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domingo, 4 de maio de 2014

Alinhamento Polar para Preguiçosos

         
           Alinhamento polar é uma das partes mais difíceis da Observação. O Método do Drift é extremamente eficiente porém chatíssimo. E não é possível se você não dispõe de um horizonte livre tanto para norte como para sul.  Realizar um alinhamento pelo drift pode demorar ( e demora) varias horas. 
                Não é para mim.
                Por outro lado adoro o prazer da caça. É a parte que mais gosto do jogo. E assim uma cabeça com go-to é algo impensável. Vou deixar isto para minha aposentadoria.
                Então como juntar a minha pouca paciência com a necessidade de um alinhamento polar ao menos digno para  a pratica da astrofotografia?
               " Descobri " recentemente o inovador método do Alinhamento Polar para Preguiçosos. É um sistema  que atende a minhas macunaímescas necessidades na "Stonehenge dos Pobres". E que tenho adotado em qualquer lugar.   Penso inclusive fazer uma camiseta com " Drift Nunca Mais" estampado no meio dos peitos.
                O processo é bastante simples e garante um alinhamento que em um primeiro momento garante exposições de até 30 segundos com um minimo ou até mesmo nenhum Drift. No Observatório mais Urbano do Mundo o brilho do céu dificilmente permite exposições superiores a 15 segundos. ( Bortle 7-8) .
                Para realizar o processo eu recomendo escolher uma estrela brilhante que se encontre em uma posição confortável para observação no horizonte sul. Eu já utilizei Alfa Crux e Alfa Centauro. Ela deve ser facilmente percebida a olho nu. Canopus é também uma boa opção se você morar bem ao sul. Aqui ela passa um pouco alta demais . Miaplacidus é outra boa opção.
                Depois de escolhida (Acrux) nossa estrela guia você se dirige até seu computador e inicia o Stellarium , o Cartes du Ciel ou qualquer outro programa planetário que possuir.  
                Com Acrux selecionada você abre a aba de controle de  hora e data. E descobre facilmente a hora exata que ela vai cruzar o Meridiano.

             Depois avance ou recue o tempo ( grandes poderes...)  até você  ler 180o 00´00´´ cravado no marcador de Azimute e Altura do Cabeçalho a esquerda e em cima do Stellarium. Veja o horário exato que isto acontece.  No nosso exemplo 21:29 min.( Foto Abaixo)
Veja o horário que a estrela cruza o meridiano.




            Com a cabeça já grosseiramente apontando para o sul ( uso a bussola do I phone para isto)  regule  ela para a altura indicada no mesmo cabeçalho. No nosso exemplo 49o44´.
                Agora aguarde Acrux chegar até o horário que esta vai cruzar o meridiano e seja rápido. Naquele exato instante você devera regular sua cabeça de forma a ver Acrux centralizado com o eixo polar de sua montagem. Ao olhar pelo furo onde deveria habitar uma buscadora polar que não possuo. Como na foto ao abaixo...


            Agora é só baixar a cabeça equatorial  de 49o44´ para sua latitude. No meu caso 23o .

            Depois eu coloco o meu 15x70 mm sobre a montagem e dou uma pequena refinada no alinhamento com o auxilio de s Octans e BQ Oct.


            Depois é fazer uma foto e checar o tempo de exposição sem drift das estrelas.

Ngc 5662 .4 X 30 seg. asa 6400

            Tenho conseguido 20 segundos de exposição  regularmente. E 1 minuto em dia bom... Creio que o erro periódico de minha EQ2-3 velha de guerra não permitiria mais que isto sem acompanhamento nem com auxílio de magica....





                

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Ngc 5286 : A Teimosia e o Catalogo Caldwell

                

                
                A teimosia é aquele apego obstinado as próprias idéias.
            Ela é um mal que me assombra e este pode ser , as vezes, uma qualidade. Ela torna possível a pratica da astronomia na "Stonehenge dos Pobres". Também conhecido como " O Observatório mais Urbano do Mundo".   Com as obras de ampliação do péssimo metro carioca a todo vapor as coisa se tornaram ainda mais extremas. E ainda assim eu volto sempre naquela janela entelada para localizar pequenos e esmaecidos fantasmas cósmicos. Nestes momentos a teimosia é promovida a persistência. ´Percebe-se pela foto abaixo quão teimoso sou eu...


