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domingo, 10 de junho de 2018

M 93 e a Impostura Científica


            


      M 93 é o palco onde se desenrola uma daquelas histórias cômicas e venenosa que costumam permear a existência humana. Sendo uma das entradas mais austrais do Catalogo Messier não é lá muito lembrado nos livros clássicos por sua aparência. O que é já é, por si só, uma grande bobagem. É um belíssimo e rico aglomerado aberto em Puppis. Especialmente para os felizardos que habitam ao sul da Nova Inglaterra...

     Carrega o karma de ser sempre lembrado não pela modesta descrição feita deste por Smith no “The Bedford Catalogue” no segundo volume de seu maravilhoso “Cycles of Celestial Objects”. Na verdade, é mais lembrado pela indiscrição e certa maldade do geralmente politicamente correto Admiral Smith.  Neste ele nos conta da proeza do Chevalier d´Anglos. 

       Besteira é uma palavra com vários sinônimos: absurdo, bestice, bobagem, asnada, asneira, asneirada, asnice, baboseira, bestagem, burrice, calinada, despautério, despropósito, dislate, disparate, estultice, estultícia, estupidez, idiotice, imbecilidade, insânia, necedade, nescidade, pachouchada, palermice, parvoíce, patetice, sandice, toleima, tolice, tontice.

         Smith inclui mais um: “Angosiades”. Depois veio a se referir a todas as gafes astronômicas como uma “Angosiade”. Em uma adaptação livre cometerei um barbarismo e utilizarei o termo “angosiada”. Nos tempos de Smith o francês era a língua mais prestigiada e os galicismos eram mais comuns que os anglicismos atuais...
Chevalier Dangos

          O Chevalier d´Angos  ( Jean Auguste D´Angos – 1744-1833) foi um dublê de químico e astrônomo obtendo resultado desastrosos em ambas as ciências. Cavalheiro de Malta (assim como Villegagnon) primeiramente colocou fogo no Observatório no `Palácio de Valetta realizando um experimento com fosforo. E posteriormente fez má fama descobrindo cometas inexistentes e/ou confundindo DSO`s com estes.  M 93 foi um desses casos e o erro foi divulgado amplamente por Smith. Encke, particularmente, o perseguia ferozmente.  Sua última “angosiada” antes de cair no ridículo total foi descobrir o planeta Vulcano. Este orbitaria mais perto do Sol que Mercúrio.

           M 93 carrega ainda a honra dúbia te ter sido a ultima entrada do Catalogo Messier descoberta pelo “Eu Profundo” de Messier. Daí para frente todas as entradas originais foram obras de “outros eus”. Especialmente Méchain.

         Messier descobre o aglomerado em 20 de março de 1781 e o apresenta de forma breve: “Aglomerado de pequenas estrelas sem nebulosidade”.

        Smith depois de destilar seu veneno contra o picareta D´Angos nos diz “um elegante grupo na forma de uma estrela do mar”.  E Webb é ainda mais conciso: “um brilhante aglomerado em uma rica vizinhança.”

     Burnham tem uma impressão muito semelhante à minha e percebe uma massa central evidentemente triangular ou em forma de cunha com estrelas se espraiando por um diâmetro aparente de cerca de 25´. Ressalta ainda que K.G. Jones percebe uma borboleta de asas abertas. Posso até conseguir perceber isto também...

      Algo que adoro no Burnham´s Celestial Handbook (além do livro todo...) é que as fotos que o ilustram não são tão melhores que as que consigo realizar por aqui. E M 93 especialmente elas são tão ruins quanto.  Quiçá piores. Deveria ser um hobby ingrato fazer astrofotografia amadora ( e mesmo profissional) nos anos 60.

        M 93 habita o lado oposto do braço de Orion habitando a 3400 anos luz de nós. Bonnato calculou que este se espalha por 23 anos luz e seu núcleo possui cerca de 2. 3 anos luz. Sua massa é calculada em 1700 massas solares e sua idade já vai na casa de 400 milhões de anos.

   Duas estrelas alaranjadas se sobressaem na paisagem. são membro reais do grupo e duplas. Fazem parte do catalogo Aravamudam e são Ara 2066 e Ara 2064. Como quase sempre sua cor é alvo de controvérsias...



     Scott Houston nos afirma que M 93 é perceptível a olho nu a partir de sua residência na Nova Inglaterra. Logo, aqui do Tropico de Capricórnio, deveria ser tarefa fácil. Sabendo onde olhar e em local bem escuro é factível...   Facilmente localizável a partir de Asmidiske ( Xi Puppis) e utilizando Aludra ( Eta Canis Maj) como apoio. Facilmente notado na buscadora

     O´Meara em seu “Deep Sky Companions: The Messier Objects” chama atenção para um interessante padrão que posteriormente a leitura percebi. M 93, especialmente pela buscadora, possui um padrão assimétrico que recorda um olho de gato. Recordando assim o globular M 4.

