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segunda-feira, 1 de abril de 2013

Astrofotografia em Familia





Semana Santa. A Lua ainda quase cheia...
Com meu irmão viajando a casa de Buzios vai estar vazia. E eu rapidamente começo a imaginar as possibilidades. Após um rápido dialogo estamos a caminho do posto avançado e dos céus mais escuros da Região dos Lagos. Mesmo com a lua cheia o céu em Geribá é muito mais generoso que o do Rio de Janeiro.
            Estamos dentro do carro eu, a cara-metade, minha filha, sogrinha e sogrão. Poderia dizer que será uma viagem “astronômico familiar”. E desta forma o “Newton” fica (um refletor 150 mm) e embarcam juntos “Galileo” (um reftator 70 mm) e meu binóculo 15X70 mm. Assim evito ter que amarrar o “Caixão de Newton” no teto do veiculo e mantenho a cara-metade na zona de conforto.
Ao contrario da previsão a estrada esta vazia e em pouco tempo chegamos ao destino. Depois de descarregar tudo começa o feriado.
Dizem que observação e “birita” não se misturam. É verdade. Mas também não devemos ser dogmáticos. Foi um encontro interessante o de meu binóculo 15X70 com uma garrafa de “Grants”. Depois de ter derrubado (com um grande auxilio de meu sogro) algo como metade da garrafa eu me encontro sozinho debaixo do céu. Este que se encontrava parcialmente nublado limpou na madrugada.
Saturno e planetas em geral não são grandes amigos de binóculos. Mas o Skymaster não faz feio. O planeta me faz lembrar Galileu, que descreve Saturno como se possuidor de orelhas. Percebo um disco acompanhado de alguns apêndices que recordam um formato discoide abaixo deste. Titã não se mostra. HIP 71469 e mais algumas estrelas de campo se apresentam emoldurando o Senhor dos Anéis. Faço um esboço no envelope de meu extrato bancario...
A coloração é bem mais amarelada...

Passeando pelo horizonte norte-nordeste eu me deparo com uma nebulosa bastante evidente. Mas aí começa a história de que álcool e observação não se misturam. O formato evidente era de uma nuvem. Ou eu estaria vendo  uma galáxia que depois de muitas pesquisas poderia ser Ngc 5812. Mas galáxias de 11ª magnitude não gostam de se apresentar para binóculos e muito menos em noite de lua cheia.
A madrugada ia avançada e eu me viro para o Sul. Já era bem tarde mesmo e eu começo a passear por campos que, em geral, se visitam mais a frente no ano. A fronteira Escorpião- Sagitário.
Pescar por essas águas é sempre sensacional. De binóculos então é sempre fartura. Nunca sei exatamente onde vou chegar.
Desta vez (e quase sempre...) começo por M7. Ele é um alvo binocular por excelência e começa o show. Se resolve em grande estilo.  Enche a rede e se não chega a transbordar é porque o 15x70 tem um campo de cerca de 3º. O “Aglomerado de Ptolomeu” não teme a Lua.
M6 é caminho obvio a partir daí. E o “Aglomerado da Borboleta” apresenta seu “shape” característico se resolvendo parcialmente. Adoro abertos que se resolvem parcialmente. As estrelas que não se resolvem dão um clima enevoado ao conjunto que é muito agradável ao olhar...
Eu sei que ao redor destes dois famosos aglomerados abertos habitam diversos outros menos populares. E assim fico escaneando pela região em busca de esfuminhos. Um me salta claramente aos olhos e se destaca da patuleia. É Ngc 6416. Um esfuminho grande e um pouco a oeste de M 6. Preciso me lembram de visita-lo com telescópio. Ele deve ser uma graça resolvido...
Depois é só seguir a Via Láctea. E diversos DSO´s se rendem ao 15X70 mm.
M8, M22, M21, M20 e diversos outros aglomerados (globulares e abertos) se apresentam. Uns mais discretos e outros menos. Esta região é sempre espetacular. E nem me dei ao trabalho de identificar cada um dos esfuminhos que compareceram a minha navegação etílica...
A ultima parada é um clássico: M11 “O aglomerado do Pato Selvagem”.  Finalmente sou vencido pelo cansaço e pelo goró.  Me retiro.
Já na sexta feira vai entardecendo e o céu se apresenta "empedrado” Não chega a ser inspirador ainda que permita algumas fotos de caráter mais artístico que astronômico...
De qualquer forma percebo que o horizonte sul vai se tornando mais claro e menos “empedrado”. E assim coloco o “Galileo” na montagem EQ 3-2 que se revela muito mais sólida com ele que com o meu telescópio maior (o que é obvio...). E preparo também a câmera em seu tripé. Com a família reunida eu não via me dedicando plenamente a “Arte Difícil”. E assim preparo-me para realizar algumas fotos de campos estelares e de constelações. E de quebra observar alguns “blockbusters” pelo “Galileo”.
Fiz um alinhamento polar seguindo mais os instintos que propriamente o bom senso.
Não sou um cara com paciência para o método do “drift”. E assim, em geral, utilizo Sigma Octans como minha guia. Deixo o telescópio e a montagem o mais no esquadro possível e utilizando a própria buscadora do telescópio alinho o conjunto. Centralizo Sigma na Buscadora e depois dou um pulinho para lá e dois para cá e voilá.  Às vezes fica melhor às vezes pior. Mas em todo caso estou com um setup que vai me permitir exposições entre 15 e 30 segundos sem muitos rabiscos no produto final. E não levo mais que 15 minutos para tal. Acho que nunca publicarei fotos na Galeria dos Leitores da Astronomy.
Faço varias fotos do Cruzeiro do Sul com a câmera no tripé. E depois do campo próximo a Alpha e Beta Centauros.  Por fim faço uma exposição da região onde reside Omega Centauro. Todas utilizando minha 75-300 mm @ 75 mm .
Fazer fotos desta forma é bem divertido e com a 70 mm consigo fazer exposições de até 20 segundos mantendo o rastro das estrelas aceitáveis.
Meu sogro fica curioso sobre o que estou fazendo. E porque de tantas exposições aparentemente idênticas. Eu explico que em astrofotografia as fotos , embora digitais, te que ser submetidas a “revelação”. E que estas serão  “empilhadas” e assim obterei mais detalhes.Ele parece não entender. Ou não dar a mínima. Ou os dois.
Ainda bem que não falei na tal  “razão sinal-ruido”...
. Na foto do Cruzeiro consigo perceber diversas estruturas. Ngc 4755 é evidente abaixo da Mimosa (Beta Crux). Logo acima de Acrux percebe-se claramente Ngc 4349. No canto da foto 3766 é claro. E se prestando atenção diversos outros DSO´s se escondem na paisagem. O Saco de Carvão é que não se apresenta.
Outro detalhe interessante nesta foto (na verdade fotos) é que elas foram “reveladas” de formas distintas. Em ambos os casos foram  empilhadas 15 fotos de 20 segundos de exposição (as mesmas fotos...). A diferença é o software utilizado. Na primeira foi utilizado o Deep Sky Stacker.. Este, em tese e também na pratica, mais poderoso que o Rot n´Stack. Mas novamente percebo que o RnS preserva melhor as cores. O DSS parece gerar uma imagem em escala de cinza. A Rubiácea (Gama Crux) é um excelente exemplo desta diferença. Repare nas fotos.
Deep Sky Stacker                                                                           Rot n´Stack

