Translate

Mostrando postagens com marcador Canopus. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Canopus. Mostrar todas as postagens

domingo, 7 de dezembro de 2014

Canopus, Ngc 2451 e o Tempo

                                                                   
            Tenho estado sem tempo para a "Difícil Arte" . Talvez por ter que praticar uma de suas versões como ganha pão a minha forma favorita de fotografia tem ficado um pouco ao deus dará.
            O tempo é uma coisa curiosa. Não acredito que o mesmo seja apenas uma criação humana. Na verdade tenho solidas evidencias que ele é um dos componentes do universo. Uma dimensão. Afinal ele se relaciona com diversas constantes universais e responde a estas mudando sua velocidade e o seu andar .  Parece-me pouco provável que isto seja fruto de nossa humanidade. E mesmo sem tempo consegui ter um sábado diferente e ainda assim bastante produtivo.
            Ao contrario do que se pensa a astro fotografia pode ser uma "Difícil Arte" e demandar equipamentos e técnicas e tempos ( olha ele aí outra vez) de exposição que podem intimidar os leigos e os duros... Mas as vezes descubro que para realiza-la sem maiores pretensões esta pode ser rápida, simples, quase barata e ainda assim uma poderosa ferramenta para se aprender astronomia.  

            Eu passara a semana em função de um comercial com uma surfista famosa por sua coragem e pouco juízo. E assim diariamente amanhecia sempre já na praia. O amanhecer primaveril ao longo da semana estava sempre mais para "Ilha do Dr. Moreau" que para comercial de desodorante com estrela do surf. E assim o tempo foi passando e um comercial de 3 dias se tornou um épico de 10 diárias . Bom para as finanças e nem tão bom para a astronomia.

            Finalmente depois de um belo jantar com Envelopes de Merluza com Legumes e Vagens ao alho eu finalmente monto o "Newton" junto a Janela da Stonehenge dos Pobres. A obra do metro continua e seus refletores fazem sombras em minha sala... Mas pretendo fazer algumas fotos.  Como há muito não observava nada tinha um set up completo a minha frente. Retirar o "Newton" de seu caixão e instala-lo em sua montagem. Depois afinar a buscadora usando a luz de tope de um prédio distante. Curiosamente não levou mais que um minuto. Parecia que a buscadora não havia passado mais de um mês jogada dentro do bau do corredor. Depois fiz um alinhamento polar de ouvido.  Não iria esperar por Canopus cruzando o meridiano para melhora-lo e assim poder utilizar meu método ( e de todos os preguiçosos...) favorito de alinhamento polar. De qualquer forma sei aonde fica o sul a partir da Stoehenge dos Pobres...
            Depois instalo o motor drive; somente no eixo de R.A. E aí a porca torce o rabo. Estou sem pilha. Adeus astro fotografia ( pelo menos eu assim achava...). Mas não vou perder a viagem e resolvo observar um pouco  qualquer coisa.
            O céu esta meio nublado ( sou muito teimoso) e acabo apontando o telescópio para Canopus (Alpha Carina) .Serve para melhorar o alinhamento da buscadora. E sendo a segunda estrela mais brilhante do céu não só domina a paisagem como não se intimida facilmente com a nebulosidade. Tão brilhante que o obcecado de plantão resolve fazer algumas fotos .

Primeiro uma para mostrar que a colimação do Newton poderia estar melhor e como uma tela de proteção atrapalha  . E depois outras para ver até onde eu podia ir sem utilizar um motor para acompanhar. Em 3 segundos eu começo a perceber muito drift . Especialmente nas estrelas de campo menos brilhantes. Utilizei ASA 1600...
Na foto maais a esquerda a exposição é de 1,5 seg. Na mais a direita 3 seg. A foto centrall demonstra clarramente como a tela dde proteção interfere  na foto... exposição de 2,5 seg. 