     M 93 é um belíssimo alvo visual onde se percebem estrelas de diversas magnitudes compondo um quadro com mais de 50 estrelas facilmente percebidas. Eu o enquadraria na classificação Trumpler como I 3 m. 

segunda-feira, 28 de maio de 2018

M 50 : Paternidade, PixInSight, Photoshop e Grande Greve


      


      Com o país a beira do colapso, minha conta bancaria solidária a nação, o carro sem gasolina e a lua quase cheia não me vejo observando tão em breve. Que fique registrado que este post foi realizado durante aquela que será lembrada como a “Grande Greve de Caminhoneiros de 2018”. Uma versão menos romântica e menos trágica que a “Grande Fome da Irlanda”. A última foi causada com a ajuda da Phytophtora Infestans. Ambas compartilham a pouca vergonha dos governantes.
Desta forma me resta caçar DSO´ que tenha fotografado e que tenham acabado relegados devido a outros objetos mais interessantes ou a capturas abaixo da média. M 50 é um destes casos.
            Mas engatinhando no PixInSight 1.8 (uma espécie de Ferrari dos programas de processamento de fotos astronômicas) achei que deveria dar as fotos de M 50 realizadas durante a Aporema (uma festa que remonta ao período pré-colombiano aqui na Pindorama) de janeiro uma nova chance. É impressionante o que se pode fazer com o bichinho. Especialmente se usar um coquetel de 1 parte Photshop e 1 parte PixInSight. É um caso típico de “O impossível a gente faz agora. Milagre demora um pouco...”.

Não é nenhuma Brastemp. Mas é M 50 "cuspido e escarrado"... 

            Primeiro M 50.
Trata-se de um belo aglomerado aberto.  Acho estranho que não seja mais cantado em prosa e verso. Embora, seja dito, que na língua de Camões exista pouca literatura sobre o céus... Nenhum guia observacional clássico foi jamais traduzido para o português.
            O grande aglomerado em forma de coração habita a constelação de Monoceros  (Unicórnio).  Sua paternidade é alvo de interessantes histórias envolvendo os tais guias observacionais clássicos. Smith em seu “The Bedford Catalogue” (que é como ele batizou o segundo volume do seu livro e guia “Cycles of Celestial Objects”. Como seria de se supor o Observatório de Smith se localizou em Bedford.) fala que M 50 é uma interessante dupla. O evidente aglomerado em sua volta era apenas um “plus”. E  ele nos diz que Messier descobriu o aglomerado em 1771 e o descreveu como “uma massa de estrelas mais ou menos brilhantes”.  Seu contemporâneo Reverendo Webb parece ter se impressionado mais... Se refere ao grupo como - Um Brilhante aglomerado, h (John Herschel) nos diz que com 30´. Com uma estrela vermelha. Entre Sirius e Procyon; 1/3 mais próximo da última. Em uma soberba vizinhança aonde o Criador teria “Semeado de estrelas, o céu é denso como um campo.”
            O guia de Webb foi substituído quase um século depois pelo hoje já histórico “Burnham´s Celestial Handbook”. Neste Burnham atribui a descoberta de M 50 a Cassini antes de 1771. Depois desmente Smith e nos conta que Messier descobre o mesmo de forma independente apenas em 1772 (é verdade. Messier observou M 50 em 5 de abril de 1772). Para alimentar nossa curiosidade acrescenta que Bode também o registra em 1774 procurando por um objeto reportado por Cassini. Importante frisar que estamos falando de Giovani Domenico Cassini (descobridor da Divisão Cassini nos anéis de Saturno). E que a descrição que leva a isto está no livro “Elementos de Astronomia” de seu filho Jacques Cassini (escrito em 1740).
            Tratando-se de DSO´s do Catalogo Messier costumo utilizar 3 fontes mais atuais para checar os fatos. A primeira é o Guia do Stoyan para os Objetos Messier (“Atlas of the Messier Objects; High Lights of the Deep Sky”). Este nos diz que é quase certo que M 50 foi uma descoberta de Cassini. Depois deste a próxima parada é o “Deep Sky Companions; The Messier Objects” do O´Meara.  Este também nos diz ser “possível” que M 50 seja uma descoberta de Cassini.  Por fim gosto de olhar a pagina da SEDS para o catalogo Messier. De novo é “possível” que Cassini tenha “furado” Messier. Na minha modesta opinião a raiz de todo o problema está no fato que Cassini de fato observou algo em Monóceros. Mas não marcou sua posição. Como Bode nos diz: “Em 2 de Dezembro de 1774 eu procurei observar a “estrela nebulosa” a qual M. Cassini diz ter visto entre o Cão Maior e Menor, e da qual não consegui localizar em local algum a descrição de sua posição. Eventualmente localizei, nesta região, ao norte de Theta, Um e Gamma na cabeça de CMa ou abaixo da barriga do Unicórnio um pequeno aglomerado em superfície nebulosa.”  Na região abundam abertos. Mas M 50 é um dos mais evidentes. Logo ...    
            Como falei o aglomerado é pouco cantado. O´Meara nos diz que M 50 é “um obscuro aglomerado em uma obscura constelação”. Um objeto Messier dificilmente pode ser muito obscuro. Mas levando-se em conta a lista ...Ok!
            Localizado a 2900 anos luz de nós e com um diâmetro aparente de aproximadamente 15´ pode-se calcular que o mesmo ocupe cerca de 13 anos luz de galáxia. Dependendo de quem o vê sua classificaçãoTrumpler varia entre I 2 m, II 3 m até II 3 r.  Como palpitar na escala Trumpler é permitido eu aposto em II 2 r. Ou seja um aglomerado que se destaca do fundo com leve concentração central e com mais de 100 membros. Clarie et al. Identificou 109 membros entre 175 candidatos no campo de M 50. Estudos mais recentes e com muito mais poder de fogo chegam a mais de 2000 membros com magnitude limite de 23.  Estudos ainda mais recentes indicam uma idade de mais de 100 milhões de anos. E assim é pouco provável algum parentesco (outrora suspeitado) com Ngc 2353 e a Nebulosa de Roseta.


