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sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Back in Black: Aporema de Verão 2020 1a parte

 


                    2020 foi um ano triste. Quase não escrevi. Provavelmente fui tomado pelo espírito sombrio que anda por Sucupira e os textos do Nuncius costumam ter muitas palavras. Mas finalmente criei coragem e mesmo sendo acusado de ser comunista por muitos ex-amigos achei melhor dar as palavras o seu verdadeiro significado e através de um site comunista que faz seu dinheiro sem possuir um metro quadrado de terra aluguei minha casa (própria) a preço de ouro para outros comunistas que pagaram em dólar e com isto fui exercitar meu comunismo nas terras de José Eustáquio. Nada é mais comunista que observar estrelas na Armação dos Búzios e depois contar a história. Aliás História é uma matéria desnecessária e perigosa. Tão inútil como a filosofia.  Deve ser culpa de um jesuíta (comunistas ferrenhos...) que disse: As palavras hão de se fazer estrelas. Se chamava padre Antônio Vieira e foi anterior a Silvano Silva e seu Catálogo JESS de objetos estelares. Seu busto vigia a entrada da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.  Alis Gravis Niu. Com asas, nada é pesado.

                Dessa vez a Aporema (festa pagã e de origem indígena. Uma coisa horrorosa de se comemorar nos ideológicos dias atuais ...) seria de caráter binocular e fotográfico. Afinal, nós comunistas, descobrimos que a qualidade ótica das lentes da Pentax é infinitamente superiora aos espelhos made in china... E assim partimos eu, a cara metade e as crianças (uma já não mais tão criança, mas ainda a ponto de saber tudo), minha buscadora 10X50 mm e um velho Vanguard 10X50mm para iniciar nossa quarentena na segunda onda da série. Primeiro em Búzios e depois em Lumiar. O Rio de Janeiro foi tomado pela ignorância e é o maior centro de contágio de COVID no mundo.

                Chegamos e o tempo se encontrava fechado. Mas finalmente o vento nordeste bateu forte e na noite de 14 para 15 de dezembro lá estava eu, com meu novo intervalometro (made in china) pronto para fotografar. Uma tremenda mão na roda. Nada mais de ter que montar o computador do lado de Mlle. Herschel (minha montagem equatorial HEQ5. Também Made in China. Esses comunistas de olho puxado são fodas...); é só colocar a câmera em modo bulb, informar o tempo de exposição, intervalo das fotos e quantas fotos você deseja e o resto acontece sozinho.

                Realizei o alinhamento polar através de   meu método patenteado e utilizando Achernar como estrela guia. As 19:49:49 eu tinha o telescópio alinhado.  Coloquei a 300 mm na câmera e essa montada em Mlle. Herschel. Apesar de ter a impressão de que a noite ainda estava bem enevoada decidi tentar caçar por nebulosidades. As Hiades serviram apenas como um teste para o alinhamento e para checar a precisão do Go-to. Afina utilizei o menu de “1 star align”. Acreditava que meu alinhamento polar estava preciso. Com a cabeça checando quase cravada na Hiades vi que estava certo. Uma das vantagens de utilizar uma lente 300 mm em vez de um telescópio com 1200 é que a precisão e o acompanhamento se tornam bem mais fáceis. Percebi que poderia utilizar 1 minuto de exposição. Mas exposições muito longas, as vezes, sofrem muito com a poluição luminosa. Acabei decidindo por exposições de 45 segundos apenas. Da Hiades passei para as Plêiades. Só alvos fáceis. Depois achei que era hora de tentar acertar as contas com a Nebulosa da Roseta. Ngc 2244. Um alvo lindo e que nunca havia fotografado. Só iria saber se ia conseguir extrair a Roseta depois de revelar as fotos...

