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domingo, 5 de janeiro de 2014

Ngc 3372 : A Grande Nebulosa de Eta Carina

           
           

             
       A Nebulosa de Eta Carina é um DSO de muitos DSO´S. Há anos eu fujo de apresentá-la. Ela é  a Grande Dama dos céus austrais. E assim sendo deve ser tratada com o devido respeito.



            A Nebulosa foi um dos primeiros objetos que observei. Ela é facilmente localizada de nossas latitudes. A Via Láctea passa entre Órion e Gêmeos. Ruma para o Sul passando por Sirius e segue para Canopus. As duas estrelas mais brilhantes do firmamento. Depois segue direto para o Cruzeiro do Sul. Neste trecho ela vai passar pelo asterismo do Falso Cruzeiro. Suas estrelas são um pouco mais afastadas e mais fracas que as do Cruzeiro original. Procure por um "Nó de Luz" encravado na Via Láctea entre o Falsa Cruz e o Cruzeiro do Sul. Em céus escuros ela é evidente a olho nu. Mesmo em céus menos generosos pode-se perceber uma diferença no gradiente de luminosidade do céu na região. Em sua buscadora ela se apresenta-rá como uma região enevoada.
            Use uma ocular de grande campo. 25 ,30 ou mais mm. A nebulosa vai preencher o campo. Você vai perceber um bem estruturado conjunto de áreas brilhante permeada por linhas mais escuras e diversos aglomerados e outras estruturas. Na sua parte central vai perceber uma pequena área alaranjada . É o Homunculus onde se escondem Eta Carina e suas companheiras. Linhas escuras vão constituir o que passou a ser chamada de Nebulosa da Fechadura ( Keyhole Nebula). Vários aglomerados estarão por lá também.
            Com as férias de fim de ano  fiz uma foto que pela primeira vez achei a altura da tarefa de introduzir a dama a sociedade. As experiências anteriores não eram dignas nem de tablóide inglês. E assim vou arriscar  realizar o debut da moça no Nuncius Australis.
            A nebulosa possui vários nomes : A Grande Nebulosa de Carina, A Nebulosa de Eta Carina, Ngc 3372 ou simplesmente a Grande Nébula. É uma imensa e brilhante nebulosa que possui dentro de suas fronteiras diversos aglomerados abertos e estrelas de grande interesse. É uma das maiores nebulosas difusas dos céus. Ela é quatro vezes maior e mais brilhante que a mais famosa Nebulosa de Órion. Logicamente que devido a sua localização austral é menos conhecida. Ela é um segredo do céus do sul. Provavelmente a maior jóia da Coroa Australis. 
A Grande Nebulosa de Eta Carina e adjacências-. 30 X 1 min 1600 ISO-Canon T3 -Lente Canon EF 70-300 mm @ 75 mm Esta foto é um "post scriptum.". Foi realizada anos após o post. empilhada no DSS e esticada no PI e PS. 

            Como não podia deixar de ser foi uma descoberta do nosso sócio. O Abbe Lacaille. Os primeiros registros de sua natureza nebulosa foram feitas em sua expedição ao Cabo da Boa Esperança entre 1751-52. Sua inclusão em seu catalogo foi realizada , precisamente, em 25 de janeiro de 1752. É a entrada Lac III.6 A categoria III do Catalogo Lacaille reúne o que o Abbe considerou "Estrelas Nebulosas"; E como o que ele observou foi anterior ao evento de 1843 é bem provável que a região tivesse um aspecto bem diferente.  
            Para introduzir este rico DSO creio que a melhor forma seria apresentar a dona da casa. Eta Carina.
            Eta Carina é uma estrela com uma história riquíssima e de grande interesse cosmológico . Como boa diva tem um comportamento bastante "explosivo". Sabe-se hoje que é um sistema estelar localizado entre 7.500 e 8000 anos luz de nós. Encontrei diversas distancias descritas na literatura. Uma curiosidade: em livros mais antigos chega a ser dito que a distancia do complexo poderia ser algo entre 2000 e 10.000 anos luz devido a sua posição na Via Láctea e qual seria a quantidade de poeira a ser corrigida para determinar-se a distancia. Sua estrela primaria é uma Luminosa Variável Azul ( LBV na sigla em inglês)  que possuía inicialmente algo como uma massa de 150 sóis das quais já perdeu, pelo menos, 30. Isto faz dela uma das maiores estrelas conhecidas no universo.  O sistema possui ainda uma quente super gigante com aproximadamente 30 vezes a massa solar orbitando a primaria.Infelizmente uma enorme e densa nebulosa vermelha envolve esta impedindo de se ver a secundaria. O sistema Eta Carina esta encapsulado na chamada Nebulosa do Homunculus.  Estrelas da classe de Eta Carina são muito raras. Umas poucas duzias por galaxia do tamanho da Via Láctea. Elas se aproximam , e potencialmente excedem, o Limite de Eddigton  Um lugar onde a pressão da radiação é praticamente suficiente para gerar um contra ponto para a gravidade que mantem toda radiação e gás estruturados em forma de estrela. Estrelas com mais de 120 massas solares excedem Eddigton. Provavelmente isto tem algo relacionado com o evento que causa a grande importância astrofísica de nossa amiga. A grande erupção ou o "Evento impostor de Supernova de 1843".
            Quando Eta Car foi catalogada pela primeira vez em 1667 por Edmond Halley (o do cometa)  ela era uma estrela de 4a magnitude. Em 1730 diversos observadores já haviam percebido um aumento considerável de seu brilho. Quando Lacaille esteve pela região ele deu a designação Bayer de Eta para a estrela. No momento com  2a magnitude . Posteriormente a estrela enfraqueceu de brilho e por volta de 1782 ela havia retornado a seu brilho original. Em 1827 seu brilho havia crescido mais de dez vezes e atingiu seu apíce em abril de 1843 quando atingiu a magnitude de -0.8. Se tornou a segunda estrela mais brilhante do céu. É importante lembrar que Sirius (a mais brilhante) esta a 8.6 anos luz da terra. E Eta Carina habita a 7.500 anos luz. Comparações utilizando velas, faróis e afins são desnecessárias... Falar que esta é uma candidata a supernova em futuro próximo é também redundante. E próximo, em astronomia, compreende um período que vai desde amanhã até alguns milhões de anos...



