terça-feira, 12 de julho de 2016

Ngc 4608 e 4596 : "The Rho Twins"

               

            Sempre que vou falar de galaxias me lembro da longa história que nos levou até o entendimento do que ,por alguns momentos históricos, foi chamados de Universos Ilhas.  É importante fazer uma autocritica quando achamos engraçado que os antigos não soubessem do que se tratavam o que então se chamava de nebulosas espirais. Os telescópios do Seculo XIX não tinham poder de fogo para resolver estrelas em estes distantes universos. E assim supor que eles apenas eram nebulosas dentro da própria via láctea não parecia ser o absurdo que sabemos ser hoje. Nenhumas das velas padrões ainda haviam sido descobertas (pelo menos não com esta utilidade...) e mesmo as distancias para as galaxias mais próximas já é suficientemente grande para parecerem impensáveis em um universo, na época, ainda estático.            
                O conhecimento destes seria semelhante ao dos atuais defensores de ideias como a terra plana, a terra oca e a terra jovem. Como disse Simenon :  "Uma pequena ilha em um vasto oceano de desconhecimento".
                Mesmo assim alguns visionários parecem ter percebido a natureza destas nebulosas de uma forma quase profética. Kant e antes dele Giordano Bruno pareciam já ter entendido a escala do universo e suas estruturas de uma forma futurista.
                Quando penso em universos ilhas e o caminho para seu entendimento sempre me ocorre o Aglomerado de Virgem. O Maior aglomerado galáctico em nossas plagas de universo.
                Visitar o mesmo é um desafio para os astrônomos amadores. especialmente os iniciantes. São centenas de galaxias e sem muitas estrelas por perto navegar pelo aglomerado é mais um exercício de "galaxy Hopping" que de "star hopping".

                Phill Harrigton em seu "Star Watch; The  Amateur Astronomer´s Guide to Finding, Observing and Learningabout over 125 Celestial Objects"  no conta muito sobre o aglomerado de Virgem. Na verdade ele o batiza de Aglomerado de coma Virgo já que este se espalha por entre as constelações de Virgem e Coma Berenice ( A Cabeleira de Berenice). Localizado a uma distancia média de 60 milhões de anos luz é o mais próximo grande aglomerado galáctico em relação ao nosso grupo local. Nós mesmos seriamos habitantes marginais desta imensa estrutura. Isto implicaria que apesar de estarmos nos afastando da maioria das galaxias no aglomerado a gravidade destas ( em um futuro distante) iria reverter este quadro e nós iriamos acabar por nos unir ao mega aglomerado.
                Harrigton nos alerta logo no inicio de seu texto que apesar de ser , teoricamente , possível observar todas as galaxias Messier no aglomerado com binóculos 10X50 mm estes não são alvos para os novatos . Ele recomenda que o novato desenvolva suas técnicas observacionais  com objetos Messier mais acessíveis antes de tentar tal empreitada. Mesmo com pequenos telescópios a maior parte das galaxias será um alvo discreto e em muitos casos alvos quase estelares.
                O que acho interessante no texto de Harrington é que ele aborda o aglomerado com um único alvo. E não galaxia a galaxia. Em seu projeto ele estabelece duas campanhas para se observar o aglomerado. Uma se iniciando o ataque a partir de oeste e outra escaramuça a partir do Leste.      
         
                Seguindo sua estratégia mas não sua tática apresento uma saída diferente para a campanha  do leste. Da mesma forma que  Harrington  iniciamos a campanha sem ser por objetos Messier. Mas enquanto este aposta em Vindemiatrix e Ngc 4762 ( um dos objetos não Messier mais brilhantes no aglomerado)  eu prefiro  iniciar  partindo de Rho Virgem e do que batizei de " The Rho Twins" ( em inglês mesmo pois me pareceu mais musical e me lembrou do Twisted Sisters...) . Ngc  4608 e 4596  formam um par de galaxias que habitam o mesmo campo que Rho Virginis. Como localizar Rho Virginis e sua parceira 27 Virgo ( GG Virgo) em uma área pobre em estrelas mais brilhantes é moleza mesmo em céus com alguma poluição luminosa nossas gêmeas são um excelente inicio para seu ataque ao aglomerado.  Visualmente são semelhante e apesar de pequenas apresentam um brilho de superfície amigável e que as revela sem maiores esforços mesmo com pequenos aumentos. Utilizando Minha 40 mm e com Rho em quadro as duas são notadas como esfuminhos mesmo com visão direta. 
                Apesar de sua aparente semelhança as gêmeas não são univitelinas e tem diferenças .  Ngc 4608 é um daqueles objetos quiméricos que se tornam cada vez mais comuns em classificações galácticas. Um interessante trabalho realizado por pesquisadores da USP nos apresentam Ngc 4608 como uma galaxia barrada sem disco. Isto a colocaria como um estranho no ninho. Sua classificação normal é de galaxia elíptica. ( SB0). Mas neste estudo ( e em alguns outros estudos com outras galaxias de morfologia semelhante) parece que nem tudo é o que parece ser . E assim é possível que galaxias elipticas possuam estruturas barradas "escondidas" em meio a suas estrelas. (http://iopscience.iop.org/article/10.1086/368159/pdf)

                Já Ngc 4596 é uma espiral barrada clássica (SB0-a) e assim com a anterior foi uma descoberta de  William Herschel  em 15 de março 1784.  São galaxias discretas e que não adentraram nenhuma lista famosa como os "400 de Herschel" ou outros . Mas sua composição com Rho Virgo e GG Virgo é um adorável campo estelar e uma fácil porta de entrada para o aglomerado de coma Virgo. A Partir destas acessar o coração do aglomerado junto a M 86 e m 84 é um pequeno passeio e facilmente realizável junto a ocular.  

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