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terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Astronomia Binocular e muitos Aglomerados Duplos

 


          Eu tento ter por hábito realizar pelo menos uma grande sessão observacional por estação. Neste verão fiz as coisas um pouco diferentes. Indo viajar durante muito tempo, pulando de uma locação para outra no meio do período e em um carro muito pequeno me vi obrigado a abrir mão de levar o Newton junto com a família.  Optei por levar Mlle. Herschel (minha montagem equatorial HEQ 5) para servir de base para minha câmera. E diversas lentes.

                Isso iria garantir a parte fotográfica da expedição.

                Sempre digo por aqui que o astrônomo amador não pode cair na armadilha de só fotografar os céus. Você tem que ver com seus próprios olhos. E desta forma coloquei no já super socado veículo um  Vanguard 10X50 mm. Um modesto binoculo.

Astrofotografia binocular é um exercício que todo amador deve praticar. Ela vai te ensinar a ver. Com binóculos diferenciar um globular de estrela pode ser um divertido e útil exercício quando for partir em busca de galáxias pelo céu. O catálogo Lacaille, por exemplo, foi todo “descoberto” por equipamentos muito inferiores ao Vanguard. E a primeiro registro de uma galáxia fora do grupo local foi feito por Lacaille (M83). Embora ele não soubesse disso e galáxias fossem um conceito ainda bem distante...

Outra qualidade é que com campos enormes (5 ou mais graus) você abarca porções generosas do céu. Desta forma grandes abertos como as Plêiades, Hiades e IC 2602 são mais bem observados com binóculos que com grandes aumentos telescópicos. Eu, embora não tenha levado meu 15X70 acho ele um dos melhores instrumentos para observações descompromissadas.  O campo com cerca de 3,5º abarca muita coisa e o maior aumento ajuda a destacar DSO´s mais discretos e tímidos.  Om o 10X50 é importante atenção e mais treino vai ajudar muito.

Neste post vou apresentar diversos aglomerado e regiões que com um binoculo você vai ser capaz de observar 2 ou mais aglomerados (e ou nebulosas) com o uso de um 10X50 (e geralmente com o 15X70 mm também. Galáxias são alvos difíceis para o iniciante com pequenos aumentos. Mas em Virgem e Leão são diversas as áreas onde você vai conseguir reunir várias em um único campo (mas aí até mesmo com telescópios ...). Não vou abordá-las. Fica para uma próxima vez.






M 47 e 46


A primeira dupla a ser apresentada é M 47 e M 46. São um clássico e demonstra como dois aglomerados abertos podem ter caráter tão visual tão distinto. enquanto M 47 é um oferecido que vai logo saltar a vista e se resolver em sua maioria M 46 vai ser bem mais discreto e demandar mais carinho e visão periférica e se apresentar como uma pequena nebulosa querendo se resolver em algumas estrela que “flicam” na sua visão.  Na verdade, no campo apresentado estarão ainda mais DSO´s. Mas estes terão caráter estelar e serão bem discretos. Com o dever de casa bem feito você vai perceber que algo além se passa por ali. Mas o dois Messier roubam a cena.  Em Puppis

Na observação binocular é importante lembrar que muitos abertos serão esfuminhos sem nenhuma resolução. Mas que evidentemente são mais do que parecem ser...





A seguir outa dupla que roubou a cena na última Aporema foi Ngc 2451 e 2477. Também na Popa da antiga constelação de Argos.  No mesmo estilo que os anteriores. Um mais dado e o outro mais discreto. Ngc 2451 parece até um campo rico em estrelas. Já Ngc 2477 é um esfuminho mais delicado e que demanda carinho na observação. Mas com uma grande área. É um de meus abertos favoritos em qualquer equipamento.





Seguindo a Via láctea e saltando o cão Maior chegamos a Monoceros, o Unicórnio. Aqui um campo riquíssimo. Tão rico que é conhecido como o Paraiso Pirata tamanha a coleção de tesouros que vai se apresentar. No Mesmo campo teremos dezenas de DSO´s. todos envoltos em nebulosidade obvia em céus escuros. M 50 é o mais obvio desses, mas você, com visão periférica, vai perceber vários outros abertos dignos de nota.  IC 2177 pode parecer algo estelar. Mas se percebe que é um local especial mesmo sem muito esforço. Ngc 2335 é um esfuminho obvio assim como 2343. Ngc 2327 não aparece. Para nós ele parece ser uma estrela em um falso aglomerado bem obvio, mas que não é um DSO´s de fato. Mas que parece, parece.





