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sábado, 4 de janeiro de 2014

IC 2391- O Aglomerado da Pequena Cassiopéia

              

            

              O aglomerado aberto IC 2391 é um dos eternos favoritos no Nuncius Australis. É um "primeiro" na minha história astronômica.
              Em primeiro lugar  foi o primeiro DSO que descobri.
            Logo que iniciei em astronomia comprei um binóculo enorme. Com zoom. Era um 15-100 X 80 mm. Com as lentes "ruby-coated". As famosas lentes vermelhas. Em uma piada que talvez já esteja se tornando repetitiva eu digo que ele possuía as lentes com um tratamento em Mercúrio. Mercúrio Cromo... Comprado a preço de banana no Paraguai ele viajou bastante. Seu carinhoso apelido era Trucuçu. Acabou sendo dado de presente para meu primo.
            Foi com ele que eu descobri IC 2391. Passeando pelo Falso Cruzeiro sem lenço e sem documento me deparo com o mesmo logo ao lado de Delta Vela. Ele é um evidente aglomerado aberto mesmo a olho nu. Mas com minha parca biblioteca na casa de Búzios e em tempos que wi-fi e 3G ainda eram raros não achei nenhuma referência ao DSO. Pronto. Batizei de BZ 1.
            Posteriormente ele foi o primeiro DSO que fotografei com foco direto. Desta vez devido a razões mais geográficas e geométricas do que qualquer outra coisa.
             BZ 1 como já sabem os senhores é IC 2391. E antes disto foi Lac II.5.
            Isto faz dele a 5a entrada da categoria II do catalogo elaborado pelo Abbe Lacaille em sua viagem pelos céus austrais nos meados do Séc. XVIII. Ele incluiu na categoria II os  considerados aglomerados estelares nebulosos. Com lunetas de apenas 30 mm sua classificação é de interesse apenas histórico. O aglomerado não apresenta nenhuma nebulosidade.
            A história do aglomerado é muito mais antiga que minhas primeiras observações com o Trucuçu. O primeiro registro sobre 2391 remonta a Al-Sufi , um astrônomo persa. Nas brumas do tempo pode-se imaginar que estes registros foram feitos antes de 964 DC.  Foi redescoberto de forma independente pelo Abbe em 11 de fevereiro de 1752.
            Sendo evidente a olho nu mesmo de ambientes suburbanos é muito provável que o mesmo tenha sido percebido por Halley em sua estada em Santa Helena. E por muitos dos navegadores que desbravaram os mares austrais anteriormente.
            Sua estrela mais brilhante apresenta magnitude aparente de 3.6.. É uma  gigante da classe espectral B3. A idade do aglomerado é entre 30 e 50 milhões de anos. Depende da fonte.
            O aglomerado é bem estudado e percebi que diversos "papers"s associados a estrelas de baixa massa e disco de acreção são associados ao mesmo. Uma vasta coleção destes pode ser obtida aqui.
                IC 2391 na classificaçãoo Trumpler de aglomerados abertos é designado como II,3,p.
            Isto significa que trata-se de um aglomerado aberto que se destaca das estrelas de fundo com um núcleo estelar bastante luminoso ( II) , algumas estrelas bem brilhante em paralelo com outras mais fracas com um grande amplitude de magnitudes (3)  e que o mesmo é pobre em estrelas. Com  menos de 50 membros. (p). O aglomerado possui cerca de 30. Com mais alguns candidatos de difícil percepção ótica e possivelmente algumas anãs marrons... Foi realizado um profundo levantamento otico de IC 2391 e surgiram diversos membros-candidatos.  
             Possui características óbvias de um jovem aglomerado galáctico. Falamos a respeito disso aqui no Nuncius Australis recentemente.
            Conhecido ainda como o aglomerado de Omicron Velorum e  ainda Caldwell  85 na lista elaborada pelo finado Sir Patrick Moore.

            Localizar IC 2391 é tarefa fácil para qualquer astrônomo ao sul do equador. Localize Delta Vela no asterismo conhecido como o Falso Cruzeiro e o aglomerado sera percebido logo a nordeste da mesma. É facilmente percebido a olho nu de céus suburbanos e mesmo em áreas urbanas (Bortle 8 ou 9) ele se destaca com qualquer auxilio óptico. Na verdade com minha buscadora ótica,  que com 50 mm é  muito mais poderosa que as lunetas que Lacaille possuía,  eu resolvo todos os seus principais membros
            Já tendo visitado e fotografado este diversas vezes gostaria de apresentar diversos resultados obtidos e através deste apresentar varias facetas deste que é um dos aglomerados austrais mais chamativos. Na verdade um dos aglomerados abertos mais brilhantes dos céus de todo o mundo. Uma das jóias da coroa.