            Localizar M 50 não é difícil. Seguindo uma linha que sai das Três Marias e segue para um local entre  Sirius e Procyon vai acabar te levando até ele. Há outros aglomerados na região para se esbarrar. Mas ele é o mais evidente. Que o diga Bode...

Antes de "roubar" no Photoshop. Apenas 12 exposições de 30 seg 1600 ISO stacked no Rot n Stack

            De volta a nossas fotos o “Aglomerado do Coração” foi registrado de Nova Friburgo em noite sem quase nenhum compromisso com a astrofotografia. E com um alinhamento polar realizado apenas para poder apresentar as crianças algumas maravilhas celestiais. O resultado foi que com o andar da noite as crianças foram dormir e o céu acabou ficando bem mais transparente que o esperado. E assim forcei uma barra para tirar algumas fotos de dois abertos do catálogo Messier que nunca tinha registrado (embora já tivesse observado ambos algumas vezes) M 50 e M 93 (do qual tinha recordações mais exatas).  M 50 me surpreendeu. Grande brilhante e colorido. Tinha que fotografar. E assim consegui cerca de uma 10 de imagens com bastante rastro.
            Provavelmente devido a isto estas fotos ficaram esquecidas por um bom tempo. Empilhei o lote utilizando o Rot n Stack. Fotos muito toscas não servem para o DSS (Deep Sky Stacker). Ele se recusa a empilhar.
            Ao longo do post   vocês devem ter percebido que fotos péssimas nunca ficam muito boas. Mas quase sempre é possível se obter um registro de DSO´s mais brilhantes sem grandes pretensões ou tempo. Evidentemente o material não se prestará a grandes ampliações. Mas será excelente referencia para a identificação de DSO´s. 
            Uma técnica pouco digna, mas muito funcional para reduzir o rastro das estrelas com o Photoshop. Duplique o layer de fundo e “escureça” o layer duplicado. Depois corra o layer superior sobre o de fundo e veja as coisas se ajeitando. O PixInSight resolve bem o gradiente de fundo de fotos que foram capturadas sem a realização de darks ou flats. Venho percebendo que em capturas realizadas com câmeras DSLRS os flats são mais importantes que os darks ou Bias. Outra coisa é que o PixInSight é um programa que demanda mais estudo... comecei a ler o “Inside PixInSight”.  Vou estudar. E na próxima lua nova quero fazer uma captura mais séria de alguns DSO´s para poder “brincar” mais a sério com o novo brinquedo.... Andei testando realizar o stacking no PI. Mas é bem mais trabalhoso que no DSS. O procedimento descrito no livro realmente pode ser que leve a resultados superiores. Mas não sei se tanto...

terça-feira, 15 de maio de 2018

M 68 : O Globular do Corvo


            


       O Catalogo Messier possui 29 aglomerados globulares. Há anos venho buscando fotografa-los. Devido a aquelas coincidências que nada tem com as leis fundamentais do universo (coincidências de Adams) M 68 acabou sendo o antepenúltimo destes que fotografei. Curiosamente foi um dos primeiros que observei. Ao contrario do que Messier nos diz em seu catalogo eu acho M 68 facilmente visível e graças a sua posição em relação as estrelas de Corvus facilmente localizável. Mas o tendo observado diversas vezes tinha como certo que já deveria ter fotografado o mesmo. Ao organizar minhas fotos descubro que não era verdade. E desta forma este que é um fácil aglomerado globular acabou sendo capturado em uma noite fria e nebulosa onde quase tudo deu errado. Mas como aqui no Nuncius Australis mais vale a captura que a foto propriamente dita chegamos ao ponto onde nos encontramos agora.

            M 68 carrega ainda uma outra coincidência consigo. Ele é o último objeto incluído na segunda parte do catalogo Messier. Este na forma que foi publicado possui 103 entradas e dividiu-se em 3 fases. Sua primeira versão (da qual sou o orgulhoso proprietário de uma cópia digitalizada) é de 1771 e foi publicada nas Memoires de l´Académie de Sciences de 1774. (Objetos de 1 até 45). A segunda parte é de 1780 e foi publicada no mesmo Memoires só que desta vez na sua edição para o ano de 1783. Incluindo aí as entradas de 46 até nosso querido M 68.  Sua ultima etapa foi publicada no Memoires de 1784. Que acaba em M 103. Postumamente foram incluídas as entradas de M 104 até M 110.

            Como disse Messier o considerava um alvo difícil: “9 de abril 1780 – Nebulosa sem estrelas abaixo do Corvo e da Hidra. É muito tênue e difícil de se perceber com os refratores; próximo a uma estrela de 6a magnitude.”

