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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Ngc2516-" The Running Man Cluster"



Ngc 2516 é um dos meus aglomerados abertos favoritos. Bem colorido e facilmente localizável ele é um renegado. Dificilmente entra em alguma lista de favoritos e raramente é lembrado nas revistas de astronomia.  Uma injustiça.
Acredito que isto se deva a sua posição muito ao sul no céu. E como o céu austral é lotado de espetáculos inimagináveis para nossos companheiros boreais este  permanece esquecido na maioria das vezes.  Fosse ele localizado mais ao norte no céu e seria cantando em prosa e verso.
Facilmente percebido a olho nu em locais de céu bem escuro (mag. 3,8) este belo aglomerado é facilmente localizado e é um belo alvo para telescópios de qualquer tamanho. E também se resolve em binóculos.
Para localiza-lo basta prolongar a linha que liga Kappa Velorum e Avior (Épsilon Carina). Estas formam o eixo mais longo do conhecido asterismo do Falso Cruzeiro.
Foi primeiramente registrado no catalogo elaborado pelo Abbe Lacaille durante sua viagem a Cidade do Cabo realizada nos anos de 1751/52.  E foi registrado como Lac II 3. Isto significa que o Abbe o considerou um aglomerado associado com nebulosidade. OAbbe possuía lunetas bem modestas...
Sir Patrick Moore prestou um tributo a esta beleza austral e a inclui na sua lista, o catalogo Caldwell, como a entrada de numero 96.   Foi catalogada ainda como Cr 172, Mel 82, Lund 411, GC 1619, h 3111 e OCL 776.
Ngc 2516 é um aglomerado jovem com uma idade estimada em 150 milhões de anos sendo esta  atribuída devido ao estado que se apresentam suas estrelas de maior massa.
Ngc 2516 apresenta algumas peculiaridades e já foi alvo de diversos papers. Um dos mais interessantes se refere a uma estrela membro e que apresenta um dos maiores campos magnéticos conhecidos em uma estrela não degenerada. A estrela em questão se chama HD 66318 e ainda encontra-se na sequencia principal. De uma olhada aqui http://adsabs.harvard.edu/abs/2003A%26A...403..645B.
Ngc 2516 foi um dos primeiros desenhos astronômicos que realizei. E também uma dos primeiros DSO´s que fotografei. É incrível como dois registros de um mesmo objeto podem ser tão diferentes. Mas como o desenho foi feito com um 70 mm e com uma ocular Kelner das mais vagabundas eu relevo e apresento para vocês este mau momento do desenho astronômico.

Já a foto é também um registro feito em condições bem extremas. Realizada através de uma janela com tela de proteção (possuo um gato com tendências suicidas) e em local de fortíssima poluição luminosa acredito que seja uma amostra fiel do que você deve esperar observar em ambiente urbano com um refletor de 150 mm. A foto é antiga e se me recordo é uma coleção de cerca de 10 exposições de 15 seg.  e de alguns Black frames. Tudo empilhado  no Deep Sky Stacker. Posteriormente a foto também foi submetida ao Photo Shop que permitiu realçar mais as cores... A câmera é minha falecida Canon 350 D. 

Steve Gotlieb descreve o aglomerado quando observado por um telescópio de 350 mm:
“1/30/06 Costa Rica- Um aglomerado visível a olho nu muito brilhante localizado a 3º SW de Épsilon Carina (estrela oeste da Falsa Cruz). Aparece parcialmente resolvido na buscadora 9X50 e é excelente por um binóculo 15X50. Preenche mais da metade do \campo de uma Nagler 20 mm, ~35´ diâmetro com mais de 100 estrelas resolvidas. Seu perímetro é bem irregular ainda que bem definido com baixa magnificação. Uma estrela laranja de magnitude 5,5 repousa a NE do Aglomerado (HD 66342). A região central é mais concentrada e uniforme. Inclui diversas estrelas amareladas e alaranjadas. Uma bela tripla esta do lado oeste e uma excelente dupla repousa do lado leste do aglomerado...”.
Este belo aglomerado é apelidado de “The Running Man Cluster”. “O Aglomerado do Corredor”. 
Cada um vê o que quer...

