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segunda-feira, 30 de março de 2020

Ngc 6067 Reloaded



                Ngc 6067 foi um alvo que visitei algumas vezes. Inclusive creio que já o apresentei por aqui. Mas o tempo passa e novas descobertas e conhecimentos vão se somando. Bem como a biblioteca cresce. E assim achei que era hora de fazer uma versão reloaded deste belo aglomerado aberto no coração da Nuvem de Norma.  Vão-se 7 anos desde o primeiro post.
Esta passou por 2X drizzle no DSS. Seguiu para o PixInSight e teve um pequeno ajuste de curvas no Photoshop. foi a unica foto no post a pasar no Pix. È um programa bem poderoso e uso com moderação. O acompanhamento deixou um pouco a desejar . Mas o alinhamento polar foi feito de forma estabanada como pode ser visto aqui 

      A primeira coisa que vão reparar é que a capacidade fotográfica aqui no Nuncius Australis aumentou desde o primeiro post. Você  vai poder ver a quantas andavam as coisas aqui ( Algumas fotos abaixo...). Eram tempo de Hipatia (uma montagem equatorial Eq 2-3). A nova captura foi realizada com Mlle. Herschel (uma Heq 5 pro). Uma outra diferença vai ser fundamental. Na primeira visita fotografei 6067 a partir da “Stonehenge dos Pobres” O carinhoso apelido para a janela de meu apartamento no bairro do Leblon no Rio de Janeiro. E desta vez o fiz a partir de Lumiar. Em um ambiente rural.  Uma diferença de 5 pontos na escala Bortle.  Acrescente a isto que na primeira captura foi utilizado o Newton (meu telescópio refletor 150 mm f8). Desta vez estava em campo uma lente Canon 70- 300mm @ f5,6.  Apesar de seu menor poder de ampliação sua qualidade ótica é infinitamente superior.
NGc 6067 -300 mm f 5.6- tempo total de exposição 4,5min -Stacking no DSS e apertada apenas no PhotoShop


                And Last but not least os softwares de processamento que possuo hoje são mais avançados e minha habilidade com os mesmos melhorou bastante com a prática. Nas fotos do primeiro post foram utilizados o já pré-histórico Rot n´ Stack e o Photoshop. A cocktail atual começa no Deep Sky Stacker, segue para o PixInsight e terminamos tudo com uma esfoliação no Photoshop.
Uma foto antiga... Newtoniano 150 mm f8- Rot n` Stack +Photoshop+ noiseware ( Outra reliquia)

                -Ahhh!! E não posso esquecer da ausência da tela de janela que habita na Stonehenge dos Pobres em razão das crianças e do gato. Sendo que na época o pequeno nem era nascido. E assim em uma noite mais animada eu ganhei mais alguns anos de tela na janela de casa. Atualmente a Stonehenge se encontra aposentada.
                Mas vamos ao que importa: Ngc 6067.
            O aglomerado habita uma das “supérfluas constelações” criadas por Lacaille nos anos de 1750, como dito por Ridpath e lembrado por O´Meara nos respectivos Stars and Planets e no Deep Sky Companions: the Southern Gems. Nada poderia ser mais injusto. A Norma (A Régua) pertencem diversos aglomerados abertos deslumbrantes e menos famosos. Certamente Ngc 6067 é o maior injustiçado da coleção.  Facilmente percebido a olho nu (lembrem-se Bortle 3...)  e um belíssimo espetáculo com qualquer auxílio ótico. A escala Bortle é uma escala de poluição Luminosa. Quanto mais baixo o valor mais escuro o céu sobre sua cabeça.
A Região é repleta de Aglomerados abertos...  Esta foto foi levada ao Site da astrometry para identificar todos . É a mesma foto que abre o post; 1 exposição de 30 seg em 70 mm f4.5. Esticada no photoshop. As capturas foram realizadas em RAW ( cr2) e 1600 ISO. As fotos são carregadas em Jpeg para o Blog. 

                Localizada a meros 25´de Kappa Norma o aglomerado vai permitir ver as mais diversas formas no lúdico exercício de se ligar pontos. O aglomerado pequeno é bastante denso e se localiza no braço galáctico interno. No mesmo que habita M 24. Ngc 6067 reside na Nuvem Estelar de Norma. O braço Espiral de Norma contém as mais maciças nuvens moleculares bem como a região  mais luminosa no disco galáctico de infravermelho distante com maciça formação estelar . Essa a aglomeração OB1 de Norma. Apesar de ser cerca de 3000 anos luz superposto a aglomeração em si o aglomerado está no coração visual da aglomeração OB 1 de Norma.
                Sua distância engana. Ngc 6067 é cerca de 20 mais rico que as famosas Plêiades e tem aproximadamente a mesma idade (algo entre 60 e 80 milhões de anos). Não espalhem isso por aí ou os ufólogos vão criar uma nova espécie...
                Ngc 6067 foi “descoberto” por James Dunlop em 8 de maio de 1826. É incrível que Lacaille não o tenha incluído em seu catálogo.  Dunlop descreve o aglomerado: “Um belo e grande aglomerado de pequenas estrelas de magnitudes variadas com aproximadamente 12´de diâmetro. As estrelas são consideravelmente mais congregadas em direção ao centro e este se estende sudoeste para nordeste. “(D 360)
                Posteriormente John Herschel nos fala de “uma estrela chefe no meio de um soberbamente rico e grande aglomerado. No mínimo 20´ de diâmetro, pois mais do que preenche o campo (ocular); não muito comprimido em direção ao centro. Estrelas de 10 a 12a magnitude (h 3619)
                Um estudo dirigido por J. Eggen em 1983 (Cerro Tololo) descobriu duas cefeídas (estrelas que funcionam como velas padrão em função da razão entre o tempo e o brilho delas) e que permitiram concluir com segurança a distância de 5.700 anos luz. Há ainda mais uma cefeída no campo, mas tudo indica pertencer a aglomeração OB1 mais distante.
3 X drizzle no DSS. 

                Ngc 6067 é um dos aglomerados abertos mais charmosos e brilhantes do céu e corre lado a lado com M6 (O Aglomerado da borboleta) e M7 (O Aglomerado de Ptolomeu). Um programa obrigatório e alvo para qualquer equipamento.