Seguindo rumo a Orion temos a espada do caçador. Com M 42 como seu coração ne mesmo campo ocular podemos ver vários outros DSO´s. Um dos campos mais belo de se observar de binóculos. Não vou sequer entrar em detalhes já que a região é muito manjada. Se você está se iniciando passe algumas horas passeando por ali e descobrindo quem é quem. É fácil, educativo e belíssimo.  Aliás a constelação inteira de Orion ´um programa binocular obrigatório e impagável. Veja mais aqui.





Last but not Least chegamos a Gêmeos. Aqui um dos mais famosos e maiores abertos de todos. M 35. Mas o mais legal é que geralmente quando se observa M 35 você mesmo com telescópios vai estar vendo Ngc 2158. Mas ele acaba sendo engolido por M 35. Binóculos realçam mais sua existência. já que como não o resolvem não o tornam apenas um anexo ou prolongamento de M 35. Ele será um discreto esfuminho no campo. É interessante saber que este, muito mais distante, tem o mesmo tamanho real de M 35. Seu diminuto e discreto aspecto é fruto da distância. Ele fica a mais do dobro da distância de nós.

Existem diversos outros campos binoculares onde você consegue achar diversos DSO´s simultaneamente.

Observar de binóculos é uma imensa diversão. E você consegue fazer um “body count” enorme. Já completei a Maratona Lacaille diversas vezes com meu 15X70 mm. De telescópio somente uma... A navegação binocular é mais fácil e mais confortável. Se você conhece bem o firmamento dispensa (na maioria dos alvos) até mesmo um mapa.  

Ainda que não idênticas, as áreas cobertas com a 300 mm que foi utilizada nas fotos aqui apresentadas são muito semelhantes as áreas abrangidas pelo meu 15X70 mm. Acho que assim e em conjunto com os mapas o Stellarium (que simulam o 15X70 mm) servirão como um excelente guia para quem quiser realizar o passeio acima descrito. Com o 10X50 não muda tanto. Os campos ficam maiores e os DSO´s menores mais vai estar tudo lá. Especialmente se você, que leu o texto e fez o dever de casa souber onde olhar.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Back in Black: Aporema de Verão 2020 1a parte

 


                    2020 foi um ano triste. Quase não escrevi. Provavelmente fui tomado pelo espírito sombrio que anda por Sucupira e os textos do Nuncius costumam ter muitas palavras. Mas finalmente criei coragem e mesmo sendo acusado de ser comunista por muitos ex-amigos achei melhor dar as palavras o seu verdadeiro significado e através de um site comunista que faz seu dinheiro sem possuir um metro quadrado de terra aluguei minha casa (própria) a preço de ouro para outros comunistas que pagaram em dólar e com isto fui exercitar meu comunismo nas terras de José Eustáquio. Nada é mais comunista que observar estrelas na Armação dos Búzios e depois contar a história. Aliás História é uma matéria desnecessária e perigosa. Tão inútil como a filosofia.  Deve ser culpa de um jesuíta (comunistas ferrenhos...) que disse: As palavras hão de se fazer estrelas. Se chamava padre Antônio Vieira e foi anterior a Silvano Silva e seu Catálogo JESS de objetos estelares. Seu busto vigia a entrada da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.  Alis Gravis Niu. Com asas, nada é pesado.

                Dessa vez a Aporema (festa pagã e de origem indígena. Uma coisa horrorosa de se comemorar nos ideológicos dias atuais ...) seria de caráter binocular e fotográfico. Afinal, nós comunistas, descobrimos que a qualidade ótica das lentes da Pentax é infinitamente superiora aos espelhos made in china... E assim partimos eu, a cara metade e as crianças (uma já não mais tão criança, mas ainda a ponto de saber tudo), minha buscadora 10X50 mm e um velho Vanguard 10X50mm para iniciar nossa quarentena na segunda onda da série. Primeiro em Búzios e depois em Lumiar. O Rio de Janeiro foi tomado pela ignorância e é o maior centro de contágio de COVID no mundo.

                Chegamos e o tempo se encontrava fechado. Mas finalmente o vento nordeste bateu forte e na noite de 14 para 15 de dezembro lá estava eu, com meu novo intervalometro (made in china) pronto para fotografar. Uma tremenda mão na roda. Nada mais de ter que montar o computador do lado de Mlle. Herschel (minha montagem equatorial HEQ5. Também Made in China. Esses comunistas de olho puxado são fodas...); é só colocar a câmera em modo bulb, informar o tempo de exposição, intervalo das fotos e quantas fotos você deseja e o resto acontece sozinho.

