domingo, 25 de março de 2012

Galáxias em Lince


Lince

Walter Scott Houston foi o autor da minha coluna favorita na minha revista de astronomia favorita durante varias décadas. Chamam-se, respectivamente, Deep Sky Wonders e Sky and Telescope.
Ele, repetidas vezes, falou que você deveria observar o céu que ia bem acima de sua cabeça: “Ao mover o telescópio para longe do zênite nós começamos a olhar através de mais atmosfera, poeira, poluição e outras coisas nefastas que não só escurecem, mas também reduzem o contraste e diminuem a quantidade de detalhes visíveis em objetos que já são tênues e difusos a principio.”.
Pois é exatamente isto que o Nuncius Australis pretende fazer. Como já é praxe tudo errado.
Vamos visitar hoje a constelação do Lince (Lynx). Uma constelação moderna. É importante esclarecer que quando falamos em constelações modernas nos referimos aos sec. XVII e XVIII. As mais antigas remontam a Mesopotâmia.
 Esta obscura constelação foi criada por Hevelius, um astrônomo e artesão polonês.  Em seu Prodromus (1690) ele lista a constelação como Lynx sive Tigris. Lince ou Tigre. Posteriormente em uma gravura em Firmamentum Sobiescianum ele se refere apenas como Lince. Dizem as más línguas que nem a constelação nem o desenho lembram a criatura. De qualquer maneira Hevelius sempre alegou que o nome fora dado porque ele acreditava que eram necessários olhos de Lince para observar suas apagadas estrelas.  Línguas ainda mais ferinas dizem que ele assim batizou a constelação para que ninguém esquecesse que Gassendi falou isto dele (que possuía olhos de Lince...) quando foi apresentado aos desenhos de seu mapa lunar.
Lince habita um “espaço vazio” entre Gêmeos, Auriga e a Ursa Maior. Desta forma é uma constelação que viaja baixa, próxima do horizonte norte, nas latitudes mais austrais.
Mas ela esconde diversos DSO´S muito interessantes e nem tão conhecidos. Estes são a razão de ser deste passeio pela pantanosa atmosfera que cerca a região.
Um dos objetos mais interessantes que vaga na região é um aglomerado globular que está aonde não deveria estar.  Ngc 2419. O Vagabundo Intergaláctico. Ele já foi apresentado aqui no Nuncius Australis e pode ser visitado aqui.
 Walter Scott Houston (de novo...) também nos ensinou  que ,apesar de suas estrelas apagadas, Lince é um celeiro para aqueles que gostam de caçar galáxias.  O Burnham´s Celestial Handbook lista nada menos que 13 galáxias em Lince. A maioria acima da 13ª magnitude.
Aqui vou apresentar apenas as que passeiam no extremo sul desta obscura região do céu e que se encontram ao alcance de telescópios amadores de no maximo 150 mm. 

A primeira e mais brilhante destas galáxias é Ngc 2683. Um farol em meio a escuridão que nos aguarda. Brilhando com mag. 9.3 esta espiral, de perfil para nós, apresenta a característica forma de um charuto. É importante ressaltar que para observa-la basta binóculo. Mas é importante que este esteja firmemente apoiado em algo.  O patrono deste post (Scott Houston) fala que binóculos que passeiam livres por aí vem algo como de  1 ½ a  2 magnitudes  menos que aqueles em tripés.
 Existem diversos registros da mesma sendo observada com telescópios de 60 mm. Eu mesmo já a capturei com meu 70 mm a 90x.   A melhor forma que encontrei para acha-la foi usando o “red dot finder” e fazendo uma triangulação usando Alpha Lince, Pollux (em gêmeos), e Iota Câncer. A seguir, em  céu suburbano, a percebo na buscadora 9x50 usando visão periférica.
Como quase tudo  foi descoberta por William Herschel. Em 1788.
As outras três galáxias que apresento são apadrinhadas pela mesma estrela.



Ngc 2793, 2832 e 2859 se encontram bem próximas a Alpha Lince. Com mag. 3.10 é a coisa mais brilhante nesta escura região.
Nenhuma das donzelas fica muito além de um campo ocular de Alpha com o uso de baixa magnificação.  Logo fácil de achar... Ver é outra história.
Vamos começar por Ngc 2859. Este é um daqueles DSO´s preguiçosos. Para localizar esta espiral que é a maior e mais brilhante do trio basta você centralizar Alpha Lince e esperar por 3 ½ minutos. O resto à rotação da terra faz por você.
Esta é uma galáxia abençoada e amaldiçoada por Alpha Lince. Então tente manter a estrela fora do campo ocular. O núcleo será facilmente percebido. Já os braços... Eu não vi. Mas existem registros onde foram percebidos com uso de visão periférica e telescópio de 100 mm (refrator).
 Também foi descoberta por William Herschel de novo em 1788. Me pergunto se não  na mesma noite que a anterior.
Ngc 2793 vai demandar céus mais escuros e pelo menos 150 mm. Fica a menos de 1º de a oeste de Alpha. Devido a seu pequeno tamanho é melhor caça-la a partir de Alpha com pelo menos 100 x de aumento.   Brilhando com 12.6 de mag.  eu gostaria de acreditar que a vi. Mas eu não acredito em fantasmas...
Esta é uma descoberta de John Herschel (o filho) em 1828
Ngc 2832 reside no limite maximo para observação com um 150 mm. Eu mesmo não a observei. Mas há diversos registros de quem o fez. Acredito que tenha que ir mais ao norte para ter esperanças. Com magnitude 13 é uma galáxia discreta.  Fica a menos de 1º de Alpha.
Outra descoberta de Herschel (Pai). Em 1785
.Recomendo Muddy Waters como trilha sonora para esta caçada. 

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