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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Ngc 2070 : A Nebulosa da Tarântula e Outros Amigos

            



             Após muito tempo sem poder me dedicar aos meus tão amados D.S.O´s (um anglicismo e uma sigla: Deep Sky Objects) eu finalmente tinha a chance de tentar a sorte com um dos poucos objetos descobertos pelo meu tão caro Abbe Lacaille que eu ainda não tinha fotografado. Ngc  2070. A Nebulosa da Tarântula. 

A foto que originalmente abriu  este post. A que abre atualmente é resultado de uma captura posterior e de um processamento bem diferente. O PixInSight combinado com o DSS apresenta resultados melhores que os que obtia nos primórdios...

 

            Localizada na Grande Nuvem de Magalhães, uma das galáxias mais próximas de nós no grupo Local, ela é um objeto fácil de perceber-se de locais mais escuros que o Rio de Janeiro. Na verdade a GNM é facilmente percebida a olho nu de ambientes rurais. Sua presença tão óbvia que seus registros remontam a Américo Vespúcio no ano de 1503. Mas os registros de Magalhães em sua saga pelos mares austrais levaram a melhor e este acabou por ter seu nome eternizado no firmamento. Vespúcio por sua vez desbancou Colombo e teve seu nome eternizado em forma de continente... 
           
            Ngc 2070 é apenas um dos DSO´s ao alcance de meu querido " Newton" (meu refletor de 150mm) que habitam a GNM.                             . 
           
      Mas como continuo com o "Projeto Lacaille" e assim devo fotografar todos os membros do catalogo realizado pelo abade francês em seu levantamento dos céus do sul realizado entre 1751 e 1752 na Cidade do Cabo "ela" (A Tarântula) seria meu alvo primordial na caçada desta noite.
           
             De lambuja eu levaria para casa mais algumas presas intergalácticas. 

            A Nebulosa da Tarântula é extremamente brilhante (em céus muito escuros e por volta do sec.XVI) e devido a isto foi inicialmente confundida por uma estrela.. Daí seu nome 30 Dourado. Evidentemente que a GNM mora dentro das fronteiras da constelação de Dourado.
            Também conhecida com Bennet 35 a grande Nebulosa da Tarântula dispensa comentários sobre a razão deste apelido.                        . 

            Tarântula é na verdade uma coleção de DSO´s com Ngc 2070 sendo o coração da mesma. No centro da mesma reside o aglomerado R 136 onde foram recentemente descobertas algumas das estrelas mais maciças conhecidas no universo. Algumas (suspeita-se...) com mais de 200 massas solares               . 
           
            Situada aproximadamente a 190.000 AL de nós a nebulosa se espalha por entre 600 e 700 anos luz em diâmetro. Reza a lenda que fosse ela tão próxima quanto a Nebulosa de Órion  lançaria sombras na noite...                       
           
            A nebulosa lança longos braços de gentil nebulosidade rasgada por canais mais escuros e um núcleo extremamente brilhante ( R 136). 
             É uma região HII e uma das áreas de mais intensa formação estelar conhecidas no universo próximo.

            Foi nas bordas da Tarântula que explodiu a Supernova 1987. Foi uma explosão titânica e deixou provavelmente uma estrela de Nêutrons de recordação... A estrela Sanduleak -69o 202 brilhava com magnitude 11.7 antes da explosão. Explodiu com a força de de 100.000.000 de sóis e brilhou 2000 x mais forte que antes. Ainda que atualmente brilhando 1.000.000 de vezes menos que em sua glória ela começa a apresentar ecos de luz que começam a mostrar seus arredores... 
           
            Star hopping no Rio de Janeiro não é para impacientes ou fracos de espírito. Em geral você tem que começar bem longe de seu destino o e contar com a pratica e a sorte para achar seu destino final. Não poucas vezes mirei no que vi e acertei no que não queria ver.                                    . 
           