            O Homunculus é uma formação nova. Este foi formado durante e logo após a grande erupção de 1843 . Trata-se de uma nebulosa de reflexão que faz parte do conjunto que responde por Ngc3372.  Facilmente identificado na nossa foto ele não chega a apresentar claramente a  forma que lhe empresta o nome. Mas também demonstra que não é necessária tanta magnificação ou telescópios tão grandes quanto já imaginei para observa-lo.
            Como já falei ,mas não custa repetir, é outra parte do conjunto Ngc 3372 a conhecida Nebulosa da Fechadura. O Nome foi dado por John Herschel ( o filho) durante o séc. XIX. É uma nuvem poeira escura com filamentos de gás mais quentes  que aparece silhuetada contra a mais brilhante nebulosa ao fundo. A formação possui um Ngc só dela. 3224.
            Ngc 3372 é uma das mais dinâmicas regiões de formação estelar . A região há meros 2.3 kpc é a mais próxima região de formação estelar com uma população de estrelas muito maciças (com pelo menos 70 estrelas do tipo O e  4 estrelas Wolf-Rayet) Entre estas estas estão diversas das estrelas mais maciças e luminosas da galaxia ( com M>~100 massas solares). Entre elas a já citada LBV Eta Carina , HD93129Aa e diversas estrelas O3 da sequência principal.  Diversas destas estrelas residem em frouxo aglomerados próximos ao centro do complexo.
            Entre estes aglomerados podemos destacar Tr 14,15 e 16. todos eles muito jovens com idades variando de 1 a 8 milhões de anos apenas.  Tr é sigla que  identifica os aglomerados do catalogo Trumpler. O mesmo Trumpler que criou a classificação Trumpler para descrição de aglomerados galácticos. Falei nele no nosso ultimo post. A forte radiação com o feed back de estrelas tão maciças  já dispersou muita da original nuvem de gás. Levantamentos recentes indicam a formação de uma nova geração estelar nas densa nuvem remanescente , em especial na região conhecida como "Pilares do Sul ". (Southern Pillars)

            As vezes é difícil dizer quem é quem na minha modesta fotografia, realizada com meios bastante amadores, mas fiz um esforço para identificar todos os abertos que vou apresentar neste post.
            Tr 14 é facilmente percebido a direita e acima da região mais densa da Nebulosa.Possui cerca de 290 estrelas e sendo bem jovem  ainda tem muito membros em estágios pré sequência principal. O Tal equilíbrio hidro estático é algo difícil de ser atingido por estas plagas. Seja por causa de Edidgton ou por causa de Hayashi.  
            Tr 16 é visto do mesmo lado da nebulosa mas mais abaixo  de nosso quadro e pode ser considerado um parente muito próximo de nosso aglomerado anterior. São os dois mais populosos aglomerados da região de Ngc 3372 e são a maior aproximação que temos das coisas que acontecem em 30 Douradus na Grande Nuvem de Magalhães. Não poderia deixar de perceber  e chamar atenção para as relações entre a região e a muto mias distante Nebulosa da Tarantula. Ambos os aglomerados ajudaram a determinar a extinção na região e encurtar uma discussão que já durava muito tempo. A quem interessar possa este é um paper bastante completo sobre os rapazes. http://iopscience.iop.org/0004-637X/549/1/578/pdf/0004-637X_549_1_578.pdf
            Tr 15 é também parente próximo e sofre das mesmas questões . Mas diversos papers consultados indicam que os aglomerados aqui indicados surgem a mesma distancia e tem idades semelhantes sendo associados a fenômenos relacionados a dinâmica da região de Ngc 3372.  Mais em Tr 15 em: http://mnras.oxfordjournals.org/content/331/3/785.full.pdf+html
            Cr232 é um aglomerado aberto bem próximo ao  Homunculus e em posição bem central no complexo. É evidente na foto e me permitiu ver que as vezes o que parece uma estrela com rastro devido a um mal acompanhamento polar na captura das imagens é na verdade um difícil aglomerado aberto. Astronomia e óptica são a mesma matéria...
            Cr 234 é outro que indico na meu modesto levantamento ótico da Grande Nebulosa de Carina. Sua história parece ser semelhantes aos demais...
            Cr 228 já se encontra mais afastado da região central mas compõe o quadro. Tenho duvidas se o identifiquei corretamente  na minha foto. Mas não sou o único com duvidas a respeito de sua real localização. É provavelmente  composto de estrelas recém formadas do material da nebulosa. Segundo Ronald Stoyan a posição e descrição dadas por Lacaille em seu catalogo indicam que o "perdido" objeto Lac.III.5 seria o aglomerado e não uma parte de  Lac III.6 como se sustentou durante muito tempo. Lacaille define III.5 como "Duas pequenas estrelas cercadas de nebulosidade.". Difícil imaginar ele resolvendo duas estrelas aqui com uma luneta de 25 mm.


            Na imagem do Cartes do Ciel existem ainda mais aglomerados abertos espalhados pela região. Não os identifiquei na foto realizada por clareza e por não localiza-los claramente na imagem.
            E o o Catalogo Bochum é , no minimo, bastante obscuro...  Para dizerem que não falei de flores desccobri que trata-se de um catalogo publicado em 1975 e elaborado no Astronomical Intitute, Ruhr Univ. Bochum, Germany...