                Depois de mais de 50 exposições achei que era hora de tentar uma vizinha famosa. A Cabeça de cavalo. Essa já registrei. Mas quero tentar com mais aumento. No passado a registrei com uma lente de 75 mm junto com toda banda sul de Orion. Dessa vez, com a 300, espero detalhar mais a região. O Synscan dá uma vacilada e acabo fazendo algumas fotos da área da espada de Orion. Uma rápida correção e estaciono Alnitak e Alnilam no visor e volta a derrota planejada.

                Outra aquisição que fiz foi mais uma bateria para a minha câmera.  Com isto as noites têm rendido mais.

Depois das capturas fui para o processamento. Meu sensor está imundo. E a Roseta ficou muito aquém do esperado. Há nebulosidade. Mas os filamentos e cores que eu sonhava não comparecem. Vai voltar para a prancheta. A previsão é que dia 17 será a noite mais limpa de todas. Vou gastar inteira no projeto. As duas baterias...  Mas como astrofotografia é a melhor diversão processo todas as fotos engorduradas do sensor e aqui apresento.  Não sei se vou postar o Time Lapse que fiz ( Postei...). Mas neste fica evidente a grande quantidade de nuvens altas que se disfarçavam de escuridão para mim, mas se apresentavam para o CMOS da Canon.  Astrofotografia é meio como fotografia com película. Você só sabe mesmo o que fez depois de “revelar”.


Plêiades e Hiades -28 mm f4 12 X 45 seg



Roseta borrada... 5X 55 seg 300 mm f 4


               

Horse head- desastre total... Muitas fotos em vão...

             Na noite seguinte já sabia que não seria grandes coisas. O dia inteiro com cirrus passeando sobre minha cabeça. Decidi brincar com constelações. Primeiro tento o organizar uma reunião de beldades e fotografar as Hiades e as Plêiades no mesmo recinto. Depois seu famoso assediador Orion. e depois seu Cão Maior. Deu ..., mas nada espetacular. Loop de Barnard nem pensar. Tentei ainda fotografar algumas das estrelas famosas da constelação, mas o tempo nublou de vez. Meissa teve que esperar. Há anos quero tirar uma foto decente da cabeça do caçador. Afinal é um sistema múltiplo e um aglomerado Collinder.

                Mesmo com a forte nebulosidade brinquei por horas com meu binoculo 10X50. Há anos não fazia uma sessão binocular. E assim meu filho conheceu as Hiades, As Plêiades e toda coleção de maravilhas em Orion. Um dos melhores campos para se viajar com um binoculo. Ainda tirei alguma água de pedra percebendo o Aglomerado de Rosse em Lepus. Aglomerados globulares são um divertido exercício observacional com binóculos. Pequenas estrelas que se negam a fazer foco e que com atenção revelam sua natureza. Vi ainda M 41 e outros Ngcs pela região.  Depois vim contar a noitada para vocês e processar o que capturei. Astrofotografia é a melhor diversão. Mesmo quando não revela muita coisa... Nesta noite usei apenas a 18 =50 que acompanha toda DSLR da Canon. Kit mais básico de sobrevivência em campo...Quando coloquei a Canon 70 -300 (outra pé de boi) o tempo babou geral...

A Espada de Orion. O melhor da Noite. !2 X 45 seg

A Estrela Foragida

Rising Canis major

Rising Orion - 28 mm.O sensor todo pintado de gordura...

Star trail para enganar o tempo...


                No outro dia processei tudo. E sem grandes novidades descobri uma interessante estrela escondida em lepus. Bom de se fotografar imensos campos estelares é que sempre surgirão novidades após apresentar a foto ao Astrometry. Essa é a “Runaway star”. A estrela fugitiva. Ainda nada sei sobre a foragida, mas, em breve, contarei novidades por aqui.

 O Dia promete. É a primeira manhã que não vejo um cirrus decorando o topo do céu. As 15:00 horas percebo leve nebulosidade, mas nada semelhante aos dias anteriores. Rapidamente compro a cara metade e a filha mais velha. Deposito uma grana para a esposa e dou 50 pratas para a filha e aviso que essa noite elas vão sair as 17:00 horas e só podem voltar depois das 22:00. Tem a ingrata missão de dar um rolê sem se aglomerar. Proponho que se enfurnem no Porto da Barra e se escondam em uma mesa no deck do Bar do Gordo.

