segunda-feira, 17 de novembro de 2014

As Crateras de Platão e a Cidade Lunar



            A astronomia é cheia de histórias curiosas e de personagens quixotescos. Grandes astrônomos nem sempre são lembrados por suas maiores descobertas mas sim pelos seus maiores erros. Um dos  "Dons Quixotes" deste post é Franz von Paula Gruithuisen.
            Este médico e astronômo nascido na Bravaria em 19 de junho de 1774  poderia ser lembrado por diversas e nobres razões. Foi o inventor de um equipamento que permitiu a remoção de pedras na vesícula  de forma muito mais segura  e foi o primeiro a sustentar que as crateras lunares seriam fruto do impacto de meteoritos com Selene. Durante suas observações ele percebeu que a grande Cratera Plato ( Platão...) possuía diversas mini crateras (craterlets) manchando seu escuro e liso fundo.
            Apesar de o Nuncius Australis ser um Blog mais devotado a observação do céu profundo a geometria do universo e as obras do metro somadas a um desafio realizado por Phill Harrigton em seu "Cosmic Challenge" acabaram por levar-nos a um passeio que inicialmente nos leva até Plato e depois até Wallwerk...
            Como já foi dito Gruithuisen foi o primeiro a perceber pequenas crateras no interior de Plato.

            Plato propriamente dita é uma proeminente cicatriz causada por um impacto cósmico ( como suposto corretamente pelo nosso primeiro Don Quixote do dia ) que possui 101 km de diâmetro e é facilmente percebida com o uso de binóculos com 10X de aumento ( até menos...) . Ao contrario da maioria das crateras de impacto Plato não apresenta um pico central e nem um relevo caótico em seu "chão". Isto deve-se ao fato de que pouco ( lembrem-se  que sempre falamos de períodos de  tempo geológico por aqui...) a piscina causada pelo impacto foi preenchida com lava. Assim percebemos o incomum fundo escuro que destaca-se contra o mais claro Mare Imbrium ao sul e o Mare Frigoris ao norte.
            Em 1824 Gruithuisen foi o primeiro a perceber pequenas crateras no fundo de Plato. O desafio de Harrigton consiste em perceber o maior numero destas. A descoberta do médico Bávaro chamou a atenção de diversos astrônomos e o número de pequena crateras aumentou muito.
            É aí que entra nosso segundo Don Quixote. O observador britânico A. Stanley Williams.
            Este senhor foi para Plato o que Percivel Lowell ( mais uma figura quixotesca)  foi para Marte. Embora Williams não tenha chegado a perceber sinais de vida inteligente nem canais cortando o fundo da cratera ele percebeu os chamados fenômenos lunares transitórios Ele periodicamente percebia crateras que iam e vinham , tempestades de areia e faixas que se deslocavam na cratera. Ele associou este fenômenos a atividade vulcânica na cratera. Hoje sabem-se que os fenômenos se devem a turbulenta atmosfera terrestre e que o vulcanismo na lua encerrou-se muito antes de o homem caminhar sobre a terra.

            De qualquer forma o numero de pequenas crateras subiu e o desafio proposto por Harrigton é que você observe 16 "craterlets". Na foto (Lunar orbiter) estão indicadas 25. (William chegou a 40!!!)  Eu só consegui perceber 6. E mesmo assim com muito esforço. Não sou um grande observador lunar e assim minha ocular de 5 mm é de péssima qualidade. O melhor resultado que obtido foi utilizando minha 10 mm com uma Barlow 2X.
            Mas apesar do fracasso em observar as "crateras de Platão" acabei por conhecer a formação que acabou tornando Gruithuisen famoso e motivo de chacota de seus pares.

            No primórdios da astronomia muitos cientistas de renome acreditaram ser a lua um local habitado ( seriam todos eles lunáticos?) . Nomes como Da Vinci e mesmo William Herschel  ( este achava que a maioria dos planetas o era...) acreditavam em uma civilização marciana. E assim nosso querido Gruithuisen , utilizando o mesmo telescópio que descobriu a primeira micro cratera em Plato, descobriu Wallwerk. Uma cidade murada próxima a Cratera Schröeter.
            Curiosamente Schröeter ( 1745-1816) foi um topografo lunar que assim como Williams percebia fenômenos transientes no nosso satélite. Mas este os atribuía a presença de uma atmosfera lunar. E assim via brumas e tempestades surrando os habitante de Wallwerk.
Desenhos de Gruithuisen

            A cidade de Gruithuisen é uma interessante formação para ser observada. Embora nada tenha de cidade. T .W. Webb descreve  região da seguinte forma: " ...uma curiosa espécie de paralelismo mas extremamente grosseiro que esta evidente ser de origem natural.Não é uma formação difícil ( de ser observada) "

            Com o uso de telescópios mais poderosos as observações de Gruithuisen realmente parceem contos da Carochinha. Mas é incrível notar que com o mesmo telescópio de 60 mm ele percebeu uma das crateras de Platão...

            Fui em busca de Wallwerk. Descobri que é necessário aguardar o momento certo e o  quarto crescente é o momento certo. Utilizei primeiro a 10 mm e depois esta com a barlow. O bom da lua é que ela suporta bem magnificação. na verdade ela é feita para os grandes aumentos...  
            O terreno na região é bastante interessante e rugoso. Mas admito que Gruithuisen era um cidadão bem imaginativo. Com muito esforço consigo imaginar algo como terraços incas ou Minas Tirith ( Cidade Murada do Senhor dos Anéis)  . Mas é mais um esforço de vontade do que vejo mesmo. Nada é o que parece ser que não é...

            Localizar Schoeder pode ser delicado. Apesar de grande ela não se sobressai na paisagem. Eu achei mais fácil localizar a "cidade" navegando a partir de Erastothenes. Utilizei o Virtual Moon Atlas para  ajudar ... 



Virtual Moon Atlas


            Visitar a lua é sempre uma grande diversão. Acho que mês que vem vou procurar por uma ponte que foi localizada por um outro Don Quixote. Ou seria um São Jorge?

P.S.- Gruithuisen também acreditava que Vênus apresentava floresta como a Amazônica. Porém esta crescia muito mais rapidamente devido a proximidade com o Sol...

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