segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Stonehenge dos Pobres: A Sobreloja

               

                 Há tempos eu não observava da laje de meu prédio. Normalmente acabo por  montar o telescópio junto a janela na sala de minha casa. Esta é conhecida como " A Stonehenge dos Pobres". Sendo uma janela as estações do ano desfilam por ela e assim esta faz às vezes de observatório, relógio e calendário. Uma versão moderna de diversas estruturas neolíticas que se espalham pelo mundo e das quais Stonehenge é a mais conhecida.
                  A chegada de Mme. Herschel ( uma montagem HEQ5 pro da Skywatcher) me obrigou a esquecer a preguiça e ativar o que eu chamo de  "A Sobreloja". E assim montar toda a estrutura necessária para observar na laje da cobertura de meu edifício. Exatamente acima da janela conhecida como a Stonehenge dos Pobres e/ou " O Observatório mais Urbano do Mundo".  A operação na "Sobreloja" é muito mais trabalhosa e desconfortável.  Apesar de tudo isto e de continuar a sofrer  com terrível poluição luminosa  ( Bortle  8 ou 9 dependendo da lua e do horizonte) ela apresenta qualidades também. Posso observar quase todo o horizonte e o zênite do céu.  Recentemente li uma matéria do Bob Berman em sua coluna na Astronomy Magazine onde ele discorria sobre as diferenças entre céus escuros e céus super escuros.  Em áreas rurais bem escuras ele nos lembra que o " cinturão de Órion ( As Três Marias ) vem cercado de estrelas , a Via Láctea se apresenta como principal estrutura no céu, M13 ( Omega Centauro nem se fala...) é evidente mesmo a olho nú bem como M31 (Galaxia de Andrômeda).  Já quando ele fala de céus super escuros se refere ao norte do Atacama, o Deserto do Saara e o deserto a sudeste de Isfahan no Irã.  Nestas o céu chega a ser opressivo e um show de luz e trevas ... Eu fiquei pensando como ele se viraria com a Stonehenge dos Pobres e com Geribá.
                Montar a estrutura da "Sobreloja" é trabalhoso. Em primeiro lugar preciso subir todo o equipamento de observação. Depois mais dois tripés e um sarrafo para montar uma "tapadeira" de Pano preto  que vai bloquear a luz dos apartamentos do 16 andar do Bloco C de meu condomínio. Não só a luz como os curiosos. Afinal não quero observar sendo observado e nem ficar conhecido como o "Tarado da Laje".  Para montar esta estrutura implica em eu ter que me equilibrar sobre telhas "Eternit" que não suportam bem o meu peso. Isto já me custou algumas quedas , hematomas e escoriações bem como algumas telhas...

Antares

                Apesar das condições menos que ideais no dia 19 de setembro me empolguei e botei meu bloco na avenida. As 16:00 PM comecei toda a operação e quado deu 18:30 eu estava afinando o go-to da montagem. Com poluição luminosa do Rio e a Lua quase em seu quarto crescente o alinhamento polar foi feito de forma aproximada já que era impossível para a buscadora polar sobreviver em meio a tanta luz e localizar alguma estrela do apagado asterismo em Octans que serve para isto. Mais um pouco e austo o foco da câmera utilizando Antares. 
Ngc 6322

                O primeiro alvo da noite é um modesto aglomerado aberto na concorrida cauda de Escorpião. Na verdade uma grata surpresa que me recordou desde o aglomerado de Pi Puppis até a Caixinha de Jóias ( Ngc 4755). Em céus mais escuros deve ser ainda mais atraente. Ngc 6322. Percebo que o alinhamento polar feito somente com auxilio de bussola esta aquém do desejado. Mas prefiro aguardar até as 20:25 para utilizar Peacock ( Alpha Pavo) para melhorar isto.  Vou continuar a brincadeira assim mesmo. Tanto a transparência quanto o seeing não estão grandes coisas e não tenho maiores ambições. Ficarei feliz com alguns registros e um reconhecimento das condições da "Sobreloja" para uma futura expedição  na lua nova.