                Realizei o alinhamento polar através de   meu método patenteado e utilizando Achernar como estrela guia. As 19:49:49 eu tinha o telescópio alinhado.  Coloquei a 300 mm na câmera e essa montada em Mlle. Herschel. Apesar de ter a impressão de que a noite ainda estava bem enevoada decidi tentar caçar por nebulosidades. As Hiades serviram apenas como um teste para o alinhamento e para checar a precisão do Go-to. Afina utilizei o menu de “1 star align”. Acreditava que meu alinhamento polar estava preciso. Com a cabeça checando quase cravada na Hiades vi que estava certo. Uma das vantagens de utilizar uma lente 300 mm em vez de um telescópio com 1200 é que a precisão e o acompanhamento se tornam bem mais fáceis. Percebi que poderia utilizar 1 minuto de exposição. Mas exposições muito longas, as vezes, sofrem muito com a poluição luminosa. Acabei decidindo por exposições de 45 segundos apenas. Da Hiades passei para as Plêiades. Só alvos fáceis. Depois achei que era hora de tentar acertar as contas com a Nebulosa da Roseta. Ngc 2244. Um alvo lindo e que nunca havia fotografado. Só iria saber se ia conseguir extrair a Roseta depois de revelar as fotos...

                Depois de mais de 50 exposições achei que era hora de tentar uma vizinha famosa. A Cabeça de cavalo. Essa já registrei. Mas quero tentar com mais aumento. No passado a registrei com uma lente de 75 mm junto com toda banda sul de Orion. Dessa vez, com a 300, espero detalhar mais a região. O Synscan dá uma vacilada e acabo fazendo algumas fotos da área da espada de Orion. Uma rápida correção e estaciono Alnitak e Alnilam no visor e volta a derrota planejada.

                Outra aquisição que fiz foi mais uma bateria para a minha câmera.  Com isto as noites têm rendido mais.

Depois das capturas fui para o processamento. Meu sensor está imundo. E a Roseta ficou muito aquém do esperado. Há nebulosidade. Mas os filamentos e cores que eu sonhava não comparecem. Vai voltar para a prancheta. A previsão é que dia 17 será a noite mais limpa de todas. Vou gastar inteira no projeto. As duas baterias...  Mas como astrofotografia é a melhor diversão processo todas as fotos engorduradas do sensor e aqui apresento.  Não sei se vou postar o Time Lapse que fiz ( Postei...). Mas neste fica evidente a grande quantidade de nuvens altas que se disfarçavam de escuridão para mim, mas se apresentavam para o CMOS da Canon.  Astrofotografia é meio como fotografia com película. Você só sabe mesmo o que fez depois de “revelar”.


Plêiades e Hiades -28 mm f4 12 X 45 seg



Roseta borrada... 5X 55 seg 300 mm f 4


               

Horse head- desastre total... Muitas fotos em vão...

             Na noite seguinte já sabia que não seria grandes coisas. O dia inteiro com cirrus passeando sobre minha cabeça. Decidi brincar com constelações. Primeiro tento o organizar uma reunião de beldades e fotografar as Hiades e as Plêiades no mesmo recinto. Depois seu famoso assediador Orion. e depois seu Cão Maior. Deu ..., mas nada espetacular. Loop de Barnard nem pensar. Tentei ainda fotografar algumas das estrelas famosas da constelação, mas o tempo nublou de vez. Meissa teve que esperar. Há anos quero tirar uma foto decente da cabeça do caçador. Afinal é um sistema múltiplo e um aglomerado Collinder.

                Mesmo com a forte nebulosidade brinquei por horas com meu binoculo 10X50. Há anos não fazia uma sessão binocular. E assim meu filho conheceu as Hiades, As Plêiades e toda coleção de maravilhas em Orion. Um dos melhores campos para se viajar com um binoculo. Ainda tirei alguma água de pedra percebendo o Aglomerado de Rosse em Lepus. Aglomerados globulares são um divertido exercício observacional com binóculos. Pequenas estrelas que se negam a fazer foco e que com atenção revelam sua natureza. Vi ainda M 41 e outros Ngcs pela região.  Depois vim contar a noitada para vocês e processar o que capturei. Astrofotografia é a melhor diversão. Mesmo quando não revela muita coisa... Nesta noite usei apenas a 18 =50 que acompanha toda DSLR da Canon. Kit mais básico de sobrevivência em campo...Quando coloquei a Canon 70 -300 (outra pé de boi) o tempo babou geral...