            A primeira vez que observei M 68 foi com o “Galileu” (um refrator de 70 mm f13). Estava na Armação dos Búzios. Embora não se resolva e seja apenas um esfuminho é bastante evidente e revela sua identidade mesmo para uma buscadora 8X50mm.

            A “paternidade” de M 68 é alvo de alguma disputa. Glyn Jones nos diz que foi Méchain seu descobridor. O´Meara também assim o diz em seu "Deep Sky Companions: The Messier Objects" Mas a maioria dos autores garante ser este um “Messier Original”. Este sempre deu os créditos nas descobertas de seu grande colaborador. 

      Herschel Pai (William) fala de um aglomerado bem concentrado sendo como sempre o primeiro a resolver os globulares de Messier. Já Herschel Filho (John) diz resolver este facilmente. Entre os guias mais clássicos de todos (Smith e Webb) também há conflito. Enquanto Smith parece apanhar do clima inglês e nos dizer que só percebe “uma nebulosa grande, arredondada e muito pálida” seu conterrâneo e contemporâneo e em geral mais modesto reverendo Webb fala em “bem resolvido” e de uma estrela rubi... M 68 pertence a classe X de concentração de globulares. Portanto mais para um aglomerado pouco concentrado do que para um muito e insolúvel grupo de estrelas muito espremidas.
Drizzle. 


            Observado com o Newton (me refletor de 150 mm f8) com 120 vezes de aumento eu pendo para o lado de Webb. Mas não resolve sua parte mais nuclear. Percebo estrelas no terço exterior do mesmo e nenhuma cor. Na noite que este foi fotografado as coisas estavam bem ruins e neste caso a descrição de Smith seria mais apropriada.

            M 68 é um aglomerado típico do halo galáctico. Possui uma orbita bem excêntrica, não habita perto do núcleo (entenda Ophiucus, Sagitário e Escorpião), sua orbita leva mais de 500 milhões de anos e pode estar a mais de 100.000 anos luz do núcleo galáctico. Segundo Stoyan tem mais e 10 bilhões de anos (o que me parece pouco...) e baixa metalicidade.  Possui 42 estrelas variáveis conhecidas sendo 40 destas do tipo RR Lyrae tão típicas de globulares.  Atualmente se encontra a 36.000 anos luz de (e se aproximando) e possui um tamanho físico de aproximadamente 120 anos luz.
            O biônico O´Meara acha que M 68 é um belo desafio para vista desarmada. Talvez no Atacama... Sendo um globular bem austral para o catalogo Messier é compreensível que este o considerasse difícil, mas de latitudes mais austrais é alvo fácil para binóculos 10X50 mm. Com grandes telescópios é fácil se perceber a estrela avermelhada citada por Webb. Localiza-se 5´ a noroeste do núcleo de M 68.


            Navegar até este é fácil. Considerando a linha que liga Algorab (Delta Corvus) até Kraz um passo siga aproximadamente mais meio passo e chegue até seu objetivo.
Rot N Stack Modo mean utilizando um dark frame auto gerado ( que geralmente leva a uma coloração meio esverdeada das fotos...). Esta imagem recorda muito o aglomerado quando o bservado visualmente em condições ideais com cerca de 60X de aumento ( exceto pelo verde)

            As fotos aqui apresentadas foram realizadas em noite muito enevoada e o alinhamento polar feito "de ouvido". O material capturado em RAW não rendeu. Fui obrigado a converter tudo em JPEG e empilhar as poucas fotos obtidas no Rot n Stack. O Resultado final foi muito ruido e algum verde... A fim de me livrar do verde que vemos na foto logo acima foi fácil . O Photoshop transforma tudo em uma escala de cinza com um único click... Astrofotografia é a maior diversão. 

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Um Novo Posto Avançado, Astrofotografia e Humboldt


     

       Com a chegada do Outono é tempo de galáxias para o observador amador. A grande coleção destas que habita no aglomerado de Coma-Virgem e esquina com Leão fazem a alegria destes. Mas galáxias são criaturas exigentes e cheias de vontades. E assim céus escuros e secos não só ajudam muito como são condição importante para a tarefa.
            Com a cara metade em uma fase nem tão cara e nem tão metade acho por bem pegar meu pequeno e seguir rumo a Pedra Riscada. Esta reside nas proximidades de Lumiar e encravada na Serra do Mar. Local de céus bem escuros. Rurais... Bortle 3.
            Mesmo com a meteorologia se tornando cada vez mais uma ciência quase exata e me dizendo que as condições seriam bem nubladas eu levo todo o circo.
            Seria a primeira grande aventura de meu jovem Indiana Jones (4 anos) para acampar. Assim sabia que minhas observações além de lutarem contra as nuvens seriam bem truncadas pelos cuidados necessários ao novo aventureiro. Não o poderia deixar muito largado em um terreno minado por um caudaloso rio e por três açudes.