                Depois disto uma rápida visita a M8 só para confirmar o que eu já sabia. Com a Lua por perto e a Barra da Tijuca iluminando o horizonte oeste por trás do morros  a Nebulosa da Lagoa se apresenta mais "lavada" que uma quadro pintado com giz pastel...
                O horizonte sul é sempre mais protegido da P.L. já que depois do farol na Ilha Rasa e sua lente fresnel produzida pela Barbier & Bernard o próximo local a produzir poluição luminosa é Port Stanley , nas Ilhas Falklands ( ou Malvinas)...

C 93 e/ou Ngc 6752

                C93 ou Ngc 6752 é um belo e grande globular em Pavo. Nunca o tinha visitado e creio que vai se tornar um grande amigo nesta primavera.
6744 Astrometry

               
C 101 ( Ngc 6744) 3XDrizzle


               Como parece que o horizonte sul esta mais generoso me animo a tentar uma galaxia muito próxima ao Globular. C 101 ou  6744. Tivesse insistido mais talvez conseguisse algo. Mas depois de ver M 8 achei melhor aguardar por dias melhores . De qualquer forma ela se apresenta de forma quase "espírita" depois de empilhar 4 fotos de 25 segundos...  Será o alvo principal na próxima lua nova na "Sobreloja". Acho que com uns 60 minutos de exposição ela deve dar seu show... 
                Perco a a hora para melhorar o alinhamento com Peacock. Esta cruzaria o meridiano as 20:25:29. Do jeito que estava o céu a próxima estrela  "boa" para  a tarefa seria Achernar as  01:36:03. Sem chance...
Achernar

                Mesmo com o alinhamento meio tosco o "go-to"  esta bem preciso e assim não retiro sequer a câmera para afinar o enquadramento . Apenas escolho um alvo e utilizo o Synscan para que Mme. Herschel localize a presa.  Depois é só disparar o obturador.
M 15


               
M 2


           
M 18

                  Entre erros e acertos acabo a noite tendo capturado mais M2, M15 , M18 e Ngc 6940. Este ultimo um aberto entre Cisne e Vulpecula e que apesar de já bem baixo sobre as antenas do Sumaré e lutando contra a PL causada pela zona norte do Rio  parece ser um interessantíssimo DSO  pouco conhecido. 
Ngc 6940- Este sofreu na Poluição luminosa e teve que ser muito pós processado. Mas é sem duvida bastante promissor e espero dar-lhe uma nova chance em melhores condições...

                 Com  parte da estrutura necessária e  habitando "escondida" junto a casa de maquinas do prédio  a operação "Stonehenge dos Pobres: A Sobreloja" tende a ficar mais simples. Com as todas as potencialidades de Mme. Herschel para serem exploradas parece que será cada vez mais comum.

                Que venha a lua nova.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

M 70 e a Avenida dos Globulares

                
                Avenida dos Globulares  ,  Quadra M  no 70.   Neste "endereço" reside ou existe M 70.  Este é o ultimo dos Globulares Messier que residem nestas parte de Sagitário e que ainda não apresentei na missão que estabeleci para este inverno. Esta seria fotografar todos os Globulares presentes no Catalogo Messier e que habitassem Escorpião , Sagitário e Ophiucus. Ficaram faltando alguns em Ophiucus que ainda tenho esperança de abater aqui do Rio. Mas sendo estes pequenos e tênues não sei se serão viáveis da Stonehenge dos Pobres.  Especialmente M 107...
                A Av. dos Globulares é uma linha imaginaria que liga alguns globulares na base do Asterismo do Bule. " By the Book" a Avenida é definida pela linha que liga as estrelas Kaus Australis e Ascella. E Assim habitariam dentro destes limites apenas M 69,M70,Ngc 6652 e M54 . Mas acompanhando as obras da derrubada da Perimetral e a revitalização da zona portuária para as Olimpíadas eu acredito que podemos estender a Avenida . Esta agora começaria em Ngc 6441 e se estenderia até M75. Com M 55 habitando uma pequena transversal sem saída.
              M70 é uma descoberta original de Messier e foi observado na mesma noite que M69. Acho curioso ( por razões que já expliquei no ultimo post ) que este não tenha sido percebido por Lacaille em seu escrutínio do céus austrais.

