terça-feira, 9 de agosto de 2011

Orvalho , Condensação e o Zero Absoluto

O Inimigo mais comum a perturbar o astrônomo amador durante a noite é a água. Menos comum é o uísque. De qualquer maneira é curioso que as pessoas se surpreendam que as coisas não permaneçam secas em noites claras e sem chuva.


Infelizmente as mesmas condições que levam a aquelas visões telescópicas estáveis, limpas e cristalinas ocorrem sob as mesmas condições atmosféricas que levam a formação de orvalho.

Na ocular primeiro se percebe que as estrelas diminuem de brilho e galáxias se tornam mais difíceis de perceber. Depois as estrelas mais brilhantes começam a desenvolver halos desfocados, brilhantes e coloridos ao seu redor. Uma rápida checada em seu sistema, com a ajuda de uma lanterna, vai revelar uma “neblina” se formando sobre todas as superfícies óticas. Em condições mais severas o telescópio começa a pingar água. Enxugar não adianta já que mais água se condensa no momento que você para. Tipo secar gelo.

Em geral é neste momento que o observador se dá por vencido. E o uísque que falei entra em cena.

Mas é possível, repito: é possível, manter suas lentes e espelhos cristalinos mesmo sob severas condições de condensação. Só é necessário que você compreenda o inimigo e tomar as contramedidas necessárias.

O orvalho não “Cai” do céu. Por isto também pode ser chamado de condensação. Não é tão poético, mas é exatamente isto. Ele se condensa do ar ao redor de qualquer objeto que esteja mais frio que o ponto de condensação do ar. O ponto de condensação depende da temperatura e da umidade do ar. Quando a umidade atinge 100% o ponto de condensação é igual ao da temperatura do ar. Em níveis mais baixos de umidade o ponto de condensação é mais frio que a temperatura do ar.

Malandrinho vai dizer: - Mas o meu telescópio não pode ficar mais frio que o ar. Ele estava mais quente quando eu o trouxe para o quintal. A segunda lei da termodinâmica diz que isto é impossível.

Se fosse verdade o orvalho não seria problema. Só a chuva.

Mas malandrinho falou besteira.

Objetos realmente tentam atingir a temperatura ambiente e então permanecer lá. Como previsto pela tal da segunda lei.

Mas telescópios olham para bem longe e trocam seu calor não só com o ar ao seu redor. Eles também trocam calor com objetos distantes, através de radiação. Aliás, a temperatura do cosmic back ground é pouco acima do zero absoluto. Quando você olha para o céu noturno qual é a temperatura em que as coisas devem se estabilizar? Entenderam. Eis a Segunda Lei da termodinâmica...

Com isto fica bem claro que a única forma de se manter livre do orvalho é mantendo suas superfícies ópticas acima do ponto de condensação.

Há diversos sistemas. Eu gosto particularmente de ter um pequeno secador de cabelos por perto. Ou poder observar em dias de baixa umidade. Manter o telescópio com tampas ajuda. Embora não garanta já que as tampas não o selam a vácuo e é do ar que se condensa o orvalho. Outra coisa que embora não seja muito efetiva é mantê-lo o mais baixo possível (o espelho). O ar mais próximo ao solo tende a ser mais quente.

Outra boa opção é observar de um lugar coberto e cercado, um observatório, mas isso não é para todos. Mas o uso de um guarda sol, da mesma forma que protege do sol, pode te proteger do “frio universal”. Termômetros embaixo de um guarda sol têm leituras de até 6º Celsius mais quentes que termômetros expostos durante a noite.

Um truque bom para refratores é esticar o “dew cap” com Cartolina ou cinefoil. (uma espécie de papel alumínio preto).

Quanto às oculares vale o mesmo. As mantenha tampadas. E no bolso. Seu corpo as esquenta.

E lembre-se o secador de cabelos...Existem os chamados "dew heaters" , que se parecem com ventoinhas de computadores com uma resistencia. São comuns em locais onde o orvalho é gelo . Ou seja o ponto de condensação é abaixo de zero. Raros no Brasil. Mas um belo brinquedo para se construir...



E não deixe ela ( a condensação) se instalar.

Depois fica difícil reverter o quadro.

Um comentário:

  1. Obrigado pela dica. Muito interessante esta postagem, fácil de entender e de linguagem deliciosa de se ler. Gostei, parabéns

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