domingo, 4 de setembro de 2016

Projetos Observacionais e Livros Antigos

      


               Gosto de projetos observacionais. Também gosto de livros antigos.  E assim parto solitário rumo a Búzios acreditando na previsão do tempo que obtive no 7Timer ( vocês podem utilizar o link aí ao lado para visitar o site...) . Este apresenta diversos "perfis" de previsão. Um dos defaults é o "astro". Neste ele vai lhe dizer o seeing , a transparência , a cobertura de nuvens e cia ltda. de hora em hora para as próxima 48 horas. Apesar de borboletas ainda bateram suas asas na Tailândia ele costuma ser bem preciso.
                Levo na bagagem todas as tranqueiras para observar os globulares Messier que me faltam observar ( meu projeto observacional) e minha cópia do "Cycle of Celestial Objects " do Captain e depois Admiral William Henry Smyth ( o livro antigo). Lançado em 1844 e dedicado ao grande John Herschel o livro é composto de 2 volumes. O Prolegomena e o Bedford Catalogue. Quase dois séculos mais tarde não foi traduzido para a língua de Camões nem nada  sequer do gênero foi escrito por estas bandas. Dada a atual situação da politica educacional ( e em geral) na nação é desnecessário buscar razões para entender tal fato.
                Uma vez na terra de José Eustáquio eu monto tudo e me preparo para esperar Beta Ara cruzar o meridiano e  poder realizar um alinhamento polar eficiente. Minha derrota é ambiciosa. Pretendo observar e fotografar nove dos onze globulares Messier que me faltam.  Correndo contra o relógio. Na verdade entre 19:00 e 23:30. Depois ainda queria capturar pelo menos uma galaxia no Grupo do Escultor. Isto tudo ignorando a péssima transparência prevista no 7Timer.  Lógico que não deu certo.   Para piorar seria a única janela de tempo "aberto" no fim de semana.
                Agosto foi um mês que fez jus a sua fama. E eu esperava que a maré passasse assim que entrasse setembro. Esqueci de Murphy e Clark...
                Meu plano era uma derrota bem planejada. As 19:00 horas eu teria o telescópio , buscadora e "go-to" todos funcionando como um relógio suiço.  Sem muito tempo o alinhamento polar não ficou bom , o go-to ficou com uma precisão no máximo medíocre e em vez de ter M 5 em quadro as 19:00 eu estava com M 4 centralizado na ocular por volta de 20:30. E percebi que o 7Timer estava certo. A transparência era péssima e eu não conseguia resolver estrelas  em M 4 com nenhuma combinação de oculares que tenha tentado. Nem sua famosa "barra central " era evidente.
                Depois de muita luta acabei por conseguir abater dois globulares dos nove planejados. M 19 e M 30.
M 30

M 19


                O go-to sempre oferece algumas estrelas para realizar o seu alinhamento. Geralmente utilizo o alinhamento utilizando 2 estrelas.  Para usar uma única estrela depende-se  de ter um alinhamento polar cravado. Três estrelas você tem que possuir todos os horizontes muito livres. Não é o caso.  Já descobri que algumas combinações de estrelas dão mais certo que outras . Desta vez nenhuma das escolhas foi muito feliz.  Definitivamente Alnair com Altair deve ser evitada. Péssima precisão. E Alnair com Atria apenas um pouco melhor. Mas com apenas uma noite para me divertir não podia ficar testando muitas possibilidades.  
                Depois de perceber que objetos mais difíceis estavam fora do baralho com a transparência que me era oferecida eu me dou por feliz com meus dois "globs" novos e parto para um aproach mais modesto. M 17 é uma eterna favorita. Fácil de localizar e por alguma razão habitando um buraco de céu menos esfumaçado é revisitada.  Faço algumas exposições da mesma. O alinhamento polar não colaborando decido fazer uma coisa que sei não dar  belos resultados. Mas astrofotografia é a melhor diversão e não ia me aporrinhar por bobagens. Como já falei agosto tinha sido um mês de m...
                De volta ao "Cycles" a descrição de Smyth de M 17 é algo entre a prosa e a poesia. E em tempos que besteiras evangélicas proliferam pela web ele demonstra que nem sempre religião , ciência e sabedoria são inimigos figadais. Lembrando que o livro é de antes da lei aurea. Smyth em vez de negar a ciência em nome de Deus acha que estudar o Universo é uma forma de tentar entender a seu Deus e assim reverencia-lo. Recentemente vi algumas paginas na web onde cidadãos do século XX alegavam que não seria a Terra um planeta e nem o Sol uma estrela a fim de sustentar a insustentabilidade de sua fé. E com o History Chanel sendo um canal onde assisto programas cômicos o futuro parece-me  bem sombrio...
             Nos tempos do Admiral M 17 habitava a finada constelação do  Escudo de Sobieski. Como já falei o seu livro não foi traduzido. Recomendo a todos aqueles que gostem de astronomia que estudem inglês...