                O melhor meio para se localizar M 70 me parece calcular o centro da linha imaginaria entre Kaus Austrlais e Ascella . M 70 estará lá. Muito próximo de M69 é importante ter atenção para não confundir um com o outro . Especialmente se utilizar um refrator sem diagonal na tarefa...
                Messier nos diz o seguinte em seu catalogo:
"(Observado em 31 de agosto 1780) Nébula sem estrelas próxima a prévia ( M69) , e no mesmo paralelo.Próximo existe uma estrela de 9a magnitude e quatro tênues estrelas telescópicas quase em linha reta , muito próximas umas das outras e que repousam acima da nebulosa se visto em um telescópio "inversor". A posição da nebulosa foi determinada a partir da mesma estrela e Sagitarii. "
                Localizado a 35.200 anos luz e com aproximadamente 82 anos luz de diâmetro . Parece uma pequena estrela fora de foco em binóculos e buscadoras e demanda atenção para ser percebido.

3X Drizzle


                M 70 é um daqueles poucos globulares ( M15 , M 62 e mais uma ou duas dezenas)  que sofreu um colapso do seu núcleo e é extremamente concentrado. Com 240X de aumento percebo algumas estrelas em seu halo. Habitando muito próximo ao centro galáctico é muito exposto a fortes marés gravitacionais.

                Quando observando M 70 com pouca ampliação e grande campo ( Oculares de 30 mm ou mais e com um grande AFV) você talvez perceba uma pequena estrela levemente desfocada. Trata-se de uma nebulosa planetária . IC 4776. Bem discreta e abaixo de 10a  magnitude. 
                As fotos deste post foram resultado do "stacking" de 20 fotos com exposição de 15 segundos em ASA 3200. Telescópio Newtoniano de 150 mm f8 . Montagem HEQ 5 pro. Canon T3 . A primeira foto foi relizada no modo stand do Deep Sky Stacker e a 2 é um drizzle de 3 X croped no Photoshop.  Foram utilizados 8 dark frames. Sem bias e sem flats. 

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

M 69 : O Lacaille Roubado





  M 69 é alvo de muita discussão. Seria ele uma descoberta de Lacaille ou um Messier original?
  Parece-me que apesar da posição defendida no site da SEDS (Helmut Frommert)  e apoiada na opinião de Glen Cozens não cabe muita duvida que a descoberta deste discreto globular na base do "Bule" , que identifica a constelação de Sagitário,  foi obra  do nosso patrono aqui no Nuncius Australis , o Abbe Lacaille.
   Cozens e Frommert apóiam sua hipótese" garfando" nosso padroeiro  sobre três "fatos":
   A) A Posição registrada no Catalogo Lacaille original esta errada.
   B) O Objeto seria muito tênue se comparado a outras entradas do Catalogo.
   C) Existem três estrelas na posição registrada por Lacaille que poderiam ser confundidas como uma nebulosa em pequenos aparelhos . Seria a Entrada do General Catalog de Herschel  5076
   Vamos analisar cada uma destas afirmações .
   A posição registrada por Lacaille realmente é errada. Em seu original ele registra a posição do Globular como sendo  18:13:41 ,  - 33 o 37´05´´ .  Entre 1752 e atualmente a sua  a posição média seria  RA: 18:15: 15 DE:-32°29' 24".  M 102 apresenta um erro muito maior e foi incluída no Catalogo Messier apesar de muitos acreditarem tratar-se de uma obvia observação repetida de M 101 (outros alegam que se trata de Ngc 5866 (Frommert), 5879, 5908 ou ainda 5928)...
   M69 não é em nada tênue demais em comparação a outras ( poucas...)  entradas do catalogo Lacaille . E apresenta um brilho de superfície bem alto. Diversas outras entradas do catalogo são alvos bem mais difíceis de serem observados (M83 e M55 são dois exemplos óbvios)  e nunca se colocou em duvida a capacidade de Lacaille percebe-los com seus pequenos aparelhos. Por experiência própria já percebi M69 como buscadoras em muito semelhantes ao equipamento do Abbe e embora difícil diferenciar este de algumas estrelas no mesmo campo uma analise atenta revela sua natureza distinta.  