Omega Centauro se apresenta claramente em uma única exposição de 20 segundos com a zoom @80 mm.


Depois disto apresento a “Caixa de Joias” (Ngc 4755) para o sogrão com 52X de aumento: - Incrivel. Um triangulo perfeito!
 E rapidamente retorna para a garrafa de “Grants”.

Como já estou brincando de astrofotografia com minha "zoom barata" faço algumas fotos da região de Alpha e Beta Centauro.Com atenção e boa vontade você vai perceber Ngc 5662, 5316 e 5281. Todos aglomerados abertos discretos e entre 5a e 6a Magnitude. Vai perceber também que entrou luz pela lente adentro...

Logo resolvo tentar a sorte com meu alinhamento polar tabajara e faço algumas exposições de Omega Centauro através do “Galileu”. Ele definitivamente poderia estar melhor. Mas Omega é um gigante e é sempre um bom modelo. Uma dica: sempre que você conseguir perceber as Letras C e H impressa por sobre e em meio ao Gigante é porque o alinhamento polar não estava lá essas coisas. Já percebi isto em diversas fotos. Minha e de outros... Nas fotos individuais o efeito é claro. Na empilhada o erro se disfarça. Definitivamente o “Newton” tem mais poder de fogo e melhor qualidade que meu pequeno refrator.
Uma  exposição ( o efeito descrito não é claro devido a compressão do Blogger)
Muito semelhante ao que se vê na buscadora e em binóculos. A lua ainda vai bem cheia...

15 exp. de 25 seg. Rot n´´ Stack. É mais uma licençaa poética que um registro...

Depois disto não poderia deixar de fazer algumas fotos da lua. É fácil e sempre ficam bonitas. Desta vez as nuvens ainda brincavam e consegui diversos efeitos de luz e sombra por sobre a superfície lunar.





Depois disto me rendi novamente aos chamados de Baco e abri uma cerveja. E depois outra. E depois o “Grants”...
Já mais do lado ébrio da vida fiz algumas fotos da região que tinha visitado na madrugada da véspera (Sagitário-Escorpião) e com o céu “empedrado” consegui alguns resultados senão bons pelo menos diferentes. ( A compressão do Blogger novamente atrapaha um "pouco")

Sabadão choveu a cântaros...
Astronomia não tem que ser um fim em si mesmo. E tem de ser divertida. E desta forma o foi. Em um passeio com a família eu não poderia deixar a minha fixação dominar o ambiente e me tornar um cara antissocial. Um péssimo habito é querer manter todos no escuro. Mas mesmo sem realizar a operação “by the book” é possível obter resultados bastante interessantes e ainda apresentar a pratica astronômica a quem não é e nem deseja ser do ramo.
No domingo já nos preparávamos para entrar no carro. Sogrão e Sogrinha na maior água e o céu de repente abre. Não sei o que vejo. Depois descubro... faço uma rápida série de fotos do que deve ser o campo ao redor de Procyon. De novo com a 75-300 @ 75 mm. Não é exatamente um espetáculo. Com o Logaritmo do modo sort no Rot n´Stack ( já disse em algum lugar que este modo foi feito ou pelo Wharol ou pelo Miró) aparece algo no mínimo “estelar"...


Astrofotografia em familia...

terça-feira, 26 de março de 2013

Carl Sagan, Giordano Bruno e um Desafio


 
   Sempre quis falar, aqui no Nuncius Australis, a respeito de dois astrônomos que habitaram a minha infância e foram como heróis para mim. Mas como aqui não é a Wikipédia não encontrava razão para tal. O post iria ficar parecendo um verbete de dicionário. 
   Mas graças ao you tube tive a chance de juntar este desejo a um desafio observacional.  E assim vi o verbete completo...
   Carl Sagan foi um dos maiores divulgadores de ciência de todos os tempos e através do site já citado tive o prazer de rever seu testamento para a humanidade. A serie “Cosmos” foi provavelmente uma das maiores responsáveis pelo meu interesse em astronomia.
   Este post é cheio de lendas e de fatos não confirmados. Mas é exatamente assim que ele deve ser. Quase todos os seus parágrafos poderiam começar com um de meus bordões favoritos: “E assim reza a lenda”.
   Sagan conta-nos no episódio numero quatro de sua obra magna sobre diversos impactos cósmicos. O episódio se chama “Heaven and Hell” (Céu e Inferno).