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O Falso Cruzeiro


               

              A primeira constelação que aprendi a reconhecer foi o Cruzeiro do Sul. E assim achei que nunca mais ia me perder. A segunda não era uma constelação. A Falsa Cruz, ou o Falso Cruzeiro, é um asterismo formado por estrelas de Carina (Quilha) e Velorum (Vela).  E assim aprendi que se perder pode ser bem fácil.

            O Falso Cruzeiro é maior e suas estrelas são menos brilhantes que as do original.  O truque para não confundi-los é procurar pelas brilhantes estrelas Alpha e Beta Centauro. Estas apontam para o Verdadeiro.
            O Falso Cruzeiro é formado por (ordem de magnitude) Delta Velorum, Avior (Épsilon Carina), Aspidiske (Iota Carina) e Kappa Velorum.
            Delta Velorum é um sistema múltiplo. Sua componente A tem uma magnitude aparente de 1.97 e sua companheira B tem uma magnitude de 5.5. Seu período orbital é de 142 anos. A estrela A seria ainda uma dupla espectrográfica e assim o sistema se mostra bem complexo. Delta Velorum é a mais brilhante binária eclipsante conhecida.
            Sua estrela principal já abandonou a sequencia principal e possui 2.5 a massa do sol e é 56X mais luminosa que o Sol.

Avior

            Avior (Épsilon Carina) é um sistema duplo. Seus componentes são separados por 0.46´arcsec. Em tese ao alcance de telescópios de 250 mm segundo Dawes e de um pouco maiores segundo Rayleigh.  O mais interessante sobre Avior é que seu nome, apesar de toda a pompa, não é clássico em sua origem. A estrela foi escolhida, no final dos anos 30, pela RAF (Royal Air Force) como uma das estrelas guias de seu Air Almanac. Das 57 estrelas escolhidas apenas duas não tinham nome. E assim, por vontade de sua Majestade, Épsilon Carina virou Avior e Alpha Pavo virou Peacock...
            Aspidiske por sua vez é grego e vem desde a antiguidade. E a estrela é batizada “Scutulum” em latim e “Turais” (تُرَيْس) em Arábico.   Todos estes nomes significam “escudo”. É uma estrela de magnitude 2.2 e é uma estrela super gigante (Tipo A9). Esta situada há 690 anos luz de nós.  Iota Carina vai ser a Estrela Polar sul por volta do ano 8100.
            E finalmente vem Kappa Velorum, que responde (às vezes) também pelo nome Árabe de Markeb. Isto pode ser traduzido como “Algo para se montar”. Trata-se de uma binária espectrográfica que nunca foi resolvida. Se orbitam em cerca de 116 dias e o par se apresenta sob o tipo B2 IV. Uma subgigante que já consumiu o hidrogênio em seu núcleo.  Markeb substituirá Aspidiske e será a Estrela Polar Sul em 9000.
            Mas o mais interessante sobre a Falsa Cruz é que ela traz dentro de seus campos estelares alguns dos mais belos aglomerados abertos que vão se apresentar no horizonte Sul durante o verão.  E isto quer dizer que ,no Observatório  do Nuncius Australis , serão as estrelas da temporada. E, como bons aglomerados abertos, isto significa um monte de estrelas... O Horizonte sul é o mais protegido da poluição luminosa .

            Vamos então tratar dos DSO´s que cercam o Falso Cruzeiro e tentar não se perder em tantas possibilidades.

10x15sec 

            Ngc 2516 é conhecido também pelo apelido de “Aglomerado do Diamante” por seu brilho. É facilmente percebido a olho nu no prosseguimento do eixo maior da Falsa cruz. Junto a Avior.  O aglomerado cobre a mesma área que uma lua cheia e brilha com 3.8 de magnitude.  Deve ter algo como 135 milhões de anos e já apresenta algumas estrelas gigantes vermelhas. É um aglomerado bem colorido e com diversas duplas. É uma descoberta original de Lacaille em sua viagem para a Cidade do Cabo em 1751-52.

