concentração de globulares. Portanto mais para um aglomerado pouco concentrado do que para um muito e insolúvel grupo de estrelas muito espremidas.
Drizzle. 


            Observado com o Newton (me refletor de 150 mm f8) com 120 vezes de aumento eu pendo para o lado de Webb. Mas não resolve sua parte mais nuclear. Percebo estrelas no terço exterior do mesmo e nenhuma cor. Na noite que este foi fotografado as coisas estavam bem ruins e neste caso a descrição de Smith seria mais apropriada.

            M 68 é um aglomerado típico do halo galáctico. Possui uma orbita bem excêntrica, não habita perto do núcleo (entenda Ophiucus, Sagitário e Escorpião), sua orbita leva mais de 500 milhões de anos e pode estar a mais de 100.000 anos luz do núcleo galáctico. Segundo Stoyan tem mais e 10 bilhões de anos (o que me parece pouco...) e baixa metalicidade.  Possui 42 estrelas variáveis conhecidas sendo 40 destas do tipo RR Lyrae tão típicas de globulares.  Atualmente se encontra a 36.000 anos luz de (e se aproximando) e possui um tamanho físico de aproximadamente 120 anos luz.
            O biônico O´Meara acha que M 68 é um belo desafio para vista desarmada. Talvez no Atacama... Sendo um globular bem austral para o catalogo Messier é compreensível que este o considerasse difícil, mas de latitudes mais austrais é alvo fácil para binóculos 10X50 mm. Com grandes telescópios é fácil se perceber a estrela avermelhada citada por Webb. Localiza-se 5´ a noroeste do núcleo de M 68.


            Navegar até este é fácil. Considerando a linha que liga Algorab (Delta Corvus) até Kraz um passo siga aproximadamente mais meio passo e chegue até seu objetivo.
Rot N Stack Modo mean utilizando um dark frame auto gerado ( que geralmente leva a uma coloração meio esverdeada das fotos...). Esta imagem recorda muito o aglomerado quando o bservado visualmente em condições ideais com cerca de 60X de aumento ( exceto pelo verde)

            As fotos aqui apresentadas foram realizadas em noite muito enevoada e o alinhamento polar feito "de ouvido". O material capturado em RAW não rendeu. Fui obrigado a converter tudo em JPEG e empilhar as poucas fotos obtidas no Rot n Stack. O Resultado final foi muito ruido e algum verde... A fim de me livrar do verde que vemos na foto logo acima foi fácil . O Photoshop transforma tudo em uma escala de cinza com um único click... Astrofotografia é a maior diversão. 

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Um Novo Posto Avançado, Astrofotografia e Humboldt


     

       Com a chegada do Outono é tempo de galáxias para o observador amador. A grande coleção destas que habita no aglomerado de Coma-Virgem e esquina com Leão fazem a alegria destes. Mas galáxias são criaturas exigentes e cheias de vontades. E assim céus escuros e secos não só ajudam muito como são condição importante para a tarefa.
            Com a cara metade em uma fase nem tão cara e nem tão metade acho por bem pegar meu pequeno e seguir rumo a Pedra Riscada. Esta reside nas proximidades de Lumiar e encravada na Serra do Mar. Local de céus bem escuros. Rurais... Bortle 3.
            Mesmo com a meteorologia se tornando cada vez mais uma ciência quase exata e me dizendo que as condições seriam bem nubladas eu levo todo o circo.
            Seria a primeira grande aventura de meu jovem Indiana Jones (4 anos) para acampar. Assim sabia que minhas observações além de lutarem contra as nuvens seriam bem truncadas pelos cuidados necessários ao novo aventureiro. Não o poderia deixar muito largado em um terreno minado por um caudaloso rio e por três açudes.

            A viagem transcorre tranquila. Depois de um “almoço” em um Bob´s já na estrada meu filho pergunta cerca de 3 vezes “- Falta Muito?” e finalmente dorme. Ele acorda já no camping.
            O local (Camping Cantinho Doce) é muito agradável e bem estruturado. Oferece também algumas casas para alugar. Mas meu filho decide que prefere ficar em uma barraca. Tudo disponibilizado pelo estabelecimento. Com esta montada na parte alta do camping a noite (caso as nuvens que rondam dêem sossego) promete.
            O site Meteoblue (veja o link aí do lado...) me diz que entre as 19:00 e 21:00 horas haverá uma janela nas nuvens. Por incrível que pareça isto se confirma. Embora a transparência tenha continuado péssima.
            Com a atenção à criança e o céu muito enevoado fica difícil realizar um alinhamento polar digno. Me conformo e deixo tudo bem mambembe. Desta vez o objetivo principal da expedição é apresentar ao pequeno a “natureza selvagem”. O que observar vai ser lucro.
            Estou lendo um interessante livro, “A Invenção da Natureza” de Andrea Wulf. Uma biografia de Alexander Von Humboldt. Um dos principais responsáveis pelo nosso entendimento do que hoje se chama de ecologia. Sua obra magna “Kosmos: a Sketch of The Physical Universe” é um dos livros de cabeceira aqui no Nuncius Australis (até onde um compêndio com 5 volumes pode ser um livro de cabeceira). Humboldt foi, juntamente com John Herschel, Darwin, Goethe e cia. Ltda., a linha de frente da ciência no final do século XVIII e no século XIX. São diretamente responsáveis para a forma como nós hoje a compreendemos. Talvez devido aos arroubos “Humboldtianos” eu tenha observado menos do que o normal. Este nos diz ainda no primeiro volume de seu tratado que os fenômenos terrestres são muito mais complexos que os celestiais. E olhem que este certamente nunca soube o que era a paternidade. O livro de Andreas Wulf nos conta fofocas sobre os amores platônicos de Humboldt. Bem como suas aventuras ao longo do mundo...