            Segundo um dos meus livros mais queridos " Turn Left at Orion" a melhor época para se observar a região de Ngc 3372 é em abril. Queimei a largada e não me arrependo. Gosto de observar em horários mais tardios e assim conseguir céus um pouco mais escuros em meus tão claros céus urbanos... A Grande Nebulosa de Eta Carina já é uma mocinha bem crescida e passa a noite quase toda fora.

sábado, 4 de janeiro de 2014

IC 2391- O Aglomerado da Pequena Cassiopéia

              

            

              O aglomerado aberto IC 2391 é um dos eternos favoritos no Nuncius Australis. É um "primeiro" na minha história astronômica.
              Em primeiro lugar  foi o primeiro DSO que descobri.
            Logo que iniciei em astronomia comprei um binóculo enorme. Com zoom. Era um 15-100 X 80 mm. Com as lentes "ruby-coated". As famosas lentes vermelhas. Em uma piada que talvez já esteja se tornando repetitiva eu digo que ele possuía as lentes com um tratamento em Mercúrio. Mercúrio Cromo... Comprado a preço de banana no Paraguai ele viajou bastante. Seu carinhoso apelido era Trucuçu. Acabou sendo dado de presente para meu primo.
            Foi com ele que eu descobri IC 2391. Passeando pelo Falso Cruzeiro sem lenço e sem documento me deparo com o mesmo logo ao lado de Delta Vela. Ele é um evidente aglomerado aberto mesmo a olho nu. Mas com minha parca biblioteca na casa de Búzios e em tempos que wi-fi e 3G ainda eram raros não achei nenhuma referência ao DSO. Pronto. Batizei de BZ 1.
            Posteriormente ele foi o primeiro DSO que fotografei com foco direto. Desta vez devido a razões mais geográficas e geométricas do que qualquer outra coisa.
             BZ 1 como já sabem os senhores é IC 2391. E antes disto foi Lac II.5.
            Isto faz dele a 5a entrada da categoria II do catalogo elaborado pelo Abbe Lacaille em sua viagem pelos céus austrais nos meados do Séc. XVIII. Ele incluiu na categoria II os  considerados aglomerados estelares nebulosos. Com lunetas de apenas 30 mm sua classificação é de interesse apenas histórico. O aglomerado não apresenta nenhuma nebulosidade.
            A história do aglomerado é muito mais antiga que minhas primeiras observações com o Trucuçu. O primeiro registro sobre 2391 remonta a Al-Sufi , um astrônomo persa. Nas brumas do tempo pode-se imaginar que estes registros foram feitos antes de 964 DC.  Foi redescoberto de forma independente pelo Abbe em 11 de fevereiro de 1752.
            Sendo evidente a olho nu mesmo de ambientes suburbanos é muito provável que o mesmo tenha sido percebido por Halley em sua estada em Santa Helena. E por muitos dos navegadores que desbravaram os mares austrais anteriormente.
            Sua estrela mais brilhante apresenta magnitude aparente de 3.6.. É uma  gigante da classe espectral B3. A idade do aglomerado é entre 30 e 50 milhões de anos. Depende da fonte.
            O aglomerado é bem estudado e percebi que diversos "papers"s associados a estrelas de baixa massa e disco de acreção são associados ao mesmo. Uma vasta coleção destes pode ser obtida aqui.
                IC 2391 na classificaçãoo Trumpler de aglomerados abertos é designado como II,3,p.
            Isto significa que trata-se de um aglomerado aberto que se destaca das estrelas de fundo com um núcleo estelar bastante luminoso ( II) , algumas estrelas bem brilhante em paralelo com outras mais fracas com um grande amplitude de magnitudes (3)  e que o mesmo é pobre em estrelas. Com  menos de 50 membros. (p). O aglomerado possui cerca de 30. Com mais alguns candidatos de difícil percepção ótica e possivelmente algumas anãs marrons... Foi realizado um profundo levantamento otico de IC 2391 e surgiram diversos membros-candidatos.  
             Possui características óbvias de um jovem aglomerado galáctico. Falamos a respeito disso aqui no Nuncius Australis recentemente.
            Conhecido ainda como o aglomerado de Omicron Velorum e  ainda Caldwell  85 na lista elaborada pelo finado Sir Patrick Moore.

            Localizar IC 2391 é tarefa fácil para qualquer astrônomo ao sul do equador. Localize Delta Vela no asterismo conhecido como o Falso Cruzeiro e o aglomerado sera percebido logo a nordeste da mesma. É facilmente percebido a olho nu de céus suburbanos e mesmo em áreas urbanas (Bortle 8 ou 9) ele se destaca com qualquer auxilio óptico. Na verdade com minha buscadora ótica,  que com 50 mm é  muito mais poderosa que as lunetas que Lacaille possuía,  eu resolvo todos os seus principais membros
            Já tendo visitado e fotografado este diversas vezes gostaria de apresentar diversos resultados obtidos e através deste apresentar varias facetas deste que é um dos aglomerados austrais mais chamativos. Na verdade um dos aglomerados abertos mais brilhantes dos céus de todo o mundo. Uma das jóias da coroa.



            Esta foi a primeira foto astronômica com foco direto que fiz. Aqui podemos perceber claramente os membros mais brilhantes de IC 2391 e porque do apelido de Pequena Cassiopéia em memoria a pequena e tradicional constelação boreal batizada em homenagem a vaidosa rainha etíope. Utilizando o Newton ( meu refletor de 150mm) e empilhando algo como 15 fotos sem dark frames ou afins no Rot and Stack fiquei realizado. A história desta foto me ensinou a não confiar cegamente em softwares de empilhamento de imagens. Eles não irão presentar automaticamente uma imagem verdadeira do que se vê. E não necessariamente isto será ruim. Só será falso. Veja aqui esta história...
            Depois realizei mais fotos dele utilizando meu velho refrator Galileu. Apesar do menor poder de fogo deste as imagens demonstram a importância de céus escuros para a observação visual e para a realização de registros fotográficos. Mesmo com menor poder de fogo as imagens abaixo foram obtidas dos céus mais escuros de Búzios . Nos mesmos céus onde "descobri" IC 2391, A Pequena Cassiopéia. E percebe-se muito mais estrelas. Céus escuros são sempre o melhor equipamento. Em nome do fair play não posso deixar de dizer que a câmera também é outra . Aqui é uma Canon T3. Na primeira foto é a já pré histórica  Rebel 350D. 