           

           
              Meu caminho até Ngc 2070 começa em Canopus. ( a Carina) e com esta centralizada na ocular eu calculo um pulo de cerca de 13 graus para o Oeste e assim espero estar por perto de b Dourado. Após diversas tentativas acredito estar com a segunda estrela centrada na Buscadora. E assim partir par a ocular. Estou usando minha Plossl 25 mm e depois de um ensaio realizado no Stellarium calculo os movimentos que me levarão até a Tarântula... Ela não será visível pela buscadora em tempos de obras faraônicas ao pé do Observatório mais urbano do mundo... Antes das obras do metro eu conseguia percebe-la ainda que de forma discreta em minha 9x50 mm. 
            Claro que a lua já vai em seu primeiro quarto. Afinal porque tentar o que é fácil...
            Partindo de b  devo localizar d Dourado e desta dar um pequeno salto para Ngc 2070. Utilizando-se uma ocular com cerca de 1 grau de campo de visão a tarefa exige um pouco de paciência e concentração. Após algumas tentativas , sempre voltando até b eu acabo com a Tarântula centralizada e com diversos DSO´s extra galácticos escondidos no campo. Nenhum deles é tão evidente quanto 2070 e só percebo (com visão periférica) Ngc 2100. Os outros DSO vistos nas fotos são fruto da sensibilidade do sensor e de muito pós processamento das imagens obtidas          
70 EXP DE +- 10 SEG - Canon T3 refletor 150 mm. Rot and Stack + PS CS 5+ Noiseware - imagem ampliada e cropada posteriormente no PhotoShop
. 
           
            Realizei cerca de 70 exposições com diferentes tempos e diferentes asas. O grosso do caldo consiste de exposições de 10 segundos com asa 3200. Foram utilizadas também no empilhamento cerca de 12 fotos feitas com exposições de 15 segundos e ainda algumas de 10 seg. e 15 segundos com asa 6400. Deste samba do crioulo doido obtive melhores resultados utilizando o Rot and Stack que o Deep Sky Stacker. As fotos sofrem de um foco bastante soft e o RnS é mais "pé de boi" e lida melhor com as capturas desastradas que são uma marca registrada no Nuncius Australis.  A foto que abre este post foi realizada depois do post original.  E é resultado de algumas dezenas de exposições de 20 seg. com asa 3200. Fotos realizadas em Búzios em condições bem melhores que as originais. O DSS , o FITSWORK  e o Photoshop foram utilizados no pós-processamento

            .           Astro fotografia é a melhor diversão e alinhamento polar é algo muito chato de fazer-se a sério.                       . 
           
            Foi  ainda utilizado o Photoshop CS 5                  .                   
           
            As fotos demonstram a riqueza que a GNM apresenta facilmente em ambientes bem escuros. Sempre me recordo de um passeio pela mesma que fiz de um lugar longe e escuro. E utilizando apenas meuquerido "Pau de dar em doido " (meu binoculo 15x70mm). 

            Existem diversos DSO´s no campo desta foto.        
Os DSO´s destacados (além de 2070) são apenas os mais faceis de serem visualizados . Mesmo assim não espere moleza em areas urbanas.
      . 

           
            Ngc 2100 é um aglomerado aberto. Tem cerca de 15 milhões de anos e esta localizada a aproximadamente 163.000 AL. Embora seu formato 
as vezes nos confunda com um globular trata-se de um aglomerado aberto bastante denso 

Ngc 2074 é um aglomerado aberto com nebulosidade envolvida. É uma descoberta de John Herschel 
(O Filho).                              . 

            E por fim 2080 é outra região H II de intensa formação estelar também conhecida como Nebulosa cabeça de fantasma ( Ghost Head Nebula). Outra descoberta do filho de Sir William Herschel. 
           
            Na foto ainda podemos perceber de forma discreta diversas outras formações. E apesar dos pesares confirma-se a minha suspeita de que só não vê nada no céu quem não tenta.

               Alguns devaneios:
- Nunca pendure o controle ou o batery pack do motor drive na sua cabeça equatorial.
-O Auto dark frame do RnS é verde...
-O uso de um dark frame capturado por você melhora o resultado. Mas ele tem que ser salvo em PNG.
- O Deep Sky Stacker é um programa cheio de manias...  



Abaixo varias fotos e diferentes resultados....
Modo Mean do RnS

1 exp. 15 segundos asa 3200

Modo sort do RnS com auto dark frame
           

                         

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Cinema, Astrofotografia e Vênus

            
           
 As ultimas doze semanas foram uma experiência sensorial para o Nuncius Australis.
                            