            Recentemente vi um dos novos episódios do remake da serie "Cosmos". Nele William Herschel conta para seu filho John como ele vê fantasmas no céu. E explica como telescópios são maquinas do tempo.  
            Desta vez vou em busca de um fantasma que vem se escondendo de mim a algum tempo. Ngc 5286.
            Este é um globular pouco comentado. Habitando o Centauro  junto ao gigante Omega Centauro e ainda por cima bem próximo a fera é  relegado ao esquecimento.
          Estava eu a brincar no lap top e como o Stellarium passou a identificar os membros do Catalogo Caldwell por seu numero neste e eu  ainda por cima sou um grande admirador do finado Sir Patrick Moore  estava escolhida minha assombração.
            O catalogo Caldwell tem este nome porque Sir Patrick tem pelo lado de sua mãe o nome que batiza a lista de 109 DSO´s. Ele não podia usar o M de Moore por razões óbvias. Messier o fizera mais de duzentos anos antes dele...
             Ele pretendia criar uma lista de observação que incluísse diversas maravilhas não pertencentes a catálogos mais manjados e que também apresentasse diversos objetos renegados devido a sua latitude. Como  tudo que se refere ao céu austral é querido aqui pelo Nuncius...
             Depois de perceber que C 84 seria um interessante objeto e que encontra-se bem posicionado para a limitada janela observacional de que dispõe a "Stonnehenge dos Pobres" eu achei que seria uma vitima fácil. Em tese.
          Localizado no mesmo campo ocular que M Cen ele seria facilmente localizado. M Cen é bem próxima a e cen. A ultima é visível facilmente mesmo sob a forte poluição luminosa do Rio de Janeiro.
            Porém em uma primeira tentativa tive problemas para me entender com a buscadora e também com a compreensão da família. Acabei indo visitar um outro fantasma pouco conhecido.
             Desta vez estava decidido a capturar o cabra. E tinha uma nova arma secreta.
          Meus óculos tinham chegado. E depois de um bom período sem os mesmos tinha até esquecido como é bom ver. Perdi meus óculos há algum tempo em uma viagem a um lugar muito escuro e como nunca me achei muito cegueta deixei para lá. Preciso fazer uma pausa aqui e a permissão de usar um travessão e alguns  pontos de exclamação.
            - Rapaz! Como é bom ver de novo!!!
            Com meus novos óculos e Centauro é um farol. Meus velhos olhos passaram a enxergar no mínimo mais duas magnitudes  com a "nova velha tecnologia". E como meu astigmatismo piorou conseguir alinhar a buscadora com o  que esta no céu tinha se tornado uma árdua tarefa. La vecchiaia é bruta.
            Partindo de e  caminhar meio campo de buscadora rumo a M Cen. A estrela é facilmente percebida na minha 10X50. Com esta centralizada vá para a ocular. C 84 estará lá.
            Com a 25 mm ele se apresenta pequeno porém obvio mesmo com visão direta. Uma pequena condensação onde não resolvo nenhuma estrela. Com visão periférica o globular aumenta um pouco de tamanho. Utilizando a 10 mm continuo não resolvendo nada e o globular requer mais atenção para ser percebido. Minha melhor ocular é uma 17 mm. Mas não faz muita diferença. A 25 mm é a mais bem sucedida na operação...
             Agora é fazer um registro fotográfico do bruto. A primeira foto revela um alinhamento polar inexistente. No já tradicional sistema de um chute para lá e outro para cá... .
            As câmeras modernas fazem milagres. É um DSO tímido. E como estou na função de tomar conta do bebe pois a Dona Patroa foi ao aniversário de uma amiga fico feliz de conseguir algo... Não bastasse isso as baterias do motor começam a fraquejar e finalmente este para.
            Este registro não apresenta nenhuma qualidade . A não ser  o fato de que o aglomerado se apresenta de forma muito semelhante ao que percebo na ocular . Bem discreto.
4 expX 4 seg ASA 6400 Rot n´Stack ( modo mean)
            Uma outra curiosidade que deve fazer a alegria de possuidores de equipamentos muito modestos é que este registro foi feito totalmente fora do que se possa chamar  de alinhamento polar e foi resultado do empilhamento de apenas 4 fotos com 4 segundos de exposição... ASA 6400.
            Mas a foto em si ficou tão ruim que resolvi realizar um alinhamento polar mais digno.
           