   A entrada do GC 5076 tornou-se Ngc 6634 no posterior trabalho de Dreyer . E como podemos perceber na posição indicada por este não existe nem mesmo um asterismo . No Cartes du Ciel podemos ler que a entrada foi causada por um erro na placa.  Ambos os autores citados associam M69 a Ngc 6634.
   Retirando-se o trabalho de Frommert ( SEDS) e de Cozens a maioria dos autores concorda  e mantém M 69 como uma descobert de Lacaille . Tanto  O´Meara em seu "Deep Sky Companions: The Messier Objects" como Mallas em seu clássico " The Messier Album" garantem a descoberta de M69 a Lacaille. Burnham em seu "Celestial Handbook" também atribui a descoberta ao mesmo  em 1752.  E ainda nos diz que este não detectou nenhum sinal de resolução na nebulosa.
   O próprio Messier dá créditos a Lacaille  em em sua apresentação. Ele o observou em 31 de agosto de 1780. Este foi acrescentado a seu catalogo e assim acabou recebendo seu nome mais famoso no mesmo ano.   
   Apesar de Cozens achar dificil que tenha havido algum erro de impressão ou confusão por parte do Abbe no registro de M69 eu creio que ambos são muito prováveis. Afinal se localizo erros de impressão em meus livros de Astronomia escritos e publicados em  pleno seculo XXI imagine em 1755 quando foi este apresentando pela primeira vez  no Memoirs d´Academie...    
   A descrição de Lacaille é bastante precisa e é fato publico e notório que ele escaneou estas regiões do céu de forma incansável e de local muito mais apropriado para o registro do que Messier. M 69 pode ser um alvo difícil de Paris. Porém sob os céus da Cidade do Cabo no meio do Sec. XVI não era de forma alguma um desafio impossível ou mesmo difícil.  Em seu " Catalogo de Nebulosas dos Céus Austrais" ele descreve , como sempre de forma precisa e sucinta , M69 assim: " Parece o nucleo de um pequeno Cometa." A descrição é perfeita e justifica a inspeção realizada posteriormente por Messier em seu catalogo que buscava justamente registrar estes impostores... Apesar de Messier não ter localizado o mesmo na primeira busca que fez deste ele localizou o mesmo poucos dias depois e jamais levantou duvida sobre a descoberta de seu colega.
   M 69 além de uma paternidade disputada possui grande interesse cosmológico. É um dos globulares mais ricos em metais de todos. Com aproximadamente de 22%   da metalicidade de nosso sol ele é um prodígio. M 70 que é um aglomerado globular extremamente próximo dele apresenta apenas 4% de metalicidade em comparação as estrelas da população I. 





