quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Galáxias e Pequenos Telescópios

           Observar galáxias visualmente com pequenos e médios telescópios é um exercício de paciência e tenacidade.
                Algum treino e técnicas serão de grande valia para a o neófito.
                Para aqueles que compraram seu primeiro telescópio (e imaginando que este se trata de um refrator de até 90 mm de diâmetro) recomendo iniciar seu treinamento buscando por outros DSO´s até que tenha desenvolvido sua capacidade navegacional e se entendido bem com sua montagem (especialmente se esta for equatorial). Outra coisa fundamental é possuir uma buscadora ótica de qualidade e com o máximo de aumento possível. Recomendo que utilize uma buscadora 10X50 mm. Ou seja: uma buscadora com uma lente de 50 mm de diâmetro e com uma magnificação de 10X. A menos que você consiga um prisma eretor é importante também acostumar-se com observar tudo invertido. Em cima será embaixo e direita será esquerda.
EU VERIA O JARDIM MUITO MELHOR”, disse Alice para
si mesma, “se pudesse chegar ao topo
daquele morro, e cá está uma trilha que leva
direto para lá… pelo menos — não, não tão
direto…” (depois de seguir a trilha por alguns
metros e dar várias viradas bruscas)
“mas suponho que por fim chega lá. É interessante
como se enrosca! Mais parece um
saca-rolha que um caminho! Bem, esta volta
vai dar no morro, suponho… não vai! Vai
dar direto na casa de novo! Bem, neste caso
vou tentar na direção contrária. ”
                                                         Alice Através do Espelho (Lewis Caroll)  

                Depois de aprender a caminhar no País do Espelhos que se esconde dentro de sua buscadora ficará bem mais fácil localizar alvos tímidos como galáxias. Mesmo que você possua uma montagem equipada com Go-To.  Galáxias, muitas vezes não se apresentam imediatamente ao observador. E desta forma desenvolver suas habilidades de “star-hooping” (pulando estrelas) será fundamental para localizar estes universos-ilhas.  Você geralmente irá começar o passeio junto a sua buscadora e depois de determinado ponto seguirá viagem utilizando sua ocular de maior campo. Atualmente utilizo ou minha 40 mm ou minha 26 mm.
                Quando caçando por DSO´s em geral e por galáxias especificamente telescópios terão uma função diferente de quando buscamos por imagens da lua, planetas ou paisagens terrestres. Nestes casos seu principal propósito é ampliar o detalhe distante. Com DSO´s terá como principal missão (mas não somente esta...) coletar luz para seus olhos pouco sensíveis.  Ao observarmos galáxias o nosso problema não é que estas sejam muito pequenas.  É que elas são muito “escuras”.  
                Observar DSO`s inclui um repertório de técnicas e normas que no caso de galáxias devem ser conhecidos e respeitadas à risca.
                Brilho do Céu -  O fator isolado mais importante para a observação de galáxias (e dso´s) é a poluição luminosa. Passei anos tentando observar M 83 do Rio de Janeiro sem nenhum sucesso e bastaram alguns minutos para localiza-la em diversos locais de céus mais “limpos”. Não que seja impossível, mas o que você irá perceber será como um espirito assombrando sua ocular.  Alguns truques podem ajudar aqui. Um é tentar observar os objetos sempre o mais próximo a zênite possível. Observar depois de 00:00 e durante a madrugada também ajuda um pouco já que muitas luzes externas são apagadas durante a madrugada.
                A lua é uma inimiga terrível de DSO´s.
                Adaptação ao escuro- O ser humano é um ser diurno apesar da boêmia ser responsável por algumas de suas mais belas criações. E assim o olho humano funciona de forma muito mais eficientes com níveis de luminosidade altos e estando-se sóbrio. Sem entrar em detalhes sobre a fisiologia do olho humano vamos deixar claro que nossa capacidade visual noturna melhora com a adaptação ao escuro. Depois de quinze no escuro total você vai ver melhor no escuro (até seis vezes mais ou duas magnitudes...). Mas as coisas ainda continuarão melhorando por mais uma hora e quinze minutos. Inicie sua observação com alvos mais fáceis e depois ataque galáxias tênues e inicialmente invisíveis para sua visão.
                Visão Periférica – Uma técnica fundamental para perceber objetos muito escuros ou tênues. Olhando diretamente para eles a luz destes objetos vai recair sobre a fóvea centralis (a parte mais central de sua retina) a qual possui muitas células cone. Estas embora percebam cores não se dão bem com baixos níveis de luminosidade. Por isto não percebemos cores em nebulosas e galáxias. Mas evitando-se olhar diretamente para os objetos que observamos (olhando de rabo de olho...) conseguimos perceber estruturas com baixíssimo nível de luminosidade. Esta técnica faz com que a luz destes tênues objetos recais mais nas bordas de retina aonde se concentram bastonetes. Estas são células que percebem luminosidade. Mas não cor. Por isto galáxias, quase sempre, serão imagens em escala de cinza para observadores visuais. Mesmo em telescópios bem grandes... A quem interessar possa pesquise por “rodopsina” no Google.
                Aumento ótimo-  Reza a lenda que pequenas magnificações funcionam melhor para DSO´s. Afinal com pequenos aumentos a pouca luz destes objetos será concentrada em uma área menor e assim aumentar seu brilho de superfície. (a quantidade de luz atingindo x milímetros quadrados em sua retina.) Mas estudos recentes nos dizem que nem tudo é o que parece ser. E assim vamos aprofundar um pouco o assunto.
                Ao contrário de câmeras ou outros sistemas puramente eletrônicos, químicos ou mecânicos os olhos perdem resolução em baixos níveis de luminosidade. É por isto que você não consegue ler a Astronomy Magazine no escuro embora possa ver a revista mesmo que sua retina dilatada deveria, teoricamente, resolver as letras melhor que durante o sol de meio dia. Estudos revelam que o olho humano pode resolver detalhes de quase 1 arcmin (1/60 de grau) em luz brilhante, mas não pode revelar detalhes menores que 20 ou 30 arcmin (1/3 a ½ de grau) em condições de baixa luz. Uma área quase equivalente a lua no céu. Assim detalhes ou mesmo a existência de alguns dsos só pode ser registrada se este forem ampliados até algumas dezenas de minutos de arco.  
                O recado é simples. Embora você use sua ocular com o maior campo disponível para localizar suas galáxias você poderá ter que acreditar que seu “star-hooping” foi eficiente e trocar esta por uma com um campo mais modesto e tentar ver o que você não via antes... Uma boa ideia é possuir uma boa ocular com zoom. E as boas são caras...

