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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

NGC 2547 - Os Argonautas e a Cruz de São Pedro



Esta época do ano começa a desfilar pela janela do Nuncius Australis a antiga constelação de Argo. Ao contrario dos navios “terrestres” (eu sei que soa um contra senso...) este aqui mostra primeiro a Quilha e a Popa surgindo do horizonte para só depois apresentar sua Vela. E o tecido desta é a Via Láctea e seus aglomerados galácticos. Também conhecidos como aglomerados abertos. Cardumes de estrelas.
Barco, mar, cardumes. O céu parece querer contar uma história.
Argo é o mitológico navio que levou Jasão e os Argonautas (entre eles Castor e Pollux que agora habitam em outra constelação) em sua busca pelo velocino. O velo era a lã de ouro do carneiro alado Crisómalo.
Jasão é possivelmente o primeiro corsário da história.
Embora retratado como um herói no épico de Apolônio de Rhodes, Argonautica  ( 3 A.C.),  ele pode ser entendido como um pirata. Um corsário sem sua carta de corso.
O herói de um país é muitas vezes o pirata de outro.

Jasão e os argonautas ( 1963)

O Rei Aeetes sabia bem disso e disse para Jasão (como no clássico filme de 1963...):
-Eu sei que vieste pelo velocino.  E sei também que se não o conseguir pela barganha vais conseguir de outra forma. Vais rouba-lo. E assim sendo não posso mais considera-los bem vindos. Terei que trata-los como merecem. Como ladrões, piratas e assassinos.
Mas nosso galã pirata consegue a ajuda (e a paixão) de Medea. Filha de Aeetes. E Esse docinho de moça, depois de matar seus dois filhos e desmembrar seu irmãozinho, acaba por ajudar nosso pirata-herói a matar o dragão que protege Crisómalo e pegar o Velo de Ouro.
Depois de achar os métodos de Medea um pouco exagerados Jasão se arranca e abandona a feiticeira a ver navios. Literalmente.
Como O´Meara nos conta Julius Staal em seu “Novos Padrões no Céu” explica claramente como a história de Jasão e os Argonautas se conecta com o passeio do sol pelo zodíaco.
Stall explica que Jasão esta representado no céu por Ophiucus.  Aeetes é o rei Perseu, constelação que representa todos os reis de todas as histórias.  Algol (Beta Persei), a estrela demônio, é Medea. E os membros despedaçados de seu irmãozinho são as estrelas de Auriga flutuando pela via láctea. E Argo Navis é o barco dos Argonautas. Curiosamente a constelação é conhecida pelos romanos como Navigium Predatorium (Navio Pirata).
A cereja do bolo é o fim da constelação. Abbe Lacaille em sua viagem (1751-52) a cidade do Cabo tem um arroubo “medeatíco” e desmembra a constelação de Argo. E ele se torna as modernas constelações de Carina (Quilha), Puppis (Popa), Pixis (bussola) e Vela. Ele criou ainda a finada constelação de Malus (Mastro).
Nosso querido Abade ainda descobriu 42 “nebulae”.
Entre elas se encontra Ngc 2547. É o Objeto classificado por Lacaille como Lac III.2. Ou seja, uma estrela acompanhada de nebulosidade (classe III de sua classificação).
Isto apenas implica que ele não conseguia resolver, com seu minúsculo refrator de 15 mm com um aumento de apenas 8X, este belo aglomerado aberto situado junto Gama Vela.
Ele descreve o aglomerado da seguinte forma: “Cinco fracas estrelas que lembram a letra T envolta em névoa”.
Cabe a Dunlop ser o primeiro a resolver o aglomerado na integra e através de seu refletor de 228 mm f10 ele viu “Um curioso arranjo de bonitas pequenas estrelas de diversas magnitudes... Não existe nenhuma nebulosidade na área.”.
15 exp. x15 seg. DSS+PS


Localizar Ngc 2547 é bastante fácil. Centralize a buscadora em Gama Velorum, que é uma dupla ótica e o aglomerado vais estar no campo de qualquer buscadora ótica que eu conheça.

Um dado interessante sobre Gama Velorum ² (a companheira mais apagada de Gama Velorum ¹) é que apesar das aparências ela é muito mais brilhante (de forma absoluta) que a matriz. Trata-se da mais brilhante e possivelmente a mais maciça estrela Wolf–Rayet conhecida.  
Estrelas Wolf-Rayet são estrelas extremamente luminosas e quentes em um avançado estado de evolução. Elas liberam massa na forma de violento vento estelar que pode atingir até 3.000 Km/s. Elas podem atingir temperaturas de até 60.000K e estão fadadas a morrer em poucos milhões de anos em uma explosão de supernova.