   M 69 habita a "Avenida dos Globulares " na base do bule e é o mais brilhante destes aglomerados que incluem M54 e M70. Localiza-lo , como já foi dito é fácil, e este reside a pouco mais de 1o ao norte da linha imaginaria que liga Ascella e Kaus Borealis. Há 29.700 anos luz de nós e a 6.200 anos luz do centro galáctico. Juntamente com M 70 é um dos mais próximos deste centro. Um esta a  apenas 1200 anos luz do outro . M69 ocupa uma área 9,8 minutos de arco oque nos leva a um rio de 42 anos luz.  Sua classificação na escala Shapley é da classe V . Ou seja uma aglomerado com uma concentração intermediaria e estrelas. Seu núcleo se espalha por aproximadamente 6 anos luz de espaço e este possui uma massa de 300.000 sóis. Sua órbita não o afasta muito do centro e não é altamente excêntrica. Isto ( e outras coisas) o faz bem diferente de M 70...
   A origem dos globulares é objeto de grande debate. O sistema de Globulares da galaxia tem sido tradicionalmente dividido em duas populações distintas.   
   A primeira pobre em metais , de formato esférico ou quase esférico  e de lenta rotação. São a população de globulares do halo galáctico.
   M 69 é um representante clássico e pedagógico do segundo grupo. A População do "disco". Estes são ricos em metal , achatados e "giram" rapidamente.
  Quando falo em metais me refiro a qualquer elemento além do Hélio na tabela periódica...
   Estudos mais recentes dos ditos aglomerados globulares do disco sugerem que a distinção não é assim tão obvia e que os ditos aglomerados do disco tem sua natureza mais intimamente ligada ao bojo galáctico que propriamente ao disco desta.   A propriedade físicas destes globulares são fonte de muitas informações  relativas a evolução dinâmica do principio de nossa galaxia  e de outras galaxias.
   Uma das hipóteses mais difundidas é que Globulares surgem da absorção de outras galaxias e que estes seriam os "restos" do núcleo destas galaxias canibalizadas.  
   Em um interessante estudo realizado por Kenjy Bekki e Masashi Shiba em 2001 é proposta uma   hipótese para a formação de globulares de disco. estes seriam o resultado de uma intensa formação estelar desencadeada na região central de galaxias anãs sendo absorvidas por sua galaxias centrais. Propõem até um mecanismo que alguns destes seriam fruto da absorção e interação de duas galaxias anãs com o disco de sua galaxia matriz. É importante lembrar que estes processos acontecem nos primórdios do universo e que aglomerados globulares são estruturas muito antigas. Mas o processo explicaria  porque os aglomerados de disco são mais ricos em metais que os típicos globulares do halo. Nos bojos galácticos onde a temperatura e a pressão são maiores  o surgimento de metais ocorreu  de forma mais acelerada e o processo de formação estelar foi mais intenso.    A quem interessar possa o paper dos rapazes pode ser acessado em  http://iopscience.iop.org/article/10.1086/337984/fulltext/;jsessionid=8C23D8B602F07D500BCF751FDB608076.c1   
   M 69 se apresenta como uma pequena estrelas sem foco com meu 15X70 mesmo em noites de lua. Em céus mais escuros já o percebi com minha buscadora 8X50 mm. Requer atenção para ser diferenciado das estrelas de campo. Com meu telescópio com 48X de aumento resolvo umas poucas estrelas em suas bordas. Com 120 X resolvem-se um pouco mais porém o núcleo continua sem solução. Com um brilho de superfície alto resiste bem a grandes magnificações.
   Realizei algumas fotos de M 69 que demonstram que sua concentração é mediana .  É um alvo fotográfico fácil  que fiz ficar difícil...


   Foram realizadas 14 fotografias de 15 segundo de exposição com ASA 3200.  A câmera utilizada foi uma  Canon T3 montada em foco direto em um Telescópio newtoniano de 150 mm f8. Com a Lua ainda bem cheia . Posteriormente realizei a captura de 7 dark frames e 7 Bias . Fiz também 3 flats. As fotos foram "empilhadas" no Deep Sky Stacker  e posteriormente tiveram levels e curves trabalhados no Photoshop CS5.  Infelizmente o alinhamento polar ficou a desejar e as foto com drizzle demonstram isto claramente. 
3X Drizzle
   M 69 é, muito  provavelmente,  um Lacaille original e a entrada Lac I . 11 em seu "Sur les Étoiles Nébuleuses du Ciel Austral"  publicado em 1755 .  
   