              Localizar Ngc 6067 é muito fácil. Localize Kappa Norma ,que será percebida facilmente com uma buscadora mesmo em cidades grandes, e localizou Ngc 6067. 



domingo, 29 de março de 2020

Astrofotografia nos Tempos do Corona

M6 e M7 se esgueirando por entre a arvore no nascer de Escorpião. 


Muitas Aporemas não foram festejadas aqui pelos Nuncius Australis. Me envolvi em dois grandes projetos cinematográficos desde o final de 2019 até o início de março. Primeiro uma longa temporada por Recife em um filme que acabou se tornado mais um “statement” de gênero que um projeto do Liceu de Artes e Ofícios e depois uma comédia aqui pelo Rio mesmo que respeitado a entropia natural de filmes até se comportou de forma ordeira e organizada.
Com os Meninos em Recife #asalamandra

Lavoro no Rio. #assombroofilme


Assim que terminou o  longa carioca ainda se ensaiava um ano promissor e de muito trabalho apesar de um governo não muito afeito a sétima arte.
Mas aí veio o Corona vírus. Com um governo ainda menos afeito a vida a vaca parece se dirigir rapidamente para o brejo.  
Não sendo possível ir para Cartagena encontrar Fermina me conformo em partir com as crianças para a minha Macondo do momento e me arranco para as bandas de Lumiar.  Desnecessário dizer que recomendo uma "Maratona Garcia Marquez" para aqueles que se encontram recolhidos...
Como atesta a lei de Broken quanto mais tempo tenho para a astronomia amadora e a astrofotografia menos dinheiro eu tenho. E com a paralisação total dos projetos vindouros só me restou contrair um empréstimo familiar para quitar os papagaios do Bradesco, manter o barco acima da linha de flutuação em meio a um momento turbulento do casamento. Sem contar que este ainda serviu como uma medida sanitária contra a corona Vírus. Pelo menos durante o período inicial da quarentena. Nos bons tempos que o ministro da saúde ainda pensava com a cabeça dele.
Desta forma eu, minha filha e meu pequeno partimos. Aporema ser comemorada. Ainda que tardia. E sem cara metade.
Aporema é uma festa astronômico pagã que é usualmente comemorada na primeira lua nova mais próxima aos solstícios e equinócios. É uma história que já contei algumas vezes aqui pelo blog. (aqui, aqui, aqui e aqui.... Somente para citar algumas das vezes).
Apesar da época do ano e da previsão do tempo eu acredito que ao longo de uma semana haverá alguma janela observacional e assim preparo meu plano de ataque. Incialmente pensei em levar o Newton (meu refletor 150 mm f8). Mas acabo achando que o evento seria mais produtivo e a tralha menor se eu fizesse um approach mais astrofotogáfico nesta Aporema. E assim levei apenas o Galileo (meu refrator 70 mm f13) como telescópio. Meus cavalos de batalha serão minhas lentes. Em especial minha Pentax 300 mm. E a 50 mm para as panorâmicas. Com f 1,7 e pouco cromatismo mesmo toda aberta ela permite exposições bem velozes com belos campos. Como montagem levo Mlle. Herschel (Uma Skywatcher 5 pro.). cheguei a pensar em levar apenas a esquecida Hipatia (Uma EQ 2-3 motorizada em um eixo) mas essa eu estou guardando para quando me dignar a escalar a Pedra do Sino para fazer umas fotos.
Chega o momento de escolher os alvos que pretendo fotografar. E descubro que o meu Stellarium não está rodando. Então faltando 36 horas para partida reinstalo a nova versão (0.19.3.1) do famoso programa planetário. Em uma conexão teimando em ser lenta demoro quase duas horas no processo. Já tive uma briga com NET Claro e parece que terei outra.  Na última me deram a seu pacote mais veloz e todos os canais sem acréscimo de preço. Isto depois de muitos gritos e ameaças junto a Ouvidoria. Desta vez não sei o que vão oferecer. Acho que vou migrar para a Vivo com fibra ótica que montou um quiosque na portaria de meu prédio.

Crio uma lista de alvos que gostaria de registrar durante a temporada. É uma prática mantenho. E geralmente não funciona. O caos inerente a um projeto observacional e as diversas coincidências de Adams (coincidências que parecem ser relacionar com leis fundamentais do universo, mas que não tem nada em comum com estas. São apenas coincidências mesmo. Geralmente são responsabilidade mais direta de minha preguiça,
incapacidade e /ou do clima do que das tais “leis fundamentais”) que acabam se acumulando durante as minhas viagens observacionais sempre terminam me levando por caminhos muito distintos o que era planejado e o que é realizado.  Na verdade, as Coincidências e a geometria do espaço geográfico onde fui parar acabaram por me levar a ser relativamente fiel aos planos originais. Pelo menos no que se refere ao horizonte sul. Nuncius Australis de volta as raízes. Uma versão rural e mais agradável da “Stonehenge dos Pobres”.
 Mas como já dizia o livro de autoajuda: O melhor da viagem é o caminho, não o destino.

Com isso em mente e com a seguinte derrota (utilizo aqui emprestado esse termo náutico para definir a lista de DSO´s que pretendo visitar) planejada eu preparo o equipamento.  Estão indo a Canon 18-50 mm que acompanha quase todas as DSLR´s da Canon, minha 50 mm Pentax f 1,7, uma Takumar 70 – 210 mm e a Pentax 300 mm. E o Galileo. Com todas as minhas oculares. Infelizmente esqueço um dos anéis do adaptador T3 no Newton e então o Galileo só servirá para a observação visual. (Olhei a lua com ele uma única vez...) Como já falei Mlle. Herschel me acompanha. No Kit uma fonte de 12 v e uma imensa prolonga de fio paralelo ( 25 m). Nunca esqueça suas extensões. S.ao caras e vc nunca sabe onde estara o tomada mais próxima. Sempre levo também um inversor para poder apelar para o carro .  
Lembrando que a quarentena só vai se tornar algo real em alguns dias de minha partida.  Desta forma parto para Boa Esperança com uma casa provavelmente alugada a partir de quinta-feira 19 de março de 2020. Para já garantir alguma incerteza logo no início da jornada parto para lá na Quarta 17. E assim durmo (eu e crianças) na casa de um amigo um pouco acima no vale enquanto tento contato com o proprietário. Essa foi a noite mais limpa e clara de toda a temporada. E eu em vez de observar passo a noite me embriagando com o amigo e minha filha. Ele garantindo que o presidente não dura até maio e minha filha achando que o Velho é um revolucionário. A Epidemia ainda é algo distante e o lock off só irá se materializar em 48 horas.

