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quarta-feira, 23 de julho de 2014

Ngc 4463 : Fotografando em RAW

         
          Eu já falei por aqui sobre dois diferentes tipos de piratas.  Um deles é o pirata cavalheiro. Este depois da necessárias grosserias iniciais termina por tomar chá com o capitão do navio pilhado.  Faz um levantamento detalhado do carregamento  que será tomado. Separa o joio do trigo e se demora as vezes dias nesta missão. Acredita na  Síndrome de Estocolmo (Stockholssyndromet em sueco) e trata os saqueados que nem a Patty Hearst.
            E existe um outro tipo. Mais para Atila , o Huno.  O que importa é a contagem de corpos, o saque e o incêndio. Eu , particularmente , me identifico mais com este tipo.
            Quando vou observar gosto de saquear o maior numero de DSO´s possíveis em uma única noite . Sendo viável  fotografa-los para levar como butim. Mas nada de centenas de exposições nem vários filtros. Uma vez  a vítima localizada uma uma rápida inspeção com diferentes oculares,tomar algumas notas e realizar algumas uma dezenas de exposições. Um alinhamento polar é bom. Mas se não estiver lá muito bom também não chega a ser o fim do mundo. O objetivo é obter um registro que permita a identificação da vitima . Mesmo que para isto seja necessária alguma forma de tortura. Importante frisar que o torturado sou eu mesmo. Pode ser necessária varias estripulias no pós processamento das fotos para que o finado tenha sua aparência não muito desfigurada. Assim com alguma pesquisa  (em casos extremos uma visita ao Astrometry.com) atrás de outras imagens do "navio" atacado na web  você identifica a vitima e leva seu butim...
            Desta forma o que pode ser bom para alguns pode ser um M... para outros.
            Sempre escutei que eu deveria realizar minhas capturas fotográficas em RAW.  Isto garantiria muito mais riqueza de detalhes, cores e possibilidades para minhas fotos.
            Os arquivos RAW são o equivalente digital do filme não revelado. Arquivos RAW não são imagens- são uma coleção de dados não comprimidos do sensor da câmera e informações sobre as configurações usadas no momento do disparo. Os arquivos em RAW permite que você tenha muito mais margem para corrigir erros de exposição no pós processamento. Em teoria os arquivos em RAW possibilitam controle total sobre as Imagens.
            Como eu desconfio de tudo que é bom demais achei que já era tempo de eu experimentar algumas fotos em RAW.
            Faria um "tour de force". Primeiro fotos durante o dia. Pegar a bicicleta e fazer algumas fotos no Arpoador. E depois , já a noite, realizar um saque em algum DSO desavisado que passa-se ao alcance dos canhões na Stonehenge dos Pobres (também conhecida como " O Observatório mais Urbano do Mundo).
            Uma vez com as imagens no cartão comecei a perceber que as coisas não seriam tão suaves quanto supunha o artigo da Digital Photographer...
            Como arquivos RAW são como a emulsão de um filme não revelado você deve se preparar para um monte de pós processamento. E vai também precisar de algum programa que possa lidar com arquivos RAW. Como possuo o Photoshop a opção obvia é o Adobe Camera Raw.
            Como cada fabricante possui um RAW " diferente" é necessário ( há outras formas...) converter o RAW nativo de sua câmera. Para tal eu já tive que baixar mais um programa. Adobe Digital Negative Converter.  Este vai  transformar meus arquivo .CR2  (RAW da Canon) em .DNG.
            Calma você continua trabalhando em RAW. DNG é um formato RAW gratuito. E assim "mais democrático". Fosse um software seria open code...
            Em geral arquivos em Raw são de 12 ou 14 bits o que significa eles tem 4.096 ou 16.384 níveis de brilho. Isto permite grande área de manobra para correções e edições. Arquivos JPEG são de 8 bits , o que faz com que tenham apenas 256 niveis de brilho.
            Outra dita vantagem dos arquivos em RAW sobre JPEG é a forma de se lidar com o Ruído. Os algoritmos de redução de ruido do Camera Raw é muito mais poderoso que o do firmware da câmera. Se bem aplicados eles vão superar a redução de ruido que já foi aplicada aos arquivos JPEG . Mas eu percebi um pequeno detalhe. Embora seja possível lidar bem com o ruido através do Camera Raw não é um trabalho trivial. E como o seu arquivo RAW possui muita informação os níveis de ruido podem ser bastante elevados especialmente utilizando ASA muito alta ( como é comum nas fotos astronômicas) .
            Uma vantagem do RAW que realmente me agradou é que este permite "bater o branco" depois do disparo. Isto é bastante útil para se fotografar em condições de iluminação variadas e/ ou artificiais. Nas fotos astronômicas ajuda muito a lidar com os efeitos da poluição luminosa que trás algumas dominantes cromáticas para o fundo do céu e que são sempre diferentes em cada local . Variam dia a dia aqui na Stonehege dos Pobres dependendo de qual porcaria acenderam nas obras do metro...