             Este foi o insight da noite.
          
          Não sei se alguém já alinhou uma cabeça equatorial da forma que eu realizei. Mas se você não possui horizonte suficiente para tentar o método do  drift e nem uma cabeça computadorizada que resolva as coisas para você é um excelente sistema.
            A necessidade é a mãe da invenção.  Você só precisa dispor de um horizonte sul desobstruído (ou quase...) .
            Me dirigi até o Stellarium e depois de uma rápida pesquisa descobri  a hora exata que Acrux ( Alfa do Cruzeiro) cruzaria o Meridiano. Nesta noite seria as 21:44 PM horário Local. De posse desta informação e também da altura que esta passaria pelo meridiano eu espero conseguir um alinhamento polar bom.
            Ela irá passar a 44 graus de altura. Deixo a cabeça regulada para esta altitude. Depois a idéia é conseguir alinhar o eixo polar com Acrux neste exato momento. Quanto mais exatamente você conseguir ver Acrux centralizada no instante que ela cruzar o meridiano pelo pequeno buraco onde deveria habitar uma buscadora polar melhor será o alinhamento.
            Quando bate 21:35 meu querido filhinho acorda e abre o berreiro. Mas eu , teimoso, não desisto . As 9:42 estou sentado no chão ao pé do telescópio com o pequeno no colo. Em posição digna de um Iogue. Ele achando tudo muito interessante e milagrosamente calado. As 9:44:41 tenho Acrux e a cabeça equatorial exatamente onde eu queria. Agora é só usar o inclinômetro e baixar a cabeça até 23 graus de altitude . Devo estar com o eixo apontando exatamente para o polo sul celeste.   Com meu 15 x70 mm sobre a cabeça eu checo o campo visual que tenho a minha frente. Bingo.  s Octans se encontra abaixo e a esquerda de meu campo de visão. Tenho uma discreta estrela quase centralizada. BQ Octans. A idéia parece ter sido uma daquelas que funcionam. As vezes eu acerto...
            A prova dos nove vem no dia seguinte. Com novas pilhas no motor- drive enquadro rapidamente M Cen. Meu óculos novos são uma espetáculo.
            Parto logo para  para o tudo ou nada. 30 segundos de exposição. Não fosse o foco estabanado o acompanhamento me deixa bem feliz. Mas a tela da janela não. E também a poluição luminosa se torna muito presente com tanta exposição. Faço mais uma série de fotos agora com vinte segundos e com ASA 3200. Melhor.
1 exp..x 30 seg. ASA 3200



