segunda-feira, 31 de agosto de 2015

M 16 : Uma Modelo Fotográfica e uma Péssima Atriz



              M 16  é uma das imagens  mais icônicas da Astronomia . Uma série de fotos feitas com o HST (Telescópio Espacial Hubble)  deste DSO  são, provavelmente, as mais famosas fotos realizadas por este instrumento.  Em 1995 as imagens que mostram grandes pilares "negro nanquim"  agora famosos e chamados de  "Pilares da Criação" correram mundo.
                M 16 é um alvo fotográfico por excelência . A descrição de Messier da décima sexta entrada de seu catálogo não deixa duvidas sobre isto:
"( Observação em 3 de Junho de 1764) -  Aglomerado de fracas estrelas misturado com uma tênue luminosidade. Próximo a cauda da Serpente. Não longe do paralelo de Zeta desta constelação. Em pequenos telescópios o aglomerado parece ser uma nébula. "
                 
                Novamente a qualidade óptica dos equipamentos de Messier nos prega uma peça. Com pequenos telescópios ou com grandes binóculos (70 mm)  eu percebo apenas o aglomerado de estrelas . A nebulosidade só se apresenta para o Newton ( um refletor de 150 mm) e mesmo assim em locais de céu bem escuro.  Mesmo assim com visão periférica e de forma bastante discreta. Ainda mais discreta que na foto abaixo que consiste de uma única exposição de 30 segundos com ASA 3200 em noite Lua quase cheia...
                    

                O uso de filtros pode ajudar na observação visual e  filtros  narrow band" ( Oxigênio III) podem ajudar a Águia a voar mais alto (M16 também é conhecida como a Nebulosa da Águia devido ao seu contorno...) .  Sempre em céus bem escuros.
                Mas fotografias revelam mais facilmente sua natureza e mesmo com equipamentos modestos e céus não tão generosos você vai conseguir perceber a majestade desta que também é conhecida com de "Star Queen Nébula".
                A mais bela e exata  descrição de sua aparência fotográfica ( feita antes do Hubble...) é de autoria do Don Quixote da Astronomia , Robert Burnham , Jr.
                " Investindo bravamente no coração da nuvem se erguem monstruoso pináculos como uma montanha cósmica . O trono celestial   da " Estrela-Rainha"  ( Queen Star) em pessoa  , maravilhosamente silhuetada contra brumas de Fogo... Na vastidão do Universo  telescópios modernos revelam diversas vistas de beleza inolvidáveis , mas nenhuma talvez, que invoque com tanta perfeição a mais profunda essência de vastidão e esplendor celestial,  indefinível estranheza e mistério, o reconhecimento instintivo do vasto drama cósmico sendo encenado e de um supremo trabalho de arte  nos sendo revelado."
                A diferença entre sua visão com auxilio de fotografias e pela vista humana fica mais clara ainda ouvindo depois da descrição operística de Burnham a descrição feita no entrada de numero 6611 do New General Catalog elaborado por Dreyer; "  Aglomerado. Pelo menos 100 brilhantes e fracas estrelas. "  Parece-me que Dreyer acabou por dividir a estrutura que aqui  chamo de M16 em duas entradas. Ngc 6611 se refere ao aglomerado estelar . A nebulosa em si foi acrescentada posteriormente no  Index Catalog , um complemento do NGC. Foi assim batizada IC  4703.

              

                Quando se observa a Via Láctea percebe-se claramente o asterismo do Bule , que constitui o estrado que estrutura a constelação de Sagitário. O bico do bule é marcado por Alnasl  ( g Sag). A partir desta percebe-se que a agua no bule esta bem quente pois a fumaça que sobe vai deixando pelo caminho M 8 ( A nebulosa da Lagoa), M20 ( A Nebulosa Trífida) , M17  ( A Nebulosa Omega)e diversos aglomerados abertos . Em um  ponto mais distante desta bruma que sai do bico do Bule reside M 16.  Eu acho esta a melhor forma para se localizar M 16 é  justamente esta . Seguindo  Rio Galáctico  partir do bico do "Bule".
                De volta ao "vasto drama cósmico" os imensos pináculos que se erguem para o sensores digitais  no coração  de M16  são compostos  hidrogênio resfriado e poeira. São os ingredientes para a formação de novas estrelas . Estes pilares estão sendo lentamente erodidos ( acredita-se que devido a explosões de supernovas, talvez ,nem mesmo mais existam...)  e assim glóbulos de gás ainda mais denso vão sendo descobertos . Estes glóbulos possuem o acrônimo  EGG´s (para "Evaporating Gaseous Globules"). São os embriões de estrelas. Ngc 6611 é um dos aglomerado mais jovens conhecidos com menos de 5 milhões de anos. Muitas de  suas estrelas se encontram em um estado pré sequência principal. A evolução estelar em geral e em 6611 em particular já foi abordada aqui no Nuncius Australis . Este é um dos posts mais populares neste blog e pode ser visto clicando-se aqui...
                 

                Fotografar M16 é uma marco para qualquer astrônomo. Não posso deixar de dizer de como fiquei contente conseguindo registrar este em condições extremas de poluição luminosa. Acredito que isto demonstre de maneira inequívoca as características fotográficas deste DSO. Já o tinha observado em locais muito escuros e perceber os Pilares no interior da nebulosa é um imenso desafio mesmo sob céus muito escuros. Consegui vislumbra-los claramente apenas perto do Montenegro ( Ponto culminante do Rio Grande do Sul) Sob um céu Bortle 2 ou 3.   Em Búzios o aglomerado apresenta algumas estrelas e no Rio de Janeiro poucas. A Nebulosidade é um remoto desejo.
              As fotos apresentadas  são todas fruto de algumas variações no processamento de 20 Light Frames ( fotos) com exposição de 30 segundos com ASA 3200 realizadas em um céu urbano e em condições extremas de poluição luminosa ( Bortle 8) . Me surpreendeu a capacidade de captura de uma modesta câmera DSLR "low end" da Canon. No caso um T3 montada em foco direto em um Newtoniano de 150 mm. Foram utilizados diversos softwares no processamento das diferentes imagens. ( Deep Sky Stacker,  Maxim Dl 5 , o Photoshop CS5 , o Iris e o Noiseware ) 
                M16 é uma modelo fotográfica. Se revela quando vê uma câmera. Mas uma péssima atriz de teatro... 

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