   Reza a lenda que este episódio em especial se encontra bloqueado no you tube em diversos países. Não é uma informação confirmada. Mas pode ser verdade. 
   Ele começa falando sobre o “Evento de Tunguska”. Este um dos maiores mistérios astronômicos recentes e que voltou a moda com o bólido que derrubou casas pela Rússia. Nem tão distante de Tunguska...
   Posteriormente ele fala de um impacto na lua que serviria para confirmar a hipótese “cometaria” de tal evento. 
   Este evento que ele descreve se encontra entre “Os Contos de Canterbury”. O titulo  poderia também ser traduzido para “As Lendas de Canterbury”.  
    Reza a lenda (promessa é divida) que em 18 de junho de 1178 cinco monges viram algo muito estranho acontecendo na Lua. Em tempos em que o céu era imutável estes praticamente calaram. Seria uma grande perda para ciência. Mas estes, felizmente, descreveram sua “visão” (para eles só poderia ser uma visão...) para o cronista da Abadia, Gervase, que o “Chifre” superior da lua se dividiu em dois. Posteriormente este escreveu :
“De uma área central uma tocha flamejante lançou um brilho a uma considerável distancia, este envolto em carvões em brasa e faíscas. Entrementes o corpo da Lua tremeu como que se tomado por ansiedade. O que observaram isto com seus próprios olhos me garantiram que o fenômeno se repetiu algumas vezes e que a Lua tremeu. Posteriormente tudo voltou ao normal e a Lua escureceu...”.
    O evento e seu desenrolar é belamente descrito no vídeo. Eu recomendo que o veja...

    O fruto deste evento, que ocorreu em tempos históricos, me leva a falar de outro astrônomo que sempre habitou minha imaginação. Provavelmente devido a seu triste fim.
Giordano Bruno foi um homem a frente de seu tempo, mas também de seu tempo. Fiel seguidor da teoria Heliocêntrica ele foi um dos primeiros a pensar a respeito de um universo infinito e de vislumbrar a dimensão do Cosmos.  Ele antecipa a relatividade e considera em seu ideário a importância do observador na compreensão de fenômenos. Ele “pregou” um universo infinito e com uma multitude de estrelas planetas e a possibilidade de vida inteligente espalhada por ele.  
   "Nós declaramos esse espaço infinito, dado que não há qualquer razão, conveniência, possibilidade, sentido ou natureza que lhe trace um limite." (Giordano Bruno, Acerca do Infinito, o Universo e os Mundos, 1584).
    Ele não foi queimado por defender a ideia heliocêntrica como se pensa. 
   Bruno era crente que tudo possuía vida e que tudo possuía alma. E isto foi demais para o Século XVI... Terminou na fogueira. E no imaginário de todos os astrônomos e livres pensadores.
    Agora voltamos ao mundo presente. 
   O evento descrito nos “Contos de Canterbury” foi analisado posteriormente e com o estudo da superfície lunar se chegou à conclusão de que uma cratera que homenageia o pioneiro Bruno teria sido formada naquele evento observado pelos monges. O aspecto claro da ejeta que cerca a cratera Giordano Bruno leva a crer que se trata de uma formação muito jovem.
    Essa lenda foi primeiramente defendida pelo geólogo Jack B. Hartung e parece que a ideia foi encampada por Sagan.  É um bom fiador para mim.  O alto albedo da raiação que é centralizada na cratera também é um forte indicio de haver algum fundo de verdade. Este sistema de raios se estende por mais de 150 km.

    Giordano Bruno é uma cratera de impacto de 22 km de diâmetro no lado distante da lua. Exatamente logo após o Limbo nordeste.
   Sua posição é que a faz um grande desafio para os observadores situados na Terra (como Giordano Bruno já dizia: tudo é relativo ao observador...).
   Habitando a zona das librações ela é, em teoria, visível (em parte) para observadores na terra. Não espere perceber detalhes. Se perceber suas encostas já será um feito. Em um tópico do Cloudy Nights é discutido se é ou não possível observa-la. A mesma consta dos objetos disponíveis na lista da Série Nexstar de telescópios GO-TO (Celestron). Imagine que você deve busca-la numa libração super favorável.  
    Situada entre as Crateras Harkebi ao noroeste e Szilard ao sudoeste e com a cratera Fairy ao norte sendo a maior coisa por perto Giordano Bruno é um grande desafio.
"The Pale Red Dot" indica a posição de Giordano Bruno
Perceba que a libração tem que ser muito especial... 

    Segundo o Virtual Moon Atlas a mesma pode ser observada (em uma libração excelente) dois dias depois da Lua Nova e um dia após a Lua Cheia. E a mesma estaria ao alcance de telescópios de 50 mm. Eu duvido... 
    Tentei a sorte duas vezes e não vi nada. Gauss é uma cratera grande e que pode te ajudar no caminho. Só cheguei até ela.  Imagino que nunca tentei em uma libração favorável.  E pelo que vi esta tem que ser muito especial...

   Se você conseguir observa-la é possível que voc~e veja uma das poucas, senão a única, cratera na superfície lunar que surgiu durante a presença humana na Terra...

PS Libração, é um balanceio da Lua, fazendo com que mostre parte de sua face oculta. Notadamente, o nome refere-se ao balanceio da Lua em relação à Terra, mostrando partes de sua face oculta. 





sábado, 23 de março de 2013

Ngc 3293 e um T-Ring "Envenenado".