            De volta a única noite que observei na companhia de Mlle. Herschel e o Newton (Minha cabeça equatorial HEQ 5 pro e meu telescópio newtoniano de 150 mm f8) acabei por conseguir um material fotográfico abaixo da crítica. E por isto mesmo de algum valor pedagógico...
Centaurus A em seu melhor resultado. Para chegar a isto foi necessário converter todas as fotos de Raw (.CR2) para arquivos Jpeg. Estes foram esticados no Camera Raw do Photoshop CS 6 . Posteriormente o Stacking foi feito no Rot n Stack. depois disto a foto foi salva como escala de cinza no Photoshop onde teve a ferramentas Curvas utilizada ajustada para "contraste médio".  12 ExpX 30seg iso 1600. Foi utilizado um dark frame autogerado pelo RnS.
Este é o resultado de uma unica exposição capturada em raw e posteriormente "esticada" no Camera Raw do photoshop e convertida em Jpeg.
Png gerado pelo RnS sem nenhum tratamento posterior. O uso do dark frame autogerado por este sempre causa um desvio intenso para o verde. Este é o modo Mean do RnS. Costuma ser o mais realista...

Este é o desastre de ruido obtido ao se empilhar os Jpegs no DSS. Sendo u programa mais poderoso ele amplifica além do sinal  muito o ruido presente nas imagens. 

            A primeira vitima foi Centaurus A. Esta uma galáxia bastante dada e que mesmo por entre as nuvens e envolta nas brumas comparecia mesmo visualmente sem grandes esforços. Foi escolhida especialmente por se encontrar perto as estrelas que foram utilizadas como guias para o sistema de go-to de Mlle. Herschel. A teoria (e o manual...) nos diz que devemos escolher estrelas em lados diferentes do meridiano e afastadas pelo menos 15o uma da outra.   Devido a ter que realizar a operação de alinhamento deste lutando contra nuvens que moviam-se mais rápido que o Rubinho e o Massa juntos eu acabei utilizando Acrux e Alpha Centaurus. Em tese uma combinação “pobre”. Mas a observação contrariou a teoria e o alinhamento acabou bastante preciso nas imediações. Foi arriscar Centaurus A e esta apareceu quase centralizada na ocular de 25 mm. Como conheço bem as “condições de contorno” na região em volta desta foi fácil faze-la se apresentar com um pouco de visão periférica. Sua característica bipolar e sua evidente banda escura pipocaram quase imediatamente. Algumas fotos e percebo que o alinhamento polar está muito ruim. Mas acho melhor deixar as coisas como estão. Afinal tenho que manter um olho no telescópio e o outro na criança...
Este é resultado do empilhamento de 12 fotos que foram convertidas para Jpeg. Empilhadas no Rns e posteriormente salvas como escala de cinza no Photoshop. A Partir do modo sort ( que apesar de ser muito pirotècnico as vezes dá certo.) 
Modo Mean do Rot nStack, PNG
Deep Sky Stacker a partir de arquivos em Ra convertidos par a Tif.

            Logo depois percebo que M 68 está alto no céu e em área desobstruída. Sendo um dos três ultimo globulares Messier que me faltam fotografar decido que (mesmo sabendo que o registro será tosco) é uma boa ideia captura-lo. O Go-to se apresenta brilhante e o coloca dentro do sensor da câmera sem a necessidade de nenhuma busca visual. Faço um pouco mais de uma dezena de exposições antes da região nublar.

M 60 Regio - Rns com Jpeg. PS em P&B. 6 exposições apenas

            Agora acredito que a região entre Leão e Virgem se apresenta desobstruída. Cravo M 60 no go-to e esta aparece no sensor. Mas alegria dura pouco e faço menos de 10 fotos desta. Não é o suficiente. Mas apesar disto ainda se perfilam mais algumas galaxias. Ngc 4660 se apresentava evidente mesmo no LCD da Canon. 
Uma  foto 30 seg 1600 iso

            Já ficando cansado das nuvens ainda tento mais um alvo. Mas o resultado abaixo demonstra que era melhor ter começado o desmonte da operação. Afinal já ia esfriando e  a condensação iria fazer estragos. Ngc 4349. Um aberto que Patrick Moore inclui na sua famosa lista Caldwell. Bem discreto. E todo borrado... Fiz só uma foto...
            Me recolho para junto ao rebento e vou dormir na esperança da Sexta feira ser mais fortunosa.
            Na sexta reúno um casal de amigos junto a uma das mais gostosas costelinhas que já vi. E o pequeno vai brincar com as crianças e ser mais criança do que já havia sido em muito tempo. A vida na roça é exemplar. Mas nada de observação esta noite. O programa foi conversar e discutir geomorfologia com meu bom e velho amigo (e curiosamente meu professor da matéria nos tempos de PUC) Gil Velho Cavalcanti de Albuquerque.