                Fiquei satisfeito com o resultado de 44 exposições de 8 segundos em ASA 6400. E com não tinha grandes pretensões artísticas sequer processei as fotos no Deep Sky Stacker utilizando o Método HDR. Demora muito... ( veja foto que abre o Post)
1 frame de 10 segundos de exposição ASA 6400. 

                Gostei muito do resultado de uma única exposição ( nenhuma com mais que 20 segundos) em quase todos os objetos capturados durante a noite. São bem fiéis ao que eu tinha no visual.  Na verdade melhor.  O CMOS (sensor) da Canon é  mais eficiente que minhas pupilas velhas de guerra...
                A noite avança e o céu embora sem nublar vai ficando cada vez pior.  Cravo M 31 no Synscan. Andrômeda é impressionante. Baixa no horizonte e navegando pelos vapores luminosos da Armação ela ainda ( seu núcleo e bojo) se faz evidente mesmo pela buscadora. Mas após poucas exposições percebo que será perda de tempo insistir. Mesmo ela  carece de melhores condições para se obter detalhes nos braços.  Mas fico feliz que a fotografia capte M 32 . Esta não se apresentava visualmente de jeito algum.
1 frame 15 segundos ASA 6400

                Tendo em mente que a transparência era péssima aponto para Ngc 104. Ou Tuc 47. Este globular é o segundo globular mais brilhante dos céus. Conhecido como "uma estrela" desde a pré-história era um ideia razoável. Visualmente resolvo algumas estrelas em seu entorno. Faço algumas imagens...
1 frame 15 seg ASA 6400
                Já cansado me lembro que estrelas duplas são melhor diversão que fotos sem graça. E acabo visitando varias duplas que nunca tinha visitado. Acamar e Almach são fáceis e um bom passeio.  E 107 Aquário é uma delicada dupla que brinca com sua percepção de cor. A primaria é avermelhada e a sua companheira azulada. Mas conforme você se concentra em uma ou outra elas parecem trocar as cores. Sendo uma dupla mais apertada só a resolvi com minha 17 montada e uma barlow 2X.  No Bedford Catalogue ( o segundo volume do livro velho...) Smyth nos diz que é "Uma dupla extremamente atraente".  O trabalho de Smyth apresenta alem de nebulosas muitas estrelas duplas reunidas em seu catalogo.  Na verdade mais estrelas duplas que nebulosas. Estas em seu tempo eram mais curiosidades de natureza quase divina que objetos de estudo propriamente ditos.  Seriam demonstração dos "...Diversos Céus que ha no Céu. Uma demonstração da grandeza de Criador"...
Acamar 1 seg

Acamar 6 seg.

Almach

                Albireo é sempre um espetáculo . Deve ser a estrela dupla mais famosa dos céus.Ou deveria. Você já foi aAlbireo?  Uma pedra de âmbar e uma agua- marinha. Ou ametista.
                Quanto as Galaxias de Escultor eu tentei a sorte com Ngc 55. Não vi nada. Nem insisti muito. Seria perda de tempo.
                Ngc 55 embora conhecida de seu grande amigo John Herschel não foi incluída no Bedford Catalogue...
                No noite seguinte o churrasco , a cerveja da tarde e mais as nuvens não chegaram a impedir de tudo a observação. Mas lembrei que a umidade é um inimigo a ser respeitado.  Madame Herschel ( uma cabeça equatorial HEQ 5) começou a noite muito recalcitrante e dando diverso "paus" durante o alinhamento do "go-to". Depois de muitas malcriações visitei dois velhos amigos antes do tempo nublar de vez e eu entregar os pontos para o Balantines que olhava para mim desde a véspera...
Globular em Pavo

M 28


                Ainda insisti no menu "named stars" do Synscan de Madame por entre as nuvens. Fui a Diphda , Enif e mais algumas... É sempre bom para aprender novos caminhos pelo céu. Em outro livro antigo (Evening with the Stars de Mary Proctor) vi as sabias palavras de Thomas Carlyle :
" Why does not someone teach me the constelations, and make me at home in the starry heavens, which are always overhead and which I don´t half know to  this days?"
                Embora desnecessário vou dizer que nunca foi traduzido para o português.


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