domingo, 25 de setembro de 2016

A Armação dos Ventos Uivantes e a Galáxia de Escultor

              
               O primeiro fim de semana  de lua minguante depois do equinócio de primavera é quase como a Pascoa nas terras de José Eustáquio  ( mítico astrônomo  do Catalogo J.E.S.S.) .  E assim eu não poderia deixar de abduzir toda a família em direção da Península  onde esta a antiga Armação dos Peixes e  a atual Armação dos Búzios.
                O clima da Península é dominado por seu regime de ventos. E com os ventos do quadrante leste dominando se produz ali  um microclima bastante propício a observação astronômica. Segundo reza a lenda contada por José  este regime deixa o clima na região sempre agradável .  Uma temperatura média anual de 26o C ( "meteorologicamente provado") e (começa a lenda...) uma média de dias de sol e noites estreladas cerca de duas vezes maior que a  "Capital" (Rio de Janeiro) e três vezes maior que Angra dos Reis , na Baia da Ilha Grande. 
                Tendo planejado tudo com precisão quase cirúrgica eu tinha consultado o 7Timer ( site metereológico) com antecedência e "sabia" que a noite de sexta feira  (23/setembro/2016) seria quase perfeita para meu projeto. E como terminaria   meu trabalho na quinta preparo tudo para pegar as crianças na saída da escola sexta (na verdade o menor sequer foi para a escola...) e estar em Búzios a tempo de utilizar Eta Pavo como estrela para realizar o alinhamento polar. Isto aconteceria as 18:25:18 no horário local.   Depois de "arrastar" a cara-metade ainda no horário consigo pegar a filha com pequeno delay e assim chegar em Búzios 16:00 horas sem correr muito.
                Definitivamente o vento nordeste estava roncando na Península. O Céu não poderia estar mais limpo.     Ainda na saída do Rio percebera boa transparência. Ao cruzar a Ponte Rio-Niterói consegui vislumbrar a crista da Serra do Mar. Recortados contra o céu percebia , ainda que com leve nebulosidade envolvida , claramente o Monte Escalavrado ,o Dedo de Deus , Nossa Senhora e o Cabeça de Peixe. Lá em Teresópolis... Equipamento montado e pré alinhado antes da 17:30.
                Mdm. Herschel é uma cabeça equatorial HEQ 5 da Skywatcher. Sólida o suficiente para sobreviver ao vendaval.  Me lembrei logo de uma noite que passara aqui com minha  velha EQ 3 que perdia mais das metades das fotos feitas para o vento.  Curiosamente caçando por um outro objeto descoberto por Caroline Herschel ( Ngc 253 é uma descoberta dela)  ; Que foi  posteriormente  homenageada no apelido da HEQ 5 que hoje me acompanha. Mais uma daquelas coincidências que nada tem a ver com a leis fundamentais do universo que abundam por ai e sem a menor importância. 
                O vento é um inimigo cruel para a astrofotografia. Um mal alinhamento polar pode ser solucionado  com uma redução do tempo de exposição, o aumento da asa e um auxilio do Fitswork... O vento inutiliza as fotos onde interfere. Estrelas viram um borrão como se o telescópio tivesse levando uma trombada durante a captura.
                Quando observo geralmente possuo um roteiro "meio-que -montado". Uma derrota celestial registrada em papel. E desta vez tinha em mente observar algumas galaxias no Grupo de Escultor  e fotografar (possível sendo) ao menos Ngc 253 e Ngc 300.
                Mas o primeiro alvo da noite era  um recanto rico em DSO´s e uma bela esquina galáctica.
                Ainda cedo meu menor acompanhava as observações. Com 3 anos a brincadeira era que caçávamos.  O conceito de caçar amplo como o de uma criança. Poderiam ser tesouros , peixes ou animais. E assim íamos até o computador e escolhíamos um alvo e depois retornávamos ao telescópio onde tínhamos que falar bem baixo para não espantar as nossas presas. Depois eu disparava a arma ( no caso a câmera fotográfica )  e 30 segundos mais tarde (o tempo de exposição ) eu comunicava que tínhamos acertado o tiro e festejávamos nossa conquista . Ele olhava para a foto e fazia de conta que entendia quando eu lhe explicava que tratava-se de uma região com um aglomerado globular e "matéria intergaláctica" . Nossos grandes tesouros.  Depois disparava novamente e câmera e fazíamos tudo de novo.
                Desta forma  caçamos um tesouro que ficara enterrado por muito tempo na região da Corona Austral. Uma constelação espremida entre a cauda do Escorpião e o Sagitário. Para meu filho ainda todas as constelações do céu são um Escorpião...
                Na mesma foto pode-se ver Ngc 6723, 6726 e Epsilon Cor A.

            


            Depois disto as coisas começam a se complicar e percebo que o alinhamento do Synscan (sistema de localização de Mdm. Herschel) estava recalcitrante e muito pouco preciso. Alguns ajuste s e uma nova escolha de estrelas para realizar o alinhamento acompanhado de um leve ajuste no alinhamento polar e retorno a missão. Agora já nos moldes de Joshua Slocum e velejando em solitário fico correndo com o tempo enquanto aguardo por Ngc 253 , A Grande Galaxia de Escultor.  Navegando em meio a "porranca de nordeste" tento em vão localizar M 71. O go-to não esta bom ... M 71 a mim  parece ser um dos globs mais arredios do catalogo Messier.  Deve ser algo pessoal.
                Com tesouros mais profundos a frente acho melhor refazer o alinhamento do Go-to pela enésima vez...
                Finalmente a coisa parece estar funcionando a contento. E assim finalmente  localizo Ngc 253 com o apertar de um botão.  Percebo logo  que existe mais algo na ocular que os "aviões de carreira".  Observo e realizo algumas exposições . O Vento continuava forte e após tentar algumas fotos com exposição de 1 minuto acho melhor me conformar com 30 segundos. O alinhamento polar estava apenas quase a altura e durante um minuto  era difícil que o a "lestada"  não desse uma lufada mais forte  e acabasse logo com a foto.