             

terça-feira, 1 de setembro de 2015

M 75 - Um Mistério Bicentenário

                         

         M 75 é um globular relativamente distante e já foi considerado  um daqueles vagabundos inter galácticos de origem suspeita , da mesma corja que Ngc2419 em Lince. Apesar de ser um dos mais distantes globulares no catalogo Messier  esta muito mais próximo que este. 67.000 anos luz contra 380.000 anos luz.  É um membro respeitável da comunidade do halo galáctico.  Sua distancia é alvo de alguma disputa mas 67.000 anos luz me parece uma "media ponderada" bastante aceitável.
               Situado na fronteira entre Sagitário e Capricórnio em uma área sem muitas estrelas guias no caminho é um dos globulares mais difíceis de se localizar do catalogo.
          Harrington oferece um "starhooping " bem difícil e que nunca funcionou comigo. Sempre cheguei a ele pelo método da paciência misturada com a força bruta.  Atualmente uso  o "Go-to" da montagem sem nenhuma culpa.
             Ele propõem que você imagine uma linha conectando Kaus Australis até Ascella que ficam na base  do asterismo do "Bule", que personifica  Sagitário, e siga rumo a leste. No caminho você deve perceber uma estrela dupla levemente ao norte de sua rota. Ao sudeste  desta vai perceber  um grupo de pequenas estrelas formando um padrão de cruz. Seguindo ainda neste rumo ( meio incerto...)  vai perceber um triangulo de fracas estrelas . Centralize este triangulo em sua ocular de maior campo e escaneie rumo nordeste para localizar o tênue brilho de M75.
          Mesmo com meu 15X70 mm M 75 é discreto. Não é um alvo para binóculos .
             Pelo Newton as coisas melhoram mas não chego a resolver estrelas individuais nem mesmo nas bordas . O núcleo é mais brilhante e "arrodeado" por uma leve nebulosidade sépia. Tem um "que" de nebulosa planetária mas sem aquele tom esverdeado que costumam denuncia-las. Mesmo com 240 X apenas uma leve suspeita de granulosidade se apresenta nas suas bordas.  M 75 é um globular do tipo I na Escala Shapley de concentração. Ou seja do tipo mais concentrado. Somando-se isto a sua distância resolver este globular é tarefa ingrata mesmo para grandes telescópios.
                   Com um diâmetro aparente de apenas 6´8´´ e aceitando-se a distancia acima indicada implica que M 75 se espalha por 130 anos luz e possui uma magnitude absoluta de - 8.55. Algo como 180,000 sóis.
                   Este foi incluído por Messier em seu catalogo em 18 de Outubro de 1780. Isto me deixou com a pulga atrás da orelha já que em outubro M 75 Só seria visível muito baixo no horizonte de Paris e extremamente cedo ( até 18:30)  . Se passando alto no céu e com este bem escuro M 75 é um tesouro difícil para se escavar  nestas condições  ( e com telescópios de qualidade duvidosa...) seria um feito incrível.
                     Com um pouco de pesquisa busquei o original de seu Catalogo e coisa ficou ainda mais estranha... Em uma entrada um pouco confusa e escrita em terceira pessoa estava lá  :   "  (Outubro 18, 1780) Nébula sem estrela, entre Sagitário & a cabeça de Capricórnio ; Observada por M. Méchain em 27&28 de agosto , 1780. M.Messier procurou no próximo 5 e em 18 de Outubro  e  comparando sua posição com a estrela 4 Capricorni , de sexta magnitude, de acordo com  Flamsteed : pareceu à M. Messier ser composta de nada mais que pequenas estrelas , contendo nebulosidade: M Méchain reportou que é uma nébula sem estrelas. M. Messier o viu em Outubro 5; mas com a lua estando acima do horizonte ,& não foi até 18 do mesmo mês que ele foi capaz de julgar sua forma ( ou Estrutura?) & Determinar sua posição."


M 75 sobre o céu de Paris .em 27 de Agosto 1780 as 18:17:02  horas no horario local...

