sábado, 2 de abril de 2011

O Catalogo J.E.S.S. de Nebulosas e Objetos Estelares

Capitulo 1- Silvano Silva e seu Caminho até o Brasil


A história da chegada de Dom João do Silvano e Silva até sua chegada ao Brasil foi um pouco diferente da lenda contada no intitulado Catalogo J.E.S.S. de objetos estelares.

Na verdade ele nunca teve nenhum parentesco com o autor e suas aventuras européias são muito mais obscuras do que pode parecer no primeiro tratamento.

Após visitar diversas paróquias de Lisboa localizei o que parece ser o registro de seu batizado.

Ele nasceu em 1734. Em Lisboa. Seu pai chamava-se Manuel Silvano e Silva.

Fidalgos o rapaz parece realmente ter seguido o caminho do seminário. Era um caminho comum aos segundos filhos naqueles tempos.

Encontrei registros dele em visita ao Vaticano onde se reunem todos os documentos relativos a Congregação de Seminarios e atas de suas reuniões.

O Papa Bento XIV criou a Congregação dos Seminários, em prol das vocações eclesiásticas. O Papa, que se tornaria Bento XII, é o único Papa descendente da família real portuguesa. Isto é a única razão que encontro para encontrar o nome de Silvano e Silva em uma das atas da Congregação. A vocação de Silvano e Silva é altamente discutível como já foi apresentado no primeiro tratamento desta pesquisa. Só como uma curiosidade: O Papa Bento XII só assume este nome posteriormente. No momento de sua ascensão a trono de Pedro ele se denominou Bento XIV, pois acreditava ser o numero 13 negativo.

Finalmente a relação deste com Messier parece ter ocorrido de fato. São diversos os textos encontrados em posse de meu avô onde o próprio Silvano Silva discorreu sobre estes encontros.

Ele escreve em um de seus diários (um dos mais bem conservados apesar de ser um dos mais antigos: “... Messier estava à procura do cometa de Halley, e o procurava todas as noites. Ele acreditava piamente no retorno deste previsto por Halley para ocorrer ainda naquele ano. Isto era apenas uma hipótese naqueles tempos. De qualquer forma ele trabalhava para o Sr. Joseph Nicolas Delisle, astrônomo da marinha. Ele fora empregado por sua bela caligrafia e acabou sendo instruído no uso de telescópios e afins. Estava ele buscando o cometa de Halley na região prevista para seu retorno quando encontrou uma pequena nebulosidade a qual acreditou ser o cometa. Era o dia 12 de setembro do ano do Senhor de 1758.

Como astrônomo precavido que era e ciente de seus deveres para o Senhor Delisle ele nada anunciou e continuou suas observações por mais alguns dias. Logo percebeu que aquele cometa não se movia em relação às estrelas de fundo. Não era um cometa e sim uma nevoa que habitava aquele lugar do espaço. Esta nevoa viria e se tornar o objeto Messier numero 1 ou M1.”

Diversos outros trechos deste diário descrevem as descobertas de Messier.

Parece bastante claro seu convívio bastante intimo com Messier durante o período que compreendeu entre 1758 e 1765. O que compreende a elaboração da primeira parte do catalogo Messier. Ou seja, até o objeto M45. Na verdade a primeira versão só foi publicada em 1771.

Aqui apresento alguns trechos selecionados dos diários deste período. Apesar de desorganizado e afeito as bebidas como foi fácil perceber pelas notas manchadas de vinho, Dom João era um escritor compulsivo. Um habito que ele não perdeu durante toda sua vida.

“Reuníamos-nos sempre em Clugny (Faziam observações quase diárias do observatório da marinha situado em uma torre no hotel de Clugny em Paris. O prédio fora construído em 1480 sobre fundações de uma ruína romana de sec. IV. Era perfeito, escuro e com um horizonte livre em todas as direções.). O maior objetivo de Messier era localizar cometas.”

De fato Charles Messier criou a profissão de caçador de cometas. Uma profissão que poderia ser considerada um “trade Mark” do iluminismo. A sua especialização é precursora das teses atuais. Quase um conquistador do inútil. É importante lembrar aqui que o catalogo por ele organizado foi feito com o objetivo de registrar áreas nebulosas no céu para que estas não fossem confundidas com cometas. Os cometas eram seu santo graal e o objeto mais puro. Estes homens estavam descobrindo que cometas circulavam o sol. De uma forma diferente dos planetas. Estes pequenos blocos de gelo eram verdadeira amostra do ignoto.

“esperávamos o retorno do Cometa descrito por Halley em 1682. Já passava do natal de 1758 e Messier procurava pelo cometa conforme indicações do Sr. Delisle. Nada acontecera desde então. A nebulosa observada por Messier me encanta. Extremamente tênue. Parece uma concha pequena.”

Silvano Silva se refere constantemente a esta pequena nébula. Ele na verdade era obcecado por estas pequenas nebulosas que não se provavam cometas. Suas anotações levavam a crer que ele conhecia diversas delas antes mesmo do catalogo Messier começar a ser organizado. Na verdade é bastante claro que ele já conhecia claramente a natureza nebulosa de diversos objetos que viriam a pertencer ao catalogo Messier. Objetos como a grande nebulosa de Orion, O Presépio em Orion e diversa outras nebulosas conhecidas desde a antiguidade são citadas freqüentemente em seus registros. Ele também conhecia diversos trabalhos pioneiros e catálogos pouco conhecidos. O pequeno catalogo que Halley escreveu em Santa Helena e o Catalogo também austral desenvolvido pelo Abbe Lacaille (como ele sempre se refere a Nicholas Louis de La Caille (1713-1762)) lhe eram conhecidos.