Lógico que as coisas não correm como o previsto. O tempo fecha completamente as 17:00 horas, a madrinha da minha filha, que é também a amiga mais pé de cana da cara metade aparece e acabo eu e o meu pequeno indo parar escondidos numa mesa do Bar do Gordo para comer pastel e tomar cerveja. Ela rapidamente arruma uma amiguinha e eu fico de papo com um casal de aposentados. Mantendo uma distância segura.  Melhor que aturar o papo de maluca da doida que baixou lá em casa. Seu projeto para o dia seguinte incluía ir dar um mergulho na Praia dos Ossos e depois visitar o tumulo de um amigo morto no cemitério que fica junto da Igreja que divide a paria do canto da Praia dos Ossos. Muito bucólico...

 Ao voltar para casa o tempo começa a abrir e eu resolvo ficar brincando com minha buscadora com as luzes acesas e as meninas enchendo a cara. Por incrível que pareça começo a achar um monte de abertos espalhados pelo céu e a região de Orion está espetacular. Era a melhor noite até o momento. Contrariando tudo que já foi falado e escrito consigo realizar um belo tour astronômico e ainda realizo registros aceitáveis de tudo que observei pela buscadora com luzes acesas e bar funcionando. As fotos da noite acabam sendo um belo exemplo do que você consegue observar com uma buscadora 10X50 em céus com Bortle entre 6 e 7.  Bortle é uma escala de poluição luminosa. Ao localizar um exemplar do “O Sul Profundo: O Catálogo Lacaille” na mesa da sala começo uma pequena Maratona Lacaille com resultados bem aceitáveis. Os objetos de Lacaille são bem brilhantes e excelente ideia para noites não tão generosas. Certamente o filé mignon do céu austral.

                Nem tudo são rosas. Mlle. Herschel apesar de estar centrando todos os alvos começa a fazer manha.  Realizo todo o procedimento de alinhamento do go-to pela rotina de “1 Star Align”. Ela vai lá e crava o objeto buscado. Depois de minutos fotografando esse (sempre 12 X 50 segundos) e peço para ela se encaminhar para outro alvo. Nada acontece. A cabeça não se move apesar do hand controler me dizer que o movimento está acontecendo. Desligo a cabeça e refaço todo o processo e tudo dá certo de novo. Aí faço as fotos e novamente o mesmo problema. É um saco ter que informar tudo de novo para o Synscan. Especialmente a hora com precisão de segundos. Isto acontece umas cinco vezes. Já começo a me irritar quando do nada ela começa a funcionar normalmente e com precisão incrível. Vai entender que se passa pela cabeça de uma mulher...

                Já mais de madrugada consigo inclusive perceber M 35 a olho nu. Sinal de dia ensolarado. M 44 também é um gradiente evidente.  A essa altura já tinha apagado luzes, fechado o botequim e colocado os “pés inchados” todos para dormir...

                Dia 17, segundo a previsão seria o mais promissor para a observação. Mas amanhece bem nublado e fica assim o dia todo.  M 35 e a previsão do tempo parecem ter sidos enganados por algum bater de asas de borboleta na Tailândia. Aproveito para levar o pequeno para dar um mergulho em Manguinhos e contar tartarugas marinhas. Vimos 8. E chegamos bem perto de 2 delas em um demorado mergulho. Depois Anchova na brasa e venho escrever as linhas que vocês estão lendo e tratar as fotos da noite anterior. Nada mal para uma noite “perdida”. 11 DSO`s ... M 41 em bela composição com Sirius, M 47 e 46, M 93, Ngc 2516, 2451,2477,3228, IC 2391, 2488 (todos membros do catálogo Lacaille) e de lambuja M 35 e 44.