                  Em meio a estas informações confusas posso inferir que a descoberta de M 75 é obra de Méchain. Este o observou este em 27 e 28 de agosto. M 75 cruzou o Meridiano de Paris e se encontrava em sua mais alta elevação ( que é sempre pouca em Paris: 19o17´)  as 18:17:02 ( horario de Paris).  Observou exatamente o que era de se esperar com seus recursos e localização . Uma nébula sem estrelas.
                Dai para frente começa o quebra- cabeça.   As posições dadas por ambos diferem em apenas 6´.  Não há na região nenhum outro DSO que pudesse ter levado um mal entendido.Na verdade o DSO mais próximo se encontra a quase 5o de distancia e é uma nebulosa planetária de magnitude 14 e com um brilho de superfície tão baixo que não é visualmente visível nem mesmo com o Keck.

              Messier ( em um incomum arroubo de César , o imperador romano...) fala de si mesmo na terceira pessoa nos diz ter localizado uma "nebulosa composta de pequenas estrelas contendo nebulosidade."
                 É muito estranho Messier ter resolvido alguma coisa em M 75. O mesmo não resolveu nem mesmo M13... E em 18 de Outubro M75  esta cruzando o meridiano antes das 15 horas . E apesar do Stellarium nos dizer que o sol já esta quase se pondo neste horário é evidentemente um Bug. Já estive em Paris no auge do inverno e as três da tarde é dia claro...
O mesmo M75 sobre o céu de Paris em 18 de outubro de 1780. Evidentemente o Stellarium esta tendo um delirio. São 14:58:35 . Mesmo no inverno ainda é dia claro...
                 Neste instante me ocorre que ao contrario do sensores de minha câmera que quase resolvem alguma coisa em M75 o olho humano nos prega peças . E Messier era humano. Eu mesmo tive a impressão de perceber alguma granulosidade em M 75 . Daí para achar que esta impressão é mais que apenas uma impressão é um passo. E voilá ... Um aglomerado de pequenas estrelas contendo nebulosidade. Especialmente com um seeing duvidoso de um aglomerado já baixo no horizonte e uma transparência ruim esta resolvido o problema.
              Acredito ainda que como M75 tem um brilho de superfície relativamente alto ele ajuda a pregar esta peça. Como percebe-se claramente o seu núcleo e suas bordas e a diferença de gradiente é notável é fácil percebermos a diferença na "densidade" das partes. E assim a nevoa mais rala das bordas pode dar a impressão de ser feita de estrelas minusculas.
                M 75 é um belo desafio observacional , E o que Messier viu (ou não viu...) um mistério que vai completando 235 anos e provavelmente nunca será resolvido .
           Outra coisa interessante é que se visualmente eu ainda poderia achar que resolvi algumas poucas estrelas nas bordas deste com a fotografia fica evidente sua concentração e como é pouco provável que algo se resolva visualmente. Na verdade depois de ver as fotos que fiz deste eu me decidi que minha impressão era apenas isto: uma Impressão.
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                 Realizei 10 exposições de 15 segundos de M75. Se você olhar para um único destes frames você irá perceber como é difícil sequer diferenciar M75 de uma das estrelas de campo. O aumento com a câmera é de cerca de 40 X. Os equipamentos de Messier possuíam uma ótica muito inferior ao meu telescópio ( vão mais de 200 anos...) e possuíam pequenas ampliações pois seu objetivo maior sempre foi a busca de cometas.  Eu , definitivamente , não resolvo estrelas alguma em estas fotos sem  realizar "stacking". Apesar das capturas terem ficado a desejar devido a um mal alinhamento polar e um foco um pouco "soft" o processamento destas fotos acaba resolvendo alguma coisa mas  mesmo com um drizzle de 2 X poucas estrelas realmente se destacam em suas bordas.   
2X Drizzle


              
Sem Flats e sem Bias.... Apesar do Ruido enorme o Globular acaba apresentando mais estrelas resolvidas. Outro mistério. Este bem mais recente...

               William Herschel  ( certeza...)com telescópios muito mais poderosos conseguiu resolver estrelas em M 75 em 1784. Ele o descreveu como uma miniatura de M 3.
                  Existem registros de solução parcial do aglomerado com telescópios com mais de 300 mm e até mesmo de 250mm.
                   Você resolve algo em M75?