            Esta foi a primeira foto astronômica com foco direto que fiz. Aqui podemos perceber claramente os membros mais brilhantes de IC 2391 e porque do apelido de Pequena Cassiopéia em memoria a pequena e tradicional constelação boreal batizada em homenagem a vaidosa rainha etíope. Utilizando o Newton ( meu refletor de 150mm) e empilhando algo como 15 fotos sem dark frames ou afins no Rot and Stack fiquei realizado. A história desta foto me ensinou a não confiar cegamente em softwares de empilhamento de imagens. Eles não irão presentar automaticamente uma imagem verdadeira do que se vê. E não necessariamente isto será ruim. Só será falso. Veja aqui esta história...
            Depois realizei mais fotos dele utilizando meu velho refrator Galileu. Apesar do menor poder de fogo deste as imagens demonstram a importância de céus escuros para a observação visual e para a realização de registros fotográficos. Mesmo com menor poder de fogo as imagens abaixo foram obtidas dos céus mais escuros de Búzios . Nos mesmos céus onde "descobri" IC 2391, A Pequena Cassiopéia. E percebe-se muito mais estrelas. Céus escuros são sempre o melhor equipamento. Em nome do fair play não posso deixar de dizer que a câmera também é outra . Aqui é uma Canon T3. Na primeira foto é a já pré histórica  Rebel 350D. 





         

       

       
         Diferentes resultados frutos de diferentes processamentos  Apesar de digitais as fotos astronômicas ainda visitam o laboratório... 
          Os light e dark frames utilizados  são os mesmos em todas as fotos. 11 light frames de 20 segundos de exposiçãocom asa 3200. O Galileu é um refrator de 900 mm de distancia focal e com uma lente de 70 mm acromatica. Bastante modesto.

Canon T3 . Aqui foi utilizada uma lente zoom 75-300mm @ 100 mm f4. 9 light frames com 20 seg. ASA 3200.
Percebe-se claramente Ngc 2516 no canto superior direito da foto. 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Astrofotografia , Poluição Luminosa e Tristeza


Hoje queria fazer algumas fotos.   
Acordei e depois de mundanas obrigações, como me alimentar e escovar os dentes resolvi colimar meu telescópio.
 A operação em si não é difícil, mas uma colimação bem feita demanda capricho e paciência.  Especialmente se você não possui um colimador laser.  Ou algo do gênero.   Como já falei diversas vezes a astrofotografia demanda um capricho que me faz um astrônomo melhor. 
Na véspera eu tinha feito o teste para saber como se encontrava a colimação do Newton e o desfocando levemente Canopus percebi que as coisas iam mal. Fiz ainda algumas fotos de 6025 que mostraram ainda mais a necessidade urgente.
Ngc 6025

E assim colimar o telescópio se faz necessário.

Colimar um telescópio é algo para se fazer durante o dia. Na presença de muita luz.
Assim me conformei em ficar observando vírgulas por mais alguns minutos antes de encerrar a brincadeira.
É fácil saber como esta sua colimação. Veja a ilustração abaixo e você irá entender a situação.