             Também tempos de muito trabalho e estresse.

         E  ainda uma aula de fotografia.  Junto a um premiado fotógrafo americano (de origem filipina) revelaram-se dias difíceis em diversos sentidos. Há começar por jornadas de mais de 15 horas de trabalho. Seis dias por semana. Não fosse só isto já bastante duro o meu querido e cosmopolita chefe possui um curiosos sistema de trabalho. 

            Ele possui um sistema de rádio o qual ele distribui para alguns " cúmplices" no set. Este rádio tem um código de uso bastante específico. Basicamente ele fala e você esta autorizado a dizer somente o essencial. Evidentemente ele mantém seu rádio " aberto" o tempo todo. Assim você vai escutar tudo que ele diz  (e pensa ...) para a 1a assistente de direção, os operadores de câmera, os 1o´s assistentes de câmera, o D.I.T (Digital Image Technician) e eu. Nove candidatos o insanidade. Cada um com seus problemas mas sabendo do problema de todos. 
Mad Man´s Making Machine (MMMM)


            E escutando o chefe bufando... 

           Este bufar a maior parte do tempo era causado pela pouca experiência da dupla de meninos e irmãos que foram nomeados diretores de nosso filme.

             Ambos pouco queridos por todos e chamados ao final da missão de Ass and Hole, the Animalist Brother´s 
Ass and Hole dirigindo...

           
            Ele também tinha como vítimas favoritas a assistente de direção e o operador da 3a câmera.
           
            Isto tudo no meu ouvido esquerdo. No ouvido direito  outro rádio com o qual me comunicava com o resto da equipe. Incluindo aí meus companheiros da elétrica e maquinaria. Bem como a tal da produção.
             
          Apesar do cenário a experiência foi um work shop de fotografia impagável (melhor ainda: me pagaram para isto). 



            Mas a chances de se praticar qualquer coisa semelhante a astronomia eram remotas. Na verdade a única vez que olhei para o firmamento foi após uma virada de noite em um campo de futebol. 
Órion, ao amanhecer, vem voltando por aí e o verão esta chegando ... 
           
            Anotei em algum lugar que as luzes que eu montava não deviam ser notadas nas paredes, que a compensação (também chamado de fill light...) deve sempre vir ir do mesmo lado que o sol ou o ataque (também chamado de key light.) E noções de exposição e composição.
Substituindo a noite pelo dia...

Going big...

Sem luz nas paredes... Usando saias e "baffles"

           
            Para coroar o evento o filme foi realizado com uma nova câmera.

'           A "R.E.D Dragon". Uma câmera digital com um novo sensor capaz de" filmar o invisível"... 
"Riding the Dragon..."
     

            Existem apenas quatro delas. Três estavam em nosso set.
           
            Nosso diretor de fotografia e querido chefinho é realmente F... 

            A quem interessar possa: Foi resolvido que as sombras ainda se apresentam melhor na concorrente (ALEXA),


            Depois de tanta cinematografia eu queria relaxar. Astro fotografia... 

            Entre o final desta longa maratona e o inicio de um pequeno curta da serie "Rio Eu te Amo" eu finalmente me aproximei do "Newton" (meu refletor de 150 mm). 

            Como a tal da fotografia tem significado muito esforço nestes últimos tempos eu não queria nada muito difícil. 
           
            Me esquecendo que a rotina junto ao telescópio, geralmente, significa muito suor nas noites quentes do verão eu resolvi escolher um alvo que dispensaria alinhamento polar e menos ainda uma caça atenta junto à buscadora. Vênus se pondo pouco após o astro rei seria uma vítima óbvia. 

            Antes de começar a suar alinhando a buscadora do Newtoniano há meses esquecido eu resolvi brincar mais um pouco de cinema (maldita cachaça...) e assim fiz algumas fotos que poderiam ser chamadas de "Establishing Shots". Nelas podemos localizar a paisagem por cima de onde a Deusa do Amor iria se apresentar. E também mostrar as condições extremas do observatório mais urbano que conheço... 

            Diversas combinações de velocidades de obturação e de números f´s levam a resultados diferentes e ainda mais diferentes com um passeio pela 18-55mm (Lente zoom). 
           
