terça-feira, 12 de abril de 2016

Astrofotografia, Lacaille e a Serrinha do Alambari

             
             Começam os planos para  completar a minha peregrinação cósmica autoimposta.  Ha anos venho buscando fotografar todos os objetos do Catálogo Lacaille para poder me dedicar a organização de meu livro contando a história da "invenção do céu austral" , de como um abade com equipamentos simplicíssimos conseguiu realizar o maior catalogo de céu profundo escrito até o meio do século XVIII e apresentar o "caminho das pedras" até as maiores joias escondidas no fundo  deste  céu abaixo do equador.
                A primeira coisa foi organizar todas as fotos que já realizara e casar estas com a cópia do Catálogo que possuo.  Para minha surpresa faltavam 3 elementos ( eu achava serem somente 2...) . E  sabendo os  butins que  faltavam organizar uma expedição até um local mais escuro que a" Stonehenge dos Pobres"" que vem sendo muito prejudicada pela já eterna obra de um metro que não vai ficar pronto dentro do prazo . As olimpíadas no Rio vão acontecer em uma cidade inacabada e repleta de canteiros de obras que receio acabem ficando assim por muito tempo. No fim a cidade vai estar falida , a olimpíada vai ter acabado e será novamente confirmado que políticos no Brasil são péssimos administradores e coisas ainda muito piores...
                A Armação dos Búzios seria a escolha mais óbvia e tradicional. Afinal o Catalogo foi inteiro capturado ou da Janela da Stonehenge dos Pobres ou de Geribá. Mas a casa lotada de gente e eu precisando aproveitar esta lua nova antes de recomeçar a minha eterna luta pelo vil metal   achei que seria uma boa ideia levar a família inteira para a Serrinha do Alambari. Um belo refugio entre Penedo e Visconde de Mauá que me garantiria céus mais escuros que a Armação. Achei uma simpática e barata Pousada localizada  a cerca de 1000 metros de altitude que me parecia perfeita para a missão. E assim lá foi toda  família. Eu, Newton, Mme. Herschel , a cara metade e as crianças . A já nem tão mais nenenzita " Nenenzita" ( ela odeia o carinhoso apelido. 12 anos são uma idade dura). E  o Fofusko com seus fofos 2 anos... 
                Antes de partir fiz algo que todos diziam ser um erro e uma temeridade. Limpei o sensor de minha câmera. E para isto usei apenas uma folha de Rosco Paper. Um papel utilizado para limpar lentes e que já utilizei ( também contrariando todos os  "especialistas")    para limpar os espelhos do Newton ( meu refletor 150 mm f8) ... Funcionou que foi uma maravilha.
                E Assim possuía 3 alvos pré determinados e que não retornariam ao porto sem combaterem o Nuncius Australis com todos os panos levantados e com a "Jolly Roger" tremulando.   
                Antes de partir chequei todo o equipamento e espanei a poeira. O check list foi completo ( pelo menos achei que seria...)  e levei as seguintes oculares : 
ü    A nova 40 mm ( ganhará em breve um post só dela...)
ü    A 25 mm wide field Skywatcher
ü    A minha favorita 17 mm
ü    A nem tão boa e velha 10 mm
ü    E uma 5 mm suspeita mas que poderá ser util com alguns planetas...
ü    Uma Barlow 2X ( Skywatcher "de fabrica")
ü    Duas velhas Kellner que são uma espécie de amuletos dos tempos do "Galileo" ( meu bom e velho refrator 70 mm f 13)
                Comprei ainda uma imensa prolonga com 10 metros de fio paralelo 2,5 mm para garantir que conseguira operar de um local bem escuro no terreno da simpática e humilde pousada.
                Apesar de durante o inicio do ano a Fortuna me ter sorrido a vida de gaffer freelancer no Brasil é sempre cheia de altos e baixos e ainda estou pagando tanto a Mme. Herschel ( uma cabeça equatorial HEQ 5 Pro) e meu novo carro que possui uma mala onde  posso transportar tudo que a cara metade exige e mais meu brinquedos...  Em momento tão delicado da vida politica e econômica na nação temo dizer que o dolar alto me ajuda um pouco( assim os gringos vem filmar por aqui e são meu nicho favorito de trabalho.) .  Mas em compensação a cara metade perdeu o emprego junto com milhares de brasileiros. São tempos de incerteza e poder observar o céu permite-me manter o Rivotril em doses minimas...
                Chegando ao meu destino me organizo para começar a diversão. Esqueci os contrapesos de Mme. Herschel. Entre a ira e o panico me lembro que a necessidade é a mãe da invenção e fabrico um contrapeso com uma lata de leite em pó e pequenos seixos que abundam na beira do Rio Pirapitinga. A Primeira noite não dá muito certo apesar de um deslumbrante céu. Depois de muito apanhar descubro que preciso de mais peso na montagem e que um kilo de chumbo pesa mais que um kilo de seixos...

                Com o auxilio de uma garrafa pet e de mais pedras acabo conseguindo que Mme. Herschel ache um ponto de quase equilíbrio e consigo fazer algumas fotos de Acrux e da Caixinha de Jóias . 