A Espada de Orion. O melhor da Noite. !2 X 45 seg

A Estrela Foragida

Rising Canis major

Rising Orion - 28 mm.O sensor todo pintado de gordura...

Star trail para enganar o tempo...


                No outro dia processei tudo. E sem grandes novidades descobri uma interessante estrela escondida em lepus. Bom de se fotografar imensos campos estelares é que sempre surgirão novidades após apresentar a foto ao Astrometry. Essa é a “Runaway star”. A estrela fugitiva. Ainda nada sei sobre a foragida, mas, em breve, contarei novidades por aqui.

 O Dia promete. É a primeira manhã que não vejo um cirrus decorando o topo do céu. As 15:00 horas percebo leve nebulosidade, mas nada semelhante aos dias anteriores. Rapidamente compro a cara metade e a filha mais velha. Deposito uma grana para a esposa e dou 50 pratas para a filha e aviso que essa noite elas vão sair as 17:00 horas e só podem voltar depois das 22:00. Tem a ingrata missão de dar um rolê sem se aglomerar. Proponho que se enfurnem no Porto da Barra e se escondam em uma mesa no deck do Bar do Gordo.

Lógico que as coisas não correm como o previsto. O tempo fecha completamente as 17:00 horas, a madrinha da minha filha, que é também a amiga mais pé de cana da cara metade aparece e acabo eu e o meu pequeno indo parar escondidos numa mesa do Bar do Gordo para comer pastel e tomar cerveja. Ela rapidamente arruma uma amiguinha e eu fico de papo com um casal de aposentados. Mantendo uma distância segura.  Melhor que aturar o papo de maluca da doida que baixou lá em casa. Seu projeto para o dia seguinte incluía ir dar um mergulho na Praia dos Ossos e depois visitar o tumulo de um amigo morto no cemitério que fica junto da Igreja que divide a paria do canto da Praia dos Ossos. Muito bucólico...

 Ao voltar para casa o tempo começa a abrir e eu resolvo ficar brincando com minha buscadora com as luzes acesas e as meninas enchendo a cara. Por incrível que pareça começo a achar um monte de abertos espalhados pelo céu e a região de Orion está espetacular. Era a melhor noite até o momento. Contrariando tudo que já foi falado e escrito consigo realizar um belo tour astronômico e ainda realizo registros aceitáveis de tudo que observei pela buscadora com luzes acesas e bar funcionando. As fotos da noite acabam sendo um belo exemplo do que você consegue observar com uma buscadora 10X50 em céus com Bortle entre 6 e 7.  Bortle é uma escala de poluição luminosa. Ao localizar um exemplar do “O Sul Profundo: O Catálogo Lacaille” na mesa da sala começo uma pequena Maratona Lacaille com resultados bem aceitáveis. Os objetos de Lacaille são bem brilhantes e excelente ideia para noites não tão generosas. Certamente o filé mignon do céu austral.

                Nem tudo são rosas. Mlle. Herschel apesar de estar centrando todos os alvos começa a fazer manha.  Realizo todo o procedimento de alinhamento do go-to pela rotina de “1 Star Align”. Ela vai lá e crava o objeto buscado. Depois de minutos fotografando esse (sempre 12 X 50 segundos) e peço para ela se encaminhar para outro alvo. Nada acontece. A cabeça não se move apesar do hand controler me dizer que o movimento está acontecendo. Desligo a cabeça e refaço todo o processo e tudo dá certo de novo. Aí faço as fotos e novamente o mesmo problema. É um saco ter que informar tudo de novo para o Synscan. Especialmente a hora com precisão de segundos. Isto acontece umas cinco vezes. Já começo a me irritar quando do nada ela começa a funcionar normalmente e com precisão incrível. Vai entender que se passa pela cabeça de uma mulher...

                Já mais de madrugada consigo inclusive perceber M 35 a olho nu. Sinal de dia ensolarado. M 44 também é um gradiente evidente.  A essa altura já tinha apagado luzes, fechado o botequim e colocado os “pés inchados” todos para dormir...

                Dia 17, segundo a previsão seria o mais promissor para a observação. Mas amanhece bem nublado e fica assim o dia todo.  M 35 e a previsão do tempo parecem ter sidos enganados por algum bater de asas de borboleta na Tailândia. Aproveito para levar o pequeno para dar um mergulho em Manguinhos e contar tartarugas marinhas. Vimos 8. E chegamos bem perto de 2 delas em um demorado mergulho. Depois Anchova na brasa e venho escrever as linhas que vocês estão lendo e tratar as fotos da noite anterior. Nada mal para uma noite “perdida”. 11 DSO`s ... M 41 em bela composição com Sirius, M 47 e 46, M 93, Ngc 2516, 2451,2477,3228, IC 2391, 2488 (todos membros do catálogo Lacaille) e de lambuja M 35 e 44.