            Desta forma começa a " peregrinação dos meus frames " capturados em RAW.
A esquerda antes de visitar o Camera Raw. Infelizmente a compressão do Blogger não é fiel a riqueza de cores e detalhes obtidas no original... Nas fotos abaixo o processo é semelhante. As fotos da esquerda são uma cópia da captura como na Camera ( em RAW) e as a direita são o produto final depois do Camera Raw e do Photoshop, Para facilidades na web os arquivos finais são em JPEG . As fotos que mais gosto salvo em TIFF para meus arquivos.

          






                

           
Arpex...



      Primeiro começo com as capturas que fiz no Arpoador. Dia lindo e ensolarado. Definitivamente o potencial das fotos é enorme e os recursos possibilitados pelos arquivos e, RAW se fazem rapidamente notar. Mas também percebo que toda foto implica em uma boa quantidade de processamento e que eu vou ter que treinar bastante para dominar o camera Raw.  As fotos foram feitas com ASA 100 e 400.  Depois do Camera Raw você ainda dá  uma " envenenada" no Photoshop. O ruido é um conceito bastante presente nas fotos em Raw. É necessário ficar esperto para não confundir ele com a detalhe que você consegue extrair tanto das sombras como dos Highlights . E isto com ASAS baixas. Começo a pensar o que me aguarda com as fotos de Ngc 4463. ASA 6400.
            Vamos falar um pouco sobre o nosso saque desta noite ( e sobre astronomia...)  antes de retornamos ao tiroteio entre Raw, JPEG e outros codecs mais... ( este post é sobre fotografia still mas poderia ser sobre cinema. Neste samba se misturam filmes de Piratas, Bang -Bang,  épicos ( Atila , o Huno) , e Documentários...)
Ngc 4463 se apresenta aí claramente. Junto a Ocular de 25 mm você vai perceber inicialmente a dupla central. Com um exame mais atento notara a existência de outros membros. Sob a forte poluição luminosa as outras estrelas demoram a ser percebidas e demandam visão periférica. Esta foto é um crop do modo mean  do Rot n, Stack. Posteriormente foi trabalhado apenas com a ferramenta níveis de Photoshop. 
            Ngc 4463 é um obscuro aglomerado aberto na Constelação de Musca. Ele foi um "navio azarado". Eu tinha saído em caça de Ngc 4609 em Crux. Mas aqui no Nuncius Australis é sempre a "La Raul". Não sei para onde estou indo mas sei que vou no meu caminho. E assim este pequeno aglomerado galáctico com apenas 5´ de diâmetro acabou caindo nas minhas garras. Partindo-se de Acrux  ( Alpha do Cruzeiro) ele é bem próximo e não chega a ser difícil. Mas ele se disfarça bem. Em um desavisado olhar ele se passa por uma estrela dupla. Mas para bom entendor meia ... E ele se revela.