         

       

       
         Diferentes resultados frutos de diferentes processamentos  Apesar de digitais as fotos astronômicas ainda visitam o laboratório... . 
          Os light e dark frames utilizados  são os mesmos em todas as fotos. 11 light frames de 20 segundos de exposiçãocom asa 3200. O Galileu é um refrator de 900 mm de distancia focal e com uma lente de 70 mm acromatica. Bastante modesto.

Canon T3 . Aqui foi utilizada uma lente zoom 75-300mm @ 100 mm f4. 9 light frames com 20 seg. ASA 3200.
Percebe-se claramente Ngc 2516 no canto superior direito da foto. 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A Rainha Má, Galileu, Enchentes e Astrofotografia


         

         O ultimo semestre foi bastante ocupado. E com uma nova cria de apenas três meses há muito não tinha  chances de observar de locais mais escuros .
                Após uma longa e edificante diária de mais de 20 horas em um comercial de desodorante eu declarei que só iria trabalhar de novo no ano que vem. E assim se organizou-se a expedição da família  rumo a Búzios.
                A cidade sofreu a maior enchente de sua historia  há poucos dias . Mas segundo informações de meu irmão a casa se encontra habitável. Apesar de alguns danos. Ele é um cara bem otimista.
                A viagem transcorreu bem. Só cinco horas de porta até porta. Com o novo filho preciso de um carro maior. Com o veiculo abarrotado vou levando apenas o "Galileu", meu refrator de 70 mm. Mas com a montagem do " Newton" , meu refletor de 150 mm. Uma EQ 2-3. Com muito menos peso eu acredito que a cabeça vá se comportar melhor que o normal para a pratica da astrofotografia.
                No caminho para Búzios surgiu uma fabula familiar. Nela o novo rebento seria o " Dengoso", eu o " Zangado", minha filha a "Branca de Neve" e minha cara metade a "Rainha Má".  
                Ao chegarmos em casa e realizar  o cenário de calamidade os apelidos não poderiam ser mais apropriados.  E a fim de evitar a ruína da relação eu adentro o anexo da casa mal acompanhado de vassoura, rodo ,baldes e cia ltda. A faxina canta. Depois de deixar um dos quartos com cheiro de frutas cítricas eu consigo uma rápida alforria e aproveito para montar meu circo. Preparo o o telescópio, motorizo a cabeça e ainda ensaio um alinhamento polar. O "Galileu" se encaixou bem na paisagem. Com um dove tail adaptado e um monte de "gaffer tape" fixando o telescópio este parecia outro sobrevivente da enchente.
                O telescópio não é nenhuma "Brastemp". Um refrator com foco frouxo, aberrações as mais diversas. Mas ele as vezes surpreende. Quando comecei na astronomia achava-o excelente. Nada como a inocência da juventude.
                Depois de uma ultima missão instalando uma TV e o receptor da SKY para minha filha vou aguardar o céu se acender. Faço isto com frequência aqui em Buzios. Como não poderia deixar de ser a primeira estrela que percebo é Sirius. Mas quase simultaneamente pipocam Rigel , Canopus e em um intervalo de pouco minutos estão lá as familiares figuras de Órion e Cão Maior. Mais um pouco e as Plêiades se acendem.
                Uso Rigel para ajustar a buscadora. E depois resolvo testar o seeing tentendo separar sua pequena e apertada dupla. Se revela acima das capacidades do " Galileu". E ainda serve para eu perder mais um dos sonhos de minha infância e decretar que a pequena Plossl 4 mm de origem chinesa é uma péssima ocular.  Já separei Rigel com o " Newton" ( refletor 150 mm) utilizando uma 10 mm em conjunto com uma Barlow 2x. Desta vez no maximo uma suspeita,
               
                Tinha em mente seguir um roteiro que está na " Sky and Telescope" de janeiro de 2014. A matéria de Rod Molisle ( o Uncle Rod) propõe um tour pelos aglomerados abertos do catalogo Messier que estão presentes no nosso verão.  

                Mas estando tão perto não posso deixar de visitar M 42. A Nebulosa de Órion se apresenta , como sempre, magnifica.  Próxima a tão famosa companhia  Ngc 1981 quase passa desapercebido. Mas é um dos mais belos aglomerados abertos do céu. Fico passeando pela região e namorando diversos D.S.O´s que habitam a região em volta de M 42 ( Ngc 1973 , 1977 ...) . Resolvo fazer algumas fotos da Nebulosa e percebo mais ainda as limitações do equipamento e do alinhamento polar . Rot n´Stack faz algo com as fotos e com um pouco de Noiseware viram um registro tosco desta maravilha celestial. logico que o trapézio não se resolve e o centro da nebulosa fica superexposto mesmo no modo Minimo do RnS. 


                Depois disto volto a plano original e faço uma rápida parada em um eterno favorito : M 41. O aglomerado de Aristóteles.  Minha filha vem me visitar e aproveita para dar uma olhada pelo telescópio. E percebe algo que andei falando por aqui recentemente. A presença de estrelas vermelhas( gigantes) no centro de aglomerados abertos.
                Agora vou visitar grandes damas. M45 . As Plêiades. Apesar do tosco set up faço algumas fotos das "Sete Irmãs". Nem de longe honram a tão grandioso DSO. As meninas se espelham por uma área muito grande e não enquadro de forma apropriada. Não cheguei nem a empilhar .  O Ruido é absurdo. Vale o registro.Nem sinal da nebulosa em frente do aglomerado. Eu disse em frente.  Até algum tempo achava-se que a nebulosa que percebe-se em M 45 faria parte do mesmo. Hoje aceita-se que é apenas um encontro casual com a nebulosa sendo um ente que esta  passando em frente do aglomerado. Não são associados e cada um segue seu caminho. Dois dias depois retorno as Sete Irmãs disposto a um acerto de contas. E utilizando minha 70-300 @ 100 mm me acerto com a moças. As Plêiades demandam muito mais campo do que eu consigo com o Galileu. E agora os traços de nebulosidade são evidentes.





