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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

IC 2395: O Último Objeto Lacaille Perdido

    IC 2395 foi um dos últimos objetos do Catálogo Lacaille que observei. Não por razões técnicas. Apesar de ser um objeto do “Index Catalog” e que isto possa sugerir um alvo mais difícil ele é um DSO bem claro e navegação até o mesmo não chega a ser difícil.  
            Embora hoje em dia o acesso a informação torne o trabalho do pesquisador muito mais fácil do que nos tempos de Dreyer e que observar e registrar fotograficamente o Catalogo Lacaille não seja nem de perto uma tarefa tão árdua como organizar todos os DSO´s conhecidos até 1888 sempre é necessária alguma pesquisa  quando trata-se com documentos referentes ao séc. XVIII. Nem todas as entradas do Catálogo Lacaille são unanimidades e dependendo da fonte consultada podem haver discrepâncias. Para contribuir com a confusão o grande observador austral que se seguiu a Lacaille foi Dunlop. E este não é famoso pela precisão de seus dados.
            Meu primeiro contato com Lacaille se deu através do trabalho de Frommert em seu incrível site associado a SEDS. E neste a entrada Lac III. 3 é colocada em dúvida. Paira uma suspeita se este objeto é um equivoco total ou trata-se do aglomerado aberto vdB-Ha 47 (Catalogo van den Bergh-Hagen).
            Posteriormente e visitando outras fontes (colaborou para minha certeza o trabalho realizado por Stoyan com a colaboração de Binnewies, Friedrich e Schoeder) descobri que Lac III. 3 é, acima de qualquer suspeita, IC 2395.   
            O trabalho de Glen Cozens sobre os três primeiros grandes catálogos de DSO´s austrais também ajudou na conclusão embora em seu trabalho seja dedicado especialmente a Dunlop. E na verdade embora ele nos diga em um momento que Lac III .3 é, possivelmente, vdB-Ha 47 em outro ele associa este a IC 2395. Pela minha pesquisa a entrada 453 do Catalogo Dunlop é o mesmo aglomerado que IC 2395 no Index Catalog elaborado por Dreyer (o Index Catalog é um complemento do New General Catalog [NGC] e foi o primeiro catalogo elaborado já com auxílio da fotografia).
            Lacaille era muito metódico e a posição por ele indicada é extremamente próxima (um erro de 2´) para haver qualquer dúvida na identificação do objeto.  Já Dunlop foi duramente criticado por Herschel por suas anotações descuidadas e pelos grandes erros na localização de seus objetos. Herschel quando explorou os céus austrais localizou apenas 1/3 das entradas do Catálogo Dunlop.  Cozens em seu trabalho faz uma revisão do catalogo e identifica mais de uma centena de objetos além dos revisitados por Herschel. É importante lembrar que Dunlop trabalhava sem nenhum tipo de apoio. Seu trabalho é fundamental e belíssimo.
            Para tornar as coisas mais confusas, mas ao mesmo tempo encerrar a questão, retornei anos depois a página de Frommert para vdB-Ha 47 e descobri que a possibilidade deste e IC 2395 serem o mesmo objeto são enormes... enquanto IC 2395 foi descoberta por Bailey em 1908 vdB-Há 47 foi registrada pelo time van den Bergh- Hagen em 1975. Sua posição é muito próxima e a descrição muito semelhante. Com isto o outrora objeto Lacaille “perdido” e observado pelo Abbé em 17 de fevereiro de 1752 engaveta seu processo de identificação.
            Lacaille é sempre bem sucinto em suas descrições e utilizando minúsculas lunetas não poderia ser mais preciso:
            “Estrela de 6a magnitude conectada a outra por um traço de nebulosidade. ”
Sua descrição me lembra muito o que percebo utilizando uma buscadora de 7X30mm.
            Já Dunlop com seu telescópio de 9 polegadas e de espelho de metal apresenta uma descrição muito semelhante ao que vejo com o “Newton” (um telescópio newtoniano de 150 mm f8):
            “ Um grupo de 10 ou 12 estrelas pequenas e bem brilhantes a sudoeste de 409 Argus (Bode) ”
                Curiosamente IC 2395 , apesar de sua evidente graça, escapou de quase todos os "Guias Observacionais Modernos". Não entrou no Catálogo Caldwell e nem mesmo O´Meara em sua imensa série "Deep Sky Companions" fala nele. Burnham em seu "Celestial Handbook" dá um descrição sumaria da apresentação da constelação de Vela: "Mag. 6; Diam. 10´; Class E; Cerca de 16 estrelas mag. 9".   Uma tremenda injustiça e um excelente motivo para você visitá-lo.
            Sua estrela mais brilhante é de 5.5 a magnitude. Do tipo espectral B5. Em trabalhos mais recentes a idade do aglomerado é estimada em aproximadamente 7 milhões de anos. Em função da fonte esta estimativa varia entre 5 e 16 milhões de anos. De qualquer forma um jovem aglomerado galáctico localizado a 2500 anos luz de nós.
            Em um trabalho desenvolvido por Zoltan Balog, Nick Siegler, G. H. Rieke, L. L. Kiss, James Muzerolle, R. A. Gutermuth, Cameron P. M. Bell, J. Vinko, K. Y. L. Su, E. T. Young e Andras Gaspar e utilizado o Telescópio Spitzer foram identificados mais de 300 membros em IC 2395 e a presença de discos protoplanetários em aproximadamente 10% destes; Sistemas solares em formação. Com o estudo de nosso convidado eles nos contam como o Spitzer ampliou o nosso entendimento na formação destes discos.  Hoje sabemos que a acréscimo de gases em protoestrelas tende a estar cessando em 15 milhões de anos e que os discos primordiais devem estar se dissipando. A esta altura os chamados planetesimais (um projeto de planeta...)  já se formaram e a poeira produzida em suas colisões gera um disco de debris. Este disco regenerado revela indiretamente a presença de corpos planetários que garante a retroalimentação deste processo e nos permite rastrear a evolução de sistemas planetários ao longo de toda a faixa de idades estelares.  

