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terça-feira, 15 de maio de 2018

M 68 : O Globular do Corvo


            


       O Catalogo Messier possui 29 aglomerados globulares. Há anos venho buscando fotografa-los. Devido a aquelas coincidências que nada tem com as leis fundamentais do universo (coincidências de Adams) M 68 acabou sendo o antepenúltimo destes que fotografei. Curiosamente foi um dos primeiros que observei. Ao contrario do que Messier nos diz em seu catalogo eu acho M 68 facilmente visível e graças a sua posição em relação as estrelas de Corvus facilmente localizável. Mas o tendo observado diversas vezes tinha como certo que já deveria ter fotografado o mesmo. Ao organizar minhas fotos descubro que não era verdade. E desta forma este que é um fácil aglomerado globular acabou sendo capturado em uma noite fria e nebulosa onde quase tudo deu errado. Mas como aqui no Nuncius Australis mais vale a captura que a foto propriamente dita chegamos ao ponto onde nos encontramos agora.

            M 68 carrega ainda uma outra coincidência consigo. Ele é o último objeto incluído na segunda parte do catalogo Messier. Este na forma que foi publicado possui 103 entradas e dividiu-se em 3 fases. Sua primeira versão (da qual sou o orgulhoso proprietário de uma cópia digitalizada) é de 1771 e foi publicada nas Memoires de l´Académie de Sciences de 1774. (Objetos de 1 até 45). A segunda parte é de 1780 e foi publicada no mesmo Memoires só que desta vez na sua edição para o ano de 1783. Incluindo aí as entradas de 46 até nosso querido M 68.  Sua ultima etapa foi publicada no Memoires de 1784. Que acaba em M 103. Postumamente foram incluídas as entradas de M 104 até M 110.

            Como disse Messier o considerava um alvo difícil: “9 de abril 1780 – Nebulosa sem estrelas abaixo do Corvo e da Hidra. É muito tênue e difícil de se perceber com os refratores; próximo a uma estrela de 6a magnitude.”

            A primeira vez que observei M 68 foi com o “Galileu” (um refrator de 70 mm f13). Estava na Armação dos Búzios. Embora não se resolva e seja apenas um esfuminho é bastante evidente e revela sua identidade mesmo para uma buscadora 8X50mm.

            A “paternidade” de M 68 é alvo de alguma disputa. Glyn Jones nos diz que foi Méchain seu descobridor. O´Meara também assim o diz em seu "Deep Sky Companions: The Messier Objects" Mas a maioria dos autores garante ser este um “Messier Original”. Este sempre deu os créditos nas descobertas de seu grande colaborador. 

      Herschel Pai (William) fala de um aglomerado bem concentrado sendo como sempre o primeiro a resolver os globulares de Messier. Já Herschel Filho (John) diz resolver este facilmente. Entre os guias mais clássicos de todos (Smith e Webb) também há conflito. Enquanto Smith parece apanhar do clima inglês e nos dizer que só percebe “uma nebulosa grande, arredondada e muito pálida” seu conterrâneo e contemporâneo e em geral mais modesto reverendo Webb fala em “bem resolvido” e de uma estrela rubi... M 68 pertence a classe X de concentração de globulares. Portanto mais para um aglomerado pouco concentrado do que para um muito e insolúvel grupo de estrelas muito espremidas.
Drizzle. 


            Observado com o Newton (me refletor de 150 mm f8) com 120 vezes de aumento eu pendo para o lado de Webb. Mas não resolve sua parte mais nuclear. Percebo estrelas no terço exterior do mesmo e nenhuma cor. Na noite que este foi fotografado as coisas estavam bem ruins e neste caso a descrição de Smith seria mais apropriada.