                Todas as fotos são resultado de 12 exposições de 50 segundos iso 1600 com a 70-300 mm @5.6 f.  Fotografar usando a zoom é muito prático. Para alinhar Mlle. Herschel você pode começar com 70 mm e ir centralizando as estrelas guias até chegar em 300 mm.

                Aqui em Búzios é bom que consigo fazer o alinhamento polar de “ouvido”. Tive que mexer o observatório de lugar e não queria ter que realizar o alinhamento polar de novo. Nem pelo meu preguiçoso método patenteado. Mesmo assim consegui um acompanhamento e precisão suficientes para 300 mm. Isto usando o menu de “1 star align” no Synscan. Não podia perder a chance de contar um pouco de vantagem. Afinal foi uma noite de “observação de botequim” .... Nem todo astrônomo é Caxias.   Mesmo porque observar usando apenas uma buscadora 10X50 mm não é exatamente “Rocket Science”.  Quanto a tratamento das imagens usei o DSS para empilhar e o Photoshop para esticar... Abertos e campos grandes sem nebulosidade envolvida não “precisam” da PixInsight e o trabalho envolvido é excessivo para pela melhora obtida no poderoso programa. O único recurso que usaria do PixInsight seria a remoção automática de gradiente de fundo.  E o objetivo final é apresentar o que você vai observar visualmente. E mesmo assim você está sendo enganado aqui. Pela buscadora, na noite brumosa, a maioria dos aglomerados aqui apresentados não chegam a se resolver e explicam bem o nome nebulosas que possuíam na antiguidade. Minha buscadora é uma ótica infinitamente superiora ao equipamento utilizado por Lacaille no séc. XVIII e mesmo por muitos dos telescópios utilizados por Messier. E as minhas lentes não tinham nada sequer semelhante mesmo alguns séculos depois...  A 70-300 mm da Canon é inferior a 300 mm da Pentax. Tem mais cromatismo. Mas nada que comprometa muito. Observo e fotografo à lazer.

                Outra interessante reflexão: Com o recurso de drizzle no DSS (Deep Sky Stacker) consigo imagens muito semelhantes as que obtenho com o newton (meu refletor 1200 mm f8) fotografando com uma lente 300 mm em f 5.6 (com a Pentax consigo trabalhar em f4 com pouquíssima aberração cromática. E na verdade, como o sensor da T3 não é full frame, o distancia focal é na prática equivalente a 480 mm. (X 1,6). Com isto o Newton se tornou um recurso que só uso quando quero observar visualmente. Sua qualidade ótica não chegas aos pés das lentes que tenho. E O tamanho do embrulho fica bem reduzido usando lentes...  Somente em caso de objetos realmente muto pequenos (Nebulosas planetárias são a primeira coisa que me ocorre) é que acho que o esforço de alinhar com precisão nanométrica, apanhar para fazer o foco e trabalhar em f8 se justificam para utilizar o Newton em astrofotografia. Uma grande aquisição para o newton seria um focalizador dual speed... fazer foco com cremalheira é de fu...  Um sistema de acompanhamento seria importante também, mas com o Guedes achando bom o dólar a 5 e tal e importando soja fica difícil...

                Outra coisa legal é que trabalhando com campos mais abertos descobrimos vários aglomerados duplos. E, definitivamente, isso é um espetáculo celestial. Quase enredo de escola de samba. E assim M47 e M 46 formam um par muito charmoso bem como 2541 e 2477 também fazem bonito.  M 35 também tem um companheiro escondido...

M 47 e M 46 Plano aberto

2 drizzle

300 mm f 5.6 12 X 45 seg

 


                Ngc 3228 é um aglomerado mais charmoso de ser observado com mais aumento e merece o newton. Mas é um desafio para astrônomos experientes perceberem junto a buscadora e binóculos. A arte da caça não pode se perder em tempos de comodidades tecnológicas.  Ngc2190 é um objeto do projeto “Tudo que Existe”. Sua observação binocular é um exercício para um “Deep Sky Die Hard”. Uma expressão americana para viciados em céu profundo. Para astrônomos ocasionais é uma missão sem sentido. Com mais aumento é um aglomerado aberto pequeno. Daqueles que sobraram para o John Herschel.  Nem Lacaille nem Dunlop perceberam sua existência.  Seu vizinho Ngc 2925 é um pouco mais fácil. Uma espécie de aglomerado duplo para junkies observacionais...