1 expX20 seg,

            Finalmente descubro um bom equilíbrio com mais exposições em 15 segundos. Faço mais de 30 light frames e este é o melhor resultado da noite.
            De tão feliz com meu novo sistema para alinhar o telescópio faço dez darks frames e em um ato impensável realizo ainda mais 8 flats. Não sou um fotografo muito caprichoso.  Mais ou menos que nem a história sobre os tipos de  piratas que já contei aqui.
            Os resultados são infinitamente mais satisfatórios que na noite anterior. Percebe-se uma evidente granulosidade nas bordas do aglomerado e até mesmo M Cen tem seus spikes razoavelmente preservados mesmo através da tela. Resultado de um alinhamento decente e de um foco mais cuidadoso.  As fotos foram empilhada no Deep Sky Stacker. E ele aceitou todas com um Threshold de 20%. Quase chego a escutar sinos tocando...
34 exp. X 15 seg ASA 3200 Deep Sky Stacker e Levels no Photoshop CS5.
            Ngc 5286 foi incluído no catalogo de James Dunlop em 1827. Com uma magnitude de 7,3 (O´Meara) ele é um globular bastante brilhante. Ele fica um pouco "escondido" no brilho de M Centauro a meros 4´a sudeste. M Cen é uma estrela bastante complexa. Ela é uma dupla com  a primaria brilhando com magnitude 4,6 e uma companheira com magnitude 11 ( não sei se visível na foto). Esta é ainda uma binaria espectroscópica e suspeita-se que  uma variável. O aglomerado é pouco estudado. Sabe-se que ele possui 16 estrelas variáveis (Liler). Todas do tipo RR Lyra.
            Sua idade é alvo de uma curiosa disputa. Segundo Nikolai Samus ele possui uma idade entre 14 e 18 bilhões de anos. Mais possivelmente 17 bilhões. Isto é bastante controverso já que estudos mais recentes estimam que a constante de Hubble e outros parâmetros indicam que a idade do universo seria de apenas 13 ou 14 bilhões de anos.  Ele se encontra a 36.000 anos luz da terra.
            Dunlop o observou com um refletor de 225 mm e disse:
"Uma nebulosa elíptica extremamente bem definida, com cerca de 1´de diâmetro, extremamente condensado até suas bordas e com um brilho crescente em direção ao seu centro. Provavelmente possível de ser resolvido em estrelas”
            Com meu 150 mm ”pas une chance".
            Ele é ofuscado por M Cen e  por seu vizinho mais famoso. Fosse ele a mesma distancia que Omega Cen ele ainda seria 2,5 X menor e 10 X menos brilhante


            C 84 seria uma modesta  jóia da Coroa Austral. Um pingente. 

P.S. Em processamento posterior a imagem visitou o IRIS para reduzir o gradiente de fundo e foi ainda possivel recuperar algo do brilho alaranjado de M Cen que é evidente na observção visual. Sendo uma estrela do Ti´po G8/K0III trata-se de uma gigante amarela já deixando a sequencia aprincipal e sua coloração bate com seu tipo.  


Esta imagem fez uma peregrinação mais longa. Foi empilhada no DSS posteriormente passou por uma visita ao Photoshop onde foi aplicada Level e Curves. Depois teve o Gradiente de fundo melhorado no IRIS. Uma nova visita ao Photoshop ode foi espremida para se obter mais saturação de cores. Para terminar Noiseware (Default) nela.  Foi a salão e fez maquiagem completa...


quinta-feira, 18 de abril de 2013

Uma Comédia de Erros e Ilustres Desconhecidos


         
         Sempre estou tentando descobrir um jeito que me permita realizar um alinhamento polar digno e mesmo assim não ter que realizar o método do “Drift”. Afinal métodos de confirmada eficiência nunca me agradaram. Não só isso. Apesar da eficiência garantida ele é impossível de ser realizado sem possuir horizontes limpos e muito menos ainda sem poder avistar estrelas que se encontrem próximas do equador celeste. Como é o caso da janela de meu apartamento.
            Assim depois de ler um interessante post do “Uncle Rod” me ocorreu a possibilidade de utilizar uma “Estrela Polar Austral”.
            Normalmente Sigma Octans leva essa honra. Mas depois de varias consultas ao Cartes du Ciel (CdC) e ao Stellarium ( ambos programas planetários disponíveis de forma gratuita na web) eu cheguei a brilhante conclusão que o titulo seria melhor empregado em uma ilustre desconhecida. Tycho 9521-302-1 ou HIP 71438. São a mesma pessoa...
            Ela nunca se encontra a mais de 12´ do polo sul celeste. E com magnitude visual de 6.8 ou 7.06 (dependendo do programa...)  se encontra dentro do alcance de minha buscadora. Mesmo em condições extremas de poluição luminosa já que estou morando em um canteiro de obra (cortesia de Eduardo Paes, o pior prefeito que conheci)  e os níveis de poluição luminosa ao redor de minha casa poderiam ser considerados insalubres.
            Desta forma resolvo fazer um reconhecimento da região junto ao polo com um pouco mais de poder de fogo que o apresentando pela minha buscadora. A escolha, obviamente, recai sobre meu Skymaster 15X70 mm. Sentado em minha poltrona eu escaneio a região e rapidamente localizo Sigma Orionis, HIP 112355 e a ilustre desconhecida já citada.  Duas estrela, ainda mais tênues, apontam para Xhi Octans e me garantem ser este o asterismo que estou realmente procurando.