            Agora já com o telescópio apontado para vítima podemos perceber como se desenvolve o processo fotográfico aqui no Nuncius Australis.
           
            Ao contrário de quando a trabalho a idéia aqui é lazer.   As coisas são sempre "meio nas coxas". Por tentativa e erro descubro que o "Newton" funciona melhor quando rebaixado a meros 50 mm de diâmetro. Desta forma ele se torna uma lente com 1200 m e f 24. Podemos perceber que nas primeiras fotos do dia não percebemos nada.   
Superexposto...


            Super exposto seria uma delicadeza e não seria exatamente o adjetivo correto. 
Sendo um objeto muito brilhante o foco não chega a ser difícil e após o "rebaixamento" do refletor consigo algumas imagens que sem nenhum detalhe apresentam bem a fase em que se encontra Vênus. Dificilmente conseguirei algo além disso. Vênus não é exatamente um planeta com muito detalhes. Menos ainda sendo fotografado com DSLR´s.  Espero um dia me dedicar a fotografia planetária utilizando web cams e o Registax. Parece-me ser o melhor custo-beneficio disponível para a atual tecnologia.



Comparando exposições. Sem o uso de Barlow. A esquerda o obturador esta regulado para 1/640 e a Direita 1/320.

           
            Mas seguindo minha metodologia cinematográfica não poderia impedir o próximo passo. Fechar ainda mais o plano. Percebam a diferença de "tamanho" de nossa "estrela".   


Sem Barlow a esquerda. O tamanho "dobra".

           
            Agora com uma Barlow 2x calçada no telescópio eu utilizo novamente os 150 mm de diâmetro de minha "lente" e a promovo a uma 2400 mm. Após novas experiências com o obturador eu consigo uma exposição ao menos decente e faço diversas fotos. 

            Para encerrar a missão brinco de D.I.T. (Digital Image Technician) e "estico" um pouco as fotos no Photoshop e empilho as 6 melhores no Rot and Stack. Vale pela brincadeira. As fotos continuam apenas apresentando a fase do planeta e um certo desvio para o laranja, ou talvez magenta, na borda  exterior do planeta.  Abaixo as versões Máximo , Médio e Minimo do RnS.



            Logicamente que as "Cinzas deVênus" continuam sem nenhum registro fotográfico. Mas o registro das fases de Vênus foram um daqueles " grandes passos para a humanidade"....
           
            Claro que com tanta "cinematografia" eu não poderia deixar de realizar mais algumas coberturas da paisagem utilizando uma velha 75-300 mm. Todas fora do foco e tremidas. Como não poderia deixar de ser. Lazer...
           
            Astro fotografia é a maior diversão. Cinema dá muito trabalho...


( Este texto é baseado em fatos reais. Alguns nomes e locais foram alterados para preservar a identidade  dos envolvidos...) 

domingo, 22 de setembro de 2013

A Lua , Vênus , Piratas Liberianos e a Astronomia do Cotidiano

                

               Operando com bandeira Liberiana e engajado em um projeto cinematográfico que apresenta um mecenas peruano, um diretor de fotografia oscarizado de origem filipina, diretores americanos muito confusos  e contando a história de uma lenda futebolística brasileira tenho estado com pouquíssimas chances de me dedicar à meu tão caro hobby.
                 E assim aproveitando uma posição favorável da lua em minha janela no "Stonehenge do Pobres" fiz uma rápida sessão fotográfica e posteriormente ( com o auxilio do Virtual Moon Atlas) localizei as formações mais evidentes em Selene. Astronomia na sua mais pura forma.  Eainda uma forma de me solidarizar com meu querido Uncle Rod e seu projeto de fotografar as 300 formações mais significativas de nosso satélite. 
                Fotografar a Lua é sempre divertido e muito menos complexo que DSO´s. Utilizando rápidas exposições ela dispensa alinhamento polar e outra dores de cabeça. E permite que utilize minha Barlow para ajudar na montagem em foco direto. Desta forma meu telescópio simula uma Lente de 2400 mm e F16. 

                   Fiz também algumas fotos com a uma zoom 75-300 mm. A lua é um alvo ao alcance de quase qualquer equipamento e cada um apresenta características distintas de Selene.