Começo a me preocupar com o " Projeto Lacaille".  Fico horas lutando com M 83 e não consigo  à localizar . Refaço o alinhamento do "go-to" da cabeça varias vezes mas ela não chega nem perto de algo chamado precisão.  Sabia que havia realizado o alinhamento polar com displicência , utilizando apenas a bussola do I Phone como instrumento de precisão. Com um contrapeso desequilibrado era abusar demais da boa vontade de Mme. Herschel. Não estava nem em Buzios e nem  na Stonehenge do Pobres onde sei " de ouvido" onde é o sul. Era um local novo e eu não deveria ser tão relaxado. Dou uma olhada em Jupiter e mais alguma bobagens . Como estava exausto devido a um mês de muito trabalho e de uma noitada animada na véspera acho melhor me retirar para combater com mais vontade na próxima noite.
Poço das Esmeraldas

                No dia seguinte fiz um belo passeio com a família e visitamos varias cachoeiras que residem dentro do terreno do Camping Club do Brasil. Reza a lenda que o Camping da Serrinha é o melhor do Brasil.  Depois de um "almojantar" na cantina do camping fiquei com medo de imaginar como seriam os outros campings do país...
                De volta  a minha bela , aconchegante e escura pousada me preparo para a noitada decisiva no projeto. Melhoro ao máximo meu contrapeso "paraguaio" e realizo um alinhamento polar bem preciso com o auxilio de Avior. Não gosto de realizar o "método do drift" e assim utilizo uma técnica que embora mais preguiçosa é bastante eficiente.
                Agora é a hora da verdade. Com Mme. Herschel alinhada com o polo parto para o alinhamento do "go-to" da montagem.  Utilizo a rotina de " Two Star Alignment" do menu do Synscan.  Acrux e Alpha Centauro são as estrelas guias...  
                Com o contrapeso tosco me dou por feliz quando todos os alvos que indico acabam  dentro do campo da Buscadora.  As vezes dentro da ocular 25 mm.
                Comprei recentemente uma ocular 40 mm. Ela finalmente justificou sua presença em meu kit.  Seu grande campo me ajudou muito na localização de alvos. O "go-to" ficou um pouco errático devido ao tosco contrapeso utilizado. Mme. Herschel ganhou ainda mais o meu respeito e se mostrou-se uma companheira valente e sem frescuras...
                Ngc 2546 é o Lacaille "mais fácil" que preciso fotografar. Um grande aglomerado aberto e que é rapidamente localizado na buscadora. Faço uma poucas fotos e reparo que o além de um alinhamento polar menos que perfeito e com um erro periódico bem aumentado devido ao   set up improvisado o meu querido "Newton" ( um telescópio refletor de 150 mm f8)  esta bem descolimado.  Penso a respeito e como astrofotografia aqui no Nuncius esta mais para "arma de destruição em massa" que para sétima arte deixo tudo como esta e faço mais algumas fotos.  Com apenas 10 exposições de 20 segundos em 6400 asa o resultado final não é lá estas coisas. desconfio que o Deep Sky Stacker ( um sofware utilizado para "empilhar" fotos ) não gosta muito de trabalhar com ASAS altas. O ruido da imagem o confunde e as vezes leva a " desastres binários". ( resultados de empilhamento desastrosos e sem nenhuma qualidade...) . Não chegou a tanto mas o resultado ficou ( na melhor das hipóteses) a la " anos 70". Pelo menos é um alvo fácil , que não demanda o céu escuro que possuo e  posso refazer as fotos sem maiores esforços...
No Deep Sky Stacker

No Rn´S +PS

                Agora a hora da verdade de novo. M 83 é , disparado, o  alvo mais difícil de  ser avistado no Catalogo Lacaille. Mas com paciência e perserverança acabou fotografada.  Foram utilizados todos os truques que conheço. Respirar fundo , visão periférica , tapinhas no telescópio e reza braba. Não sei qual deles funcionou mas acabei percebendo a peça na buscadora... E assim percebi que a missão seria cumprida. Senti um tremendo alivio e abri uma garrafa de tinto.
M 83- 30X 25 seg ASA 3200
                Com muitas imagens realizadas e com imagens feitas tanto em 6400 ASA e 3200 ASA o pós processamento das imagens de M 83 foi trabalhoso e o DSS não quis ser legal comigo. Mas incrivelmente os resultados obtidos com uma mistura de Fitswork , RnS e Photoshop foram mais que satisfatórios. Mas admito que os primeiro resultados obtidos com o DSS me deixaram preocupado. A coisa entre eu e M 83 estava se tornando pessoal...
                Falatava apenas fotografar Ngc 4833. Um discreto globular em Musca.  Com M 83 na guaiaca parece-me que o "go-to" resolveu me dar uma moleza e ele aparece centralizado na ocular 25 mm.  Faço diversas exposições do ultimo Lacaille que me faltava fotografar. Este o DSS não cria problemas...
Ngc 4833 - 12X 25 seg -  2X Drizzle

