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Mostrando postagens com marcador Ngc 2669. Mostrar todas as postagens
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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Ngc 2669- Escondido no Falso Cruzeiro

           
                Quando falamos de aglomerados abertos a maior parte dos astrônomos imagina algo como as Pleiâdes. Ou quando um pouco mais conhecedores as Caixinha de Jóias. Outros sérios candidatos seriam o Presépio ( M44) ou ainda as Híades.
                Quando falamos de aglomerados abertos a maioria dos mortais não imagina nada.
                Mas a grande maioria dos aglomerados abertos são muito mais discretos que seus companheiros mais famosos.  E estes em geral são bem próximos.
                O nosso convidado esta noite é Ngc 2669. Um discreto habitante da constelação de Vela. Além de ser um pequeno aglomerado escondido bem fundo ao sul do céu tem como vizinho um grande e mais conhecido latifúndio. Isto fez dele um ilustre desconhecido. Não esta em nenhuma das listagens mais conhecidas e nem frequenta os mais tradicionais autores do gênero DSO. Messier nunca o avistaria de Paris. Era por demais tênue para ser avistado por Lacaille. Sua descoberta foi realizada por  John Herschel ( o filho ) em já no seculo XIX. Mais precisamente em 1834.  Dreyer inclui este em seu completíssimo New General Catalog publicado em 1888. Por aqui caia o Império...
                 Posteriormente foi incluído em catálogos mais obscuros como  Harvard (3), Collinder(202) , Lund (481) e outros ainda menos manjados... 
                Ele não é citado nem mesmo no Catalogo Caldwell. E passa liso por diversos autores mais modernos e sempre ávidos por novidades com Walter Houston , Phil Harrigton , O´Meara e Cia. Ltda.
                Mas é preciso corrigir esta injustiça. Em primeiro lugar por este não ser assim tão pequeno. tem cerca de 20´ de tamanho (um pouco menos que a Lua ) . Nem é tão apagado assim. Magnitude 6.1. E nem é tão difícil de ser achado.  E claro além de ser um belo pingente para a Coroa Austral.
                Ao Lado de Delta Velorum , no Falso Cruzeiro , esta talvez a maior ameaça a Ngc 2669. IC 2391. O primeiro DSO " descoberto" pelo Nuncius Australis.  Também batizado de Aglomerado da Pequena Cassiopéia em homenagem a constelação Boreal este espetáculo celeste se espalho por 2o de céu e brilha com magnitude  2,5. é facilmente percebido a olho nu mesmo em locais de intensa poluição luminosa.
                Se por um lado a Pequena Cassiopéia acaba com qualquer chance de fama para este singelo aglomerado ela também é o farol que torna localiza-lo bem simples.  (HD  74535)
                 As duas mais brilhantes estrelas que marcam o pé mais a leste do M que é formado por IC 2391 habitam o mesmo campo que  Ngc 2669.  Na buscadora você talvez não perceba o aglomerado mas as estrelas que o emolduram serão evidentes em qualquer instrumento óptico.
                Ngc 2669 foi duro na queda . Diversas vezes que o procurei ele não quis se apresentar. Outra vezes caiu vitima rapidamente. Quase sempre o percebi com meu 15X70. Menos em condições muito extremas   ( Lua cheia e forte poluição luminosa) . Mas provavelmente devido a seu tamanho não tão grande localiza-lo com um telescópio pode ser mais difícil que parece. Ele se apresenta discreto em oculares wide field. E com maiores ampliações pequenos desvios nos levam ao lugar errado. A região é rica em estrelas e você pode acabar se confundindo.
                Nunca conseguira o fotografar da Stonehege dos Pobres ( O Observatório mais Urbano do Mundo) . Mas  visitando a Armação dos Búzios eu decidi que isto iria mudar.  Fiz um ensaio na véspera da viagem com o 15X70 só para garantir que ele continuava por lá.
                No céu "escuro " rapidamente o tinha enquadrado. O alinhamento polar como sempre deixou um pouco a desejar. Mas fiz diversas exposições do próprio . A lua quase cheia . Mas ele se apresentou.
                Agora o trabalho era descobrir mais fatos a respeito do suspeito . Foi mais dificil do que parecia. Pouquíssimos papers o citam e quase nenhum é lá muito especifico. Ele sempre faz é um coadjuvante em amostragens com milhares de aglomerados abertos.
                Depois de muito fuçar localizei um trabalho realizado por N. Vogt e A. Moffat  do Instituto Astronômico Ruhr de  em 1972  ( publicado em  Astrophysiccs and Astronomy Suplemment  9 de 1973) onde estes levantaram dados fotométricos de 11 Aglomerados galácticos no hemisfério Sul celestial.  ( Southern Open Star Clusters II- UBV- H b photometry of 11 Cluster between Galactic Longitudes 259and 280o)
                Daí vem toda a ficha do Individuo.
                Ngc 2669 se localiza entre 3000 e 4000 anos luz de nós. Embora sem grandes certezas eles atribuem uma idade intermediaria para o aglomerado  devido ao numero de estrelas Azuis e Gigantes vermelhas, A idade do elemento é de 6x10anos ( sempre quis usar notação cientifica em meus posts... ) 
                 E é só . Os rapazes não se aprofundam muito nos aglomerados em estudo. Aliás todos pouco conhecidos. A maioria pertence ao Catalogo Pysmis. Acho que nunca observei nenhum membro deste aí...
6x25 seg +6 darks DSS Newtoniano 150 mm Canon t3 asa 1600
                O que vejo na ocular me leva a crer que trata-se de um aglomerado pouco denso e sem um grande numero de membros. Embora seja difícil determinar quem pertence de fato ao aglomerado eu conto entre 35 e 45 membros.   Quanto as cores a lua cheia lava bastante da informação mas consigo perceber algumas estrelas levemente mais avermelhadas.
                Ngc 2669 é um belo pingente e não deve ser desprezado quando você for visitar IV 2391. Um bom exercício seria fotografar ambos em um mesmo campo.  Eu ( preguiçoso) fiz um pequeno mosaico bastante tosco. Creio que possa ajudar na localização do Aglomerado em relação a IC 2319. Mas creio que com um telescópio wide field ou mesmo uma tele objetiva a tarefa seja relativamente simples.

