sábado, 25 de fevereiro de 2012

Astrofotografia , Colimação e Carnaval





Chegou o carnaval. E apesar da data depender de varias efemérides (ele começa 40 dias antes do primeiro domingo depois da primeira lua cheia depois do equinócio ou algo assim) a pratica astronômica durante o período é, no mínimo, diferente.

E durante o período reza a lenda que um homem possui como seus maiores adversários ele mesmo, seus amigos e a bebida. Mas ele é homem e não pode recuar perante tais adversidades.

Desta forma vou em direção a Buzios.

Meu plano é perfeito.

Saio na Sexta Feira na parte da manhã. Eu, minha filha e toda a parafernália astronômica. Fizemos uma viagem tranqüila e chegamos a Buzios sem maiores percalços.

Algum tempo depois eu tenho o telescópio montado e percebo que a colimação não esta lá estas coisas. Após mexer um pouco para lá para cá me dou por satisfeito embora soubesse que a colimação poderia ser mais bem realizada. Mas no momento eu tinha outra preocupação. Alinhamento polar.

Sempre que observei em Buzios eu alinhava colocando o eixo equatorial de forma paralela ao muro da casa. Para observação visual era mais que suficiente. Mas para fotografar...

Rapidamente percebo que preciso afinar melhor o alinhamento. E é ai que a porca torce o rabo...

Seis horas mais tarde e com diversas fotos imprestáveis colecionadas consigo um alinhamento razoável. Bom não. Mas acredito que possa melhorá-lo mais e mais ao longo do carnaval. Isto iria implicar em manter o tripé morando fora de casa, mas me parecia ser um projeto viável.

Ao contrario do que se imagina a pratica astronômica é um evento com muita atividade física envolvida. Depois de seis horas levantando e movendo o telescópio para lá e para cá em busca do pólo sempre tendo que me colocar em posições pouco ortodoxas para acompanhar estrelas junto à ocular minha coluna começa a achar que estou de sacanagem com ela. Já que é assim ela me sacaneia com mais força. É hora de dormir e tentar esticar a lombar.

No dia seguinte chegam dois fortes adversários. Meu amigo mais pinguço e varias caixas de Cerveja. O Espírito das Highlands eu havia levado pessoalmente...

Depois de um dia de praia imagino que a noite promete. Eu estava certo. Só não sabia o que ela prometia.

Crente que o alinhamento polar seria satisfatório eu retiro a lona que cobria a cabeça e o tripé e instalo o telescópio. Dirijo-me para Naos (Zeta Popa) e rapidamente localizo Ngc 2477 na buscadora. E só. Olho na ocular e nada...

Afina daqui afina de lá e nada...

Com Júpiter se pondo resolvo que vou afinar a buscadora com precisão “nano métrica”. Enquanto isso meu camarada vai me garantindo um fornecimento continuo de Stella Artois. E outros drinks que levariam qualquer um a acreditar que se trata de um químico frustrado.

Percebo que a colimação estava péssima e tenho a brilhante idéia de chamar meu camarada para me ajudar na operação. Eu ficaria com o olho na ocular enquanto ele moveria os parafusos do espelho primário. O objetivo seria ter aquele padrão perfeito de um ponto negro no meio de um Júpiter fora de foco. Rapidamente o planeta parecia um quarto crescente...

A colimação ficou tão fora de esquadro que se tornou impossível afinar a buscadora. Lá pelas tantas eu pensava em colocar um pequeno calço no suporte da buscadora.

Este post teve vários nomes até chegar ao que vos apresento. Um deles foi "Carnaval, Colimação e o astrônomo bêbado".

Finalmente tomo uma dose de “Faísca” e resolvo que a única solução seria colimar o telescópio de uma forma mais ortodoxa. Amanhã.

A poluição luminosa também se apresentava muito acima da média. A cidade muito cheia fazia que domos de luz povoassem os horizontes. O horizonte sul era o menos mau. O norte só acima de 30º

Colimação é algo relativamente simples. Mas uma colimação perfeita é bastante trabalhosa para ser obtida. Agradeço por meu telescópio ser F8. Um telescópio mais claro me levaria à loucura. Minha próxima aquisição será um colimador laser.