                Ainda na seara da "Astronomia do Cotidiano" que é tão cara ao Nuncius Australis  aproveitei uma missão paterna ( buscar minha filha de uma excursão do colégio) para realizar algumas fotos a partir do " Parque dos Patins"  situado na Lagoa Rodrigo de Freitas.
Vênus com Saturno abaixo e à direita


                Sem maiores pretensões fiz diversas imagens de Vênus utilizando tanto minha 17-70 mm como a 75-300 mm. Enquanto a primeira permite algumas composições de caráter mais " artístico" a segunda surpreende e permita ( com auxilio de zoom digital...) perceber a fase que se encontra o planeta mais quente do sistema solar.  Com pouco mais de 60% de seu disco iluminado ele se apresenta de forma oblonga e inequívoca para a pequena tele objetiva.  Chego a perceber alguns padrões na cobertura de nuvens do acalorado planeta. Pode-se ainda perceber Saturno como uma apagada estrela abaixo de Vênus na imagem mais aberta...   
                    
                Outra incrível constatação é de como Vênus suporta níveis absurdos de poluição luminosa e chega a competir com postes  e suas luzes cheias de sódio... Percebo também que a série EF de lentes da Canon  ( a mais "tabajara" delas...) apresenta forte aberração cromática...
                     Antes do fim  faço uma visita ao Cristo com seus braços abertos sobre a Guanabara. E também ao espelho d´água da lagoa e seus reflexos.






                 Acho que a primavera será dedicada a tarefas mais mundanas que à astronomia.  Mas espero poder aproveitar os céus escuros de uma  Bauru cenográfica onde estarei filmando ao longo do próximo mês.   Afinal o céu também se apresenta para ospiratas liberianos. 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Canopus e a Convenção de Genebra


                

               Com a lua cheia  e com o canteiro de obras ao pé do "Stonehenge dos Pobres" cada vez maior e mais claro eu tenho tido "dias" bem duros em busca de DSO´s.

            Mas retornando cedo do botequim e com o "Newton" ( um refletor de 150 mm) pedindo para brincar eu calço uma ocular 25 mm e tento localizar a Nebulosa da Tarântula. 

            Não sei se devido a a Lua , o canteiro de obras ou ao botequim eu não acho nada . Nem mesmo Beta Dourado , a estrela que indica o caminho para este alvo inter galáctico, consegui achar.

            Mas em um arroubo astronômico raro minha esposa me pergunta qual é a estrela brilhante que  se apresenta no ainda baixa no horizonte sueste. Olho e rapidamente realizo que é Canopus. Falo um pouco a respeito e a cara metade volta ao  seu habitual desinteresse pelo papo astronômico.

            Como ela ( Canopus)  já enquadrada na buscadora resolvo fazer algumas fotos da mesma. Fotografar estrelas brilhantes é sempre divertido . Não se faz necessário exposições muito longas e com o Newtoniano elas sempre apresentam " Spikes"  interessantes.

            E assim faço varias fotos utilizando diferentes asas e tempos de exposições.

            O alinhamento polar é , no máximo, uma aproximação.

             Como fotografei através de uma tela de proteção existe um efeito semelhante a um prisma que destrói os belos spikes que o Newtoniano realiza nas fotos.

Canopus

            Mas se por um lado este efeito atrapalha as fotos ele  revela cores que me levantam uma suspeita. Será que estrelas diferentes apresentam cores diferentes quando submetidas a este "prisma" de nylon ?

            Um experiência científica presume um certo controle. E aí a porca torce o rabo.

            Mas se  for um "ensaio de experiência"?

            É tudo que posso oferecer aos caros leitores ( pronto perdi os leitores "caxias"...) .

            Então resolvo testar a "hipótese". Coloco o Newton em posição e enquadro Alpha  Centauro. É  uma péssima opção. Trata-se de uma estrela dupla das mais manjadas. Mas sua altura no horizonte garante pelo menos alguma semelhança com a posição de Canopus. Só para constar o seeing estava bem ruim e não a resolvi ( separar as duas estrelas componentes...) nem com uma ocular 5 mm.  Mas mantendo um mínimo de dignidade eu utilizo a mesma asa e o mesmo período de exposição. E  assim o controle.


Alpha Cen


            Acontece que o ângulo entre o telescópio e a tela nunca será idêntico e assim consigo o  efeito de prisma mas o padrão dos mesmos é bem diferente.

