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domingo, 18 de fevereiro de 2018

A Grande Nuvem de Magalhães

             



         A Grande Nuvem de Magalhães é um dos maiores espetáculos dos céus. Ela cobre uma região de aproximadamente 5o largura por 7o de comprimento. Mesmo com uma ocular wide field isto vai representar mais de 40 campos telescópicos. Meu binóculo 15X70 não abarca toda a estrutura e o 10X50 quase consegue... Ao observa-la percebe-se nuvens sobre nuvens de luz, com áreas brilhantes e linhas escuras. Tudo isto temperado com aglomerados de estrelas. Só mesmo vendo para entender...




                Para observar a Grande Nuvem, de verdade, céus escuros são fundamentais e condição sine-qua-non. Especialmente porque a mesma merece horas de contemplação a olho nu antes de qualquer coisa. Habitando uma linha ao sul da linha que liga Canopus a Achernar e estando você suficientemente ao sul do equador ela será muito fácil de se localizar. Como disse, em locais escuros! Em áreas de poluição luminosa a magica não acontece. Você poderá perceber estruturas na Nuvem com auxílio ótico, mas este é um caso onde “não se pode ver a floresta apenas pelas arvores”.

Esta é uma unica exposição de 30 seg. ASA 800. Semelhante ao que você verá a olho nú em um céu  bom. 

                Me lembro da primeira vez que a percebi à vera. Há anos atrás, próximo à Vila de Trindade, no litoral Sul (que por razões geográficas fica a oeste do estado...)  do Rio de Janeiro. Faz par com a Pequena Nuvem, mas é mais clara e bem maior... Imagino o espanto dos primeiros navegadores europeus ao se depararem com tamanha maravilha.
                A Grande Nuvem de Magalhães é uma galáxia satélite de nossa Via Láctea. Em tese é terceira galáxia mais próxima, mas como as outras duas estão em processo de destruição, sendo já digeridas por nossa galáxia, em um futuro “próximo” ela será a nossa vizinha de porta.  As outra duas são a Galáxia Esferoidal de Sagitário e a Galáxia Anã de Cão Maior (esta talvez nem seja uma galáxia, mas apenas um “adensamento estelar”). Situada a cerca de 140.000 anos luz esta “logo ali” em escala cósmica. É pequena para uma galáxia contendo talvez 10 bilhões de estrelas.
                A GNM (Grande Nuvem de Magalhães) é o protótipo de uma classe de galáxias. Trata-se de uma espiral “Magellanica” (Magellanic Spiral Galaxies. A tradução é uma ciência em evolução e a astronomia raramente é feita em português...)  e estas são (comumente) galáxias anãs classificadas como do tipo Sm (SAm, SBm, SABm). São galáxias espirais com um único braço e nossa convidada é do tipo SBm. Apenas por observar-se sua forma é fácil suspeitar que seja aceito que esta foi um dia uma espiral barrada que acabou sendo deformada pela aproximação da Via Láctea. A barra central é uma das mais chamativas estruturas na obra. Há autores que consideram a GNM como uma galáxia irregular.  A Classificação de espirais magellanicas foi introduzida por Gerard de Vacoleurs quando este reestruturou a “Classificação Hubble” de galáxias.
28X 30 seg Lente 50 mm -Canopus é a estrela brilhante acima e a direita quase fora do quadro.Abaixo a direita e também quase fora do quadro se percebe o Aglomerado aberto Ngc 2516.

                A GNM é conhecida há milhares de anos pelos habitantes do hemisfério sul. Os nativos do pacifico sul se referiam as Nuvens de Magalhães (GNM e a PNM) como as
Mosaico realizado com 4 empilhamentos utilizando 3 Drizzle no DSS. A foto que abre o post foi submetida a 2 Drizzle não sendo necessário fazer um mosaico neste caso...