            Em um primeiro momento eu creditava ter localizado o meu destino oficial . Mas por obvias razões eu rapidamente percebi que não seria possível. Pelo Stellarium eu desconfio. E em uma rápida visita ao cartes du Ciel e já de posse de algumas fotos processadas eu identifico o DSO acima de qualquer duvida. Entre as Jóias da Coroa Austral ele seria algo como um pingente sem colar. Ou uma perola solta no fundo da caixa.
             O Saque continua conforme o habito e  observo com a ocular 25 mm. Onde ele é bem discreto. E depois com a 10 mm. Com esta sua natureza se revela de forma mais obvia e permite algumas analises . Não percebo  muita cor  e acredito ser um jovem e distante aglomerado.  Depois de visitar a pagina da WEBDA confirmo minhas suspeitas. As vezes eu acerto...
               Ngc 4463 tem cerca de 7,5 milhões de anos e localiza-se a 11 mil de anos luz de nós.
            Encontrei poucos papers a respeito da peça. E nenhum só dele. Tadinho. Um deles me pareceu interessante e associa o aglomerado a alguma nebulosas planetárias. Mas a fonte eu não digo e não conto.  Como um bônus de minha aventura em RAW creio ter localizado uma obscura Nebulosa Planetária e quase impossível de ser percebida ( Totalmente impossível a olho nu). Por uma daquelas coincidências que nada tem  a ver com as leis fundamentais do universo localizei uma foto que a apresentava. E fui buscar por aquele pequeno ponto estelar levemente enevoado. PK 200 2.1. Na melhor das fotos que consegui acho que a localizei. Com certeza esta no campo Mas tenho 3 suspeitos. E vou fazer que nem o governo prender todos. A foto que a revelou eu coloco no fim do post. Se alguém quiser tentar a sorte ... Não espere nada mais que uma tênue estrela. Para percebe-la como uma nebulosa planetária é necessário um telescópio grande e magnificações superiores a 400 X.   
            De volta a fotografia. Fiz 22 fotos com 13 segundos de exposição. A captura foi realizada em um pequeno intervalo que a casa estava vazia e assim o alinhamento polar deixou um pouco a desejar. Simplesmente coloquei o telescópio aonde eu achei que devia e fiz as fotos. Nem um chute foi dado no tripé...
            Escolhi uma que apresenta-se menor drift e depois de passar pelo DNG e o camera RAW salvei um arquivo JPEG ( o PS não salva arquivos em RAW ou DNG) para fazer uma visita ao Astrometry e garantir a identificação.
            Problemas . Os níveis de ruido e a péssima qualidade da captura levam a repetidos fracassos por parte do programa do site.
            Vai dar trabalho...
            Capturar imagens em RAW em astro fotografia pode ser bom para os puristas. Eu rapidamente percebi que com a quantidade de fotos envolvidas isto não serviria para minha paciência "Atiliniana". Pelo menos descubro que é possível tratar todos os arquivos no Camera RAW ao mesmo tempo. E assim ajustar o balanço de branco e outros bric-a-bracs  ( No caso só a exposição ) em lotes. Bem como nomear e salvar estes arquivos.
            O problema é que mesmo tendo brincado com o nível de ruido no Camera Raw estes continuam bem altos. Com longas exposições e ASA muito alta a coisa fica feia em RAW. E eu não tenho total dominio sobre os tais poderosos logaritmos do programa.
            Desta forma o Deep Sky Stacker começa o seu show e eu, já de saco cheio , prefiro utilizar o Rot n´Stack. Para isto preciso transformar todas as fotos de DNG em JPEG. 22 fotos... E depois passar todas estas no Noiseware... Aiiii!!! ( Na verdade o Rot n, Stack consegue alinhar todas elas sem este procedimento. E í você só precisa passar pelo Noise depois de alinhar as fotos. O Deep Sky é mais exigente.)
            Mas depois de empilhar as fotos e realizar a já tradicional peregrinação de frames pelo Rot n´Stack ( ou Deep Sky Satacker) , Noiseware (este me pareceu muito mais fundamental para a realização da operação quando trabalhando em RAW) ,Iris e Photoshop  consigo obter alguns resultados razoáveis.
 Depois foi só apresentar os resultados ao Astrometry e confirmar o que eu já sabia.
          











        Abaixo uma série de resultados obtidos através de diferentes caminhos. Os programas empregados em cada um dos resultados. Todos eles tem como ponto de inicio as imagens capturadas em RAW em uma Canon T3. O telescópio utilizado foi o Newton ( refletor newtoniano com distância focal1200mm / f8)


Um mal resultado para muito processamento. Depois de ter todos os 22 frames alinhados No Rot n, Stack escolhi o modo Sort ( o mais pirotécnico mas também o que captura mais detalhes) e retirei a vinheta e o gradiente ( enorme...) de fundo com o Iris. Posteriormente trabalhei os níveis , contraste e brilho no Photoshop CS5. Por fim Noiseware para reduzir o ruido...
Este é o modo minimo do Rot n´ Stack. Seu algoritmo reúne os pixels de menor intensidade encontrados nas fotos alinhadas. Ao contrario do que possa parecer isto tem suas qualidades. Como seu olho não é um sensor e nem possui pixels a imagens obtidas por este modo são sempre as que mais se aproximam do que você vê na ocular; e sem precisar de visão periférica. 
Desta vez o Modo Maximo do Rot n´Stack. Este reune os pixels mais brilhantes das fotos alinhadas. Eu fico imaginando que estou no capo e que a obra do metro acabou. Nesta foto ainda dei uma incrementada no contraste no Photoshop CS5.



Modo sort. Pirotecnia em ação. Mas as vezes ele revela alguma coisa que não seria possível sem tanta loucura. Me lembra sempre de Pollock...


                    
             Como eu disse no inicio do texto existem dois tipos de piratas  , provavelmente mais, e cada um age de uma forma. Da mesma forma existem diferentes astrofotografos. No meu caso capturar imagens em RAW pareceu-me uma péssima idéia. A necessidade de horas de pós processamento e o uso de diversos programas e rotinas não serve para mim. Mas compreendo quem as faz. Minhas pretensões fotográficas são modestas. Apenas um registro . De preferência semelhante ao que observo pela ocular. Realizando minhas astro fotos em JPEG eu consigo isto ( na verdade consigo mais que isto...) e economizo muito trabalho. Com relação a 4463 eu duvido que alguem perceba alguma diferença entre a captura em RAW ou JPEG. Um céu escuro e exposições mais longas serão a única coisa que poderá
revelar mais detalhes. Ou um telescópio mais poderoso. Ou do Deep Sky Stacker...