                Todas as fotos são resultado de 12 exposições de 50 segundos iso 1600 com a 70-300 mm @5.6 f.  Fotografar usando a zoom é muito prático. Para alinhar Mlle. Herschel você pode começar com 70 mm e ir centralizando as estrelas guias até chegar em 300 mm.

                Aqui em Búzios é bom que consigo fazer o alinhamento polar de “ouvido”. Tive que mexer o observatório de lugar e não queria ter que realizar o alinhamento polar de novo. Nem pelo meu preguiçoso método patenteado. Mesmo assim consegui um acompanhamento e precisão suficientes para 300 mm. Isto usando o menu de “1 star align” no Synscan. Não podia perder a chance de contar um pouco de vantagem. Afinal foi uma noite de “observação de botequim” .... Nem todo astrônomo é Caxias.   Mesmo porque observar usando apenas uma buscadora 10X50 mm não é exatamente “Rocket Science”.  Quanto a tratamento das imagens usei o DSS para empilhar e o Photoshop para esticar... Abertos e campos grandes sem nebulosidade envolvida não “precisam” da PixInsight e o trabalho envolvido é excessivo para pela melhora obtida no poderoso programa. O único recurso que usaria do PixInsight seria a remoção automática de gradiente de fundo.  E o objetivo final é apresentar o que você vai observar visualmente. E mesmo assim você está sendo enganado aqui. Pela buscadora, na noite brumosa, a maioria dos aglomerados aqui apresentados não chegam a se resolver e explicam bem o nome nebulosas que possuíam na antiguidade. Minha buscadora é uma ótica infinitamente superiora ao equipamento utilizado por Lacaille no séc. XVIII e mesmo por muitos dos telescópios utilizados por Messier. E as minhas lentes não tinham nada sequer semelhante mesmo alguns séculos depois...  A 70-300 mm da Canon é inferior a 300 mm da Pentax. Tem mais cromatismo. Mas nada que comprometa muito. Observo e fotografo à lazer.

                Outra interessante reflexão: Com o recurso de drizzle no DSS (Deep Sky Stacker) consigo imagens muito semelhantes as que obtenho com o newton (meu refletor 1200 mm f8) fotografando com uma lente 300 mm em f 5.6 (com a Pentax consigo trabalhar em f4 com pouquíssima aberração cromática. E na verdade, como o sensor da T3 não é full frame, o distancia focal é na prática equivalente a 480 mm. (X 1,6). Com isto o Newton se tornou um recurso que só uso quando quero observar visualmente. Sua qualidade ótica não chegas aos pés das lentes que tenho. E O tamanho do embrulho fica bem reduzido usando lentes...  Somente em caso de objetos realmente muto pequenos (Nebulosas planetárias são a primeira coisa que me ocorre) é que acho que o esforço de alinhar com precisão nanométrica, apanhar para fazer o foco e trabalhar em f8 se justificam para utilizar o Newton em astrofotografia. Uma grande aquisição para o newton seria um focalizador dual speed... fazer foco com cremalheira é de fu...  Um sistema de acompanhamento seria importante também, mas com o Guedes achando bom o dólar a 5 e tal e importando soja fica difícil...

                Outra coisa legal é que trabalhando com campos mais abertos descobrimos vários aglomerados duplos. E, definitivamente, isso é um espetáculo celestial. Quase enredo de escola de samba. E assim M47 e M 46 formam um par muito charmoso bem como 2541 e 2477 também fazem bonito.  M 35 também tem um companheiro escondido...

M 47 e M 46 Plano aberto

2 drizzle

300 mm f 5.6 12 X 45 seg

 


                Ngc 3228 é um aglomerado mais charmoso de ser observado com mais aumento e merece o newton. Mas é um desafio para astrônomos experientes perceberem junto a buscadora e binóculos. A arte da caça não pode se perder em tempos de comodidades tecnológicas.  Ngc2190 é um objeto do projeto “Tudo que Existe”. Sua observação binocular é um exercício para um “Deep Sky Die Hard”. Uma expressão americana para viciados em céu profundo. Para astrônomos ocasionais é uma missão sem sentido. Com mais aumento é um aglomerado aberto pequeno. Daqueles que sobraram para o John Herschel.  Nem Lacaille nem Dunlop perceberam sua existência.  Seu vizinho Ngc 2925 é um pouco mais fácil. Uma espécie de aglomerado duplo para junkies observacionais...