            A viagem transcorre tranquila. Depois de um “almoço” em um Bob´s já na estrada meu filho pergunta cerca de 3 vezes “- Falta Muito?” e finalmente dorme. Ele acorda já no camping.
            O local (Camping Cantinho Doce) é muito agradável e bem estruturado. Oferece também algumas casas para alugar. Mas meu filho decide que prefere ficar em uma barraca. Tudo disponibilizado pelo estabelecimento. Com esta montada na parte alta do camping a noite (caso as nuvens que rondam dêem sossego) promete.
            O site Meteoblue (veja o link aí do lado...) me diz que entre as 19:00 e 21:00 horas haverá uma janela nas nuvens. Por incrível que pareça isto se confirma. Embora a transparência tenha continuado péssima.
            Com a atenção à criança e o céu muito enevoado fica difícil realizar um alinhamento polar digno. Me conformo e deixo tudo bem mambembe. Desta vez o objetivo principal da expedição é apresentar ao pequeno a “natureza selvagem”. O que observar vai ser lucro.
            Estou lendo um interessante livro, “A Invenção da Natureza” de Andrea Wulf. Uma biografia de Alexander Von Humboldt. Um dos principais responsáveis pelo nosso entendimento do que hoje se chama de ecologia. Sua obra magna “Kosmos: a Sketch of The Physical Universe” é um dos livros de cabeceira aqui no Nuncius Australis (até onde um compêndio com 5 volumes pode ser um livro de cabeceira). Humboldt foi, juntamente com John Herschel, Darwin, Goethe e cia. Ltda., a linha de frente da ciência no final do século XVIII e no século XIX. São diretamente responsáveis para a forma como nós hoje a compreendemos. Talvez devido aos arroubos “Humboldtianos” eu tenha observado menos do que o normal. Este nos diz ainda no primeiro volume de seu tratado que os fenômenos terrestres são muito mais complexos que os celestiais. E olhem que este certamente nunca soube o que era a paternidade. O livro de Andreas Wulf nos conta fofocas sobre os amores platônicos de Humboldt. Bem como suas aventuras ao longo do mundo...

            De volta a única noite que observei na companhia de Mlle. Herschel e o Newton (Minha cabeça equatorial HEQ 5 pro e meu telescópio newtoniano de 150 mm f8) acabei por conseguir um material fotográfico abaixo da crítica. E por isto mesmo de algum valor pedagógico...
Centaurus A em seu melhor resultado. Para chegar a isto foi necessário converter todas as fotos de Raw (.CR2) para arquivos Jpeg. Estes foram esticados no Camera Raw do Photoshop CS 6 . Posteriormente o Stacking foi feito no Rot n Stack. depois disto a foto foi salva como escala de cinza no Photoshop onde teve a ferramentas Curvas utilizada ajustada para "contraste médio".  12 ExpX 30seg iso 1600. Foi utilizado um dark frame autogerado pelo RnS.
Este é o resultado de uma unica exposição capturada em raw e posteriormente "esticada" no Camera Raw do photoshop e convertida em Jpeg.
Png gerado pelo RnS sem nenhum tratamento posterior. O uso do dark frame autogerado por este sempre causa um desvio intenso para o verde. Este é o modo Mean do RnS. Costuma ser o mais realista...

Este é o desastre de ruido obtido ao se empilhar os Jpegs no DSS. Sendo u programa mais poderoso ele amplifica além do sinal  muito o ruido presente nas imagens. 

            A primeira vitima foi Centaurus A. Esta uma galáxia bastante dada e que mesmo por entre as nuvens e envolta nas brumas comparecia mesmo visualmente sem grandes esforços. Foi escolhida especialmente por se encontrar perto as estrelas que foram utilizadas como guias para o sistema de go-to de Mlle. Herschel. A teoria (e o manual...) nos diz que devemos escolher estrelas em lados diferentes do meridiano e afastadas pelo menos 15o uma da outra.   Devido a ter que realizar a operação de alinhamento deste lutando contra nuvens que moviam-se mais rápido que o Rubinho e o Massa juntos eu acabei utilizando Acrux e Alpha Centaurus. Em tese uma combinação “pobre”. Mas a observação contrariou a teoria e o alinhamento acabou bastante preciso nas imediações. Foi arriscar Centaurus A e esta apareceu quase centralizada na ocular de 25 mm. Como conheço bem as “condições de contorno” na região em volta desta foi fácil faze-la se apresentar com um pouco de visão periférica. Sua característica bipolar e sua evidente banda escura pipocaram quase imediatamente. Algumas fotos e percebo que o alinhamento polar está muito ruim. Mas acho melhor deixar as coisas como estão. Afinal tenho que manter um olho no telescópio e o outro na criança...
Este é resultado do empilhamento de 12 fotos que foram convertidas para Jpeg. Empilhadas no Rns e posteriormente salvas como escala de cinza no Photoshop. A Partir do modo sort ( que apesar de ser muito pirotècnico as vezes dá certo.) 
Modo Mean do Rot nStack, PNG
Deep Sky Stacker a partir de arquivos em Ra convertidos par a Tif.

            Logo depois percebo que M 68 está alto no céu e em área desobstruída. Sendo um dos três ultimo globulares Messier que me faltam fotografar decido que (mesmo sabendo que o registro será tosco) é uma boa ideia captura-lo. O Go-to se apresenta brilhante e o coloca dentro do sensor da câmera sem a necessidade de nenhuma busca visual. Faço um pouco mais de uma dezena de exposições antes da região nublar.