Gil Velho Cavalcanti de Albuquerque

            No dia seguinte acordo com o camping, que havia sido um espaço de mais de 10 hectares de terra só meu e de meu filho, sofrendo um processo de ocupação descontrolado. Empacoto tudo e sigo em busca de refugio na casa do velho professor.


            As observações daí para frente se resumiram a passeios espontâneos e sem maiores planejamentos com o “Pau de Dar em Doido” (meu binóculo 15X70 mm). Geralmente na área central da Via Láctea. O céu acostumou-se em dar um “abrida” entre 22:30 e 00:00 horas. Foram visitados (entre dezenas de Ngc´s que não identifiquei. Na maioria abertos. Mas também alguns pequenos “globs” e certamente muitas áreas de nebulosidade evidente...) M 4, 6, 7, 8, 16,17,18, 20, 21, 22 e 28, 69, 70, 75 e mais ... Não vi nenhum dos membros da chuva das Lyrideas.

Vamos fazer farinha?

Uma Herança da Primeira noite

            Mas nossa expedição no mais foi devotada ao reconhecimento das coisas da Terra e a introdução do meu menino na natureza. E este foi apresentado a gatos que em vez de miar rosnavam, cachoeiras onde se escorregava e a fazer “velhos amigos”.  Bem como a diversas formações geológicas interessantes. Os granitos com suas fendas que batizam a Pedra de Riscada, o gnaisse da Benfica, os brejos de altitude. Uma bela e minimalista introdução ao conceito de Naturgemälde (uma percepção da natureza como um todo orgânico e interligado) elaborado por Humboldt depois de sua escalada ao Chimborazo.  Sentia-me uma espécie de Waldo Emerson ou um Thoreau com mais de um século de atraso ou um Lovelock apenas um pouco tardio...

O insight de Humboldt ao perceber as faixas vegetacionais nas encostas do Chimborazo. Este é seu primeiro esboço...  Naturgemälde. Difícil de se traduzir. 

            A Pedra Riscada vai tornar-se o posto avançado aqui do Nuncius Australis. A Terra de José Eustáquio (também conhecida como a Armação dos Búzios) se tornou inviável devido a extrema poluição luminosa. Com a novas reformas na casa esta é hoje mais clara que a Stonehenge dos Pobres ( que como a fênix irá ressuscitar das cinzas) e com um monte de gente jogando contra. A astronomia observacional depende de que se goste e respeite o escuro da noite. Na Serra encontrei pessoas que   parecem comungar mais destes valores. Gente que quando você vai observar quer ver o céu. E que quando você dorme na varanda vai lá e te cobre com um belo cobertor.   Certamente  a maior altitude vais a colaborar. Creio ser necessário criar uma rotina para lidar com a maior condensação e com as temperaturas mais baixas que me aguardam no inverno. Penso em construir uma faixa térmica para montar no tubo do Newton.  E o céu é escuro de fato... Bortle 3 implica em que os grandes globulares sejam evidentes a olho nu. A Via Láctea apresenta uma estrutura complexa. As Nuvens de Magalhães se apresentam magnificas. M 33 perceptível com visão periférica para observadores treinados. E muito mais... 
            De volta ao Rio de Janeiro e as mazelas do lar me resta dar um jeito no material fotográfico obtido na minha única sessão.
            Decidi atualizar minha versão do DSS (Deep Sky Stacker) para a mais recente versão 4.1.0. Mas esta tem algum bug pois ela carrega a versão da foto 32 bits em Tif, mas depois para de funcionar. O arquivo "autosave" termina salvo na pasta original de onde veio o material para o stacking, mas não consigo ir além nele. Comparando o resultado com minha antiga versão 3.3.4 acho que não noto nenhuma diferença. Por enquanto fico com a anterior...
            Fotografar em noites muito enevoadas é um exercício quase inútil. O material obtido termina com um ruído absurdo. E com nebulosidade e com mal alinhamento polar é realmente um trabalho quixotesco.
            Logico que não posso resistir a tentação de perder meu tempo tirando leite de pedra.
            O DSS se recusa a empilhar os arquivos em Raw. Que apesar te possuírem muita informação escondida não a revela para ele. A mensagem “O DSS só empilhará um fotograma luz” é recorrente em todos os DSO´s que apresentei. Mesmo com o Threshold em 2%.
            Esta maneira me resta abrir os arquivos em RAW no Photoshop e utilizando o “Câmera Raw” (um plug-in)
 espremer estes e depois salvar em Tif e/ou Jpeg. E com estes arquivos empilhar no DSS. Geralmente quando os caminhos no pós processamentos são pouco ortodoxos e recordam peregrinações é porque a captura foi uma M... O resultado é uma foto com muitos ruídos.  Um registro. 
            Nestes casos muitas vezes utilizo o Rot n´stack. Um primitivo software de stacking, mas que em casos extremos tende a presentar resultados um pouco melhores (ainda que meio “estranhos” ...). A fotos tem o work flow de cada uma nas legendas.
            No mais foi muito divertido e encontrei velhos amigos e debates que se não havia esquecido estavam em alguma pasta bem escondida.
Júpiter nascendo...