            M 68 é um aglomerado típico do halo galáctico. Possui uma orbita bem excêntrica, não habita perto do núcleo (entenda Ophiucus, Sagitário e Escorpião), sua orbita leva mais de 500 milhões de anos e pode estar a mais de 100.000 anos luz do núcleo galáctico. Segundo Stoyan tem mais e 10 bilhões de anos (o que me parece pouco...) e baixa metalicidade.  Possui 42 estrelas variáveis conhecidas sendo 40 destas do tipo RR Lyrae tão típicas de globulares.  Atualmente se encontra a 36.000 anos luz de (e se aproximando) e possui um tamanho físico de aproximadamente 120 anos luz.
            O biônico O´Meara acha que M 68 é um belo desafio para vista desarmada. Talvez no Atacama... Sendo um globular bem austral para o catalogo Messier é compreensível que este o considerasse difícil, mas de latitudes mais austrais é alvo fácil para binóculos 10X50 mm. Com grandes telescópios é fácil se perceber a estrela avermelhada citada por Webb. Localiza-se 5´ a noroeste do núcleo de M 68.


            Navegar até este é fácil. Considerando a linha que liga Algorab (Delta Corvus) até Kraz um passo siga aproximadamente mais meio passo e chegue até seu objetivo.
Rot N Stack Modo mean utilizando um dark frame auto gerado ( que geralmente leva a uma coloração meio esverdeada das fotos...). Esta imagem recorda muito o aglomerado quando o bservado visualmente em condições ideais com cerca de 60X de aumento ( exceto pelo verde)

            As fotos aqui apresentadas foram realizadas em noite muito enevoada e o alinhamento polar feito "de ouvido". O material capturado em RAW não rendeu. Fui obrigado a converter tudo em JPEG e empilhar as poucas fotos obtidas no Rot n Stack. O Resultado final foi muito ruido e algum verde... A fim de me livrar do verde que vemos na foto logo acima foi fácil . O Photoshop transforma tudo em uma escala de cinza com um único click... Astrofotografia é a maior diversão. 

domingo, 26 de junho de 2011

Uma noite com Messier

Uma noite com Messier

Feriado de Corpus Christi. Tudo em ordem para partir. Eu e minha filha. Destino Buzios.

Telescópio embarcado. Acompanha-me o Sky Atlas 2000.0 e Phill Harrington.

Desta vez eu vou garimpar todas as galáxias de Coma virgo.

Sonho meu...

Os dois primeiros dias tudo nublado.

Sexta à noite o tempo abre.

16h30min Estou em casa começando o evento. Como querem organizar o Bobó simultaneamente eu fico com o quintal da frente. Ainda claro e eu faço um a calculo aproximado do sul. Um alinhamento polar pró-forma...

Aproveito o muro ainda iluminado para checar a colimação. 1200 mm são bastante condescendentes. Parece ótima apesar da viagem e seus trancos.

Organizo a papelada. Abro o Sky Atlas na pagina certa. Mr. Harrigton a postos. Lanterna vermelha no bolso e o kit de desenho na mesa

Arcturus acende no horizonte norte. 17h: 40 min.

Mais um pouco e meu primeiro alvo se acende. Saturno.

Não sou um tipo muito planetário. Mesmo assim provo as mais diversas magnificações e com a 17 mm acho um ótimo de conforto. Os anéis não estão exatamente em uma posição favorável. Esta fazendo um belo par como Porrima. Percebo que o seeing não esta lá estas coisas. Com a 5 (240x) a imagem começa a degradar-se.



O quintal da frente, as crianças e a família não chegam a colaborar. Cogito quebrar uma lâmpada do poste a noroeste. Sou impedido.

Com Saturno na ocular começo as melhoras nas buscadoras. Estas não tão condescendentes como a colimação. Finalmente consigo ter as coisas no esquadro. Sempre.

A 10 mm sempre acha!

Pelo menos até o próximo duelo entre meu nariz e a buscadora...

Calço a 25 mm no telescópio.

Meus planos são claros. A noite será dedicada a Messier.

Assim que o céu se apresenta escuro o suficiente eu me lanço ao primeiro objetivo. Na verdade a única parte da sessão que eu tinha determinado como “sine qua non”.

M104. A Galáxia do Sombrero. Localizada há 50.000.000 de anos luz.

Magnitude: 8.00. Brilho da Superfície: 11.60. Sua dimensão: 8.6 x 4.2.