M 60 Regio - Rns com Jpeg. PS em P&B. 6 exposições apenas

            Agora acredito que a região entre Leão e Virgem se apresenta desobstruída. Cravo M 60 no go-to e esta aparece no sensor. Mas alegria dura pouco e faço menos de 10 fotos desta. Não é o suficiente. Mas apesar disto ainda se perfilam mais algumas galaxias. Ngc 4660 se apresentava evidente mesmo no LCD da Canon. 
Uma  foto 30 seg 1600 iso

            Já ficando cansado das nuvens ainda tento mais um alvo. Mas o resultado abaixo demonstra que era melhor ter começado o desmonte da operação. Afinal já ia esfriando e  a condensação iria fazer estragos. Ngc 4349. Um aberto que Patrick Moore inclui na sua famosa lista Caldwell. Bem discreto. E todo borrado... Fiz só uma foto...
            Me recolho para junto ao rebento e vou dormir na esperança da Sexta feira ser mais fortunosa.
            Na sexta reúno um casal de amigos junto a uma das mais gostosas costelinhas que já vi. E o pequeno vai brincar com as crianças e ser mais criança do que já havia sido em muito tempo. A vida na roça é exemplar. Mas nada de observação esta noite. O programa foi conversar e discutir geomorfologia com meu bom e velho amigo (e curiosamente meu professor da matéria nos tempos de PUC) Gil Velho Cavalcanti de Albuquerque.

Gil Velho Cavalcanti de Albuquerque

            No dia seguinte acordo com o camping, que havia sido um espaço de mais de 10 hectares de terra só meu e de meu filho, sofrendo um processo de ocupação descontrolado. Empacoto tudo e sigo em busca de refugio na casa do velho professor.


            As observações daí para frente se resumiram a passeios espontâneos e sem maiores planejamentos com o “Pau de Dar em Doido” (meu binóculo 15X70 mm). Geralmente na área central da Via Láctea. O céu acostumou-se em dar um “abrida” entre 22:30 e 00:00 horas. Foram visitados (entre dezenas de Ngc´s que não identifiquei. Na maioria abertos. Mas também alguns pequenos “globs” e certamente muitas áreas de nebulosidade evidente...) M 4, 6, 7, 8, 16,17,18, 20, 21, 22 e 28, 69, 70, 75 e mais ... Não vi nenhum dos membros da chuva das Lyrideas.

Vamos fazer farinha?

Uma Herança da Primeira noite

            Mas nossa expedição no mais foi devotada ao reconhecimento das coisas da Terra e a introdução do meu menino na natureza. E este foi apresentado a gatos que em vez de miar rosnavam, cachoeiras onde se escorregava e a fazer “velhos amigos”.  Bem como a diversas formações geológicas interessantes. Os granitos com suas fendas que batizam a Pedra de Riscada, o gnaisse da Benfica, os brejos de altitude. Uma bela e minimalista introdução ao conceito de Naturgemälde (uma percepção da natureza como um todo orgânico e interligado) elaborado por Humboldt depois de sua escalada ao Chimborazo.  Sentia-me uma espécie de Waldo Emerson ou um Thoreau com mais de um século de atraso ou um Lovelock apenas um pouco tardio...

O insight de Humboldt ao perceber as faixas vegetacionais nas encostas do Chimborazo. Este é seu primeiro esboço...  Naturgemälde. Difícil de se traduzir. 

            A Pedra Riscada vai tornar-se o posto avançado aqui do Nuncius Australis. A Terra de José Eustáquio (também conhecida como a Armação dos Búzios) se tornou inviável devido a extrema poluição luminosa. Com a novas reformas na casa esta é hoje mais clara que a Stonehenge dos Pobres ( que como a fênix irá ressuscitar das cinzas) e com um monte de gente jogando contra. A astronomia observacional depende de que se goste e respeite o escuro da noite. Na Serra encontrei pessoas que   parecem comungar mais destes valores. Gente que quando você vai observar quer ver o céu. E que quando você dorme na varanda vai lá e te cobre com um belo cobertor.   Certamente  a maior altitude vais a colaborar. Creio ser necessário criar uma rotina para lidar com a maior condensação e com as temperaturas mais baixas que me aguardam no inverno. Penso em construir uma faixa térmica para montar no tubo do Newton.  E o céu é escuro de fato... Bortle 3 implica em que os grandes globulares sejam evidentes a olho nu. A Via Láctea apresenta uma estrutura complexa. As Nuvens de Magalhães se apresentam magnificas. M 33 perceptível com visão periférica para observadores treinados. E muito mais... 
            De volta ao Rio de Janeiro e as mazelas do lar me resta dar um jeito no material fotográfico obtido na minha única sessão.
            Decidi atualizar minha versão do DSS (Deep Sky Stacker) para a mais recente versão 4.1.0. Mas esta tem algum bug pois ela carrega a versão da foto 32 bits em Tif, mas depois para de funcionar. O arquivo "autosave" termina salvo na pasta original de onde veio o material para o stacking, mas não consigo ir além nele. Comparando o resultado com minha antiga versão 3.3.4 acho que não noto nenhuma diferença. Por enquanto fico com a anterior...
            Fotografar em noites muito enevoadas é um exercício quase inútil. O material obtido termina com um ruído absurdo. E com nebulosidade e com mal alinhamento polar é realmente um trabalho quixotesco.
            Logico que não posso resistir a tentação de perder meu tempo tirando leite de pedra.
            O DSS se recusa a empilhar os arquivos em Raw. Que apesar te possuírem muita informação escondida não a revela para ele. A mensagem “O DSS só empilhará um fotograma luz” é recorrente em todos os DSO´s que apresentei. Mesmo com o Threshold em 2%.
            Esta maneira me resta abrir os arquivos em RAW no Photoshop e utilizando o “Câmera Raw” (um plug-in)
 espremer estes e depois salvar em Tif e/ou Jpeg. E com estes arquivos empilhar no DSS. Geralmente quando os caminhos no pós processamentos são pouco ortodoxos e recordam peregrinações é porque a captura foi uma M... O resultado é uma foto com muitos ruídos.  Um registro. 
            Nestes casos muitas vezes utilizo o Rot n´stack. Um primitivo software de stacking, mas que em casos extremos tende a presentar resultados um pouco melhores (ainda que meio “estranhos” ...). A fotos tem o work flow de cada uma nas legendas.
            No mais foi muito divertido e encontrei velhos amigos e debates que se não havia esquecido estavam em alguma pasta bem escondida.
Júpiter nascendo...

