terça-feira, 18 de abril de 2017

Ngc 4526: Uma Gálaxia Quase Perdida

              

                  Costumo utilizar o Stellarium (um misto de carta celeste com programa planetário) para organizar minhas sessões observacionais. Suas versões mais atuais parecem ter passado por uma maquiagem a fim de se apresentarem menos formais e mais atraentes especialmente aos mais jovens e/ou aos iniciantes. Desta forma diversos do DSO´s apresentados  são nomeados com apelidos clássicos , pomposos ou chamativos.
                Ngc 4526 é um destes objetos .  Enquanto passeava pelo aglomerado de Galáxias de Virgem e buscava por novidades fora do catalogo Messier me deparei com “ A Galáxia Perdida” (The Lost Galaxy). O título não me era conhecido e tão pouco a galáxia. Não sabia de onde o Stellarium tirou o belo e misterioso apelido.
                Mistério deve ser a palavra-chave por aqui. Venho assistindo uma “nova” série no Netflix. Um belo e misterioso conto de terror. Penny Dreadful. Em uma mistura de terror, mistério, poesia e cenários vitorianos que mostra a busca de Sir Malcolm Murray (um explorador inglês e proprietário de um belo refrator que decora seu escritório), Vanessa Ives (uma médium e uma beleza...) e Ethan Chandler (um pistoleiro americano) por sua filha Mina sequestrada pelas forças do mal. Isto deve ter me influenciado em ficar encantado com a possibilidade de buscar por uma “Galáxia Perdida”.
                Não bastasse a sincronicidade destes eventos em um dos episódios Ives se encontra com Frankenstein (ele também participa da série e tem claro parentesco com Ngc 4526) e este cita a abertura de um de meus poemas favoritos de Blake (Auguries of Innocence) que possui claro caráter astronômico (Blake embora muito esotérico é também um profundo entendedor dos mistérios do universo...): 
                “To see a World in a Grain of Sand / And a Heaven in a Wild Flower
                  Hold Infinity in the palm of  your hand  / And  Eternity in an hour”
                Não faltassem coincidências sem nada a ver com as leis fundamentais do universo na minha busca por Ngc 4526, “A Galáxia Perdida”, ela foi localizada por um erro do Synscan (Uma espécie de computador de bordo de minha cabeça equatorial) de Mlle. Herschel. Pedi para esta buscar por M 49 e Ngc 4625 apareceu centralizada na ocular de 17 mm.  E assim a “Galáxia Perdida” foi achada.  Mas é importante lembrar que ela estava entre os objetivos da missão exploratória pretendida.
                Embora chamada de “A Galáxia Perdida” no Stellarium Ngc 4526 é extremamente brilhante e fácil de ser localizada. E como ao buscar por informações sobre esta em meus alfarrábios não encontrei ela listada com este belo e misterioso apelido no “Deep Sky Companions: The Hidden Treasures “ de Steve O´Meara  fiquei com a pulga atrás da orelha. Me parecia muito pouco provável que O´Meara (que assim como eu adora “batizar” DSO´s) deixasse isto passar. Na verdade, O´Meara aplica a mesma um outro apelido. “ The Hairy Eyebrow Galaxy” (A Galáxia da Sobrancelha Cabeluda). Fui em busca da verdade. Ou pelo menos de alguma lenda para justificar o título.
                Existem duas características que são associadas as lendas e que são antagônicas entre si.  A primeira nos diz que “ Por trás de toda lenda há um fundo de verdade”. E a segunda fala “ que as lendas são mentiras que ganharam a autoridade do tempo”.
                E como boa lenda a raiz da confusão sobre Ngc 4526 remonta há muito tempo. Nada em escala astronômica mas a origem já seria velha quando nasci. E eu nasci no século passado.
                Tudo indica que a “Galáxia Perdida” original não é Ngc 4526. O nome foi primeiramente utilizado por Leland S. Copeland em um artigo escrito para a Sky and Telescope de fevereiro de 1955. A matéria chamava-se “ Adventures in the Virgo Cloud”. E a galáxia por ele assim chamada foi Ngc 4535.  Esta encontra-se apenas meio grau ao norte de 4526. E é um alvo bem mais difícil. Especialmente visualmente.
                Burnham em seu “Handbook” confirma:
                “... Estas são as galáxias Ngc 4526 e 4535, a primeira uma elíptica bastante extensa ou um sistema S0 com um centro brilhante, a outra uma grande espiral com baixo brilho de superfície, medindo 6´X4´.A partir de sua enevoada e fantasmagórica aparência em telescópios amadores esta foi batizada “The Lost Galaxy” por L.S. Copeland”.
                Seguindo a investigação localizei a fonte original. A edição de fevereiro de 1955 da “Sky and Telescope”. Ngc 4526 mereceu uma investigação “detetivesca”.  Abaixo a foto original dos suspeitos. Baixei todas as “Sky and Telescopes” para o ano de 1955. Sensacional...
Harvard Observatory - sky and  telescope 1955.