Desta forma consigo chegar à bela e charmosa casa na beira do rio no anoitecer de quinta feira. O tempo totalmente nublado. E assim permaneceu até a próxima quinta.  
Com minha Aporema seriamente ameaçada e o equinócio em curso e a quarentena instalada só me restava vaguear sorrateiramente com as crianças pelas vazias cachoeiras da região, fazer churrasco e me manter embriagado. Meu velho professor e sua esposa, bem como seus filhos, decidem se encastelar. Não nos veremos mais até o fim da temporada...
 Finalmente a locadora do veículo me manda um zap avisando que poderei ficar com a carro até o fim do lock off. Isso me acalma. Depois de uma semana (e com a casa alugada por até um mês no pacote) o tempo resolve abrir.
Geralmente observo da Pedra Riscada. Em um terreno com um horizonte livre em todas as direções. Desta vez não vai dar. E assim me preparo para uma sessão de astrofotografia de guerrilha. Bem no espírito de meus vizinhos e de minha filha.  Afinal, depois de mais um pronunciamento desastrado do comander-in chief, fazer a quarentena se tornou um ato de resistência contra a estupidez. Um manifesto de inteligência.
O Alinhamento polar é feito apenas com o auxílio de uma bussola e de um app que possuo no telefone. Chama-se Sun Seeker. Este, em um bom dia, é bem preciso. E se mostra suficientemente preciso para garantir que consiga utilizar um lente 300 mm e obter capturas que se não perfeitas, suficientemente boas para meu bel prazer. Não sou um astro fotografo Caxias e muito menos caprichoso. Astrofotografia é a melhor diversão.

Sirius. A umidade se apresenta.


Na nuvem de Norma moram muitos abertos Ngc 6067 é o mais obvio.

E quando fotografo com minhas lentes, geralmente, utilizo o alinhamento do Go- To usando geralmente apenas uma estrela como referência para o Synscan (menu 1 Star Align). Costuma ser o suficiente. E em um observatório com o horizonte sul sendo o único realmente desobstruído é a melhor opção.
Neste primeiro dia está muito enevoado. E não sei por que cargas d’água resolvo utilizar minha Lente Canon 70-300 mm. Ela tem muito cromatismo. Mas por outro lado consigo fazer wide fields e até mesmo tentar alguns DSO´s maiores sem trocar lente. E assim sendo tenho muita agilidade para caçar alvos entre as nuvens. E de uma derrota planejada acabo praticando um tiroteio as cegas. At´3 que fico feliz com o resultado. A Lua quase nova ajuda.
Dispensa apresentações: M 42 e a espada de Orion.

Finalmente na sexta 27 eu consigo a noite mais limpa possível. Mas com companhia de meu locatário. E assim utilizando o alinhamento polar de ouvido da noite anterior resolvo mostrar a brincadeira para ele (Felipe, capitão bombeiro, e o mais recente arrependido de seu voto. O Corona veio sepultar as últimas esperanças que ele tinha no Capitão Messias). E dessa vez coloco minha Pentax 300 mm F 4.5 na câmera. É impressionante a diferença uma prime e uma zoom. Mas em uma comparação assim próxima no espaço tempo chega a ser covardia. Creio que a Canon 70-300 mm vai ficar mais tempo guardada no case e se dedicar mais a ornitologia daqui para a frente.  
Ao redor dos Apontadores. Alpha e beta Cen.

Ngc 5822 Habita na fronteira do Centauro com Lupus. Interessante em medios telescópios.  fazem parte do "Projeto Tudo que Existe".

Acrux é sempre visitada. Minha estrela favorita. No limiar da separação com a 300 mm.





Ngc 6067

Nesta segunda noite visito apenas velhos conhecidos. A transparência não está uma maravilha e o horizonte sul / sudeste acaba por ocupar a maior parte do tempo. Sendo uma sessão de astrofotografia etílica eu acabo não tentando nada demais. Começo por Sirius (Que está no oeste sudoeste e entre uma coluna de Palmeiras imperiais e um bambuzal) para realizar o alinhamento do Go-To de Mlle, Herschel (minha Cabeça Equatorial Heq 5) depois vago por alguns campos e estrelas bem conhecidos. 
Sirius e M 41 dando as caras entre a vegetação e as nuvens...

 M42 se apresenta e como sempre impressiona o neófito. Depois Eta Carina faz o mesmo. As Plêiades do Sul não deixam feio. Mas pode-se perceber em quase todas as fotos a grande umidade no ar. Halos coloridos e bastante ruído...  Brinco mais um pouco depois que meu amigo se dá  por vencido por um tanto de astronomia e por muita cachaça.  Mas antes disso apresento um dos maiores espetaculos do céu. Acho que , em breve, teremos mais gente com a mosca azul... 
A Grande Nebula de Carina foi a foto que recebeu o tratamento mais refinado do post. É resultado de 15 exposições de 30 seg Asa 1600 - Stacking no DSS e processamento no PixInsight . E depois ainda fez o cabelo no Photoshop.  Pentax 300 mm f 4.5. Ha diversos outros objetos interessantes no quadro. 


Omêgaturo .  Cen 300 mm

Reparem a diferença.... Mesma foto. A de Baixo foi torturada no PixInsight...