             
               Posteriormente consegui me entender melhor com o Camera Raw e melhorando o Ruido nos originais consegui que o Deep Sky Stacker se entende-se com o material; Este é definitivamente mais poderoso que o Rot n´ Stack. depois de algumas manobras e ajustes ele acabou aceitando os 22 frames e como é praxe gerou um arquivo Tiff de 32 bits e outro de 16 bits. Com a utilização de 5 dark frames fabricados as pressas o resultado foi surpreendente. E quase igual utilizando como matriz a captura em RAW como o material previamente convertido em JPEG. Abaixo o resultado antes e depois de um ajuste de Níveis no Photoshop CS 5. Levando em conta o material com tudo começou só me ocorre uma palavra. Milagre... A tecnologia ainda nos fará Deus ( tenho estado as voltas com Espinoza e muito filosófico nos últimos dias...)



     22 X 13 Segundos + 5 dark Frames . Alinhados no DSS.         
       
Novamente o ruido junto a parte mais brilhante da foto . Mas com resultado bem melhor que no périplo da foto do Rot n´Stack que passou pelo Noiseware, Iris , Photoshop e Camera Raw. E esta foto não foi ao Noiseware... . E nela creio ter localizado PK300 ( na de cima também). Na verdade o ruido nesta foto aumentou muito na compressão do Blogger. Ela é melhor ao vivo. Aqui eu prefiro a de cima.
   

         Quanto a fotografia do cotidiano o uso de RAW me agradou muito. As potencialidades de cor , brilho , efeitos e de edição em geral são enormes. Pretendo me aprimorar no uso do Camera Raw. Por enquanto creio que o firmware da camera que é aplicado aos arquivo JPEG é mais competente que eu pra lidar com o ruido das imagens digitais.

            Acho importante ainda frisar que certos DSO como nebulosas e galaxias devem se beneficiar mais da captura em Raw. Estas apresentam mais riqueza de cores e brilho que o discreto Ngc 4663. Este , especialmente, não apresenta características que justifiquem a trabalheira de se capturar em RAW.
            Acredito que "piratas' mais pacientes e dedicados podem se beneficiar enormemente dos recursos que a captura em RAW permite. Eu voltarei ao bom e velho JPEG. Uma outra razão de me apegar a este mal habito é poder trabalhar com arquivos bem menores e a facilidade de trafegar com este material pelo Blog. Em ultima instancia o material aqui apresentado é sempre em JPEG. E sempre terei os TIffs gerados pelo DSS em algum lugar...  

            E também continuo acreditando que binóculos 15X70 dispensam o uso de tripés...

            Astrofotografia é a maior diversão. 

          P.S. Mais diversão...  Para quem quiser brincar de jogo do erros segue a foto que indica PK3 300 2.1 .  Existe poucas imagens disponiveis na web de 4463. .  


Localizei esta foto em http://www.surastronomico.com/ mas ele não apresenta os créditos. 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Milagres na Pascoa e Astrofotografia

               
  