                Preparo o computador e utilizo o APT ( software) para realizar a captura. No final tenho 50 exposições  de 30 segundos da galaxia. Aproveitáveis entre 30 e 35 dependendo do humor... 
                Ngc 300 acabou por fugir de mim. Não consegui visualiza-la mesmo depois de ajudar o go-to com um pouco de starhopping e com consultas ao Stellarium e a  meus atlas.

J.E.S.S 120 ?

                A fim de relaxar tento Ngc 6400 já baixo no horizonte. Acabo sendo enganado e fotografo um interessante asterismo onde pretendo realizar uma analise mais detalhada. Me parece um aberto bem esparso . Talvez venha a ser a entrada 120 do Catalogo J;E;S,S, . Em todo caso um interessante campo na cauda de Escorpião. 

                Depois disto resolvo sair do Script e  acabo visitando M 29. Um aberto do catalogo Messier que só tinha observado com binóculos. Umas poucas fotos para posteridade.  

                Com os dois alvos mais almejados de minha derrota já no porão e devidamente registrados ( Ngc 253 e o campo em Cor A)  acabo indo revisitar Albireo. Muito baixa no  horizonte noroeste  ainda se presta a um belo espetáculo. Minha  dupla favorita.
                Depois disto passo um bom tempo namorando Andrômeda. M31 em uma noite sem bafo de vapores de poluição luminosa. Sem nuvens e com  a afamada noite Buziana  devidamente amansada pelo vento e pela  temperatura bem abaixo dos 26o  da lenda M 31 se apresenta com muito mais dignidade do que na minha ultima visita ( 3 setembro 2016) . Com visão periférica , hiperventilação e reza braba acredito perceber detalhes em seus braços espirais. Faixas escuras ...  Com meu casaco mais pesado sobre a carcaça faço umas poucas imagens de M31 e sigo meu passeio. Novamente M 33 é decepcionante de Búzios. Eu sei que estou olhando para ela e não a  vejo.
M 31 e 32


                De volta a derrota planejada tento Ngc 55. Mas não arrumo nada. O go-to ou minha visão não estavam localizando a galaxia.
                Já vai tarde e visito as Plêiades. Em breve a Lua vai nascer. Em rápida sucessão visto   M 79 , M 42 e M78. Da ultima até realizo algumas fotos mas nada que prestasse. Deletei todas depois de selecionar as capturas.
                A noite vai chegando a fim e de posse de um Ballantines vou transferir o cartão da câmera e ver meu butim. Muitas das peças haviam sido danificadas pelo vento...


                A derrota segue como planejada e acordo cedo para comprar camarão. Depois ir até a praia.   Voltar para casa. O tempo começa a fechar ( exatamente como o planejado) e  faço meu churrasco. Espetinhos de Camarão ao Curry na brasa ( com limão). E depois uma Costelinha de Porco com Sal , Mascavo e pimenta ( e mais limão) , O tempo fica fechado e conforme o previsto passo a noite junto a família bebendo cerveja e brincando com as fotos ao computador.
Brincado com as fotos 1




 No domingo amanhece chovendo  e parto de volta para a "Capital".
M 16 preguiçosa- 4X 30 seg não foram suficientes nem para a saída...


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terça-feira, 13 de setembro de 2016

M 30 : A Cara de Capricórnio

            
                 Ao ler-se o  "Mémoires de l´Académie Royale" para 1771 (publicado em 1774) o cidadão vai se deparar com a primeira versão do Catalogo Messier.  Esta famosa lista de "cometas impostores" possuía aí apenas 45 entradas. É incrível ler ao diário onde Messier revela a construção de seu Catalogo. Parece realmente que você esta no Observatório da Marinha em Paris ao lado do Ilustre astrônomo.

                Seguir os caminhos percorridos por Messier na noite de 3 para 4 de agosto de 1764 é um roteiro interessantíssimo.
                Eu de forma desavisada acabei por percorrer este exatamente 252 anos e um mês mais tarde que Messier. E na noite de 3 de Setembro de 2016 coloquei meus olhos pela ´primeira vez em M 30 e revisitei M 31 e M32 (A Grande Galaxia de Andrômeda e sua pequena companheira) . A grande diferença é que quando Messier enquadrou M 30 em seu telescópio gregoriano com 150 mm de diâmetro e 104 X de ampliação  ninguém nunca o tinha feito antes. M 30 é um objeto original de Messier. Uma descoberta sua.
                Ele escreve: " A noite de 3 a  4 de agosto 1764  ,  descobri uma nebulosa abaixo da cauda de Capricórnio e muito próximo de uma estrela de 6a  "grandeza" . A quarenta e um desta constelação segundo o Catalogo Flamsteed : é difícil  ver esta nebulosa com um telescópio comum de três pés (distancia focal)  ; ela é arredondada e ali não vi nenhuma estrela: Eu a examinei  com um bom telescópio Gregoriano que amplia 104 vezes ( esta é uma frase recorrente no texto de Messier. Parece ser seu telescópio favorito), ela pode ter um diâmetro de 2 minutos.  Eu comparei seu centro a estrela Zeta de Capricórnio , de 5a magnitude, & determinei sua posição...  Esta nebulosa foi marcada  sobre a carta  do celebre Cometa de Halley  que observei em seu retorno em 1759."
                Sua descrição é rica em detalhes e demonstra claramente como seus equipamentos eram modestos. Embora M 30 não se resolva no Newton ( um telescópio newtoniano de 150 mm de diâmetro , o mesmo que  Messier) com 120X de aumento algumas estrelas comparecem. Especialmente as de seus cornos.  Este me parece ser um dos mais interessantes traços de nosso globular. Ele é um Globular "com chifres". Não poderia estar mais bem parado do que em Capricórnio. Ele é , indubitavelmente, o "DSO simbolo" desta constelação.
                Smyth em seu "Cycles of Celestial Objects"  e com equipamentos quase cem anos mais desenvolvidos ( ele possuía Refrator Tulley  de 5.9 polegadas) já fala em "duas linhas ou colunas de quatro ou cinco estrelas " pertencentes ao globular.
" Um belo aglomerado branco e pálido, sob a barbatana caudal  da criatura e a cerca de 20o oeste-noroeste de Fomalhault, aonde precede 41 Capricorni , uma estrela de 5a magnitude , a menos de 1o. Este objeto é brilhante e a com  fluxos dispersos de estrelas na sua borda norte , possui um aspecto elíptico, com forte brilho central: existem outras estrelas envolvidas e algumas "outliers". "
                Smyth ainda destaca que o aglomerado foi primeiro resolvido por William Herschel em 1784 utilizando um Newtoniano de 20 pés (Distancia focal) .
                Posteriormente diversos autores mais modernos percebem  os "fluxos dispersos " da banda norte. São os  chifres de M 30.   Hartung os chama de dedos ( fingers) e posteriormente O´Meara se refere a chifres ( horns). 
                Em seu "Deep Sky Companions; The Messier Objects" O´Meara coloca M 30 como residente de Sagitário. Deve ser  um erro de impressão.
                Neste ele destaca que perceber os "chifres" de M 30 visualmente é o grande desafio a ser enfrentado por amadores em modestos telescópios.