            Contar vantagem é fácil. Quero ver contar a derrota.
            Em uma infeliz ideia acho que  a buscadora montada no telescópio e a cabeça toda “no esquadro”  bastará utilizar os parafusos para o ajuste da cabeça equatorial e alinhar tudo com a ilustre desconhecida. Afinal já vai tarde e eu gostaria de ainda fotografar Ngc 5617. 
            Depois de consultar “as cartas e os programas” calculo o pequeno desvio que deveria a cruzeta da buscadora apresentar da “Estrela Polar Austral”. E vamos lá. Afinal Ngc 5617 (outro ilustre desconhecido) fica a pouco mais de 1º de Alpha Centauro e não deve ser difícil de ser localizado.
            Escuto dentro de minha cabeça a musica de abertura dos “Trapalhões”. ( Ta-na-na-na-na-nammmmm-nam).
            Não avisto nada obvio pela buscadora. Credito ao Eduardo Paes e parto para a ocular. Com a 25 mm calçada no “Newton” (meu refletor 150 mm) fico passeando próximo a Alpha Cen e percebo tênues estrelas. Me parecem mais estrelas de campo que um verdadeiro aglomerado. Mas, em tese, ele deve estar dentro do campo visual. Ainda mais quando eu colocar a câmera. O campo dela é mais como uma 30 mm ( talvez  35 mm...) do que a 25 mm.  Faço uma foto e não percebo nada. Aliás procuro não perceber. O fracasso é eminente. Faço mais algumas exposições e começo a acreditar em geração espontânea. Meu mantra: “Quando eu empilhar vai surgir algo do nada...”
            Nem com reza forte, Photoshop e Rot n´Stack. A foto abaixo deixa claro que não só não fotografei Ngc 5617 como o telescópio se encontra totalmente descolimado e que o alinhamento polar está uma...

            Melhor deixar para lutar amanhã.
            No dia seguinte resolvo colimar o telescópio (é uma atividade para ser feita durante o dia) e mexe para lá mexe para cá e eu não fico satisfeito. Resolvo inventar e com as sobras de uma embalagem de ocular eu facão uma espécie de colimador. Apesar de “rudimentar” ele se prova bastante eficiente. E me mostra que o meu secundário só não esta mais fora do esquadro porque não dá... Depois de colocar o secundário nos eixos o primário é moleza.

            Passo a tarde estudando e aguardando escurecer para fazer mais uma experiência. Estive muito criativo esta semana. Provavelmente devido a lei seca que estou tentando estabelecer em solidariedade com a gravidez de minha mulher.

            Com a buscadora presa diretamente a cabeça equatorial eu mimetizo uma buscadora polar. E parto de novo na caça de HIP 71438. A ilustre desconhecida promovida a estrela polar...
            Com um pouco de paciência e com uma transparência duvidável eu me dou por satisfeito após alguns minutos de ajustes. Depois coloco o telescópio na cabeça, a buscadora no telescópio e alinho tudo. Quem disse que observar é maior moleza não sabe o que diz. Eu, em geral, suo a camisa.
            
           Hoje meu objetivo é outro. Criei antipatia por 5617 e resolvo buscar outro ilustre desconhecido. O relativamente obscuro aglomerado galáctico Ngc 5316. Também em Centauro e desta vez mais próximo, mas não tão próximo de Beta Cen.  Navegando pela buscadora não chego a perceber nada. Mas desconfio e parto para a ocular (25 mm). Percebo um grupo de estrelas e apesar de inseguro decido tratar-se de 5316.
            O nome deste post inclui “Uma comédia de Erros...”. Foi quase nome e sobrenome.
            A foto abaixo é de um asterismo que se localiza próximo de Ngc 5316. Mas evidentemente não é ele. Não é nem aglomerado. Em poucas pesquisas vejo a clara diferença entre os dois.

Se percebe claramente a poluição luminosa como um bafo cor "vapor de sódio"...