É uma entrada tardia do catalogo Messier e consta da cópia de pessoal de Messier. A entrada é confirmada também por correspondência de Pierre Mechain( que foi o descobridor da mesma em 11 de maio de 1781). Na ultima edição do catalogo (publicada em 1784) não consta M104. Esta só é realmente incluída no catalogo por Camille Flamarion em 1921. Ele adquiriu a cópia pessoal do catalogo de Messier e encontrou as anotações.


M 104 Newtoniano 150 mm


M104 foi durante muito tempo uma das “galáxias perdidas de Messier”.

Assim que consigo ver Corvus claramente meus outros faróis já estavam acesos. Com Algorab, Spica e Saturno a triangulação não é difícil. Tinha pesquisado bem a posição e o Sky Atlas indica claramente um grupo de três estrelas bem próximas (Uma dupla e outra no desenho) que estão bem próximas a M 104. No mesmo campo com uma 25 mm. (1200 mm Df).

Suspeito sua presença na buscadora ótica (9x50mm).

O asterismo é descrito por Harrington e segundo o próprio foi batizado por um astrônomo amador americano (mas precisamente do Texas) com Stargate. Não me parece... Parece uma estrela dupla com outra de campo bem juntas. Esta formação é obvia no Sky Atlas.

M104 se mostra claramente. Utilizo a 10 mm. Percebem-se mais detalhes da galáxia. A faixa de poeira se mostra bem com visão periférica. Assim como na 25 mm.

O melhor custo- beneficio foi com a 17 mm. Bastante detalhe em periférica. As “dust lanes” são detalhe obvio.

Um bom começo. Faço um rápido esboço para registrar.

Parto para Coma-Virgo cheio de certeza.

Seguindo os conselhos de Mr. Harrington resolvo começar com a chamada Campanha do oeste. Mr. Harrington propõe o seguinte” approach” para o aglomerado de galáxias: uma campanha começando pelo oeste. Porto de saída: Denebola ou Beta Leo. A partir desta você deve achar um asterismo que consiste de um triangulo e um pequeno diamante acima deste. Ao redor deste conjunto de estrelas você vai localizar M 98, 99, 100 e 85. Segundo o renomado colega a campanha do oeste é mais fácil.

E uma campanha de Leste. Tem como ponto de partida Vindemiatrix em Virgem. Esta mais comprometida.

Coma- Virgo é cruel. Um monte de galáxias. A maior parte bem apagada. (Se você tem algo com mais de 300 mm ainda vai ter de usar “averted” na maior parte do caldo).

Nem Messier compareceu. Ngc então...

Depois de mais de uma hora e não localizar os asterismos referencia que meu amigo Harrington comentou eu ponho minha viola no saco.

Percebo que o destino será o mesmo se mudar meu plano de ação para um ataque pelo flanco leste. Às vezes é melhor recuar para lutar outro dia.

Desisto. A transparência é pouca e o seeing idem. Me servem de desculpa.

Retorno para Corvus. Na verdade começo com Corvus. Apesar das aparencias dizerem o contrario M 104 se encontra em Virgem...

M 68
M 68. Um Aglomerado globular. Não o conheço. Mas bem próximo ao Zênite é viável. Há suspensão mais baixo no horizonte. Um alinhamento fácil seguindo a linha entre Algorab e Beta Corvus. Segue mais um pouco e pronto!

Discreto na buscadora. Acredito que deva ter dias melhores... Hoje é uma mancha... Mas dois Messier novos no hit list é sempre melhor que um Abell que você não sabe se viu mesmo ou se quis ver. Não se apresenta arredondado , pelo menos não perfeitamente.

Algorab (e Corvus em geral) é um farol muito útil. Tema uma companheira visível a olho nu e a dupla é certeza de posição. Mesmo no céu urbano. Ela permite localizar com certa facilidade ambos Messier avistados.



O aglomerado de Virgem agora já vai mais baixo no horizonte e está fora de cogitação.

Estou tentando manter um registro das observações e me demoro desenhando os DSO´S. Realizando pequenos esboços para referencia.