            Em maio espero conseguir retornar a Pedra Riscada para um encontro mais a sério com Messier em Virgem...

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Ngc 5460: O Aglomerado de Moria


  


              Ngc 5460 é um aglomerado aberto exemplar. Serve como exemplo. Exemplo de como a astronomia amadora é uma forma de paixão. Na escala dos amores a paixão é um representante quase doentio. É o amor de Moria.  
                Um membro dos objetos de céu profundo que só será conhecido por aqueles tomados de um prazer quase obsessivo (quase é para parecer que ainda há alguma sanidade nesta busca).
                Mas existe um consolo. Descobri que além de mim outros já foram até lá e acharam este digno de nota.
                Observo sempre sem companhia. Mesmo que cercado de outras pessoas (no mais das vezes). E nenhum deles acharia tão fascinante este modesto ajuntamento de estrelas em formato bem delicado. Na verdade, adjetivos como delicado, colorido, charmoso e etc... não seriam sequer imaginados por um curioso.
                Em geral quando convido alguém, que não é do ramo, a olhar pela ocular este poderá se encantar com Saturno, Júpiter, a Lua e quiçá as Plêiades. Mas depois do segundo ou terceiro DSO o camarada perde o interesse. Isto quando realmente vê alguma coisa. O leigo olha, mas não observa. E telescópio não é binoculo. Demanda tempo para se aprender a perceber algo. DSO´s que demanda visão periférica, técnicas de respiração e esforço não são para qualquer um. Os americanos têm uma expressão que nunca consegui traduzir de forma apropriada, mas que descreve bem a situação. “Deep Sky die-hard”.
                Felizmente ao longo da história sempre houveram aqueles que levaram isto mais a sério e de forma não só compulsiva como sistemática.
                 E assim se chegou até Ngc 5460.
                James Dunlop é alguém que me acalma. Ao observar sua obra percebo que mantenho meu amadorismo dentro das baias da sensatez. Este inglês foi baixar na Austrália no século XIX como um “handyman” (faz tudo) de um nobre que era o chefão da astronomia lá por aquelas bandas. Haviam dois deles. Ele mesmo (o nobre inglês) e um astrônomo de relativo renome alemão. Acabaram brigando e Dunlop acabou fazendo (por um período) o trabalho que seria dos dois. Depois o alemão volta por cima da carne seca e Dunlop acaba com um observatório de fundo de quintal e com um telescópio feito por ele mesmo. Sem montagem equatorial e com um tubo pendurado em uma arvore. Podia observar os objetos durante sua passagem pelo meridiano (o melhor momento) ou um pouco para oeste ou para leste. Reza a lenda e a ótica que seu telescópio tinha um poder de fogo semelhante ao do “Newton” (meu Skywatcher 150 mm f8). Lógico que os céus eram bem mais escuros dos que costumo observar e ele bem mais “Caxias” do que eu...
                De volta a minha obsessão eu observo quando posso, de onde posso e em qualquer condição de céu. Durante muito tempo ouvi certos dogmas observacionais.
                - Tu não observarás nada da cidade grande.
                - Tu não observarás na lua cheia
                - Tu deverás ir a um clube de astronomia.
                - Tu gastarás rios de dinheiro para fotografar os céus.
                - Etc...
                Como tenho horror a dogmas e nunca quis ser escoteiro fiz disto tudo uma grande bobagem. É verdade que observarás mais e mais rápido se ouvir estes conselhos, mas talvez não observes nada...  Quanto a gastar um mar de dinheiro para fotografar os céus é bom lembrar que todo o catalogo Ngc foi fruto da observação visual. E é possível fotografar (boa parte dele) sem abrir falência. Embora o custo Brasil seja ridiculamente alto. E que nem só de DSO´s viva a astrofotografia.
                Visitei o aglomerado como parte da segunda parte de meu projeto “O Sul Profundo”. Neste quero apresentar os levantamentos de Lacaille (Já realizado e disponível na Amazon  no link:    https://www.amazon.com.br/dp/B0778XNDNM/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1510189139&sr=8-1&keywords=O+Sul+Profundo) , Os “100 de Dunlop” (os 100 objetos mais interessantes de Dunlop) e posteriormente um apanhado sobre as descobertas de John Herschel.
                Como parece ser evidente o primeiro a colocar os olhos em Ngc 5460 foi Dunlop. É a entrada de numero 431 de seu catalogo (D 431). Foi observada na noite de 7 de maio de 1826.
                “Uma curiosa curva de pequenas estrelas, de quase igual magnitude, duas estrelas de 7a magnitude ao leste.”
                A estrela dupla “ao centro do aglomerado é um de seus traços mais marcantes e cantada em verso e prosa. John Herschel é o próximo a conhecer a peça. Este as cataloga como h 3555. Este nos diz o seguinte em sua observação do aglomerado;
“Uma região de grandes e brilhantes estrelas de 8,9 e etc... magnitude. Um aglomerado bem disperso. Colocadas estas em um grupo brilhante, um dos quais uma estrela dupla da classe III. (h 3555)”.
                Pela descrição podemos perceber que o telescópio de Herschel (irmão gêmeo do que seu pai usou para descobrir Urano) era muito mais poderoso do que o de Dunlop e que o “Newton”.
                Observei Ngc 5460 em condições extremas. Casa cheia, todas as luzes acesas, as beiras de uma crise conjugal e  na lua cheia. Não o percebi pela buscadora e para diferencia-lo de um campo estelar  em meio ao campo com minha ocular de 40 mm foi um belo exercício. Com a 25mm ele começa a ser um aglomerado e com a 17mm o é.
                Na verdade, fiquei surpreso de não ser mais conhecido. É um delicado, colorido e charmoso aglomerado. Não é à toa que foi incluído por O´Meara em seu “Southern Gems”. Fiquei um pouco triste por achar que ninguém o tivesse o incluído em uma lista observacional e que assim ele se qualificasse também para o “Projeto Tudo que Existe”. Este foi remodelado e agora inclui apenas DSO´s que não pertençam a nenhuma lista observacional moderna (anteriormente era a impensável ideia de fotografar todo o catalogo Ngc...). Basicamente inclui objetos que tenham escapado do mais obsessivo que eu James O´Meara e sua série “Deep Sky Companions”. Apesar de parecer improvável existem vários objetos dignos de nota e ao alcance de telescópios “populares” que escaparam dele. Especialmente ao sul do equador celeste. Ao apresentar Ngc 5460 no DSO Browser só existem três fotos. Duas são minhas e a outra é do Projeto NGC /IC. Pouco visitado mesmo... Uma tremenda injustiça.