                Localizar M 30 não chega a ser muito difícil.  Mas   Capricórnio não tem estrelas muito brilhantes e achar Zeta Cap pode ser duro em regiões com poluição luminosa. Desta localizar 41 Cap não é tão complexo com auxilio óptico. E dai para M 30 é mais um passo... Sua magnitude é de 6.9.
                Com pequenos aumentos M 30 é apenas uma área esfumaçada sem nenhuma resolução. O observei em noite de transparência bem ruim e não o percebi pela buscadora ( 8X50) .  Com 46X eu começo a desconfiar que ele pode ser resolvido. E com 120X percebo os chifres mas não consigo resolver o aglomerado completamente. Como M 30 sofreu um colapso em seu núcleo suas áreas centrais são muito povoadas e resolver sua parte central é tarefa dura mesmo pra grandes telescópios.
                M 30 cresceu muito desde aquela noite em agosto de 1764. Hoje em dia ele tem 12´ de diâmetro aparente. Os espelhos e lentes melhoraram bastante desde então.  E assim estando ele a  26.700 anos luz este se espalha por 93 anos luz de diâmetro. 

                Fotografei  M 30 sem grandes compromissos mas ele e seus chifres se revelam mesmo com umas poucas exposições curtas em noite de transparência ruim.  
                M 30 é a "cara" de Capricórnio. E um dos mais ingratos objetos para quem realiza Maratonas Messier. Você terá que lutar contra o sol nascente...



domingo, 4 de setembro de 2016

Projetos Observacionais e Livros Antigos

      


               Gosto de projetos observacionais. Também gosto de livros antigos.  E assim parto solitário rumo a Búzios acreditando na previsão do tempo que obtive no 7Timer ( vocês podem utilizar o link aí ao lado para visitar o site...) . Este apresenta diversos "perfis" de previsão. Um dos defaults é o "astro". Neste ele vai lhe dizer o seeing , a transparência , a cobertura de nuvens e cia ltda. de hora em hora para as próxima 48 horas. Apesar de borboletas ainda bateram suas asas na Tailândia ele costuma ser bem preciso.
                Levo na bagagem todas as tranqueiras para observar os globulares Messier que me faltam observar ( meu projeto observacional) e minha cópia do "Cycle of Celestial Objects " do Captain e depois Admiral William Henry Smyth ( o livro antigo). Lançado em 1844 e dedicado ao grande John Herschel o livro é composto de 2 volumes. O Prolegomena e o Bedford Catalogue. Quase dois séculos mais tarde não foi traduzido para a língua de Camões nem nada  sequer do gênero foi escrito por estas bandas. Dada a atual situação da politica educacional ( e em geral) na nação é desnecessário buscar razões para entender tal fato.
                Uma vez na terra de José Eustáquio eu monto tudo e me preparo para esperar Beta Ara cruzar o meridiano e  poder realizar um alinhamento polar eficiente. Minha derrota é ambiciosa. Pretendo observar e fotografar nove dos onze globulares Messier que me faltam.  Correndo contra o relógio. Na verdade entre 19:00 e 23:30. Depois ainda queria capturar pelo menos uma galaxia no Grupo do Escultor. Isto tudo ignorando a péssima transparência prevista no 7Timer.  Lógico que não deu certo.   Para piorar seria a única janela de tempo "aberto" no fim de semana.
                Agosto foi um mês que fez jus a sua fama. E eu esperava que a maré passasse assim que entrasse setembro. Esqueci de Murphy e Clark...
                Meu plano era uma derrota bem planejada. As 19:00 horas eu teria o telescópio , buscadora e "go-to" todos funcionando como um relógio suiço.  Sem muito tempo o alinhamento polar não ficou bom , o go-to ficou com uma precisão no máximo medíocre e em vez de ter M 5 em quadro as 19:00 eu estava com M 4 centralizado na ocular por volta de 20:30. E percebi que o 7Timer estava certo. A transparência era péssima e eu não conseguia resolver estrelas  em M 4 com nenhuma combinação de oculares que tenha tentado. Nem sua famosa "barra central " era evidente.
                Depois de muita luta acabei por conseguir abater dois globulares dos nove planejados. M 19 e M 30.
M 30