Minhas sessões de astrofotografia me recordam muito ao planejamento de uma derrota.
Derrota é um termo náutico. Já falei nisto por aqui, mas para refrescar a memória vamos lá:
 “Em náutica, a derrota é o trajeto que percorre uma embarcação desde um ponto “A” até outro ponto “B”. Na carta náutica se traça a rota que se pretende seguir; a derrota é o trajeto que <<na realidade>> se segue, devido a correntes, ventos, erros instrumentais e etc. em razão destas se realizam modificações no rumo da embarcação”.
E assim começo minha derrota astronômica; Será uma longa derrota...
Carta da Região 

Escolho o tal do ponto “B”. Em geral um DSO que se encontra na janela observacional de meu observatório. E neste caso janela é um termo bem literal...
Então abro a carta celeste e escolho como será a aproximação. Algo como: “ Se eu sair desta estrela e pular para esta estrela eu vou ter “B” na buscadora.
Então me dirijo para o telescópio e começa a derrota. A estrela “A” não esta visível a olho nu, o vizinho “x” está com tudo aceso e por aí vai. Desta forma é muito comum à derrota planejada, em vez de me levar até o ponto “B” desejado, me leve a “C”.
Em geral a localização de algum DSO brilhante por perto do porto desejado é suficiente para que você determine derrota restante. Às vezes, caso o DSO no caminho seja interessante, é fim do caminho.
Neste momento eu vou colocar a câmera no T-Ring e fotografar o que achei.
Parece até um naufrágio. Uma derrota que encontrou uma pedra. Mas às vezes é uma ilha perdida cheia de delicias...
Para ser sincero, em geral, planejo duas derrotas para as sessões de fotos.
 Uma quase utópica, como ir até as ilhas Sandwich do Sul. Em solitário e em um veleiro de 23 pés fabricado em 1973 e sem quilha... Outra mais como um passeio até as ilhas Cagarras.
A primeira em geral envolve um obscuro DSO de origem extragaláctica ou uma desconhecida nebulosa planetária que seriam mais viáveis em céus super escuros e com um telescópio bem maior que o meu. A outra é sempre um aglomerado aberto com no máximo 6ª magnitude.
Assim garanto pelo menos um porto seguro. E mantenho o projeto para fotografar todos os objetos Lacaille até o fim do ano em andamento.
Para a noite de 22 para 23 de março eu tinha em mente navegar até Ngc 3201. Um Aglomerado globular que brilha com magnitude 6.8. Não chega a ser um projeto completamente descabido. O aglomerado é bastante brilhante e próximo a Upsilon Velorum. Encravado no meio da vela da extinta embarcação celestial, Argos.
Mantendo o aspecto náutico deste post a minha segunda opção seria Ngc 3293. Este um “aglomerado aberto com nebulosidade envolvida” e que se mostra com magnitude 4.7. E que se esparrama por 40´ de céu. E de quebra na constelação de Carina, a quilha do mesmo mitológico barco acima citado.  Um Lacaille original. Lac II . 8.
Logo que escureceu começou a operação. Um rápido ajuste na buscadora na luz de top do Hotel Marina e uma afinada no alinhamento polar e começa a derrota.
Ngc 3201 começa aprontando. Sua posição não é exatamente vantajosa. Devido a diversos fatores como o pouco espaço do observatório, a posição da janela, o alinhamento desta com o universo, o eixo polar, a rotação da terra e etc. ele não é viável. Para piorar há uma forte bruma apagando o céu.
Março tem sido ingrato para observar.
 A derrota ocorre. Mas eu chego de bote salva-vidas. O Globular se apresenta para meu binóculo 15X70. Como uma discreta condensação e mesmo assim somente com visão periférica. Nada de fotos e nem apresentações. O globular merece mais dignidade, uma segunda chance e um post só seu.
Neste momento a derrota toma clima de tempestade. Chega minha filha e esta planeja ir para a casa de uma amiga. Para-se tudo e lá vou eu levar a criança para o passeio.
E mais - Liga a cara metade e pergunta:
- Qual vai ser?
 Assim minha derrota tão bem planejada faz água.
Depois de deixar a criança e estabelecer um horário para busca-la (23h00min) eu vou encontrar a esposa em um restaurante.
Litros de chopp  mais tarde e bem atrasado no cronograma eu chego de volta ao lar. Após um pouco de discussão e de falar que minhas vontades ficam atrás até das do gato de casa consigo voltar ao meu rumo.
Agora parto, a todo pano, em direção a 3293. Ele se localiza bem próximo a s Vel. Esta com magnitude 3.8 se encontra no limite do que é visível a olho nu no observatório. É dura a vida com um céu na zona 9 da escala Bortle de poluição luminosa.
Quando navego pela região de Carina, especialmente na área próxima a fronteira com Vela e com Centauro, eu geralmente navego pela buscadora. Como um Mestre Arrais faço uma navegação de cabotagem e também me vou guiando pelas lajes do caminho. E assim minha derrota se inicia pelas Plêiades do Sul e seguindo a corrente passo por Eta Carina e alguns abertos discretos que me conduzem a 3293. Este se faz perceber mesmo com 70% da lua iluminada.   O percebo claramente pela buscadora e finalmente o observo com a 25 mm. Ele, embora pequeno, se apresenta como um destaque de escola de samba.
Não tento mais ampliação e com uma câmera nova, parto logo para as fotos.
Fiz algumas modificações em meu T ring que se revelam um achado. Substitui os parafusos de fixação, que necessitavam de uma chave Allen para serem arrochados pelos parafusos que acompanham minhas barlows. Assim fixar a câmera ao anel do T ring se tornou muito mais fácil.
O T- ring "envenenado"- Os parafusos das barlows dispensam o uso de ferramentas. 

