segunda-feira, 7 de setembro de 2015

M 69 : O Lacaille Roubado





  M 69 é alvo de muita discussão. Seria ele uma descoberta de Lacaille ou um Messier original?
  Parece-me que apesar da posição defendida no site da SEDS (Helmut Frommert)  e apoiada na opinião de Glen Cozens não cabe muita duvida que a descoberta deste discreto globular na base do "Bule" , que identifica a constelação de Sagitário,  foi obra  do nosso patrono aqui no Nuncius Australis , o Abbe Lacaille.
   Cozens e Frommert apóiam sua hipótese" garfando" nosso padroeiro  sobre três "fatos":
   A) A Posição registrada no Catalogo Lacaille original esta errada.
   B) O Objeto seria muito tênue se comparado a outras entradas do Catalogo.
   C) Existem três estrelas na posição registrada por Lacaille que poderiam ser confundidas como uma nebulosa em pequenos aparelhos . Seria a Entrada do General Catalog de Herschel  5076
   Vamos analisar cada uma destas afirmações .
   A posição registrada por Lacaille realmente é errada. Em seu original ele registra a posição do Globular como sendo  18:13:41 ,  - 33 o 37´05´´ .  Entre 1752 e atualmente a sua  a posição média seria  RA: 18:15: 15 DE:-32°29' 24".  M 102 apresenta um erro muito maior e foi incluída no Catalogo Messier apesar de muitos acreditarem tratar-se de uma obvia observação repetida de M 101 (outros alegam que se trata de Ngc 5866 (Frommert), 5879, 5908 ou ainda 5928)...
   M69 não é em nada tênue demais em comparação a outras ( poucas...)  entradas do catalogo Lacaille . E apresenta um brilho de superfície bem alto. Diversas outras entradas do catalogo são alvos bem mais difíceis de serem observados (M83 e M55 são dois exemplos óbvios)  e nunca se colocou em duvida a capacidade de Lacaille percebe-los com seus pequenos aparelhos. Por experiência própria já percebi M69 como buscadoras em muito semelhantes ao equipamento do Abbe e embora difícil diferenciar este de algumas estrelas no mesmo campo uma analise atenta revela sua natureza distinta.  


   A entrada do GC 5076 tornou-se Ngc 6634 no posterior trabalho de Dreyer . E como podemos perceber na posição indicada por este não existe nem mesmo um asterismo . No Cartes du Ciel podemos ler que a entrada foi causada por um erro na placa.  Ambos os autores citados associam M69 a Ngc 6634.
   Retirando-se o trabalho de Frommert ( SEDS) e de Cozens a maioria dos autores concorda  e mantém M 69 como uma descobert de Lacaille . Tanto  O´Meara em seu "Deep Sky Companions: The Messier Objects" como Mallas em seu clássico " The Messier Album" garantem a descoberta de M69 a Lacaille. Burnham em seu "Celestial Handbook" também atribui a descoberta ao mesmo  em 1752.  E ainda nos diz que este não detectou nenhum sinal de resolução na nebulosa.
   O próprio Messier dá créditos a Lacaille  em em sua apresentação. Ele o observou em 31 de agosto de 1780. Este foi acrescentado a seu catalogo e assim acabou recebendo seu nome mais famoso no mesmo ano.   
   Apesar de Cozens achar dificil que tenha havido algum erro de impressão ou confusão por parte do Abbe no registro de M69 eu creio que ambos são muito prováveis. Afinal se localizo erros de impressão em meus livros de Astronomia escritos e publicados em  pleno seculo XXI imagine em 1755 quando foi este apresentando pela primeira vez  no Memoirs d´Academie...    
   A descrição de Lacaille é bastante precisa e é fato publico e notório que ele escaneou estas regiões do céu de forma incansável e de local muito mais apropriado para o registro do que Messier. M 69 pode ser um alvo difícil de Paris. Porém sob os céus da Cidade do Cabo no meio do Sec. XVI não era de forma alguma um desafio impossível ou mesmo difícil.  Em seu " Catalogo de Nebulosas dos Céus Austrais" ele descreve , como sempre de forma precisa e sucinta , M69 assim: " Parece o nucleo de um pequeno Cometa." A descrição é perfeita e justifica a inspeção realizada posteriormente por Messier em seu catalogo que buscava justamente registrar estes impostores... Apesar de Messier não ter localizado o mesmo na primeira busca que fez deste ele localizou o mesmo poucos dias depois e jamais levantou duvida sobre a descoberta de seu colega.
   M 69 além de uma paternidade disputada possui grande interesse cosmológico. É um dos globulares mais ricos em metais de todos. Com aproximadamente de 22%   da metalicidade de nosso sol ele é um prodígio. M 70 que é um aglomerado globular extremamente próximo dele apresenta apenas 4% de metalicidade em comparação as estrelas da população I. 