           
                 2014 começou  cinzento. O primeiro feriado grande do ano foi a semana santa. Este ano uma semana santa sem grandes razões para se comemorar. Minha sogra faleceu de uma forma bastante repentina e de um mal sem cura.
                Nunca fui um homem de muita fé e menos ainda de igreja. Somente fui em missa de  sétimo dia e olhe lá... Mas a vida nos reserva surpresas.  E assim fui pela primeira vez a uma missa de um mês de falecimento .  Por uma coincidência  calhou de ser na Quinta Feira Santa.   Percebi logo que era uma missa diferente. Havia mais padres que o previsto e uma mesa com varias cadeiras   próxima ao altar.
                Antes de começarem os trabalhos fui interpelado por um dos padres. O mais jovem deles. Como já disse haviam vários padres cercando o altar . Parecia até um conclave. O jovem de batina me perguntou se eu poderia ser um dos apóstolos  e percebendo que o rapaz estava com um problema de quorum ( havia muito poucos homens na igreja)aceitei o convite sem muita convicção.. Não  entedia bem o que aquilo significava  e achei de bom tom ajudar.    Não queria tumultuar a missa de  um mês do falecimento da mãe de minha esposa.
                Já havia percebido que a liturgia do evento  era bem diferente das missas que já fui. Mas como nunca tinha ido em uma missa de um mês achei que poderia ser assim.
                O padre inicia os trabalhos e explica que embora a missa fosse relembrar a sogra era também uma missa importante pois a partir daquele momento a igreja começa a celebrar Semana Santa. Aquele serviço era importante de alguma forma para religião católica e eu continuava inocente puro e besta. A missa era meio cantada apesar de eu achar que o padre não tinha nem ritmo e nem tom.  Depois de duas leituras ( o que já era bastante atípico para pagão aqui) o padre inicia a homilia. E pelas imagens que são projetadas em um monitor percebo que algo ia muito mal. Estava lá a imagem de Jesus lavando o pé de Paulo (ou seria Pedro...).
                Caiu a ficha. Era a tal missa do Lava-Pés. E o meu pé era um dos que ia ser lavados.
                Abateram-se terríveis duvidas teológicas sobre a minha pessoa.
                Estaria eu com muito chulé?
                Será que cortei as unhas no ultimo mês? 
                Minha meia seria apresentável?
                Em respeito a minha sogra prefiro calar sobre minha incertezas e vou em frente. Senti  uma certa pena do padre mas nada a fazer. Achei melhor também não contar a ninguém sobre o fato de  que nunca fiz a primeira comunhão.  Mas se entendera algo da Homilia  o padre disse  algo sobre jesus ter falado a   Simão Pedro ( ou seria Paulo?) que bastava   este já  ter molhado a cabeça e que por isso ele não era necessário uma lavagem completa...  Eu fora batizado pouco tempo depois de nascer. Reza a lenda que fazia tanto frio que o padre esquentou a agua benta... Fui batizado com chá .
                Devido a severa dieta que o meu médico me receitou me encontrava quase em jejum. Depois de ter os pés lavados me achava quase um santo...
                Na manhã seguinte  opero o meu primeiro milagre. Convenço minha esposa a ir até Búzios no Sábado de Aleluia
                Desta forma  terei a chance de fazer um ataque ao reino das galaxias em Virgem. E também dar uma olhada em Júpiter , Marte e Saturno aos quais ainda não havia visitado este ano.
                Lógico que não poderia ser tão fácil. O Carro vai abarrotado e não tenho a chance de levar o "Newton" comigo. E imbuído de muita fé resolvo realizar um ataque a mais difícil das sequências do Catalogo Messier levando apenas o  meu 15X70. Já tinha lido ( provavelmente em algum livro do Phill Harrington) que se não todas as galaxias do catalogo que residem em Virgem  são acessíveis a este equipamento pelo menos um grande numero se encontraria ao meu alcance.
                Claro que também quero fazer uma fotos. E assim resolvo levar um Set Up que coubesse no veiculo. A Cabeça EQ 2-3 com apenas o motor de RA. e a Câmera com sua lente normal ( 18-55 mm) e a tele (75- 300 mm) .. Descobri há algum tempo que é fácil adapta-la a cabeça equatorial usando o bridge plate de meu tripé fotográfico l.
                Como sempre a chegada em Búzios vira uma festa e eu acreditando que o céu seria limpo para sempre deixo para o dia seguinte qualquer tentativa  de observação... Afinal estou abençoado.
                 Pouco tempo depois  uma garrafa de Cousino Macul  e  uma zurrapa mais barata estou mais para possuído.   Nada de astrofografia. Os resultados da vinhaça são evidentes nas fotos abaixo...



                Domingo de Pascoa  amanhece bonito e tudo parece que vai dar certo. De manhã escondo os Ovos das crianças debaixo de um sol radiante. No fim da tarde nem tanto e a noite não se vê nem uma estrela no céu. Começo a achar que deveria ter contando a padre sobre a Primeira Comunhão...
                Segunda feira e acordo bem cedo. A cobertura de nuvens embora não tenha se dispersado parece que vai dar um alivio. Vamos todos para praia.
                Apesar de nuvens cercando todos os horizontes eu acredito ( momento de fé...) que conseguirei  fotografar algo e assim alinho a cabeça e monto o câmera sobre os badulaques. Um rápido alinhamento polar e tudo certo. O céu começa a escurecer e com este ainda bem claro Júpiter e Sirius se acendem quase simultaneamente.
Júpiter ainda de dia...
                 Betelgeuse logo após e pouco depois percebo Marte nascendo por entre as palmeiras do jardim.

                Existe muita nebulosidade onde não há nuvens. Percebo que as galaxias de Virgem se afastaram ainda mais. E olha que elas estão a mais de 15.000.000 AL de nós. Não vou ver nem M87...
                Mas começo a fazer  diversas fotos com a 18- 55 e apesar dos resultados mais artísticos do que astronômicos percebo que sera possível tirar leite de pedra...
                Brinco com Órion. Depois em algum lugar entre Virgem e o Corvo. 
Órion


Lost in Space.  Algum lugar entre Virgem e Corvo...

