quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A Rainha Má, Galileu, Enchentes e Astrofotografia


         

         O ultimo semestre foi bastante ocupado. E com uma nova cria de apenas três meses há muito não tinha  chances de observar de locais mais escuros .
                Após uma longa e edificante diária de mais de 20 horas em um comercial de desodorante eu declarei que só iria trabalhar de novo no ano que vem. E assim se organizou-se a expedição da família  rumo a Búzios.
                A cidade sofreu a maior enchente de sua historia  há poucos dias . Mas segundo informações de meu irmão a casa se encontra habitável. Apesar de alguns danos. Ele é um cara bem otimista.
                A viagem transcorreu bem. Só cinco horas de porta até porta. Com o novo filho preciso de um carro maior. Com o veiculo abarrotado vou levando apenas o "Galileu", meu refrator de 70 mm. Mas com a montagem do " Newton" , meu refletor de 150 mm. Uma EQ 2-3. Com muito menos peso eu acredito que a cabeça vá se comportar melhor que o normal para a pratica da astrofotografia.
                No caminho para Búzios surgiu uma fabula familiar. Nela o novo rebento seria o " Dengoso", eu o " Zangado", minha filha a "Branca de Neve" e minha cara metade a "Rainha Má".  
                Ao chegarmos em casa e realizar  o cenário de calamidade os apelidos não poderiam ser mais apropriados.  E a fim de evitar a ruína da relação eu adentro o anexo da casa mal acompanhado de vassoura, rodo ,baldes e cia ltda. A faxina canta. Depois de deixar um dos quartos com cheiro de frutas cítricas eu consigo uma rápida alforria e aproveito para montar meu circo. Preparo o o telescópio, motorizo a cabeça e ainda ensaio um alinhamento polar. O "Galileu" se encaixou bem na paisagem. Com um dove tail adaptado e um monte de "gaffer tape" fixando o telescópio este parecia outro sobrevivente da enchente.
                O telescópio não é nenhuma "Brastemp". Um refrator com foco frouxo, aberrações as mais diversas. Mas ele as vezes surpreende. Quando comecei na astronomia achava-o excelente. Nada como a inocência da juventude.
                Depois de uma ultima missão instalando uma TV e o receptor da SKY para minha filha vou aguardar o céu se acender. Faço isto com frequência aqui em Buzios. Como não poderia deixar de ser a primeira estrela que percebo é Sirius. Mas quase simultaneamente pipocam Rigel , Canopus e em um intervalo de pouco minutos estão lá as familiares figuras de Órion e Cão Maior. Mais um pouco e as Plêiades se acendem.
                Uso Rigel para ajustar a buscadora. E depois resolvo testar o seeing tentendo separar sua pequena e apertada dupla. Se revela acima das capacidades do " Galileu". E ainda serve para eu perder mais um dos sonhos de minha infância e decretar que a pequena Plossl 4 mm de origem chinesa é uma péssima ocular.  Já separei Rigel com o " Newton" ( refletor 150 mm) utilizando uma 10 mm em conjunto com uma Barlow 2x. Desta vez no maximo uma suspeita,
               
                Tinha em mente seguir um roteiro que está na " Sky and Telescope" de janeiro de 2014. A matéria de Rod Molisle ( o Uncle Rod) propõe um tour pelos aglomerados abertos do catalogo Messier que estão presentes no nosso verão.  

                Mas estando tão perto não posso deixar de visitar M 42. A Nebulosa de Órion se apresenta , como sempre, magnifica.  Próxima a tão famosa companhia  Ngc 1981 quase passa desapercebido. Mas é um dos mais belos aglomerados abertos do céu. Fico passeando pela região e namorando diversos D.S.O´s que habitam a região em volta de M 42 ( Ngc 1973 , 1977 ...) . Resolvo fazer algumas fotos da Nebulosa e percebo mais ainda as limitações do equipamento e do alinhamento polar . Rot n´Stack faz algo com as fotos e com um pouco de Noiseware viram um registro tosco desta maravilha celestial. logico que o trapézio não se resolve e o centro da nebulosa fica superexposto mesmo no modo Minimo do RnS. 


                Depois disto volto a plano original e faço uma rápida parada em um eterno favorito : M 41. O aglomerado de Aristóteles.  Minha filha vem me visitar e aproveita para dar uma olhada pelo telescópio. E percebe algo que andei falando por aqui recentemente. A presença de estrelas vermelhas( gigantes) no centro de aglomerados abertos.
                Agora vou visitar grandes damas. M45 . As Plêiades. Apesar do tosco set up faço algumas fotos das "Sete Irmãs". Nem de longe honram a tão grandioso DSO. As meninas se espelham por uma área muito grande e não enquadro de forma apropriada. Não cheguei nem a empilhar .  O Ruido é absurdo. Vale o registro.Nem sinal da nebulosa em frente do aglomerado. Eu disse em frente.  Até algum tempo achava-se que a nebulosa que percebe-se em M 45 faria parte do mesmo. Hoje aceita-se que é apenas um encontro casual com a nebulosa sendo um ente que esta  passando em frente do aglomerado. Não são associados e cada um segue seu caminho. Dois dias depois retorno as Sete Irmãs disposto a um acerto de contas. E utilizando minha 70-300 @ 100 mm me acerto com a moças. As Plêiades demandam muito mais campo do que eu consigo com o Galileu. E agora os traços de nebulosidade são evidentes.