                Aproveitando da bela paisagem aproveito e chamo minha mulher para dar uma olhada. E depois faço o clássico desafio de quantas estrelas você percebe a olho nu quando olha para Plêiades. Ela contou 7. É um grande feito.Minha vista já mais gasta e sem óculos conta apenas 3 com uma quarta flicando esporadicamente. Reza a lenda que o grande Walther Houston ( autor da coluna Deep Sky Wonders por varias décadas)  contava 14.
                As fotos das Plêiades demonstram claramente as limitações do "Galileu". Mesmo com o recurso de se fazer foco com o Live View da câmera as estrelas não são nunca pontos. Mesmo dando o desconto de um alinhamento polar meio tosco. Na verdade estrelas não são pontos perfeitos nem com minha melhor ocular. E a camera registra isto com mais clareza que minha já velha retina. ( vejam bem que a foto que vocês vêem a cima não foi feita com o " Galileu". Não tive coragem de apresentar a que foi...) 
                Depois disto o plano seria visitar a Trilogia de Auriga. M 36 , M37 e M38. Mas depois de 5 horas de direção e mais uma faxina minha lombar não gosta muito da posição que será exigida para caçar as moças junto a buscadora ( preciso arrumar um eretora de imagem para minha buscadora com urgência)  e me conformo com apenas M36. Isto porque ele aportou meio que sem quere em uma escaneada usando a Plossl 25 mm.
                Júpiter é bem mais fácil de se localizar que discretos DSO`s e assim vai visitar a ocular. Brinco com todas as combinações de oculares e Plossl´s que possuo enquanto namoro a lenta dança das Luas galileanas ao redor do gigante. E assim o "Galieu" segue os passos de Galileu com mais de 400 anos de delay. Como bônus percebo ainda que discreta a Grande mancha Vermelha. Nem tão vermelha assim. Resolvi fografar o planeta. E me lembrei que fotografia planetária é um outro jogo . E que não sei joga-lo.Decidi que devo comprar uma web cam e tentar fazer isto de outro jeito...

                 E creio que aprendi porque devo procurar uma web cam que possa filmar bem rápido ( tipo 48 e/ou de preferência  mais frames por segundo). O disco planetário fica extremamente superexposto com o diafragma regulado para 1/60 ( e assim com a captura de video pela web cam a 24 fps não me parece ser o ideal...)
                Resolvo continuar na seara do fácil e visito Castor. Uma bela dupla que se resolve com a ocular  10 mm.
                Gostando de brincar de estrelas duplas e aproveitando um excelente seeing vou visitar Sigma Orionis. Os três membros comparecem e " Galileu"  surpreende.
                Agora fugindo completamente do plano original me viro para o horizonte sul e em rápida escaneada ao redor da Falsa Cruz visito velhos conhecidos. IC 2391 , Ngc 2669 e 2516.
                A seguir  localizo rapidamente as Plêiades do Sul e faço algumas fotos da mesma. E com isto fotografo  todas as Plêiades do céu na mesma noite.  Estas me dou ao trabalho de empilhar .  Uso o DSS.  De 14 fotos só aceita 6. Assim como suas irmãs boreais vale o registro. o ruído é absurdo e não me dou ao trabalho de passear muito com esta matriz pelas terras do pós processamento . 
                Depois fico brincando a olho nu e percebo diversos DSO´s em potencial.  Ngc 2244 é o aglomerado associado a Nebulosa de Roseta e percebo claramente uma luminosidade na região.
                Abro uma cerveja.
                Acordo com uma crise. A Rainha Má aos berros dizendo que não ficaria nem mais um minuto naquela casa. O "Dengoso" teve seu primeiro contato com mosquitos. E minha esposa não acredita na sobrevivência do mais bem adaptado. Já eu prefiro acreditar que meu filho seja um deles.  E assim os custos da operação aumentam. Alugo uma suite em uma pousada próxima e em uma ladeira. Desta forma não fora inundada pelas aguas. Um ar condicionado garantiria a super proteção necessária para que a cara metade permanecesse na Armação dos Búzios .
                Nesta noite o céu resolve brincar . Anoitece nublado. Depois abre o horizonte nordeste. Fazendo um churrasco para a minha filha ( a esposa e o filho ficaram na pousada) eu ainda consigo ir visitar Júpiter de novo e acompanhar mais um ato do balé de suas luas. Ao perceber uma bela janela no horizonte sul parto em busca de Ngc 3228. Um dos últimos objetos do Catalogo Lacaille que me restam observar. este é um caso diferente de um "Objeto Lacaille Perdido". Ou melhor de astrônomo perdido. Pois saindo de Kapa Velorum eu acho que será uma fácil navegação. Mas depois de localizar um obvio aglomerado "disfarçado" de estrela cabeluda...  chego a Ngc3293.  Um belo aberto bem denso.  Mas com a crise matinal não o fotografo. A câmera ficou na Pousada.
                Abro varias cervejas.
                Amanheço novamente com a Rainha Má transformada em Mr. Hyde. Depois de muito choro mando ela e a filha para praia e fico estreitando a relação com meu filho no quarto da pousada.  Espero que o descanso acalme a fera.
                Funcionou. depois de 6 horas de praia e algumas cervejas a rainha má volta ao normal e parece que desistiu de superstições.
                Dia não . E assim sóbrio ,levar as crianças ao parque de diversões e  todo mundo para comer comida mineira. Menos o "Dengoso" . Sempre  me lembro de porque somos  mamíferos. 
                Hora de fotografar. Afinal eu também mereço algum lazer.  E tentando adaptar a Canon com uma lente 75-300 mm descubro que o plate de minha cabeça greika serve como um dove tail perfeito para a cabeça EQ. Faço algumas fotos de Orion e do Cão Maior sem utilizar acompanhamento. Isto vai ficar para outro dia. Mas ficaram legais e revelam alguns DSO´s na paisagem. Na de Orion começa a se perceber a Nebulosa da Chama.  E  em seu cachorro percebe-se M41 muito evidente. Os resultados são fruto dos logaritmos pirotécnicos do Rot and Stack.