Ngc 5617 - Ao lado de Alpha Cen.
Insisto mais um pouco e resolvo fazer um exercício que há muito não praticava. Ver quão fundo eu sou capaz de ir a olho nu. Uma espécie de Apnéia astronômica. E me sentindo um Jaques Mayol celestial vou ficando cada vez mais orgulhoso ao começar a perceber que com algum esforço e anos de treino (embora meio enferrujado) sou capaz de localizar claramente todos os abertos do Catálogo Lacaille disponíveis no momento.  E até mesmo alguns Ngs mais obscuros.  M6 e M7 são muito fáceis. A região nebulosa que compreende a “Guerra e Paz “e a “Pegada do Gato” são facilmente perceptíveis. Entre Centauro e Escorpião nos entornos de Altar e Norma conto dezenas de abertos evidentes.  Imagino que estacione entre magnitude 7 e 7,5. E a noite não está perfeita.  Fico feliz em descobrir que meu trabalho, embora castigue, não está me cegando. Ficar apontando refletores de mais de 10.000 w e controlando a intensidade do sol para garantir que haja pouca flutuação na iluminação de uma cena não ´e exatamente tratar bem da visão...  Mas tenho certeza de que percebi estrelas individuais em M7. E quiçá em M6.  Ômega Centauro é muito fácil e sua natureza enevoada clara com vidro moído. Ngc 6025 quase ensaia uma resolução. E 6067 é tão fácil quanto os Messier. Na verdade, foi a maior diversão dessa Aporema. Junto com M 42. Nada como ficar um tempo de molho para achar tudo mais bonito outra vez.  Nos arredores de Lúpus percebo claramente diversas pequenas nebulosidades que sei tratar-se de aglomerados abertos ( sendo Ngc 5823 o mais evidente). Me sinto um astrônomo renascentista pré-Galileu. 
Plêiades do Sul

No sábado a noite o tempo novamente não colabora.

Domingo é dia de vir embora depois de 12 dias no retiro serrano. Infelizmente rendeu menos do que esperava. Mas as crianças se divertiram e evitamos um confinamento mais severo durante uns tempos.
Agora é hora de voltar para o Rio e sobreviver ao Corona, a economia e aos desmandos do poder. E se tudo der certo retornar para cá lá pelo inverno com saúde, algum dinheiro no bolso e uma perspectiva de um segundo semestre que pague as contas... E fazer uma Aporema mais “strictu sensu”.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

M 98 : Uma Galáxia na Contra-mão


                


         M 98 é alvo de uma disputa entre Stoyan e O’Meara. São estes os dois autores dos que considero os mais práticos guias para se observar o Catálogo Messier. São, respectivamente
, “Atlas of the Messier Objects: Highlights of the Deep Sky” e  “Deep Sky Companions: The Messier Objects”.
            Enquanto Stoyan defende que M 98 empata com M 91 entre as galáxias Messier mais difíceis de serem observadas visualmente O´Mera defende que M 98 é um refresco para os olhos dos observadores com equipamentos modestos que estejam batalhando entre os tênues alvos que abundam na região. Quase de perfil para nós e com um brilho de superfície na casa de 13.2 ela habita ali na zona de transição entre a matéria e a assombração. Mas me inclino em direção de O´Meara na questão. Ainda que discreta M 98 é um alvo mais fácil que diversas das galáxias com a face virada pra nós. Com a vista bem acostumada você perceberá sua natureza facilmente com o uso de visão periférica.  


         Diversas descrições históricas da galáxia nos darão clara ideia do que esperar junto a ocular em função do equipamento utilizado.  M 98 foi descoberta por Méchain em 1781 e foi confirmada por Messier e 13 de abril do mesmo ano. Ele a descreve como “uma nebulosa sem estrelas, de luz extremamente tênue, acima da asa norte de Virgem”.  Já William Herschel fala em “uma grande e extensa bela nebulosa. Sua posição demonstra essa ser a 98 de M. Messier, mas sua descrição indica que o cavalheiro não viu todo o conjunto, pois seus fracos braços se estendem por mais de ¼ de grau... meu campo não engloba exatamente toda nebulosa”. Já Smyth, com seu famoso acromático de 150 mm nos fala em “uma grande, mas bastante pálida... em se fixando a visão ela se acende em direção ao centro.”

     Atualmente gosto muito de utilizar o Lunginbuhl e o Skiff como fiel da balança entre o biônico O´Meara e o mais pessimista Stoyan. Minhas observações costumam concordar com as descrições da dupla no relativamente recente “Observing Handbook and Catalogue of Deep Sky Objects” de 1990.  Eles nos dizem que ela será uma visão interessante mesmo em um 60 mm. Já a percebi com meu 70 mm. É pouco mais que um esfuminho com cerca de 4´ por 2´ bastante tênue e sem indício de núcleo. Os mesmos nos dizem que com um 150 mm a galáxia e seu halo se estenderão por cerca de 6´por 2´ com leves condensações e grão em direção ao centro e percebe-se um discreto núcleo. No Newton (meu Refletor 150 mm f8) com 70X eu tenho uma visão semelhante a isso, mas percebo uma leve textura em uma das bandas. É possível que sejam espíritos de regiões HII onde estejam se desenrolado alguma ação.  
           M 98 é um membro do aglomerado de Virgem, mas tem suas excentricidades. Ela se encontra do lado “de cá” do aglomerado e sua velocidade radial é de apenas 125 km/s.  Ou seja, quase 1000 km/s mais lenta que a velocidade média do aglomerado. Não só isso ela possui blueshift. Ela se aproxima de nós. Isso levou a muitos acreditarem tratar-se de uma galáxia em primeiro plano. Mas atualmente se acredita que um encontro próximo a tenha jogado por esse caminho.  M 98 já foi caracterizada como um objeto transicional e é uma galáxia com características LINER.  Uma galaxia de núcleo ativo. Recomendo que cliquem no link para saber mais sobre esse tipo de galáxia e um tópico bastante interessante na astrofísica...

            Localizar M 98 é basicamente localizar a estrela Coma 6. E depois tirar esta de quadro para que não ofusque a tênue galáxia. Se você está navegando pelo aglomerado de Virgem suponho que já tenha dominado técnicas de Starhooping e possua já sua navegação ensaiada. Um bom dever de casa vai ajudar. Na região você ainda vai encontrar Ngc 4216 e seu tripleto. Uma das galáxias não Messier mais fáceis da região.  Céus escuros são mandatórios para um resultado prazeroso quando se passeando por esta região.