3228 -3 drizzle 300 mm 

3228 -Wide field. É bom lembrar que ao se observar de binoculos ( ou junto a buscadora) é por esse tipo de coisa que deves procurar...




Só para viciados... 3 drizzle 300 mm


                IC 2488 é um favorito. Mas dessa vez o foco me traiu. É importante você checar o foco de tempos em tempos durante a noite. Ele acaba “escorregando” um pouco depois de várias fotos.



                M 41 é o objeto mais tênue registrado na antiguidade clássica. E um espetáculo divertido de binóculos. Apresenta caras diferentes cada vez que você o observa. Em noites muito boas ele chega e se resolver quase na integra. Dessa vez era um esfuminho onde, de tempos em tempos, uma estrela mais brilhante se acendia para apagar novamente. Provavelmente a brilhante estrela avermelhada que marca seu centro. Na foto consegui colocar Sirius e o aglomerado decorando o mesmo campo. Na buscadora isso é impossível.


M 41 3 drizzle

300 mm f 5.6 12 X 45 seg 4 darks


Ngc 2516 é amigo de binóculos e se resolve bem. Fácil de achar e resolver é um DSO ótimo para iniciantes. IC 2391, a Pequena Cassiopéia é do mesmo naipe.

IC 2391 - a pequena cassiopéia

2516 3 drizzle

Wide field


                M 35 é espetacular em binóculos. Mas assim com M41 o que vc vai ver varia de noite para noite e de lugar para lugar. Dessa vez era um grande esfuminho onde algumas estrelas tentavam se acender com visão periférica. Flicando como vagalumes.  Seu discreto parceiro demanda atenção e é um esfuminho discreto e que muitas vezes fica perdido no quadro. Mas com paciência e se sabendo de sua existência comparece quase sempre.




        M 44 fechou a noite. O Presépio. É um alvo binocular por excelência.  Por mais paradoxal que possa soar eu acho M 44 mais fácil de se perceber que a própria constelação de Câncer onde o Presépio se esconde bem “at plain sight”.

M 44 - O Presépio. Bem natalino... 


 Por fim na madrugada somos informados que Búzios decretou um novo lockdown devido a Covid. Nada como uma logística alemã na saúde... Enquanto no Peru se inicia a vacinação aqui os casos não param de subir e quem sabe um dia quem quiser vai poder se vacinar. Afinal somos uma democracia. Ser burro é garantido pela constituição e política de estado.

                As aventuras do Nuncius Australis vão seguir por aqui ao longo do mês. Espero ter mais e melhores noites ao longo do exilio familiar auto imposto. Se clima colaborar a perna ne Lumiar vai permitir que eu acerte as contas com a Roseta e revisite a Horse Head e a Chama. Em caso de intervenção divina vou tentar achar a Bruxa que habita entre Rigel e Cursa. Manterei informados...

Viva lá revolucion.

P.S. Esqueci da visita a M 93...








quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Messier e Vive la Différence: M46 e M47

