sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Três Marias, Cr 70 e Anãs Marrons

           
          As Três Marias é provavelmente o mais famoso asterismo do firmamento. Aquelas estrelas que formam o cinturão da constelação de Órion são conhecidas em ambos os hemisférios e geralmente são a primeira coleção de estrelas que as crianças aprendem a reconhecer.
            As estrelas do cinturão de nosso caçador celestial são batizadas originalmente em Arabe. E do Sul para Norte se chamam Alnitak, Alnilam e Mintaka. Respectivamente " O Cinto" , " O Cordão de Perolas" e "Cinto". A palavra Mintaka deriva de Alnitak e daí o significado quase idêntico.
            Já o nome Três Marias tem uma origem "bíblica". Segundo algumas fontes esta homenagem refere-se as Três Marias que encontrvam´se ao pé da Cruz de Cristo. Seriam estas segundo a  que me pareceu mais confiável Maria (sua mãe), Maria de Cleofas (sua tia) e Maria Madalena. O nome Três Marias é como ficou conhecido o cinturão na Espanha, Portugal e América do Sul e Central.
            O nome mais comum para o asterismo em terras boreais é "Os Três Reis". Este empresta um pouco de sentido e de ciência a uma passagem famosa e também bíblica. Seriam as estrelas os Três Reis Magos e estes seguiriam uma brilhante estrela. No caso Sirius . "Os Três Reis" apontam para Sirius se ligarmos suas estrelas e seguirmos rumo a Oeste.  
            Mas abandonando o terreno das lendas as Três Marias se chamam mesmo Collinder 70. E compõem parte da associação Ori OB1. Este um aglomerado jovem de estrelas do tipo O  paralelo ao plano galáctico (Guetter 1979). Na verdade esta coleção de estrelas que parte se tornara Cr70 foi primeiro descrita por Panneckoen em 1929.   Para efeito de "fidelidade acadêmica" devo frisar que Cr 70 e/ou as Três marias são definidas com Ori OB1"b" ( de Belt) dentro do complexo que atende por   Ori OB1.
            O aglomerado é enorme e é melhor observado de Binóculos. Mesmo asimo com meu 15X70 posso passear um pouco para completar todo o tour por ele. Meu 10X50 abarca Cr70.
Esta seria a Visualização de Cr 70 com um 15X70 mm
            Há tempos sabia que as Três Marias eram intimamente relacionadas e que não tratava-se de uma alinhamento casual. Bem como o "mar de estrelas" em seu entorno. Não bastando isso sabia que a região é  envolta na Nuvem Molecular de Órion que por sua vez se confunde com a coleção de DSO´s que em conjunto são chamados de" Loop de Barnard".
            Como muitas coisas aqui no Nuncius Australis acontecem por uma daquelas casualidades que de tão por acaso parecem se relacionar as leis mais fundamentais do Universo eu acabei por fazer algumas fotos de Órion sem nenhum compromisso . E nelas estava Cr70. Um aglomerado ultra jovem e que por um acaso qualquer é e foi estudado não por suas estrelas mais famosas . Mas devido a localização de duas delas. E dos objetos subestelares a redor destas.
            Mas para organizar o caos que isto pode se tornar vamos iniciar pelas estrela mais evidentes e estruturas mais obvias que podemos observar nas fotos realizadas.
            Na foto que abre este post podemos perceber todo o conjunto do Cinturão e mais a espada combinada. Percebe-se M42 e cia ltda. Isto é apenas uma coincidência  e não tem nenhuma importância para este post. A foto foi apresentada primeiramente assim por uma razão puramente estética.
             Assim com a foto devidamente cropada vamos falar do que realmente interessa para este post. Cr70.
            Primeiramente vamos falar de Alnitak. A estrela mais a leste das Três Marias. Esta encontra-se envolta pela tal nuvem molecular de Orion e devido a um tempo de exposição determinado pelo acaso pode-se perceber de forma discreta alguns traços de Ngc 2024 ( A Nebulosa da Chama) a seu lado. Na verdade Alnitak traz em seu campo diversos objetos famosos. Mas estes precisam de muito mais tempo de exposição e não gostam muito de se apresentar por acaso em fotos amadoras. De qualquer forma Alnitak ou Zeta Orionis é uma estrela do tipo espectral O9. Uma super gigante azul. Com magnitude aparente de  1.7 é a estrela de seu tipo mais brilhante do firmamento. Trata-se de uma estrela tripla. Mas só espere encontrar uma de suas companheiras, Esta da classe B e de 4a magnitude. Foi descoberta em 1819 por Kunowsky . A estrela principal tem cerca de 28 massas solares e possui cerca de 20 raios solares. O terceiro membro do conjunto só foi descoberto em 1998 e também é da classe espectral O.