                Mas sou um homem de palavra e meu objetivo é fotografar Ngc 3293. Mas as palavras são muitas vezes vãs. E o meu objetivo mesmo seria fotografar 3228. O meu " Objeto Lacaille Perdido". Mas a verdade é que ele será mais acessível mais a frente na estação. Ou terei que abandonar o sono... 
                Astrofotografia pode ser bem exigente. Mas não comigo e não hoje. Estou a passeio. E assim o alinhamento polar é feito por inspiração . Nada de drift. No máximo uma bussola e um" inclinômetro". E vamos lá.
                Antes de tentar 3293 e aguardando este chegar   um pouco mais alto  no horizonte sul disparo 20 light frames contra IC 2391.Ou C 85. O "Stellarium" agora deu para listar os DSO´s  utilizando o Catalogo Caldwell como referência. Ou ainda BZ 1. É um aglomerado querido. Já contei aqui que foi o primeiro aglomerado que "descobri". Ele me recorda Cassiopéia. A mais vaidosa das constelações . E assim ele ainda se torna o "A Pequena Cassiopéia" ( Little Cassiopéia cluster)  Depois mais 7 dark frames. Em posterior seleção escolhi apenas os 10 melhores light frames e os empilhei utilizando  o Deep Sky Stacker( DSS).


                Nada como um dia após o outro. Apesar das limitações eu começo a me entender com o foco do "Galileu".  Estava há muito sem observar e um pouco sem pratica . Começo a me mover melhor. As fotos , ainda que com diversos problemas,estão melhores que as anteriores. 
                Finalmente 3293. Serão muitos light frames com 20 seg. de exposição. ASA 3200 pois já percebi que se uso 6400 o ruído vai para as alturas. Perceba nas fotos das Plêiades.... E os mesmos darks que fiz para  "Little Cassiopéia'.
DSS




Rot and Stack


                Ao fim selecionei os 27 melhores light frames obtidos de meu novo Lacaille . Em conjunto com 7 dark´s  o resultado vai para a "peregrinação dos frames". As possibilidades de pós processamento são infinitas. No Nuncius Australis o  objetivo é obter uma imagem o mais semelhante possível do que se observa na ocular.  Desta vez como as capturas dos lights foram feitas com alguma dignidade e com um alinhamento polar melhor que em geral  eu utilizei o DSS para o processo de Stacking e depois visitei o Photshop e o Noiseware. Em dias piores uso muito o Rot n´Stack para a primeira etapa. Os resultados costumam ser menos realistas. Embora como possam perceber acima as coisas podem ser ainda mais confusas. Astrofotografia , no Nuncius Austrlais , é uma ciência assim como a metereologia...
               

                Desta forma se aproxima o dia 31 e o fim do ano. Foi um belo começo de temporada em Búzios. Apesar das dificuldades foi muito agradável e fiquei feliz com os resultados obtidos.

             No primeiro dia do ano visitei uma velha conhecida.  E que ha muito merecia um registro mais digno. O "Galileu" em sua melhor forma. A Nebulosa de Carina e seu arredores. Trinta e seis fotos aceitas de quarenta e duas. A minha média no DSS vem melhorando...

Feliz Ano Novo.



quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

M 41- O Aglomerado de Aristóteles

M 41 - O Aglomerado de Aristóteles


            Registros demonstram que M 41 (Ngc 2287) foi descoberto muito antes  do telescópio. De fato , o cientista grego conhecido como Aristóteles foi o primeiro a noticiar o que atualmente chamamos de M 41. Em 325 A.C. Ele simplesmente o descreveu como uma "região nebulosa". Embora hajam controvérsias eu acredito que ele realmente avistou o aglomerado. Isto faria de M 41 o objeto mais tênue conhecido nos céus durante a antiguidade clássica.  Depois , antes de 1654, Giovanni Batista Hodierna foi o primeiro astrônomo a cataloga-lo. O aglomerado se torna popular depois de ser redescoberto por Flamsteed em 1702 e Messier o acrescentou a sua lista em 16 de Janeiro de 1795.
            M 41 reúne cerca de uma centena de estrelas às empacotando em uma área de aproximadamente 25 anos luz de diâmetro.
            Este post nasceu de um passeio pela tal da "Cloud". Localizei varias fotos perdidas no hoje quase extinto PICASA. E entre elas estava M 41. A foto foi realizada com minha falecida câmera. Uma Canon 350D.
            Recentemente li  um interessante artigo na "Sky and Telescope" onde em um daqueles quadros informativos Tony Flanders nos conta que aglomerados abertos não são apenas como doces para os olhos ; você pode dizer  muito sobre eles apenas através de sua aparência através de telescópios. Mesmo que modestos. Obviamente aglomerados mais próximos são mais fáceis de se resolver porque suas estrelas individuais se apresentam mais brilhantes. As Plêiades são um exemplo óbvio. Aglomerados jovens como M 35 apresentam estrelas variando muito em brilho. Estrelas jovens e maciças brilham muito e azuladas, fumando seu hidrogênio rapidamente. Em aglomerados mais maduros as estrelas mais brilhantes já queimaram até a ultima ponta e assim os membros restantes apresentam uma aparência mais uniforme. Estrelas muito maciças tendem a migrar para o interior dos aglomerados conforme estes envelhecem. Freqüentemente estas estrelas se apresentam com avermelhadas porque já atingiram sua fase de gigante vermelha tendo assim deixado a sequência principal em seu caminho para anã branca. Mais em evolução estelar aqui. Desta forma é comum localizarmos estrelas avermelhadas próximas ao centro de aglomerados abertos.  
             E assim chegamos de novo em M 41. Diversas de suas estrelas são ou laranjas ou gigantes vermelhas. Aí se inclui a chamativa estrela vermelha bem central e claramente percebida em nossa foto. Esta estrela é uma estrela gigante do tipo espectral K cerca de 700 vezes mais brilhante que o nosso sol. Ela é facilmente percebida com quase qualquer aparelho.
            A observação da foto me levou a devanear. Querendo me enganar e posar de cientista sério tirei certas conclusões e devido ao colorido da paisagem imaginei que M41 fosse um aglomerado de meia idade. Mas para jovem que para velho. E também nem tão longe nem tão perto. Tudo isto devido ao que eu já sabia sobre as Plêiades. Estas seriam mais jovens e muito mais próximas . Meus palpites se mostraram corretos.
            M 41 tem algo ( segundo "cientistas de verdade") entre 190 e 240 milhões de anos. Desta forma suas estrelas mais maciças já tiveram tempo para ficarem mais "coloridas". Mas ainda apresentar uma bela diversidade de brilhos e magnitudes...
            E a 2.300 anos luz de nós se encontra quase seis vezes mais distantes que as Plêiades. 
            E agora vamos ao que interessa. Como ver M 41. E tirar suas conclusões sozinho. Como falou Burnham : "Nada como ver o Original ( ou mais ou menos isto...)".

