quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Ngc 362: Um Globular em Tucana


                     Ngc 362 é mais um daqueles casos onde um belíssimo DSO é vitima da sua localização.
Sofre com a "geografia dos céus". Habitando a constelação de Tucana , uma criação de Bayer em seu magnifico Uranometria de 1603, tem como vizinhos próximos a Pequena Nuvem de Magalhães e ainda Tuc 47( Ngc 104), o segundo globular mais brilhante dos céus.
Uranometria 1603

                Ngc 362  fica ao norte da Pequena Nuvem . É possível que seja conhecida como uma estrela desde a aurora da civilização. É visível a olho nu como uma estrela em locais bem escuros. E nos primórdios da civilização poluição luminosa não era exatamente um problema...
                A descoberta de sua verdadeira natureza é obra de Dunlop. Trata-se da entrada de numero 62 de seu " Catalogue of Nebulae and Clusters of Stars in the Southern Hemisphere , Observed at Parramatta in New South Wales" escrito durante os anos de 1820.  Sua descrição é bastante interessante :
                 Uma bela e arredondada nébula , com 4´de diâmetro, extremamente condensada. esta é uma boa representação do 2o  do Connaissance des Temps , em gênero ,numero e grau mas levemente mais fácil de se resolver , com um branco mais brilhante e talvez mais compacto e globular. Este é belo globo de luz branca; resolvível; as estrelas são muito pouco espalhadas"
                O 2o de Coinassance des Temps a que Dunlop se refere não a nenhum outro que não M 2 do Catalogo Messier. Este foi publicado no almanaque francês " Coinassance des Temps" ao longo de alguns anos.  Na verdade o Coinassance é o anuário astronômico francês e é publicado até hoje.  Desde 1679...   Inveja branca!
M 2

                Ngc 362 não é difícil de ser localizado estando a pouco mais de 2de Kappa Tucana de 4 magnitude. Uma vez na região nada irá ser muito mais obvio que o mesmo em uma buscadora ou binoculo de 10X50 mm. Mas não sendo muito extenso parecerá uma estrela desfocada e que apresentará um pouco mais de caráter com visão periférica.
                Brilhando com 6.4 magnitude é um belo desafio para a vista desarmada. É curioso que Dunlop o chame de resolvível já que este é extremamente condensado e mesmo com telescópios modernos é difícil resolve lo até o núcleo . Eu mesmo consegui apenas perceber estrelas " flicando" em suas bordas. Isto utilizando 120X de aumento. Mesmo o "biônico" Steve O´Meara em seu "The Caldwell Objects"  nos diz que "  Ngc 362 possui um ramo horizontal relativamente "apagado" com magnitude 15.4  e assim não é facilmente resolvível mesmo com telescópios de 200 mm. Eu vi uma sugestão de solução em direção ao centro , mas não mais que isto." Ngc 362 é também C 104 no Catalogo Caldwell.
                Ngc 362 é um globular "rico em metais". Isto  pode demonstrar que apesar de globulares terem todos se formados ha muito tempo não ocorreram simultaneamente nos primórdios do universo. Este processo se espalhou por alguns muitos milhões de anos. 
                Ngc 362 é um forte. Com uma orbita altamente elíptica ele já passou bem perto do bojo galáctico algumas centenas de vezes. Fosse ele menos compacto provavelmente as marés gravitacionais desta região já o teriam destripado ha eons. No momento ele se encontra se aproximando de nós e se afastando do downtown. E assim continuará firme e forte por muito tempo ainda.   
1X 10 seg ASA 3200 Canon T3 Newtoniano 150 mm f8  Montagem HEQ 5
                Fiz as fotos de Ngc 362 ha algum tempo. Na verdade em 12  de agosto de 2015 . Ficaram perdidas por aqui algum tempo. As imagens aqui apresentadas são fruto de uma modesta captura enquanto aguardava para fotografar a chuva das Perseidas. Foram feitas 16 exposições de modestos 10 segundos cada . ASA 3200. Foram utilizados o Newton e Mme. Herschel  bem como a já velha de guerra Canon T3. Curiosamente consigo perceber mais estrelas no seu centro em exposições únicas . Quando foram empilhadas seu centro mito brilhante acabou superexposto e assim "apagou"  as estrelas  O Alinhamento polar deixou um pouco a desejar já que o maior objetivo da noite era capturar "estrelas cadentes". 