Asterismos são agrupamentos casuais de estrelas. Este em particular é uma descoberta de José Eustaquio do Nascimento e Islas. Se chama o “ Aglomerado do Pescador”.
            E isto é tão verdade quanto uma história de pescador.
            Vocês sabem qual é o único animal que cresce depois de morto?
O mapa abaixo apresenta exatamente o que a foto mostra acima. E liquida a fatura...

O "Aglomerado do Pescador"

            Mas nas derrotas, eventualmente, se aprende mais que nas vitórias. E podemos perceber que o alinhamento polar melhorou muito nas fotos do fictício asterismo descoberto pelo imaginário astrônomo. Assim como a colimação do telescópio.
            A ilustre desconhecida HIP 71438 foi promovida a “ Estrela Poalrar Austral”. Pelo menos aqui em casa...

P.S. Fiz algumas testes capturando imagens em RAW. Não funcionou. O Deep Sky Stacker apresentou umas fotos muito doidas e completamente fora dos padrôes. embora as imagens me parecessem normais quando as abri no computador. Após o empilhamento elas ficaram assim:

            Fiz dark frames em RAW também. Tentei vários settings e sempre este estranho resultado. Continuo sem entender... 
          De qualquer forma gostei da possibilidade de poder "bater o branco" nas fotos depois da captura através do "Digital Photo  Professional". E assim me livrar daquela cor " Vapor de Sódio". O recurso só é oferecido para fotos capturadas em RAW.   

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O Astrônomo Desastrado e o Pai da Invenção