            M 41 se localiza há um pouco mais de meio campo de buscadora (10x50) ao sul de Sirius , a estrela mais brilhante do firmamento. Imagine um triangulo retângulo formado por Sirius , Mirzam e um ponto invisível ao sul de Sirius e olhe na buscadora. M 41 e procure por uma pequena nuvem de luz. M41.
            Como os relatos de Aristóteles nos dizem esta nuvem de luz é percebida mesmo a olho nu de locais escuros.  Eu sei que é possível. Mas o local tem que ser escuro mesmo.
            Através de binóculos e buscadoras eu percebo algumas dezenas de estrelas "flicando" em meio a nevoa da região.
            M 41 é uma paisagem sensacional mesmo em pequenos telescópios. M 41 é um dos mais coloridos aglomerados que conheço , mas a sensibilidade a cor varia de pessoa para pessoas.  Um truque : desfoque levemente o telescópio e tente perceber mais cores. 

             Com 38´ arc seg. ela cabe certinho na minha ocular 17 mm. 

            Através do "Newton" ( meu refletor de 150 mm) M 41 é um dos aglomerados abertos que mais gosto. Um dos favoritos do Verão.  Estará disponível a noite toda...

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O Deep Sky Stacker e a Vingaça da Tarântula

      
     

          No ultimo post falei sobre a Nebulosa da Tarântula. Ngc 2070. Tratando-se de um DSO extra galáctico não é exatamente  um objeto simples de ser fotografado. Especialmente em condições de forte poluição luminosa como no "Stonehenge dos Pobres". Nada como os aglomerados abertos tão mais comuns no Catalogo Lacaille e consequentemente a especialidade desta casa. A Tarantula foi um dos últimos membros do catalogo a ser registrado...
            Caso queira saber mais sobre os DSO´S da Grande Nuvem de Magalhães clique aqui. Ou aqui.http://www.mnassa.org.za/html/Feb2011/2011MNASSA..70..Feb..29.pdf
            Este post é dedicado para aqueles que se interessam pela tal da  astro fotografia e desejam tomar pé sobre as capacidades do Deep Sky Stacker  e  seus poderes para revelar o universo.  Pressupõe também algum conhecimento prévio sobre a matéria...
            Como ha séculos não fotografava DSO algum e muito menos "brincava de laboratorista" com meus programas cometi uma injustiça.
            Todas as fotos apresentadas no ultimo post foram "empilhadas" (stacking) com o auxilio do Rot and Stack (RnS).
            E  falei que o Deep Sky Stacker (DSS) é um programa cheio de manias.
            Não chega a ser mentira. Mas em nome da justiça não posso deixar de dizer que apesar disto ele é um programa muito mais poderoso que o RnS.
            O RnS é um programa amigo de  iniciantes e de preguiçosos. Mesmo sendo necessário um numero muito maior de "clicks" de mouse para determinar os pontos de alinhamento em cada um dos frames a serem alinhados ( ele possue a opção de determinar de forma automática os pontos de alinhamento, mas não recomendo...). No caso de nosso post anterior significaram 140 clicks para 70 frames. Mas ele permite que a preguiça se apresente de outra forma. Sendo um programa bom para os iniciante ele irá empilhar qualquer coisa que você ofereça pontos para sua orientação ( são os 140 "clicks" que falei). Fora isto ele dispensa foco, alinhamento polar , dark , flats e cia LTDA. no momento da captura de suas imagens. Um programam bom para preguiçosos e sua interface é a prova de imbecis...
            Abaixo alguns dos resultados obtidos com ele. Percebam que a foto do modo Sort parece boa. Mas é também atingida por muita "pirotecnia"... De qualquer forma aí estão todos os 70 frames que mandei empilhar. Obediente...
Este é o resultado de horas de processamento posterior ao stacking feito no RnS
               
Modo Mean do RnS. O mais reaalista...

