terça-feira, 26 de maio de 2015

Astrofotografia, Whisky, Wine and Gin.


               Há tempos sem realizar astro fotos por estar tendo muito trabalho ( adoro o dólar caro...) e com o Newton, um refletor de 150 mm, aguardando por peças para voltar a atividade eu não imaginava ter grandes oportunidades para praticar a "difícil arte".
                Existe o trabalho. Isto parece ter algo a ver com uma mulher ter comido uma maçã.E uma cobra...
                Mas mesmo existindo o trabalho existem certas diferenças. Existem o trabalho , o emprego, a profissão  e a cachaça.  Meu trabalho é como cachaça.
                E graças a  minha profissão me vi envolvido em um projeto que acabaria me permitindo fazer algumas fotos bem interessantes, adiantar o meu projeto sobre o catalogo Lacaille e beber mais do que é normalmente muito...
O Quiver do campeão...

                Passei os últimos dez dias acompanhando ( ou tentando acompanhar...) o novo campeão mundial de surf.
                Depois de um inicio  filmando a etapa do Mundial no Rio de Janeiro e de ter tomado um drible de nosso herói devido a uma desclassificação prematura acabo sendo enviado junto com uma equipe nem tão reduzida para a Praia de Maresias no litoral norte de São Paulo em busca de imagens do Gabriel ( já eramos grandes amigos a esta altura sem nunca termos nos visto) junto com sua família e de uma entrevista.
O Furgão e as curvas da estrada de Santos...
                Desta forma a minha profissão começa a apresentar suas armas. E então possuo um pequeno furgão com um monte de refletores, prolongas , geradores e afins a minha disposição para que  levar o meu bom e velho "Galileo" (um refrator de 70 mm)  e todas as traquitanas necessárias para fazer astro fotos  no Litoral norte de São Paulo e aproveitar-me de céus muito mais escuros e desobstruídos que na Stonehenge dos Pobres . É como é batizei o "Observatório Mais Urbano do Mundo" e situado na janela de meu apartamento.
                Uma equipe de filmagem é constituída por um monte de pessoas com empregos não muito conhecidos e com pretensão de serem algo muito importante.  Assim é sempre muito espaçosa e folgada. Graças a isto consigo apagar todas as luzes na área de lazer do simpático hotel que ocupamos alegando que precisava realizar um time lapse para nosso filme .
                Na primeira noite logo após observar o belo alinhamento da lua com Vênus e Selene e esta se esconder estou com o Galileo montado em uma área bem escura e com um céu "Bortle 4" sobre mim.
M4

 M8

                 Estava a muito tempo sem utilizar o Galileo e nem me lembrava mais de quão modesto este era.  Apesar de suas limitações ele ainda assim é um bom representante da classe dos refratores.  Mesmo parado e largado na estante da sala há muito tempo ele não esta nem pior nem melhor do que sempre foi. Possuindo aberração cromática e pouca definição. Fiel. Eu é que esqueci que para observar com refratores é bom possuir uma diagonal. E assim preciso relembrar minha ultima encarnação como contorcionista para observar algo.
                Mesmo assim na primeira noite da minha estada junto ao telescópio faço boas capturas de todos os objetos pertencentes a catalogo Lacaille que habitam Escorpião. E de quebra faço uma visita a Nebulosa da Lagoa (M8) . Outro Lacaille...  Na verdade todas as capturas da noite são pertencentes a ambos os catálogos . Messier elegantemente sempre deu créditos as descobertas realizadas por Lacaille. Afinal membros da mesma academia este não poderia ignorar o trabalho realizado anteriormente pelo Abbe.
M 6

M 25

                O Galileo não tem o mesmo poder de fogo do Newton e assim conseguir focar DSO´s neste é uma operação mais difícil e funciona  pelo  método de tentativa-erro. Não percebo estrelas de campo fortes o suficiente para serem reveladas pelo meu sensor C-MOS no live view da câmera... Mas mesmo assim consigo alguns resultados satisfatórios e me dou por feliz. Para ser sincero estas são as melhores fotos que já obtive utilizando meu refrator. Este é uma serie "low end" da Celestron e mesmo assim é capaz de revelar todo catalogo Lacaille e mesmo o Messier.  Graças a um alinhamento polar bem realizado combinado com o pequeno peso do conjunto a combinação deste ( que é vendido com uma montagem Eq1) com a montagem mais robusta permite exposições bem mais longas que o Newton e um acompanhamento mais acurado...
                Encero primeira noite antes do que gostaria devido aos compromissos  da manhã seguinte.
                A  filmagem acaba cedo . No próximo dia teríamos folga e assim a noite prometia. Pena que um bando de cineastas e afins  reunidos e com um dia de folga em uma locação distante do lar implica em dar uma "dimensão cinematográfica" para uma bebedeira. E  ao som de "Tim Pan Alley"  ( de Robert Geddins e interpretada por Steve Ray Vaughan) a noite vai assim : "Livin´ for their whisky , wine and gin..." . Não houve foco nem com auxilio do 1o assistente de câmera ( também conhecido como foquista).
M 7

                Na noite seguinte decidi partir para um "approach" diferente. Desisti rapidamente do contorcionismo que seria necessário para localizar e fotografar M83.  Com um alinhamento polar bastante aceitável, que eu conseguira durante a  primeira noite (utilizando o "método preguiçoso")   e mantendo o tripé morando na local que tinha isolado na área de lazer do hotel ( equipe de filmagem são folgadas ...) decidi experimentar como a minha montagem EQ-3 se comportaria utilizando apenas a Canon T3 equipada com a lente zoom 75-300 mm @ 80mm e com abertura de f4 acoplada a ela.   E para fazer a moda da casa eu "pluguei" (do verbo "to plug") a mesma ao meu lap top e com auxilio do Canon Utilities realizei as exposições mais longas que já fiz na vida sentado em uma mesa e bebendo champagne de verdade. A Eq 3 se saiu muito bem e assim consegui imagens de algumas belas regiões da Via láctea. Capturei muitos frames com exposições entre 1 e 2 minutos. E estas deram certo. A Eq 3 funciona como uma plataforma muito boa com este  set up ainda mais leve. 

Região de Theta e Eta Carina...

                   Neste segundo round fazendo fotos de com um campo maior e com exposições bem longas preferi reduzir a ASA de 6400 para 1600. As fotos anteriores me incomodaram devido ao extremo ruído....
                   Fiz planos super ambiciosos para  próxima noite. Afinal na manhã seguinte seria apenas levantar , entrar na van e voltar para para  Rio .  Pretendia dormir a viagem inteira.  O trajeto entre Maresias e o Rio de Janeiro dura 8 horas seguindo-se as curvas da estrada de Santos...
                Mas aí o tempo e o céu se fecharam. Murphy falou mais alto e tudo indicava que o mar iria subir. Mas então já era tarde demais para filmar o Medina surfando em casa. Teriam que abrir outra diária e muitos de nós já tinham outros compromissos. Inclusive eu.  Vida de free lancer é dura. Mas depender de nós também...


                E sem céu sem fotos. Sem fotos.. Whisky, wine and gin.


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