            Em maio espero conseguir retornar a Pedra Riscada para um encontro mais a sério com Messier em Virgem...

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Ngc 5460: O Aglomerado de Moria


  


              Ngc 5460 é um aglomerado aberto exemplar. Serve como exemplo. Exemplo de como a astronomia amadora é uma forma de paixão. Na escala dos amores a paixão é um representante quase doentio. É o amor de Moria.  
                Um membro dos objetos de céu profundo que só será conhecido por aqueles tomados de um prazer quase obsessivo (quase é para parecer que ainda há alguma sanidade nesta busca).
                Mas existe um consolo. Descobri que além de mim outros já foram até lá e acharam este digno de nota.
                Observo sempre sem companhia. Mesmo que cercado de outras pessoas (no mais das vezes). E nenhum deles acharia tão fascinante este modesto ajuntamento de estrelas em formato bem delicado. Na verdade, adjetivos como delicado, colorido, charmoso e etc... não seriam sequer imaginados por um curioso.
                Em geral quando convido alguém, que não é do ramo, a olhar pela ocular este poderá se encantar com Saturno, Júpiter, a Lua e quiçá as Plêiades. Mas depois do segundo ou terceiro DSO o camarada perde o interesse. Isto quando realmente vê alguma coisa. O leigo olha, mas não observa. E telescópio não é binoculo. Demanda tempo para se aprender a perceber algo. DSO´s que demanda visão periférica, técnicas de respiração e esforço não são para qualquer um. Os americanos têm uma expressão que nunca consegui traduzir de forma apropriada, mas que descreve bem a situação. “Deep Sky die-hard”.
                Felizmente ao longo da história sempre houveram aqueles que levaram isto mais a sério e de forma não só compulsiva como sistemática.
                 E assim se chegou até Ngc 5460.
                James Dunlop é alguém que me acalma. Ao observar sua obra percebo que mantenho meu amadorismo dentro das baias da sensatez. Este inglês foi baixar na Austrália no século XIX como um “handyman” (faz tudo) de um nobre que era o chefão da astronomia lá por aquelas bandas. Haviam dois deles. Ele mesmo (o nobre inglês) e um astrônomo de relativo renome alemão. Acabaram brigando e Dunlop acabou fazendo (por um período) o trabalho que seria dos dois. Depois o alemão volta por cima da carne seca e Dunlop acaba com um observatório de fundo de quintal e com um telescópio feito por ele mesmo. Sem montagem equatorial e com um tubo pendurado em uma arvore. Podia observar os objetos durante sua passagem pelo meridiano (o melhor momento) ou um pouco para oeste ou para leste. Reza a lenda e a ótica que seu telescópio tinha um poder de fogo semelhante ao do “Newton” (meu Skywatcher 150 mm f8). Lógico que os céus eram bem mais escuros dos que costumo observar e ele bem mais “Caxias” do que eu...
                De volta a minha obsessão eu observo quando posso, de onde posso e em qualquer condição de céu. Durante muito tempo ouvi certos dogmas observacionais.
                - Tu não observarás nada da cidade grande.
                - Tu não observarás na lua cheia
                - Tu deverás ir a um clube de astronomia.
                - Tu gastarás rios de dinheiro para fotografar os céus.
                - Etc...
                Como tenho horror a dogmas e nunca quis ser escoteiro fiz disto tudo uma grande bobagem. É verdade que observarás mais e mais rápido se ouvir estes conselhos, mas talvez não observes nada...  Quanto a gastar um mar de dinheiro para fotografar os céus é bom lembrar que todo o catalogo Ngc foi fruto da observação visual. E é possível fotografar (boa parte dele) sem abrir falência. Embora o custo Brasil seja ridiculamente alto. E que nem só de DSO´s viva a astrofotografia.
                Visitei o aglomerado como parte da segunda parte de meu projeto “O Sul Profundo”. Neste quero apresentar os levantamentos de Lacaille (Já realizado e disponível na Amazon  no link:    https://www.amazon.com.br/dp/B0778XNDNM/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1510189139&sr=8-1&keywords=O+Sul+Profundo) , Os “100 de Dunlop” (os 100 objetos mais interessantes de Dunlop) e posteriormente um apanhado sobre as descobertas de John Herschel.
                Como parece ser evidente o primeiro a colocar os olhos em Ngc 5460 foi Dunlop. É a entrada de numero 431 de seu catalogo (D 431). Foi observada na noite de 7 de maio de 1826.
                “Uma curiosa curva de pequenas estrelas, de quase igual magnitude, duas estrelas de 7a magnitude ao leste.”
                A estrela dupla “ao centro do aglomerado é um de seus traços mais marcantes e cantada em verso e prosa. John Herschel é o próximo a conhecer a peça. Este as cataloga como h 3555. Este nos diz o seguinte em sua observação do aglomerado;
“Uma região de grandes e brilhantes estrelas de 8,9 e etc... magnitude. Um aglomerado bem disperso. Colocadas estas em um grupo brilhante, um dos quais uma estrela dupla da classe III. (h 3555)”.
                Pela descrição podemos perceber que o telescópio de Herschel (irmão gêmeo do que seu pai usou para descobrir Urano) era muito mais poderoso do que o de Dunlop e que o “Newton”.
                Observei Ngc 5460 em condições extremas. Casa cheia, todas as luzes acesas, as beiras de uma crise conjugal e  na lua cheia. Não o percebi pela buscadora e para diferencia-lo de um campo estelar  em meio ao campo com minha ocular de 40 mm foi um belo exercício. Com a 25mm ele começa a ser um aglomerado e com a 17mm o é.
                Na verdade, fiquei surpreso de não ser mais conhecido. É um delicado, colorido e charmoso aglomerado. Não é à toa que foi incluído por O´Meara em seu “Southern Gems”. Fiquei um pouco triste por achar que ninguém o tivesse o incluído em uma lista observacional e que assim ele se qualificasse também para o “Projeto Tudo que Existe”. Este foi remodelado e agora inclui apenas DSO´s que não pertençam a nenhuma lista observacional moderna (anteriormente era a impensável ideia de fotografar todo o catalogo Ngc...). Basicamente inclui objetos que tenham escapado do mais obsessivo que eu James O´Meara e sua série “Deep Sky Companions”. Apesar de parecer improvável existem vários objetos dignos de nota e ao alcance de telescópios “populares” que escaparam dele. Especialmente ao sul do equador celeste. Ao apresentar Ngc 5460 no DSO Browser só existem três fotos. Duas são minhas e a outra é do Projeto NGC /IC. Pouco visitado mesmo... Uma tremenda injustiça.