Modo Sort

               Já o DSS demanda e oferece mais finesse.
            No post passado eu me encontrava por demais afoito em fotografar algo e ver resultados. Desta forma o DSS simplesmente me ignorou e apesar das tentativas os resultados finais não apresentavam nenhuma imagem sequer semelhante a Ngc 2070.
            Logo apelei para o RnS e consegui minhas fotos e meu post ha tanto sonhado. Os últimos meses foram uma maratona de trabalho e o Blog assim como os céus se encontravam bem abandonados.
            Não podia me deixar ser vencido pela mãe de todos os vicios e assim com mais calma resolvi obter uma foto digna da Tarântula utilizando o DSS como laboratório.
            A primeira coisa foi obter Dark Frames. 25 deles. E também 15 flat frames.  
            È claro que como quase tudo aqui no Nuncius Australis eles não foram obtidos pelo método indicado pela mídia especializada e nem pelo bom senso. Os Black frames foram simplesmente obtido com a tampa da lente montada em minha 50 mm. E os flats foram feitos embrulhando a câmera com sua 50 mm em uma camisa branca e apontando para uma lampada Day Light que mora em meu quarto...
            O DSS possui varias opções de calibragem para realizar o stacking no menu "Parâmetros de Integração". Em primeiro lugar eu alterei o método pelo qual o programa determina o resultado final do processo de empilhamento ( stacking). Mudei a configuração do modo standart para o modo de Intersecção. Este era mais apropriado para as fotos que obtive e com um acompanhamento dos mais medíocres. Desta forma garantiria que alguma coisa estivesse alinhada com a mesma coisa na coleção de frames bem diferentes uns dos outros.

            Depois alterei o  o modo Light de Kappa Sigma para Proporção. Não sei o porque . Foi mais um sentimento e o fato de que na véspera utilizara o Kappa Sigma com resultados nefastos...
            Por fim  fui no menu "registrar configurações". E na aba " Avançado" baixei a detecção threshold  da estrela para apenas 4%. Mais que isto e o DSS não aceitava empilhar nada... Cheio de frescura.

            Com isto e sem medo de ser feliz mandei empilhar tudo... 69 frames de light,25 darks e 15 flats.
            Depois de muito minutos de processamento o DSS fabricou um Master dark e um master flat os quais foram subtraídos dos 28 melhores light frames escolhidos por ele e me deu um resultado que se não bom pelo menos aceitável.
            Depois disto esta foto ainda visitou o Photo Shop CS5 e o Noiseware.  Não utilizei o IRIS , mas ele seria capaz de gerar um fundo negro para foto e disfarçar a vinhetagem. Para saber mais sobre estes e outros programas clique aqui.
            Depois disto tentei varias outras combinações mas a única que apresentou um resultado ( ainda que pífio) aceitável foi utilizando no modo Light dos parâmetros de integração o método High Entropy. Mas como podem perceber o  ruído foi parar na lua.. Com o Auxilio do Photoshop e do Noiseware as coisas ficaram um pouco melhor. Neste método o DSS só empilhou 19 dos 69 light frames...




           E com o Kappa Sigma os resultados , mesmo utilizando Darks e Flats , foram abaixo da critica. Melhor dizendo : da autocritica...
           
            Os resultados obtidos com o DSS são sempre mais naturais que os obtidos com os algoritmos dos Rns. O Modo mean do RnS é o que mais se assemelha aos resultados do DSS.
             Acredito que se possuísse um equipamento melhor ( uma cabeça equatorial mais solida e precisa...) eu usaria mais o DSS. Mas no meu humilde set up o RnS se encaixa melhor.  É fundamental lembrar que ambos tem uma relação de dependência com outros programas. O Photoshop (ou o Lightroom ou o GIMP e etc...)  é fundamental para o tratamento após o processo de stacking. 
            
Ngc 2070 - 28 de 69 light frames de 10 segundos de exposição+ 16 darks+ 12 flats- ASA3200 empilhados no DSS. Posteriormente a imagem foi submetida ao Photo shop CS 5 e o Noiseware.
Canon T3 + Newtoniano 1200mm 
P.S.  I    Combatendo o maior de todos os vícios em doses homeopáticas levei o produto final mais bem acabado obtido com o DSS e que já havia visitado o PhotoShop e O Noiseware algumas vezes para fazer um tour pelo IRIS. Este é um progrma bastante  complexo mas que realiza diversos milagres. Depois de conseguir um fundo sintético para a nossa foto de Ngc 2070 ele conseguiu eliminar a vinheta e uma parte do ruido pré-existente. Mais uma visita ao Photoshop e é este o resultado final da peregrinação de nosso light frames. ( acrescente isto aos 160.000 anos luz que estes já haviam viajado e tenha uma ideia de quão longa é a jornada deste fótons até você...)          


Com visita ao Noiseware...

Sem visita ao Noiseware...

         Ainda acho que o DSS vai requerer mais estudo e prática de minha parte para que se torne a primeira opção aqui pelo Nuncius Australis. Mas os resultados são muito mais naturais e a razão sinal é incrementada de uma forma muito mais bem feita que no RnS. 


P.S. II - Anos passaram-se e o DSS virou um amigo mais próximo. A primeira coisa que você deve fazer é esquecer os modos Kappa Sigma e Proporção para realizar o empilhamento. Os melhores resultados serão obtidos no modo HDR ( Proporções avaliadas de Entropia).   O Rns é uma memória quase distante ( que as vezes uso para brincar... seu resultados são "divertidos"). Atualmente utilizo o DSS para empilhar os frames e realizo o pós processsamento com o PixInSight 1.8. O set up tembém melhorou. Utilizo uma Canon T 3 e a cabeça equatorial se tornou uma HEQ 5 pro. A foto abaixo demonstra bem como as coisas evoluem se vc insistir... foi realizada na Rua da Passagem com muito mais poluição luminosa que as apresentadas acima. E foram feitos 30 frames de 30 seg. com ISO 1600.  O Pix empilha também mas é bem mais enrolado e o DSS chega a resultados semelhantes com bem menos esforço. É possível que um dia eu volte aqui e diga que passei a empilhar no Pix. conheço muito poucas pessoas que o façam.. Mesmo astrofotografos muito mais sérios que eu prefrem empilhar no DSS também.  As fotos abaixo demonstram bem como as coisas evoluiram.


       

            São dois tratamentos muito semelhantes. E descobrir recursos no Photoshop também será uma parte importante da evolução...





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