                Um belo aglomerado globular para a primavera que se aproxima... 

sábado, 20 de agosto de 2016

M 79: Um Imigrante Galáctico

             

                        Lendo a coluna Strange Universe do Bob Berman de Setembro de 2016 ( é interessante como revistas de astronomia são lançadas sempre com um ou mais meses de antecedência...) na Astronomy Magazine descobri que não é só uma mania minha estabelecer testes ou desafios observacionais junto a ocular. Parece ser uma doença recorrente entre amadores.  Neste mês ele destaca alguns de seus favoritos. Você consegue ver cinco pequenas crateras dentro de Clavius? Ver sete estrelas sem auxilio óptico na Plêiades? Ver Urano a olho nu? E por aí vai...
                               Todos muito interessantes mas sou mais afeito ao céu profundo e em geral gosto de desafios temáticos e a projetos mais longos. Geralmente associados a algum tipo de DSO ou a um Catalogo específico. Sempre tenho alguns em andamento. Tendo terminado de fotografar o Catalogo Lacaille estou com dois novos  me assombrando. Um deles já vai mais adiantado e por isto este post. Pretendo fotografar todos os Globulares do Catalogo Messier. Todos ao alcance de um residente nas terras cariocas. Ao organizar minhas fotos localizei mais um que já visitei e que não prestei o devido tributo por aqui.

                                       E assim chegamos a M 79.
                               M 79 é uma descoberta do sócio menos famoso do Catalogo Messier. Pierre Méchain. Ele o observou em 26 de Outubro de 1780.  As notas de Messier sobre o mesmo são as seguintes:  " Nébula sem estrelas repousando abaixo de Lepus e no mesmo paralelo de uma estrela de 6a magnitude. Visto por M. Méchain em 26 de outubro de 1780. M. Messier o  observou no 17 de dezembro seguinte. esta é uma bela nébula, o centro é brilhante e a nebulosidade levemente difusa. Sua posição foi determinada a partir da estrela de 4a magnitude épsilon Leporis."
                               A estrela brilhante próxima indicada por Messier é ,provavelmente, a dupla h 3752 e é facilmente localizada se esticando por 4o uma linha imaginaria entre Alpha e Beta Leporis rumo ao sul. O globular se localiza a 34´ENE desta.
                               M 79 não é um dos mais brilhantes  globulares do Catalogo Messier. Mas vai se tornando mais e mais impressionante conforme o tamanho do telescópio que se aponta para o mesmo. William Hershel , com seu telescópio de 20 pés achou-o " deslumbrante e extremamente rico. Já Smyth e Webb ( autores clássicos do século XIX) o  observaram como "uma nébula arredondada "blazing" em direção ao centro". Blazing é , neste caso, uma expressão de difícil tradução. Pode significar "em chamas", "queimando" , "resplandecente" ou simplesmente " brilhante" . Todas apropriadas. Pelo Newton ( meu telescópio newtoniano de 150mm F8) o centro realmente se destaca e estrelas começa a se resolver nas bordas. Parecem se irradiar alguns "braços" de estrelas a partir do brilhante e não resolvido centro. Em telescópios maiores ( 250 mm ou mais) começam a resolver-se estrelas em direção ao  brilhante centro. 
                               Burnham no seu " Celestial Handbook" nos diz que que o diâmetro angular de M 79 é de 7.8 ´ . Isto corresponde a um tamanho de 110 anos luz sendo aceita uma distância de 50.000 anos luz. Sua magnitude aparente é de 8.39. É curioso que no mais atual e geralmente mais otimista " Messier Objects" do O´Meara o diâmetro aparente diminui para 6´ a distancia diminui para 43.000 anos luz e magnitude sobe para 7.7. E desta forma podemos assumir que seu tamanho real  é de apenas 75,3 anos  luz. Parece que apesar das diferenças ambos os livros utilizam a mesma forma para determinar o tamanho das coisas. Aplicando os valores de Burnham na formula indicada por O´Meara cheguei a exatamente 113 , 88 anos luz de tamanho. Bem perto...
                               Observei M 79 em janeiro de 2016 e na mesma noite que fotografei a "Cabeça de Cavalo" . Um outro desafio auto-imposto comum a astrônomos amadores. Sobrou pouco tempo para o registro fotográfico do mesmo. 10 exposições de 30 segundos apenas. Estas permitiram capturar claramente o brilhante centro e considerando a analise do "nova. astrometry" o aglomerado espalha alguns membros por aproximadamente 6 minutos grau de minha foto.Ponto para O´Meara.  O brilhante centro não tem mais que 2´em minha foto.