Nuvens superior e Inferior de Neblina. Já os aborígenes australianos que se referiam a Via Láctea como o caminho por onde os espíritos viajavam pelo do céu consideravam as nuvens como dois homens negros que esporadicamente vinham a terra e sufocavam pessoas enquanto estas dormiam.  Al Sufi, em sua descrição das constelações celestes feita no séc. X, fala de um estranho objeto. Al Bakr, “O Boi Branco”, o qual é hoje ligado a GNM. Antigos navegadores deixaram diversas referencias as Nuvens. Elas foram chamadas de “As Nuvens do Cabo” durante quase toda a idade média. O Nome de Magalhães é ligado a elas pela clássica e precisa narração de Pigafetta da primeira circum-navegação capitaneada por Fernão de Magalhães (1524): “O Polo antártico não é demarcado por estrelas como o ártico. Para localiza-lo existem diversas pequenas estrelas aglomeradas, na forma de duas nuvens um pouco separadas uma da outra, e um pouco tênues. Agora no meio destas estão duas estrelas não muito grandes, não muito brilhantes e elas se movem levemente. E essas duas estrelas estão no Polo Antártico.”  Mesmo que a definição do polo mostre algumas de suas limitações, sua interpretação de que as Nuvens de Magalhães consistem de estrelas é digna de nota.
                A GNM é por si só um DSO. Um dos poucos claramente visível a olho nu. Por tratar-se de uma galáxia e uma das mais próximas ela é um celeiro de DSO´s. Ou seja ao observa-la com um telescópio você pode ter o direito de ver seres abissais. DSO´s extragalácticos...
                O primeiro a mapear “a fundo” a GNM foi James Dunlop. Tendo sido precedido por Lacaille que localizou seu DSO mais brilhante, a Nebulosa da Tarântula (Ngc 2070). Dunlop em seu pioneiro levantamento de nebulosas, realizado a partir de Paramatta na Austrália, dedicou muitas de suas noites de observação a região da GNM.  Quase todos os objetos descobertos por Dunlop na GNM foram re-observados por John Herschel.  Com a exceção da entrada D 175 de seu catalogo (hoje em dia identificada como Ngc 1929,34,35,36 e 37 no New General Catalog organizado por Dreyer). Herschel em seu “Results of Astronomical Observations Made During the Year 1834, 5,6,7,8 at the Cape of Good Hope”  localiza 919 objetos na GNM. Com as 5 entradas de Dunlop que lhe escaparam chegamos a 924 objetos. Com descobertas mais recentes (especialmente Resquícios de Supernovas) o numero de DSO´s se aproxima de 1000  na GNM.
                O caráter único das Nuvens (lembrem-se que na época as Nuvens eram consideradas pedaços destacados da Via Láctea) foi reconhecido por John Herschel e seu levantamento leva Abbe em 1867 nos dizer:
1-      Os aglomerados são membros da Via Láctea e estão mais próximas a nós do que as estrelas mais tênues padrões.   
2-      A Nebulosa resolvida e não resolvida repousa geralmente fora da Via Láctea a qual é essencialmente estelar.
3-      O universo visível é composto de sistemas, os quais a Via Láctea, as duas Nubeculae (GNM e PNM) e a Nebulosa são indivíduos e que são eles mesmos compostos de estrelas (tanto simples como múltiplas e aglomerados) e de corpos gasosos de formato tanto regular como irregular.
O estudo das nuvens evolui junto com a evolução da nossa compreensão pelo universo.
O estudo da mesma segue seu rumo e o próximo grande passo é dado com a construção da estação do Harvard College Observatoire em Arequipa (Peru). O Mais significante resultado destes primeiros estudos  foi a descoberta por Henrietta Leavitt da Relação Período-Luminosidade da variáveis Cefeídas.
Shapley, em 1956, seleciona as seguintes “grandes contribuições astronômicas associadas ao estudo das Nuvens de Magalhães”:
1-      A descoberta de centena de gigantes Cefeídas variáveis em ambas as nuvens.
2-      A medição da velocidade radial positiva par as linhas de emissão associadas a objetos dentro das nuvens, sugerindo sua independência da Via Láctea
3-      Descoberta e desenvolvimento da relação período luminosidade das Cefeídas clássicas
4-      Detecção por radio telescópios de Hidrogênio neutro dentro e ao redor das nuvens e medição de sua distribuição.
5-      Considerado menos importante, mas ainda assim digno de nota foi a dedução de que 30 Dourados (Ngc 2070, A Nebulosa da Tarântula) é 100 vezes mais radiante que o globular mais brilhante conhecido em qualquer lugar e é intrinsecamente mais luminosa que muitas das mais próximas galáxias anãs com seu milhão ou mais de estrelas.
Com milhares de DSO´s em seu corpo é impraticável ao amador observar todos eles e em sua maioria estes serão quando muito estelares para os telescópios amadores.
As fotos aqui apresentadas são resultado de uma captura realizada em céus Bortle 3. Mais precisamente 28 exposições (4 em 800 ISO e 24 em 1600 ISO feitas com uma Canon T3 em RAW) de 30 segundos. Foram aplicados 12 dark frames e o empilhamento destas foi realizado no Deep Sky Stacker e posteriormente as fotos foram aprimoradas no Photoshop e no FITS. A lente utilizada foi um a Pentax 50 mm f1.7 @ 3.5. 
Mesmo com este modesto set up a quantidade de DSO´s que se apresenta é grande. Abaixo indico os alvos mais chamativos e indicados aos possuidores de telescópios amadores pequenos. Em tese todos viáveis com telescópios de 70 mm em céus abaixo de ideal. A lista concorda com as recomendações de Consolmagno no obrigatório “Turn Left at Orion”. Neste ele cria uma classificação para DSO´s. Esta vai de 1 telescópio até 5 telescópios. Apenas as Nuvens de Magalhães e  M42 ganham 5 telescópios.
O mosaico 3 Drizzle anotado. Recomendo que baixe e de um zoom  na imagem em seu visualizador de fotos.

São este:
  1-    Ngc 1711- Um compacto aglomerado de estrelas
  2-    Ngc 1714- Uma nebulosa de emissão
  3-    Ngc 1743- Um aglomerado de nebulosas de emissão
  4-    Ngc 1818- Um aglomerado de estrelas
  5-    Ngc 1835- Um globular
  6-    Ngc 1850- Um aglomerado com nebulosidade
  7-    Ngc 1866- Um “jovem” aglomerado globular
  8-    Ngc 1910- Um aberto contendo a variável S Doratis
  9-    Ngc 1935/36 Um aberto nebuloso
 10-   Ngc 1966-Uma nebulosa de emissão
 11-   Ngc 1978- Um globular
 12-   Ngc 1984- Aberto
 13-   2018 – Nebulosa de emissão 
 14-   Ngc 2027- Aberto
 15-   Ngc 2032- Nebulosa Gasosa
 16-   Ngc 2048- Nebulosa de Emissão
 17-   Ngc 2058-Diversos aglomerados abertos 
 18-   Ngc 2070 – A nebulosa da Tarântula 
 19-   Ngc 2080- Nebulosa Gasosa
 20-   Ngc 2100- Aberto
 21-   Ngc 2134- Um aglomerado compacto
 22-   Ngc 2164- Aberto