Primeira coisa é centralizar o espelho secundário com o tubo do Telescópio. No meu é simples.  Olhando através do porta ocular você deve ter os três “alças” de fixação  do  primário aparecendo exatamente nas bordas do secundário , “no esquadro”.  Depois é centralizar a pequena marca do centro do espelho primário com o centro do secundário. Existem três parafusos que permitem o ajuste do primário.  No fim das contas você vai ver a marca do primário “encaixada” com a sua pupila.
Parece um pouco confuso, mas com um pouco de paciência a coisa não demora mais que 15 min.
Deixei tudo pronto para começar os trabalhos. Finalmente tenho o alinhamento polar marcado no chão da sala e assim as coisas se tornam mais fáceis.
Mas agora chegou a hora da verdade.  Vou observar e tenho uma noite idealizada.
Começaria com Ngc 6397, o Globular mais perto da Terra. Escondido em Ara, o Altar, ele estaria em perfeita posição para ser abatido da Stonehenge dos Pobres.  Este alinhamento “cósmico-fotografico” deveria começar exatamente s 20h50min.  
Daqui para frente à noite tão idealizada começa a fazer água...
Poluição luminosa é uma praga que se abate sobre o astrônomo amador retirando-lhe a alegria e a possibilidade de obter suas tão almejadas imagens.
São Francisco de Salles fala sobre tristeza:
“... Dizem que há um peixe a que chamam diabo do mar1 o qual, revolvendo e empurrando para cá e para lá o lodo, turva a água à volta de si, para se manter nela como na emboscada, e dela, logo que avista os pobres peixinhos, atira-se sobre eles, assalta-os e os devora, donde talvez tenha vindo à expressão pescar em água turva, de que se usa comumente. Ora, dá-se com o diabo do inferno o que se dá com o diabo do mar; pois ele arma suas emboscadas na tristeza, quando, tendo tornado a alma perturbada por uma multidão de pensamentos aborrecidos, lançados aqui e acolá no entendimento, precipita-se depois sobre os afetos, afligindo-os com desconfianças, ciúmes, aversões, invejas, apreensões supérfluas dos pecados passados, e fornecendo uma quantidade de sutilezas vãs, acres e melancólicas, a fim de que rejeitemos toda sorte de razões e consolações.
A poluição luminosa é como as águas turvas. Só que no caso nos faz rejeitar, ou melhor, nos recusa, toda sorte de prazeres e de constelações...
Assim como São Francisco que define três tipos de tristeza existem diversos tipos poluição luminosa.
Nesta noite tão imaginada eu percebo logo a presença de um tipo de poluição que vai além da luminosa. Muita suspensão e evidente presença de aerossóis, decorrentes de poluição atmosférica mesmo. No caso esta é justamente o Diabo do Mar que torna a atmosfera turva e prepara as armadilhas que levam o astrônomo a se perder em melancolia pelos caminhos celestes.  
Ela turva a água a traz junto uma das maiores pragas que se abate sobre a atmosfera. A extinção. l
Extinção é um termo usado em astronomia para descrever a absorção e espalhamento da radiação eletromagnética emitida por objetos astronômicos pela matéria (poeira e gás) entre o objeto que emite a radiação e o observador. Para observadores na terra, a extinção decorre tanto do meio interestelar como da atmosfera terrestre. No caso do nosso Diabo do Mar ele remexe a atmosfera terrestre com o auxilio luxuoso de diversos veículos automotores movidos com combustível fóssil. E “otras cositas más”.
Instalei recentemente uma nova versão do Stellarium. Ele agora apresente a magnitude levando em conta a extinção...

Nosso santo padroeiro deste post define outro tipo de tristeza. Suas palavras parecem ter sido feitas pensando em um astrônomo que no futuro outrora distante ia ter meu vizinho como vizinho:
A tristeza procede também, outras vezes, da condição natural... porquanto, assim como as aranhas quase nunca fazem suas teias senão quando o tempo está encoberto e o céu nublado, assim também esse espírito maligno nunca tem tanta facilidade para armar as ciladas das suas sugestões nos espíritos doces, benignos e alegres como nos espíritos sombrios, tristes e melancólicos;
Esta tristeza é minha condição natural devido ao lado festeiro de meu vizinho e consequentemente seu espírito doce, benigno e alegre deixa a tristeza para meu lado... Resolve receber vários amigos e acender todos os cômodos do apartamento. Impede assim qualquer tentativa de flexibilizar minha tão engessada condição observacional. Afinal uma janela não é uma cobertura. E eu não tinha em mente levar todo o equipamento para o telhado do edifício...
É o que chama de poluição luminosa direta. São lâmpadas, postes e outras fontes de luz que incidem diretamente sobre o local que você observa. Às vezes é possível mudar o eixo da observação. Ou bloquear estas fontes. Hoje não deu.  Tristeza...

Para encerrar o paralelo São Francisco, que era claramente um astrônomo, levanta o seguinte testemunho:
Finalmente, há uma tristeza que a variedade dos acidentes humanos nos acarreta. Que alegria posso eu ter, dizia Tobias, não podendo ver a luz do céu?