M 19


                O go-to sempre oferece algumas estrelas para realizar o seu alinhamento. Geralmente utilizo o alinhamento utilizando 2 estrelas.  Para usar uma única estrela depende-se  de ter um alinhamento polar cravado. Três estrelas você tem que possuir todos os horizontes muito livres. Não é o caso.  Já descobri que algumas combinações de estrelas dão mais certo que outras . Desta vez nenhuma das escolhas foi muito feliz.  Definitivamente Alnair com Altair deve ser evitada. Péssima precisão. E Alnair com Atria apenas um pouco melhor. Mas com apenas uma noite para me divertir não podia ficar testando muitas possibilidades.  
                Depois de perceber que objetos mais difíceis estavam fora do baralho com a transparência que me era oferecida eu me dou por feliz com meus dois "globs" novos e parto para um aproach mais modesto. M 17 é uma eterna favorita. Fácil de localizar e por alguma razão habitando um buraco de céu menos esfumaçado é revisitada.  Faço algumas exposições da mesma. O alinhamento polar não colaborando decido fazer uma coisa que sei não dar  belos resultados. Mas astrofotografia é a melhor diversão e não ia me aporrinhar por bobagens. Como já falei agosto tinha sido um mês de m...
                De volta ao "Cycles" a descrição de Smyth de M 17 é algo entre a prosa e a poesia. E em tempos que besteiras evangélicas proliferam pela web ele demonstra que nem sempre religião , ciência e sabedoria são inimigos figadais. Lembrando que o livro é de antes da lei aurea. Smyth em vez de negar a ciência em nome de Deus acha que estudar o Universo é uma forma de tentar entender a seu Deus e assim reverencia-lo. Recentemente vi algumas paginas na web onde cidadãos do século XX alegavam que não seria a Terra um planeta e nem o Sol uma estrela a fim de sustentar a insustentabilidade de sua fé. E com o History Chanel sendo um canal onde assisto programas cômicos o futuro parece-me  bem sombrio...
             Nos tempos do Admiral M 17 habitava a finada constelação do  Escudo de Sobieski. Como já falei o seu livro não foi traduzido. Recomendo a todos aqueles que gostem de astronomia que estudem inglês...

                Fiquei satisfeito com o resultado de 44 exposições de 8 segundos em ASA 6400. E com não tinha grandes pretensões artísticas sequer processei as fotos no Deep Sky Stacker utilizando o Método HDR. Demora muito... ( veja foto que abre o Post)
1 frame de 10 segundos de exposição ASA 6400. 

                Gostei muito do resultado de uma única exposição ( nenhuma com mais que 20 segundos) em quase todos os objetos capturados durante a noite. São bem fiéis ao que eu tinha no visual.  Na verdade melhor.  O CMOS (sensor) da Canon é  mais eficiente que minhas pupilas velhas de guerra...
                A noite avança e o céu embora sem nublar vai ficando cada vez pior.  Cravo M 31 no Synscan. Andrômeda é impressionante. Baixa no horizonte e navegando pelos vapores luminosos da Armação ela ainda ( seu núcleo e bojo) se faz evidente mesmo pela buscadora. Mas após poucas exposições percebo que será perda de tempo insistir. Mesmo ela  carece de melhores condições para se obter detalhes nos braços.  Mas fico feliz que a fotografia capte M 32 . Esta não se apresentava visualmente de jeito algum.
1 frame 15 segundos ASA 6400

                Tendo em mente que a transparência era péssima aponto para Ngc 104. Ou Tuc 47. Este globular é o segundo globular mais brilhante dos céus. Conhecido como "uma estrela" desde a pré-história era um ideia razoável. Visualmente resolvo algumas estrelas em seu entorno. Faço algumas imagens...
1 frame 15 seg ASA 6400
                Já cansado me lembro que estrelas duplas são melhor diversão que fotos sem graça. E acabo visitando varias duplas que nunca tinha visitado. Acamar e Almach são fáceis e um bom passeio.  E 107 Aquário é uma delicada dupla que brinca com sua percepção de cor. A primaria é avermelhada e a sua companheira azulada. Mas conforme você se concentra em uma ou outra elas parecem trocar as cores. Sendo uma dupla mais apertada só a resolvi com minha 17 montada e uma barlow 2X.  No Bedford Catalogue ( o segundo volume do livro velho...) Smyth nos diz que é "Uma dupla extremamente atraente".  O trabalho de Smyth apresenta alem de nebulosas muitas estrelas duplas reunidas em seu catalogo.  Na verdade mais estrelas duplas que nebulosas. Estas em seu tempo eram mais curiosidades de natureza quase divina que objetos de estudo propriamente ditos.  Seriam demonstração dos "...Diversos Céus que ha no Céu. Uma demonstração da grandeza de Criador"...
Acamar 1 seg

Acamar 6 seg.

Almach

                Albireo é sempre um espetáculo . Deve ser a estrela dupla mais famosa dos céus.Ou deveria. Você já foi aAlbireo?  Uma pedra de âmbar e uma agua- marinha. Ou ametista.
                Quanto as Galaxias de Escultor eu tentei a sorte com Ngc 55. Não vi nada. Nem insisti muito. Seria perda de tempo.
                Ngc 55 embora conhecida de seu grande amigo John Herschel não foi incluída no Bedford Catalogue...
                No noite seguinte o churrasco , a cerveja da tarde e mais as nuvens não chegaram a impedir de tudo a observação. Mas lembrei que a umidade é um inimigo a ser respeitado.  Madame Herschel ( uma cabeça equatorial HEQ 5) começou a noite muito recalcitrante e dando diverso "paus" durante o alinhamento do "go-to". Depois de muitas malcriações visitei dois velhos amigos antes do tempo nublar de vez e eu entregar os pontos para o Balantines que olhava para mim desde a véspera...
Globular em Pavo

M 28


                Ainda insisti no menu "named stars" do Synscan de Madame por entre as nuvens. Fui a Diphda , Enif e mais algumas... É sempre bom para aprender novos caminhos pelo céu. Em outro livro antigo (Evening with the Stars de Mary Proctor) vi as sabias palavras de Thomas Carlyle :
" Why does not someone teach me the constelations, and make me at home in the starry heavens, which are always overhead and which I don´t half know to  this days?"
                Embora desnecessário vou dizer que nunca foi traduzido para o português.