                               De qualquer forma a astronomia é repleta de divergências . No site da SEDS o globular se espalha por mais de 9´de grau e assim ponto para Burnham. Ele ocuparia  118 anos luz de universo...

                               M 79 talvez seja um imigrante na nossa galaxia. Sua posição destoa de outros globulares que geralmente  habitam mais próximos a centro galáctico. Ha fortes indícios que M 79 ( assim como  Ngc 1851 , 2298 e 2808)   seja membro do sistema de globulares da Galaxia Anã de Cão Maior. Esta esta sofrendo um encontro bem próximo com a Via Láctea e se não for totalmente  canibalizada desta vez ( parece estar em estado de continua dissolução) deixará alguns anéis para não perder todos os dedos...   
                            Desta forma M 79 é um emigrante em Cão Maior , um imigrante na Via Láctea e um migrante no universo. 

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Astrofotografia, Oculares 40 mm , Poluição Luminosa , Lacaille e a Rua da Passagem

                              


                              Uma das lendas astronômicas mais famosas é ser impossível  observar em cidades grandes.  Trata-se de uma grande bobagem.
                               Segundo uma escala de poluição luminosa , chamada de Bortle devido a seu criador, a escuridão do céu pode ser determinada entre 1 e 9. Quanto mais  alto o valor menos do céu se poderá perceber. Já abordei a escala Bortle  e podem conhece-la melhor clicando aqui.
                               Possuía planos para aproveitar o mês de agosto e revisitar vários alvos do Catalogo Lacaille  nos céus ,  que embora não sejam de um negrume ímpar , de Buzios ( Bortle 5/6).  Meus plano foi destroçado por uma  coincidência (que desta vez até tinha  algo com as leis mais fundamentais do universo) e acabei passando a lua nova acampado na casa de meu sogro no início da Rua da Passagem  . Um local de nome apropriado para se viver um luto. Bem no coração de Botafogo.
                               Rapidamente descobri que a "Stonehenge dos Pobres" como batizei meu observatório  no bairro do Leblon no Rio de Janeiro dificilmente merece o título de "O Observatório mais Urbano do Mundo" com o qual as vezes é tratado neste blog. Na verdade o Observatório do Valongo é muito mais urbano que este e com isto sofre de prolemas de Poluição Luminosa muito maiores que os meus... Não que a " Stonehenge dos Pobres" seja uma maravilha. Mas seu horizonte sul ( ha apenas duas quadras do oceano atlântico) não chega a ser um desastre completo. Devido a geografia após um bafo de sódio, Mércurio e outros vapores iluminando a praia as próximas fontes de luz a poluírem o céu serão  o farol da Ilha Rasa e depois disto apenas  Port Stanley na Ilhas Falklands...  Com o fim das obras do Metro no entorno de meu prédio voltamos para Bortle 7. O Cruzeiro do Sul é percebido com a Intrometida sendo  um membro visível .
                               De volta a Rua da Passagem  vou conhecer o terraço do Prédio. Em um primeiro momento me animo e acho as instalações bem superiores as da "sobreloja" na Stonehenge dos Pobres. Ao anoitecer percebo que nem tudo é o que parece ser. Com a lua nova procuro pelo Cruzeiro do Sul e as únicas estrelas que percebo facilmente na região inteira são Acrux, Gacrux, Alpha e Beta Centauros . No zênite percebo facilmente apenas Marte , Saturno e uma tímida Antares. É difícil localizar constelações que sempre percebi sem maiores esforços.
                               Devido a um vacilo não possuía nenhuma buscadora óptica e apenas com uma velha "red dot finder" acabo me vendo de calças bem curtas na caça de DSO´s em meio a um mar de luz. Novamente devido a uma daquelas coincidências ( que desta vez nada tinha a ver com as leis fundamentais do universo) acabo conseguindo um alinhamento polar próximo ao perfeito com a buscadora polar de Madame Herschel ( minha montagem equatorial HEQ 5 Pro). Não que fosse possível ver alguma das estrelas de Octans Mas com a utilização de minha técnica favorita consegui capturar Sigma Triangulo Australis no exato momento que esta cruzava o meridiano. E mesmo sem tentar muito cravei a latitude daquele telhado que mais lembrava um palco de show de Rock.
                               A seguir consigo a prova cabal que é possível observar mesmo em áreas de Bortle 10 ( a escala original vai somente até 9...) . Uma das primeiras coisas que descobri é que em tais condições possuir uma buscadora óptica poderosa é fundamental. Sem esta me vi obrigado a contar muito com a sorte e com minha paciência para realizar longas caçadas a partir de um ponto aproximado que conseguia com a "Red Dot".  Fosse eu mais verde e menos conhecedor dos céus sobre minha cidade ia ficar muito difícil de localizar algo...  Mesmo assim preferi um passeio bem conservador e me conformei em visitar alvos bem brilhantes e meus velhos conhecidos.
                               Agora venho fazer um elogio a tecnologia. Sem uma cabeça equatorial com Go-to e sem recursos para a pratica da astrofotografia a noite teria sido bem insonsa. Mas mesmo sem uma boa buscadora óptica e assim sofrendo para alinhar o go-to  é possível realizar registros que seriam  muito difíceis de serem obtidos mesmo com grandes telescópios em locais bem mais  escuros ha poucas décadas atrás.
                               Uma ferramenta útil para mim foi minha nova ocular 40 mm. Seu grande campo permite utiliza-la como uma especie de buscadora diretamente na Ocular do Newton ( meu telescópio 150 mm f8) . Aqui acho importante fazer uma ressalva. Oculares 40 mm tem sua funcionalidade mas não são a pedra de salvação para se caçar DSO´s . Comprei esta usada  e por um preço muito em conta . Uma Plossl. Ainda não tinha lido a critica de Harrigton em seu "Starware" a respeito dessas. 