Ngc 2547 se apresenta em meu 150 mm como um agrupamento relativamente esparso contendo algumas dezenas de estrelas brancas. E cobre uma área considerável de minha ocular 25 mm Wide Field e é um dos abertos mais interessantes de Vela. È possível associar a visão ao formato de uma cruz . Isto explica seu apelido de Cruz de São Pedro. Outro apelido é o da esquecida  constelação  de Lacaille, Maltus. Também devido a forma do aglomerado. Cada um vê o que quer...
Archinal e Hynes listam mais de 112 membros cobrindo uma área equivalente a da lua cheia(30´).
Mesmo binóculos pequenos vão revelar o asterismo em forma de “T” que Lacaille se referiu.
É um bom alvo para qualquer tipo de instrumento e se revela bem mesmo em condições de forte poluição luminosa.
Este mês (novembro) ele ainda é um alvo para os insones. Mas ao longo do verão ele começa a se colocar em boa posição cada vez mais cedo. O observei por volta de 01h30min min. Neste momento ele se apresenta em confortável posição para ser visto de minha janela no “Stonehenge dos Pobres”.  
Ele tem uma magnitude de 4.7 e se encontra a 1.400 anos luz de nós. Suas estrelas se encontram espalhadas por uma região de cerca de 10 anos luz.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Astrofotografia , Colimação e Carnaval





Chegou o carnaval. E apesar da data depender de varias efemérides (ele começa 40 dias antes do primeiro domingo depois da primeira lua cheia depois do equinócio ou algo assim) a pratica astronômica durante o período é, no mínimo, diferente.

E durante o período reza a lenda que um homem possui como seus maiores adversários ele mesmo, seus amigos e a bebida. Mas ele é homem e não pode recuar perante tais adversidades.

Desta forma vou em direção a Buzios.

Meu plano é perfeito.

Saio na Sexta Feira na parte da manhã. Eu, minha filha e toda a parafernália astronômica. Fizemos uma viagem tranqüila e chegamos a Buzios sem maiores percalços.

Algum tempo depois eu tenho o telescópio montado e percebo que a colimação não esta lá estas coisas. Após mexer um pouco para lá para cá me dou por satisfeito embora soubesse que a colimação poderia ser mais bem realizada. Mas no momento eu tinha outra preocupação. Alinhamento polar.

Sempre que observei em Buzios eu alinhava colocando o eixo equatorial de forma paralela ao muro da casa. Para observação visual era mais que suficiente. Mas para fotografar...

Rapidamente percebo que preciso afinar melhor o alinhamento. E é ai que a porca torce o rabo...

Seis horas mais tarde e com diversas fotos imprestáveis colecionadas consigo um alinhamento razoável. Bom não. Mas acredito que possa melhorá-lo mais e mais ao longo do carnaval. Isto iria implicar em manter o tripé morando fora de casa, mas me parecia ser um projeto viável.

Ao contrario do que se imagina a pratica astronômica é um evento com muita atividade física envolvida. Depois de seis horas levantando e movendo o telescópio para lá e para cá em busca do pólo sempre tendo que me colocar em posições pouco ortodoxas para acompanhar estrelas junto à ocular minha coluna começa a achar que estou de sacanagem com ela. Já que é assim ela me sacaneia com mais força. É hora de dormir e tentar esticar a lombar.

No dia seguinte chegam dois fortes adversários. Meu amigo mais pinguço e varias caixas de Cerveja. O Espírito das Highlands eu havia levado pessoalmente...

Depois de um dia de praia imagino que a noite promete. Eu estava certo. Só não sabia o que ela prometia.

Crente que o alinhamento polar seria satisfatório eu retiro a lona que cobria a cabeça e o tripé e instalo o telescópio. Dirijo-me para Naos (Zeta Popa) e rapidamente localizo Ngc 2477 na buscadora. E só. Olho na ocular e nada...

Afina daqui afina de lá e nada...

Com Júpiter se pondo resolvo que vou afinar a buscadora com precisão “nano métrica”. Enquanto isso meu camarada vai me garantindo um fornecimento continuo de Stella Artois. E outros drinks que levariam qualquer um a acreditar que se trata de um químico frustrado.