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Ngc 2477: Um Rico Aglomerado Aberto



             Abbe Lacaille ( Nicolas Louis de Lacaille 1713-62) foi o primeiro grande explorador do Céu Profundo austral. O esforço que resultou em um pequeno catalogo com 5 entradas realizado por Halley debaixo do inclemente clima e da mão de ferro de seu "governante" na Ilha de Santa Helena  não chegou sequer a arranhar as maravilhas que se escondem abaixo do equador.
  O
                Durante sua expedição ao Cabo da Boa Esperança  realizada entre 19 de abril de  1751 e 8 de março de 1753 o Abbe catalogou 42 "nebulosas"  das quais  32 se revelaram DSO´s verdadeiros.  Em seu trabalho ele dividiu as nebulosas em trés categorias : Nebulosas sem estrelas ( tipo 1),  aglomerados nebulosos (tipo 2) e estrelas acompanhadas de nebulosidade (tipo 3).  Em seu relato Lacaille nos diz "  Encontrei um grande numero dos três tipos de nebulosas na parte sul do céu , mas eu não me engano com a ideia de que observei a todas , especialmente dos tipos 1 e 3 porque estas só podem ser percebidas após o anoitecer e mesmo assim em noites sem lua . Entretanto tenho a esperança que esta lista seja completamente passável em relação as mais notáveis dos três tipos".
                Uma outra apresentação do Abbe demonstra claramente em que pé andava o conhecimento das estruturas de céu profundo no século XVIII e do hercúleo trabalho por ele realizado de posse de parcos recursos : "  As assim chamadas estrelas nebulosas  oferecem aos olhos daqueles que as observam um espetáculo tão variado que sua exata e detalhada descrição pode ocupar os astrônomos por um longo período e dar  origem a um grande numero de curiosas reflexões por parte dos filósofos... eu estou esboçando  estas descrição e lista para servir de guia  para aqueles com disposição e equipamento para estuda las com telescópios maiores. Eu adoraria apresentar algo mais detalhado e instrutivo neste artigo mas com refratores comuns de  15 a 18 polegadas ( distancia focal)  como os que possuía no Cabo da Boa Esperança eu não possuía instrumentos nem adequados e nem convenientes para este tipo de pesquisa."
                Ngc 2477 é a entrada numero 3 da classe 1 do Catalogo Lacaille . Lac  I 3.  Habitando a constelação de Puppis ( também uma "criação" de Lacaille ao desmembrar a antiga e enorme constelação de Argus Navis) é um dos mais ricos aglomerados abertos que conheço. Recorda em muito M 46. Por uma daquelas coincidência que nada tem a ver com as leis fundamentais do universo ele também forma uma espécie de aglomerado duplo assim como M 46 e M 47. E desta forma ele é o mais belo e mais difícil de ser observado de sua dupla cósmica. Ele faz par com o brilhante e nem tão charmoso  Ngc 2451.

2451 em uma noite bem nublada...1 exposição 15 seg asa 1600. O aglomerado é bem mais interessante que isto em condições normais de temperatura e pressão...
                Localizar Ngc 2477 não é tão fácil como parece . Especialmente devido a proximidade de 2451. Não leve gato por lebre. O Original parece com um pequeno cometa em binóculos e buscadoras. Já  2451 se resolve claramente.  Mas ele se resolve rapidamente com auxilio de um telescópio mesmo com aumentos na casa de 30 ou 40 X.  Sua navegação deve começar a partir de  Naos ( Zeta Puppis)  . E com esta na  buscadora e percebendo a estrela b Puppis ( mag. 4,5)no campo  com um pouco de atenção você vai distinguir 2477. Se chegar até 2451 volte um "pouco" e escaneie  com sua maior  ocular. 

                2477 é um aglomerado galáctico muito rico e sua aparência pode lembrar alguns globulares menos densos como M 71 e M 55. Mas como já falei das semelhanças entre M 11 e M 55 o diabo esta nos detalhes. E assim Ngc 2477 possui "apenas" 1,3 bilhões de anos. Uma idade avançada para aglomerados galácticos mas um juvenil se comparado a liga sênior  onde jogam os globulares.  Ngc 2477 possui 1981 membros conhecidos e confirmados e estando a 3.700 anos luz de nós  e com um diâmetro aparente de quase 30´ele ocupa  22 anos luz de espaço.
                Ngc 2477 é ainda uma testemunha da era de ouro da exploração dos céus austrais entre os seculos XVIII e XIX. Após ser avistado como uma nebulosa sem estrelas por Lacaille  sua verdadeira essência é descrita pela primeira vez por Dunlop :  " Uma nebulosa bem grande e tênue facilmente resolvida em estrelas pequenas , ou melhor , um aglomerado de estrelas..."
                Posteriormente e completando a trindade dos exploradores do céu austral o mesmo é descrito por John Herschel da seguinte forma : " Aglomerado soberbo ( gradualmente mais brilhante em direção ao centro) 20´ de diâmetro. Muito mais do que suficiente para preencher todo ao campo. Estrelas de 10a  e 11a magnitude , todas quase iguais"

                Observando sob céus "Bortle 6" ( Céus suburbanos brilhantes) o aglomerado é alvo difícil de se perceber pela buscadora mas se revela facilmente e riquíssimo com auxilio do Newton ( meu telescópio newtoniano 150 mm f8) com 30 X de aumento ( ocular 40 mm). Sua melhor forma é obtida utilizando minha 26 mm onde enche o campo e apresenta mais contraste. Com a 40 mm é possível espremer partes de 2477 e 2451 no mesmo campo.  Formando assim um belo aglomerado duplo. Com telescópios "wide field" sera uma vista maravilhosa. 
                As fotos aqui apresentadas foram feitas com o Newton montado sobre Madame Herschel ( uma montagem equatorial HEQ 5 ) e utilizando uma Canon T3 sem nenhuma modificação . São resultado da soma de cerca de 20 fotos com  25 segundos de exposição ASA 3200. 




quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Ngc 362: Um Globular em Tucana


                     Ngc 362 é mais um daqueles casos onde um belíssimo DSO é vitima da sua localização.
Sofre com a "geografia dos céus". Habitando a constelação de Tucana , uma criação de Bayer em seu magnifico Uranometria de 1603, tem como vizinhos próximos a Pequena Nuvem de Magalhães e ainda Tuc 47( Ngc 104), o segundo globular mais brilhante dos céus.
Uranometria 1603

                Ngc 362  fica ao norte da Pequena Nuvem . É possível que seja conhecida como uma estrela desde a aurora da civilização. É visível a olho nu como uma estrela em locais bem escuros. E nos primórdios da civilização poluição luminosa não era exatamente um problema...
                A descoberta de sua verdadeira natureza é obra de Dunlop. Trata-se da entrada de numero 62 de seu " Catalogue of Nebulae and Clusters of Stars in the Southern Hemisphere , Observed at Parramatta in New South Wales" escrito durante os anos de 1820.  Sua descrição é bastante interessante :
                 Uma bela e arredondada nébula , com 4´de diâmetro, extremamente condensada. esta é uma boa representação do 2o  do Connaissance des Temps , em gênero ,numero e grau mas levemente mais fácil de se resolver , com um branco mais brilhante e talvez mais compacto e globular. Este é belo globo de luz branca; resolvível; as estrelas são muito pouco espalhadas"
                O 2o de Coinassance des Temps a que Dunlop se refere não a nenhum outro que não M 2 do Catalogo Messier. Este foi publicado no almanaque francês " Coinassance des Temps" ao longo de alguns anos.  Na verdade o Coinassance é o anuário astronômico francês e é publicado até hoje.  Desde 1679...   Inveja branca!
M 2

                Ngc 362 não é difícil de ser localizado estando a pouco mais de 2de Kappa Tucana de 4 magnitude. Uma vez na região nada irá ser muito mais obvio que o mesmo em uma buscadora ou binoculo de 10X50 mm. Mas não sendo muito extenso parecerá uma estrela desfocada e que apresentará um pouco mais de caráter com visão periférica.
                Brilhando com 6.4 magnitude é um belo desafio para a vista desarmada. É curioso que Dunlop o chame de resolvível já que este é extremamente condensado e mesmo com telescópios modernos é difícil resolve lo até o núcleo . Eu mesmo consegui apenas perceber estrelas " flicando" em suas bordas. Isto utilizando 120X de aumento. Mesmo o "biônico" Steve O´Meara em seu "The Caldwell Objects"  nos diz que "  Ngc 362 possui um ramo horizontal relativamente "apagado" com magnitude 15.4  e assim não é facilmente resolvível mesmo com telescópios de 200 mm. Eu vi uma sugestão de solução em direção ao centro , mas não mais que isto." Ngc 362 é também C 104 no Catalogo Caldwell.
                Ngc 362 é um globular "rico em metais". Isto  pode demonstrar que apesar de globulares terem todos se formados ha muito tempo não ocorreram simultaneamente nos primórdios do universo. Este processo se espalhou por alguns muitos milhões de anos. 
                Ngc 362 é um forte. Com uma orbita altamente elíptica ele já passou bem perto do bojo galáctico algumas centenas de vezes. Fosse ele menos compacto provavelmente as marés gravitacionais desta região já o teriam destripado ha eons. No momento ele se encontra se aproximando de nós e se afastando do downtown. E assim continuará firme e forte por muito tempo ainda.   
1X 10 seg ASA 3200 Canon T3 Newtoniano 150 mm f8  Montagem HEQ 5
                Fiz as fotos de Ngc 362 ha algum tempo. Na verdade em 12  de agosto de 2015 . Ficaram perdidas por aqui algum tempo. As imagens aqui apresentadas são fruto de uma modesta captura enquanto aguardava para fotografar a chuva das Perseidas. Foram feitas 16 exposições de modestos 10 segundos cada . ASA 3200. Foram utilizados o Newton e Mme. Herschel  bem como a já velha de guerra Canon T3. Curiosamente consigo perceber mais estrelas no seu centro em exposições únicas . Quando foram empilhadas seu centro mito brilhante acabou superexposto e assim "apagou"  as estrelas  O Alinhamento polar deixou um pouco a desejar já que o maior objetivo da noite era capturar "estrelas cadentes". 


                Um belo aglomerado globular para a primavera que se aproxima... 

sábado, 20 de agosto de 2016

M 79: Um Imigrante Galáctico

             

                        Lendo a coluna Strange Universe do Bob Berman de Setembro de 2016 ( é interessante como revistas de astronomia são lançadas sempre com um ou mais meses de antecedência...) na Astronomy Magazine descobri que não é só uma mania minha estabelecer testes ou desafios observacionais junto a ocular. Parece ser uma doença recorrente entre amadores.  Neste mês ele destaca alguns de seus favoritos. Você consegue ver cinco pequenas crateras dentro de Clavius? Ver sete estrelas sem auxilio óptico na Plêiades? Ver Urano a olho nu? E por aí vai...
                               Todos muito interessantes mas sou mais afeito ao céu profundo e em geral gosto de desafios temáticos e a projetos mais longos. Geralmente associados a algum tipo de DSO ou a um Catalogo específico. Sempre tenho alguns em andamento. Tendo terminado de fotografar o Catalogo Lacaille estou com dois novos  me assombrando. Um deles já vai mais adiantado e por isto este post. Pretendo fotografar todos os Globulares do Catalogo Messier. Todos ao alcance de um residente nas terras cariocas. Ao organizar minhas fotos localizei mais um que já visitei e que não prestei o devido tributo por aqui.