Ngc 2044 - Este não esta na lista, mas faz parte do Projeto "Tudo que Existe"
3 Drizzle 

A GNM pode ser um programa para anos de observação. Para aquele que desejarem se aprofundar mais sobre as Nuvens um trabalho obrigatório é “The Magellanic Clouds” de Bengt E. Westerlund disponível na Cambridge Astrophysics Series. Primeiramente publicado em 1997 já vai completando 21 anos. Continua atual.
Ngc 2070

     
Ngc 2100
   Este é ainda um post em construção. O registro da GNM é um trabalho para mais que uma rápida sessão de fotos. Espero poder registrar a Nuvem com minha 300 mm ED bem como utilizando o Newton em todas as entradas realizadas por Dunlop. Para a observação visual da maior parte dos DSO´s citados é bom utilizar o maior aumento possível. A maioria deles só começa a revelar sua verdadeira natureza com pelo menos 120 X de aumento e muitos podem ser ainda assim discretos. Céus escuros são fundamentais para alguns e bom para todos. Ngc 2070 e Ngc 2100 são os alvos mais fáceis na minha opinião. No em torno da Tarântula estão muito dos DSO´s citados . Cuidado!!!  Ela costuma roubar a cena.  E não deixe de caçar os segredos da GNM a olho nu em um céu generoso. Você vai se surpreender com o que pode ver.


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Astrofotografia, Lentes e Carnaval

           

   Fevereiro começou com muitas nuvens no horizonte. Literalmente. Não se via uma estrela no céu desde há muito tempo. Embora durante o dia o sol, às vezes, se ensaiasse dardejante a noite estava sempre bem nublada. Um daqueles verões cariocas úmidos e abafados. Mas nem tão quente. Rio 40 graus marcava no máximo 38... Com meu apartamento alugado para 2 suíços e com um trabalho que devido ao “úmidos” na sentença acima sempre empurrava para frente o seu término acabei conseguindo sair para a Serra  de Friburgo apenas na sexta feira véspera da folia de Momo. Meu destino era Lumiar. Um pequeno e simpático vilarejo que foi fundado pelo Beto Guedes.
                Três horas depois de sair do Rio já me encontrava em frente a sede da Sociedade Musical Euterpe Lumiarense  (que desrespeitando o fluxo temporal  foi fundada muitos anos antes do Beto Guedes nascer) aguardando a proprietária da casa que eu tinha alugado para ela  nos guiar até a mesma.
                Eu querendo acreditar que com a virada da lua  a meteorologia ia mandar as borboletas da Tailândia baterem as asas e este que vos escreve iria poder testar as novas lentes que havia ganho de seu cunhado. Este as tinha herdado de seu irmão e não tinha nenhum uso para as mesmas.

                Como o objetivo principal era testar as lentes e a expectativa climática estivesse mais na casa da simpatia que propriamente da ciência achei melhor ressuscitar o “Galileo” (um refrator Celestron de 70 mm f13) do que levar o Newton. E assim fomos eu, Galileo, uma Pentax ED 300 mm f4.5, uma Takumar 70-210 f 4, uma Vivitar 70-150 mm f3.8 e um Pentax 50 mm f1.7. Mais um anel adaptador e minha Canon T3. A Pentax PZ1 que veio junto com as lentes foi também, mas ainda está aguardando eu me dignar a comprar baterias novas para fazer uma experiência “vintage” e tirar algumas astro fotos com película...
                A chegar na casa me lembro que fotos não são reais e que o local não se presta para astrofotografia. Postes e vizinhos demais em algo bem diferente do imaginado pelas fotos do site...
                Mas tudo bem. O plano desde o começo era fotografar de um camping perdido no km 2 da estrada Serra-Mar (RJ-142). Um local adorável. Com uma vista alucinante para a Pedra Riscada. Céus Bortle 3-4. Tinha estado lá no início de janeiro e já vislumbrara o potencial do local.