   M 69 habita a "Avenida dos Globulares " na base do bule e é o mais brilhante destes aglomerados que incluem M54 e M70. Localiza-lo , como já foi dito é fácil, e este reside a pouco mais de 1o ao norte da linha imaginaria que liga Ascella e Kaus Borealis. Há 29.700 anos luz de nós e a 6.200 anos luz do centro galáctico. Juntamente com M 70 é um dos mais próximos deste centro. Um esta a  apenas 1200 anos luz do outro . M69 ocupa uma área 9,8 minutos de arco oque nos leva a um rio de 42 anos luz.  Sua classificação na escala Shapley é da classe V . Ou seja uma aglomerado com uma concentração intermediaria e estrelas. Seu núcleo se espalha por aproximadamente 6 anos luz de espaço e este possui uma massa de 300.000 sóis. Sua órbita não o afasta muito do centro e não é altamente excêntrica. Isto ( e outras coisas) o faz bem diferente de M 70...
   A origem dos globulares é objeto de grande debate. O sistema de Globulares da galaxia tem sido tradicionalmente dividido em duas populações distintas.   
   A primeira pobre em metais , de formato esférico ou quase esférico  e de lenta rotação. São a população de globulares do halo galáctico.
   M 69 é um representante clássico e pedagógico do segundo grupo. A População do "disco". Estes são ricos em metal , achatados e "giram" rapidamente.
  Quando falo em metais me refiro a qualquer elemento além do Hélio na tabela periódica...
   Estudos mais recentes dos ditos aglomerados globulares do disco sugerem que a distinção não é assim tão obvia e que os ditos aglomerados do disco tem sua natureza mais intimamente ligada ao bojo galáctico que propriamente ao disco desta.   A propriedade físicas destes globulares são fonte de muitas informações  relativas a evolução dinâmica do principio de nossa galaxia  e de outras galaxias.
   Uma das hipóteses mais difundidas é que Globulares surgem da absorção de outras galaxias e que estes seriam os "restos" do núcleo destas galaxias canibalizadas.  
   Em um interessante estudo realizado por Kenjy Bekki e Masashi Shiba em 2001 é proposta uma   hipótese para a formação de globulares de disco. estes seriam o resultado de uma intensa formação estelar desencadeada na região central de galaxias anãs sendo absorvidas por sua galaxias centrais. Propõem até um mecanismo que alguns destes seriam fruto da absorção e interação de duas galaxias anãs com o disco de sua galaxia matriz. É importante lembrar que estes processos acontecem nos primórdios do universo e que aglomerados globulares são estruturas muito antigas. Mas o processo explicaria  porque os aglomerados de disco são mais ricos em metais que os típicos globulares do halo. Nos bojos galácticos onde a temperatura e a pressão são maiores  o surgimento de metais ocorreu  de forma mais acelerada e o processo de formação estelar foi mais intenso.    A quem interessar possa o paper dos rapazes pode ser acessado em  http://iopscience.iop.org/article/10.1086/337984/fulltext/;jsessionid=8C23D8B602F07D500BCF751FDB608076.c1   
   M 69 se apresenta como uma pequena estrelas sem foco com meu 15X70 mesmo em noites de lua. Em céus mais escuros já o percebi com minha buscadora 8X50 mm. Requer atenção para ser diferenciado das estrelas de campo. Com meu telescópio com 48X de aumento resolvo umas poucas estrelas em suas bordas. Com 120 X resolvem-se um pouco mais porém o núcleo continua sem solução. Com um brilho de superfície alto resiste bem a grandes magnificações.
   Realizei algumas fotos de M 69 que demonstram que sua concentração é mediana .  É um alvo fotográfico fácil  que fiz ficar difícil...


   Foram realizadas 14 fotografias de 15 segundo de exposição com ASA 3200.  A câmera utilizada foi uma  Canon T3 montada em foco direto em um Telescópio newtoniano de 150 mm f8. Com a Lua ainda bem cheia . Posteriormente realizei a captura de 7 dark frames e 7 Bias . Fiz também 3 flats. As fotos foram "empilhadas" no Deep Sky Stacker  e posteriormente tiveram levels e curves trabalhados no Photoshop CS5.  Infelizmente o alinhamento polar ficou a desejar e as foto com drizzle demonstram isto claramente. 
3X Drizzle
   M 69 é, muito  provavelmente,  um Lacaille original e a entrada Lac I . 11 em seu "Sur les Étoiles Nébuleuses du Ciel Austral"  publicado em 1755 .  
   

             

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