            Como sempre gosto de lembrar astronomia consiste em observar e depois estudar o que se observou. R assim lá vamos nós. Depois de consultar meus alfarrábios e diversos sites descubro que Canopus não é somente a segunda estrela mais brilhante do firmamento. Sendo a estrela mais brilhante da finada constelação de Argos( que representava o navio dos Argonautas no céu antigo e é uma das 48 constelações originais de Ptolomeu )  nada mais justo do que ela ter o nome do skipper do barco do Rei Menelau quando este foi recuperar Helena...
            É também uma rara estrela do tipo F0 Ia e assim apresenta uma linha evolutiva bastante discutida e pouco entendida. Cortando em miúdos trata-se de uma estrela que não sabe se já passou pela fase de gigante vermelha e encolheu novamente mimetizando uma estrela do tipo F ou se ainda não alcançou a fase de gigante vermelha. Se for este o caso ela deve estar queimando seu hélio e vai continuar até fumar carbono.Como não possui massa para explodir em uma supernova é possível que torne-e uma anã branca atípica com um núcleo de neônio e oxigênio... Bastante original. Esta localizada  a 310 anos luz.
            Canopus é ainda uma estrela guia por natureza. No passado indicava o rumo sul aos navegantes. E hoje em dia é uma estrela utilizada para a navegação de espaçonaves. A Mariner em seu caminho para Mércurio teve problemas confundindo Canopus com um cisco na lente de uma câmera usada para navegação. Esta apontava para Canopus. Devido a sua distancia angular do sol ela é extremamente útil para esta função.
            Depois de descobrir isto percebi que o céu dera uma limpada e assim resolvi passear pela Popa do Navio e acabei naufragando em um evidente aglomerado. Sem consultar mapas ou afins fiquei observando belo espetáculo. Uma brilhante estrela vermelha cercadas de companheiras mais fracas. Um aglomerado aberto com certeza - pensei.
            Fotografar DSO´s sem acompanhamento é por muitos considerado impossível e uma heresia. Mas eu nunca acreditei em dogmas e fissurado que estava para fazer umas fotos da novidade tentei a sorte.
             O tempo é uma entidade do universo que varia conforme a gravidade e a velocidade. Já o tempo de exposição varia em função da ASA e da necessidade. Joguei a ASA para exorbitantes 6400 e fotografei um DSO com modestos 3 segundos. Depois co apenas 1,5... E utilizando as fotos obtidas junto ao site da Astrometry descobri que fotografara Ngc 2451.
Astrometry...
Sem motor e com um tempo de exposição possível até mesmo para câmeras saboneteiras. Nada digno de prêmio ou do APOD. Mas um registro honesto que permitiu a identificação pronta deste também  muito discutido DSO.
Canon T3 - Newtoniano 150 mm -1 exposição de 1,5 segundos sem acompanhamento....
            Ngc 2451 foi primeiro observado por Hodierna e incluído em seu obscuro catalogo publicado em 1654. Posteriormente foi redescoberto por John Herschel ( o filho) já no sec.XIX. Este o descreveu como um aglomerado difuso com estrelas brilhantes. Mais a frente 2451 foi confrontado com a triste idéia de este ser na verdade um asterismo ( um agrupamento de estrelas não relacionadas gravitacionalmente). Sua mais brilhante estrela é C Puppis. É a estrela avermelhada que domina a cena. Esta definitivamente não é um membro do aglomerado. Os astrônomos alemães Roser e Bastian nos explicam em um paper de 1994 o que é 2451. As estrelas que se percebem em telescópios amadores não são relacionadas ( somente 4 delas fazem parte do real dso... ).Entretanto em uma janela de 4o ao redor das estrelas que percebemos como 2451 existem 24 estrelas que presentam o mesmo movimento próprio e idades semelhantes. O autores batizaram este grupo de " Puppis Moving Group". Mas fazem questão de frisar que este não é Ngc 2451.  Para botar lenha na fogueira estudos fotométricos dos anos 60 suportam que as estrelas que percebemos como 2451 são associadas. E para incendiar a questão de vez os alemães supra citados ainda acreditam haver na área um outro aglomerado escondido no fundo de toda esta confusão . Este situado a 1.300 anos luz  contra modestos 850 do outro. O´Meara classifica o Ngc 451 cono um asterismo em seu" Hidden Treasures".
            Apesar de continuar em inventário eu considera 2451 um excelente alvo para qualquer instrumento óptico e sendo fotográfavel com exposições bem curtas. Um DSO pouco tímido e que não pode deixar de ser visitado. Sua magnitude é de 2.2 e é facilmente achado seguindo-se a Via Láctea a partir de Canopus.  Acho importante ressaltar que as condições tanto de observação como para a pratica fotográfica foram bem extremas e os níveis de poluição luminosa eram absurdos. Além da obra do metro a lua já ia quse cheia... Em céus mais escuros 2451x é ainda mais rico.