                Mas sabem como é o Carnaval... Um leitão a Pururuca, muita cerveja e umas pingas me levaram a conhecer a “Vingança de Barnabé”. Esta é a versão local da temida “Vingança de Montezuma”. Uma tremenda dor de barriga que me fez antecipar a quaresma em quatro dias e passar o carnaval mais sóbrio desde meus 13 anos. Evidentemente que ao entardecer as borboletas bateram asas na Tailândia, Taipei, Laos e na Birmânia também.
                Felizmente elas começaram a fazer isto todos os fins de tarde durante os próximos dois dias. Na segunda de Carnaval eu finalmente consigo montar o kit todo e depois de deixar a cara metade e as crianças em um projeto de baile infantil sigo para o camping. Já tinha feito todo o trabalho de diplomacia e tendo doado um exemplar do “O Sul Profundo: O Catalogo Lacaille” para a simpática proprietária sou autorizado a me instalar na parte alta do terreno (que dispõe de energia elétrica) e montar meu “observatório”.
                Não poderia ser tão fácil. Claro que esquecera o bridge plate para instalar a câmera com as lentes diretamente em Mlle. Herschel (uma montagem HEQ 5 pro da Skywatcher). Como a necessidade é a mãe da invenção rapidamente projeto um sistema que apesar de bastante rustico se revela extremamente eficiente. Com um parafuso de ¼, duas porcas, um nível de marceneiro e gaffer tape (uma “irmã” high tech” da fita crepe) consigo acoplar a câmera ao Galileo de forma eficiente e estável. Pela foto pode parecer difícil de acreditar, mas funciona...
                Tenho um período de alforria relativamente curto. São 7 da noite e já estou com tudo montado. Faço algumas fotos “artísticas” da locação e me preparo para testar as lentes na “difícil arte”. Com o céu quase no twilight astronômico eu encaixo a Pentax 50 mm f1.7 e fecho um stop. O primeiro alvo já estava definido. Faço um alinhamento polar meio Mandrake e depois utilizo Sirius e Achernar para regular o Synscan ( go-to )  de Mlle. Herschel. Isto é feito utilizando uma ocular 25 mm no Galileo.
                O céu já começa a se apresentar magnifico. Apesar de na chegada haverem nuvens em todo quadrante oeste tudo indica que as borboletas estavam ficando bem agitadas e ainda soprando ao anoitecer. As Nuvens de Magalhães e diversos outros objetos “difíceis” de céus pouco generosos se tornavam  evidentes a olho nu mesmo com visão direta. Fazia tempo que não as via assim. A Grande Nuvem mais evidente que a Pequena. Tuc 47 claramente uma “estrela” enevoada. A Via Láctea cheia de estrutura. Um espetáculo.

                Seguindo a derrota planejada ataco a Grande Nuvem de Magalhães. A lente se revela soberba e com uma distância focal de apenas 50 mm o alinhamento polar se revela a altura.  Realizo pouco mais de 2 dezenas de exposições e já sei que não perdi a viagem...

                Agora estou ansioso para testar a 300 mm. Esta uma joia. Meu objetivo inicial seria a Roseta (C 50 ou Ngc 2244) mas ela se encontra muito próxima ao meridiano e não vai rolar. Decido me manter no horizonte sul e revisitar um clássico.  A nebulosa de Eta Carina.
                Mas antes disto minha anfitriã aparece e preciso mostrar algo rápido. Lá vamos nós! Plêiades!! São infalíveis junto aos curiosos. Ela e o marido ficam fascinados. Felizmente o camping vai bem cheio e estes estão exaustos e assim após alguns minutos de Plêiade, prosa e alguma constelações seguem seu rumo.

                De volta a Eta Carina faço de novo uma dezena e meia de exposições e já sei que nunca a fotografei assim. A lente é maravilhosa. E o céu idem. Vai ficar bom. Mesmo posteriormente realizando um drizzle 3X de Ngc 3324 de uma borda da imagem o perfil de Gabriela Mistral parece se apresentar em meio ao ruído.
                Infelizmente com minha alforria terminando e eu querendo testar todas as lentes parto para a Vivitar. Faço uma imagem de M 42 com esta @ 150 mm e percebo que as borboletas estão cansando e que esta lente não é do mesmo naipe que as outra. Mas ainda resolvo dar ais uma chance a mesma e com esta @ 70 mm tento fazer uma composição mais clássica. Em homenagem ao Barnabé que batiza a minha maldição fotografo o Acrux e a Via Láctea brotando por trás do “Morro do Barnabé”.  Tudo bem que se trata de um composite e que ainda não dominei bem a técnica ( nem mal ...)  mas a lente parece não ter , de fato, a mesma qualidade das anteriores. O drizzle que tentei de Lambda Cen com as capturas dela fico muito sofrível. Mesmo esta estando bem mais no meio do quadro. Especialmente se comparado ao drizzle de Ngc 3324 feito a partir das imagens obtidas com a PentaX 300mm e na bordinha do quadro.   Tudo bem que estava tudo muito baixo no horizonte e etc..  Mas ela é inferior também à minha Canon 70-300 mm embora seja mais clara.

Ngc 3324 - Gabriela Mistral foi uma imensa poetisa. Mas não exatamente uma mulher bonita... Crop de 3 Drizzle sobre foto de Eta Carina que abre o Post. Realizada com a 300 mm ED. Uma borda do quadro..


Lambda cen com a Vivitar. Foi submetido apenas a 2 drizzle. 

                Minha alforria acaba e a Takumar vai ter que esperar por outro dia para ter sua chance...
                Recolho tudo rapidamente e vou encontrar a família já no centro da cidade.
                Depois disto ainda continuo sendo levemente incomodado por “Barnabé” e as borboletas do Triangulo Dourado entram em greve. A parte astronômica da festa acabou para mim. 
                A Vingança de Barnabé é um violento desarranjo que se abate aos que chegam a Serra muito afoitos. Geralmente é antecedida por muita gordura e cachaça. Conta a lenda que Barnabé foi um grande catador de Açaí da região que acabou sendo expulso de Lumiar pela especulação imobiliária pós a refundação desta por Beto Guedes. Ele sumiu e foi visto a última vez para as bandas de Macaé de Cima, mas antes conjurou esta que se apresenta como uma febre estomacal violenta tendo como trilha sonora todo o Clube da Esquina . Ela é mais leve que a Vingança de Montezuma . Lembrado que este perdeu não só todo um império para os espanhóis com terminou morto e não apenas assombrando as matas da parte mais alta de uma linda Serra.
               Com o tempo nublado sempre se pode caçar passarinhos...
Beija Flor Fonte Violeta