                Ngc 5460 é um aglomerado aberto de idade intermediaria (158 milhões de anos) localizado em Centauro. Não muito distante de Omega Centauro. Cheguei até ele pior acaso. Em noite de lua cheia e querendo visitar alguma novidade o achei no Stellarium e me pareceu factível em noite que tudo estava lavado e quase invisível. Mesmo M 35 era quase nada...
                A descrição do Stellarium é um pouco “exagerada”. Ele fala em forte aglomeração central, grande faixa de luminosidade dos membros do aglomerado e aglomerado moderadamente rico com 50 a 100 estrelas. É tudo mentira. A descrição de Dunlop é para mim perfeita. E a estrela central de Herschel é a cereja do bolo.

                Com o “go-to” do telescópio um pouco errante e a lua cheia localiza-lo foi um pouco mais difícil que imaginava. A grande “cola” é dar uma namorada no Stellarium e localizar Zeta Centaurus. Ou Alnair ou ainda Baten Centaurus. São todas a mesma pessoa. Ela será percebida na buscadora sem o uso de tortura ou a convocação do Bolsonaro.
                O aglomerado em si apresenta três grupos que se destacam do resto da paisagem e dão seu caráter aberto de forma bem evidente. A dupla central é muito legal. Esta compõe com mais cinco estrelas a parte mais central deste com algumas parentes um pouco mais afastadas (talvez por isto a ‘forte aglomeração central” descrita no Stellarium.), um triangulo de estrelas de magnitude semelhante a noroeste e uma estrutura trapezoidal com outras 4 estrelas (incrível.Um trapézio formado por 4 estrelas. Queria ver só com 3...) ao sul da curva que caracteriza a obra.
                As fotos aqui apresentadas foram empilhadas no Deep Sky Stacker (uma com 2X drizzle e outra com os frames completos) e “reveladas” com o auxilio do Fitswork para a remoção do gradiente de fundo com posterior visita ao Photoshop. Costumo usar uma rotina no Photoshop para destacar as estrelas. Mas foi necessário algum ajuste para neste processo não “emendar” a dupla tão característica no centro do aglomerado.  Como sou um astro fotografo “purista” (e que não gosta do dogma “dinheiro”) busco evitar muito processamento. (Purista ou preguiçoso?)


                Olhando para o desenho do O´Meara acho que fui bem honesto na composição. Gostaria de ter o talento para desenhar os DSO´s que observo. Assim poderia ser fiel ao que observo. Mas sou uma negação para o desenho e mesmo minha letra é pior que a de médico. Com o advento do computador me tornei praticamente um analfabeto a mão livre...
                Ngc 5460 é uma das joias menos conhecidas da coroa austral. Vale a pena a visita.   

domingo, 1 de abril de 2018

Astrofotografia, a Pascoa , uma Tamaron 70-210 mm e Softwares


              