Para realizar astro fotos em minha modesta montagem eu primeiro localizo o DSO com a 25 mm (que em um campo um pouco menor que das fotos.) e depois acoplo a câmera com o objeto já centrado. O foco é sempre difícil. Consigo perceber um borrão pelo finder e nada no LCD. Assim coloco o focalizador na marca de foco que ele já possui e afino o mesmo por tentativa e erro.
Com o novo set up o acoplamento se tornou bem mais simples. Não preciso de chaves Allen e consigo fazer este no escuro sem problemas. Um macete dos bons.  
De novo a derrota. Aparece uma barata na cozinha e a esposa acende todas as luzes da casa. Acho que vou desistir.
Render-se nunca. Retroceder jamais.
Depois de tudo resolvido e a barata desaparecida retorno a ocular e começo, de novo, a batalha de localizar o esfuminho na buscadora.
Hoje estava difícil. O vizinho estava inspirado e deixara a luz do banheiro acesa. É a pior de todas...
Mas consigo centralizar 3293 e com o novo set up do T ring tenho a câmera em posição rapidamente. Faço seis fotos. resolvo melhorar o foco e quando consigo consertar a besteira que tinha feito   e  me aproximar do foco que tinha anteriormente o tempo nubla...
Nublando...
 

O alinhamento polar fica a desejar. Mas no meio de tanta derrota eu acho melhor não tentar nada mais preciso.  Não estamos na NASA...
3293 possui duas estrelas bem vermelhas que o tornam inconfundível. Mesmo com a 25 mm ele se resolve quase na integra. Apesar de ser considerado um aglomerado acompanhado de nebulosidade eu não a percebo. Creio que com mais exposições ela se revele em fotos.
Depois de fotografa-lo fiz um passeio pela região, driblando nuvens. A fronteira Centauro-Carina é uma das regiões mais impressionantes do céu. Um céu austral... Um cartão postal...  E com o 15X70 revela dezenas de DSO´s...
A derrota foi tempestuosa.
Ngc 32993 é o porto de chegada.
Conhecida também como a “Pequena Caixa de Joias” (em comparação a Ngc 4755) é um dos abertos mais bonitos do céu austral. Residindo em Carina é uma das joias da coroa austral.
Residindo próximo ao coração de Eta Carina e todo o complexo instalado ele passa, às vezes, despercebido.
Um erro...
Foi descoberto, é claro, pelo Abbe Lacaille e foi apresentado em 1755 com a publicação do catalogo.
John Herschel (o filho) o descreve:
“Um aglomerado interessante, bem brilhante e não muito grande.”
Para encurtar a historia:
 O aglomerado consiste em mais de 50 estrelas em um campo de 10´. Sua estrela mais brilhante é uma gigante vermelha de 6.5 mag. Ela esta “arrodeada” de areia branca (ou azul...). A mais quente de suas companheiras é uma B0. Existe ainda alguma nebulosidade na região..
Localizado a 8.000 anos luz da terra e com apenas 10.000.000 milhões de anos de idade é um aglomerado bem jovem.
Um belíssimo aglomerado aberto que pode ser ignorado em uma área tão rica.
            Depois da captura das imagens resta o pós processamento. Nas fotos abaixo você pode perceber os diferentes resultados obtidos em cada um dos tratamentos. (veja os softs utilizados nas legendas)
1 exposição 30 seg -Asa 800


5 exposições 30 segundos Empilhadas no DSS. Perceba o forte gradiente do fundo


DSS+IRIS+Photoshop+Noiseware



Rot n´Stack Maximo
Rot n´Stack Minimo

Curiosamente o Rot n´Stack obteve resultados mais fidedignos que o Deep Sky Stacker. Ele preservou as cores do aglomerado que no DSS foram praticamente totalmente lavadas no processo de stacking.
Apesar de todos os problemas Ngc 3293 foi um bom modelo e gostei dos registros obtidos.
E sem duvida o maior acontecimento da noite foi o melhoramento obtido no T Ring com a troca dos parafusos. Fixar a câmera ao telescópio se tornou uma operação bem mais simples e evita deslocamentos do tubo que tornava o enquadramento dos DSO´s uma tarefa bem árdua. 

P.S. O RnS também pode tomar liberdades poéticas . É sempre divertido ver o que ele vai aprontar no seu modo "Sort"...

Modo Sort do RnS com o gradiente do fundo corrigido no IRIS. Pop Art...


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A Peregrinação dos Frames

           Completando 5  anos de Nuncius Australis e pouco mais de 1 ano fotografando alguns DSO´s eu finalmente começo a chegar ao que se poderia chamar de método. Ou pelo menos o mais próximo que  posso chegar disto.
Quando falamos em fotografia astronômica eu imagino duas etapas. Uma é a captura das fotos , da imagem propriamente dita (que serão chamados de Light frames, Lights ou simplesmente L depois desta primeira etapa).

Light frames ( serão varios iguais  . Ou "pelo menos" parecidos...)

                Além dos Lights você vai capturar também Blacks frames. Estes são simplesmente fotos feitas com o tubo do Telescópio tampado e devem ser realizados com o mesmo ASA e pelo mesmo tempo de exposição que os Light frames. Servem para melhorar a razão sinal/ruído.  
                Não capturam nenhuma luz.Habitam a escuridão. Só capturam ruído, hot pixel e outras coisas nefastas. 
               Serão subtraídos dos Light frames levando embora estas assombrações e deixarão apenas o sinal.                   
                Em tese...
Dark frames 

          
                E vai também capturar os chamados Flat frames. Estes devem ser capturados com o tubo do telescópio com a mesma posição que os lights e como mesmo foco. O Tubo do telescópio deve ser coberta com um pano branco (algodão ou brim ou uma camiseta...). Este deve ficar bem esticado e  então deve ser iluminado de forma homogênea. Seja com uma fonte de luz. Ou o céu do amanhecer... Vão servir também para melhorar a razão sinal/ruído. E também tem algo com relação a Vinhetas... Pode-se viver sem esses.
Flat frame