                Aproveitando da bela paisagem aproveito e chamo minha mulher para dar uma olhada. E depois faço o clássico desafio de quantas estrelas você percebe a olho nu quando olha para Plêiades. Ela contou 7. É um grande feito.Minha vista já mais gasta e sem óculos conta apenas 3 com uma quarta flicando esporadicamente. Reza a lenda que o grande Walther Houston ( autor da coluna Deep Sky Wonders por varias décadas)  contava 14.
                As fotos das Plêiades demonstram claramente as limitações do "Galileu". Mesmo com o recurso de se fazer foco com o Live View da câmera as estrelas não são nunca pontos. Mesmo dando o desconto de um alinhamento polar meio tosco. Na verdade estrelas não são pontos perfeitos nem com minha melhor ocular. E a camera registra isto com mais clareza que minha já velha retina. ( vejam bem que a foto que vocês vêem a cima não foi feita com o " Galileu". Não tive coragem de apresentar a que foi...) 
                Depois disto o plano seria visitar a Trilogia de Auriga. M 36 , M37 e M38. Mas depois de 5 horas de direção e mais uma faxina minha lombar não gosta muito da posição que será exigida para caçar as moças junto a buscadora ( preciso arrumar um eretora de imagem para minha buscadora com urgência)  e me conformo com apenas M36. Isto porque ele aportou meio que sem quere em uma escaneada usando a Plossl 25 mm.
                Júpiter é bem mais fácil de se localizar que discretos DSO`s e assim vai visitar a ocular. Brinco com todas as combinações de oculares e Plossl´s que possuo enquanto namoro a lenta dança das Luas galileanas ao redor do gigante. E assim o "Galieu" segue os passos de Galileu com mais de 400 anos de delay. Como bônus percebo ainda que discreta a Grande mancha Vermelha. Nem tão vermelha assim. Resolvi fografar o planeta. E me lembrei que fotografia planetária é um outro jogo . E que não sei joga-lo.Decidi que devo comprar uma web cam e tentar fazer isto de outro jeito...

                 E creio que aprendi porque devo procurar uma web cam que possa filmar bem rápido ( tipo 48 e/ou de preferência  mais frames por segundo). O disco planetário fica extremamente superexposto com o diafragma regulado para 1/60 ( e assim com a captura de video pela web cam a 24 fps não me parece ser o ideal...)
                Resolvo continuar na seara do fácil e visito Castor. Uma bela dupla que se resolve com a ocular  10 mm.
                Gostando de brincar de estrelas duplas e aproveitando um excelente seeing vou visitar Sigma Orionis. Os três membros comparecem e " Galileu"  surpreende.
                Agora fugindo completamente do plano original me viro para o horizonte sul e em rápida escaneada ao redor da Falsa Cruz visito velhos conhecidos. IC 2391 , Ngc 2669 e 2516.
                A seguir  localizo rapidamente as Plêiades do Sul e faço algumas fotos da mesma. E com isto fotografo  todas as Plêiades do céu na mesma noite.  Estas me dou ao trabalho de empilhar .  Uso o DSS.  De 14 fotos só aceita 6. Assim como suas irmãs boreais vale o registro. o ruído é absurdo e não me dou ao trabalho de passear muito com esta matriz pelas terras do pós processamento . 
                Depois fico brincando a olho nu e percebo diversos DSO´s em potencial.  Ngc 2244 é o aglomerado associado a Nebulosa de Roseta e percebo claramente uma luminosidade na região.
                Abro uma cerveja.
                Acordo com uma crise. A Rainha Má aos berros dizendo que não ficaria nem mais um minuto naquela casa. O "Dengoso" teve seu primeiro contato com mosquitos. E minha esposa não acredita na sobrevivência do mais bem adaptado. Já eu prefiro acreditar que meu filho seja um deles.  E assim os custos da operação aumentam. Alugo uma suite em uma pousada próxima e em uma ladeira. Desta forma não fora inundada pelas aguas. Um ar condicionado garantiria a super proteção necessária para que a cara metade permanecesse na Armação dos Búzios .
                Nesta noite o céu resolve brincar . Anoitece nublado. Depois abre o horizonte nordeste. Fazendo um churrasco para a minha filha ( a esposa e o filho ficaram na pousada) eu ainda consigo ir visitar Júpiter de novo e acompanhar mais um ato do balé de suas luas. Ao perceber uma bela janela no horizonte sul parto em busca de Ngc 3228. Um dos últimos objetos do Catalogo Lacaille que me restam observar. este é um caso diferente de um "Objeto Lacaille Perdido". Ou melhor de astrônomo perdido. Pois saindo de Kapa Velorum eu acho que será uma fácil navegação. Mas depois de localizar um obvio aglomerado "disfarçado" de estrela cabeluda...  chego a Ngc3293.  Um belo aberto bem denso.  Mas com a crise matinal não o fotografo. A câmera ficou na Pousada.
                Abro varias cervejas.
                Amanheço novamente com a Rainha Má transformada em Mr. Hyde. Depois de muito choro mando ela e a filha para praia e fico estreitando a relação com meu filho no quarto da pousada.  Espero que o descanso acalme a fera.
                Funcionou. depois de 6 horas de praia e algumas cervejas a rainha má volta ao normal e parece que desistiu de superstições.
                Dia não . E assim sóbrio ,levar as crianças ao parque de diversões e  todo mundo para comer comida mineira. Menos o "Dengoso" . Sempre  me lembro de porque somos  mamíferos. 
                Hora de fotografar. Afinal eu também mereço algum lazer.  E tentando adaptar a Canon com uma lente 75-300 mm descubro que o plate de minha cabeça greika serve como um dove tail perfeito para a cabeça EQ. Faço algumas fotos de Orion e do Cão Maior sem utilizar acompanhamento. Isto vai ficar para outro dia. Mas ficaram legais e revelam alguns DSO´s na paisagem. Na de Orion começa a se perceber a Nebulosa da Chama.  E  em seu cachorro percebe-se M41 muito evidente. Os resultados são fruto dos logaritmos pirotécnicos do Rot and Stack.