                Já com  céu mais escuro  pego o 15x70 e faço um tour pela via láctea e assim percebo diversos aglomerados abertos velhos conhecidos. Um amigo mais recente ( Ngc 4103) aparece para o "Pau de Dar em Doido" ( meu binóculo) de forma discreta e percebo que a transparência é muito pouca. Mas não me dobro. Troco a lente da câmera e parto para maiss fotos.
                Não posso deixar de registrar Marte e Spica dominando o Horizonte leste. E arrisco alguns tiros aleatórios pela região de Virgem . Vai que acontece um milagre e o sensor da Cânon registra uma das galaxias que tanto planejei... 
                Não acredito em milagres e nem em bruxas "mas que las hay las hay".
                Depois de processar algumas imagens feitas um pouco mais tarde   eu percebo (em todos os modos do Rot n´n Stack) uma nebulosidade abaixo de Marte. Parece uma galaxia. Depois de uma rápida pesquisa no Cartes du Ciel descubro que a posição é extremamente próxima de Ngc 4883. É uma galaxia bastante escura. Mas que em tese seria viável para uma série de exposições de 30 seg. com o diafragma em F4,5. Lentes fotográficas são muito claras.  Fosse eu mais crente sairia por aí gritando:
                 -É Ngc 4843!
                 Vou na onda pois afinal estamos na  Pascoa e existem registros históricos de gente voltando dos mortos durante o período. Uma obscura galaxia de 13a magnitude e nas bordas do aglomerado de Virgem  e a mais de 20.000.000  de anos-luz mostrar sua cara depois de muito pós processamento   não seria razão para minha canonização.   Nos modos mais discretos do Rot n´Stack a galaxia é apenas uma pequena condensação. Já no "Modo Pirotécnico" ( Sort Mode) do programa ela se apresenta claramente como uma galaxia em espiral. Depois de alguma pesquisa o formato dela bate com ao da Galaxia descoberta por William Herschel ( S0-a) . Sua posição parece um pouco fora de esquadro com o Cartes do Ciel . Mas isto acontece com uma certa frequência. Milagres são exercícios de fé. E assim me dou por satisfeito com a suposta captura.  


Modo Max do RnS e mais contraste com o PhotoShop CS5


                      De qualquer forma Marte e Spica formam uma bela imagem... ( Foto de Abertura do Post)
                Com  um velho refrator  sem buscadora e mirando com cuidado enquadro Saturno que vai nascendo. É sempre bom para apresentar algo para os incautos que ficam curiosos sobre o que você esta a fazer em vez de estar comendo churrasco.  Saturno sempre deixa os leigos de queixo caído e eles até acham você um cara legal .
                Descubro ainda que a Barlow Starwatch  mais a Cânon e o velho refrator Celestron não conseguem chegar a um acordo sobre o foco . E assim continuo frustrado como um astro fotografo planetário. Esta leva o dúbio título de   "A Pior Foto de Todas as Fotos Ruins que já Tirei do Senhor dos Anéis".
                Resolvo me voltar para o Sul e fazer fotos da Via Láctea . Algumas utilizei acompanhamento . Outras não. Os resultados foram os mais diversos.
As nuvens tomam um ar mais dramático no Rot n´ Stack. Não estava tão ruim assim... A região é uma das partes mais bonitas da Via Láctea. Entre o Cruzeiro e Carina. É possível perceber diversos DSO´s.  ( Modo Max do RnS)
11 exposições de 20 sec Lente 18-55 mm. Com acompanhamento.



                A grata surpresa é que brincando pelo Centauro consegui ( ainda que de forma bem discreta) registrar uma galaxia. Centauros A se apresenta discreta mas evidente para o C-Mos da Cânon. Acima de Omega Centauro. Apesar de nenhum acompanhamento acabei por registrar uma galaxia. É incrível o que câmeras digitais podem fazer. Mesmo com set ups bastante modestos.   Centauros A não é uma galaxia difícil de se localizar . Mesmo com o meu 10x50 mm ela se apresenta como uma pequenina condensação. Muito semelhante ao que percebo na fotografia.  Como 15X70 ela é bastante evidente embora ainda pequena.
10 exp. entre 20 e 30 seg. com Asa 3200.  Lente 75-300 mm . Sem acompanhamento.

                Centauros A ou Ngc 5128 são o mesmo ente cósmico. Dona de múltiplas personalidades é também C 77 no catalogo Caldwell. É uma das galaxia mais estudadas do hemisfério Sul. Ela esta passando por uma colisão e canibalizando uma outra galaxia em espiral. O resultado é que a mesma se torna uma galaxia lenticular. É a 5 galaxia mais brilhante do céu.  Possui um núcleo ativo fruto de um buraco negro super massivo que devido  a colisão tem muita comida a disposição...  Graças a  esta super alimentação ela se torna também uma radio galaxia arrotando em Raio X . Um objeto de grande valor cosmológico e ao alcance de quase qualquer instrumento ótico.   Com múltiplas exposições e uma moderna câmera digital seu registro não me classifica nem para coroinha...  