            E de uma má foto sempre se pode fazer um bom desenho. É só gastar algum tempo no Photoshop e usar a foto como pano de fundo e o desenho é feito em uma camada superior. Mais algum tempo realizando um acabamento "artístico" e voilá. Nada mal para um dezembro ocupado. Em apenas 1 segundo de exposição.
               Óoooh  Tempo Rei!



sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Canopus e a Convenção de Genebra


                

               Com a lua cheia  e com o canteiro de obras ao pé do "Stonehenge dos Pobres" cada vez maior e mais claro eu tenho tido "dias" bem duros em busca de DSO´s.

            Mas retornando cedo do botequim e com o "Newton" ( um refletor de 150 mm) pedindo para brincar eu calço uma ocular 25 mm e tento localizar a Nebulosa da Tarântula. 

            Não sei se devido a a Lua , o canteiro de obras ou ao botequim eu não acho nada . Nem mesmo Beta Dourado , a estrela que indica o caminho para este alvo inter galáctico, consegui achar.

            Mas em um arroubo astronômico raro minha esposa me pergunta qual é a estrela brilhante que  se apresenta no ainda baixa no horizonte sueste. Olho e rapidamente realizo que é Canopus. Falo um pouco a respeito e a cara metade volta ao  seu habitual desinteresse pelo papo astronômico.

            Como ela ( Canopus)  já enquadrada na buscadora resolvo fazer algumas fotos da mesma. Fotografar estrelas brilhantes é sempre divertido . Não se faz necessário exposições muito longas e com o Newtoniano elas sempre apresentam " Spikes"  interessantes.

            E assim faço varias fotos utilizando diferentes asas e tempos de exposições.

            O alinhamento polar é , no máximo, uma aproximação.

             Como fotografei através de uma tela de proteção existe um efeito semelhante a um prisma que destrói os belos spikes que o Newtoniano realiza nas fotos.

Canopus

            Mas se por um lado este efeito atrapalha as fotos ele  revela cores que me levantam uma suspeita. Será que estrelas diferentes apresentam cores diferentes quando submetidas a este "prisma" de nylon ?

            Um experiência científica presume um certo controle. E aí a porca torce o rabo.

            Mas se  for um "ensaio de experiência"?

            É tudo que posso oferecer aos caros leitores ( pronto perdi os leitores "caxias"...) .

            Então resolvo testar a "hipótese". Coloco o Newton em posição e enquadro Alpha  Centauro. É  uma péssima opção. Trata-se de uma estrela dupla das mais manjadas. Mas sua altura no horizonte garante pelo menos alguma semelhança com a posição de Canopus. Só para constar o seeing estava bem ruim e não a resolvi ( separar as duas estrelas componentes...) nem com uma ocular 5 mm.  Mas mantendo um mínimo de dignidade eu utilizo a mesma asa e o mesmo período de exposição. E  assim o controle.


Alpha Cen


            Acontece que o ângulo entre o telescópio e a tela nunca será idêntico e assim consigo o  efeito de prisma mas o padrão dos mesmos é bem diferente.

            Para melhorar as coisas eu faço fotos respeitando os mesmos parâmetros usando Beta Centaurus . E Consigo padrões mais semelhantes que com Canopus.   


Beta Cen



            Com o auxilio do PhotoShop separo  os "arco iris" obtidos com cada uma das estrelas que foram submetidas ao "Prisma de       Nylon" ( Espero que estas me perdoem...).  E eles são diferentes. 