3228 -3 drizzle 300 mm 

3228 -Wide field. É bom lembrar que ao se observar de binoculos ( ou junto a buscadora) é por esse tipo de coisa que deves procurar...




Só para viciados... 3 drizzle 300 mm


                IC 2488 é um favorito. Mas dessa vez o foco me traiu. É importante você checar o foco de tempos em tempos durante a noite. Ele acaba “escorregando” um pouco depois de várias fotos.



                M 41 é o objeto mais tênue registrado na antiguidade clássica. E um espetáculo divertido de binóculos. Apresenta caras diferentes cada vez que você o observa. Em noites muito boas ele chega e se resolver quase na integra. Dessa vez era um esfuminho onde, de tempos em tempos, uma estrela mais brilhante se acendia para apagar novamente. Provavelmente a brilhante estrela avermelhada que marca seu centro. Na foto consegui colocar Sirius e o aglomerado decorando o mesmo campo. Na buscadora isso é impossível.


M 41 3 drizzle

300 mm f 5.6 12 X 45 seg 4 darks


Ngc 2516 é amigo de binóculos e se resolve bem. Fácil de achar e resolver é um DSO ótimo para iniciantes. IC 2391, a Pequena Cassiopéia é do mesmo naipe.

IC 2391 - a pequena cassiopéia

2516 3 drizzle

Wide field


                M 35 é espetacular em binóculos. Mas assim com M41 o que vc vai ver varia de noite para noite e de lugar para lugar. Dessa vez era um grande esfuminho onde algumas estrelas tentavam se acender com visão periférica. Flicando como vagalumes.  Seu discreto parceiro demanda atenção e é um esfuminho discreto e que muitas vezes fica perdido no quadro. Mas com paciência e se sabendo de sua existência comparece quase sempre.




        M 44 fechou a noite. O Presépio. É um alvo binocular por excelência.  Por mais paradoxal que possa soar eu acho M 44 mais fácil de se perceber que a própria constelação de Câncer onde o Presépio se esconde bem “at plain sight”.

M 44 - O Presépio. Bem natalino... 


 Por fim na madrugada somos informados que Búzios decretou um novo lockdown devido a Covid. Nada como uma logística alemã na saúde... Enquanto no Peru se inicia a vacinação aqui os casos não param de subir e quem sabe um dia quem quiser vai poder se vacinar. Afinal somos uma democracia. Ser burro é garantido pela constituição e política de estado.

                As aventuras do Nuncius Australis vão seguir por aqui ao longo do mês. Espero ter mais e melhores noites ao longo do exilio familiar auto imposto. Se clima colaborar a perna ne Lumiar vai permitir que eu acerte as contas com a Roseta e revisite a Horse Head e a Chama. Em caso de intervenção divina vou tentar achar a Bruxa que habita entre Rigel e Cursa. Manterei informados...

Viva lá revolucion.

P.S. Esqueci da visita a M 93...








domingo, 19 de janeiro de 2014

As Plêiades e a Inveja de Messier

          