Ha muito não caçava objetos do Catalogo Messier. Na Stonehenge dos Pobres sua grande maioria fica fora de meu alcance. O horizonte sul do Rio de Janeiro não compartilha o mesmo latifúndio celeste que a torre do Hotel de Cluny.  Lá Messier fez as observações que levaram ao mais famoso catalogo de nebulosas de todos.  
O Catalogo Messier traz o curioso karma de ser uma coleção de objetos a não serem observados. Messier nos diz no Almanaque francês "Coinassance du Temp"  para 1801 o seguinte:
"O que me levou a realizar o catalogo foi a nébula que descobri sobre o chifre sul de Taurus em 12 de setembro de 1758 enquanto observando pelo cometa daquele ano...  Aquela nébula tinha tal semelhança com um cometa em forma e brilho que me prontifiquei a descobrir outras para que astrônomos não as confundam com cometas que estão começando a brilhar."
Embora Messier e seus contemporâneos ainda não soubessem exatamente do que se tratava as nebulosas que observavam seu catalogo tornou-se um excelente mostruário das estruturas celestes ( DSO´s) que se apresentam no universo. Em suas 110 entradas  encontramos 39 galaxias , 57 aglomerados estelares , 9 nebulosas, os restos  de uma  supernova, um pedaço da Via-Láctea , um pequeno "ajuntamento de estrelas , uma estrela dupla e segundo alguns autores uma figurinha repetida...
Todos os objetos Messier se encontram ao alcance de modestos telescópios  sob céus escuros e sua maioria é viável até mesmo com binóculos. Muitos se apresentam até para a vista desarmada.  O catalogo Messier é o campo de provas que ajudou varias gerações de astrônomos amadores a desenvolverem sua técnica e suas capacidade observacional. Observar todos os objetos Messier é um marco na carreira de qualquer astrónomo amador ou não. É como tocar "Brasileirinho" para violonistas nacionais . Mesmo sabendo que nem todo catalogo é visível de terras austrais ele é fundamental.
Logo que me interessei pela astronomia e comprei meu primeiro telescópio meu  objetivo era conhecer o céu de uma forma geral. Saber as constelações , reconhecer as estrelas mais brilhante e coisas do gênero. Na minha inocente concepção eu descobri um meio que poderia garantir que eu estivesse observando o que eu achava que estava observando. Sabia que existiam "coisas"lá fora que eu não veria sem o auxilio de um telescópio. E usando as brilhantes estrelas que eu achava estar localizando como faróis para localizar estas coisas eu desenvolveria um método infalível para ter certeza do que eu estava vendo. Na época( isto continua valendo..) todas as revistas de astronomia disponíveis eram publicações estrangeiras e quase todos os guias também. De uma forma ou de outra acabei descobrindo o catalogo Messier . Pronto. Tinha todos os ingredientes necessários para uma obsessão...
E assim me recordo claramente de meus primeiros DSO´s. Como não poderia deixar de ser foram alguns dos mais famosos membros do Catalogo. E em pouco tempo eu tinha tido a feliz oportunidade de conhecer M45 ( As Plêiades), M42 ( A grande nebulosa de Órion) , M7 ( o aglomerado de Ptolomeu) , M6 (o aglomerado da borboleta) e M4 ( um dos globulares mais próximos da terra) . O tempo passou e fui conhecendo quase todo o catalogo. Alguns de seu membros fui visitar na terra de Messier .
O tempo passou e acabei tomando um imenso gosto por aglomerados abertos. 
As coisas estavam neste pé até minha ultima viagem até Búzios. Com um observatório mais generoso que a modesta janela da Stonehege do Pobres eu tive a oportunidade de revisitar e fotografar pela primeira vez dois dos meus favoritos aglomerados abertos do Catalogo de nosso caçador de Cometas do século XVIII.  M46 e M47.
M 46 é uma descoberta original de Messier. E é curiosamente a primeira entrada da segunda parte do levantamento que levou  ao que é o atual Catalogo Messier. Ele o descobriu em 19 de fevereiro de 1771.  Apenas três dias após ter publicado a primeira edição de sua obra que cobria de M1 a M45.

Por uma razão "navegacional" vou abordar M47 inicialmente. Localizar M 47 é mais fácil e estes é um porto fundamental no caminho que nos levará até M46.
Localizado dentro das fronteiras de Puppis ( Popa) o caminho até M 47 começa na mais brilhante estrela do céu.  Sirius. Após centralizar esta na sua buscadora eu acho localizar M47 bastante simples. Indo rumo leste e usando a Via láctea como guia M47 vai se apresentar  em sua buscadora .Mesmo como minha 7x30 mm ele é perceptível. Com a 9x50 ele é evidente e muitos membros se resolvem.
 Em condições mais extremas de poluição luminosa ou se habitas muito ao norte Phil Harrigton apresenta  um caminho mais geométrico. Em seu "Starwatch" ele coloca que localizar M 47 é uma questão de seguir triângulos . Três triângulos. Primeiro localize um formado por Sirius , Iotan Can Ma e Mulliphen mais a leste. Seguindo o lado Sirius- Mulliphein ainda mais a leste localize um triangulo menor e mais estreito ainda mais a leste; Seguindo ainda mais a leste um outro pequeno triangulo com um perfil semelhante e com mais estrelas em seu interior.Este ultimo triangulo  apresenta mais estrelas tênues em seu interior . São estas M47 e M46.
Nunca fiz o caminho proposto por Harrigton. Não foi necessário  e parece-me confuso.
M47 tem a honra de poder ser considerado um "Objeto Messier Perdido". Em seu amarelado livro de registros que hoje habita um vitrine no Observatório de Paris sua entrada de numero 47 apresenta coordenadas que nos levam a lugar nenhum.  Somente em  1934 Oswald Thomas identificou M 47  como Ngc 2422 . Segundo O´Meara 25 anos se passariam ainda até que T.F Morris descobrisse o erro de transcrição que levou ao erro por parte de Messier.
M47-  12 X 15 seg asa 3200