Bet te Vi

Canario da Terra

Coleiro
                Na natureza selvagem minha filha foi picada por algum inseto ou aracnídeo peçonhento e decidimos terminar a temporada na Serra na casa da Avó de minha mulher. Não sem antes passar no hospital onde a filha entrou no antibiótico e o pai e Barnabé foram postos para cumprir a quaresma de fato. 40 dias sóbrio, cinco dias comendo como um brâmane e muito Floratil. O carnaval foi bom...  E o Camping Cantinho Doce fora de temporada deve ser um dos melhores locais para se observar em um raio de muitos quilômetros do Rio de Janeiro. Céus escuros, boa estrutura e alojamento que vai desde barracas até pequenos chalés. A Aporema de Outono já tem endereço.  

domingo, 28 de janeiro de 2018

Ngc 2169: O Aglomerado 37

                 
                  Ngc 2169 apesar de possuir muitos nomes é um DSO pouco visitado. Sendo um compacto aglomerado aberto em Orion é muitas vezes relegado devido a outras “estrelas” em tão rica região. Na fronteira com Monoceros é ainda mais difícil se destacar em uma área com abertos muito mais amplos e facilmente percebidos.
                Possuindo apenas 7´ de diâmetro aparente ele demanda pelo menos 120 X de ampliação para começar a revelar seus mistérios.
                Foi provavelmente observado pela primeira vez por Hodierna antes de 1654. Mas é uma entrada no mínimo controversa em seu catalogo pioneiro já que se trataria de um objeto muito discreto e pouco chamativo para os meios que este possuía. Não chego a perceber seu caráter em minha buscadora. E mesmo Walter Houston (criador e autor da coluna Deep Sky Wonders na revista “Sky and Telescope” por décadas) nos diz que “não estivesse Ngc 2169 já incluída no New General Catalog ele não a reconheceria como um aglomerado à primeira vista.”
                Acho curioso destacar que apesar da indiferença de Houston o aglomerado encantou seu antecessor Smith ainda no séc. XIX se não pelo o número de estrelas mas pela sua simplicidade: “Estes encontros ocorrem indiferentemente ao longo da Via Láctea e fora desta e despertam ainda mais a nossa admiração pela estupenda riqueza do universo, em cada parte na qual aparece tamanha profusão da criação onde podemos expressar por nós mesmo o trabalho do todo poderoso e não  podemos nunca  perceber  nenhuma redundância e muito menos trabalho em vão.”
                William Herschel registrou o aglomerado (é a entrada H VIII 24 de seu catálogo) em 15 de outubro de 1784: “Aglomerado, pequeno, pouco rico, bastante concentrado, estrela dupla Struve 848”.


                É um pequeno grupo de cerca de 20 sóis que reside em um dos vértices de um triangulo retângulo formado com as estrelas z e n Orionis. Estas ambas sentinelas se encontram até 1o de Ngc 2169 e podem todos serem abarcados com um telescópio de campo grande. Mas como já foi dito é necessária bastante ampliação para separar-se seus membros e as diversas duplas que tornam o aglomerado muito interessante.
2x drizzle

                O grupo é conhecido pela alcunha “Aglomerado 37” devido ao arranjo de suas estrelas, de fato, lembrar o desenho do número. Mas o mesmo possui diversos outros apelidos listados por O´Meara em seu “Hidden Secrets”: “As Pequenas Plêiades” e o “Aglomerado do Carrinho de Compras”. Acho ambos bastante criativos e nenhum à altura do mais famoso.
                Ngc 2169 é um aglomerado super jovem e atualmente os valores mais aceitos para sua idade não ultrapassam 10 milhões de anos. E diversos papers indicam ainda menos. 
O Trabalho de Jeffries, R. D.; Oliveira, J. M.; Naylor, Tim; Mayne, N. J.; Littlefair, S. P. realizado em 2007 “The Keele-Exeter young cluster survey - I. Low-mass pre-main-sequence stars in NGC 2169” onde foi realizada a fotometria com CCD do Newton telescope e com o espectroscópio de resolução intermediaria do Gemini North indicam 9 milhões de anos +- 2 Milhões de anos.  Este indica ainda que não há mais de 2,5 milhões de anos de diferença entre seus membros de massa inferior a 0,15 sóis. A maior parte de seus membros de baixa massa ainda se encontra ainda na pré sequencia principal. A maioria de seus membros são do tipo espectral A3 ou mais jovens.
                Ngc 2169 é um aglomerado muito delicado e bastante colorido que me recorda em sua miudeza o Aglomerado de Cheshire (Ngc 5281) e que como este demanda ampliação para ser de todo aproveitado. Um daqueles tesouros escondidos e que devem ser visitados apesar de sua elegante descrição.
Foto "girada" no PS. O " 37" fica mais evidente...