Sem visitar o posto avançado em Buzios e aproveitar de um céu um pouco mais escuro ( Bortle 5) desde o carnaval eu tinha grandes planos para a noite de quarta feira.  
Com Selene no terceiro dia após a lua nova tudo se mostrava ideal. O 7timer indicava condições bastante favoráveis à observação. Tudo estava “ideal demais”...
Saí do Rio acompanhado de minha cunhada ainda cedo. O transito ajudou. Chegamos em pouco mais de duas horas.
Montei o telescópio e com tempo sobrando resolvi inventar. Dizem que a necessidade é a mãe da invenção. Pode ser verdade. Mas o ócio é o pai...
Procurei por uma ocular com um reticulo iluminado em diversas lojas (ok, em duas...) e não encontrei. Enquanto aguardo por uma de verdade eu invento...
Possuo algumas oculares Kelner que praticamente não utilizo. Daí a  tal da invenção...
A casa passou por algumas reformas desde a ultima visita e rapidamente me assenhoreei do novo coreto.
 Com o telescópio montado na sua frente utilizei a pequena mesa como minha base.  Uma rápida visita a loja de ferragens e a padaria e “voila”.
Descasco um fio paralelo e acabo com quatro fios de cobre de+- 0,1 mm.
Com o auxilio luxuoso de um rolo de fita crepe fabrico uma ocular reticulada de 20 mm. E assim me mantenho fiel a astronomia de baixo custo. 
A ida até a padaria é também parte do plano de observação.
Quando você vai passar a noite junto a um telescópio alguns luxos são necessários. A alimentação é algo fundamental. Logo duas latas de red Bull , um queijo minas e uma barra de chocolate serão meus companheiros. Compro também meia dúzia de Stella Artois. Estas para depois de realizar o grosso das observações planejadas. Como já contei aqui os amigos, a bebida e você mesmo são os maiores inimigos que um homem pode ter. Desta vez vim sem amigos e não poderia deixar as coisas correrem tão frouxas assim. Afinal o homem é o exercício quem faz...
Quando comecei a observar me lembro de ter lido em quase todos os lugares que uma visita até um clube de astronomia e consequente convívio com outros astrônomos seriam uma das melhores coisas que eu poderia fazer.  Eu nunca realizei isto. A astronomia para mim é uma atividade solitária. E prefiro aprender (ou não...) tudo do jeito mais difícil. Admito que como nunca observei junto a outros astrônomos tenho por principio que quanto mais gente por perto pior para a pratica astronômica.
Meu plano inicial é dar continuidade a meu projeto de fotografar todo o Catalogo Lacaille.  E se possível fazer um tour visual pelo aglomerado de Coma-Virgo. È outono e assim sendo “Galaxy Time”.
Mas o objetivo principal é fotografia.
Astrofotografia demanda um alinhamento polar muito mais preciso que o costumeiro. E por isto a ocular reticulada. Veja este vídeo e você vai entender o porque de tanta criatividade....
Recentemente fiz um post falando como realizar o método do drift.   E com este texto aberto no computador e com a minha reticulada tabajara no telescópio aguardo o sol se por e poder começar o meu alinhamento. Aproveito para nivelar a cabeça. Isto é um procedimento que as vezes esquecemos e que torna o alinhamento muito mais difícil , senão impossível. Tudo correndo perfeitamente. Talvez “perfeitamente demais”...
 Como comecei as preparações muito cedo ( 3;30 pm) tive todo o tempo necessário para fazer tudo que não tinha feito. Como adoro buscadoras possuo duas ao telescópio. E assim consigo ainda dar mais uma saída e comprar uma bateria para minha “red dot”. E descubro que esta sendo de 3 volts qualquer modelo serve. A bateria indicada é a 3026 ( a mais fina...) só que Buzios em geral e Geribá em particular não oferece muitas opções . Assim compro uma 3032 ( a mais grossa). E funciona também. Vivendo e aprendendo. Tudo dando certo. Talvez “certo demais”...
Um ajuste na colimagem. Só para não perder o habito e finalmente anoitece.
Ajustar as buscadoras. As coisas começam a não dar tão certo...
E agora o bendito do alinhamento. Será que a “reticulada” vai funcionar? Faltava ainda iluminar o reticulo. Meu plano era realmente mambembe. Com minha lanterna de led vermelha presa a aranha do secundário eu iluminava o reticulo. O problema era que as estrelas que eu utilizaria para o alinhamento teriam que ser bem brilhantes. Curiosamente a ocular até que funcionou. Já o alinhamento polar nem tanto.  Nem tanto até demais...
A parte boa é que meu projeto continua na prancheta e creio que o próximo “protótipo” é promissor...
Era dia de improvisar e com minha cunhada instalando luminárias novas pela casa o meu projeto começa a desandar ( como eu disse quanto mais gente por perto pior para observar...). Assim após ver que era possível fazer o drift com a reticulada eu desisto de tanto elaboração e parto para a ignorância.
Faço algumas fotos de Ngc 6231 em Escorpião. Um horror . Em vez de me comportar da forma certa  e recolocar a “nova ocular” e refazer o drift eu prefiro ir por tentativa e erro. E abro uma cerveja...
M7 
Ao final da noite tinha algumas fotos medíocres de 6251 e de M28. M7 também foi vitimado pelo autor...  Pelo menos 6251 e M7 fazem parte do catalogo Lacaille. Respondem respectivamente pelas entradas Lac II. 13 e Lac II. 14. 
M 28

Ngc 6231


Como bônus M71 foi um objeto que avistei assim meio que por acaso. Não me recordo de já o ter  avistado antes. E como se encontrava  naquela posição que foi responsável pela criação da  palavra “incomodo”  eu desisti de fotografa-lo. Definitivamente cabeças equatoriais e objetos muito próximos ao meridiano são inimigos mortais.
Por fim, já com a coluna cansada de malabarismos junto a ocular com DSO´s que vão agora próximos ao zênite  pego meu binóculo mais novo e me deito em uma canga. E faço um tour clássico. Começo pela cauda de escorpião com M7 e M6 no mesmo campo binocular. E aí é só seguir a corrente. A partir do Bico da chaleira ( asterismo que identifica a constelação de Sagitário): Ngc 6522 , M28 , M22, M8 , M21, M20. Um pulo para o outro lado do rio galáctico e M 17, M18 , Ngc 6605  e mais vários aglomerados abertos e globulares que não me dou ao trabalho de identificar ( M25 e M23 liderando o pelotão..). Depois tento os Globulares Messier mais discretos que se escondem embaixo da chaleira. M69, M70 e M54. Pequenas estrelas que nunca dão foco. Mas são alvos para mais abertura.
No final entre mortos e feridos salvaram-se todos . E a noite foi divertida.
Quanto a meu plano inicial eu me consolo que tudo estará lá pelo menos durante o próximo milhão de anos.
No dia seguinte o tempo fechou e voltei para casa e para prancheta. Espero mostrar em breve minha “nova” ocular com reticulo iluminado “home made”. Agora com 10 mm e com um Led vermelho no proprio corpo da ocular. Quase de verdade... 