                 Valores de magnitude podem enganar. Procure pelo brilho de superfície das galáxias que você tem em mente observar para imaginar quão duro será o teste.
                “Last but not least”: Galáxias em espiral de perfil para nós (edge on) são mais facilmente percebidas que galáxia de “frente para nós” (face on). M 33 por exemplo é uma galáxia de 5,7a magnitude. Mas de frente para nós e cobrindo uma área de mais de um grau de firmamento apresenta um brilho de superfície baixíssimo e é um alvo bastante difícil de ser observado. Seria como o brilho de uma estrela de 6a magnitude se espalhando por uma área com o dobro do tamanho da lua cheia...
                P.S. – Faça seu dever da casa e estude os mapas que você conseguir em programas planetários. Localize padrões em estrelas que indiquem que você chegou ao seu destino.
                Agora gostaria de apresentar uma lista de galáxias que são mais simpáticas a observação por pequenos aparelhos e o caminho das pedras para que você não só chegue como as observe de fato.  



               M 31-  Grande Nebulosa de Andrômeda. É certamente a galáxia mais facilmente observável do céu. Seu núcleo é facilmente percebido a olho nu mesmo em locais bastante poluição luminosa (bortle 6 ou 7). Em locais escuros a nebulosidade cobre uma área enorme mesmo com vista desarmada. Pelo telescópio em locais escuros o núcleo é muito brilhante e percebem-se faixas escuras entre seus braços que se apresentam claramente com o uso de visão periférica. Mesmo com visão direta se consegue detalhes.   Localizar Andrômeda é bem fácil.  Primeiro ache o “Quadrado de Pégaso”. Uma de suas estrelas é Alpha Andrômeda. A constelação em si parece como uma cauda se esticando do quadrado em direção a nordeste. Em Andrômeda Localize Mirach e duas estrelas menos brilhantes (Upsilon e v And) que marcam a “cintura de Andrômeda”. Seguindo a corrente você irá perceber uma pequena região enevoada. Ela será obvia pela buscadora. Este é seguramente o alvo mais fácil desta lista. Como cobre uma área muito grande se você utilizar muita ampliação é possível que não consiga ver todo o conjunto da obra. Seu núcleo suporta ampliações absurdas e é mais fácil de se perceber que diversos globulares.