            Localizar IC 2395 em locais escuro não é difícil. O mesmo se revela como uma estrela de 5a magnitude. Ou parta de Regor e seguindo uma corrente de estrelas de 4a e 5a magnitude você chegará a seu destino. Os outros abertos próximos são bem mais discretos que IC 2395 e não há como se enganar. Uma vez na região aproveite para conhecer Ngc 2660. É um interessante aberto com forte concentração central. 
             O aglomerado é bem mais interessante do que pode sugerir a fotografia que abre o post. Esta foi resultado de pouco mais de uma dezena de exposições com 20 segundos de exposição ASA 1600. Porém sofreu muito com a lua quase cheia na ocasião...

            
               


quarta-feira, 1 de junho de 2011

Catalogo J.E.S.S. - Cap. 5

Cap. 5- Os telescópios e equipamentos




Os equipamentos disponíveis para a realização do Catalogo José Eustaquio e Silvano Silva de Nebulosas e Objetos Estelares foram utilizados  em um metódico levantamento dos céus austrais por nossos dois astrônomos pioneiros e era também o resultado de avanços tecnológicos que se desenrolaram ao longo de vários séculos de pesquisa astronômica.

Sabemos pelos textos de Silvano e Silva que José Eustaquio “herdara” um dos telescópios que Lacaille trouxera em sua expedição para o Sul. Este teria ficado em poder de seu pai que segundo dados circunstanciais parece ter servido ao Abade em sua estada no Rio de Janeiro.



Sabemos por diversas fontes que o grande astrônomo francês não deixara saudade e tampouco a sentia em relação a cidade maravilhosa . Em diversos textos o abade falava da sujeira e do mau cheiro que invadia a Rua do Rosario. Foi ali que ele montou sua banca. Apesar da grande herança deixada por Lacaille ele realizou todos os seus feitos com telescópios deveras simples. Na realidade pouco mais que pequenas lunetas. Instrumentos de cerca de 25 mm de diâmetro de objetiva. E com aumentos da ordem de 6 a 9 vezes. É impressionante que este homem tenha deixado seu catalogo e mais uma família de constelações nos céus austrais com equipamento tão simples.

O próprio Silvano Silva nos diz:

“... o telescópio de Eustaquio pouco mais é que um monóculo de opera. E apesar disto ele reconhece centenas de nebulosas. Sua criação junto aos marinheiros deixou-lhe um profundo conhecimento dos céus e de seu comportamento.”