                Já bem mais tarde e com a luzes apagadas o horizonte sul dá uma" clareada". E em uma rápida inspeção com o "Pau de dar em Doido"  ainda sou recompensado pela minha fé e obstinação e consigo avistar M4 e fechando a noite M 83. A galaxia do Catavento Austral. Provavelmente o objeto mais difícil de meu querido catalogo Lacaille e também a primeira galaxia a ser avistada fora do grupo Local.
                Terça feira monto novamente o set up de viagem. A Canon com a 75-300 mm sobre a cabeça equatorial motorizada. A noite parece perfeita e a transparência melhor. Vou ao banheiro e quando volto Newgear  ( o do Paradoxo de Newgear...)resolveu me visitar. Finas nuvens se materializaram do nada e não há mais estrelas no céu. Insistente que sou  tento fazer algumas fotos por entre nuvens. Os resultados são mais artísticos que propriamente astro fotografia.  Acho que a terça feira foi mais para Andy Wharol que para "Starry Night".

Júpiter




Marte Anêmico.





                Foi uma Pascoa bem diferente e Astrofotos diferentes também.
                Astrofografia é a melhor diversão.



terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Ngc 2070 : A Nebulosa da Tarântula e Outros Amigos

            



             Após muito tempo sem poder me dedicar aos meus tão amados D.S.O´s (um anglicismo e uma sigla: Deep Sky Objects) eu finalmente tinha a chance de tentar a sorte com um dos poucos objetos descobertos pelo meu tão caro Abbe Lacaille que eu ainda não tinha fotografado. Ngc  2070. A Nebulosa da Tarântula. 

A foto que originalmente abriu  este post. A que abre atualmente é resultado de uma captura posterior e de um processamento bem diferente. O PixInSight combinado com o DSS apresenta resultados melhores que os que obtia nos primórdios...

 

            Localizada na Grande Nuvem de Magalhães, uma das galáxias mais próximas de nós no grupo Local, ela é um objeto fácil de perceber-se de locais mais escuros que o Rio de Janeiro. Na verdade a GNM é facilmente percebida a olho nu de ambientes rurais. Sua presença tão óbvia que seus registros remontam a Américo Vespúcio no ano de 1503. Mas os registros de Magalhães em sua saga pelos mares austrais levaram a melhor e este acabou por ter seu nome eternizado no firmamento. Vespúcio por sua vez desbancou Colombo e teve seu nome eternizado em forma de continente... 
           
            Ngc 2070 é apenas um dos DSO´s ao alcance de meu querido " Newton" (meu refletor de 150mm) que habitam a GNM.                             . 
           
      Mas como continuo com o "Projeto Lacaille" e assim devo fotografar todos os membros do catalogo realizado pelo abade francês em seu levantamento dos céus do sul realizado entre 1751 e 1752 na Cidade do Cabo "ela" (A Tarântula) seria meu alvo primordial na caçada desta noite.
           
             De lambuja eu levaria para casa mais algumas presas intergalácticas. 

            A Nebulosa da Tarântula é extremamente brilhante (em céus muito escuros e por volta do sec.XVI) e devido a isto foi inicialmente confundida por uma estrela.. Daí seu nome 30 Dourado. Evidentemente que a GNM mora dentro das fronteiras da constelação de Dourado.
            Também conhecida com Bennet 35 a grande Nebulosa da Tarântula dispensa comentários sobre a razão deste apelido.                        . 

            Tarântula é na verdade uma coleção de DSO´s com Ngc 2070 sendo o coração da mesma. No centro da mesma reside o aglomerado R 136 onde foram recentemente descobertas algumas das estrelas mais maciças conhecidas no universo. Algumas (suspeita-se...) com mais de 200 massas solares               . 
           
            Situada aproximadamente a 190.000 AL de nós a nebulosa se espalha por entre 600 e 700 anos luz em diâmetro. Reza a lenda que fosse ela tão próxima quanto a Nebulosa de Órion  lançaria sombras na noite...                       
           
            A nebulosa lança longos braços de gentil nebulosidade rasgada por canais mais escuros e um núcleo extremamente brilhante ( R 136). 
             É uma região HII e uma das áreas de mais intensa formação estelar conhecidas no universo próximo.

            Foi nas bordas da Tarântula que explodiu a Supernova 1987. Foi uma explosão titânica e deixou provavelmente uma estrela de Nêutrons de recordação... A estrela Sanduleak -69o 202 brilhava com magnitude 11.7 antes da explosão. Explodiu com a força de de 100.000.000 de sóis e brilhou 2000 x mais forte que antes. Ainda que atualmente brilhando 1.000.000 de vezes menos que em sua glória ela começa a apresentar ecos de luz que começam a mostrar seus arredores... 
           