                Como já falei Ngc 2669 é um belo pingente entre as jóias da Coroa Austral. Mas localiza-lo requer atenção mais especial que muito s abertos . Seria um cristal bem transparente...

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O Falso Cruzeiro


               

              A primeira constelação que aprendi a reconhecer foi o Cruzeiro do Sul. E assim achei que nunca mais ia me perder. A segunda não era uma constelação. A Falsa Cruz, ou o Falso Cruzeiro, é um asterismo formado por estrelas de Carina (Quilha) e Velorum (Vela).  E assim aprendi que se perder pode ser bem fácil.

            O Falso Cruzeiro é maior e suas estrelas são menos brilhantes que as do original.  O truque para não confundi-los é procurar pelas brilhantes estrelas Alpha e Beta Centauro. Estas apontam para o Verdadeiro.
            O Falso Cruzeiro é formado por (ordem de magnitude) Delta Velorum, Avior (Épsilon Carina), Aspidiske (Iota Carina) e Kappa Velorum.
            Delta Velorum é um sistema múltiplo. Sua componente A tem uma magnitude aparente de 1.97 e sua companheira B tem uma magnitude de 5.5. Seu período orbital é de 142 anos. A estrela A seria ainda uma dupla espectrográfica e assim o sistema se mostra bem complexo. Delta Velorum é a mais brilhante binária eclipsante conhecida.
            Sua estrela principal já abandonou a sequencia principal e possui 2.5 a massa do sol e é 56X mais luminosa que o Sol.