O que eu não sabia é que além de causar coma (um aspecto de vírgula quando olha para estrelas) uma má colimação torna difícil até mesmo afinar uma buscadora. Surpreendeu-me a precisão necessária. Outra lição é que nunca deixe alguém leigo tocar nos parafusos de ajuste do seu secundário. Quando você fala girar um pouquinho para este ele desconhece quão pouco é um pouquinho. Astronomia e ciências em geral quando falam de pouco é muito pouco. E quando falam de muito em geral usam notação cientifica...

Finalmente chega a terceira noite. E um pouco de sobriedade. Finalmente começo a noite me dedicando a observação visual e apresentando alguns DSO as crianças. Plêiades do Sul, Eta Carina, NGC3766 e uma enorme série de aglomerados abertos que seguem a Via láctea. Pouco depois Marte se apresenta e parto para magnificações maiores. O seeing não esta lá grandes coisas, mas percebo algum detalhes. As calotas são evidentes e com bastante atenção percebo Syrtis Major e de relance consigo notar a mancha do Mare Acidalium. Mas os momentos de seeing são raros.

Resolvo me arriscar em algumas fotos e rapidamente percebo que o alinhamento não é suficiente.

Começo com exposições de 20 seg. com a nebulosa de Eta Carina. Depois caio para 15 e finalmente 10 seg.
Eta Carina

Mexe para lá e para cá e nada de melhorar. Decido fazer algumas fotos em Piggy Back.

Outra aquisição que vai ser útil é uma ocular com reticulo iluminado. O Drift para o alinhamento polar vai ser bem mais eficiente e rápido.

Faço algumas imagens do Cruzeiro. Como podem perceber o Rot n´ Stack é um programa bem criativo. Um dos Logaritmos que ele usa nas fotos finais é realmente um artista...
Cruzeiro do Sul Numa Visão do Rn´Stack

Os dias se sucedem e eu desisti de manter a cabeça do lado de fora da casa. Todo dia eu começo fazendo um alinhamento polar e um drift. E sempre demora. E Os resultados são diferentes a cada dia.


Não poderia deixar de fotografar M42. O Alinhamento poderia ser melhor. Mas a Nebulosa é linda de qualquer maneira...

Desta forma também visito Saturno. Embora uma DSLR não seja o ideal fiz alguns registros. As exposições curtas não careciam de alinhamento. Utilizei uma barlow 2x para o planeta dos anéis. Mas ainda não me entendi com o Registax...

Durante os alinhamentos acabo empenando um dos parafusos da cabeça. Removo uma pequena peça que fica a frente da cabeça e que serve para fixação deste. É incrível como a remoção deste torna a cabeça mais instável. O espelho da câmera causa trepidação suficiente para inviabilizar a maior parte das fotos.

Após retirar e substituir o parafuso a cabeça volta a sua forma.

Aproxima-se o ultimo dia e meu plano de fotografar vários Lacaille começa a parecer distante.

Resolvo ir para o jardim de frente da casa. Parece que apesar de um pouco mais exposto as luzes da cidade foi uma decisão acertada. O povo fica mais pelo jardim dos fundos e a solidão é amiga do astrônomo. Bem como uma distancia maior do isopor com as cervejas...

Coloco o tripé no chão e coloco o telescópio. Não faço drift. Simplesmente aponto para Regor (Gama Vela) e faço uma foto. 15 seg. e... Voilá. Nenhum risco. O alinhamento esta pronto. O melhor da semana.

2547 sem dark frames

Com dark frames...

Começo com Ngc 2547, um aglomerado aberto que o Abbe catalogou como Lac III. 2. O enquadramento poderia ser mais digno, mas ainda assim ele preserva sua forma de coração. O Aglomerado também é chamado como “The Broken Heart Cluster”. Faço diversas exposições de 15 seg. E por incrível que pareça o DSS aceita quase todas na hora de empilhar.

Ao contrario do Rot n´Stack o DSS não é muito criativo e adora recusar seus frames.

Ngc 3766 é o próximo. Começo a realizar o plano inicial. Este é o DSO Lac III. 7.


Novamente varias exposições de 15 seg.