                Existem diversos sites e artigos a respeito de como capturar seus Lights, Dark e Flats espalhados por aí. 
                O programa que uso para controlar a câmera durante esta 1ª etapa (quando uso algum...) é o Canon Utilities.  .
É bem simples e intuitivo. Uma rápida olhada no manual vai resolver qualquer duvida. Ele vem encartado com todas as DSLR´s da Canon.
                O IRIS, de que falarei mais tarde, também pode ser utilizado na captura.
                Esta encerrada a primeira etapa.
                A segunda etapa consiste no processamento das imagens. Seria o trabalho extinto do laboratorista nos tempos da película...
                Neste post pretendo apresentar a peregrinaçao digital  que suas fotos (Lights frames) percorrem até se tornarem uma “foto astronômica”.
                A primeira parada é o  Deep Sky Stacker (DSS). Um software gratuito e eficiente pra realizar o alinhamento e o "empilhamento”.  
 Existe uma regra básica para o DSS funcionar.  Os light frames que você capturou tem que ter um mínimo de dignidade. Se forem só um montes de riscos e ruído esqueça.  Ele não vai realizar alinhamento nenhum. Vai informar que voc~e esta empilhando somente um Frame . E recusar os outros...
 Se este  o seu caso tente o Rot´n Stack. É um outro software mais “rude”. Ele também trabalha com a Razão Sinal Ruído. Mas eu tenho a impressão de que como só trabalha com Lights ele não a melhora. Ele soma Sinal e ruído. E assim muito ruído é inevitável. O RnS tem uma interface bem amigavel e não precisa de tutorial. É o Paint dos “stacker´s”. Ruim e fácil de usar...   
O DSS por sua veze vai utilizar darks e flats para melhorar a razão sinal/ruído. Pois somamos toda informação dos lights e depois subtraímos o ruído através dos Master dark e Master flat criados pelo software. A imagem final do DSS vai somar o que é sinal e subtrair o que é ruído...
Sinal é a informação que esta no seu light frame e que deveria estar lá. O pixel que esta onde estava a estrela sobre o sensor. O resto é ruído. O ruído é que nem poeira que se abate sobre os viajantes.
Operar o DSS é bem simples. Basta carregar os lights, darks e flats e realizar alguns settings.  
Com os arquivos todos carregados, checados e registrados a janela ‘Register Settings’ vai se abrir para você’. Clique na aba “Advanced”. Eu uso no parâmetro “star detection threshold” 25%. Quanto mais baixo for este parâmetro mais “pé de boi” se torna o DSS. Mas aí o produto final pode ser um monte de riscos...
Depois clique em “stacking parameteres” coloque em cada um dos parâmetros os seguintes “settings” (estes são os que eu uso. Outras combinações são possíveis):
·         Em Result  use Intersection.
·         Em Light use Kappa-Sigma clipping ( aqui se determina como se vai lidar com o sinal)
·         Em Dark use Kappa Sigma clipping Aqui vai-se fazer o Master dark e vai lidar com ruído.  Como os darks frames não tem sinal são um bom parâmetro para se determinar o que é sinal e o que é ruído nos lights.
·         Em Alignmet use Automatic.
·         Em intermediate files – Tiff files
·         Cosmetic- não faça nada.
·         Output- eu prefiro tiff. Pode usar qualquer um...
O DSS depois vai somar o sinal que esta no  Lights e vai subtrair o ruído que esta nos darks e flats. É uma explicação bem simples e aproximada do que realmente acontece.
Mas o que importa ele melhora em muito a tal da relação Sinal /Ruído. 
Depois que ele abre o resultado do trabalho eu costuma melhorar um pouco o contraste da foto ainda no DSS.
Na janela que estará aberta abaixo da foto arraste os parâmetros RGB nas barras deslizantes mais para esquerda. Descendo a curva... Antes de fazer isto a imagem pode parecer muito clara e lavada.
Saindo do DSS

Clique aqui para  um tutorial mais completo para o DSS. Neste tutorial o autor usa settings diferentes dos  que eu utilizo. 
Depois vou abrir este arquivo ,que foi criado no DSS, em um programa um pouco mais complicado. Mas fundamental.
O IRIS é também um freeware. Creio que seja o maior concorrente do Maxim. Ele é um "faz tudo". Opera seu telescópio (se possuir GO-TO), faz auto- guiding , opera a sua câmera, realiza alinhamento e é um processador de imagens.  Eu só o utilizo nesta ultima missão. Como ele é um processador de imagens com cacoete de astro fotografo ele possui diversos recursos que são perfeitos para os problemas típicos da “difficult art”.
 O Stacking and Align é bem complicado de se realizar .Melhor usar o DSS. Muito mais amigavel.                   Ele pode ainda ajudar na captura, me parece que gosta de câmeras Lumenera e possui no cardápio quase todas as DSLR disponíveis. Eu fiz um rápido teste e voltei correndo para o Canon Utilities.
Seu recurso mais importante, para mim, é a capacidade de resolver a vinhetagem que ocorre na minha captura e que o DSS (com seus flat frames) não resolve e nem o Photoshop elimina.
Através de um processo sinuoso ele permite controlar a vinhetagem. Na aba “Processing” procure por “Remove Gradient”. Ou através da Janela de comando instrua como fazer um fundo “perfeito para sua imagem”.Isto vai emplicar em marcar manualmente até 2500 pontos no seu Frame inicial... Ele faz isto também de maneiras automáticas . Mas a normas aqui de casa são claras . Sempre do jeito mais dificil. O programa tem vários recursos. Mas é complicado para se dominar.
 Ele ainda ajuda muito com o ruído termal comum em longas exposições.  Procure o recurso” selective gaussian filter” na aba “Processing”.
A esquerda antes do IRIS . Repare no gradiente ( vinheta) do fundo. A direita depois ...