          Todas as fotos aqui apresentadas foram resultado de diversos processamentos utilizando o Deep Sky Stacker para o empilhamento das fotos. Posteriormente as fotos foram esticadas no PixInSight e tiveram alguma cosmética no Photoshop. Todas são resultado de uma captura de 20 fotos com 45 seg. de exposição em ISO 1600. Foi utilizada uma Canon T3 e uma lente Pentax 300 mm f 4.5. Montadas sobre Mlle. Herschel (uma montagem equatorial HEQ 5 Pro.). Foram aplicados 20 dark frames.  

quarta-feira, 29 de maio de 2019

M 88 : Uma Espiral Fácil em Virgem


            

                  Ainda colocando em ordem as Galáxias de Virgem cheguei a M 88.  Esta bela espiral marca o ponto mais a noroeste da Corrente de Markarian. Como já sabemos de posts anteriores o Superaglomerado de Virgem tem seus subgrupos entre seus membros. A Corrente de Markarian é um dos mais conhecidos e é uma das áreas mais conhecidas do aglomerado. Sua imagem é icônica e quase qualquer amador a reconhece. M 88 é um pouco mais afastada da região central, mas é um membro bonna fide de corrente e seu último elo.
M 88 e M 91

                Ela forma um belo par com M 91 e é a mais dada da dupla. Sob céus escuros seu formato de agulha é facilmente percebido mesmo com visão direta.
                Embora existam fontes nos dizendo que M 88 habita a meros 47 milhões de anos luz é hoje mais aceito que esta se encontre há 57,2 Milhões. Uma supernova do tipo I a foi observada nessa em 29 de maio de 1999 pelo Observatório Lick. Em 12 de junho atingiu sua máxima magnitude, 13,4. Bem acessível para telescópios amadores. Como sabemos supernovas são eficientes velas padrão e permitiram refinar a distância de M 88.
                M 88 foi descoberta por Charles Messier na prolifica noite de 18 de março de 1781. Nesta noite ele descobriu sete outros membros do aglomerado (M 84, M 85, M 86, M 87, M 89, M90 e a durante muito tempo perdida M 91. De lambuja o aglomerado M 92 em Hercules).
                Ele a descreve da seguinte forma: “Nebulosa entre duas estrelas e pequenas e uma estrela de 6a magnitude que aparecem no mesmo campo telescópico que a nebulosa. Sua luminosidade é das mais tênues e recorda aquela reportada em Virgo, no 58 (M 58)”.
                John Herschel a seguir nos diz que é “uma brilhante, muito grande, extremamente extensa e precedida por uma nebulosa dupla.”.

                Não consigo descobrir do que se trata a tal “Nebulosa Dupla”. No mesmo campo, em fotografias, percebe-se claramente IC 3476 e 3478. Mas estas são entradas do Index Catalogue (IC)e certamente não foram percebidas por Herschel. Este foi realizado já em tempos fotográficos. É possível que seu registro se deva a Dreyer embora não exista documentação especifica a respeito além do IC em si.
                Smyth discorre e filosofa longamente durante a sua apresentação de M 88 e nos deixa claro a quantas andava (ou não andava...) o entendimento do que viria a ser o Grande Aglomerado de Coma Virgem. Esse é o atual nome do superaglomerado galáctico mais próximo de nós e que, em última instancia, nós habitamos uma das franjas.  Eu, particularmente, acho o texto bastante confuso e sem sentido. E por isso mesmo bastante representativo...
 “Uma longa nebulosa elíptica, no lado exterior da asa esquerda de Virgem. Sua cor é um branco pálido e se alinha de Noroeste para sudeste; e com as estrelas que a acompanham formam um belo desfile. A Parte inferior ou norte, em um campo invertido (Smyth observava com um Refrator sem diagonal...)  é mais brilhante que a sul, uma circunstância que, com sua figura de fuso de tear, abre um grande campo para conjecturas. Esta é uma maravilhosa região nebulosa, e a matéria difusa ocupa um espaço extenso, no qual vários dos melhores objetos de Messier e Herschel serão facilmente captados pelo observador atento em extraordinária proximidade... Raciocinando sobre o princípio de Herschel, isso pode reverentemente ser assumido como a parte mais fina ou mais rasa de nosso firmamento; e o vasto laboratório do mecanismo de segregação pelo qual a compressão e o isolamento são amadurecidos, no curso de idades não-compreendidas. O tema, por mais imaginativo que seja, é solene e sublime.”
                Herschel foi o maior observador de todos os tempos e seu legado é enorme. Mas, definitivamente, sua cosmologia não deixou nenhum legado significativo. 
                M 88 é uma das mais amigáveis galáxias espirais em Virgo para o amador com modestos equipamentos. Inclinada 30o da nossa linha d visada é vista quase de perfil e apesar de sua magnitude de 9,5 ela apresenta um brilho de superfície na casa de 12,9. E assim abaixo dos “Tristes Trezes”. 
O Brilho de superfície é um indicador muito mais confiável que a magnitude quando falamos de objetos extensos.  E se divide da seguinte forma. Existem os “ Pacatos Onze” onde você vai ver detalhes mesmo com visão direta, os “Desconfiados Doze” onde você vai precisar de visão lateral para perceber algo mais que apenas a existência do objeto , os “Tenebrosos Treze” onde você vai começar a precisar de técnicas milenares de respiração e finalmente os “ assombrados 14” onde só com auxílio mediúnico você talvez perceba algo... São  um paralelo Astronômico para o que as latitudes geográficas significam para os Navegadores em geral e as velejadores em particular. Na terra temos os “ Roaring Forties” a partir de 40o  de latitude ,os “Furious Fifties” já quase na altura do Estreito de Drake e finalmente os “ Screaming Sixties” que no paralelo 60  marca o limite norte do oceano antártico e é a volta ao mundo mais curta que você pode dar sem encontrar terra . Só para esclarecer o círculo polar fica a mais 6,6 graus ao sul...
De volta a galáxia mais ao norte da Corrente de Markarian ela se apresentará como um pequeno fuso esfumaçado em um campo onde você poderá perceber ou não M 91 com um binóculo de 15X70 mm. Ela é mais oferecida que sua companheira e como foi dito uma das mais amigáveis espirais de Virgem. Com o Newton (meu refletor 150 mm f8) em 120 X chego a desconfiar de alguma estrutura espiral, especialmente na parte sul que é a mais apagada. Creio que possa ser uma ilusão, mas devido ao menor brilho as partes escuras se sobressaem mais e dão esse efeito. Nas fotos isso é bem evidente. A presença de estrelas enriquece o quadro. Em 240 X a imagem já se degrada e creio que apenas em noites muito especiais consiga obter algo.

A melhor forma(a meu ver) para se localizar M 88 é partir de M 84 e M 86 e depois de estudarbem o caminho seguir a corrente até lá. Navegar pelo aglomerado é uma tarefa para observadores já com alguma prática. Céus escuros e noites de boa transparência serão de imensa ajuda.