                Realizei poucas fotos de Ngc 2169 e com um alinhamento polar mal realizado. As fotos que ilustram este post são fruto do empilhamento de apenas 4 exposições (as melhores e com o menor drift) de 20 segundos realizadas no Rot n´ Stack e em uma delas realizei uma ampliação de 2 Drizzle no Deep Sky Stacker. Foi também utilizado o Photoshop para equilibrar as cores que são bem fiéis ao que se pode perceber junto a ocular. Não foram feitos dark frames.  O telescópio utilizado foi um 150 mm f8 newtoniano com uma Canon T3.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Astrofotografia de Ouvido e a Aporema de Verão

             

                 Chegou o verão. A primeira Aporema do ano (veja o significado desta festa aqui, aqui e aqui). Desta vez as regras foram seguidas à risca e a mesma foi comemorada na primeira lua cheia após o solstício de verão. Com uma casa alugada em Lumiar os céus seriam escuros. Mas também bem nublados. O verão nas Serras Fluminenses costuma ser ingratos com a astronomia e chove para burro... Como não poderia deixar de ser as noites mais abertas da temporada aconteceram nos dias que estávamos em Friburgo para comemorar o aniversário da Bisavó de meus netos. Avó da cara metade.
                Eu tenho informantes no Reino de Murphy e evidentemente coloquei o Newton (meu telescópio refletor 1200 mm f8) na mala do carro quando nos deslocamos de uma cidade para outra. A tarde choveu canivetes. As 21:00 o céu começou a abrir. Eu aproveitei para brincar com as crianças e apresentar diversos clássicos. E com o avançar da hora ainda acabei por localizar alguns dos DSO´s que tinha imaginado fotografar. Mesmo com um alinhamento polar feito de ouvido e com um céu que apesar de limpo apresentava uma transparência péssima fiz algumas fotos. Esqueçam a palavra colimação. Esta Aporema   já começara meio desacreditada. Como o sistema de guiagem para o Newton só vai chegar no final de janeiro não me via com grandes projetos fotográficos. Brincar com as crianças acabou sendo uma boa forma de comemorar a festa pagã e o aniversário da Bisa...
M 42 não parece indicar uma noite promissora...

                Com quase todas a luzes da casa acesas e com vários curiosos olhando coloquei Mlle. Herschel (minha montagem HEQ 5 pro) em “modo de segurança” e com um Synscan quase alinhado acompanhando um alinhamento polar pior ainda levei todos a visitar M 42. Percebo que há muita nebulosidade no céu. Depois M 41 muito tímido. Sobraram duas sobrinhas que parecem levar jeito para coisa e que acompanharam as observações até bem tarde.
                E assim visitamos Ngc 2516. O horizonte sul está mais generoso. O aglomerado faz sucesso com as meninas e com alguns retardatários. Depois sigo para Omicron Velorum. Ficam todos fascinados ao entenderem que o aglomerado é a pequena nebulosidade ao lado de Delta Velorum e que escolta Omicron. Descobrir o Falso Cruzeiro e aprender, de fato, a identifica-lo parece deixar todos bem orgulhosos.
                As Plêiades (a noite parecia estar melhorando) dão seu show junto a buscadora e o famoso aglomerado arrecada mais alguns fãs para seu imenso “entourage”. 
2516 em modo "como não fazer"...

                Faço uma exposição de 30 segundos de alguns dos objetos somente para apresentar a técnica as meninas.  O Alinhamento polar era de fato medíocre. Mas para a observação visual estava mais que bom... Pior era o Synscan (Go-to da cabeça) errante. Mas viajando por mares já muito conhecidos não chegava a irritar ninguém.
Little Cassiopéia no mesmo modo...

                Finalmente apresento o conceito de estrela dupla para as meninas. Com um seeing também “bem mais ou menos” acabo resolvendo Castor em Gêmeos com a minha ocular 17 mm acompanhada de uma Barlow 2X.  As meninas adoram. E acho um dos pontos altos da noite. Não visitava o gêmeo mortal (Pollux é imortal) há muito tempo. É uma dupla divertida de se dividir. Uma considerável diferença de magnitude.
M 93 em péssima forma...
                Depois já vai mais tarde e resolvo tentar cumprir algo do que tinha em mente. Fotografo (mesmo que de forma tosca) M 50 e M 93. Dois abertos do Catalogo Messier que nunca tinha registrado fotograficamente. Com o Synscan errante acabo também misturando M 48 com Ngc 2306 e registro o obscuro aglomerado. Mais um para o “Projeto Tudo que Existe” (apesar do nome a intenção é apenas fotografar todo o Catalogo Ngc).
M 50

Ngc 2306. Um engano meu , de Dreyer e originalmente de Herschel. 


                Finalmente as crianças se rendem e o Synscan errante não localiza Ngc 2169.Meu principal objetivo nesta Aporema seria fotografar os objetos que me faltam no Catalogo Hodierna.  Mas parece que vou ter que esperar por condições melhores. Acampado na casa dos outros e sem poder fazer os alinhamentos “by the book” vai ficar difícil. E Friburgo é uma cidade grande e com considerável poluição luminosa. Fora que a umidade está enorme, o frio aumentando e eu bem cansado.
                Para encerrar faço algumas capturas em Pig Back com um campo bem aberto. Coloco a 18-55mm @ 50 mm e f 5.6.
                Capturo a Falsa Cruz que fez tanto sucesso junto aos universitários e depois outra série de 12 fotos no entorno de Eta Carina. Sempre um espetáculo. Com estas eu posteriormente brinco tanto no Deep Sky Stacker como no divertido e menos exigente Rot n´ Stack.   Com um campo tão amplo o alinhamento polar se torna menos exigente.
Falsa Cruz 