                Mas sou um homem de palavra e meu objetivo é fotografar Ngc 3293. Mas as palavras são muitas vezes vãs. E o meu objetivo mesmo seria fotografar 3228. O meu " Objeto Lacaille Perdido". Mas a verdade é que ele será mais acessível mais a frente na estação. Ou terei que abandonar o sono... 
                Astrofotografia pode ser bem exigente. Mas não comigo e não hoje. Estou a passeio. E assim o alinhamento polar é feito por inspiração . Nada de drift. No máximo uma bussola e um" inclinômetro". E vamos lá.
                Antes de tentar 3293 e aguardando este chegar   um pouco mais alto  no horizonte sul disparo 20 light frames contra IC 2391.Ou C 85. O "Stellarium" agora deu para listar os DSO´s  utilizando o Catalogo Caldwell como referência. Ou ainda BZ 1. É um aglomerado querido. Já contei aqui que foi o primeiro aglomerado que "descobri". Ele me recorda Cassiopéia. A mais vaidosa das constelações . E assim ele ainda se torna o "A Pequena Cassiopéia" ( Little Cassiopéia cluster)  Depois mais 7 dark frames. Em posterior seleção escolhi apenas os 10 melhores light frames e os empilhei utilizando  o Deep Sky Stacker( DSS).


                Nada como um dia após o outro. Apesar das limitações eu começo a me entender com o foco do "Galileu".  Estava há muito sem observar e um pouco sem pratica . Começo a me mover melhor. As fotos , ainda que com diversos problemas,estão melhores que as anteriores. 
                Finalmente 3293. Serão muitos light frames com 20 seg. de exposição. ASA 3200 pois já percebi que se uso 6400 o ruído vai para as alturas. Perceba nas fotos das Plêiades.... E os mesmos darks que fiz para  "Little Cassiopéia'.
DSS




Rot and Stack


                Ao fim selecionei os 27 melhores light frames obtidos de meu novo Lacaille . Em conjunto com 7 dark´s  o resultado vai para a "peregrinação dos frames". As possibilidades de pós processamento são infinitas. No Nuncius Australis o  objetivo é obter uma imagem o mais semelhante possível do que se observa na ocular.  Desta vez como as capturas dos lights foram feitas com alguma dignidade e com um alinhamento polar melhor que em geral  eu utilizei o DSS para o processo de Stacking e depois visitei o Photshop e o Noiseware. Em dias piores uso muito o Rot n´Stack para a primeira etapa. Os resultados costumam ser menos realistas. Embora como possam perceber acima as coisas podem ser ainda mais confusas. Astrofotografia , no Nuncius Austrlais , é uma ciência assim como a metereologia...
               

                Desta forma se aproxima o dia 31 e o fim do ano. Foi um belo começo de temporada em Búzios. Apesar das dificuldades foi muito agradável e fiquei feliz com os resultados obtidos.

             No primeiro dia do ano visitei uma velha conhecida.  E que ha muito merecia um registro mais digno. O "Galileu" em sua melhor forma. A Nebulosa de Carina e seu arredores. Trinta e seis fotos aceitas de quarenta e duas. A minha média no DSS vem melhorando...

Feliz Ano Novo.



Nenhum comentário:

Postar um comentário