           M 33     - A galáxia do Triangulo.  Esta demanda céus muito escuros. Cobrindo também uma área muito grande do céu muitas vezes é difícil percebe-la com muita magnificação. Acho M 33 um alvo binocular difícil e um alvo telescópico mais difícil. Em locais escuros ela se revela com bastante detalhe usando-se visão periférica. É possível perceber diversas regiões HII nos braços da mesma que possuem entrada no catalogo Ngc e IC só delas. IC 133 é o mais fácil deles. Para localizar M33 ache Mothallah (Alpha Triangulo) e Mirach calcule a posição dela em relação a estas estrelas e tente a sorte. Partindo-se de Mothala existe uma estrela de 7a magnitude que indica o caminho.... Estude bem o mapa e boa sorte.



               

      
 Ngc 5128- Em Centauros. Facilmente percebida pela buscadora. Geralmente parto de Ômega Centauro (o Globular mais brilhante e que você deve estar localizando até mesmo vendado antes de tentar galáxias...) e seguindo uma linha de fracas estrelas rumo norte ela estará lá. Revela muitos detalhes e suporta bem magnificação. Sua faixa de poeira é muito evidente mesmo em binóculos grandes (15X70). Um espetáculo nos céus austrais.


   

                                                    

                                                                             
                                                                     
  Ngc 4945- Esta é fácil de achar. Localize z centauro (uma estrela dupla) e com seus dois membros em quadro e Ngc 4945 estará lá. Muita visão periférica e hiperventilação (respirar profundamente durante vários segundos antes de olhar na ocular...) poderá ajudar a separar esta do fundo do céu. Sua extremidade leste é mais brilhante que a oeste.   










Ngc 55 – Localizada próxima a Ankaa (Alpha Phoenix) Ngc 55 é uma bela galáxia que se apresenta de perfil para nós. O que, em tese, facilita as coisas. Mas atenção e céus escuros vão ajudar muito.  A partir de Ankaa siga um sinuoso caminho de fracas estrelas (mas em um campo sem muitas estrelas...) que lhe levará até o destino. Assim como Ngc 4945 uma de suas extremidades é mais brilhante e mais facilmente percebida.









Ngc 253- A grande galáxia de escultor. Localizada quase exatamente entre Diphda (Beta Ceti) e Alpha Sculptor e com Ngc 188 (um obvio globular) bem próximo Ngc 253 é um alvo relativamente fácil. Só se revela para a buscadora em locais escuros. Mas tendo-se estudado bem a área em mapas bem ampliados vai se perceber um pequeno triangulo de estrelas sobreposto a galáxia e que denuncia sua posição.







M 83- A galáxia do Cata-Vento austral. Localizada na fronteira entre Hydra e centauros é uma galáxia de frente para nós.  A navegação até a mesma não é muito fácil. Ela reside entre Menkent (q Cen) e y Hydra . Partindo-se de Menkent passa-se por algumas estrelas mais brilhantes rumo ao norte. Seguindo-se em direção a Hydra em uma região bem pobre de estrelas em campo se encontra a galáxia. Pouco mais que uma estrela fora de foco. Com atenção e em céus mais escuros se percebe a nebulosidade ao redor. Com mais ampliação percebe-se traços de seus braços. Um mais evidente que o outro. Foi incrível Lacaille descobrir este DSO com uma luneta de apenas 12,5 mm.   É o alvo mais difícil no catalogo Lacaille e o ultimo que observei. Céus escuro são importantes para pequenos instrumentos.  




Não poderia deixar de citar M66 , M65 e M 104 como outras belas e "fáceis" galaxias para possuidores de pequenos telescópios  e que estejam se iniciando nesta nobre arte. Estas até mais fáceis que algumas das galaxias acima presentadas. Mas achei importante apresentar diversas representantes dos céus austrais que embora acessíveis a pequenos aparelhos ficam de fora de muitas listas.
Depois de estes alvos tentar a sorte no Aglomerado da Virgem será um passo óbvio. A região pipoca em galáxias e diversas destas são até mais fáceis que algumas das aqui apresentadas. Mas com tantas galáxias seu “starhooping) deverá ser afiado. Pois em campo com poucas estrelas e muitas galáxias pode ser difícil de saber quem é quem. E mesmo em campo tão rico em galáxias percebe-las pode ser bem mais difícil que se supõe.  Você vai utilizar técnicas de “galaxyhooping”.
A Observação visual de galáxias em pequenos aparelhos é para aqueles que realmente gostam de DSO´s. será difícil achar e não espere detalhes (ao menos na maioria das galáxias).

Galaxias são também interessantíssimos alvos fotográficos e através da astrofotografia revelam detalhes muitas vezes inimagináveis junto a pequenos ( e mesmo grandes) telescópios.

Todas as galaxias aqui apresentadas já foram apresentadas de forma mais aprofundada no Nuncius Australis. Uma rápida pesquisa pode levar aos respectivos posts para aquele que assim desejarem.  




                 
               




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