                                       E assim chegamos a M 79.
                               M 79 é uma descoberta do sócio menos famoso do Catalogo Messier. Pierre Méchain. Ele o observou em 26 de Outubro de 1780.  As notas de Messier sobre o mesmo são as seguintes:  " Nébula sem estrelas repousando abaixo de Lepus e no mesmo paralelo de uma estrela de 6a magnitude. Visto por M. Méchain em 26 de outubro de 1780. M. Messier o  observou no 17 de dezembro seguinte. esta é uma bela nébula, o centro é brilhante e a nebulosidade levemente difusa. Sua posição foi determinada a partir da estrela de 4a magnitude épsilon Leporis."
                               A estrela brilhante próxima indicada por Messier é ,provavelmente, a dupla h 3752 e é facilmente localizada se esticando por 4o uma linha imaginaria entre Alpha e Beta Leporis rumo ao sul. O globular se localiza a 34´ENE desta.
                               M 79 não é um dos mais brilhantes  globulares do Catalogo Messier. Mas vai se tornando mais e mais impressionante conforme o tamanho do telescópio que se aponta para o mesmo. William Hershel , com seu telescópio de 20 pés achou-o " deslumbrante e extremamente rico. Já Smyth e Webb ( autores clássicos do século XIX) o  observaram como "uma nébula arredondada "blazing" em direção ao centro". Blazing é , neste caso, uma expressão de difícil tradução. Pode significar "em chamas", "queimando" , "resplandecente" ou simplesmente " brilhante" . Todas apropriadas. Pelo Newton ( meu telescópio newtoniano de 150mm F8) o centro realmente se destaca e estrelas começa a se resolver nas bordas. Parecem se irradiar alguns "braços" de estrelas a partir do brilhante e não resolvido centro. Em telescópios maiores ( 250 mm ou mais) começam a resolver-se estrelas em direção ao  brilhante centro. 
                               Burnham no seu " Celestial Handbook" nos diz que que o diâmetro angular de M 79 é de 7.8 ´ . Isto corresponde a um tamanho de 110 anos luz sendo aceita uma distância de 50.000 anos luz. Sua magnitude aparente é de 8.39. É curioso que no mais atual e geralmente mais otimista " Messier Objects" do O´Meara o diâmetro aparente diminui para 6´ a distancia diminui para 43.000 anos luz e magnitude sobe para 7.7. E desta forma podemos assumir que seu tamanho real  é de apenas 75,3 anos  luz. Parece que apesar das diferenças ambos os livros utilizam a mesma forma para determinar o tamanho das coisas. Aplicando os valores de Burnham na formula indicada por O´Meara cheguei a exatamente 113 , 88 anos luz de tamanho. Bem perto...
                               Observei M 79 em janeiro de 2016 e na mesma noite que fotografei a "Cabeça de Cavalo" . Um outro desafio auto-imposto comum a astrônomos amadores. Sobrou pouco tempo para o registro fotográfico do mesmo. 10 exposições de 30 segundos apenas. Estas permitiram capturar claramente o brilhante centro e considerando a analise do "nova. astrometry" o aglomerado espalha alguns membros por aproximadamente 6 minutos grau de minha foto.Ponto para O´Meara.  O brilhante centro não tem mais que 2´em minha foto.




                               De qualquer forma a astronomia é repleta de divergências . No site da SEDS o globular se espalha por mais de 9´de grau e assim ponto para Burnham. Ele ocuparia  118 anos luz de universo...

                               M 79 talvez seja um imigrante na nossa galaxia. Sua posição destoa de outros globulares que geralmente  habitam mais próximos a centro galáctico. Ha fortes indícios que M 79 ( assim como  Ngc 1851 , 2298 e 2808)   seja membro do sistema de globulares da Galaxia Anã de Cão Maior. Esta esta sofrendo um encontro bem próximo com a Via Láctea e se não for totalmente  canibalizada desta vez ( parece estar em estado de continua dissolução) deixará alguns anéis para não perder todos os dedos...   
                            Desta forma M 79 é um emigrante em Cão Maior , um imigrante na Via Láctea e um migrante no universo. 

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Astrofotografia, Oculares 40 mm , Poluição Luminosa , Lacaille e a Rua da Passagem

                              