A descrição de Messier sobre o DSO deixa pouca duvida  de Ngc 2422 ser de fato M 47:
" (19 de Fevereiro de 1771) Aglomerado de estrelas não distante do anterior (M46). As estrelas são mais brilhantes. O centro do aglomerado foi determinado usando-se a mesma estrela . Flamsteed 2 Argo Navis ( hoje Puppis2)  . O aglomerado não possui nebulosidade".
Observado pelo Newton ( um refletor com 150mm e f8) é melhor observado com pouco aumento . Usando minha ocular 26 mm percebo algumas dezenas de estrelas  levemente azuladas como aguas marinhas vagabundas.  O campo onde habita M47 apresenta em sua proximidade uma outra bela gema vermelho alaranjada que não faz parte do aglomerado. Trata-se de KQ Puppis. Parece um rubi solitário. O conjunto forma um belo tesouro.
M 47 apresenta em estudos mais sérios pelo menos 117 membros com seus membros mais brilhantes atingindo 5a e 6a  magnitude.  Ele cobre algo com 25´de diâmetro (uma lua cheia).  Estando a não mais que 1550 anos luz de nós significa que o mesmo se espalha por cerca de 14 anos luz. É bem pequeno.  
A primeira pessoa a observar M47 foi Giovanni Batista Hodierna antes de 1654.
Depois de localizar M47 chegar até M 46 é bastante fácil. Com uma ocular wide field é só calcular um pequeno salto de cerca de 1 grau na direção certa e este vai se apresentar. Perceber M 46 pela buscadora não chega a ser um grande feito mas pode ser difícil em locais de muita poluição luminosa. Ele não chega a se resolver e apresenta-se apenas como uma tênue "nuvem de luz". Com meu binoculo 15X70 percebo algumas estrelas se resolvendo.
A comparação entre M46 e M47 é um excelente exemplo de como dois aglomerados abertos podem ser diferentes ( com o binóculo e os dois no mesmo campo isto é evidente). M46 é muito mais denso que M47 mas como suas estrelas são mais tênues a paisagem é muito diferente. E também nos mostra como as coisas são relativas. M 46 esta  5.300 anos luz de nós . Seu brilho menos intenso é somente por causa da distancia de nós. Ele possui no minimo 180 membros e com 300.000.000 é um ancião em comparação ao jovem M47 (55.000.000 anos) . E este se espalha por mais de 40 ano luz.  M 46 é muito mais gracioso que M 47 quando observado pelo Newton.  Com estrelas brilhando entre 10a  e 13a  magnitude e ocupando quase a mesma area que seu vizinho comprar um ao outro é quase comparar vegetais com minerais... Uma flor e uma rocha.            Messier  descreveu o aglomerado  assim:
" (19 de fevereiro de 1771)  Aglomerado de estrelas muito tênues , sem nebulosidade. Este aglomerado é próximo a três estrelas que repousam na base da cauda de Monoceros."
M46 é um dos aglomerados abertos que mais gosto. Extremamente denso e com grande concentração apresenta diversas estrelas duplas e com um olhar atento revela mais e mais estrelas. É um excelente exercício para praticar sua visão periférica e descobrir mais e mais  segredos encrustados. Em telescópios menores ( 60 mm e etc..) le não chega a se resolver . com visão periférica uma poucas estrelas podem ser percebidas e uma estrutura "arenosa" parece se apresentar.
M46 apresenta claramente uma estrutura espiralada . E guarda ainda um segredo. Ao aumentar a magnificação ( com a 10mm eu começo a perceber[120X]...) pode-se notar uma pequena nebulosidade ao norte do aglomerado.
M46 e Ngc 2438-12X 15  seg.  A nebulosa Planetaria é evidente abaixo do centro do aglomerado

Trata-se de uma nebulosa planetária. Ngc 2438. Os restos de uma estrela semelhante ao nosso sol estão lá. É apenas uma coincidência. A nebulosa se encontra penas na mesma linha de visada . Ela se encontra muito mais próxima que o aglomerado a "apenas" 2900 anos luz. E é fruto de uma estrela muito mais antiga que as "mocinhas" que formam M46.  Assume-se que a bela nebulosa planetária começou a se formar a meros 46.000 anos. A estrela central que alimenta esta nebulosa brilha com uma modesta 16a magnitude.
Ngc 2438
Messier ou não percebeu ou não diferenciou esta nebulosa do aglomerado. Em seu catalogo  existem nebulosas planetárias.

 Mas isto já é uma outra história....