quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Ngc 6025 - Alinhamentos e Blue Stragglers

             
          Alinhamentos planetários são ocorrências relativamente comuns e não tem nada a ver com as tais leis fundamentais do universo . Mas já me acostumei a ter amigos e amigas levantando questões de cunho astrológico sempre que eles se anunciam. Faço ouvidos moucos e em geral gosto de dar uma olhada. O encontro seria a Lua , Marte e Saturno
             Desta forma acabo juntando todos os badulaques necessários para fazer algumas fotos. 
             E assim logo após perceber que Saturno já ia se esconder sai a caça de algo mais sério. Em pouco segundos estava com Ngc 6025 em quadro. Rapidamente fiz varias fotos. Algumas com 6400 asa e outras com 3200. Mas isto é papo para outro post. 





            

              Ngc 6025  é  um dos mais chamativos aglomerados abertos do céu austral. Ele é facilmente localizado em se prolongando uma linha imaginaria que liga Beta a Alpha Centauro e a Prolongando rumo a leste. Outra opção é localizar Beta Tiângulo Australis e ele se encontrará pouco mais de meio campo de buscadora (3o) norte- nordeste da mesma. Ele localiza-se na fronteira entre esta simpática e antiga constelação com Norma, a régua. A segunda uma das constelações criadas por Lacaille nos céus do Sul. Triangulo Australis é uma constelação facilmente visível e  Atria ( Alpha TriA ) é circumpolar no Rio de Janeiro. Mais ao sul toda a constelação nunca se esconde abaixo do horizonte...Seu desenho é  composto por  três estrelas de magnitude semelhante e facilmente percebidas a leste do Centauro.  
                     

                O grande aglomerado cobre uma área de mais de 15 ´ de diâmetro e é facilmente percebido como um esfuminho em qualquer buscadora.  Na minha 9x50 ele chega a revelar sua natureza e em muito se assemelha a descrição realizada pelo Abbe Lacaille em seu catalogo ( Três pequenas estrelas cercadas por nebulosidade). Ele realizou o registro em 5 de março de 1752. Dali um ano e três dias ele deixaria a Cidade do Cabo a bordo do  Le Prusieux  tendo realizado o maior levantamento dos céus austrais de seu tempo e para nunca mais voltar.
                Me recordo de perceber 6025 claramente como uma pequena bola de algodão a olho nu nos escuros céus das Anavilhanas. Sua estrela mais brilhante HD 143448 brilha com magnitude 7.1 e nunca a consegui perceber a olho nu. O´Meara propõe este desafio mas ele mesmo nunca conseguiu realizar o feito. A magnitude aparente do aglomerado é de 5.1 (Cartes du Ciel , Stellarium e diversos autores) .  O mesmo O´Meara sugere uma magnitude de 5.5 mas admite que ele passa bem baixo no horizonte do Hawaii. Eu acho o aglomerado bastante brilhante e concordo com 5a magnitude sem medo de ser feliz.
                Observado pelo Newton ( refletor de 150 mm) o aglomerado se resolve plenamente e não deixa duvidas sobre a ausência de nebulosidade. A imagem que vejo em muito lembra a descrição de Dunlop em seu catalogo realizado em Paramatta , Austrália em 1827 :
" Lacaille descreveu este como três pequenas estrelas em linha com Nébula. Nenhuma nebulosidade existe na região. Um grupo de cerca de vinte estrelas de magnitude variada, formando uma figura irregular com 5´ a 6´ ..." 
                Dunlop também o situa na Via Láctea e alega que esta seria a nebulosidade que se poderia perceber na região.  Nas fotos que fiz percebe-se claramente as estrelas de fundo e de frente contaminando o campo e podendo simular alguma nebulosidade.
                Ngc 6025 apresenta algumas particularidades que tem grande interesse cosmológico e astronômico.