Avior

            Avior (Épsilon Carina) é um sistema duplo. Seus componentes são separados por 0.46´arcsec. Em tese ao alcance de telescópios de 250 mm segundo Dawes e de um pouco maiores segundo Rayleigh.  O mais interessante sobre Avior é que seu nome, apesar de toda a pompa, não é clássico em sua origem. A estrela foi escolhida, no final dos anos 30, pela RAF (Royal Air Force) como uma das estrelas guias de seu Air Almanac. Das 57 estrelas escolhidas apenas duas não tinham nome. E assim, por vontade de sua Majestade, Épsilon Carina virou Avior e Alpha Pavo virou Peacock...
            Aspidiske por sua vez é grego e vem desde a antiguidade. E a estrela é batizada “Scutulum” em latim e “Turais” (تُرَيْس) em Arábico.   Todos estes nomes significam “escudo”. É uma estrela de magnitude 2.2 e é uma estrela super gigante (Tipo A9). Esta situada há 690 anos luz de nós.  Iota Carina vai ser a Estrela Polar sul por volta do ano 8100.
            E finalmente vem Kappa Velorum, que responde (às vezes) também pelo nome Árabe de Markeb. Isto pode ser traduzido como “Algo para se montar”. Trata-se de uma binária espectrográfica que nunca foi resolvida. Se orbitam em cerca de 116 dias e o par se apresenta sob o tipo B2 IV. Uma subgigante que já consumiu o hidrogênio em seu núcleo.  Markeb substituirá Aspidiske e será a Estrela Polar Sul em 9000.
            Mas o mais interessante sobre a Falsa Cruz é que ela traz dentro de seus campos estelares alguns dos mais belos aglomerados abertos que vão se apresentar no horizonte Sul durante o verão.  E isto quer dizer que ,no Observatório  do Nuncius Australis , serão as estrelas da temporada. E, como bons aglomerados abertos, isto significa um monte de estrelas... O Horizonte sul é o mais protegido da poluição luminosa .

            Vamos então tratar dos DSO´s que cercam o Falso Cruzeiro e tentar não se perder em tantas possibilidades.

10x15sec 

            Ngc 2516 é conhecido também pelo apelido de “Aglomerado do Diamante” por seu brilho. É facilmente percebido a olho nu no prosseguimento do eixo maior da Falsa cruz. Junto a Avior.  O aglomerado cobre a mesma área que uma lua cheia e brilha com 3.8 de magnitude.  Deve ter algo como 135 milhões de anos e já apresenta algumas estrelas gigantes vermelhas. É um aglomerado bem colorido e com diversas duplas. É uma descoberta original de Lacaille em sua viagem para a Cidade do Cabo em 1751-52.

IC 2391 10X 15 sec 

            Seguindo no sentido anti-horário chegamos a Delta Velorum e logo ao lado você perceberá Omicron Velorum. Ele é o membro mais brilhante de IC 2391. Este foi o primeiro DSO que eu “descobri”. E assim um eterno favorito. Ele me lembra da constelação boreal de Cassiopéia e o chamo carinhosamente de “Little Cassiopéia”.
            Antes de mim descobriram o aglomerado Al-Sufi por volta de 964 e o Abbe Lacaille novamente em sua viagem (1751-52). Com a magnitude de 2.5 e com cerca de 30 membros ele se esparrama por 50´. O aglomerado é um jovenzinho de 50 milhões de anos.

DSS

            Bem próximo, a menos de 1´, se esconde de forma mais discreta NGC 2669. Com apenas 12´ e brilhando com magnitude 6.10 este é uma pequena joia e demanda mais atenção para ser observado. E também céus mais escuros.  Este é um desafio para astrônomos urbanos e nunca o vi com menos de 150 mm.  Este é uma descoberta de 1834 feita por John Herschel (o filho) e existem relatos de ter sido percebido a olho nu por AL-Sufi. Seria um feito incrível...
            Outros achados de John Herschel, na contramão do belo Ngc 2516, habitam o prolongamento do eixo maior da Falsa Cruz. Ou seja, próximos a Kappa Velorum. Um é Ngc 2910. Pequenino com apenas 5´deextensão ele é desafio para binoculos e pequenos aumentos . E tem como vizinho Ngc 2925que com 12´é maior, porém mais tênue. Avistar ambos no mesmo campo (ou quase...) é um desafiobinocular para céus bem escuros.


            Junto a Aspidiske você irá localizar a bela e avermelhada estrela N Velorum. E logo a seu lado reside outra descoberta do Abbe Lacaille. IC 2488. Ao contrario do que se pensa o Index catalog elaborado por Dreyer também apresenta alvos para amadores com pequenos telescópios. Não muito, mas este é um deles. Magnitude 7.0 e com 15´de tamanho este DSO é um belo alvo emoldurado por N Velorum. E foi descoberto e redescoberto muitas vezes . El responde também pelos nomes: Lacaille III.4 , Dunlop 330, Mellote 97 e Collinder 208.


            O Falso Cruzeiro é uma região riquíssima da Via Láctea e existem ainda diversos outros DSO´s a serem explorados na região. Espero que essa introdução sirva como um guia útil.