             Semana Santa é sempre lua cheia... A Pascoa acontece no primeiro domingo depois da primeira lua cheia após o equinócio. Forte caráter astronômico e um mal momento para se observar. Não bastasse isto minha querida cunhada montou um bar de frente para o local onde sempre observo em Búzios. Para piorar isto colocou luzinhas de natal para decorar a fachada. E uma “mirror ball” na varanda dos fundos. Gosto não se discute. Se lamenta.  Nenhum governo ainda se dignou a promover uma “Bolsa Observatório”.
                Sem saber da radicalidade da reforma fui para Búzios na vã esperança de conseguir ao menos capturar M 68 e 53. Assim ficaria faltando fotografar M 72 para completar minha coleção de Globulares Messier.
                Na quinta feira  santa chego ao meio dia na Armação com os pés sujos. Pego uma praia com meu menor e volto no fim de tarde cheio de esperança. Quase acreditando em ressureição. Quero realizar um alinhamento polar “a sério”. Utilizando a técnica fotográfica.
Alinhamento Polar

                Esta consiste em com a câmera já montada no Newton (e com o eixo polar apontando grosseiramente para o sul celeste) realizar exposições de trinta segundos com telescópio apontando para o equador celeste. Durante os primeiros 5 segundos de exposição você nada faz. Depois desloca este para o oeste pelos próximos 15 segundos e para o leste os segundos restantes. Caso seu alinhamento esteja correto o resultado será uma linha. Caso contrário um “V”. Sendo um “V” ajuste a cabeça nos parafusos de Azimute até que o “V” se transforme em linha... É bem mais preciso que o método “preguiçoso” e menos chato que o drift. Para ajustar a altitude se faz o mesmo procedimento apontando-se para o horizonte leste ou oeste o mais baixo possível. E evidentemente se ajusta a cabeça no parafuso responsável pela altura. Quem quiser entender melhor o processo pode procurar por um vídeo do Compassi no You Tube. Nesta época do ano implica em apontar-se o telescópio para uma região com poucas e tênues estrelas. A Pascoa é um saco. Só salva o feriado prolongado.  A Aporema de outono vai ter que esperar. Tenho um trabalho começando dia 5 e que deve ir até 15. Há possibilidades de que este aconteça em Paraty. Será perfeito.

                Logo de cara a montagem não funciona com a câmera sendo operada pelo APT. Vai ser manualmente mesmo. Quando estou quase lá as nuvens entram rasgando e deixo a precisão para lá. Já fotografei com alinhamentos bem mais toscos. E com a lua cheia, o novo bar e as nuvens rondando não tenho motivos para grandes esperanças. Já tinha voltado ao estado de descrença que me é normal...
                M 53 é um sonho impensável. Não consigo sequer ver Alpha Coma a olho nu. A lua cheia é a maior inimiga que um DSO pode encontrar. Nem mesmo a iluminação das pedras do Arpoador chega a ser um inimigo tão figadal.
                Para dizer que nada aconteceu nesta noite observei Castor. Esta eu nunca tinha dividido tão facilmente. Com apenas 45 X de aumento percebia ambos os componentes nos momentos de seeing estável. Com a Barlow era fácil. Outra dupla que compareceu foi Cor Caroli. Com e sem Barlow . Muito baixa no horizonte sofreu bastante com a instabilidade da atmosfera.
                Segue a noite e como dizem por aí “Tá no inferno abraça o Diabo”. Faço fotos da lua cheia de todas as formas possíveis. Com o telescópio e utilizando a minha Barlow OMNI da Celestron. Esta é uma “2X”. Curiosamente amplia mais que a minha “2X” da Skywatcher que veio junto com o Newton. Atualmente uso a carcaça da Skywatcher com a lente da Celestron. (a OMNI não tem rosca apara o adaptador da câmera...).  Faço também sem Barlow. Depois com a minha lente 300 mm da Pentax e com uma 70- 210 mm da Tamaron. Com nuvem e sem nuvem. superexposto e sub exposto. Etc., etc. e etc....



                Para não dizerem que não falei de flores faço algumas imagens da Caixinha de Joias de Herschel (Ngc 4755) e de Ômega Centauro.  
Caixa de Jóias (Ngc 4755) 7 x 30 Seg. + 4 darks (Raw) -DSS 2X Drizzle+Fits+Photoshop

Sem drizzle

Omega Cen- 10X30Seg- DSS 2 drizzle+PixInSight+PS+Noiseware. Esta foto foi submetida a varios processos em todos os softs citados. 