            Para melhorar as coisas eu faço fotos respeitando os mesmos parâmetros usando Beta Centaurus . E Consigo padrões mais semelhantes que com Canopus.   


Beta Cen



            Com o auxilio do PhotoShop separo  os "arco iris" obtidos com cada uma das estrelas que foram submetidas ao "Prisma de       Nylon" ( Espero que estas me perdoem...).  E eles são diferentes. 


Da esquerda para direita: Alpha Cen , Canopus e Beta Cen. Percebe se claramente a diferença entre Canopus e Alpha. Em Beta cen ( a foto maior)  não se percebe muita coisa...  


            Lógico que não espero utilizar os resultados para determinar as composições químicas de cada uma das estrelas envolvidas. Afinal creio que o método utilizado seja proibido pela convenção de Genebra. Mas que foi divertido isto foi. E se não foi uma "experiência" foi um bom ensaio...

            A espectrografia é uma das ferramentas mais poderosas para o estudo das estrelas. Augusto Comte , o pai e a mãe do positivismo, certa vez disse que nunca seríamos capazes de determinar do que seriam feitas as estrelas . Graças a espectrografia isso tornou-se  uma afirmação que o autor deve se arrepender...



Comte


            Agora vamos falar a sério.

            E começar pelo começo é sempre um bom começo e assim vamos falar de Canopus.



            Canopus é uma estrela austral por excelência. Antes de se tornar lugar comum  a presença de bussolas em embarcações os pilotos a improvisavam como estrela polar ( desde que ao sul suficiente para vê-la). É a segunda estrela mais brilhante do céu.  

            Uma lenda que passeia por aí e que não achei nenhuma confirmação diz que Canopus já foi a estrela mais brilhante nos céus terrestres em três diferentes épocas ao longo dos quatro últimos milhões de anos. Outras estrelas aparecem como mais brilhantes durante relativamente curtos períodos de tempo durante os quias elas aproximam-se o suficiente para desbancar a grande dama. Há cerca de 90.000 anos Sirius se aproximou o suficiente para isto e pretende permanecer assim pelos próximos 210.000 anos. Mas em 480.000 anos Canopus voltará ao seu posto e permanecerá lá por 510.000 anos. A história é bastante suspeita mas é interessante suficiente para ser contada. Mesmo a Wikipédia avisa que isto é duvidoso. E minha velha Brittanica ( que ocupa toda a estante de meu corredor) não fala nada a respeito...

            De qualquer forma Canopus é a estrela intrinsecamente mais brilhante em um raio de 700 anos luz da Terra.

            Canopus é uma super gigante do tipo espectral ( olha o espectro aí de novo) F0.II ou F0. Ib ( Ib significa que é uma super gigante "menos luminosa")   e este tipo estelar é raro e pouco compreendido.  Um tipo que pode estar evoluindo em seu caminho rumo a uma gigante vermelha ou estarem extremamente distantes disto. Isto tornou extremamente difícil determinar qual seria o real brilho de nossa dama. E determinar sua distância. Esta só foi realmente confirmada nos anos de 1990 pelo Hipparchos ( The High Precision Parallax Precision Satellite). Atualmente sabemos que ela se encontra  a 310 anos luz da Terra (96 parsecs) . Anteriormente os palpites iam de 96 até 1.200 anos luz.

            Ela brilha 20.000 vezes mais que o sol.

            Estivesse ela no local de nosso Sol e sua corona se estenderia até 90% da órbita de Mercúrio.

            A temperatura de superfície é de 7350 K. Sua cor é  branco amarelado ou  amarelo esbranquiçado. Eu voto na segunda opção...

           

            Ela já foi descrita e nomeada por diversas culturas. Mas seu nome mais comum é associado aos gregos.

            Canopus é hoje a estrela Alpha de Carina. Carina já foi parte da antiga constelação de Argos Navis ( que foi esquartejada por Lacaille). Logo fazia parte do Navio que levou os Argonautas em sua missão. Mas o nome Canopus vem de outra lenda marítima grega .

            Canopus foi o piloto do navio do Rei Menelau que foi em resgate de Helena de Tróia .