            Cr 70 esta centrado sobro Alnilam. A estrela central no cinturão. " O Cordão de Perolas" é uma estrela super gigante azul. Vai viver 10 anos a mil...  Em alguns milhões de anos ela vai se tornar uma super gigante vermelha e explodir como uma supernova. Depois disto seu rumo vai depender de nomes como Chandrasekhar ou Volkoff -Oppenheimer... Ela ilumina uma nebulosa de reflexão conhecida como Ngc 1990. Esta uma parte da nuvem molecular que se espalha por quase toda constelação de Órion.  Seus ventos estelares atingem até 2000km/s. Ela perde massa 20 milhões de vezes mais rápido que o nosso sol. Ela é também Epsilon Orionis. Ela se encontra mais distante que suas companheiras mas todas as fontes garantem que ela é também um membro de Cr 70. Sua distancia é superior a 2000 anos luz.
            Finalmente chegamos a Mintaka. "O Cinto".  Localizada a cerca de 700 anos luz da Terra.  Seu tipo Espectral é O9.5 II. trata-se de um sistema múltiplo sua estrela B é facilmente resolvida. Ela é ainda Delta Orionis... Distancia de 695 anos luz
            O aglomerado apresenta caracteristicas que denunciam sua juventude. Muitos de seus membros são estrelas do tipo T Tauri. Estas são estrelas oscilantes e que ainda estão sofrendo as contrações de Hayashi. Como seu equilíbrio hidro estático não esta completamente estabelecido ela brilham de forma bastante errática. A idade do aglomerado é estimada em apenas 10 milhões de anos e muitas das estrelas ainda nem chegaram a sequência principal. Mesmo em estimativas muito conservadoras as estrela mais antigas não atingiram nem 30 milhões de anos.
            Um interessante paper que encontrei apresenta um detalhado levantamento de estrelas  de baixa massa e de anãs marrons que também habitam a região. E que são membros de fato do aglomerado. As regiões ao redor de Alnilam e Mintaka são especialmente interessante para este tipo de estudo com objetos subestelares devido a baixa extinção da região e baixa contaminação por estrelas de primeiro plano e de fundo. Já ao redor de Alnitak a grande quantidade de poeira torna a extinção menos homogênea e assim mais difícil determinar a magnitude padrão  destas "sub-estrelas".                         Curiosamente um outro trabalho sobre o assunto e que me parece serviu de inspiração ao trabalho de  Caballero e Solano se concentrou em volta de Sigma Orionis. Esta a estrela que Ilumina IC 434 . Esta é a nebulosa por sobre a qual se pode perceber Barnard 33. A famosa Nebulosa Cabeça de Cavalo. Ou seja : uma área que sofre dos problemas indicados pelos outros autores como um limitante para o uso de Alnitak e cercanias para sua pesquisa.
            Cr 70 é um belíssimo alvo para observação e um aglomerado de grande interesse cosmológico. Situado há uma distancia média de 1500 anos luz e brilhando com magnitude de total de 0.4 é um alvo fácil para astrofotografia mesmo sem acompanhamento.
            As fotos que acompanham este post foram realizadas com uma Canon T3 e são resultado do processo de stacking ( empilhamento) de 10 Light Frames e de 5 dark frames realizados no Deep Sky Stacker. A exposição foi de 20 segundos para cada Light frame. ASA 1600.  A lente utilizada foi uma 75-300 mm @ 75 mm. F 5.6 ( eu acho...)
            A exposição não foi suficiente para revelar as nebulosas que se escondem pela região e que são alvos de um caráter mais fotográfico que visual. Mas revelam claramente as estrelas mais luminosas de Cr 70. A nebulosa da Chama e M78 "quase" começam a se revelar  e é divertido tentar caçar qual das estrelinhas borradas são as que iluminam M78.  
            As Três Marias e suas cercanias são uma das mais divertidas regiões do céu para se passear sem compromisso com um binoculo

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