P.S. - Quando já entrava no carro para retornar para o lar Murphy mandou seu recado. O tempo limpou como que por mágica. Mas aí já era tarde para abortar a missão. Tiro uma foto da Lua como consolo. Pelo menos desta vez não vi varios riscos cruzando a foto...  

segunda-feira, 5 de março de 2012

Alinhamento Polar - Hemisfério Sul



    A prática da astronomia amadora é uma grande brincadeira. Dizem que a maior diferença entre os homens e os meninos é o preço de seus brinquedos. Bem como a complexidade dos jogos. E conforme você vai se desenvolvendo na astronomia suas aspirações vão se tornando cada vez maiores. E conseqüentemente vai chegar o dia que você vai ter que passar por um rito de iniciação. Ele se chama alinhamento polar...

    Para observação visual você não precisa de um alinhamento polar de sua cabeça equatorial muito preciso. Utilizando o Cruzeiro do Sul e prolongando seu eixo mais longo (entre Gacrux e Acrux) por quatro vezes você vai ter um alinhamento aceitável. Sobretudo se você souber qual a sua latitude ( o Goggle Earth pode lhe dizer onde você se encontra). A “altura” do pólo em relação ao horizonte é sempre a sua latitude.        Assim apontando para o prosseguimento do cruzeiro e colocando a cabeça regulada para a sua latitude você terá um alinhamento satisfatório para a observação visual. Uma bussola também ajuda. De preferência uma digital que lhe indique o norte verdadeiro. Isto vai servir para a brincadeira até que você resolva aumentar as expectativas. Finalmente chegará o dia que você vai resolver tirar fotos de seus passeios pelo espaço. E aí...

     Para a realização de astrofotografia o alinhamento polar tem que ser muito mais preciso.

    O chamado método do Drift é a forma mais precisa para se realizar o serviço. O procedimento é simples, mas demanda algum tempo e paciência. Inicialmente muito tempo e muita paciência.

    Primeiro faça como descrito acima e aponte para o pólo de uma maneira “tabajara”. Usando o Cruzeiro , a bussola e a latitude.

    Depois localize uma estrela que esteja próxima ao equador celeste (procure em um atlas para saber onde esta o equador celeste) e que esteja apontando para o Norte (+- 5º), ou seja, para o lado oposto ao seu alinhamento “tabajara”. Coloque uma ocular de 10 mm ou menos. Se você possuir uma ocular com reticulo, melhor ainda. Se você a possui coloque a estrela na cruzeta. Caso não possua coloque a estrela no canto norte ou sul da ocular e desfoque levemente. Ligue seu clock-drive. Ignore qualquer deslocamento no eixo leste – oeste.

     Se a estrela se desloca para o norte, o eixo polar esta muito a leste.

    Se a estrela se desloca para o sul, o eixo polar esta muito a oeste.

    Mova o eixo polar de forma a corrigir o deslocamento.

    Agora procure por uma estrela que esteja baixa ao leste e próxima ao equador celeste.

    Se a estrela se desloca para o norte, o eixo polar esta muito baixo.

    Se a estrela se desloca para o sul, o eixo polar esta muito alto.

    Novamente ajuste a cabeça de acordo com a sua necessidade.

    Agora repita tudo novamente até que não haja mais nenhum deslocamento.

    Quando isto acontecer você estará com um alinhamento polar digno para a pratica de astrofotografia.

    Caso o seu horizonte leste esteja bloqueado use o horizonte oeste e onde você le “muito alto” leia “muito baixo” . E vice versa

   E se você estiver no hemisfério norte da Terra aponte para a estrela polar para começar e depois substitua a palavra “sul” pela palavra “norte”.