                              Uma das lendas astronômicas mais famosas é ser impossível  observar em cidades grandes.  Trata-se de uma grande bobagem.
                               Segundo uma escala de poluição luminosa , chamada de Bortle devido a seu criador, a escuridão do céu pode ser determinada entre 1 e 9. Quanto mais  alto o valor menos do céu se poderá perceber. Já abordei a escala Bortle  e podem conhece-la melhor clicando aqui.
                               Possuía planos para aproveitar o mês de agosto e revisitar vários alvos do Catalogo Lacaille  nos céus ,  que embora não sejam de um negrume ímpar , de Buzios ( Bortle 5/6).  Meus plano foi destroçado por uma  coincidência (que desta vez até tinha  algo com as leis mais fundamentais do universo) e acabei passando a lua nova acampado na casa de meu sogro no início da Rua da Passagem  . Um local de nome apropriado para se viver um luto. Bem no coração de Botafogo.
                               Rapidamente descobri que a "Stonehenge dos Pobres" como batizei meu observatório  no bairro do Leblon no Rio de Janeiro dificilmente merece o título de "O Observatório mais Urbano do Mundo" com o qual as vezes é tratado neste blog. Na verdade o Observatório do Valongo é muito mais urbano que este e com isto sofre de prolemas de Poluição Luminosa muito maiores que os meus... Não que a " Stonehenge dos Pobres" seja uma maravilha. Mas seu horizonte sul ( ha apenas duas quadras do oceano atlântico) não chega a ser um desastre completo. Devido a geografia após um bafo de sódio, Mércurio e outros vapores iluminando a praia as próximas fontes de luz a poluírem o céu serão  o farol da Ilha Rasa e depois disto apenas  Port Stanley na Ilhas Falklands...  Com o fim das obras do Metro no entorno de meu prédio voltamos para Bortle 7. O Cruzeiro do Sul é percebido com a Intrometida sendo  um membro visível .
                               De volta a Rua da Passagem  vou conhecer o terraço do Prédio. Em um primeiro momento me animo e acho as instalações bem superiores as da "sobreloja" na Stonehenge dos Pobres. Ao anoitecer percebo que nem tudo é o que parece ser. Com a lua nova procuro pelo Cruzeiro do Sul e as únicas estrelas que percebo facilmente na região inteira são Acrux, Gacrux, Alpha e Beta Centauros . No zênite percebo facilmente apenas Marte , Saturno e uma tímida Antares. É difícil localizar constelações que sempre percebi sem maiores esforços.
                               Devido a um vacilo não possuía nenhuma buscadora óptica e apenas com uma velha "red dot finder" acabo me vendo de calças bem curtas na caça de DSO´s em meio a um mar de luz. Novamente devido a uma daquelas coincidências ( que desta vez nada tinha a ver com as leis fundamentais do universo) acabo conseguindo um alinhamento polar próximo ao perfeito com a buscadora polar de Madame Herschel ( minha montagem equatorial HEQ 5 Pro). Não que fosse possível ver alguma das estrelas de Octans Mas com a utilização de minha técnica favorita consegui capturar Sigma Triangulo Australis no exato momento que esta cruzava o meridiano. E mesmo sem tentar muito cravei a latitude daquele telhado que mais lembrava um palco de show de Rock.
                               A seguir consigo a prova cabal que é possível observar mesmo em áreas de Bortle 10 ( a escala original vai somente até 9...) . Uma das primeiras coisas que descobri é que em tais condições possuir uma buscadora óptica poderosa é fundamental. Sem esta me vi obrigado a contar muito com a sorte e com minha paciência para realizar longas caçadas a partir de um ponto aproximado que conseguia com a "Red Dot".  Fosse eu mais verde e menos conhecedor dos céus sobre minha cidade ia ficar muito difícil de localizar algo...  Mesmo assim preferi um passeio bem conservador e me conformei em visitar alvos bem brilhantes e meus velhos conhecidos.
                               Agora venho fazer um elogio a tecnologia. Sem uma cabeça equatorial com Go-to e sem recursos para a pratica da astrofotografia a noite teria sido bem insonsa. Mas mesmo sem uma boa buscadora óptica e assim sofrendo para alinhar o go-to  é possível realizar registros que seriam  muito difíceis de serem obtidos mesmo com grandes telescópios em locais bem mais  escuros ha poucas décadas atrás.
                               Uma ferramenta útil para mim foi minha nova ocular 40 mm. Seu grande campo permite utiliza-la como uma especie de buscadora diretamente na Ocular do Newton ( meu telescópio 150 mm f8) . Aqui acho importante fazer uma ressalva. Oculares 40 mm tem sua funcionalidade mas não são a pedra de salvação para se caçar DSO´s . Comprei esta usada  e por um preço muito em conta . Uma Plossl. Ainda não tinha lido a critica de Harrigton em seu "Starware" a respeito dessas. 

                                Fazendo curta uma história longa eles nos diz basicamente o seguinte : Evite  qualquer Plossl ( um modelo de ocular criado 1860 e popular a pertir dos 1980) de barill 1,25 com 40 mm . Apesar da baixíssima ampliação seu campo de visão aparente é menor que em Plossls 32 mm com 1,25 pol. No final o campo que você vai de fato ver será o mesmo em ambas mas a maior ampliação na 32 mm  vai permitir uma imagem com maior contraste. Alem disto a utilização destas  (40 mm) obriga a manter sua cabeça muito em posição muito  estável para que a imagem não desapareça completamente da ocular ( blackout). Plossls com o barril de 2 pol. são outra história
                               É  uma meia verdade. Com o habito você acaba se entendendo com a ocular e elas são muito baratas. E funcionam bem para caçar alvos e também para grandes aglomerados abertos. As Plêiades pela 40 mm é sensacional. M 44 idem.
                               De volta  poluição luminosa ela afeta suas fotos mas não as torna impossíveis . e com o auxilio de uma câmera é possível  registrar-se detalhes e alvos que são impossíveis visualmente para o astrônomo urbano.
                               Logico que é necessário realizar mais exposições e fazer estas mais curtas. Mas astrofotografia é a maior diversão e  não será Bortle que irá acabar com a única diversão que restou para o mês de agosto que honrou as tradições e  para quem não esta em um espirito muito olímpico...

Serrinha
Rua da Passagem

                               Faço algumas fotos de M7 e percebo que o alinhamento polar esta bem bom. É interessante perceber como 20 fotos de 30 segundos no Rio são diferentes de 10 fotos de 20 segundos na Serrinha do Alambari ...


                                   M 22 foi surpreendende. Tanto visual como fotograficamente foi impressionante como "The Arkenstone of Thrain" sofreu para a P.L.
Ngc 4755 ensaiando o foco ainda....

                               Mas a grande estrela da noite foi M 8 . A nebulosa da Lagoa. om 50 f0t0s de 30 segundos acabou por ser a melhor captura que já realizei desta. Demonstrando como um sensor fotográfico é uma maravilha da tecnologia. Para não falar nos softwares de processamento...

                               Astrofografia é possível em grandes centros bem como a observação visual.  A boa astronomia  é feita a partir de confirmação  de projetos observacionais . E posso garantir que é possivel fotografar e observar todo o catalogo Lacaille do Rio de Janeiro.   Um projeto que me tomou alguns anos mas que considero completo com a imagem de M 8 feita da Rua da Passagem.

O Catalogo Lacaille


                               Espero que quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos tenha a chance de visitar Búzios e ter a chance de vistar as Galaxias em Sculptor iniciar as fotos para o Projeto Dunlop ... Afinal embora seja possível sobreviver a Bortle 9 não é exatamente "só alegria"....  Acho que mais de um terço do Catalogo Dunlop não é visualmente viável do Stonehenge dos Pobres ( o registro fotográfico creio possível). Mas a confirmação empírica é necessária .  Veremos..