Já o equipamento de que dispunha o padre parecia ser mais sofisticado. Segundo suas próprias palavras seu aparelho era em muito superior ao pequeno newtoniano de Messier. Porém com uma menor distancia focal. Apesar de não citar valores em nenhum dos textos encontrados podemos fazer algumas suposições.

Os telescópios que Messier utilizou são conhecidos pela história e pelas palvras de Silvano podemos fazer sérias conjecturas .

Segundo Frommert e Kronenberg (SEDS) Charles Messier observou e/ou possui alguns telescópios;

1. Refrator de 8 metros de Distancia focal, Mag. 138x

2. Refrator Acromático, 4 metros DF Mag. 120x

3. Refletor Newtoniano 1500 mm  DF, Mag. 60x

4. Refrator Acromatico, 1200 mm DF (Dollond), Mag. 120x

5.  RefratorCampani, de propriedade do M. Maraldi, Mag. 64x

6. Refrator 6 m DF, Observatorio de Paris, Mag. 76x

Estes são apenas alguns dos telescópios utilizados por Messier . É importante lembrar que devido a tecnologia da época eles eram bem mais limitados do que sugerem as grandes distancias focais. Percebe-se também que na época a idéia de oculares variadas ainda não havia feito escola.

Mas devido a um pequeno recorte encontrado entre os escritos de Silvano Silva dois destes aparelhos se mostram muito significativos para minha pesquisa.

“... Tive a felicidade de conservar comigo dois belos aparelhos que ainda curtos me apresentam alta qualidade e aumento de 60x e 120x. O primeiro um modelo como o de Newton e o outro , meu favorito , um belo modelo inspirado em Galileu.
São muito semelhantes aos telescópios que utilizei em França . Sendo que um deles é um Dollond...”



Até devido a viagem que trouxe Silvano Silva ao Brasil lhe era impossível possuir um telescópio de grande porte aqui na Colônia. Mas sua temporada em Paris o ensinou a conhecer equipamento astronômico e ter acesso ao que havia de melhor em seu tempo.

Messier utilizou com freqüência telescópios com objetivas de 90 mm e 1200mm de distancia focal e 120 x de magnificação. Um deles feito por   Dollond. Silvano Silva se refere ao mesmo textualmente.

Estes refratores acromáticos são capazes de observar todo o catalogo Messier assim como alguns alvos mais difíceis.

Como já foi dito quando se observa o céu o obsevador é tão ou mais importante que o diâmetro ou qualidade ótica do próprio telescópio.

E a descrição do Newtoniano não deixa muitas duvidas de se tratar de um aparelho semelhante ao descrito por Messier. Com 1500 mm de ditancia focal e com cerca de 90 mm de espelho. Na época os newtonianos sofriam do uso de espelhos especulares e isto seria aproximandamente um 60 mm moderno.

Já o  Refrator acromático era um show de tecnologia em uma das fronteiras do mundo conhecido. E Silvano Silva sabia disto.

E ele sabia também que ele poderia descobrir o véu sobre o céu profundo que vivia escondido abaixo do Equador.

Em outro trecho ele deixa clara sua ambição:

“... com os meus equipamentos em muito superiores serei capaz de mapear um numero de nebulosas  muito maior que os encontrados pelo Abbe... e com isto enaltecer o brilhantismo da Terra Lusitana e a gloria de nosso Rei.”


Acredita-se que a pequena luneta de José Eustaquio e o Refrator de Silvano Silva foram a tecnologia que nos levou até o Catalogo J.E.S.S. O pequeno Newtoniano também ha de ser lembrado e coforme saberemos este torna-se um favorito de José. Segundo alguns escritos pode-se suspeitar que este tinha um grande campo de visão. Seria um telescopio de menor razão focal e por isto util para observação do céu profundo. Bem como mais portatil.

É aceito hoje que nenhum dos telescópios descritos aqui seja superior a um refrator de 100 mm ou um refletor newtoniano de 150 mm moderno. Segundo algumas opiniões até mesmo um bom refrator de 60 mm de diametro seria  um forte opositor.

Todos os objetos descritos nesta pesquisa são acessíveis a tais telescópios e em sua grande maioria estão ao alcance de Binóculos 10x50. A pequena luneta descrita por Silvano Silva como de propriedade de José não superaria de forma alguma um bom binóculo moderno. Mas novamente sou obrigado a lembrar que o observador é parte importante do equipamento. A mais importante.