            Star hopping no Rio de Janeiro não é para impacientes ou fracos de espírito. Em geral você tem que começar bem longe de seu destino o e contar com a pratica e a sorte para achar seu destino final. Não poucas vezes mirei no que vi e acertei no que não queria ver.                                    . 
           

           

           
              Meu caminho até Ngc 2070 começa em Canopus. ( a Carina) e com esta centralizada na ocular eu calculo um pulo de cerca de 13 graus para o Oeste e assim espero estar por perto de b Dourado. Após diversas tentativas acredito estar com a segunda estrela centrada na Buscadora. E assim partir par a ocular. Estou usando minha Plossl 25 mm e depois de um ensaio realizado no Stellarium calculo os movimentos que me levarão até a Tarântula... Ela não será visível pela buscadora em tempos de obras faraônicas ao pé do Observatório mais urbano do mundo... Antes das obras do metro eu conseguia percebe-la ainda que de forma discreta em minha 9x50 mm. 
            Claro que a lua já vai em seu primeiro quarto. Afinal porque tentar o que é fácil...
            Partindo de b  devo localizar d Dourado e desta dar um pequeno salto para Ngc 2070. Utilizando-se uma ocular com cerca de 1 grau de campo de visão a tarefa exige um pouco de paciência e concentração. Após algumas tentativas , sempre voltando até b eu acabo com a Tarântula centralizada e com diversos DSO´s extra galácticos escondidos no campo. Nenhum deles é tão evidente quanto 2070 e só percebo (com visão periférica) Ngc 2100. Os outros DSO vistos nas fotos são fruto da sensibilidade do sensor e de muito pós processamento das imagens obtidas          
70 EXP DE +- 10 SEG - Canon T3 refletor 150 mm. Rot and Stack + PS CS 5+ Noiseware - imagem ampliada e cropada posteriormente no PhotoShop
. 
           
            Realizei cerca de 70 exposições com diferentes tempos e diferentes asas. O grosso do caldo consiste de exposições de 10 segundos com asa 3200. Foram utilizadas também no empilhamento cerca de 12 fotos feitas com exposições de 15 segundos e ainda algumas de 10 seg. e 15 segundos com asa 6400. Deste samba do crioulo doido obtive melhores resultados utilizando o Rot and Stack que o Deep Sky Stacker. As fotos sofrem de um foco bastante soft e o RnS é mais "pé de boi" e lida melhor com as capturas desastradas que são uma marca registrada no Nuncius Australis.  A foto que abre este post foi realizada depois do post original.  E é resultado de algumas dezenas de exposições de 20 seg. com asa 3200. Fotos realizadas em Búzios em condições bem melhores que as originais. O DSS , o FITSWORK  e o Photoshop foram utilizados no pós-processamento

            .           Astro fotografia é a melhor diversão e alinhamento polar é algo muito chato de fazer-se a sério.                       . 
           
            Foi  ainda utilizado o Photoshop CS 5                  .                   
           
            As fotos demonstram a riqueza que a GNM apresenta facilmente em ambientes bem escuros. Sempre me recordo de um passeio pela mesma que fiz de um lugar longe e escuro. E utilizando apenas meuquerido "Pau de dar em doido " (meu binoculo 15x70mm). 

            Existem diversos DSO´s no campo desta foto.        
Os DSO´s destacados (além de 2070) são apenas os mais faceis de serem visualizados . Mesmo assim não espere moleza em areas urbanas.
      . 

           
            Ngc 2100 é um aglomerado aberto. Tem cerca de 15 milhões de anos e esta localizada a aproximadamente 163.000 AL. Embora seu formato 
as vezes nos confunda com um globular trata-se de um aglomerado aberto bastante denso 

Ngc 2074 é um aglomerado aberto com nebulosidade envolvida. É uma descoberta de John Herschel 
(O Filho).                              . 

            E por fim 2080 é outra região H II de intensa formação estelar também conhecida como Nebulosa cabeça de fantasma ( Ghost Head Nebula). Outra descoberta do filho de Sir William Herschel. 
           
            Na foto ainda podemos perceber de forma discreta diversas outras formações. E apesar dos pesares confirma-se a minha suspeita de que só não vê nada no céu quem não tenta.

               Alguns devaneios:
- Nunca pendure o controle ou o batery pack do motor drive na sua cabeça equatorial.
-O Auto dark frame do RnS é verde...
-O uso de um dark frame capturado por você melhora o resultado. Mas ele tem que ser salvo em PNG.
- O Deep Sky Stacker é um programa cheio de manias...  



Abaixo varias fotos e diferentes resultados....
Modo Mean do RnS

1 exp. 15 segundos asa 3200

Modo sort do RnS com auto dark frame