Esta tristeza se explica sozinha. É o conjunto da obra. É o bafo de luz que apaga as estrelas.  É A luz que em vez de iluminar a terra ilumina o céu e que acaba com o contraste. É fruto de milhares de luzes a vapor que apontam em todas as direções. Aqui em casa são fruto das luzes nas fachadas dos shoppings e as luzes que iluminam a praia. Ainda os letreiros neon que anunciam bares e afins. Não esquecendo um inimigo natural que é a lua quase cheia...
Depois disto tudo acabei desistindo das fotos.  Ou elas de mim
Dei uma rápida olhada usando meu 15X70 e rapidamente percebi que hoje não era dia. Mesmo aglomerados abertos “claros” como M7 e M6 se mostravam muito tímidos. Meu tão almejado Ngc 6397 só era percebido como um fantasma.
Este é outro problema da poluição luminosa. Ela cria fantasmas cósmicos. Objetos que você não sabe se viu o não.  Às vezes foi só uma impressão. São fantasmas que habitam os lugares onde estes DSO´s costumavam estar. Você acostumado com sua presença acha que os percebe, mas eles não estão realmente lá.
Estes me lembram de arco Iris.  Um texto de Bob Berman (Strange Universe na Astronomy magazine) fala de objetos que não estão realmente lá.
 Na lista ele inclui buracos negros e quasares. E o Arco Iris. Segundo ele Arco Iris é algo que só existem quando alguém esta olhando. Eles não geram sombras e nem aparecem em espelhos. Esta história do espelho é interessante, porém real: se você esta vendo um arco Iris você não pode ver seu reflexo mesmo que o espelho esteja colocado corretamente. Qualquer aparente reflexo será de um arco Iris com propriedades completamente diferentes do arco Iris que você vê. Ele poderá ter menos azul ou ser mais brilhante. Porque ele não é um objeto real. Segundo Roy Bishop em seu Observer´s Handbook arco Iris estão inteiramente dentro “de nossos crânios”.
Assim como meu Ngc 6397. Ele não é real. Ele só existe na minha cabeça.
Não houve fotos hoje. Tristeza... 

P.S. No raiar do outro dia eu ainda consegui "salvar" a noite. Ainda que lutando contra os nefastos efeitos da poluição luminosa eu consegui fazer algumas fotos do Aglomerado de Omicron velorum. Foi um processo esclarecedor. 
Em um primeiro momento eu sequer identifiquei o DSO. Que é um avelho conhecido. Mas conforme este ganhava altitude e mais estrelas iam pipocando o seu "shape" de M o traiu. Aassim depois de melhorar mais um pouco o alinhamento polar. Fiz 14 fotos do mesmo com 15 seg. de exposição. E mais duas com 30. 

Pode-se perceber claramente o efeito da poluição luminosa nas fotos com 30 seg. Nas de 15 também, mas de forma menos acentuada. 
15 seg.                                                            30 seg.

Outro detalhe que percebo e que se acentua muito depois do "stacking" ( feito no Deep Sky Stacker)   é um degrade , onde se percebe claramente a imagem mais lavada mais abaixo na foto. Um efeito causado , muito , pela iluminação da praia. Sódio...  Este efeito vinheta pode ser melhorado com o uso de flat frames ( frames "brancos") no stacking. Mas de qualquer forma ele se acentua com a Poluiçaõ luminosa. 



As imagens todas estão muito lavadas  ao longo de toda foto. Isto , creio eu, muito por causa da Lua.
Abaixo a uma amostra do que o Rot n´Stack pode fazer. Pensando seriamente em abandonar astrofotografia e me lançar como artista plastico...


 3h:40 min e eu era feliz de novo. 




sexta-feira, 29 de abril de 2011

Sketches Australis- IC 2391 e NGC 2547

O aglomerado aberto IC 2391 foi primeiro avistado por Al Sufi em 964. é também chamado de Aglomerado de Omicron Velorum.  Foi posteriormente incluido no catalogo de Lacaille em 1752.



Ascensão reta 08h 40.6m

Declinação -53° 02′

Distancia (175 pc)

 magnitude (V) 2.5

 dimensão (V) 50′

Hoje em uma rápida sessão observacional daquelas bem urbanas , lutando contra a luz dos vizinhos e dos prédios em volta fiz um rápido esboço deste e de outro aglomerado descrito por Lacaille .NGC 2547. Ambos próximos ou incluídos no asterismo do Falso Cruzeiro. Astronomia Urbana mesmo. Como a muito o Nuncius não praticava. Sempre me surpreendo como é possível avistar DSO em boas condições mesmo a partir de condições bastante extremas.
 
NGC 2547  é outro aglomerado aberto descoberto por Lacaille. Bastante delicado e menor que o anterior.
 
 



Ascensão reta 8h 10.7m

Declinação −49° 16′

Distancia 1.96 kly

magnitude (V) 4.7

 dimensão(V) 20″