M 88 possui um diâmetro físico de 115. 000 anos luz e com uma massa de 250 bilhões de sóis. É uma galáxia Seyfert do tipo 2linhas de emissão nos 5´´ centrais de M 88 indicam um imenso objeto central com sinais de acreção.  Tudo indica que em meio a esse núcleo galáctico ativo habita um buraco negro com massa de 107,9 sóis.
M 88 foi uma das 14 “Nebulosas Espirais” descobertas por Lorde Ross em 1850. Foi um grande passo entre as ideias de Herschel e a constante de Hubble e a expansão do universo. M 88 e M 31 foram peças fundamentais nesse processo.
Muitos autores comparam M 88 com uma versão miniatura de M 31, a Galáxia de Andromeda. É uma excelente referência e há alguma semelhança.   

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Ngc 3201: O Globular Bishop- Thorton e o Telescópio de Dunlop



         Ngc 3201 é um dos mais interessantes globulares que conheço. Visualmente falando é um dos mais cativantes. Cobre uma área grande de ocular e com um brilho de superfície mais baixo que a média não é um oferecido que se resolva a primeira olhadela.
A primeira vez que o observei era noite de lua bem cheia e este tinha aquele aspecto assombrado das coisas que esbarram com o existir. Mas que com um olhar atento este começa a apresentar formas muito além dos esfuminhos arredondados que caracterizam muitos globulares. Neste primeiro encontro, com ajuda de visão periférica, percebi inicialmente o seu existir. Depois que este não tinha a forma arredondada e regular típica da maioria. E finalmente suspeitei de um “v” sobre sua superfície formado por estrelas mais brilhantes. Algo como a barra que caracteriza M 4. Fiquei muito satisfeito com minha visão quando essa estrutura surgiu de forma inequívoca após sua captura fotográfica. Naquela noite eu o chamei de Aglomerado Fantasma por recordar, de certa forma, o ainda mais fugidio Ngc 5897, em Libra e o verdadeiro Aglomerado Fantasma.
Ngc 3201 é um dos “100 de Dunlop”. Lista onde reúnem-se os 100 objetos mais significativos do catalogo organizado por James Dunlop nos anos de 1820. O Globular é uma descoberta original de Dunlop e este o descobriu na noite de 1 de maio de 1826. É a entrada D 445 do já citado catalogo.
“James Dunlop: (maio 1, 1826): Uma bem grande, bem brilhante arredondada nebulosa ,4´ ou 5´ de diâmetro, gradualmente condensado em direção ao centro, facilmente resolvível em estrelas, o formato é mais para irregular e as estrelas são consideravelmente espalhadas no lado sudoeste. As estrelas são também de magnitudes levemente misturadas.”

13X 30 Seg Iso 1600 + 7 darks. Empilhadas no DSS e pós no PixIn Sight-Canon T3 e Newton 150 mm f8
A foto que abre o post foi submetida a 2X Drizzle no DSS.

Como é de se esperar telescópios diferentes e noites diferentes chegam a resultados diferentes. O telescópio de Dunlop era um refletor de 230 mm com uma distância focal de 2740 mm. Ou seja um 230 mm f 12 (F 11, 9 para os mais Caxias). Com um espelho especular. Glen Cozens, Andrew Walsh e Wayne Orchiston, em um paper intitulado “James Dunlop´s Historical Catalogue of Southern Nebulae and Clusters”, apresentam uma interessante equação que permite comparar o telescópio de Dunlop com um telescópio moderno com um espelho aluminizado. Chegam a conclusão que este seria comparável a um telescópio de 160 mm atual. Isto depois de 6 meses de uso. Pela magnitude máxima dos objetos descobertos por Dunlop eu imagino que o Telescópio de Dunlop e o meu “Newton” (um newtoniano 150 mm f8) lutem uma briga justa.
Eu, definitivamente, vejo um aglomerado maior que os 5´ ou 6´ descritos por Dunlop. Algo entre 15´ ou 20´. Mas provavelmente devido a noite clara não posso concordar que o mesmo se resolva facilmente. No mais concordo em gênero número e grau com a descrição do “Astrônomo Cavalheiro de Paramatta”.  Estrelas com alguma variação de magnitude são obvias graças ao” V” já citado. E esparramadas em um dos lados garantindo o formato irregular.
Não bastando seu apelo visual Ngc 3201 é uma espécie de renegado. Um daqueles objetos que parecem caminhar na contramão do universo. Literalmente.
Como nos conta O´Meara em seu “Southern Gems”, um dos poucos guias observacionais dedicados as maravilhas do céu austral, não há “em cima” ou “embaixo” no espaço. Os equivalentes celestiais de norte, sul, leste e oeste são convenções uteis que nos permitem ver as engrenagens de nosso universo. Ao adotar estas convenções permitiu-se aos astrônomos encontrar certos padrões no esquema cósmico das coisas. Por exemplo: a maioria dos planetas em nosso sistema gira em seus eixos de oeste para leste. Mas Vênus é retrogrado. Lá o sol nasce no Oeste e se põe no Leste...  Da mesma forma que alguns renegados parecem andar na contramão no nosso sistema solar existem diversos corpos que correm contra a maré na galáxia. Embora a grande maioria das estruturas girem ao redor do centro galáctico em um sentido há uma minoria que não acompanha o padrão. Ngc 3201 é um dos exemplos mais famosos deste bando de renegados. Quem já viu (e lembra...)  “The Wild Bunch” (Meu Ódio será sua Herança nos cinemas nacionais) vai entender o apelido que dei ao aglomerado. O Globular de Bishop- Thornton.


Ngc 3201 tem uma idade estimada de 16 bilhões de anos (globulares são algumas das estruturas mais velhas do universo) e reside no halo galáctico a 17.000 anos de nós e a cerca de 30.000 anos do centro galáctico. Sendo um globular cheio de detalhas especiais é o aglomerado com a maior velocidade radial conhecida e se aproxima de nós a incríveis 490 km por segundo. Mesmo se removendo o efeito da velocidade do sol ao redor do centro galáctico (lembre-se que Ngc 3201 caminha na contramão...) ainda restam 240 Km por segundo. A velocidade não permite que este escape da galáxia. Mas permite suas excentricidades. Quando falo em excentricidade me refiro ao aspecto humano do termo e não de orbitas. Mesmo que possa. 
Apesar de tantos traços especiais Ngc 3201 continua sendo um globular “típico”.  Não parece tratar-se de um globular capturado por nossa galáxia nos primórdios de sua formação.  Nada também impede que seja o núcleo de uma galáxia anã. Algumas teorias defendem que o halo galáctico inteiro tenha sido formado desta maneira.