A esq.:RnS Sort Mode                                  a dir.: RnS+Iris

Ele não é um programa com uma interface obvia. Requer alguma experiência. Não é intenção de este texto servir como um tutorial para os programas apresentados. Espera apenas servir como um guia de referencia rápida e uma introdução à matéria.
Recomendo que leia o tutorial se pretender entender-se com o IRIS.
Nossa próxima parada é o Photoshop. Em geral as ferramentas que mais uso são Levels, curves,  Brilho / Contraste e Color Balance. O Photoshop apresenta varias possibilidades que não cabem ser discutidas aqui.  Existem milhares de tutoriais descrevendo as mais diversas técnicas no PS.
DSS+IRIS +Photoshop

E por fim, em geral, eu faço uma ultima visita ao Noisewear. Ele possui uma versão gratuita e dá uma disfarçada no que sobrou de ruído em sua foto. É um programa bem simples.
Do tipo carregue a foto e aperte GO. Existem alguns parâmetros que podem ser ajustados. Os "settings" de seus defaults são mais que suficientes. Voce pode baixa-lo aqui
E assim, dando tudo certo, vai ficar até razoável.

P.S. : Hoje em dia (2019) Utilizo apenas o DSS para empilhar e geralmente faço o pós processamento no PixInsight 1.8 . É o soft mais poderoso e mais especifico para astrofotografia que conheço. Não é um programa barato. Existe uma versão gratuita e descontinuada ( PixInSight LE) que pode ser conseguid ana web com alguma procura. Leia-se Pirate bay. 


 E eu continuarei tentando...

 Nossas modelos ( ou vitimas) foram  Ngc 4755 e IC 2602. A Caixa de Joias e a Plêiades do Sul respectivamente.
Posteriormente acrescentei NGC 6397 como outro exemplo ( extremo). É o Globular


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O Segundo Encontro, Alinhamento, IC 2602 e o DSS.


Noultimo post apresentei o primeiro encontro com a Canon T3. Eu planejara fotografar IC 2602. As Plêiades Austrais. Não aconteceu e numa sessão afobada, como em geral são primeiros encontros, fiz algumas imagens estabanadas de Ngc 4755. A Caixa de Joias de J. Herschel.

Na noite seguinte a lua se encontrava ainda mais brilhante, mas não me intimidou. Aproveitando o “desalinhamento polar” do primeiro encontro eu consigo melhorar as coisas. Com o auxilio de minha pequena 6X30 mm eu improviso uma buscadora polar e quando consigo ter Sigma, Chi, Nu e Tau Octans do lado certo e com Sigma bem próxima de onde deveria estar eu me dou por satisfeito. O alinhamento polar estava feito. E ficou bem razoável. Embora a lenda conte que Sigma é uma estrela muito apagada ela é facilmente visivel com uma buscadora. E o triangulo formado com as outras duas é caracteristico.

"Buscadora Polar"


Este método de utilizar uma buscadora polar improvisada é rápido e indolor. E em locais que o método do drift é impraticável permite alguma dignidade. É claro requer atenção e um programa planetário já que vendo tudo de “cabeça para baixo” e espelhado pela pequena buscadora colocar Sigma Octans no lugar certo (ela fica a 1º 5´do polo) é muito parecido com um exercício de Ioga. A direção que ela deve estar deslocada do eixo polar depende do horário. Por isso o programa planetário.



Eu continuo insistindo em utilizar o pequeno “Galileu”. Meu refrator barato de 70 mm.  IC 2602 cobre uma área do céu de quase 1º . Ou seja, duas Luas cheias. E desta forma o 150 com seus 1200 mm de distancia focal iria ter um inverno longo e duro para enquadrar tudo isto.
As Plêiades Austrais são facilmente localizadas mesmo a olho nu e em locais de forte poluição luminosa. Em uma noite de Lua cheia fica um pouco mais difícil, mas mesmo assim é bastante simples de localiza-las pela buscadora 10X50 mm.  Theta Carina, que é membro do aglomerado, brilha com magnitude 2,7 e não é nenhum problema avista-la. Eu percebo claramente alguma “nebulosidade” ao redor das mesmas. Esta se resolve com qualquer auxilio óptico em dezenas de estrelas. É um daqueles aglomerados que combinam muito com binóculos...


IC 2602 é uma descoberta original do Abbe Lacaille de 1751 realizada durante sua viagem a Cidade do Cabo para mapear os céus austrais. É a entrada II. 9 de seu catalogo. O próprio Lacaille percebeu sua semelhança com suas irmãs boreais, as Plêiades originais.
É um aglomerado relativamente jovem com 50.000.000 de anos estimados. E se encontra a 479 anos luz de nós segundo o satélite Hipparchos. Possui aproximadamente 60 membros. Theta é o único acima de 5ª magnitude.  
Com o DSO enquadrado eu começo o meu segundo “tête-à-tête” com minha nova Canon T3. Rapidamente descubro que Theta se apresenta no LCD. Isto é um maná para se focar o objeto. A câmera oferece o recurso de se selecionar uma parte do LCD e ampliar a imagem. Então centralizo a janela em Theta e amplio a imagem. Fazer o foco se torna bem fácil e não preciso mais ficar caçando algo para ver através de um Viewfinder espremido e em uma posição difícil.  
Janelado Auto focus e " Guider"... Perceba Theta Carina.