          Não sei se o conceito que vou apresentar agora tem algum valor acadêmico. Mas aqui vai: A transição entre a chamada pré-historia e a História tem como um marco a invenção da escrita.  Eu sei que desta forma certas culturas que coabitam comigo ainda se encontram na pré-história . Mas...
            M45 ( o nome "moderno" das Plêiades) é provavelmente um dos DSO´s mais antigos conhecidos pela humanidade. Na verdade acredito que mesmo em tempos que ancestrais dos atuais Homo Sapiens caminhavam sobre a terra este grupo de estrelas já devia chamar-lhes  atenção. Em períodos históricos e com alguns passos evolutivos tendo sido dados seus registros pipocam em quase todas as culturas da antiguidade. Com a invenção da escrita e das maravilhas que esta permitiu os registros históricos mais antigos que encontrei sobre este aglomerado aberto remontam há 2.300 anos AC. Babilônia.... Em seus catálogos estelares eles chamam o grupo de MULMUL. Um nome muito apropriado. "A estrela de estrelas".  Apesar de serem os criadores de uma das  primeiras escritas eles ainda não tinham descoberto o que viria a ser chamado  de Aglomerados abertos e depois ainda de DSO´s           
          Depois são cantadas em verso pelos gregos. E como quase tudo em nossa cultura ainda Greco Romana ganham seu nome atual mais prosaico. As Plêiades.
            Mas este pequeno grupo de estrelas relativamente próximos de nós é também  descrito pelas mais diversas culturas e por suas respectivas mitologias.
            Mitologia não nos diz nada enquanto este Blog se dedica a Astronomia . Mas como aqui também se conta muitos "causos" achei importante fazer um levantamento das diferentes  histórias que cercam este DSO de muitas lendas.
            E assim rezam as Lendas que mais gostei. Infelizmente um levantamento completo destas seria um trabalho para um outro Ícone da Cultura Grega. Hércules...
            Tuaregues são os habitantes do deserto no Norte da Africa. Para eles as Plêiades são chamadas de Cat Ahad .  " As Filhas da Noite". Um provérbio Berbere ( Grupo de Povos que compartilham uma língua semelhante e que habitam este mesmo  Deserto no norte de Africa. Entre eles os Tuaregues)  diz o seguinte :
"Cat ahăḍ as uḍănăt, ttukayeɣ ttegmyeɣ, anwar daɣ ttsasseɣ. As d-gmaḍent, ttukayeɣ ttegmyeɣ tabruq ttelseɣ."
"Quando as "Filhas da Noite" se poem eu acordo olhando para meu cantil de couro de Carneiro para  algo beber. Quando as "Filhas da Noite" nascem eu acordo procurando roupas para vestir".
            O sentido é bastante obvio. Quando as Plêiades se poem a oeste junto com o sol é porque se aproxima o calor. E quando estas começam a nascer ao leste é tempo de frio...
            Maomé diz ter contado 12 estrelas no nosso aglomerado. Isto faz do Profeta um dos humanos de visão mais aguçada de que tenho noticias. Pessoas com excelente visão contam 7 estrelas no agrupamento. Walther Houston ,que escreveu o coluna Deep Sky Wonders por décadas na revista "Sky&Telescope", dizia poder contar 14 estrelas no aglomerado. Eu nunca passei de 4. E a maioria das pessoas que conheço só percebe uma nebulosidade na Área.
            Na cultura Tailandesa o Aglomerado é conhecido como ""ดาวลูกไก่
                .Isto se pronuncia mais ou menos assim "Dao Luk Kao".  Algo como a "Família de Galinhas Estelar". A Lenda nos conta que um casal de idosos morava em uma floresta afastada e  que eles criavam uma família de galinhas. Uma Galinha Mãe e seis pintinhos. Certa dia receberam a visita de um monge que estava em uma peregrinação muito importante.  Algo haver com as praticas do Dhutanga. Com medo de não ter nada digno para servir ao monge eles decidem fazer uma canja com a galinha mãe. Esta percebe a situação e corre para contar aos seus pintinhos. Mas retorna . Afinal este era seu destino e ela e seus pintinhos eram bem tratados pela casal de idosos.  Desta forma quando sua mãe foi para o fogo os seis pintinhos se atiraram neste e morreram juntos com sua mãe. Os deuses ficaram muito impressionados com tanto carinho e devoção que colocaram os sete nos céus.
            Os deuses tailandeses e gregos devem ter uma visão semelhante. Pois ambos contaram sete membros nas respectivas famílias cósmicas.
            As Plêiades , segundo a lenda grega, são reconhecidas como  Sete Irmãs. São as filhas do titã Atlas  com a Ninfa dos Mares Plêione. todas muito bonitas foram sempre galanteadas pelos principais chefões do Olimpo.
            Maia , a mais velha, foi a mãe de Hermes em um caso com Zeus.
            Electra foi a mãe de Dardanus. Zeus de Novo.
            Taygeta foi a mãe de Lacademus. Zeus é muito safado...
            Alcione foi a Mãe de três filhos de Poseidon.
            Celaeno foi mãe de Lycus. Poseidon também não valia nada...
            Sterope teve Oenomaus com Aries.
            E a mais jovem Merope foi prometida a Órion.
            Mas  Órion não negava a raça e começou a perseguir todas as Plêiades.
            O pai destas tinha sido condenado a carregar os céus por todo o sempre e Zeus  com pena deste e querendo  sacanear  Órion primeiro as transforma em Cisnes e depois as coloca no céus juntamente com seu Pai. 
             O nome Plêiades , segundo Burnham,  deriva da palavra grega para "Velejar". E que elas serviam como um meio seguro para se determinar estações seguras para navegação no Mediterrano. Outra possibilidade é que o nome derive do nome da mãe das mesmas: Plêione...