                Já as fotos dos DSO´s tiveram que ser processadas apenas no Rot n Stack. A qualidade das capturas não é suficiente para o DSS. Neste tudo termina em rabiscos. Ou desastres binários como gosto de chamar tais desgraças...
Desastre binário

                No dia seguinte, após levar as crianças até as cachoeiras de um clube em Friburgo, (a cara metade resolveu encarnar a Rainha Má e implicou com a casa estilo “Woodstock” em Lumiar. Prorroguei a estada na casa da Bisa por mais uma noite...) fico brincando com as fotos feitas com a lente enquanto namoro o céu nublado com esperança de que este abra por volta das 21:00. A previsão assim o diz. Diferentes processamentos levam a diferentes resultados. As capturas foram todas feitas em jpg. Como não planejava fotografar sequer me lembrei de alterar as configurações da Canon.  O Rot n Stack me dava cor nas fotos. Já o empilhamento realizado pelo DSS embora apresenta-se mais detalhes era em escala de cinza. Não conseguia atinar a razão para isso. Finalmente reparo que o autosave em 32 bits e sem eu ter corrigido o RGB no próprio DSS apresenta cor. Ainda que o resultado deste arquivo que é gerado automaticamente seja sempre muito claro. Resolvo apenas converter o autosave para Tiff 16 bits no DSS sem nenhuma outra manipulação. Com este arquivo aberto no Photoshop rapidamente percebo que basta eu pedir o tom automático que a cor se revela. Depois curvas e cia LTDA e acho o resultado bastante satisfatório e mais realista do que trabalhando com a matriz do Rot and Stack. Na verdade, acho ambos bastante satisfatórios para 8 frames de 30 segundos empilhados.  Sem darks...
Esta foto é fruto da mesma captura da que abre este post. Porém processada no Rot n stack inicialmente. Tem mais cor . Mas encosta o "Caboclo Magenta" e acho muito forçada. 

                Finalmente a previsão se confirma e as 21:35 estou com a câmera na montagem. O Plano é utilizar a 75-300 mm @ 300 mm para fotografar as Plêiades. Por incrível que pareça o alinhamento polar é feito de novo no palpite e o Synscan é alinhado utilizando apenas a rotina de “1 Star Align”. Utilizando Canopus como farol. E com a lente @ 70 mm Mlle. Herschel chega até as Plêiades sozinha. Não centralizadas, mas quase... Depois é só ajustar o foco.  As “crionças” queriam porque queriam que eu montasse o Newton para elas poderem observar também. Mas fui obstinado e só cedi ao desejo das mesmas depois de realizar 80 exposições das “Sete Irmãs”.  Queria brincar mais de “laboratorista” (uma profissão quase extinta dos tempos da película fotográfica).


As Pêiades cropada no Photoshop... Foram diversos tratamento e serão abordados em outro post.

                Finalmente acabo cedendo e o Newton vai para a montagem. Levo as crianças para um belo passeio.  O horizonte sul é mais escuro na região do Cônego e assim se a região entre Sagitário e Escorpião é a décima terceira vertebra na “Espinha Dorsal da Noite” a área ao redor da Nebulosa de Carina pode responder pela alcunha de “Região Cervical” ... E assim levo elas por todos os clássicos austrais tão meus conhecidos. O Aglomerado da Pérola, O Poço dos Desejos, A grande Nebulosa em si, as plêiades do Sul e até um Acrux nascente é visitada. Para encerrar e sabendo que a pequena gostara de estrelas duplas apresento a “Albireo de Verão” (145 C Ma). Depois mando todos para cama e ainda consigo me acertar com Ngc 2169 e capturar suas imagens para o “Projeto Hodierna”. O Synscan está bem mais preciso que na véspera. Sem nenhuma razão aparente que não seja a incerteza...   O delicado aglomerado é bem discreto e só revela suas características mais marcantes com a ocular de 10 mm (120 x de aumento). Adoro projetos observacionais temáticos.  Uma ultima confissão: a foto de Ngc 2169 foi uma das piores que já tirei. Mas com as Plêiades indo tão bem acho que a média ficou aceitável. E aglomerado em questão também se inclui no “Projeto Tudo que Existe”. E neste eu nem considero a possibilidade de fotos bonitinhas para todo mundo. Vale o registro... O drizzle feito no DSS a partir de um empilhamento feito no Rot n Stack ficou medonho. Mas apresenta claramente o porque deste ser conhecido também como “O Aglomerado 37”. Se alguns dos resultados nos Logaritmos do Rot n Stack fossem feitos pelo Pollock valeriam um bom dinheiro...
Albireo de verão
Quase parece com Ngc 2169. 

                E assim encerro mais uma noite. Com dignidade e ainda cedo. 00:20 estou com tudo já meio encaminhado para sair na manhã seguinte rumo a minha casa na arvore e poder continuar minha saga como laboratorista digital. Fico muito feliz ao descobrir que a nebulosa de Merope e de Alcyone foram registradas claramente apesar da interrupção mirim. Meu plano era tirar pelo menos o dobro de fotos.            
Sem hora para nada...