IC 2391 10X 15 sec 

            Seguindo no sentido anti-horário chegamos a Delta Velorum e logo ao lado você perceberá Omicron Velorum. Ele é o membro mais brilhante de IC 2391. Este foi o primeiro DSO que eu “descobri”. E assim um eterno favorito. Ele me lembra da constelação boreal de Cassiopéia e o chamo carinhosamente de “Little Cassiopéia”.
            Antes de mim descobriram o aglomerado Al-Sufi por volta de 964 e o Abbe Lacaille novamente em sua viagem (1751-52). Com a magnitude de 2.5 e com cerca de 30 membros ele se esparrama por 50´. O aglomerado é um jovenzinho de 50 milhões de anos.

DSS

            Bem próximo, a menos de 1´, se esconde de forma mais discreta NGC 2669. Com apenas 12´ e brilhando com magnitude 6.10 este é uma pequena joia e demanda mais atenção para ser observado. E também céus mais escuros.  Este é um desafio para astrônomos urbanos e nunca o vi com menos de 150 mm.  Este é uma descoberta de 1834 feita por John Herschel (o filho) e existem relatos de ter sido percebido a olho nu por AL-Sufi. Seria um feito incrível...
            Outros achados de John Herschel, na contramão do belo Ngc 2516, habitam o prolongamento do eixo maior da Falsa Cruz. Ou seja, próximos a Kappa Velorum. Um é Ngc 2910. Pequenino com apenas 5´deextensão ele é desafio para binoculos e pequenos aumentos . E tem como vizinho Ngc 2925que com 12´é maior, porém mais tênue. Avistar ambos no mesmo campo (ou quase...) é um desafiobinocular para céus bem escuros.


            Junto a Aspidiske você irá localizar a bela e avermelhada estrela N Velorum. E logo a seu lado reside outra descoberta do Abbe Lacaille. IC 2488. Ao contrario do que se pensa o Index catalog elaborado por Dreyer também apresenta alvos para amadores com pequenos telescópios. Não muito, mas este é um deles. Magnitude 7.0 e com 15´de tamanho este DSO é um belo alvo emoldurado por N Velorum. E foi descoberto e redescoberto muitas vezes . El responde também pelos nomes: Lacaille III.4 , Dunlop 330, Mellote 97 e Collinder 208.


            O Falso Cruzeiro é uma região riquíssima da Via Láctea e existem ainda diversos outros DSO´s a serem explorados na região. Espero que essa introdução sirva como um guia útil. 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Sky Walk , Alinhamento Polar e NGC 2516


Ngc 2516

O clima não vem colaborando muito, mas apesar dos pesares esta ultima semana me permitiu algumas aventuras urbanas. O Nuncius Australis observa quase que exclusivamente de dois locais. Na Armação de Buzios é o observatório “escuro”. Na verdade apresenta típicas condições suburbanas. Em dias especiais apresenta um NELM (do inglês, naked eye limit magnitude) de+- 5.0 próximo ao zênite.



O outro é o observatório mais guerreiro. Janela da Sala, em condições urbanas extremas,tela de proteção para criança , gato que passeia pela janela etc.. Em dezembro tem também dois faróis de Xenon patrocinados pelo Bradesco que simulam uma bateria anti-aerea  contra os céu da cidade. Pode-se caminhar pelo horizonte sul. Cada época do ano passeia alguma coisa pela região.Chamo de Stonehedge dos pobres. Na verdade possui como área útil uma faixa de 35 graus do céu. NELM 3,5. De madrugada talvez um pouco mais.

Essa semana foi um unico e longo alinhamento polar.

Terça dia 21 começou a missão. Tinha tido uma idéia brilhante. Baixei um aplicativo no meu telefone. Sky Walk. Basicamente um programa planetário com serviço de GPS. Paguei US$ 2,99 na Apple Store. Tinha em mente fazer do alinhamento polar uma coisa simples e indolor.