                Para não deixar pedra sobre pedra ainda localizei um post no fórum “Cloudy Nights” onde um dos membros levanta a hipótese de Ngc 4526 ser chamada em mais de um atlas digital (Stellarium e o “The Sky””) de “The Lost Galaxy” devido a habitar entre duas estrelas de 7a magnitude que podem disfarçar sua presença ou natureza. Isto explicaria sua presença no “Hidden Treasures” do O´Meara. Este costuma apresentar objetos que mesmo não sendo impossíveis a telescópios amadores podem esconder sua natureza devido a sua posição no espaço.
                É uma descoberta de William Herschel e foi primeiramente observada em 18 de abril 1784. Isto também é alvo de controvérsias. Ha fontes que falam em 13 de abril. Nada a respeito de 1 de abril...
                “Brilhante, bem grande, bastante alongada, muito mais brilhante no centro. Localizada entre duas estrelas de 7a magnitude. (H I- 31= H I – 38) ”.
                Podemos perceber que Herschel a catalogou duas vezes. Entradas repetidas também podem ter gerado alguma confusão a respeito de quem seria a “Galáxia Perdida”. A mesma é membro da lista chamada de “ 400 de Herschel” que reúne as mais interessantes e acessíveis entradas do enorme levantamento de nebulosas realizado por William (com o auxílio luxuoso de sua irmã Caroline) Herschel.
                Ngc 4526 é um alvo bastante brilhante e facilmente percebido mesmo com visão direta. O fato de habitar entre duas estrelas de 7a magnitude ao contrário de a tornar um “Tesouro Escondido” a faz fácil de localizar e mais fácil ainda de se identificar entre o mar de galáxias que habitam a região.
                James Mullaney em seu guia fundamental para aqueles que decidirem encarar o desafio de observar “Os 400 de Herschel” concorda com minha opinião:
                “...Felizmente, como indicado por Herschel em sua descrição, acontece desta habitar entre duas estrelas de 7a magnitude no primeiro campo (estas estrelas habitam a Via-Láctea), ajudando a distinguir de suas vizinhas”. “
                Os campos em Virgem são ricos em pequenas condensações e podem ser bastante enganadores. M 49 (que era meu objetivo inicial) reside a menos de 1o de Ngc 4526 e apesar de ser um dos “monstros” do aglomerado não brilha muito mais que nossa galáxia.
                Ao observa-la rapidamente percebi sua aparência de estrela enevoada. Seu núcleo é realmente muito brilhante. Galáxias lenticulares são amigas do amador. Costuma ter um brilho de superfície alto e núcleo bastante evidente.

                Como já falei cheguei até Ngc 4526 por um descaminho de meu sistema de Goto. Posteriormente a visitei com mais ‘”Fair play” e a percebi navegando a partir de Rho Virginis com meu 15X70. Mesmo com o uso de binóculos (pela buscadora 8x50 isto não é tão obvio, mas seu núcleo se apresenta) ela revela sua natureza nebulosa. As duas estrelas escudeiras ajudam bastante para saber onde se concentrar com sua visão periférica.  M 49 é também um belo marco para se localizar Ngc 4526. A galáxia é tão brilhante que em um primeiro momento cheguei a considerar ter chegado a M 49.
                Nossa galáxia nem tão perdida realmente apresenta alguma semelhança com o monstro incompreendido de Mary Shelley. Parece uma concha de retalhos em sua estrutura.
                Atualmente Ngc 4526 é classificada como uma galáxia lenticular mista (SAB 0). Isto implica em tratar-se de uma galáxia elíptica aonde se suspeita de uma barra central, com braços típicos de uma espiral clássica e um núcleo amorfo levemente elipsoidal.  Na foto do Hubble pode se perceber todas estas estruturas. Ainda que umas mais que as outras.  Uma área central de caráter lenticular com uma espiral empoeirada ao seu redor.  Esta poeira empresta o apelido de “sobrancelha cabeluda” dada por O´Meara. Nada disso é percebido visualmente mesmo com grandes telescópios amadores.
                Ngc 4526 é sempre lembrada por duas supernovas recentes que em astro fotos por efêmeros momentos a emolduraram entre suas duas estrelas escudeiras.
Ngc 4526 com a supernova 1994d. HST.

                Uma delas em 1994 (1994d) foi um evento do tipo Ia e chegou a atingir 11.8a magnitude. 
                Anteriormente Ngc 4526 era considerada a uma distância semelhante a M 49 fazendo parte do sub aglomerado sul de Virgo. Como supernovas são do Tipo Ia são uma das velas padrões mais precisas conhecidas a nossa galáxia se aproximou de nós cerca de 15 milhões de anos luz de nós. A distância aceita para a região de M 49 no aglomerado de Virgo é de 55 milhões de anos luz. Ngc 4526 atualmente habita a modestos 40 milhões de anos luz. Aceito estes valores ela possui cerca de 68.000 anos luz de extensão.
                Ngc 4526 é um alvo nobre e extremamente interessante. Fácil em se falando de galáxias.


                Uma galáxia nem tão perdida assim... 

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