São Sebastião de Lumiar




Depois da procissão...
                Dia 18 finalmente retorno para a “Casa Nas Arvores” em Lumiar. O céu ainda ia claro, mas me reuni com um antigo professor e a cerveja e o saudosismo atrapalharam a observação. A casa não possui nenhum horizonte livre e acabo tentando a sorte na rua em frente. Lógico que apesar do céu bem escuro não dá certo...  Daí para frente o templo nubla e haviam outras coisas a serem feitas para a harmonia familiar harmonizar. E assim fomos a procissão de São Sebastião de Lumiar, bebemos tonéis de cerveja, visitamos locais lindos e tomamos muito banho de rio.  Sem reclamar do céu nublado. Foi todo o set up para a mala do carro onde permaneceu até o Rio de Janeiro...
A Casa nas arvores

casa nas arvores II




                A Aporema de Verão foi diferente do planejado e por isto mesmo sensacional. Uma  versão nômade da festa. Veremos se em fevereiro   as coisas melhoram. Afinal o meu “Magnificent Mini Auto Guider” terá chegado e espero um mês mais seco que janeiro apesar do “Paradoxo de Newgear”.  

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

M 37 : O Melhor Messier de Auriga

          

            Continuando a apresentação dos aglomerados abertos pertencentes ao Catalogo Messier localizados em Auriga (O Cocheiro) chegamos a M 37. Este o único deles fora do perímetro do pentágono que caracteriza a constelação. 
                Os aglomerados Messier em Auriga nos contam uma interessante história.  Até os anos de 1980 eram todos descobertas de franceses. La Gentil tinha descoberto M 36 e Messier tinha descoberto M 37 e M 38. Mas, em um dado momento entre os lançamentos de alguns dos primeiros sucessos da Madonna (ahhhh...os anos 80) que foram “Into the Groove” e “Like a Virgin”, G.F. Serio, L. Indorato e P. Nastasi, publicaram o agora fundamental paper “Hodierna's Observations of Nebulae and his Cosmology” no “Journal of the History of Astronomy, Vol. XVI, No. 45, p. 1-36 (fevereiro de 1985). E pronto ... Todos os abertos Messier em Auriga passaram a ser descobertos pelo até então desconhecido padre siciliano Giovanni Battista Hodierna.  E antes de 1654. Com mais de um século de antecedência sobre nosso caçador de cometas favorito.  Ele o descreve simplesmente como “um local nebuloso”. É difícil saber se ele inclui M 37 em sua categoria de “Luminosae” ou “Nebulosae”. Ele certamente não percebeu estrelas em M 37 com a vista desarmada(Luminosae) mas também é pouco provável que tenha visto algo com auxílio telescópico (Nebulosae) afinal estamos nos primórdios da tecnologia telescópica. É difícil acreditar que Hodierna tenha resolvido algo em M 37 e o que ele de fato viu é matéria de discussão no paper de G.F. Serio.
Mapa de Auriga em  De systemate orbis cometici; deque admirandis coeli characteribus (1654) (Sobre a sistemática do mundo dos cometas e dos admivarveis objetos dos céus)

                Messier redescobriu M 37 na noite de 2 de setembro de 1764. Ele nos deixa a seguinte descrição: “Aglomerado de fracas estrelas a pouca distancia do prévio (M 36); as estrelas são tênues, próximas e contém alguma nebulosidade.”
                Observar M 37 a olho nu é um grande desafio para latitudes mais boreais e através de minha buscadora 10 X 50 mm apenas suas duas estrelas mais brilhantes e ao centro podem ser vislumbradas. Permanece uma impressão de nébula. Smith, demonstrando bem como o interesse astronômico mudou, se refere a M 37 como uma estrela dupla incluída em um aglomerado. E ainda demonstra profundo interesse em outra pequena dupla que também é membro do aglomerado.  Para se resolver o aglomerado é necessário um binóculo de 70 mm ou um pequeno telescópio com pelo menos 30 x de aumento. Telescópios maiores vão mostrar de 40 a 50 estrelas arranjadas em pequenos grupos. M 37 dá uma impressão muito mais concentrada que seus vizinhos M 36 e M 38.


                M 37 é o mais interessante dos aglomerados Messier em Auriga. Com mais de 2000 membros, das quais 150 são mais brilhantes que magnitude 12,5 e com 500 mais brilhantes que magnitude 15 ele apresenta 35 gigantes vermelhas as quais incluem seu membro mais brilhante com magnitude 9,5. Sua estrela mais desenvolvida ainda na sequência principal é uma relativamente jovem estrela do tipo B9. Isto indica uma idade mais avançada que seus companheiros e sua idade é estimada em 500.000.000 de anos.  Sua distancia é alvo de disputa e varia entre 4.300 e 6.700 anos luz. É mais aceito que ele se encontre no limite inferior destas estimativas e com isto ele ocuparia 33 anos luz de universo. Estudos recentes indicam 24 variáveis entre seus membros reais.
                M 37 é, sem dúvida, o mais belo dos abertos Messier em Auriga e quão maior for seu telescópio mais interessante este se torna.



                M 37 se localiza ao leste do ponto central de uma linha imaginaria que liga Mahasim a El Nath (Beta Taurus). Outra opção é iniciar seu “starhoop” a partir de Capella (Alpha Auriga) em locais extrema poluição luminosa. Será um longo caminho e você passará por M 36 e M 38 na jornada. Considero o mais difícil dos aglomerados Messier em Auriga para se localizar. O mesmo passou desapercebido por La Gentil.