Um fato interessante destes dois últimos aglomerados é que suas fotos finais (Tiff), APÓS PROCESSAMENTO NO DSS, apresentaram mais ruído quando foi adicionado Black frames. As fotos sem adição de Black frames apresentaram menos ruído e menos desvio de cor para o azul. Não sei a razão disto.

A noite vai indo bem e rapidamente coloco mais um Lacaille no finder. Lac I. 5 ou Ngc 5139. O Imenso globular de Omega Centauro. Muitas fotos. 15 e 20 seg. E muitos dark frames. Dá tudo certo. 1600 asa e pouco ruído. Vai entender¿¿¿



Agora tirei o atraso. Ngc 4755, a Caixa de Jóias. Lac II. 12 é um de meus favoritos. Novamente sento o dedo e só paro quando recebo a mensagem “full card”.

Com isto resolvo que é hora de caçar mais algumas coisinhas a moda antiga.

Calço a 25 mm na ocular e coloco a 10 mm no bolso.

Steve O´Mehara em seu Hidden Treasures faz um paralelo entre astrônomos amadores e piratas.

Segundo ele os piratas se apresentavam de duas formas. Aqueles que abordavam um navio e o saqueavam rapidamente. Passavam poucos minutos a bordo e seguiam sua viagem rumo à próxima vitima. Outros não gostavam desse frenesi. Chegavam a bordo. Tomavam chá com capitão atacado. Olhavam o porão calmamente e visitavam cada parte do navio presa.

Eu me identifico mais com os primeiros. Quando estou fazendo uma observação visual sou do estilo “body count”. Olho o DSO com uma ou duas oculares. Pratico um pouco de visão periférica e assim que tenho certeza do avistamento sigo em busca de outros botins. Já quando fotografo o objetivo é fazer um registro mais apurado. Mas ainda assim sou um pouco apressado. Na verdade gosto de preservar alguma semelhança do que o ser humano é capaz de ver. Então quaisquer tantas dezenas de exposição me satisfazem. Mas a astrofotografia demanda maiores cuidados. E conseqüentemente visitas mais longas ao navio... Sua buscadora tem que estar bem alinhada. A colimação correta. O alinhamento polar idem. Através dela me faço um astrônomo mais caprichoso. Não por gosto. Mas por necessidade.

Astrofotografia não é uma atividade momesca. Depende de duas coisas que não são tão triviais quanto dizem. Alinhamento Polar e Colimação. Isto para não falar em outras cositas más...

Com vontade de caçar parto em busca de M 104. É um dos “star hops “ que mais gosto. Vou pulando de estrela em estrela. A partir de Algorab vá até Eta Corvus. E daí siga para HIP 61212 e mais um pouco até HIP61296. Daí ache três pequenas estrelas que formam um pequeno triangulo. E deste mais um grupo triplo ainda mais discreto. Tudo pela buscadora. Do pequeno grupo parta para a ocular e você vai achar... Olhe no Cdc ou no Stellarium. O caminho é bem legal e fácil.

Depois quero mais uma abordagem antes do fim. Um rápido pulo a Beta Corvus e um pulinho lhe deixa em M68. Um discreto globular que fica no mesmo campo que HIP 61621. Tire a estrela do campo para não intimidar o discreto globular.

Acabou o carnaval e entre mortos e feridos salvaram-se todos.


M 41 também sofreu saques...


3 comentários:

  1. Muito legal as fotos, dá pra perceber uma grande evolução, mas encantador mesmo foi o texto, divertido e envolvente. Você escreve muito bem!

    Abraços
    Rodrigo

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  2. Olá, estou interessado em adquirir um telescópio semelhante ao seu, através de pesquisas do google acabei por encontrar seu blog.

    Li diversos posts e achei muito interessante esse do carnaval.
    Porém me surgiu uma duvida esse modelo da skywatcher, é possivel desmontar o focalizador e rosquear ele num Anel T acoplado à DSLR?
    Li em outro site que era possivel.

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    1. Ricardo a operação é relativamente simples. Segue o link explicando o processo.

      http://nunciusaustralis.blogspot.com/2011/11/usando-um-t-ring.html

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