Percebo que a colimação estava péssima e tenho a brilhante idéia de chamar meu camarada para me ajudar na operação. Eu ficaria com o olho na ocular enquanto ele moveria os parafusos do espelho primário. O objetivo seria ter aquele padrão perfeito de um ponto negro no meio de um Júpiter fora de foco. Rapidamente o planeta parecia um quarto crescente...

A colimação ficou tão fora de esquadro que se tornou impossível afinar a buscadora. Lá pelas tantas eu pensava em colocar um pequeno calço no suporte da buscadora.

Este post teve vários nomes até chegar ao que vos apresento. Um deles foi "Carnaval, Colimação e o astrônomo bêbado".

Finalmente tomo uma dose de “Faísca” e resolvo que a única solução seria colimar o telescópio de uma forma mais ortodoxa. Amanhã.

A poluição luminosa também se apresentava muito acima da média. A cidade muito cheia fazia que domos de luz povoassem os horizontes. O horizonte sul era o menos mau. O norte só acima de 30º

Colimação é algo relativamente simples. Mas uma colimação perfeita é bastante trabalhosa para ser obtida. Agradeço por meu telescópio ser F8. Um telescópio mais claro me levaria à loucura. Minha próxima aquisição será um colimador laser.

O que eu não sabia é que além de causar coma (um aspecto de vírgula quando olha para estrelas) uma má colimação torna difícil até mesmo afinar uma buscadora. Surpreendeu-me a precisão necessária. Outra lição é que nunca deixe alguém leigo tocar nos parafusos de ajuste do seu secundário. Quando você fala girar um pouquinho para este ele desconhece quão pouco é um pouquinho. Astronomia e ciências em geral quando falam de pouco é muito pouco. E quando falam de muito em geral usam notação cientifica...

Finalmente chega a terceira noite. E um pouco de sobriedade. Finalmente começo a noite me dedicando a observação visual e apresentando alguns DSO as crianças. Plêiades do Sul, Eta Carina, NGC3766 e uma enorme série de aglomerados abertos que seguem a Via láctea. Pouco depois Marte se apresenta e parto para magnificações maiores. O seeing não esta lá grandes coisas, mas percebo algum detalhes. As calotas são evidentes e com bastante atenção percebo Syrtis Major e de relance consigo notar a mancha do Mare Acidalium. Mas os momentos de seeing são raros.

Resolvo me arriscar em algumas fotos e rapidamente percebo que o alinhamento não é suficiente.

Começo com exposições de 20 seg. com a nebulosa de Eta Carina. Depois caio para 15 e finalmente 10 seg.
Eta Carina

Mexe para lá e para cá e nada de melhorar. Decido fazer algumas fotos em Piggy Back.

Outra aquisição que vai ser útil é uma ocular com reticulo iluminado. O Drift para o alinhamento polar vai ser bem mais eficiente e rápido.

Faço algumas imagens do Cruzeiro. Como podem perceber o Rot n´ Stack é um programa bem criativo. Um dos Logaritmos que ele usa nas fotos finais é realmente um artista...
Cruzeiro do Sul Numa Visão do Rn´Stack

Os dias se sucedem e eu desisti de manter a cabeça do lado de fora da casa. Todo dia eu começo fazendo um alinhamento polar e um drift. E sempre demora. E Os resultados são diferentes a cada dia.


Não poderia deixar de fotografar M42. O Alinhamento poderia ser melhor. Mas a Nebulosa é linda de qualquer maneira...

Desta forma também visito Saturno. Embora uma DSLR não seja o ideal fiz alguns registros. As exposições curtas não careciam de alinhamento. Utilizei uma barlow 2x para o planeta dos anéis. Mas ainda não me entendi com o Registax...

Durante os alinhamentos acabo empenando um dos parafusos da cabeça. Removo uma pequena peça que fica a frente da cabeça e que serve para fixação deste. É incrível como a remoção deste torna a cabeça mais instável. O espelho da câmera causa trepidação suficiente para inviabilizar a maior parte das fotos.

Após retirar e substituir o parafuso a cabeça volta a sua forma.

Aproxima-se o ultimo dia e meu plano de fotografar vários Lacaille começa a parecer distante.

Resolvo ir para o jardim de frente da casa. Parece que apesar de um pouco mais exposto as luzes da cidade foi uma decisão acertada. O povo fica mais pelo jardim dos fundos e a solidão é amiga do astrônomo. Bem como uma distancia maior do isopor com as cervejas...