            Outro nome comum e esporadicamente empregado é Suhail. Este de origem islâmica. É importante ressaltar que os antigos gregos não viam Canopus.   

            Quase todas as civilizações que residiram em latitudes austrais o suficiente possuem um nome e uma lenda para esta brilhante estrela. E assim podemos citar os Navajos , Chineses, Guaranis , Egípcios e mais um monte de civilizações e etnias...


           

terça-feira, 13 de agosto de 2013

As Híades: As Outras Filhas de Atlas

           Troquei meu computador faz pouco tempo e assim tive que resgatar minhas fotos e documentos do  falecido.  Neste processo achei diversas fotos que estavam perdidas no velho HD.
            Desta forma pude desfazer uma injustiça que há muito deveria ter sido  desfeita.
Canon 350D 300mm f5.6 exp. 15 seg. Asa 1600
            Localizei uma foto que fiz das Híades no começo de 2012 em Valberg. Uma das portas de entrada do Parque de Mercantour , no sul da França. Uma das maiores bio diversidades da Europa e um dos céus mais escuros do continente.  É também local de um"Planetário" muito especial...
            Depois de um belo jantar e diversas garrafas de vinho nacional em um modesto bistrô abandonei a família e os amigos e me enveredei por  uma pequena trilha subindo a montanha e me afastando das poucas luzes do vilarejo.  Esta me levou a cerca de 1500 m de altitude e no meio de uma noite nem tão fria e com o auxílio de um pequeno "tripé de ataque", emprestado por um amigo,  uma lente zoom de 75-300 mm @ 300 mm  com abertura máxima de 5.6 e utilizando minha velha Canon 350D fiz uma única exposição de 15 segundos do aglomerado mais próximo da Terra.  
            As Híades são as cinco meias-irmãs da Plêiades. Compartilham o mesmo Pai. Atlas. Este foi morar com suas irmãs mais famosas no firmamento.
            Segundo a mitologia elas foram enviadas para o firmamento por Zeus depois de morrerem de tristeza com a morte de seu irmão Hyas. Choraram tanto que  foram fixadas na cabeça de Taurus. E assim sua saída anual vem acompanhada de chuvas abundantes.  

            Localizar as Híades é muito simples. Basta localizar a constelação de Touro. Alpha Taurus (Aldebarã) é uma gigante vermelha facilmente visível. E as Híades formam um "V" ao redor desta. O conjunto é facilmente percebido a olho nu. Um truque para localiza-las : Siga a direção apontada pelas Três Marias rumo norte e você vai se deparar com as Híades . Se continuar "caminhando" mais um pouco na mesma direção você chegara até suas meias irmãs Plêiades. Desta forma as Híades residem entre  as "Três Marias" e as Plêiades. A maior reunião de comadres dos céus...
              O aglomerado se espalha por uma área enorme do céu e é melhor observado com  uso de binóculos. Use a menor magnificação possível. 
            As Híades se encontram há aproximadamente 153 AL do sistema solar.  Os quatro membros mais brilhantes do aglomerado iniciaram suas carreiras como estrela do Tipo A e já evoluíram para fora da sequência principal e atualmente se apresentam como gigantes vermelhas. São elas Gama, Delta, Épsilon e Theta Taurus. Junto com Aldebarã ( que não faz parte do aglomerado) formam a cabeça do Touro.
            O Diagrama HR do aglomerado nos diz que as Híades tem 625.000.000 de anos.
            Estudos recentes indicam que as Híades devem ter tido uma origem comum com o Aglomerado do Presépio ( M44).  Diversas estrelas da chamada "Corrente das Híades" se espalham para muito alem das fronteiras do atual aglomerado.
Outro tratamento. Mais uma "perdida" do antigo HD...
            Aglomerados estelares abertos dificilmente sobrevivem mais que um bilhão de anos.  O futuro da Hiades é , provavelmente,  perder ainda mais membros e massa ao longo da próxima centena de milhão de anos e  terminar reduzida a uma duzia de sistemas estelares . A maioria deste duplos ou múltiplos que continuarão expostos à forças dissipativas ao longo do tempo.

             E assim as Cinco Irmãs, filhas de Atlas, terão o mesmo destino das Sete Irmãs mais famosas e filhas do mesmo pai. 
             Atlas não deixou seguro de vida.
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