( Tudo indica que ele só viria a conhecer o Cataloga de Lacaille anos mais tarde e por um caminho surpreendente.)

Eram tempos curiosos. Enquanto a inquisição espanhola ainda torturava pessoas idéias cientificas tinham ampla difusão entre certas classes em Paris.

Passaram-se dois anos antes que Messier registra-se uma nova entrada em seu catalogo. Na verdade nem catalogo ainda. Esta idéia só iria se firmar com o objeto conhecido como M3.

“... Era a madrugada de 3 de maio de 1764. Estávamos com frio. Messier notara esta “manche” arredondada. Ele a registrou assim :

3. 13h 31m 08s(202d 51´19´´)+29d 32´57´´ (Maio 3, 1764) - Nebulosa descoberta entre Bootes e um dos Cães de caça de Hevelius [Canes Venatici] , não contém nenhuma estrela. Seu centro é brilhante e vai enfraquecendo em direção as bordas. Ela foi avistada com um telescópio de 1 Pé.”

O texto é quase idêntico ao encontrado no catalogo Messier original. È praticamente uma tradução exata para o português do catalogo Messier. Foi neste momento que comecei a acreditar na relação entre ambos.

Curiosamente esta entrada no catalogo Messier é uma espécie de pedra fundamental. É a primeira descoberta original de Messier. Naquele momento descrito por Silvano Silva o homem registrava o septuagésimo sexto objeto de céu profundo registrado por olhos humanos ( com e sem telescópios). Ainda que na época fossem apenas cinqüenta e cinco sendo outros vinte e um “objetos perdidos”. Foi apenas a partir deste terceiro objeto (M3) que Messier passou a se dedicar de uma forma sistemática para a localização destas nebulosas que poderiam confundir o astrônomo de seu tempo na caça por seus tão fundamentais cometas. Na verdade foi um ano onde Messier foi extremamente ativo e há diversos registros nos diários de Silvano Silva referentes ao ano de 1764. Entre maio e o fim do ano Messier registrou quarenta entradas em seu catalogo.

“Messier finalmente percebeu a necessidade de organizar as descobertas realizadas em Clugny. Está organizando todas as nebulosas localizadas no ano passado e com isto acredito termos acrescentado cerca de 20 novas nebulosas aos céus.”

Este trecho demonstra a extrema proximidade entre ele e Messier. E seus cálculos eram bem precisos para um tempo onde o saber não estava tão à disposição. Na verdade no ano de 1764 Messier descobriu 18 novos objetos de céu profundo nunca antes avistados. Sendo esse catalogados como M3,M9,M10,M12,M14,M18,M19,M20,M21,M23,M24,M26,M27,M28,M29,M30,M39 e M40.

Logo após o ano de 1765 os escritos apresentam um vazio. Parece ter sido um período conturbado para Silvano Silva e em sua ultima entrada podemos perceber certa urgência:

“... parto de Paris. Sentirei falta de Clugny. E de nada mais. Messier me presenteou com uma bela cópia de seus achados. Foi feita por uma copista de altíssimo nível e acredito não possuir ninguém mais uma cópia deste material. Vou à busca de uma saída...”

Não sei o que de fato se passou no decorrer dos próximos três anos. Entre os diários e notas que me chegaram não há nenhum registro dos caminhos percorridos por Silvano Silva.

Mas fica claro que ele deixou Paris com uma cópia das descobertas de Messier até o ano de 1764. Isto seria fundamental no desenvolvimento do Catalogo José Eustaquio e Silvano Silva de Objetos Nebulosos.

Este material não seria disponível até o ano de 1771. Neste ano Messier apresentaria a primeira versão de seu catalogo com as entradas de M1 a M45. Como já sabemos Silvano Silva conhecia todos os objetos do catálogo até a entrada de numero 40. Os outros cinco objetos incluídos por Messier nesta primeira versão eram conhecidos desde a antiguidade e certamente conhecidos por Silvano Silva. Com isto ele se tornou dono da primeira cópia do Catalogo Messier. E isto será de fundamental importância para a criação do Catalogo J.E.S.S. de Nebulosas e Objetos Estelares.

O próximo registro do padre só ocorre em 1768. E já no Brasil. Mas precisamente na Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Um registro de Casamento na Paróquia de Santo Antonio é o primeiro indicio da presença Dom João Silvano e Silva nas terras do Brasil. Santo Antonio é a região hoje conhecida como a Lapa. 1 de Maio de 1768.



“ ...o aqueduto foi inaugurado a mais de uma década e se encontra em excelente estado . Domina a paisagem e liga o santo Antonio a Santa Teresa, esporadicamente vou ao convento. “

Este pequeno trecho foi extraído de um texto mais longo onde alguém parece descrever a paisagem na região nos meados do Sec. Xvii.. Foi encontrado por uma tia minha eue foi reclusa no Convento Parece-me muito com a caligrafia de Silvano Silva. E os Arcos da Lapa foram inaugurados em 1750. Isto permite estabelecer com certeza a presença de Silvano Silva no Rio em 1768.

Acredito que os escritos que encontrei com meu avô tenham vindo da mesma origem.

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