                                Fazendo curta uma história longa eles nos diz basicamente o seguinte : Evite  qualquer Plossl ( um modelo de ocular criado 1860 e popular a pertir dos 1980) de barill 1,25 com 40 mm . Apesar da baixíssima ampliação seu campo de visão aparente é menor que em Plossls 32 mm com 1,25 pol. No final o campo que você vai de fato ver será o mesmo em ambas mas a maior ampliação na 32 mm  vai permitir uma imagem com maior contraste. Alem disto a utilização destas  (40 mm) obriga a manter sua cabeça muito em posição muito  estável para que a imagem não desapareça completamente da ocular ( blackout). Plossls com o barril de 2 pol. são outra história
                               É  uma meia verdade. Com o habito você acaba se entendendo com a ocular e elas são muito baratas. E funcionam bem para caçar alvos e também para grandes aglomerados abertos. As Plêiades pela 40 mm é sensacional. M 44 idem.
                               De volta  poluição luminosa ela afeta suas fotos mas não as torna impossíveis . e com o auxilio de uma câmera é possível  registrar-se detalhes e alvos que são impossíveis visualmente para o astrônomo urbano.
                               Logico que é necessário realizar mais exposições e fazer estas mais curtas. Mas astrofotografia é a maior diversão e  não será Bortle que irá acabar com a única diversão que restou para o mês de agosto que honrou as tradições e  para quem não esta em um espirito muito olímpico...

Serrinha
Rua da Passagem

                               Faço algumas fotos de M7 e percebo que o alinhamento polar esta bem bom. É interessante perceber como 20 fotos de 30 segundos no Rio são diferentes de 10 fotos de 20 segundos na Serrinha do Alambari ...


                                   M 22 foi surpreendende. Tanto visual como fotograficamente foi impressionante como "The Arkenstone of Thrain" sofreu para a P.L.
Ngc 4755 ensaiando o foco ainda....

                               Mas a grande estrela da noite foi M 8 . A nebulosa da Lagoa. om 50 f0t0s de 30 segundos acabou por ser a melhor captura que já realizei desta. Demonstrando como um sensor fotográfico é uma maravilha da tecnologia. Para não falar nos softwares de processamento...

                               Astrofografia é possível em grandes centros bem como a observação visual.  A boa astronomia  é feita a partir de confirmação  de projetos observacionais . E posso garantir que é possivel fotografar e observar todo o catalogo Lacaille do Rio de Janeiro.   Um projeto que me tomou alguns anos mas que considero completo com a imagem de M 8 feita da Rua da Passagem.

O Catalogo Lacaille


                               Espero que quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos tenha a chance de visitar Búzios e ter a chance de vistar as Galaxias em Sculptor iniciar as fotos para o Projeto Dunlop ... Afinal embora seja possível sobreviver a Bortle 9 não é exatamente "só alegria"....  Acho que mais de um terço do Catalogo Dunlop não é visualmente viável do Stonehenge dos Pobres ( o registro fotográfico creio possível). Mas a confirmação empírica é necessária .  Veremos..