                A primeira noite se encerra junto com a   garrafa de Wiborowa. Não poderia deixar de comentar que houve um show da Anita na Armação para coroar o fracasso. Felizmente longe o suficiente da casa para não ter que escutar nada...
                Vai começar a segunda noite. Sexta da Paixão. Ao contrario de Cristo continuo vivo apesar da vodka. Tudo no lugar e a cabeça quase alinhada. O projeto da noite é modesto. Quero refinar o alinhamento polar pela técnica nova e só. O resto será lucro. Observar (e fotografar) na lua cheia é apenas um exercício. Mas como já dizia o poeta “homem é o exercício que faz.”
                A realizar o teste para o alinhamento para o azimute eu não poderia ser mais feliz. Estava cravado. (Aqui em Búzios eu sei aonde esta o sul de cor e salteado...). O topografo da região foi pai do caseiro e os lotes tem os muros alinhados no sentido Leste-Oeste com uma precisão de segundos. Pelo menos na Rua da Linguiça...
                Depois de alinhar o Synscan utilizando Acrux e Sirius e este se revelar bem preciso começo a observar em uma das piores condições que já o fiz. O Bar todo aceso, a cunhada fazendo bacalhau, a lua com 99.5% do disco iluminado, a pequeno febril e uma cachorrinha Chihuahua histérica infernizando a todos.  Mesmo assim aponto para Ngc 2516 no intuito de revisitar o maior número possível de “Lacailles” possíveis durante a noite. Com “O Sul Profundo: o Catalogo Lacaille” aberto sobre a bancada do bar planejo uma minimaratona para a clara noite. Os DSO´s descobertos pelo Abbe (em sua maioria) são dos poucos capazes de sobreviver a tanta agressão. Faço poucas exposições e percebo que o acompanhamento está muito bom. Apesar das “full conditions” (um termo inglês utilizado no montanhismo e que se refere a escaladas realizadas com muito frio, neblina, neve e sobre terreno desconhecido, mal protegido e pouco confiável) Ngc 2516 apresenta estrelas redondas e alguma cor. É um dos mais ricos aglomerados abertos dos céus.  Possui diversos apelidos: O Aglomerado do Corredor ( Sprinter cluster) e o Presépio Austral são os mais famosos.
Ngc 2516- 6X30 seg -DSS+Fits +PS. Pouquíssimo tratamento aplicado.

                Dedicarei boa parte da noite me dedicando a caça de estrelas duplas. Afinal é Lua mais que cheia... E estas são resilientes. Conheço uma nova e muito interessante. 24 Coma.  Esta com sua componente primaria sendo uma gigante amarelada e sua parceira uma estrela de um pálido branco azulado. Belo contraste mesmo muito próxima a lua. Se separou com uma Barlow 2x e uma ocular de 17 mm. Separação 20.3´´.
                Depois tento 35 Coma.  É uma binaria visual. Os membros foram resolvidos com ótica adaptativa.
                Algieba é outra divertida. Também com a Barlow e a 17 mm. Com uma separação de 4´´ não a consigo fotografar. Ela se apresenta como uma estrela alongada. Não se separando de fato. Bem no limite de Dawes do meu conjunto óptico.

Cor Caroli com uso de Barlow 2X -Frame unico

Sem Barlow


                Não poderia faltar Cor Caroli. No limite do conjunto ótico sem o uso de Barlow.
                De volta aos DSO´s visito um apagado M 35. Este me prepara para o que me espera. Mesmo aglomerados bem claros serão discretos visualmente durante esta noite. Com o Synscan (sistema de localização da cabeça equatorial. Também chamado de “go-to”.) um pouco errante é bom manter o nível de expectativa baixo.
IC 2488- 9 X 30 Seg- DSS+PixIn Sight 1.0+PS(varios processos)+Noiseware. 

                Retorna a Lacaille e visito IC 2488 e IC2391. O primeiro bem discreto visualmente. Com a ocular de 40 mm parece apenas um agrupamento casual. Mas como é velho conhecido apelo para a 17 onde este se apresenta descolorido, porem mantendo seu caráter de aglomerado evidente. Faço pouco mais de 10 fotos. Murphy é um babaca. Em noite de Lua o acompanhamento se apresenta muito bom e consigo exposições de 45 segundos com excelente aproveitamento. IC 2391, A pequena Cassiopéia, é muito claro e evidente. Faço apenas uma exposição com este já cruzando o meridiano e com o Newton (um newtoniano 150 mm f8) quase tropeçando no tripé.
IC 2391- Frame unico. Apenas convertido de Raw para Jpeg no PS. 

                Quando visito Ômega Centauro perco qualquer esperança com relação a M 53 e M 68. O gigante é pouco mais que um fantasma. Mas faço pouco mais de uma dezena de exposições deste e com um foco raro para meu focalizador de pinhão e cremalheira.
Ngc 5460- 10X30 seg- DSS+Fits+PS

                Resolvo passear por Centaurus e acabo conhecendo um belo e discreto (em noite de lua cheia...) aberto pouco visitado. Ngc 5460. Muito apagado visualmente requereu uma navegação um pouco mais elaborada para se render.  Faço muitas fotos. Este merece uma nova visita em noite mais digna. Muito delicado e totalmente fora do circuito. Um clássico do “Projeto Tudo que Existe”. Este foi fruto da melhoria da qualidade de vida no Observatório. Com todos na Armação fiquei eu e meu pequeno em casa. E assim a vizinhança baixou um ponto na Escala Bortle. Fechei o Bar, apaguei tudo que dava e coloquei o APT (software para astrofotografia) para funcionar. Deixei o computador fazer o trabalho sujo da captura e fiquei um pouco com meu filho levemente febril. Definitivamente preciso fazer mais isto. Com um alinhamento polar bom consigo 45 segundos de exposição sem acompanhamento. Por cerca de 10 fotos. Depois um leve ajuste e mais um round agora apenas com 30 segundos de exposição.
M 7 -6 X 30seg -DSS Pix+PS