Localizar Ngc 3201 não é tão fácil como pode parecer. Primeiro localize o asterismo do falso cruzeiro. Depois localize m Velorum (O topo da Vela) logo a oeste p Velorum. A distância entre estas é uma unidade. Alongue esta linha duas unidades rumo a oeste e você vais estar por perto de Ngc 3201. Em tese ele será perceptível pela buscadora em um local escuro e em noite sem lua. Eu mesmo nunca o percebi pela buscadora.
O seu “v” é uma das estruturas mais marcantes que já percebi em globulares e conseguir nota-lo sem sequer ter resolvido estrelas neste é um desafio observacional extremamente prazeroso. Ele é notável mesmo utilizando o “Galileo” (um refrator 70 mm) com 45 X de aumento.  Começo a resolve-lo com 120 X no “Newton”. Em noites escuras.
Um lindo globular que caminha na contramão. Seu aspecto chamou também a atenção de Sir Patrick Moore que o inclui em sua lista que reúne o DSO´s mais interessantes que não tenham sido descobertos por Messier. O Catalogo Caldwell. Neste é C 79.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

As Crianças , Os Amigos , Os 100 de Dunlop e a Lua Cheia


            
            Como já foi dito por aqui atualmente quase não mais observo da Stonehenge dos Pobres (a.k.a. o observatório mais urbano do mundo). A astronomia observacional sob céus urbanos (Bortle 8 ou 9) é possível e até mesmo indicada para o iniciante. Porém depois de algum tempo os alvos se tornam escassos ou meras assombrações. Desta forma me vejo obrigado a procurar por locais mais escuros. Durante muito tempo o meu posto avançado foi Búzios. Mas mesmo este se tornou muito claro e a arquitetura do local se tonou inadequada. E assim deixei as terras de José Eustáquio rumo a Serra de Friburgo. Debaixo de céus rurais (Bortle 3 ou 4) sou mais feliz. E agora comemoro as Aporemas (um misto de festa pagã, lenda e mentira...)  nos entornos de Lumiar.
                Desta vez a festa não vai acontecer na lua nova mais próxima aos solstícios (ou equinócios) como manda o figurino. Haverá um eclipse lunar e como obriga a geometria estes só ocorrem na lua cheia. E seria um absurdo não o registrar. Parto rumo a serra com a lua já bem crescente.
                Entre os vários projetos observacionais que realizo decidi que devo me concentrar. Com o projeto Lacaille concluído e publicado me decidi por centrar esforços no próximo livro. O Sul Profundo: O Catalogo Dunlop. 
                Quando se fala no céu austral três nomes devem ser levados em conta. Lacaille, Dunlop e John Herschel. Com todo o Catalogo Lacaille registrado e devidamente apresentado o próximo passo lógico é atacar Dunlop. James Dunlop.
                Dunlop é um renegado. Certamente o maior amador de todos os tempos. Sem nenhum suporte ou apoio este “descobriu” mais de 600 nebulosas ao sul do tropico de Capricórnio. Ainda que nem todas tenham sido confirmadas realizou um trabalho magistral e pouco conhecido. Especialmente aqui pela Pindorama. Com um telescópio construído por ele mesmo e sem nenhum apoio ele explorou o céu profundo a partir de Paramatta, na Austrália.
                Meu objetivo é a observar e registrar fotograficamente (nesta ordem) os 100 DSO´s mais interessantes de seu levantamento. Os “100 de Dunlop”. É uma lista organizada por Glen Cozens. Um dos maiores especialistas na história dos céus austrais. Quiçá este se torne os “200 de Dunlop”.
                Desta forma parto para Lumiar com um plano (que como sempre não será seguido e é para lá de ambicioso) observacional. Segundo este devo observar 25 objetos Dunlop por estação. A inspiração é o Guia para os “400 de Herschel” de O´Meara. Neste ele traça um plano para realizara a façanha ao longo de um ano. Acho que vai demorar mais para registrar os 100. No final da expedição visitei os seguintes objetos de Dunlop: IC 2488, Ngc 3201 , Ngc 3114 , Ngc 2808, Ngc 4349 e só... Faltam 96. Na verdade já fotografei e visitei todo o Catalogo Lacaille. Que está contido dentro dos “100 de Dunlop”. Mas é questão de honra revisitar e fotografar tudo de novo nesta nova empreitada. Desta forma são novidade apenas 2808, 3114 (este já apresentado aqui no Nuncius Australis) , 3201 e 4349.

                Depois de muito tempo sem observar partimos novamente eu, meu filho e Newton (um telescópio refletor de 150 mm f8) para Lumiar. Eu vou visitar velhos amigos e céus mais escuros. Meu filho vai encontrar os “amigos Capoeira”. É assim que ele chama os filhos de meu antigo professor de geomorfologia e um dos velhos amigos que vou encontrar.