Depois disto ainda descubro mais uma utilidade para esta janela. Com a imagem já em tamanho normal eu centralizo o quadrado em Theta e com isto poso ter uma boa ideia sobre a qualidade do alinhamento polar. A estrela deve se manter centralizada na janela. E serve até como uma espécie de “auto guider”.  Bem, nem tão “auto” assim...
Com tudo transcorrendo bem o meu encontro parece que vai ser feliz. Lógico que não pode dar tudo tão certo e apanho um pouco para ajustar a buscadora depois de um esbarrão. Mas depois de alguns ajustes esta tudo de volta no esquadro e Theta Carina de volta ao centro da janela do Auto focus.
Fotografando com ASA 3200 faço algumas experiências. E descubro algo interessante. Em primeiro lugar que as exposições que eu fazia na antiga 350 D (geralmente em 800 ASA e às vezes em 1600 apesar do ruído) podiam ser reduzidas a metade. E que com o advento da obra do metro a poluição luminosa aumentou mais ainda na fronteira da Republica do Leblon com Reino Unido de Ipanema. E assim as exposições de 30 segundos são exageradas e sofrem barbaramente com a bela iluminação com lâmpadas de Vapor de Sódio. Com a câmera regulada para “daylight” (5200 k) o bafo laranja é evidente.

10 seg.                                                            30seg.   


 Quando fotografando aqui no Rio eu raramente faço exposições superiores a 15 seg. Eu prefiro fazer mais exposições em vez de exposições mais longas.  Acredito que assim consigo reduzir o efeito de Poluição Luminosa (PL daqui para frente).  
Agora com o auxilio luxuoso da ASA mais alta eu pude reduzir as exposições para 10 segundos. Seria o equivalente a exposições de 20 seg. em 1600 ASA. E as Plêiades Austrais são um DSO muito brilhante e assim não necessitam de exposições muito longas para registrar até seus mais tênues membros.  E as fotos não acusam (tanto) a presença do canteiro de obras...
Decido capturar em JPEG. Eu sei que deveria usar RAW. Mas prefiro aguardar isto para uma noite mais escura e mais digna. Continuo em modo teste...
Faço 43 fotos de IC 2602. Isto vai nos dar mais de 7 minutos de exposição somada.
Depois faço ainda 27 Dark frames.
Agora chegou a hora de visitar o DSS. Deep Sky Stacker.
Um colega astrônomo que frequenta o “Cosmoforum” certa vez colocou que o DSS é um programa meio temperamental. E que depois que você selecionou as fotos que quer empilhar deve, antes de dar “enter” no processo, providenciar uma galinha preta, Cidra e charutos “dos bons” e levar tudo até a encruzilhada mais próxima.
Parece que o programa esta de bom humor. O DSS seleciona 39 das 41 fotos para empilhar.


O resultado me deixa satisfeito. Embora fotografar através da tela da janela não ajude o registro fica bem fiel. E revela também algumas deficiências do telescópio que eu já havia notado no primeiro encontro.
Percebo uma forte vinheta nesta imagem e assim resolvo fazer alguns Flat frames para ver se melhoro a situação.  Abaixo apresento duas versões deste stacking. Sem flats. Utilizando a ferramenta Levels no Photo shop eu acho que consegui reduzir a vinheta em uma das fotos. Mas à custa de contraste. E não foi uma solução definitiva.
39 Lights, 24 darks.  Sem Photo Shop



Levels no Photo Shop + Noiseware


Astrofotografia pode se tornar um eterno processamento. Não é exatamente a minha parte favorita, mas acredito que com a nova câmera eu acabe estudando mais as possibilidades de diversos softwares. Tanto para a captura como para o processamento das imagens.
Para realizar os flats eu utilizei um método descrito pelo astro fotografo Fabrício Siqueira. Não me lembro de exatamente aonde. Mas é bem simples. Com o telescópio na mesma posição e mesmo foco e a câmera com os mesmo parâmetros utilizados no Light frames você cobre a objetiva do telescópio com uma camiseta branca, coloca um computador com a tela toda branca colada à camiseta e captura esta imagem. Via ficar tudo branco.
Em tese estes flat frames vão ajudar a me livrar da vinheta.
Não tenho certeza se fez muita diferença... 
39 Light, 24 darks , 16 flats- DSS + Photoshop Levels +Noiseware


O DSS oferece diversas formas de se realizar o Stacking. Nesta foto, especialmente, eu utilizei o método por eles chamado de Kappa Sigma Clipping. É mais pesado do que o Average que em geral uso. Mas me parece um pouco mais eficiente.
Depois as fotos visitaram também o Noiseware...
Este é post scriptum: \DSS+PS+IRIS+Noiseware. Melhorou o "vignetting"...
Mesmo antes do Noiseware pude perceber claramente que o nível de ruído da T3 é muito mais baixo que da antiga câmera.  Fiz um stacking somente de Light frames (sem darks) que demonstra bem isto. Mesmo em 3200 asa o ruído é aceitável. A vinheta é barabara...
39 Lights - DSS 

E também aprendi que os arquivos da T3 são muito maiores. E com as fotos tem 4272 por 2848 pixels o DSS vai bem. Mas o Rot n´Stack tem dificuldade para manipular estes arquivos. Se faz necessário reduzir o tamanho das fotos no Photo Shop para que o RnS conseguisse empilhar algumas fotos de NGC 3532 que embora fora de foco ( e, portanto não aceitas pelo DSS nem com “reza braba”) serviram para fazer algumas experiências sobre processamento. Eu gosto de utilizar o Rot n´Stack, pois ele empilha qualquer coisa e apesar de mais mambembe que o DSS é uma ferramenta útil. É uma pena que ele não suporte os arquivos maiores da T3. É um saco ter de reduzir dezenas de fotos...  De qualquer maneira utilizei o aglomerado para ajustar o alinhamento polar e sobraram umas fotos, meio toscas e disfarçadas de desenho, deste belo aglomerado.


 Será provavelmente o local que levarei a T3 no nosso próximo encontro astronômico...