O aplicativo me pareceu perfeito. Você simplesmente o aponta para o céu e ele mostra exatamente para onde e o que você esta olhando. Trás ainda um banco de dados com diversos DSO`S bem como um almanaque com todas as efemérides que você quiser. Bastante útil. E um sucesso com as crianças.

Minha idéia era bastante óbvia. Fixar o I Phone alinhado com meu eixo polar e com isto localizar o pólo sul celeste com precisão de GPS.

Não deu certo. Apesar de me permitir uma boa aproximação o sistema não tem a precisão necessária.

É um bom aplicativo para você se situar. Especialmente em constelações mais apagadas. Mas oscila muito. Às vezes fica meio perdido.

Fiz o alinhamento utilizando I Phone e cometi o primeiro erro. Mexi na minha Latitude na cabeça. Sempre a mantive no mesmo lugar e nunca deu errado. Mas empolgado com a tal da tecnologia errei. Passei essa noite tentando melhorar o alinhamento e insistindo no pequeno aplicativo.

Com a câmera instalada no 150 mm tentei exposições de 30 seg. Parecia arte moderna. Um monte de rabiscos. 15 segundos: rabiscos menores. 10 Segundos: Ainda rabiscos. O tempo abre e fecha e eu lutando para fazer um acompanhamento mais digno de Miaplacidus.

Já vai tarde a noite quando me dou por vencido.

Quarta Feira eu volto à carga. Mas desta vez a cerveja atrapalhou. Tento alguns registros da Caixa de Jóias (Ngc 4755). Nada aproveitável.

Quinta Feira. Hoje vai . Meu objetivo é fotografar todo o catalogo Lacaille e hoje eu decidira que NGC 2516 ia ser a bola da vez.

Assim que Venus acendeu a oeste, o dia ainda era claro. Comecei os trabalhos.

Desta vez contando com técnicas menos modernas e comprovadamente eficientes fiz o alinhamento polar. Usando de uma bussola ,um inclinometro e um pouco de bom senso acabo conseguindo um alinhamento polar aceitável. Faço algumas experiências com Canopus a utilizo para focar minha câmera. Faço algumas exposições de 15 segundos e depois de varias considero  o acompanhamento aceitável. Somando-se todas as horas para esse alinhamento acontecer passaram-se muitas horas e varios dias.E ainda pode melhorar mais. Mas enfim... Um alinhamento polar correto é uma das coisas mais dificeis que voce pode esperar fazer junto a um telescópio.

Canopus (Alpha Carina)



Agora é esperar 2516 se apresentar no local certo.

Lacaille catalogou este aglomerado em seu “Nébulas do Céu Austral” coma a entrada II. 3, Sua categoria II referia-se a aglomerados estelares associados a nebulosidade. Lacaille usava refratores muito pequenos . Toda essa categoria consiste de aglomerados abertos  sem nebulosodade associada.
Ele  comenta: um aglomerado de estrelas de 7ª e 8ª magnitude que forma uma nébula visível a olho nu.

Um Aglomerado aberto bem brilhante. Com uma Magnitude de 3.8 e medindo 30´ ele é facilmente percebido pela buscadora. O a olho nu da descrição do Abbe depende de um céu um pouco mais generoso que o do Observatório do Rio. Em Buzios percebo a nébula.

Usando-se o asterismo do Falso Cruzeiro ele é facilmente localizado. È só estender a linha que liga Kappa Velorum a Avior (Épsilon Carina) no eixo maior do Falso Cruzeiro e você vai achar o belo aglomerado. Eu percebo cinco estrelas pela Buscadora.

Com o Aglomerado na Buscadora realizo algumas dezenas de exposições de 15 segundos com uma Canon 350 d. Capturo também alguns Dark Frames.

E assim o verão começa com NGC 2516 sendo registrado e assim se tornando o segundo objeto Lacaille que foi capturado. Com alguns membros já transitando no vermelho é um aglomerado colorido e uma gema do céu austral

Deu trabalho...





Ngc 2516 -20 exposições de 15 Seg. Deep Sky Stacker


Outra serie de 20 exp...