Coloco o tripé no chão e coloco o telescópio. Não faço drift. Simplesmente aponto para Regor (Gama Vela) e faço uma foto. 15 seg. e... Voilá. Nenhum risco. O alinhamento esta pronto. O melhor da semana.

2547 sem dark frames

Com dark frames...

Começo com Ngc 2547, um aglomerado aberto que o Abbe catalogou como Lac III. 2. O enquadramento poderia ser mais digno, mas ainda assim ele preserva sua forma de coração. O Aglomerado também é chamado como “The Broken Heart Cluster”. Faço diversas exposições de 15 seg. E por incrível que pareça o DSS aceita quase todas na hora de empilhar.

Ao contrario do Rot n´Stack o DSS não é muito criativo e adora recusar seus frames.

Ngc 3766 é o próximo. Começo a realizar o plano inicial. Este é o DSO Lac III. 7.


Novamente varias exposições de 15 seg.

Um fato interessante destes dois últimos aglomerados é que suas fotos finais (Tiff), APÓS PROCESSAMENTO NO DSS, apresentaram mais ruído quando foi adicionado Black frames. As fotos sem adição de Black frames apresentaram menos ruído e menos desvio de cor para o azul. Não sei a razão disto.

A noite vai indo bem e rapidamente coloco mais um Lacaille no finder. Lac I. 5 ou Ngc 5139. O Imenso globular de Omega Centauro. Muitas fotos. 15 e 20 seg. E muitos dark frames. Dá tudo certo. 1600 asa e pouco ruído. Vai entender¿¿¿



Agora tirei o atraso. Ngc 4755, a Caixa de Jóias. Lac II. 12 é um de meus favoritos. Novamente sento o dedo e só paro quando recebo a mensagem “full card”.

Com isto resolvo que é hora de caçar mais algumas coisinhas a moda antiga.

Calço a 25 mm na ocular e coloco a 10 mm no bolso.

Steve O´Mehara em seu Hidden Treasures faz um paralelo entre astrônomos amadores e piratas.

Segundo ele os piratas se apresentavam de duas formas. Aqueles que abordavam um navio e o saqueavam rapidamente. Passavam poucos minutos a bordo e seguiam sua viagem rumo à próxima vitima. Outros não gostavam desse frenesi. Chegavam a bordo. Tomavam chá com capitão atacado. Olhavam o porão calmamente e visitavam cada parte do navio presa.

Eu me identifico mais com os primeiros. Quando estou fazendo uma observação visual sou do estilo “body count”. Olho o DSO com uma ou duas oculares. Pratico um pouco de visão periférica e assim que tenho certeza do avistamento sigo em busca de outros botins. Já quando fotografo o objetivo é fazer um registro mais apurado. Mas ainda assim sou um pouco apressado. Na verdade gosto de preservar alguma semelhança do que o ser humano é capaz de ver. Então quaisquer tantas dezenas de exposição me satisfazem. Mas a astrofotografia demanda maiores cuidados. E conseqüentemente visitas mais longas ao navio... Sua buscadora tem que estar bem alinhada. A colimação correta. O alinhamento polar idem. Através dela me faço um astrônomo mais caprichoso. Não por gosto. Mas por necessidade.

Astrofotografia não é uma atividade momesca. Depende de duas coisas que não são tão triviais quanto dizem. Alinhamento Polar e Colimação. Isto para não falar em outras cositas más...

Com vontade de caçar parto em busca de M 104. É um dos “star hops “ que mais gosto. Vou pulando de estrela em estrela. A partir de Algorab vá até Eta Corvus. E daí siga para HIP 61212 e mais um pouco até HIP61296. Daí ache três pequenas estrelas que formam um pequeno triangulo. E deste mais um grupo triplo ainda mais discreto. Tudo pela buscadora. Do pequeno grupo parta para a ocular e você vai achar... Olhe no Cdc ou no Stellarium. O caminho é bem legal e fácil.

Depois quero mais uma abordagem antes do fim. Um rápido pulo a Beta Corvus e um pulinho lhe deixa em M68. Um discreto globular que fica no mesmo campo que HIP 61621. Tire a estrela do campo para não intimidar o discreto globular.

Acabou o carnaval e entre mortos e feridos salvaram-se todos.


M 41 também sofreu saques...