                Como sempre digo os maiores inimigos do homem e da astronomia são ele mesmo, os amigos e a cachaça. Crianças também não ajudam muito. Desta forma as duas primeiras noites não são exatamente astronômicas. Muitos amigos e muita cachaça. Mas na segunda noite faço um exercício fundamental. Observar o céu a olho nu. Depois que a lua já tinha se posto e em um vale esquecido om Boa esperança passeio pelos céus. Saindo do Cruzeiro e seguindo até Orion percebo quase todo o catalogo Lacaille a olho nu. São velhos amigos também. E sabendo onde buscar todos são alvos fáceis. Durante muito tempo impliquei com O´Meara, que fala em seus livros de diversos DSO´s que são visíveis e mesmo óbvios a olho nu, achava conversa fiada. Não é. Estes se apresentam, mas de um jeito diferente. São nebulosas, estrelas suspeitas ou “algo suspeito”. Mas uma vez se sabendo o que são e onde estão fica mais fácil. O homem é o exercício que faz.
                Finalmente abandono a casa do velho mestre e vou para meu refúgio na Pedra Riscada. Eu e as crianças. Lá monto e telescópio e me preparo para “trabalhar. O céu na região é Bortle 3. Uns poucos domos de luz a sudeste (Sana) e a nordeste (Lumiar). Nada grande. O horizonte sul é bem aberto e a paisagem deslumbrante. Em noites sem lua o N.E.L.M. (uma sigla e um anglicismo. Significa “Naked Eye Limit Magnitude”. Magnitude Limite a Olho Nu.) atinge facilmente 6a magnitude. Em noites sem lua. Não é o caso. 
                Acreditando na sorte faço um alinhamento polar de ouvido. Não funciona. Finalmente decido por um método mais científico e este funciona de maneira impecável. Os objetos que busco sempre aparecem no campo de minha ocular 26 mm. Utilizei Canopus e Betelgeuse para realizar o alinhamento do Synscan de Mlle. Herschel (uma cabeça equatorial HEQ 5).
                De uns tempos para cá tenho percebido que a astrofotografia pode ser um perigo. Me prometi que sempre tentarei ver o que procuro antes de fotografar. Outro dia, “conversando” no Facebook, perguntei a um amigo qual era sua impressão de um determinado DSO visualmente. Ele me contou que não tinha olhado sequer na ocular. Cada um com seu cada um. Mas eu acredito que a fotografia é uma importante ferramenta. Mas enquanto astrônomo a observação visual é fundamental. A astrofotografia não pode ser um fim em si mesma. O registro visual dos céus é fundamental. Mesmo que não seja possível se extrair tanto detalhe é importante se saber o que se vê até mesmo para saber que detalhe se deve buscar extrair. Sob a pena de seu registro fotográfico ser algo de caráter artístico e não astronômico. Fotos com “false color” e quase pinturas acabam por afastar muitos da astronomia. Quando se fala em astrofotografia o prefixo deve ser mais importante que o sufixo. Com o barateamento e a facilidade do equipamento para astrofotografia a preguiça pode se abater e técnicas como o uso de “averted vision” e conhecimentos básicos de ótica podem acabar sendo relegados. O conhecimento da combinação correta de telescópio, ocular e seeing podem ser a diferença entre ver e não ver um determinado DSO. É mais fácil simplesmente acoplar a câmera e depois de uma dezena de exposições obter uma confissão.  Outro risco é o surgimento de astrônomos sem nenhum conhecimento real. Belas fotos são legais mais conhecer evolução estelar é obrigatório...
                Inicio a noite me lembrando que a lua é cruel. Tudo lavado e alvos óbvios quase difíceis. Já disse que o inicio da noite foi desastrado e com um pobre alinhamento polar só observei os DSO´s mais claros. E  fotos eram só rabiscos. Mesmo utilizando comprimentos focais cada vez mais curtos.
                As 11:32 Canopus cruzou o meridiano e eu alinhei o Newton. A lua quase se pondo e finalmente ataquei Dunlop.


                Comecei a noite revisitando IC 2488. Um dos 100 de Dunlop e membro de Lacaille também. Composto de pequenas estrelas é bastante atacado pelo “bafo lunar”. Refiz o registro fotográfico deste que nos tempos do antigo livro foi muito apressado. Muito bacana. Um aberto delicado. E que continua merecendo um tratamento melhor...


                Sigo para uma novidade. Nunca tinha visitado. Ngc 3021. Um globular frouxo e obrigatório. O melhor da temporada. Fico feliz em ter percebido visualmente o “V” ou cunha que se apresenta tão facilmente em sua foto. Visualmente este é desafiador. Me recorda em algo o “Globular Fantasma” em Libra, Ngc 5867. Mas de formato mais irregular, e provavelmente devido a presença da lua, ainda mais tênue.

                Ainda seguindo o plano Dunlop Ngc 2808. Um Globular clássico. Pequeno e denso.

O aglomerado está no lado direito da foto.

                Decido acertar as contas com um aberto no Cruzeiro que sempre me traiu. Ngc 4349. Um dos “100 de Dunlop”. Um aberto bem discreto e ao lado de um asterismo que pode acabar roubando a cena e enganando o caçador. É ,com certeza,  um  alvo do velho projeto “Tudo que Existe”. Nenhum guia observacional clássico ou moderno o aborda detalhadamente. Não resolvi o aglomerado. Em noite mais aprazível talvez consiga . Mas com a lua presente é apenas um esfuminho bem discreto. Nestes momentos a fotografia realmente se apresenta como ferramenta fundamental. Sem esta seria difícil dizer a real natureza desta “nébula”.
                Voltando no tempo e ainda no inicio da noite fiz algumas fotos da lua. Com o eclipse vindo por aí é bacana registrar o andamento das coisas...

                De volta ao céu profundo e ignorando o fato que a lua quase cheia faz estragos mesmo depois de se pôr eu visito o Sombreiro (M 104). A foto fica péssima, mas esta é uma galáxia fácil. É sempre legal visitar galáxias...No visual ela é bem melhor do que se imagina. Sem vergonha.
                Depois tento coisas mais difíceis, M 95 e 96. E algo em Virgem. Fracasso total. O céu apresenta bastante umidade e em noite de lua já quase cheia não consigo perceber as galáxias que abundam pela região.
                   antes que me esqueça fiz uma muito rapida captura de Ngc 3114. ou pelo menos parte dele. 
Single frame de 3114. 

                Já vai 3:00 da manhã e devo dormir. As crianças desmaiadas no quarto e sei que não irão até muito tarde na manhã seguinte. Para piorar o velho professor passou pelo posto avançado e está com um machucado feio na perna. Prometi ver a situação na manhã seguinte e conforme a necessidade o levar até o posto de saúde. E aqui na roça isto tem que ser cedo. Ou não há médico. Sistema de saúde de M...
                A tarde cai uma daquelas tempestades típicas de verão. E a noite há muita neblina. Apresento a lua para alguns turistas e é só o que consigo. Sempre faz sucesso . Especialmente quando você acopla a camera com uma Barlow e dá um passeio por algumas das estruturas mais manjadas.  Uma rápida olhada em M 41 me mostra que seria perda de tempo insistir na missão. desmonto tudo . Mlle. Herschel não está gostando da umidade e nem a Canon. 




                Às vésperas da lua cheia volto para Boa Esperança. É novamente tempo de amigos e cerveja. Na manhã seguinte vou seguir para Friburgo onde irei encontrar a cara-metade e minha filha e torcer para que a noite do eclipse se encontre aberta enquanto comemoramos os 96 anos da bisavó das crianças. 
                Mas isto é outra história.