Da esquerda para direita: Alpha Cen , Canopus e Beta Cen. Percebe se claramente a diferença entre Canopus e Alpha. Em Beta cen ( a foto maior)  não se percebe muita coisa...  


            Lógico que não espero utilizar os resultados para determinar as composições químicas de cada uma das estrelas envolvidas. Afinal creio que o método utilizado seja proibido pela convenção de Genebra. Mas que foi divertido isto foi. E se não foi uma "experiência" foi um bom ensaio...

            A espectrografia é uma das ferramentas mais poderosas para o estudo das estrelas. Augusto Comte , o pai e a mãe do positivismo, certa vez disse que nunca seríamos capazes de determinar do que seriam feitas as estrelas . Graças a espectrografia isso tornou-se  uma afirmação que o autor deve se arrepender...



Comte


            Agora vamos falar a sério.

            E começar pelo começo é sempre um bom começo e assim vamos falar de Canopus.



            Canopus é uma estrela austral por excelência. Antes de se tornar lugar comum  a presença de bussolas em embarcações os pilotos a improvisavam como estrela polar ( desde que ao sul suficiente para vê-la). É a segunda estrela mais brilhante do céu.  

            Uma lenda que passeia por aí e que não achei nenhuma confirmação diz que Canopus já foi a estrela mais brilhante nos céus terrestres em três diferentes épocas ao longo dos quatro últimos milhões de anos. Outras estrelas aparecem como mais brilhantes durante relativamente curtos períodos de tempo durante os quias elas aproximam-se o suficiente para desbancar a grande dama. Há cerca de 90.000 anos Sirius se aproximou o suficiente para isto e pretende permanecer assim pelos próximos 210.000 anos. Mas em 480.000 anos Canopus voltará ao seu posto e permanecerá lá por 510.000 anos. A história é bastante suspeita mas é interessante suficiente para ser contada. Mesmo a Wikipédia avisa que isto é duvidoso. E minha velha Brittanica ( que ocupa toda a estante de meu corredor) não fala nada a respeito...

            De qualquer forma Canopus é a estrela intrinsecamente mais brilhante em um raio de 700 anos luz da Terra.

            Canopus é uma super gigante do tipo espectral ( olha o espectro aí de novo) F0.II ou F0. Ib ( Ib significa que é uma super gigante "menos luminosa")   e este tipo estelar é raro e pouco compreendido.  Um tipo que pode estar evoluindo em seu caminho rumo a uma gigante vermelha ou estarem extremamente distantes disto. Isto tornou extremamente difícil determinar qual seria o real brilho de nossa dama. E determinar sua distância. Esta só foi realmente confirmada nos anos de 1990 pelo Hipparchos ( The High Precision Parallax Precision Satellite). Atualmente sabemos que ela se encontra  a 310 anos luz da Terra (96 parsecs) . Anteriormente os palpites iam de 96 até 1.200 anos luz.

            Ela brilha 20.000 vezes mais que o sol.

            Estivesse ela no local de nosso Sol e sua corona se estenderia até 90% da órbita de Mercúrio.

            A temperatura de superfície é de 7350 K. Sua cor é  branco amarelado ou  amarelo esbranquiçado. Eu voto na segunda opção...

           

            Ela já foi descrita e nomeada por diversas culturas. Mas seu nome mais comum é associado aos gregos.

            Canopus é hoje a estrela Alpha de Carina. Carina já foi parte da antiga constelação de Argos Navis ( que foi esquartejada por Lacaille). Logo fazia parte do Navio que levou os Argonautas em sua missão. Mas o nome Canopus vem de outra lenda marítima grega .

            Canopus foi o piloto do navio do Rei Menelau que foi em resgate de Helena de Tróia .

            Outro nome comum e esporadicamente empregado é Suhail. Este de origem islâmica. É importante ressaltar que os antigos gregos não viam Canopus.   

            Quase todas as civilizações que residiram em latitudes austrais o suficiente possuem um nome e uma lenda para esta brilhante estrela. E assim podemos citar os Navajos , Chineses, Guaranis , Egípcios e mais um monte de civilizações e etnias...