            Como Órion continua até hoje a perseguir as moças localizar as Plêiades é tarefa simples. Localize as Três Marias. Estas são o cinturão de Órion. A linha ligando as Três Marias em direção a norte vai apontar para Aldebaran. Uma estrela bem vermelha e que marca o olho de Touro. Prosseguindo nesta mesma linha ainda rumo norte você vai perceber rapidamente uma região enevoada em uma área relativamente vazia do céu. São as Plêiades.
            Você consegue perceber quantas estrelas ?  Não se preocupe se só perceber a nebulosidade.  Pela buscadora o aglomerado se resolverá facilmente. As Plêiades são um grande alvo para Binóculos. Se espalhando por mais de  30´ de grau ( algo como uma lua cheia) as meninas são  bastante esparramadas para a maioria dos telescópios.
            Na verdade esta caracteristica delas acabou por fazer que este post demorasse anos para acontecer .  Há muito tentava tirar uma foto que fosse digna da beleza das ninfas cósmicas. E que capturasse algo da nebulosidade que é associada a este DSO.  Isto é bastante difícil com o uso de meus telescópios. Mas finalmente tive uma luz. Por que não utilizar uma lente tele objetiva nesta missão?  E assim foi. 
            A foto que  abre este post é o resultado de diversas exposições de 15 segundo feitas com uma Canon T3 calçada com uma zoom 75-300 mm @ 100 mm. Com f-4.0 de diafragma a nebulosidade envolvida ficou bem obvia . É claro que esta foto passou pela tradicional peregrinação até chegar ao resultado final. Diversos light frames (fotos "comuns") foram combinados com cerca de 6  dark frames ( frames negros destinados a reduzir o ruido em exposições muito longas)  e visitaram o Deep Sky Stacker  e o Photoshop. Desta vez como o ruido foi menor devido a ASA mais baixa (1600) utilizada eu dispensei o " blur" do Noiseware... 
Nesta versão da foto um erro de ajuste no DSS acabou com a natural coloração azulada da Nebulosidade ao redor do Aglomerado.