                O aglomerado é relativamente bem estudado e ao longo das pesquisas a distancia pouco variou mas ele foi ""remoçando aos poucos . Em 1971 foi estimada uma distancia de 2.900 anos luz de nós e uma idade de 100.000.000 de anos ( Feinstein). Quatro anos depois ele se afastou um pouco e  foi parar a 3.000 anos luz e com apenas 90.000.000 de anos nas contas de Killambi. Grosso e Levato (2011) o mantem a praticamente a mesma distancia ( 3.100 anos luz ) e atribuem 84 milhões de anos ao mesmo.  Sem tomar partido e consultando diversas fontes eu diria que 2700 anos luz e 90.000.000 de anos são valores bastante razoáveis...
                                   

                Eu conto algo entre 27 e 34 membros  visíveis na ocular. E pelas fotos cheguei  próximo a 50 . Archinal nos dá 139 membros espalhados por 15´de diâmetro e isto representa 11 anos luz . Sua idade torna 6025 contemporâneo das Plêiades ( M45) em Touro.
                Mas é a estrela mais brilhante do aglomerado que o torna extremamente interessante. Ela é um excelente exemplo para um dos caminhos mais recentes na teoria de evolução estelar e é a estrela retardaria Azul ( Blue Straggler) mais fácil de se observar que eu conheço.  

        HD 143448 é classificada na seguinte classe espectral como  B1. 5 V.  Uma estrela variável e que também é chamada de MQ TrA.
                               
                                                                 HD 143448 é a estrela a esquerda mais brilhante.
                Estrelas retardarias azuis seguem um caminho diferente das outra no diagrama H-R . Elas se comportam como mais jovens do que deveriam ser. Se recusam a abandonar a sequência principal mesmo que outra estrelas de massa semelhantes a elas e que pertencem ao mesmo aglomerado ( e que assim deveriam ter a mesma idade)  já tenham cantado para subir e já se encaminhem para etapas posteriores nos caminhos mais comuns da evolução estelar.
                Existem algumas hipóteses porque elas se comportam assim e como elas , como alquimistas cósmicos, simulam um "Elixir da Eterna Juventude".

                A mais obvia é que elas teriam se formado depois das outra estrelas no aglomerado. Há poucas evidencias que sustentem isto e parece pouco provável que em milhares de aglomerados estudados o comportamento não pareça comum. Especialmente em aglomerados abertos as estrelas geralmente são da mesma geração... E elas são mais comuns em Aglomerados globulares.
                Outra possibilidade é que estas sejam estrelas de campo ou estrelas capturadas e não verdadeiros membros do aglomerado. HD 143448 é arqui inimiga desta hipótese e séria candidata a carrasca da idéia.  Outro fato que atrapalha esta possibilidade é que "blue stragglers" geralmente estão em áreas centrais dos aglomerados aos quais pertencem.
                A ideia mais aceita é que elas são fruto de dois processos distintos e que envolvem duas estrelas. Seriam elas causadas  por colisão entre duas estrelas . Ou por transferência de massa entre duas estrelas.
                As colisionais seriam formadas por estrelas binarias  em um processo de fusão. A fusão destas criaria uma estrela mais massiva e que se fosse  formada simultaneamente com as estrelas originais do aglomerado já deveriam ter evoluído para fora da sequência principal. Como retardarias azuis são mais comuns em nas áreas mais densas de aglomerados e especialmente junto aos núcleos de aglomerados globulares as coisas parecem se encaixar. como há mais estrelas e menos espaço as colisões são mais comuns. O calculo de colisões esperadas em globulares é consistente com o numero de "Blue Stragglers".
                As surgidas por transferência me lembram um pouco um processo comum em supernovas. Mas nem tudo é o que parece ser. Neste processo uma estrela mais massiva de um sistema binário evoluirá primeiro e conforme "incha" e "transbordando" sua massa acaba sendo rapidamente transferida para sua parceira menos massiva e assim se explicaria a presença de uma estrela mais massiva ainda na sequência principal. Há evidencias químicas na fotosfera de "blue stagglers" que corroboram com esta hipótese.
                Ngc 6025 é uma das mais belas jóias da coroa austral. E um excelente exemplo da categoria III do Catalogo Lacaile.

                E é ainda um curso relâmpago em evolução estelar. 

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