Utilizo basicamente um conjunto de lápis (H, 2B, 6B e lapiseiras 0,5 e 0,9 com grafite HB) e um esfuminho 1. Uma boa borracha. Depois faço uma versão no Photoshop. Meu scanner está com problemas. Espero postar os originais em breve...



Mantenho a intenção de dedicar à noite a Monsigneur Messier.



Arcturus, Saturno e Vendimiatrix alinham e consigo perceber Alpha Coma. Segundo o amigo, achando a tímida estrela você vai achar M53.

Não foi tão fácil assim. Ela não exatamente salta a vista na buscadora. Na verdade centralizei Alpha e navegando (ou escaneando) com a 25 mm acabei por encontrar. Mais definido que M68. Novamente a 17 mm foi a melhor opção.

Acho que o seeing está muito fraco para suportar a 10 mm.

Com “averted” se percebe uma granulosidade e suspeito perceber estrelinhas “ flicando“.

Flicar é um anglicismo. No cinema se usa para se expressar um problema de freqüência. Quando sua luz funciona a 60 hertz e você filma com a velocidade de 25 quadros por segundo pode ocorrer o “Flick”. Vai lembrar o efeito de uma luz estroboscópica. O efeito é muito semelhante. M53 flica com “averted” (averted não é um anglicismo. É inglês mesmo)

O plano deve ser flexível.

Nasceu Sagitário. Serei fiel a Messier (a estratégia). Mas farei uma mudança tática (o plano).

São objetivos mais claros e em território conhecido. E na verdade muito mais bonito que o horizonte norte que pretendia atacar.

M8. Para abrir os trabalhos. A nebulosa da lagoa. É uma bela definição.

Gastei um pouco mais de tempo desenhando. A noite não é ideal... Mas a lagoa sempre se apresenta. Cada vez de um jeito. Aqui é para jogar campão. 25 mm. Com a 17 fica bom e com a 10 mm se resolvem muitas estrelas, mas se perdem os reflexos.



Sagitário é sensacional. Girei os botões de ambos os eixos e topei com M 28.

O melhor Glob da noite. Flicando muito,



M17 é a favorita do camarada Harrington. Vamos lá. Fácil. A transparência para o horizonte sul esta melhor. A Via Láctea apresenta-se. E meio calculo, meio chute a nebulosa aparece na buscadora. Claramente. Até interessante.

Com 25 mm ela é o cisne. Com a 17 mm ela é a ferradura. Com a 10 mm novamente o mesmo problema. Mais estrelas, mas sem névoa (bem... com um pouco)

M 17 é conhecida por vários nomes. Nebulosa do Cisne, da Ferradura ou Omega. Eu percebo bem a ferradura. Foi descoberta por de Chéseaux a redor de 1746.

O céu nubla. Me resigno . Abro uma cerveja.

Vou esperar a lua nascer.

A lua se apresenta as 03h00min da manhã. Um rápido levantamento com a 25 mm e escolho meus alvos.

Troco a ocular. 120 x vão ser o suficiente. Desenharei somente uma parte do campo.

Um grupo de três crateras alinhadas no terminator.

Longomontanus é a maior delas. Batizada em tributo a um astrônomo dinamarquês do Sec. XVII. Foi assistente de Tycho Brahe e parece que inimigo figadal de Kepler...

A seguir Wilhelm. Este um estadista e astrônomo nascido alemão durante o Sec. XVI.

Menor e espremido entre os dois está Montanari. Esta batizada em tributo a Geminiano Montanari. Italiano obviamente. E astrônomo.

Depois de vários esboços resolvo que é hora de me preparar para dormir.

Pretendo utilizar os esboços para produzir alguns sketches da região utilizando algumas técnicas diferentes. Achei um livro interessante a respeito da matéria. E apesar da total inaptidão para as artes plástica pretendo testar as possibilidades apresentadas.

Minha cunhada dá o golpe final e me traz uma caipirinha de Cajá.

PS- Sabado o céu  acabou abrindo. Mas infelizmente era dia de churrasco e o dever junto a churrasqueira me mantém ocupado.  Apresento Saturno aos visitantes. Sempre funciona... E depois visito Ngc 4755 . E só...