            Agora que já consegui falar das lendas e um pouco de astro fotografia vamos falar um pouco de astronomia e apresentar a parte dita séria desta história.
            M 45 , Plêiades ou as Sete Irmãs são um aglomerado Galáctico localizado entre 390 e 460 anos luz do sol. Em escalas  astronômicas isto é logo ali. Composta , principalmente, por estrelas azuis extremamente brilhantes e formadas a cerca de 100.000.000 de anos.  Se percebe muita nebulosidade na área (especialmente em fotografias) mas esta não é fruto de restos da nebulosa de onde o aglomerado se formou . Embora no passado o aglomerado e a nébula fossem associados hoje é sabido que é apenas um encontro casual e que as distancias e velocidades aparentes  confirmam origens distintas. Simulações computado rizadas levam a crer que as Plêiades formaram-se em uma área semelhante a atual Nebulosa de Órion (m 42). Estima-se que o aglomerado se manterá coeso por pelo menos mais 250.000.000 anos.
            Como já contei e vou contar de novo  as Plêiades são conhecidas desde a pré história e posteriormente citadas na Babilônia , por Homero (750 A.C,) ,Amos ( ~750A.C.) e Hesíodo ( 700 A.C.). Posteriormente elas foram crescendo ao longo da história. As Sete Irmãs proliferaram mesmo em tempos pré- telescópicos. Mostlin as desenhou com 11 membros e o desenho é fidedigno. Posteriormente Kepler deixa registros falando em 14 membros. Hoje é sabido que o aglomerado possui mais de 500 membros e se espalho por mais de 60´de firmamento.
            As Plêiades oferecem um pequeno quebra cabeça em evolução estelar. Algumas estrelas que são fisicamente associadas ao aglomerado apresentam características de anãs brancas. Mas com apenas 100 milhões  de anos como estrelas que precisam de bilhões de anos para existirem podem estar lá? Alguns processos foram propostos e parece que a charada foi resolvida. Estrelas do Tipo O devido a grandes velocidades de rotação acabara por expelir suas camadas mais externas e mantendo-se abaixo de Chandrasekhar passaram por fases como nebulosas planetárias e os núcleos estelares restantes seriam as tais anãs brancas que encontram-se escondidas no meio das jovens gigantes Plêidianas.


            Sua classificação pelo sistema Trumpler também é alvo de disputa. Segundo Kenneth Glyn jones ela seria T II ,3, r. E segundo Gotz e o Sky Catalog 2000.0 elas seriam T I , r,n . Isto significa que suas estrelas se destacam do fundo e são ou muito ou moderadamente concentradas em direção ao centro do aglomerado, apresentam uma grande variedade de magnitudes e são ricas ( mais de 100 membros). O simbolo "n" significa nebulosidade envolvida. como já falamos é hoje aceito que a nebulosidade -e um encontro casual . Mas de qualquer forma as nebulosidades em volta das estrelas membros do aglomera possuem diversos catálogos associados . As estrelas das Plêiades e suas nebulosidades associadas podem ser vistas aqui:
            Observações mais recentes ( desde 1995) indicam a presença de anãs marrons escondidas entre as irmãs...
            As Plêiades são melhor observadas com binóculos. Ou usando as menores magnificações que você tiver disponível em seu telescópio e de preferência com oculares com um grande AFOV. ( Aparent Field of View)..


            Com tantas história as Plêiades não conseguiram se manter afastadas de fofocas nem na Academia Francesa de Ciências. A mais famosa é associada a dois dos sócios aqui do Nuncius Australis.
           Messier , como muitos cientistas, era um dono de um ego considerável. e desta forma não queria lançar a primeira versão de seu famoso catalogo de objetos para "não serem observados" com menos entradas que o catalogo de nosso querido Abbe Lacaille. E desta forma acrescentou 6 entradas que jamais poderiam ser confundidas com "falsos cometas".
            M40 é um estrela dupla e a entrada mais sem graça do catalogo.
            M41 é conhecida deste a antiguidade clássica e mesmo Galileo já o tinha resolvido em estrelas.
            M42 é  conhecida desde a pré história.
            M43 é parte de M42 e um ato de desespero...
            M44 Já era  conhecido até pelo astrólogo da corte da Etiópia...
            M45 Dispensa comentários .  É uma das entradas mais controversas do catalogo
            Com estas ultimas entradas a primeira versão do catalogo Messier foi lançada com mais duas entradas que Lacaille em 1771.  Posteriormente o Catalogo foi expandido pelo próprio Messier . Mas isto já é outra história.
            A Inveja é uma M....