                Para finalizar uma rápida captura de M 7 que vai brotando por trás da aroeira. E claro, a lua com 99.6 % do disco iluminado.
                Sábado de Aleluia chega a outra cunhada com o marido francês e mais duas crianças. Churrasco. Não é motivo para entoar-se o Gloria. Para não aproveitar nada da temporada Eustaquiana monto Mlle. Herschel (minha montagem equatorial HEQ 5 pro) com a Canon e sua 18-55 mm “de fábrica". Em meio as carnes e os vinhos farei algumas fotos de caráter mais artístico. Uma espécie de Fairnbarns dos miseráveis. (Espero que ele me perdoe algum dia por isto.) Uma pena que com a lua cheia exposições muito longas sejam inviáveis. Com o alinhamento polar bom conseguiria exposições de 2 minutos facilmente com uma distância focal tão curta. Não sou muito de fazer composites. Mas tenho algum material para treino.
1 Frame 30 seg . Cruzeiro -PS - Percebam que a arvore é iluminada por uma luz fluorescente verde por baixo. Astrofotografia com luz de compensação de filme do Zé do Caixão... É dura a vida de um astrônomo amador.
                Acabo encurtando as exposições devido a uma noite mais nublada. E acabo aproveitando para testar as potencialidades de uma Tamaron 70-210 mm f4 que herdei. Faço varias fotos com a mesma e ela se revela bem superior a Vivitar 70-150 mm f3.8 que reformei recentemente. Não é uma lente Zeiss mas vai dar para o gasto. Meu sensor está precisando passar por nova faxina.  Infelizmente com o churrasco e com a casa muito cheia a casa se encontra muito clara. Luzes de todas as cores acesas e descubro que meu irmão e minha cunhada tem medo de escuro... Em uma varanda com pouco mais de 25 metros quadrados existem 10 lâmpadas e todas sempre acesas. Vergonhoso.
Tamaron Single frame- PS.-O sensor esta imundo...

Mimosa e Ngc 4755 -Tamaron @ 210 mm - 6X 30 seg- DSS+Pix+PS
Rubiacea.

                Mas a Tamaron localiza Ômega Centauro e a Caixa de Joias e faz interessantes composições. É bom fotografar em f4. Mas com ela toda aberta percebo algum cromatismo ao redor da Mimosa (Beta Crux). A lente mantém o foco conforme mudo a distância focal. Ponto para ela. Usando o APT faço varias brincadeira com um plano de captura para 10 fotos com 40 e depois 30 segundos de exposição. Apesar de nuvens passageiras muitas fotos são aproveitáveis. Infelizmente as fotos com a Tamaron esta noite foram capturadas apenas em Jpeg. Uma distração minha atribuída ao vinho. 
                Para encerrar a temporada apresenta-se um enorme halo lunar que vai se formando aos poucos. Minha 18 mm é pouco para abarcar sua imensidão com todas as honras necessárias para tamanho espetáculo.  Mas consigo o registro. Um halo enevoado e diferente.

                Resta empacotar as coisas e aguardar a manhã seguinte para esconder os ovos e depois voltar para Rio. Infelizmente as crianças estão em aula e a maior não pode mais faltar por razões tão mundanas. E o halo e o vento me dizem que o tempo vai nublar.
                Depois disto ainda é necessário “revelar” as fotos. Especialmente quando sua captura acontece em RAW (e deve acontecer) são muitas as possibilidades. As vezes penso em primeiro “brincar” com as imagens a serem empilhadas uma a uma no Camera Raw do Photoshop e depois empilhar estas “pré-tratadas”. Mas sempre me dá uma enorme preguiça e nunca o fiz...  Seguindo o curso normal todas as imagens de cada um dos alvos vão passar pelo DSS para serem “stackeadas” (adoro poder assassinar duas línguas simultaneamente com uma única palavra...) e posteriormente visitar ou o Fitswork ou o PixInSight para a remoção dos gradientes de fundo.  Reparei que o Fits, embora mais rápido e fácil, adiciona ruído as fotos após a remoção deste. O Pix, que possui uma interface mais complexa e é mais trabalhoso, apresenta   resultados melhores. Depois disto tudo ainda visitarão o Photoshop para os ajustes finais. E poderão ainda ir ao forno no Noiseware, mas este é um versão para lá de genérica e não chega a mudar muito as coisas. Geralmente eu realizo um stacking inicial no DSS com os frames integrais. E depois um segundo Stacking onde utilizo o drizzle para conseguir imagens mais detalhadas e ampliadas. Evidentemente que alguns DSO´s não nasceram para o processo de drizzle (Ngc 2516 é um exemplo clássico) pois ocupam uma região maior do frame do que a área admitida para o drizzle.   Abertos, em geral, (uma opinião pessoal) se descaracterizam um pouco no procedimento. Já Nebulosas Planetárias se beneficiam do mesmo.
                Ao longo do post vocês puderam observar algumas destas diferenças. O workflow das fotos finais está descrito sob cada foto.
                Que venha a lua nova. Estou louco para poder atacar o aglomerado de Virgem na Aporema adiada de Outono.  E capturar logo M 53 e M 68.