                Ngc 5460 é um aglomerado aberto de idade intermediaria (158 milhões de anos) localizado em Centauro. Não muito distante de Omega Centauro. Cheguei até ele pior acaso. Em noite de lua cheia e querendo visitar alguma novidade o achei no Stellarium e me pareceu factível em noite que tudo estava lavado e quase invisível. Mesmo M 35 era quase nada...
                A descrição do Stellarium é um pouco “exagerada”. Ele fala em forte aglomeração central, grande faixa de luminosidade dos membros do aglomerado e aglomerado moderadamente rico com 50 a 100 estrelas. É tudo mentira. A descrição de Dunlop é para mim perfeita. E a estrela central de Herschel é a cereja do bolo.

                Com o “go-to” do telescópio um pouco errante e a lua cheia localiza-lo foi um pouco mais difícil que imaginava. A grande “cola” é dar uma namorada no Stellarium e localizar Zeta Centaurus. Ou Alnair ou ainda Baten Centaurus. São todas a mesma pessoa. Ela será percebida na buscadora sem o uso de tortura ou a convocação do Bolsonaro.
                O aglomerado em si apresenta três grupos que se destacam do resto da paisagem e dão seu caráter aberto de forma bem evidente. A dupla central é muito legal. Esta compõe com mais cinco estrelas a parte mais central deste com algumas parentes um pouco mais afastadas (talvez por isto a ‘forte aglomeração central” descrita no Stellarium.), um triangulo de estrelas de magnitude semelhante a noroeste e uma estrutura trapezoidal com outras 4 estrelas (incrível.Um trapézio formado por 4 estrelas. Queria ver só com 3...) ao sul da curva que caracteriza a obra.
                As fotos aqui apresentadas foram empilhadas no Deep Sky Stacker (uma com 2X drizzle e outra com os frames completos) e “reveladas” com o auxilio do Fitswork para a remoção do gradiente de fundo com posterior visita ao Photoshop. Costumo usar uma rotina no Photoshop para destacar as estrelas. Mas foi necessário algum ajuste para neste processo não “emendar” a dupla tão característica no centro do aglomerado.  Como sou um astro fotografo “purista” (e que não gosta do dogma “dinheiro”) busco evitar muito processamento. (Purista ou preguiçoso?)


                Olhando para o desenho do O´Meara acho que fui bem honesto na composição. Gostaria de ter o talento para desenhar os DSO´s que observo. Assim poderia ser fiel ao que observo. Mas sou uma negação para o desenho e mesmo minha letra é pior que a de médico. Com o advento do computador me tornei praticamente um analfabeto a mão livre...
                Ngc 5460 é uma das joias menos conhecidas da coroa austral. Vale a pena a visita.