                Entre o inicio da empreitada e o final se passaram cinco anos , três binóculos , dois telescópios , duas câmeras fotográficas  e três montagens equatoriais.
                Agora era só alegria e coloco o Synscan da montagem para me guiar. Ele oferece um tour pela objetos mais interessantes da noite e assim não preciso sequer olhar para o Sky Atlas ou para o Stellarium. 
                Com Mme. Herschel finalmente se entendendo bem com a gambiarra eu começo a devanear  de como ela deveria ser esperta. Ou pelo menos de como as engrenagens nela estavam bem azeitadas e resistindo bem ao tranco. E com a 40 mm calçada o Tour me leva direto até Ngc 5138. Centauros A . Uma galáxia muito fotogênica e que é bem mais fácil de ser observada que M 83.  Novamente o DSS não se mostrou a melhor solução  para o material capturado.  Embora tenha se saído melhor que com M83.  É o único objeto fotografado nesta noite que não foi registrado pelo Abbe. Não sei como visto que reside em uma área explorada por este e certamente ao alcance de quem " descobriu" M 83...
DSS

Rn´S +Fitswork - 30X 25 seg 6400 asa.

                Depois a 40 mm faz a festa em seu terreno favorito . Grandes aglomerados abertos. E revisito e  faço alguns rápidos registros de M6 , M 7 , Eta Carina  e M 4. Todos membros do Catalogo Lacaille
M 6
                Gostaria de frisar que escolhi a posição do telescópio visando ver o que chamo de "meu céu". Este é olhando para o horizonte sul e engloba o que considero a mais bela região da Via Láctea. Se estende de Sagitário e Escorpião , cruza o conjunto entre Centauros e Crux ( e as constelações da Família Lacaille ) se estendendo pela finada constelação de Argos e abraça o Cão Maior. Depois a Via Láctea já adentra  uma area mais equatorial que embora linda não é mais o que podemos chamar do Céu do Sul.    E já não  mais visível da Stonehenge dos Pobres...
                Agora já vai tarde e percebo quão maravilhoso esta o céu.  Entre 3 e 4 na Escala Bortle.  Bortle 3 implica em que globulares brilhantes como Omega Centauro , M 22 e cia Ltda sejam facilmente visíveis a olho nu. Eles estão lá firmes e fortes . Não só isto. Ngc 2516 ( percebo estrelas individuais neste...) , Omicron Velorum e diversos abertos ao longo da via láctea são óbvios mesmo com visão direta. Mesmo alvos mais difíceis como Ngc 6124 ( que sempre achei impossível ver a olho nu e me fez achar que O´Meara era um cara exagerado...) eram percebidos sem esforço sobre humano.  Estrelas de 7a magnitude são percebidas.
                Guardo todo o material agradecendo a Mme. Herschel pelo esforço e me deito em uma canga com a caneca de vinho ao meu lado e fico namorando este céu até 4 da manhã. Fico tentando identificar a estrela mais tênue que consiga perceber . Mas não consigo definir qual é esta. Sempre parece ser possível ver algo mais fraco.  Se o céu na Serrinha fosse feito de alguma coisa  seria de um cristal bem fino.  Assim como o céu que Lacaille encontrou na Cidade do Cabo nos idos de 1751...


                 Agora de volta  a  astrofotografia. Não poderia deixar de falar do registro obtido da Nebulosa de Carina. Como falei o DSS parece não ter gostado das capturas feitas na Serrinha. Pelo menos da maioria destas. Me é então muito surpreendente que as 13 fotos que fiz da Nebulosa acabem sendo todas aceitas pelo mesmo e apresentando uma qualidade final muito acima do que poderia esperar. Definitivamente existem coisas que não se explicam no mundo digital... E no mundo mêcanico também. Por alguma razão o acompanhamento destas treze fotos foi melhor que os outros. Gostei muito do resultado final. Já realizei fotos com muito mais tempo de exposição somada da nebulosa mas acho este o melhor resultado que já tive na região. Creio que o céu escuro e a posição quase meridiana no momento da captura tenham ajudado...  
M 7

                Ainda no campo do pós processamento percebi que em muitas das capturas os resultados do DSS apresentaram um dos canais enlouquecido. Geralmente o azul . No histograma o azul apresentou formas muito loucas e dominou a paisagem. Creio ter algo a ver com dark frames mas não posso garantir. Ajustando muito no próprio DSS conseguia atenuar a coloração mas permanecendo muito ruido. Nunca tinha tido este problema.  As fotos de M 4 abaixo representam bem o problema...

DSS "dando defeito". A foto acima foi processada no próprio DSS e no PS. 

Resultado do DSS antes de algo ser feito em prol da causa... 

                Felizmente existem opções menos temperamentais que o DSS. Em especial o Fitswork e o bom e velho Rot n´Stack. E assim acabei conseguindo resolver todos os obstáculos que se apresentaram.
                Pretendia ainda ter mais uma noite para explorar o Aglomerado de  Coma-Virgem. Mas o tempo virou e  esta região não tão minha conhecida ( não é o " meu céu"...) ficou para a próxima.
                Viva os céus escuros!!!



                      

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